quinta-feira, 15 de outubro de 2026

O Príncipe Custódio e a Religião Afro-Gaúcha - Dissertação de Maria Helena Nunes da Silva, 1999

 https://www.repositorio.ufpe.br/jspui/bitstream/123456789/17840/1/100_39%20S586p%20Disserta%C3%A7%C3%A3o.pdf


Imagem: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cust%C3%B3dio_Joaquim_de_Almeida#/media/Ficheiro:Principe-custodio.jpg

Acesso 15 outubro 2026

APOTEGMAS de Túlio Piva

 


Não obstante o extraordinário avanço da tecnologia, da ciência, das descobertas atômicas, o Homem até agora não aprendeu a conviver com o Homem! E este continua sendo o seu maior inimigo.

Passei a acreditar na solidariedade humana depois que vi dois mendigos repartindo um pão ao meio.

A adversidade às vezes transforma o homem num cemitério de anseios, angústias e emoções.

Problemas, sofrimentos, angústias, dores – têm a idade do Homem!

Às vezes, a idade nos dá o alívio de não precisar ter mais esperanças, nem sonhos, nem ilusões. Basta o que conquistamos ao longo da vida.

Frequentemente, o maior drama não está no palco, nem na novela, nem no livro de ficção: está no espectador ou no leitor.

As palavras têm sexo: ama-se, casam-se, multiplicam-se… A isso se chama estilo!

A solidão e o silêncio são as asas do espírito e da imaginação.

Em política, a primeira coisa que se perde é a liberdade!

Os grandes problemas só tem solução depois que geram a crise!

Nos animais, o destino é instinto! No Homem, é criação!

A noite é a grande inspiradora das almas. Não é por acaso que os poetas têm os seus símbolos na lua e nas estrelas!

Quando chega o crepúsculo, há um desligamento das coisas do cotidiano, e a alma adquire o seu império.

Basta o sol se por para que o nosso olhar fique mais sensível. Saem de cena os trabalhadores para a entrada dos namorados; e os interiores passam a dominar os exteriores de cada um!

A televisão nos dá uma sensação de clausura, como se estivéssemos confinados, sem vínculos com a vida em sociedade, dando-nos uma ideia de solidão!

As pessoas são capazes de absorver todas as emoções, desde que lhes deem tempo. O homem pode comer um boi – mas de churrasco em churrasco!

Em nosso peito, há mais bruxas do que fadas!

Desligar-se, desinteressar-se pelas coisas da vida, sem desejos, não é virtude – é NEUROSE!

Saudade – eterna semeadora de emoções e de reminiscências!

É da infância que brota esse manancial de forças a nos impulsionar e elevar para o alto os sonhos da vida.

Avalia-se o mérito pelas resistências que provoca.

Seguir uma determinada escola é uma maneira de não se ter estilo próprio. Estilo é uma afirmação de personalidade.

Nas cidades até a paisagem é de cimento armado…

As rugas são testemunhas de que se viveram emoções, dramas e alegrias. São o atestado vivo de que houve uma vida ao longo dos anos. Vincos que denunciam amores, romances, dissabores e esperanças.

A juventude é bela, mas a velhice é sábia!

Rusgas de amor são como nuvens que se esvaziam diante do sol.

Não se está só quando há uma ideia junto com a gente.

Cada instante leva a outro instante. É inútil querer retê-lo. O próximo instante poderá ser de morte ou de ressurreição!

Emoções e ternuras, que são a essência da mocidade, nos acompanham também na velhice.

Às vezes ficamos olhando as nuvens das tempestades e esquecemos de contemplar o arco-íris.

Os poetas são seres crepusculares.

A lua é a deusa da madrugada!

E o sol é um disco de fogo afundando no rio…

Há fumaça apache nas colinas…

A calúnia é uma punhalada na virtude.

O juiz, muitas vezes, exercita um anseio ancestral de dominação e de mando.

Antigamente, quem fazia a cabeça do adolescente era a família, a escola ou a Igreja. Hoje, são os meios de comunicação de massa.

As coisas que chegam aos ouvidos do proletário são previamente filtradas pelos interesses da burguesia.

O homem é um barco, sujeito a tempestades e ventos, e até a mudanças de rumo.

Há uma indústria cultural. E esta tem donos, que impõem à sociedade os seus valores, suas ideias e suas concepções, tudo ajustado aos seus interesses particulares ou sociais. As programações de rádio e televisão nos dão o maior exemplo disso.

A sociedade contemporânea restringe a convivência entre os indivíduos, sendo que até o lazer é privatizado (televisão, rádio, alto custo da diversão…). O apartamento segrega as pessoas. Nos supermercados, as pessoas não se falam (só há caixas e vigias). E o homem vai perdendo a sociabilidade.

Pobre não tem direito à sociedade de consumo!

Cultura não é apenas saber científico, artístico, filosófico ou literário. Há também a cultura política. E esta nos traz uma outra ideia de cultura, que nos diz como somos, e se somos capazes de pensar e equacionar os problemas do povo, na sua luta por melhores condições de vida. Essa política é que há de promover as transformações sociais.

Cultura é um conjunto de formas, através das quais o homem se exprime diante das coisas que compõem a sociedade em que vive.

Na sociedade burguesa, só é considerado cultura o produto de pensadores, intelectuais e artistas. E a essa cultura o trabalhador não tem acesso.

Fonte: Piva, Túlio. 1915-1993. Túlio Piva: pra ser samba brasileiro/Hugo Ramirez; Rodrigo Piva (orgs.). Porto Alegre: Programa Petrobras Cultural, 2005, p. 125/129

terça-feira, 7 de julho de 2026

Sete sílabas de terra vermelha (Paulo Bentancur)

 


Montado em sete sílabas, Jayme Caetano Braun (1994 – 1999) não descuida um verso sequer o generoso horizonte da lírica repentista. O seu mundo é um mundo deliberadamente limitado. Ao sul, sempre ao sul. Suas personagens não se multiplicam. Antes, encolhem-se na solidão que as faz andarem por lonjuras enormes numa condição minguada. Jayme canta a dor e a alegria – mais a dor que a alegria – de ser gaúcho numa terra de gaúchos, sim, mas sofrendo uma espécie de desterro cronológico, já que terra e tipos apresentam-se ameaçados pelo estigma de terem sobrevivido mais como símbolo de um mundo vencido pelo tempo.

Em boa hora se retoma a publicação de obra das mais importantes do maior payador entre nós, aquele que soube como ninguém beber na vertente de um Atahualpa Yupanqui (argentino), apenas que afeito tanto ao verso escrito quanto musicado – Jayme gravou sete discos com recitais, mídia sob medida para sua poesia de formato essencialmente popular.

Brasil Grande do Sul é um dos mais importantes livros lançados pelo poeta, a partir de 1954, ano da estreia, a 1990, quando Jayme dependura, não as chuteiras, mas as alpercatas.

A obra de Jayme Caetano Braun traz no seu íntimo um indisfarçável orgulho de suas raízes somado a elementos de uma simplicidade cotidiana. Sobretudo Brasil Grande do Sul, a súmula na qual cabe tudo o que gira em torno do gaúcho, esta figura emblemática, muitas vezes heroicizada, mas que nestes versos que redesenham seu território, o espaço de convivência de sobretudo um tipo humaníssimo, tão resistente quanto o nordestino que Euclides da Cunha descreveu em Os Sertões.


Objetos como monumentos

Nesse desfile, da primeira à última página, dos objetos de que é feito o universo sulino, temos as armas, os apetrechos, os animais, os amores e os cenários que fazem parte de um universo ritualizado pelo poeta. O mate amargo é vinho a consagrar a grandeza do passado ou “água-benta da raça”.

Grandeza a todo instante lembrada e, mais que lembrada, ostentada como um estandarte a justificar a marcha já num presente sem glória mas cujo heroísmo nunca será enterrado.

Seu léxico, particular de uma só região, circunscrito a um lugar e época que o cristalizam num esteticismo quase de gíria, preso a uma comarca, isto é, emparedado na província que o vampiriza e o enterra, acaba sendo a fala de um lugarejo, pó verbal que vai sumindo no ar como o som modesto, movido tão só do torrão inspirador, de um monólogo que no entanto jamais é despido de mistério.

Há em cada página de Jayme uma obsessão de reverência, um desejo ardente e completado pela entrega à tradição. Não conhece ruptura. Nem a morte o ameaça. Quando esta vier, o cavalo e o vira-lata o assistirão ser enterrado. É todo seu público, descendentes, herdeiros. Índio vago, sua fortuna é chorar a consciência de uma região mais que remota, na qual o convívio se dá somente pela saudade.

Reza a todo instante pela tradição, vista como um credo. E se ele vela o espectro que o inspira, pelo mesmo processo promove sua ressurreição.


Monarquia, conformismo, assombração

Se é constante o cerimonial nessa estética, isso se dá pelo tom de monarquia no imaginário que o assola. O gaudério, desgarrado, pária social, também é rei: dispões de um poder absoluto, poder autorizado pela valentia sem tréguas e pela sinceridade imperiosa. Nesse imaginário, portanto, o rei é justo. Não há abuso (exceto com os inimigos políticos, é claro). Trata-se, como numa fábula, de um monarca compreensivo e popular, não pela fama, mas pelo trânsito, pelos gostos, pelos hábitos. Um príncipe meio mendigo, e vice-versa. Sensível ao mais ocasional cachorro de beira de estrada.

Aí a política não faz nicho. O cantador convive sem conflito aparente com as duas facções que dividiram o estado, os chimangos (lenço branco) e os maragatos (lenço vermelho). Admira em ambas a disposição pela luta, que canta sem meios termos.

Os exageros dessa ótica se justificam pela pose de bravata, aceitável sobretudo pelo coração puro.

Tolhido pelo agora sem promessas de redenção, muito menos heroísmo (apenas resistência), trata já o relho como relíquia, e menciona o mundo que o gerou como uma região primitiva da qual só a memória sopra hoje, junto com o vento.

Retrata um gaúcho que ainda bebe de antigas ilusões (o passado é sempre heroico para ele). Resta-lhe a comovente fidelidade do cavalo e do cusco, que o acompanham sempre. Opção humana tanto do temperamento singelo quanto da solidão que não lhe deixa escolha.

Afinal, o mundo arcaico que ele pranteia oferece-lhe uma hóstia feito migalha. Mas uma migalha refinada pela poesia. Aí estão expostos os fantasmas que assombram e animam a lírica de Jayme: o passadismo como ilha segura para salvar a memória afetiva o que o presente já não anuncia.



Enrodilhado

A imagem emblemática do homem submetido constantemente, nas árduas lides campeiras, representa a ritualização de Braun e seus mais que singelos apetrechos. E mesmo a filosofia possível se faz ao ritmo do quero-quero e à luz de uma lamparina trêmula.

O payador veio disso. Da infância entre as ruínas das Missões, da terra vermelha de Bossoroca, então distrito de São Luiz Gonzaga, dos pés descalços de guri atento ao imaginário poderoso da região noroeste do Rio Grande do Sul. Misto de gringo, descendente de alemães (Braun) e gaúcho pelo caudal sanguíneo da mãe, de temperamento entre ibérico e silvícola.

Embalou-o um reino agora fantasmagórico de glória excelsa cantada insistentemente. Mais tarde, num tom muitas vezes permeado de melancolia. Os sinais das batalhas ecoam no tempo perdido e hoje servem de mortalha para o gaúcho cuja alma guerreira recorta sua personalidade, alimentada pela coragem e por um projeto político já enterrado.

Estampa a humildade dos conformados que se aliviam com o orgulho que sentem pela terra natal. Cenário às vezes fantasioso do qual extraem seus mitos e sua justificação. O poeta olha o fantasma e sua herança agora quase só relíquia – porém nunca suficientemente louvada.

Louva-os numa emissão típica dos hinos. Idealismo que busca unir uma ética de guerreiro e uma condição popular de deserdado material cuja riqueza só o espírito herdou.



Arquitetura do verso

Foi radialista, assim mais escutado que lido, que a sua é uma poesia com sabor de repente (o payador é um repentista, que compõe no embalo do recurso clássico dos versos regulares e das sílabas seguras, a maioria com rimas pobres, poemas num estalo, um atrás do outro). Eis a súmula do trabalho de Jayme Caetano Braun.

O setessílabo, redondilha maior, é um metro fácil, rápido, de apreensão imediata para o ouvinte ou leitor. As centenas de poemas de Jayme (extraídos de sua dúzia de livros e tantos discos gravados) verteram com a generosidade das fontes nos trópicos, e mataram, numa inversão metafórica, a sede de terra que todos tínhamos.

Falando em poesia, Braun leu os espanhóis, por exemplo, mas os de carne e osso que invadiram as Missões, expulsaram jesuítas e trucidaram índios. “Índio vago”, como ele mesmo se retrata em inúmeros versos, agarrou-se a esfarrapadas bandeiras de batalhas dolorosas. E mesmo batalhas que conheceram êxito. Sua poética é militar, guerreira, inspirada por um caráter bélico que forjou o gaúcho, guardião de fronteiras; e é social, naturalmente, prestando tributo a bolicheiros, a peões, a negros velhos, a gente humilde sem literatura alguma; e é engajada de muitas formas, especialmente num plano onde o afeto comanda forma e conteúdo e sua poesia busca estender a mão quando outras tentam impressionar.

Mais que um belo lance de oportunidade editorial (a rara presença de obras do payador em nossas estantes é de fato uma lacuna incompreensível para a necessária identidade do Estado e do País), esta edição especial, preparada com esmero, de Brasil Grande do Sul, representa uma homenagem no mínimo obrigatória a quem amou sua aldeia e dela não arredou-se um verso sequer. O limite de sua poesia é também seu alcance. Ela se compraz em ser local, regional, satisfaz-se em parir versos como num eco dolorido de quem destila suas mágoas preocupado apenas com a escancarada fidelidade à aldeia que deveria ser universal. Jayme Caetano Braun não arreda pé do seu pago.



Fonte:

Copyright: Aurora Ramos Braun

Edição: Sérgio Rosa de Paiva

Preparação de Originais e Revisão: Paulo Bentancur

Capa e projeto gráfico: Antonio Henriqson

Ilustrações a carvão: Figuras Estúdio (Diego Jaworski e Hostílio Ferreira)

à Arnildo Martínez Müller (in memorian)

B825d

Braun, Jayme Caetano, 1924-1999

Brasil Grande do Sul. Estudo crítico de Paulo Bentancur. Porto Alegre: Sefera, 2015, p. 5-10

ISBN 978-85-*60634-05-7

1. Poesia brasileria. 2. Poesia sul-rio-grandense. I. Bentancur, Paulo.

II. Título.

CDU 82(816.5)-1

Bibliotecária responsável: Giane Zacher – CRB 10/1984

SFERA EDITORA DE ARTES

sfera.editoradeartes@hotmail.com

(5103391.5929 / (51) 9909.0933

Imagem: https://www.jornaldocomercio.com/_midias/jpg/2015/12/04/206x137/1_pan_44217-400956.jpg


Acesso 07 julho 2026





O Príncipe Custódio e a Religião Afro-Gaúcha - Dissertação de Maria Helena Nunes da Silva, 1999

 https://www.repositorio.ufpe.br/jspui/bitstream/123456789/17840/1/100_39%20S586p%20Disserta%C3%A7%C3%A3o.pdf Imagem:  https://pt.wikipedia....