terça-feira, 7 de julho de 2026

Sete sílabas de terra vermelha (Paulo Bentancur)

 


Montado em sete sílabas, Jayme Caetano Braun (1994 – 1999) não descuida um verso sequer o generoso horizonte da lírica repentista. O seu mundo é um mundo deliberadamente limitado. Ao sul, sempre ao sul. Suas personagens não se multiplicam. Antes, encolhem-se na solidão que as faz andarem por lonjuras enormes numa condição minguada. Jayme canta a dor e a alegria – mais a dor que a alegria – de ser gaúcho numa terra de gaúchos, sim, mas sofrendo uma espécie de desterro cronológico, já que terra e tipos apresentam-se ameaçados pelo estigma de terem sobrevivido mais como símbolo de um mundo vencido pelo tempo.

Em boa hora se retoma a publicação de obra das mais importantes do maior payador entre nós, aquele que soube como ninguém beber na vertente de um Atahualpa Yupanqui (argentino), apenas que afeito tanto ao verso escrito quanto musicado – Jayme gravou sete discos com recitais, mídia sob medida para sua poesia de formato essencialmente popular.

Brasil Grande do Sul é um dos mais importantes livros lançados pelo poeta, a partir de 1954, ano da estreia, a 1990, quando Jayme dependura, não as chuteiras, mas as alpercatas.

A obra de Jayme Caetano Braun traz no seu íntimo um indisfarçável orgulho de suas raízes somado a elementos de uma simplicidade cotidiana. Sobretudo Brasil Grande do Sul, a súmula na qual cabe tudo o que gira em torno do gaúcho, esta figura emblemática, muitas vezes heroicizada, mas que nestes versos que redesenham seu território, o espaço de convivência de sobretudo um tipo humaníssimo, tão resistente quanto o nordestino que Euclides da Cunha descreveu em Os Sertões.


Objetos como monumentos

Nesse desfile, da primeira à última página, dos objetos de que é feito o universo sulino, temos as armas, os apetrechos, os animais, os amores e os cenários que fazem parte de um universo ritualizado pelo poeta. O mate amargo é vinho a consagrar a grandeza do passado ou “água-benta da raça”.

Grandeza a todo instante lembrada e, mais que lembrada, ostentada como um estandarte a justificar a marcha já num presente sem glória mas cujo heroísmo nunca será enterrado.

Seu léxico, particular de uma só região, circunscrito a um lugar e época que o cristalizam num esteticismo quase de gíria, preso a uma comarca, isto é, emparedado na província que o vampiriza e o enterra, acaba sendo a fala de um lugarejo, pó verbal que vai sumindo no ar como o som modesto, movido tão só do torrão inspirador, de um monólogo que no entanto jamais é despido de mistério.

Há em cada página de Jayme uma obsessão de reverência, um desejo ardente e completado pela entrega à tradição. Não conhece ruptura. Nem a morte o ameaça. Quando esta vier, o cavalo e o vira-lata o assistirão ser enterrado. É todo seu público, descendentes, herdeiros. Índio vago, sua fortuna é chorar a consciência de uma região mais que remota, na qual o convívio se dá somente pela saudade.

Reza a todo instante pela tradição, vista como um credo. E se ele vela o espectro que o inspira, pelo mesmo processo promove sua ressurreição.


Monarquia, conformismo, assombração

Se é constante o cerimonial nessa estética, isso se dá pelo tom de monarquia no imaginário que o assola. O gaudério, desgarrado, pária social, também é rei: dispões de um poder absoluto, poder autorizado pela valentia sem tréguas e pela sinceridade imperiosa. Nesse imaginário, portanto, o rei é justo. Não há abuso (exceto com os inimigos políticos, é claro). Trata-se, como numa fábula, de um monarca compreensivo e popular, não pela fama, mas pelo trânsito, pelos gostos, pelos hábitos. Um príncipe meio mendigo, e vice-versa. Sensível ao mais ocasional cachorro de beira de estrada.

Aí a política não faz nicho. O cantador convive sem conflito aparente com as duas facções que dividiram o estado, os chimangos (lenço branco) e os maragatos (lenço vermelho). Admira em ambas a disposição pela luta, que canta sem meios termos.

Os exageros dessa ótica se justificam pela pose de bravata, aceitável sobretudo pelo coração puro.

Tolhido pelo agora sem promessas de redenção, muito menos heroísmo (apenas resistência), trata já o relho como relíquia, e menciona o mundo que o gerou como uma região primitiva da qual só a memória sopra hoje, junto com o vento.

Retrata um gaúcho que ainda bebe de antigas ilusões (o passado é sempre heroico para ele). Resta-lhe a comovente fidelidade do cavalo e do cusco, que o acompanham sempre. Opção humana tanto do temperamento singelo quanto da solidão que não lhe deixa escolha.

Afinal, o mundo arcaico que ele pranteia oferece-lhe uma hóstia feito migalha. Mas uma migalha refinada pela poesia. Aí estão expostos os fantasmas que assombram e animam a lírica de Jayme: o passadismo como ilha segura para salvar a memória afetiva o que o presente já não anuncia.



Enrodilhado

A imagem emblemática do homem submetido constantemente, nas árduas lides campeiras, representa a ritualização de Braun e seus mais que singelos apetrechos. E mesmo a filosofia possível se faz ao ritmo do quero-quero e à luz de uma lamparina trêmula.

O payador veio disso. Da infância entre as ruínas das Missões, da terra vermelha de Bossoroca, então distrito de São Luiz Gonzaga, dos pés descalços de guri atento ao imaginário poderoso da região noroeste do Rio Grande do Sul. Misto de gringo, descendente de alemães (Braun) e gaúcho pelo caudal sanguíneo da mãe, de temperamento entre ibérico e silvícola.

Embalou-o um reino agora fantasmagórico de glória excelsa cantada insistentemente. Mais tarde, num tom muitas vezes permeado de melancolia. Os sinais das batalhas ecoam no tempo perdido e hoje servem de mortalha para o gaúcho cuja alma guerreira recorta sua personalidade, alimentada pela coragem e por um projeto político já enterrado.

Estampa a humildade dos conformados que se aliviam com o orgulho que sentem pela terra natal. Cenário às vezes fantasioso do qual extraem seus mitos e sua justificação. O poeta olha o fantasma e sua herança agora quase só relíquia – porém nunca suficientemente louvada.

Louva-os numa emissão típica dos hinos. Idealismo que busca unir uma ética de guerreiro e uma condição popular de deserdado material cuja riqueza só o espírito herdou.



Arquitetura do verso

Foi radialista, assim mais escutado que lido, que a sua é uma poesia com sabor de repente (o payador é um repentista, que compõe no embalo do recurso clássico dos versos regulares e das sílabas seguras, a maioria com rimas pobres, poemas num estalo, um atrás do outro). Eis a súmula do trabalho de Jayme Caetano Braun.

O setessílabo, redondilha maior, é um metro fácil, rápido, de apreensão imediata para o ouvinte ou leitor. As centenas de poemas de Jayme (extraídos de sua dúzia de livros e tantos discos gravados) verteram com a generosidade das fontes nos trópicos, e mataram, numa inversão metafórica, a sede de terra que todos tínhamos.

Falando em poesia, Braun leu os espanhóis, por exemplo, mas os de carne e osso que invadiram as Missões, expulsaram jesuítas e trucidaram índios. “Índio vago”, como ele mesmo se retrata em inúmeros versos, agarrou-se a esfarrapadas bandeiras de batalhas dolorosas. E mesmo batalhas que conheceram êxito. Sua poética é militar, guerreira, inspirada por um caráter bélico que forjou o gaúcho, guardião de fronteiras; e é social, naturalmente, prestando tributo a bolicheiros, a peões, a negros velhos, a gente humilde sem literatura alguma; e é engajada de muitas formas, especialmente num plano onde o afeto comanda forma e conteúdo e sua poesia busca estender a mão quando outras tentam impressionar.

Mais que um belo lance de oportunidade editorial (a rara presença de obras do payador em nossas estantes é de fato uma lacuna incompreensível para a necessária identidade do Estado e do País), esta edição especial, preparada com esmero, de Brasil Grande do Sul, representa uma homenagem no mínimo obrigatória a quem amou sua aldeia e dela não arredou-se um verso sequer. O limite de sua poesia é também seu alcance. Ela se compraz em ser local, regional, satisfaz-se em parir versos como num eco dolorido de quem destila suas mágoas preocupado apenas com a escancarada fidelidade à aldeia que deveria ser universal. Jayme Caetano Braun não arreda pé do seu pago.



Fonte:

Copyright: Aurora Ramos Braun

Edição: Sérgio Rosa de Paiva

Preparação de Originais e Revisão: Paulo Bentancur

Capa e projeto gráfico: Antonio Henriqson

Ilustrações a carvão: Figuras Estúdio (Diego Jaworski e Hostílio Ferreira)

à Arnildo Martínez Müller (in memorian)

B825d

Braun, Jayme Caetano, 1924-1999

Brasil Grande do Sul. Estudo crítico de Paulo Bentancur. Porto Alegre: Sefera, 2015, p. 5-10

ISBN 978-85-*60634-05-7

1. Poesia brasileria. 2. Poesia sul-rio-grandense. I. Bentancur, Paulo.

II. Título.

CDU 82(816.5)-1

Bibliotecária responsável: Giane Zacher – CRB 10/1984

SFERA EDITORA DE ARTES

sfera.editoradeartes@hotmail.com

(5103391.5929 / (51) 9909.0933

Imagem: https://www.jornaldocomercio.com/_midias/jpg/2015/12/04/206x137/1_pan_44217-400956.jpg


Acesso 07 julho 2026





sexta-feira, 3 de julho de 2026

Áudio do CD encartado no Livro Jayme Caetano Braun - De fogão em fogão - 2013

 

PRONAC 1011655 Jayme Caetano Braun De fogão em fogão Declamador/solista Adalberto Machado Músico/violonista Lucio Yanel Produzido por Sérgio Rojas SFERA EDITORA DE ARTES LEI DE INCENTIVO A CULTURA Realização: Ministério da Cultura GOVERNO FEDERAL PAÍS RICO É PAÍS SEM POBREZA PROIBIDA A VENDA E DISTRIBUIÇÃO SEPARADAMENTE Produzido por Digital Midiatec Comércio Fonográfico Ltda - CNPJ: 12.484.369/0001-04 Representado por DISC PRESS Comércio Fonográfico Ltda - CNPJ: 02.307.313/0001-12 - Fone/Fax: (51) 3023.8484 www.discpress.com.br - discpress@discpress.com.br Fabricado por CNPJ: 11.366.273/0001-70 Licenciado e sob encomenda de Sfera SRP Editora de Artes Ltda-ME CNPJ: 07.900.823/0001-12

domingo, 28 de junho de 2026

Histórias de gaiteiro (Mauro Castro/Taxitramas 7)

 


(…) são as histórias do tempo de gaiteiro, quando tocava nos bailes, pelo interior de Viamão, as que eu mais aprecio. Meu velho tinha o que chamavam de “regional”, um grupo eclético, que animava as festas com choros, sambas, tangos, boleros e o que mais a plateia pedisse. O grupo era formado, basicamente, por meu pai na gaita piano, meu avô no bandoneon, o falecido “Espanhol” no violão, um que outro percusionista avulso e algum metal da banda municipal que estivesse vago. Salvo meu pai que não bebia, era comum, lá pela metade do baile, a banda toda perdendo-se nas músicas pelo excesso de álcool que os convidados ofereciam aos músicos. Era terrível, mas hoje em dia meu pai sorri ao contar.

(…)

Histórias de bailes interrompidos pela valentia dos irmãos Cafunchos são as minhas preferidas. Volta e meia eles apareciam empunhando seus facões, quebrando candeeiros e dando a função por encerrada. Segundo meu pai, quando o dono do baile conhecia a fama dos Cafunchos, corria a oferecer-lhes um arroz com galinha na tentativa de salvar a festa. Em geral, funcionava.

Seu Elci conta que quando a coisa encardia de vez, a solução era chamar a autoridade policial de Viamão, que à época atendia por “Cabadão”. Oi? Dito assim mesmo, tudo emendado. Um arremedo de cabo, soldado ou coisa parecida, com um quepe policial e uma arma na cintura. Quando o couro comia no salão, com os músicos fugindo pelas janelas, alguém pegava o cavalo, carroça, charrete e ia até o centro de Viamão buscar a polícia.

- Chama o Cabadão!

Fonte: Castro, Mauro. Taxitramas: diário de um taxista, volume 7. Porto Alegre: Evangraf, 2025, p. 126

Redescobrindo Itaqui: um novo olhar (ebook)

 

https://drive.google.com/file/d/1HvyXCh8c4nVhdLAed5-ImhXUgqdZtpvS/view



Fonte: https://sites.unipampa.edu.br/sigpampa/publicacoes/livros/?fbclid=IwY2xjawSuZpJleHRuA2FlbQIxMABicmlkETJGV2dJU2hSQVdyTXpuOEdIc3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHg8u1pwkPshMN0iQ-pv0hFihaTktEvZwenDExLwOOILrBpuScCXa26ZoK2j2_aem_yNoJm7rv9ZTwjwB3eCqr-Q

Acesso 28/06/2026

Trem de Alagoas [Livro e Música] Maria d'Apparecida, Ascenso Ferreira & Guazelli

PDF: https://drive.google.com/file/d/1UAUk7lZrnx-2wDAsI3d4i8PykadiQYdY/view?usp=sharing


Livro TREM DE ALAGOAS ASCENSO FERREIRA ILUSTRAÇÕES DE GUAZELLI MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO PNBE 2012 1º ao 5º Ano Ensino Fundamental VENDA PROIBIDA Martins Fontes, 1ª ed., 2009 Trilha Maria d'Apparecida - Trem de Alagoas (Ascenso Ferreira-Waldemar Henrique) Jardin eclectique

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Áudio do CD encartado no Livro Jayme Caetano Braun - Brasil Grande do Sul - 2015


 PRONAC 1011655

Jayme Caetano Braun Brasil Grande do Sul Músico/violonista Sérgio Rojas Declamador/solista José Édil de Lima Alves Produzido por Sérgio Rojas SFERA EDITORA DE ARTES LEI DE INCENTIVO A CULTURA Realização: Ministério da Cultura GOVERNO FEDERAL BRASIL PÁTRIA EDUCADORA PROIBIDA A VENDA E DISTRIBUIÇÃO SEPARADAMENTE Produzido no pólo Industrial de Manaus por Sonopress Rimo Indústria e Comércio Fonográfica S/A - Indústria Brasileira - Av. Guaruba, Nº 585 - CEP 69075-080 - Manaus/AM - CNPJ: 67.562.884/0007-91 - sob encomenda de SferaSRP Editora de Artes Ltda - CNPJ: 07.900.823/0001-12

quinta-feira, 18 de junho de 2026

LP MOSTRA FARROUPILHA DE NATIVISMO

 

LADO A


1 ONTEM E HOJE***

(Sérgio Napp, Fernando Cardoso e Jair Luiz Kobe)

Elaine Geissler e Elton Saldanha

Representante da Região de Porto Alegre


2 CANTO FARRAPO*

(João Antônio Quintana Vieira e Percival Fernandes)

João Quintana Vieira e Grupo Parceria

Vencedora da Região de Uruguaiana


3 ANSEIOS DE LIBERDADE*

(Harry Carlos Oliveira Rosa)

Harry Carlos Oliveira Rosa

Vencedora da Região de Pelotas


4 PEÃO FARRAPO*

(Jorge Nicola Prado)

Ivonir Machado e Os Garotos de Ouro

Vencedora da Região de Cruz Alta


5 TERRA*

(Marco Araujo e Francisco Mattos)

Marco Araujo e Grupo, com o Coral da FURG

Mais Popular da Mostra (Rio Grande)


LADO B


1 IMAGENS AOS FARRAPOS*

(Luiz Sérgio Metz, Carlos Leonardo Costa Lehman, Larry Silveira e Fio.)

Carlos Leandro Costa Lehman e Sérgio Jacaré

Vencedora da Região de Santa Maria


2 CHÃO FARRAPO*

(Flaubiano Silveira Lima, Maryse Beider e Mauricio Machado da Silveira)

Antònio Augusto Xavier e Grupo Candieiro

Vencedora da Região de Passo Fundo


3 ESSÊNCIA DE RAÇA*

(Guilherme Loreiro de Souza e Artur Oscar Loureiro de Albuquerque)

José Armando C. Carreta e Grupo Desponte

Vencedora da Região de Bagé


4 GRITO DE GUERRA*

(Sérgio Carvalho Pereira e Eduardo Carvalho Pereira)

Luis Rogério Marenco Ferran e Grupo Seiva da Terra


5 HERÓIS DO PASSADO**

(José Oliveira Mattana e Luiz Antônio Pereira)

José Oliveira Mattana e Grupo Os Nativos

Vencedora da Região de Caxias do Sul


6 A SEMENTE DE VIDA E PAZ*

(Luciamo B. Menegati)

Marco Anéris, Neiva Piazzon e Grupo

Vencedora da Região de Erechim


Ficha Técnica


Direção: Claro Gilberto

Produção: Alda Nunes

Coordenação: Darcio Silva Castro

Assistente de Produção: Décio Decusati

Assistente de Coordenação: Paulo Fortes/Rose Silva


Criação da Capa e Arte-final: Julio Ghiorzi

Fotos: Leonel Tedesco

Gravações: * Boby Som/Santa Maria

** Eger/Porto Alegre

***Isaec/Porto Alegre


409.6073

RBS DISCOS

SIGLA

SISTEMA GLOBO DE GRAVAÇÕES ÁUDIO-VISUAIS LTDA.

CGC-MF: 34162651/0001-08 – Censura: Protocolo Geral Nº 4129

Fabricado/Distribuído por RCA Eletrônica Ltda.

Av. Engenheiro Billings 2227 – São Paulo-SP

CGC nº 61126074/0002-44 - SCDP-DPF-001/69-SP

Indústria Brasileira – Disco é Cultura





Sete sílabas de terra vermelha (Paulo Bentancur)

  Montado em sete sílabas, Jayme Caetano Braun (1994 – 1999) não descuida um verso sequer o generoso horizonte da lírica repentista. O seu ...