NÚCLEO
DE PESQUISA E DOCUMENTAÇÃO DA POLÍTICA RIO-GRANDENSE
CASTELO
DE PEDRAS ALTAS
ENTREVISTADOR:
Profº HÉLGIO TRINDADE
IFCH/UFRGS
"Quem
atira pedra eu subo em cima da pedra e faço dela o meu pedestal".
Ele repetia muito isso. Ele achava que a pessoa que vive com
dignidade não precisa nem se defender.
H
- Poderia a senhora me relatar algumas das suas vivências e alguns
de seus depoimentos ligados a figura de seu pai?
J
- Eu acho difícil, porque a gente tem muitas lembranças, mas assim
coordenadamente é muito difícil começar.
H
- Então a senhora poderia talvez começar falando do castelo. Qual
foi a ideia que ele teve ao construir este castelo?
J
- Ele, quando se aposentou ou resolveu se aposentar, (ainda não
tinha conseguido a aposentadoria em 1908) ele veio morar em Pedras
Altas. Nessa época foi que começou os trâmites da aposentadoria, e
deixou a diplomacia. E a minha mãe estava muito contente, morando
naquele chalé onde vocês estão hospedados agora. E ela sempre
dizia: "Esta casa é pequenina, mas está nos dando muita
felicidade, estamos criando os filhos, muito fortes, nunca nenhum
teve doença grave. Vivíamos todos felizes. Meu pai casou na Europa,
como todo mundo sabe, e a minha mãe foi criada nas capitais, um
outro meio bem diferente do Rio Grande do Sul, e ela se adaptou
admiravelmente bem ao Rio Grande do Sul e ao meio rural. Era uma
fazendeira de mão cheia, fazia qualquer coisa, ela entendia muito de
carne, de lãs, não tinha nada que ela não metesse a mão e não se
especializasse nessa matéria. Mas meu pai sempre dizia: "Não,
mas eu quero cumprir a minha promessa. Quando nós nos mudamos eu te
disse: "Eu vou te levar para o Rio Grande do Sul, que é um meio
um pouco rústico ainda hoje em dia, mas tu hás de ter o teu
castelo". E levava naquela brincadeira. Então ele passava
desenhando o castelo. De vez em quando eu acho nas costas de alguma
carta o desenho, de umas torres, digo: "Aí está o sonho do
papai". E esse sonho ficou assim como um castelo no ar, castelo
distante, mas lá no fim do ano de 1907, apareceram três galegos da
Galícia, e eles com uma trouxinha nas costas como vêm os espanhóis
geralmente, se ofereceram para trabalhar, e meu pai quando soube que
eram exímios carpinteiros, bateu no ombro da minha mãe e disse:
"Agora sim, vamos construir nosso castelo". E desde aí
começou, era aquela bateção de pedra, que me acompanhou na minha
infância. Até 1913, quando se inaugurou o castelo, era só batida
de pedra e o canto dos espanhóis, porque eles trabalhavam cantando
sempre em galego, era muito pitoresco até o canto deles. Ele
realizou o sonho dele, agora muita gente não interpretou bem. Achou
que ele era um sonhador, isto e aquilo. Mas a ideia dele era que ele
achava que no nosso meio Rio-grandense, o homem do campo devia ser
dignificado, não havia motivo nenhum para o gaúcho ser um bruto,
uma pessoa inculta, quando poderia perfeitamente ser culto. Ele
trazia como exemplo os povos muito evoluídos da Europa, que quase
sempre esses grandes estadistas, por exemplo na Inglaterra, tem uma
casa de campo, e o supremo ideal deles é se retirarem para o campo.
E as grandes inspirações dos artistas de verdade foram tiradas da
natureza e não das grandes cidades. É só o que eu posso contar
dessa parte.
H
- A senhora falava anteriormente sobre aquela pedra. O que dizia
pedra e o que significa?
J
- Ah, a pedra angular. A pedra foi colocada em 1909, quando chegou na
altura do resto do chão, os espanhóis gravaram com grande
habilidade e perfeição, uma frase que o meu pai compôs em latim
"Permania hanimus lapide perenius".
H
- E que traduzida…
J
- E trocando em miúdos, quer dizer, "Que a minha ideia tenha a
permanência ou a duração desta pedra". Isto é o que está
escrito ali.
H
- Depois houve um projeto para a expansão do castelo, não é
verdade?
J
- Houve. Mais tarde quando a família cresceu, achou-se que não
havia bastante cômodos, filhos já casados, muitos netos.
H
- A senhora aprendeu francês como?
J
- Em criança.…
H
- Mas lendo, ou tinha uma perceptora?
J
- Nós tínhamos sempre governantas estrangeiras, que a mamãe tomava
com dois anos de contrato cada uma, sobretudo a inglesa, governanta
para ensinar bons modos.
H
- E ela era enérgica?
J
- Não, era bem camarada, nós adorávamos nossas professoras, quando
elas saíam era aquela choradeira.
H
- E depois da inglesa, quem é que veio?
J
- Eram muitas inglesas, era um rosário de inglesas. Tivemos também
uma alemã, ela era bacharel, ela falava francês, como uma francesa.
E era uma pessoa muito distinta, muito aristocrática. Então essa
foi muito boa, para ensinar era ótima, sabia grego, latim…
H
- Ela ficava no castelo?
J
- Ela morava no andar de cima.
H
- E elas gostavam do Brasil?
J
- Adoravam, gostavam muito. Depois vieram mais inglesas.
H
- Mas naquele momento em que nós interrompemos a entrevista, eu ia
lhe perguntar o seguinte: os seus ancestrais, nós estávamos falando
ontem, o nome Assis Brasil.
J
- Ah, sim. É interessante isso. Eu emprestei para o meu irmão o
último livro que recebi, escrito lá na Ilha Terceira, mas agora eu
não tenho aqui.
H
- O nome..
J
- O nome, a origem da palavra Brasil, no nosso nome, era o senhorio
do Forte Monte Brasil, foi concedido a um Santarenho, um cidadão de
Santarém, chamado Pero Luiz de Souza, nos 1500 e pouco. E ele ficou
com a alcunha, como dizem os portugueses, de Pero Luiz de Souza
Brasil. E nas lendas de Santarém, diz que os descendentes que foram
para o Brasil adotaram o nome de Souza Brasil. E o meu bisavô era
José de Souza Brasil.
H
- E o Francisco de Assis veio.…
J
- Francisco de Assis, porque o meu avô nasceu em 1810, em Rio Pardo,
no dia de São Francisco de Assis. Nós temos o sino que badalou na
igreja, quando ele foi batizado. Mandaram, o padre, o vigário, há
muitíssimos anos, viu que o sino estava rachado, mandou de presente
para o papai. O papai ficou encantado, mandou fundir o sino, em
Pelotas, fez o forno, mandou refundir, pôs prata dentro. E é com
que nós chamamos os empregados, não ouviu?
H
- Não. Fica nos fundos?
J
- Hoje ainda se chamou o capataz. Cada um tem um toque. Mas tem um
som que é uma beleza, houve-se lá da vila.
H
- A senhora me falava também que o seu avô, ele era um dos, o seu
bisavô teria recebido sesmarias de D. Maria.
J
- Chamava-se Santa Eugênia.
H
- Foi seu bisavô?
J
- Eu creio que era o meu bisavô, José de Souza Brasil. Me parece
que foi ele ou o pai dele. Agora não tenho bem certeza. Tem que
olhar nos documentos, aqueles documentos do Jorge Felizardo contam,
mas a própria Ata, o documento de doação da sesmaria, foi
extraviado, o meu pai achava que era um dos irmãos dele que era um
pouco displicente assim, a respeito de documentação, que pôs fora,
que era interessante. Era assinado por D. Maria louca.
H
- E essas terras ficavam na região de São Gabriel?
J
- Uma parte era onde hoje é o município de Rosário, e a outra
parte no município de Alegrete. E a estância de Ibirapuitã, que
ainda hoje é da família, nunca pertenceu a ninguém mais, a não
ser aos índios e a nossa família. E o meu pai achava estranho que o
nome Ibirapuitã ou Imbirapuitã, quer dizer madeira vermelha, o
angico abunda lá nos matos de Ibirapuitã, é uma madeira vermelha.
Mas ele achava que talvez…
H
- Fosse Pau-Brasil?
J
- Um dele tinha aproveitado a coincidência de ser pau vermelho -
pau-brasil. Porque o Varnaga nos fala, não se lembra, logo no
início, ele diz o nome do pau-brasil é Imbirapuitã, para facilitar
se diz Ibirapuitã, mas eles não pronunciavam assim. Madeira é
Imbira, é um pouco difícil de pronunciar. Puitã quer dizer
vermelha.
H
- E o seu bisavô, a senhora me disse que ele era um monarquista?
J
- Não, o meu avô, pai do meu pai, ele era um monarquista, chamavam
de Camelo, durante a Guerra dos Farrapos. Ele era Camelo, como
diziam. Era contra Bento Gonçalves. Mas o meu pai começou passar
para o republicanismo, por causa de conversas com um senhor, um
gaúcho velho, que ia muito lá na estância. Aqueles que se dão
assim, tomar mate, comer assado, conversar, chamavam ele velho
Cândido, Cândido Vicente, ele tem descendentes em São Gabriel, que
me pedem até dados sobre ele, mas eu não posso achar a fotografia,
existe uma fotografia dele, mas eu perdi, não sei onde está.
H
- Mas ele era um homem rústico?
J
- Era, rústico. Mas o meu pai dizia que ele tinha muito bom senso.
Ele era desses gaúchos completamente inculto, mas tinha tino, como
se diz em linguagem gauchesca.
H
- Mas ele tinha ideias republicanas?
J
- O meu pai estava uma vez na roda do mate dizendo que esses farrapos
eram uns ladrões de cavalo, não valiam nada. E o velho Cândido
levantou-se e disse: "Não, ministro, você está enganado, não
vê que quando houve a paz - 1845 - (a paz foi firmada como de
potência para potência) foram as palavras dele, eles foram
respeitados porque tinham um ideal". O governo da República era
uma necessidade do Brasil, até hoje é uma necessidade, e ele
explicou tão bem, com tanto bom senso, que meu pai foi pensando
naquilo, matutando. Quando ele chegou a ir a Faculdade, ele já
estava cheio de ideias republicanas.
H
- Que idade ele teria naquela época?
J
- Ele era muito mocinho, vinha nas férias, passava as férias, na
estância, ele já era órfão.
H
- Isto na estância de Ibirapuitã?
J
- Não. Na estância de São Gonçalo em São Gabriel, ele já era
órfão de pai.
H
- Provavelmente, isto deve ter influído na vida dele, não é?
J
- Ah, sim. Ele citava muito, sempre em conversa ele dizia: "A
gente nunca deve desprezar uma pessoa rústica, porque eles tem tanto
contato com a natureza, que sabem verdades mais profundas do que
muito sábios". E não há dúvida. Não vê como eles adivinham
o tempo.
H
- E ele considerava este homem, alguém que teria mudado as suas
próprias convicções?
J
- Sim, mas sendo uma pessoa assim um gaúcho, campeiro, simples.…
H
- E ele nunca teve conflitos com o pai dele, em termos de ideias?
J
- Nesse tempo ele já era órfão. Quando o pai dele morreu, ele
tinha 14 anos. Era muito menino ainda.
H
- E sobre a fase da propaganda…
J
- Eu tenho, depois eu vou lhe mostrar, os escritos que ele fez da
propaganda, que ele me deu. Foi o último presente de anos que ele me
deu. Ele disse: "Tu vais guardar, eu sei que tu vais apreciar".
Mas eu guardo tão bem que esqueço de limpar. Mas ele fez a
propaganda a cavalo. Ele tinha uma mula chamada China, e um cavalo
chamado Bagé, que tinha sido presenteado por um amigo, da família
Martins, que era muito amigo dele, deu um cavalo crioulo.
H
- E eles saíam em grupos, como é que saiam?
J
- O cavalo Bagé era oveiro bordado como chamam. Ele sempre tinha com
ele um peão de confiança, mas ele fazia as viagens a cavalo.
H
- E ele não contava…
J
- Ele contava muitas passagens interessantes. Eu sei que num lugar
acima da serra, que eu não sei precisar qual era o lugarejo, ele foi
numa estância, onde havia um senhor de idade. Ele chegou quase ao
anoitecer e pediu pousada, e sabia que ele era monarquista, mas ele
achava que cada um tinha o direito de ter as ideias que quisesse, de
liberdade. Ele chegou na estância e explicou que à noite o tinha
apanhado, o tempo estava feio, e ele pediu uma pousada para ele, para
o peão, e para os cavalos. E esse senhor perguntou: "Mas quem é
o senhor". E ele disse assim: "Eu sou estudante....".
H
- Ele estava na Faculdade de Direito.
J
- Ele explicou que era estudante, que estava na Faculdade de Direito.
O senhor esse recebeu de cara amarrada no princípio. Mas o meu pai
era não muito acessível. E eles estavam tomando mate, ele olhou
para ver que horas eram e viu que o relógio dele tinha parado, olhou
para o relógio da sala e o relógio também estava parado e ele
perguntou ao senhor: "O que é que houve com o seu relógio".
Ele disse: "Ah, este relógio anda maluco, ele bate as horas
tudo errado". O meu pai disse: "O senhor dá licença, eu
vou subir num banquinho ali e consertar". Acertou, fez andar o
pêndulo, e fez acertar como se faz os ponteiros e começou a bater
nas horas certas, e o dono da casa quieto, olhando, mas apreciando
aquela perícia dele, que ele achou muito importante consertar as
batidas do relógio. Continuaram conversando, sobre assuntos não
políticos, mas nisto quando foi a hora de se despedir de manhã, o
meu pai agradeceu a hospitalidade, se pôs às ordens sempre que ele
quisesse. Ele disse: "Bom, o senhor não me pediu nada, não me
pediu voto nenhum, mas pode contar com o meu voto, do meu genro, dos
meus filhos, e toda minha gente que me cerca e que possa votar, vou
votar no senhor para deputado republicano". O meu pai disse: "Eu
ouvi dizer que o senhor era contra a República". "Ah, eu
era. Mas depois que eu vi o senhor consertar o meu relógio, tão
ligeiro, com tanta habilidade..." Era uma coisa tão simples, e
ele achou muito importante aquilo. Ele achava uma graça nisto. Assim
ganhou os eleitores sem esperar.
H
- A senhora contava ontem umas coisas pitorescas a respeito da
relação dele com o Castilhos, ele não falava quase, não é?
J
- Não, ele nunca falou mal do Castilhos, ele queria bem, no fundo
protegeu os filhos dele até o fim, sempre foi muito amigo, a Julinha
era afilhada dele.
H
- A Julinha era filha do Castilhos?
J
- Era a filha mais velha, era afilhada do papai, ela vinha muito
aqui, no Rio, nos procurava, sempre. O Edmundo Castilhos, foi
protegido pelo meu pai, foi ele que o fez estudar. Mandou para São
Paulo para estudar Direito. Mas infelizmente, não sei o que que
houve, qualquer caso emocional na vida dele, e ele se suicidou.
H
- Todos morreram cedo…
J
- O único que nunca procurou o meu pai, foi o filho mais velho dele,
os outros todos foram amigos.
H
- Mas a senhora, a primeira esposa do Dr. Castilhos, ela morreu com
que idade? Ela morreu moça, né?
J
- Morreu cedo, mas eu não sei precisar a data, bem moça devia ter
uns 30 e poucos anos.
H
- Quando eles romperam ela já estava casada com ele?
J
- Sim. Toda a história do rompimento tem ali naqueles livros.
H
- Naquele manifesto de 91 ele fala nisto. Mas ele não chegou a
aderir a dissidência na época, eu acho que…
J
- Ele preferiu retirar-se do Rio Grande do Sul naquela época, por
motivos de família, como ele era muito amigo do Prudente de Moraes.
O Prudente insistia muito para dar a ele uma posição assim mais
internacional, e ele aceitou nessa época, achou que era oportuno.
Depois houve aquela desgraçada Revolução de 93, também. Ele não
tinha nada com aquilo, só tinha prejuízos enormes.
H-
Mas ele não participou?
J
- Não, nada, nada. Ficou alheio, estava no estrangeiro.
H
- Ele tinha um temperamento pessoal que às vezes ele se retirava,
ficava acima…
J
- Ele repetia muito aquela frase: "Quem atira pedra eu subo em
cima da pedra e faço dela o meu pedestal". Ele repetia muito
isso. Ele achava que a pessoa que vive com dignidade não precisa nem
se defender. Quando vinha alguma coisa desagradável no jornal, às
vezes a minha mãe lia e dizia: "Olha aqui o que estão dizendo
de ti, que desaforo." E ele dizia: "Olha, então nem me
contes, porque se não é verdade então não vale a pena tomar
conhecimento".
H
- Quer dizer que ele era um homem superior às pequenas…
J
- Para a tranquilidade de espírito de uma pessoa é muito bom ter
essa filosofia, não é?
H
- Agora em termos partidários, a senhora acha que ele se envolvia
muito, ou ele sempre foi um homem…
J
- Ele sempre foi muito tranquilo, tolerante com os próprios
adversários, todos que eram amigos continuaram. O Dr. Baltazar de
Bem até morrer, justamente ele morreu combatendo contra os
libertadores, até fim foram muito amigos, o meu pai sentiu
imensamente a morte dele. Também foi muito amigo da família Aranha.
Durante a propaganda em 1922 ele foi muito criticado pelos
companheiros porque almoçou na casa do Coronel Euclides Aranha. Mas
eram amigos, não tinha nada com a política. Uma coisa é a vida
pública, e outra é a vida particular. Não tem nada uma coisa com a
outra.
H
- Onde é que foi assinado o Pacto de Pedras Altas?
J
- Nesta mesa aqui.
H
- Nesta pequena?
J
- Existe uma fotografia. Está o pai do atual presidente da
República. Ele esteve aqui mocinho. E outra vez durante a visita do
Presidente Médici.
H
- Mas o Castilhos era um temperamento bem mais rancoroso?
J
- Eu não gosto de julgar, afinal é uma coisa do passado. O
Capistrano de Abreu é que me contava coisas desagradáveis a
respeito dele, porque meu pai não mencionou jamais.
H
- O que o Capistrano contava?
J
- Ah, coisas muito tristes mesmo.
H
- Mas achava que ele tinha um certo…
J
- Que tinha muito recalque, muita inveja, mas isso é bom a gente não
falar essas coisas. Tem se publicado tanta coisa errada a respeito da
vida do meu pai que eu sinto imensamente, até os amigos às vezes se
informam em fontes que não são fidedignas.
H
– O que a senhora falou do Mem de Sá, o que que ele escreveu?
J
- Pois o livro do Mem de Sá "Politização do Rio Grande",
ele conta episódio que é completamente falso a respeito do.…
(corte)
FITA
- lado nº 2
H
- Além dessas coisas que a senhora ouviu ele contar, qual foi a
primeira vivência política que a sua memória recorda pessoalmente,
a partir de quando que a senhora lembra do envolvimento político
dele?
J
- Me lembro da Campanha Civilista, vagamente.
H
- Em 1910.
J
- Em que ano foi?
H
- Em 10. Em 1910.
J
- Eu nasci no ano 1902.
H
- O que a senhora lembra?
J
- Eu me lembro muito bem que nós ficamos muito emocionados, as
crianças todas, porque o meu pai disse que tinha que votar no Rui
Barbosa, que era um dever que ele tinha, mas tinha que ser em
Cacimbinhas, um distrito chamado Cacimbinhas, que hoje é Pinheiro
Machado. E ele tinha um cavalo árabe chamado Pedro Sarmento,
Colorado, Papado. Ele disse para minha mãe: "Fica sossegada,
são 35 ou 36 Km (nesse tempo era mais comprido) e eu volto cedo
ainda". E ela disse: "Não, tu não vais só, eu vou
contigo". Ela mandou encilhar a Morena, a égua dela, a égua
que era uma belezinha, era branquinha, era troteadora, era uma égua
maravilhosa, bem branca, e a minha mãe montava muito, mas montava
naqueles selins de senhora. E ela o acompanhou nesse dia, até lá,
porque era uma época de muita perseguição política, perigo de
vida mesmo.
H
- Mas não aconteceu nada?
J
- Não houve nada, felizmente. Sempre uma presença feminina parece
que acalma os ânimos, não é?
H
- Então ela tinha muita coragem pessoal?
J
- Muita, ela tinha uma fibra extraordinária, eu acho que ela herdou
muito da bisavó dela que era Farrapa, a D. Maria, chamava-se
Doralina de Jesus Silveira.
H
- De onde é que ela era?
J
- Ela era de Piratini, era filha de Açorianos, dos Silveira, dos
Açores, e aquele lenço Farroupilha pertenceu a ela. Eu sei que ela
era tão corajosa que ela dormia com a espada do lado da cabeceira da
cama, durante a guerra dos Farrapos.
H
- E era uma mulher rústica?
J
- Não, era muito educada. Era alta, enérgica, tinha os olhos azuis,
bem loira. Era descendente de holandeses, porque os Silveira são
descendentes de que ele traduziu o nome para Silveira.
H
- Ela tinha nascido em Portugal?
J
- Não, essa senhora não.
H
- Não, digo a sua mãe.
J
- A minha mãe nasceu em Bonjain. O meu avô era estudante. Não viu
atestado dele da Universidade de Bonn, diz "Vir Brasilianus".
Ele era brasileiro. Estudou em Bonn. E a minha mãe nasceu lá.
H
- E ela foi educada na Europa?
J
- Ela foi educada sempre na Europa. Casou com 19 anos, foi para os
Estados Unidos. Quando ela veio para o Brasil, eu estava por nascer,
ela já tinha duas filhas.
H
- E depois em 23, a senhora lembra?
J
- Ah, lembro muito, foi um quadro muito triste mesmo. Tivemos muita
confusão aqui, a casa foi invadida. O Dr. Berchon de Pelotas ajudou
muito, não viu nas cartas?
H
- É, estava vendo ontem.
J
- Ajudou a guardar os objetos de valor de família. Muitas coisas ele
levou para a casa dele em Pelotas.
H
- Mas e a família ficou no Castelo?
J
- Não, nós tivemos que nos exilar, porque estávamos em perigo
aqui. Os provisórios cercaram tudo, e depois eles, não viu as
janelas quebradas ali, eles bateram com a coronha das armas, isso foi
no ano 24 já, que eles quebraram as janelas para invadir a casa.
Eles não conseguiram abrir a porta de ferro que é muito forte,
então resolveram arrombar uma janela. Acamparam aqui.
H
- Isso foi depois da pacificação?
J
- Foi, depois…
H
- Mas e como é, eles não cumpriram o acordo?
J
- Não. E depois houve aquela revolta dos militares em 24. E aí
recrudesceu…
H
– E a senhora, a família, estava em Montevidéu ou Buenos Aires?
J
- Não, nós estávamos na campanha, na fronteira perto de Melo. Nós
trabalhávamos muito para sustentar.
H
- E o Dr. Assis estava junto, ou estava envolvido na revolução?
J
- Ele era líder, chefe civil do movimento, ele não quis fugir à
responsabilidade, mas o Ministro da Guerra e outros pediram a ele que
não ficasse em Pedras Altas, porque a vida dele corria perigo e eles
não poderiam garantir. Tinham jurado mesmo matá-lo. E a minha mãe
também estava muito nervosa. Resolvemos todos ficar lá enquanto
durasse.
H
- E ele estava junto com a família?
J
- Sim, junto.
H
- Mas, ele às vezes entrava também.
J
- Não, nunca. Só quando foi eleito deputado.
H
- E como é que se deu a assinatura do Pacto, ele veio para cá?
J
- Bom isso foi em 23.
H
- Foi em 23, a senhora está falando em 24.
J
- Eu estou falando já depois, não foi cumprido, a paz foi estável.
Apesar que o Pacto de Pedras Altas eu acho que foi muito importante
porque proibiu a reeleição e fez cama para o voto secreto, o voto
feminino e outra, independência dos juízes. Ele surtiu efeito, mas
infelizmente continuaram as perseguições, não se podia tolerar uma
coisa dessas.
H
- E do Borges, quer dizer, comparando, a atitude dele com o Castilhos
e o Borges. O Borges…
J
- Não sei dizer.
H
- Mas ele tinha menos simpatia pelo Borges do que pelo Castilhos,
provavelmente.
J
- Ele perdoava o Castilhos, porque tinha sido cunhado dele. Ele não
gostava de falar. Depois ele se dava muito com os filhos dele, com as
filhas.
H
- Agora, com o Borges, ele tinha relações também?
J
- Nunca teve relações, diz que ele sempre foi muito frio com ele.
Mas se encontravam, quando se encontravam cordialmente.
H
- Porque muitos Castilhistas tinham horror do Borges, não é?
J
- É. Eu creio que ele não era muito simpatizado, coitado. Era muito
distante, uma pessoa que não era comunicativa. Mas são coisas do
passado. Agora o Rio Grande do Sul tem que se refazer, criar sangue
novo, não ir para trás. Eu tenho muito medo dessa política agora,
que dê um passo atrás em vez de dar um passo para frente. Não é
admissível, não acha? Um país tão lindo, tão rico, о clima
igual ao do Sul da Europa. Nós temos tudo na mão, é só ter bom
senso, é o que falta.
H
- Há quantos anos a senhora está cuidando da fazenda, do castelo?
J
- O meu pai convidou-me para gerenciar a granja no ano 36. Porque os
meus irmãos já estavam emancipados, cada um com a sua propriedade.
H
- E a partir daí a senhora assumiu praticamente…
J
- Porque eu sempre gostei muito de criação, sempre tive paixão
criação. Tudo que é da natureza, tudo me interessa.
H
- E ele era um apaixonado por isso também?
J
- Ah, também.
H
- Ele ensinava muito, ele era didático para os filhos?
J
- Qualquer coisa que ele aprendesse, ele tinha muito prazer em
transmitir em seguida. Assim que ele aprendia alguma coisa, ele
tratava logo, o primeiro amigo ou pessoa rústica mesmo, que ele
encontrasse ele já transmitia. Ele não guardava nada.
H
- E a senhora aprendeu muito com ele?
J
- Aprendi muito com ele. Naturalmente desses tempos para cá muita
coisa evoluiu em agricultura, criação. Mas o que eu aprendi com ele
ainda tem me servido muito.
H
- E o que a senhora gosta mais de criar, é a parte de gado ou de
cavalos?
J
- Eu gosto, eu tenho paixão por cavalos. Mas infelizmente eu não
posso me dedicar a tudo, todos os ramos. É demais para dois braços
só. Agora eu tenho bons auxiliares, felizmente.
H
- A senhora não planta aqui, não é?
J
- Só pastagens, para engordar o gado, no inverno e no verão.
H
- A senhora contava ontem que a agricultura sem orientação é um
desastre.
J
- Ah, é um desastre. Eu sempre me lembro de certas fórmulas que o
meu pai tinha, para tudo, ele dizia: "Rasgar a epiderme da terra
é como ferir uma pessoa". Dizia que convida a erosão, e é
muito perigoso mesmo. O incompetente não deve rasgar a epiderme da
terra, só quem entende mesmo, porque é muito perigoso. E o Rio
Grande do Sul está muito propenso a virar deserto em algumas
regiões, muito perigoso.
H
- E nesta região tem muita plantação, agricultura.
J
- Tem. Mas aqui eu creio que eles são muito cuidadosos, porque não
há essa areia fina como no município de Alegrete, São Francisco de
Assis. Tipo de areia que o vento traz e cobre tudo. É o que faz os
Saaras do mundo, o Saara dizem que já foi seara e não Saara…
H
- E ele deve ter ganho muitos prêmios em exposições, não?
J
- Não, ele não ia quase a exposições...
H
- Ah, não ia.
J
- Ele só fundou as exposições de Bagé, porque ele achava que Bagé
era muito importante. Mas ele não era muito dessas coisas de
aparecer. Depois vinha tanta gente aqui, que não era necessário, os
produtos eram vendidos com muita facilidade e felizmente ainda são.
H
- Mas a senhora tem participado de exposições?
J
- Sim, eu acho que hoje em dia é uma necessidade, mas os tempos
estão mudando também. Os transportes estão muito caros e muito
difíceis. Não sei se vamos poder continuar a entrar em muitas
exposições. Uma por ano acho que vai ser o limite.
H
- Mas na Argentina a senhora foi em alguma?
J
- Não, só aqui no Brasil.
H
- Leva as vacas Jerseys?
J
- Ao Uruguai eu tenho estado em várias exposições.
H
- Ele foi o primeiro criador de Jersey, não é?
J
- O primeiro eu não sei dizer ao certo, porque dizem que os
marinheiros traziam às vezes, vacas do Canal da Mancha, mas são
coisas que se dispersaram. Mas o primeiro criador de verdade foi ele.
Porque em 1895, ele comprou duas novilhas cobertas que deram cria, e
esse gado ele mandou para Ibirapuitã, a estância dele no município
de Alegrete. Chegou lá em 1896. Quer dizer que desde esse ano o
Jersey nunca parou no Brasil. O meu pai é considerado o pioneiro do
Jersey aqui. Assim como do Devon.
H
- Ah, do Devon também. E cavalos, eram cavalos crioulos?
J
- Bom, ele trouxe o cavalo árabe, para o Rio Grande do Sul, no fim
do século, quando ele foi a Arábia, comprou três garanhões:
Malec, Amir e Oasir.
H
- Inclusive há o hábito de pôr nomes em todos os animais?
J
- Não, mas eles já vinham com os nomes. Malec quer dizer rei, Oasir
ou vizir quer dizer ministro, e Amir, bom Amir eu não sei o que é,
não posso me lembrar.
H
- Eram cavalos brancos?
J
- Não, não eram brancos. Colorado, escuro e o outro era tostado.
H
- E não tem descendentes deles mais?
J
- Existem ainda descendentes. Quem entende muito dessa parte é o
Carlinhos Reverbel, do Dr. Carlos Reverbel.
H
- Ele esteve aqui inúmeras vezes?
J
- Eu canso de convidar, mas ele é uma pessoa muito ocupada. Eu
gostaria que ele viesse passar uma temporada aqui. Mas a Olga e ele
são muito ocupados, eu sei que para ele é um sacrifício sair de
casa. Eu suspiro por ele. Nem sabes como eu desejaria que ele viesse
aqui para esclarecer certos pontos sobre a criação de cavalos que
ele entende muito disto. Às vezes ele escreve no "Correio do
Povo". Ele é muito entendido em cavalos, e gosta da natureza e
de plantas. A chácara dele em Gramado é uma maravilha bem cuidada,
um encanto mesmo. Estive lá e gostei tanto. Nunca pensei que ele
pudesse cuidar tão bem. São velhas amizades, meu pai teve uns
amigos que eram pessoas incomparáveis, assim dedicação e amizade
perfeita, como diz La Fontaine. É verdade, não há nada como uma
grande amizade. Ele teve um grande amigo no Sr. Chico Macedo, não
sei se o senhor conhece este nome.
H
- Ele é da fronteira?
J
- Ele era de são Gabriel, eram companheiros, desde meninos, do
colégio. O Sr. Chico Macedo era padrinho e talvez tenha meio criado
o Carlos Reverbel, era como se fosse um segundo pai dele, por isso
nós somos muito amigos, já de várias gerações.
H
- E o Pilla a senhora conheceu pessoalmente?
J
- Ele esteve aqui muitas vezes. Uma pessoa simpática, muito quieto,
muito recolhido, por causa da surdez, talvez.
H
- Muito introvertido.
J
- Mas era uma pessoa muito correta, o papai o admirava muito. Só que
eles não eram, na parte do parlamentarismo, não eram
correligionários cento por cento, mas naturalmente se toleravam
perfeitamente.
H
- Mas ele devia ficar um pouco inibido na presença do seu pai que
era um homem exuberante, não?
J
- Não, eles se davam muito bem. A D. Dolores Caldas às vezes dizia
que o Pilla é o discípulo bem amado, não é? E eu dizia: "Eu
creio que sim, mas não sei se posso dizer que ele seja discípulo,
porque ele tem as suas ideias próprias e o meu pai tem as dele, mas
eles se entendem muito bem porque ambos são tolerantes.
H
- E como é que ele se relacionava com o pessoal de Pelotas, mais do
que de Bagé, politicamente, o Berchon…
J
- Ah, o Dr. Berchon era um dos grandes amigos, mas em Bagé ele tinha
um outro grande amigo intimíssimo, que era o Dr. Pedrinho Osório,
Dr. Pedro Osório, era médico em Bagé.
H
- Ah, era de Bagé. Era o que deu nome a cidade?
J
- Não. Era parente desse, primo desse, o que deu o nome a cidade era
Coronel. O Dr. Pedrinho Osório era médico em Bagé, ele era
laureado pela Sorbonne em Paris. Uma pessoa inteligentíssima, era
excessivamente modesto, não gostava de aparecer. Aqui ele se
entendia muito bem conosco. Não havia trem nesse tempo, era um
vaivém para casa dele, para cá, todo tempo. Quando havia um teatro
bom ele vinha aqui nos buscar e levava toda a meninada para ir ao
teatro.
H
- Em Bagé?
J
- É. Assim eu tive a oportunidade de ver a Lili Pons, por exemplo.
Ir à ópera várias vezes, porque naquele tempo vinham artistas bons
ao Rio Grande do Sul, agora não vêm mais.
H
- Mas eles iam a Pelotas ou Bagé?
J
- Iam a Pelotas, Bagé, Porto Alegre.
H
- E aquele pessoal Cabeda, ele gostava desta turma de federalistas
velhos?
J
- Não tenho lembrança. Sei que tem o autógrafo do Rafael Cabeda aí
no biombo.
H
- Este biombo o que é?
J
- A minha mãe colecionava autógrafos, e ela tinha feito, ela mesma,
umas almofadas de couro de veado. Então ela pedia para as pessoas
assinarem em cima com a caneta e depois ela pirogravava em seguida
com o pirógrafo, e depois ela achou que almofada era uma coisa que
ia se soltando, se estragando muito, então ela resolveu mandar fazer
um biombo.
Fonte:
https://cedap.ufrgs.br/xmlui/bitstream/handle/20.500.11959/8378/D.%20Joaquina%20Assis.pdf?sequence=1&isAllowed=y
Acesso
06 junho 2026