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segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Livro – “Porto Alegre De Todos Os Tempos”

 

e-book – grátis!
Uma bela e gratuita oportunidade de conhecer o livro Porto Alegre de Todos os Tempos.
O livro já está esgotado, foi lançado em 2017 e segunda edição em 2018, é um passeio por Porto Alegre seus personagens, histórias e curiosidades.
Reunidas em Porto Alegre de Todos os Tempos são 26 histórias, que incluem nomes como Gilda Marinho, Teresinha Morango, Miguel KGB, Nega Lú, e também lugares inesquecíveis, como o A Esquina Maldita, o Ao Belchior, Bar João, Zé do Passaporte, e muitos outros resgates de um Porto Alegre provavelmente mais legal que a atual.
Pesquisador por hobby que virou paixão, Paulo Palombo Pruss foi fundo para buscar fatos e detalhes que são pouco conhecidos do público, obtidos, também, através da colaboração de seus milhares de leitores na rede social, cujos alguns depoimentos também são relatados no livro tal qual foram escritos.
É isso, espero que gostem, opiniões são bem vindas. 
Abraços
Paulo Palombo Pruss

Fonte: livrospaulopruss@gmail.com

segunda-feira, 10 de julho de 2023

O transporte coletivo (Carlos Reverbel)

 

A chuva que não veio

Estive outro dia no Beira-Rio. Foi uma luta para chegar ao estádio. Todas as vias de acesso estavam congestionadas, tal a quantidade de veículos que se arrastava com o mesmo destino.

Enquanto o motorista do táxi deblaterava contra o engarrafamento do trânsito, eu imaginava as dificuldades que teria para conseguir um bom lugar naquela catedral de Notre Dame do Futebol.

Chegando finalmente ao destino, depois de uma travessia tão temerária e incruenta quanto a participação dos táxis de Paris na batalha do Marne, logo constatei que o estádio se encontrava quase vazio, não tendo recebido, sequer, uma quarta parte de sua lotação. Lotados estavam, apenas, os locais de estacionamento.

Como inúmeros outros, este flagrante urbano mostra o grau de hipertrofia do transporte individual na vida porto-alegrense. Chegou-se a esta distorção por causa de descaso a que ficara relegado o sistema de transporte coletivo.

Foi preciso a crise do petróleo para que nos déssemos conta de que o primado do transporte individual, em detrimento do coletivo, é uma aberração urbana, não apenas do ponto de vista social, mas também do ponto de vista econômico.

A crise petrolífera, de que nos dignamos tomar conhecimento com três anos de atraso, ficando esse tempo todo à espera de que Deus, sendo comprovadamente brasileiro, talvez tomasse a providência de nos brindar com chuvas de gasolina azul-celeste, teve o mérito de nos obrigar a reformular a política que vinha sendo seguida na área dos transportes urbanos.

Para que se chegue a bons resultados nesta reformulação, estabelecendo-se o primado do transporte coletivo sobre o individual, temos de partir da premissa de que o usuário não é gado vacum. Observada essa diferenciação fundamental, teremos preparado a área para o equacionamento do problema em termos humanos.

Levo, assim, bastante fé na crise do petróleo como fator de aprimoramento do nosso sistema de transporte coletivo urbano, motivo pelo qual peço permissão para propor o título de porto-alegrense honorário ao soberano da Arábia Saudita.

Por outro lado, haveria forte motivo para que se cumpra a vontade do prefeito Vilela, quando nos aconselha a amar a cidade.

Cercear o transporte individual, sem introduzir melhorias substanciais no sistema coletivo, tornando-o compatível com a dignidade do cidadão, corresponderia a rebaixar um número ainda maior de porto-alegrenses à condição de gado vacum, com o prevalecimento de estarmos cansados de saber que este é um rebanho atambeirado, a ponto de não recorrer, sequer, ao direito elementar e líquido e certo do berro.

Uma comunidade que absorve os maus serviços que lhe são cotidianamente administrados, sem tugir nem mugir, como se estivesse sendo tratada a pão de ló, termina se acomodando a toda sorte de espoliações.

Se as medidas que vêm sendo oficialmente apregoadas em favor da recuperação do transporte coletivo forme realmente eficazes, como uma das principais metas da retardatária e impropriamente chamada política de racionalização do consumo de combustível, isto será decorrência da crise do petróleo, razão pela qual não se poderá deixar de recitar, com unção religiosa, e de preferência na nobre língua de Racine, o anexim segundo o qual à quelque chose malheur est bon.

Por estas e outras, confio em Deus que o Brasil sairá bastante melhorado da crise do petróleo. Teremos aprendido, pelo menos, que não podemos acionar o nosso desenvolvimento à base de um combustível “árabe”, nem permitir que o País, em lugar de explorar, seja explorado pelo rodoviarismo.

A observação não é minha: é de um jornalista europeu. Aludindo à hipertrofia do transporte rodoviário entre nós, disse ele que, por termos relegado a ferrovia e a navegação a plano secundaríssimo, somos um País estrangulado pelas estradas de rodagem e pelos veículos que nelas queimam gasolina, óleo e a nossa receita cambial.

Poder-se-ia acrescentar que ainda respondem, de quebra, pela maior parcela do obituário nacional, conferindo-nos o recorde mundial de acidentes.



Capa: Tânia Porcher

Foto: Jorge Rolla

Fonte: Reverbel, Carlos. Barco de papel. Porto Alegre: Editora Globo S.A., 1978, p 39/41.

Metrópoles (Carlos Reverbel)

 

Quando as cidades crescem e não se civilizam, na mesma medida, não se pode deixar de redobrar os dispositivos de vigilância, prevenção e, em última instância, os de natureza coercitiva. Se existe um exército de contraventores em Porto Alegre, inclusive os que agridem a comunidade com os canos de descarga de seus carros, não há de ser com sermões franciscanos, nem com sessões afro-brasileiras de cafuné que conseguirá contê-los.

Percorrendo os subúrbios de Londres, numa tarde domingueira, no verão de 1975, era como se eu andasse pela velha Rua da Varzinha, na década de 30: cadeiras na calçada, as pessoas lagarteavam ao sol, desfrutando de uma tranquilidade que, hoje em dia, entre nós, talvez só exista nos arredores de Anta Gorda, Muçum ou Faxinal do Soturno.

Um processo metropolitano como o nosso, que se expande e impõe na medida de sua desumanização, massacrando o homem, em lugar de preservá-lo das agressões que o cercam e atropelam, não pode deixar de ser repudiado, aos urros, mesmo que se tenha de apelar para o leão da Metro, na falta de urros mais ortodoxos e convincentes.

Para aceitar semelhante processo, de coração aberto e sorriso nos lábios, seria preciso a capacidade de sofrimento e a resignação da digníssima senhora que desempenha o papel de mãe no célebre soneto de Coelho Neto, desdobrando fibra por fibra o coração.




Capa: Tânia Porcher

Foto: Jorge Rolla

Fonte: Reverbel, Carlos. Barco de papel. Porto Alegre: Editora Globo S.A., 1978, p 50.

Ócio com dignidade (Carlos Reverbel)

 

Continuo arrumando as armas e bagagens da aposentadoria. Faço parte de uma categoria de indivíduos que deixa a vida passar, acumulando projetos para quando estiver aposentado. Não há melhor maneira de jamais realizá-los. Respondo pela eficiência do método, tomando a liberdade de recomendá-lo às novas gerações.

Fiel a esse critério, tenho dedicado os últimos dias a botar em ordem os livros que juntei, ao longo de uns quarenta anos de garimpagem pelos sebos da cidade, com diversos objetivos, entre eles o de reunir material para uma pequena monografia sobre as antigas tipografias porto-alegrenses. É este, aliás, um dos principais projetos que venho transferindo para os anos de aposentadoria, embora saiba, de antemão, que não será executado.

Espero que me compreendam, pois nada é mais gratificante ao cristão do que as boas intenções, matéria em que, modéstia à parte, me considero bastante habilitado. Acredito, por outro lado, que Cícero me aprovaria, pois é público e notório que ele era muito chegado ao ócio. Daí a sua clássica expressão: Otium cum dignitate.

No século passado não tínhamos editoras, propriamente. Havia diversas tipografias e quase todas publicavam livros, em geral pagos pelo autor. As oficinas dos jornais também imprimiam livros, por vezes a reprodução de folhetins que eles próprios haviam publicado, dia a dia.

Caldas Júnior criou a “Biblioteca do Correio do Povo”, coleção de livros que reunia os folhetins publicados antes no seu jornal. Os volumes eram de pequeno formato, tipo livro de bolso. Consegui um exemplar dessa coleção: O Chapéu de Três Bicos, por D. Pedro de Alarcon. Apareceu no ano de 1897. a ação do folhetim se desenvolvia na época em que “reinava ainda em Espanha D. Carlos IV de Bourbon, pela graça de Deus, segundo diziam as moedas, e por esquecimento ou graça especial de Bonaparte, segundo os folhetins franceses”. Além dos seus folhetins, o Correio do Povo editou diversos outros livros.

Havia, também, a “Biblioteca d'A Federação”, igualmente formada por folhetins anteriormente publicados pelo jornal, em que pese o rigor doutrinário de Júlio de Castilhos, seu diretor. O volume de que disponho se intitula O Açougueiro de Meudon. É de autoria de Júlio Mary, em tradução de Antenor Soares e foi publicado em 1895. Nesta passagem, temos um pouco da atmosfera do folhetim: “Sobre a estrada dos Príncipes que conduz a Villebon, pequenos veículos baixos levavam ao bosque os habitantes das aldeias espalhadas pelo Meudon. E ao longe, no outeiro de Clamart, elevava-se do meio das árvores uma voz cheia e sonora, cantando a plenos pulmões uma canção popular: 'Eu vou às águas de Zazá'.”

Em época mais recuada a tipografia do Jornal do Comércio publicara alguns livros como Roma Perante o Século, de autoria do notável Karl von Koseritz, lançado em 1871, reunindo os editoriais que o autor escrevera para aquele jornal porto-alegrense “sobre os jesuítas, o dogma da infalibilidade e os papas”. É um dos volumes mais interessantes (e raros) de minha coleção. Diz Koseritz, no prefácio da obra: “Meu fim, ao publicar estes estudos, foi arrancar a venda aos olhos do povo, que vive iludido pelo clero, e permitir-lhe lançar um olhar perscrutador para dentro daquela oficina em que há milênios se forjavam as cadeias da superstição, do prejuízo, do obscurantismo e do atraso intelectual. Quis contribuir com as minhas insignificantes forças para derrubar o fundamento em que Roma assentou o seu edifício do obscurantismo e para consegui-lo tentei provar com fatos históricos e autênticos que a cega fé que o Vaticano exige dos fiéis repousa sobre falsificações e verdadeiros estelionatos religiosos e políticos, sendo explorada a ignorância do povo em exclusivo proveito de ambiciosos clérigos”.

A tipografia de Rodolfo José Machado, estabelecida na Rua da Praia nº 338, merece acurada pesquisa, pois era a que mais se aproximava de uma casa propriamente editora, dedicando-se à publicação de livros didáticos, os melhores da época. Rodolfo José Machado publicou obras que exerceram grande influência na formação das antigas gerações rio-grandenses, como a Seleta em Prosa e Verso, de Alfredo Clemente Pinto; a Aritmética, de Sousa Lobo; a Gramática Portuguesa, de Bibiano de Almeida; a Nova Gramática inglesa, de Frederico Fitzgerald; o Manual de Filosofia, de Joaquim de Sales Torres Homem; A História do Brasil, de João von Franckenberg, etc.

Entre outros livros impressos na histórica tipografia, disponho do Catecismo Constitucional Rio-Grandense, de autoria de Francisco de Paula Lacerda d'Almeida, “advogado nos auditórios da capital e lente catedrático da Escola Normal”. Editada em 1895, essa obra destinava-se a preparar “os colegiais para o pleno exercício dos direitos do cidadão, incutindo-lhes, ao mesmo tempo, plena noção dos respectivos deveres”. Não tenho menor receio de afirmar que se trata de uma obra-prima no gênero.



Capa: Tânia Porcher

Foto: Jorge Rolla

Fonte: Reverbel, Carlos. Barco de papel. Porto Alegre: Editora Globo S.A., 1978, p 121/123.

Rua da Praia, 1978 (Carlos Reverbel)


A melhor coisa que aconteceu ao porto-alegrense, nos últimos anos, foi poder morar em alguns lugares da cidade onde não há necessidade de ir ao centro.

Eu ainda não desfruto dessa bem-aventurança, mas tenho uma vizinha que há 12 anos não precisava aventurar-se até o centro da cidade.

Outro dia, por uma das fatalidades do destino, ela teve de empreender a incruenta jornada. Chegou, viu e fez meia volta volver, retornando, apavorada, ao ponto de partida, o seu ainda pouco conflagrado bairro residencial, onde, por sinal, há de tudo: supermercados, agências bancárias, butiques em profusão, livrarias, consultórios médicos e dentários, salões de beleza, cabeleireiros, cinemas, restaurantes, etc.

Mas, como o assunto que a solicitara ao centro da cidade era relevante, teve de voltar ao local do susto no dia seguinte, já então devidamente prevenida, de ciência própria, a respeito do convulsionado terreno onde, por força de circunstâncias inarredáveis, teria novamente de incursionar, recorrendo, para tanto, às suas escassas mas ainda encontradiças reservas de coragem e decisão, herdadas dos ancestrais farroupilhas.

Para a intrépida operação retorno, providenciou, inicialmente, na mudança da toalete costumeira, passando a envergar, por empréstimo a uma das filhas, um conjuntinho blue jeans, o que se tornou possível porque minha vizinha é uma dessas senhoras que, a partir de um dado momento, pode competir, para todos os efeitos (e até com certas vantagens), com as respectivas filhas. Depois, providenciou no aliciamento de um capanga, convidando-me para o desempenho de honrosa missão. Por via das dúvidas, armei-me de um aparelho de defesa pessoal que os franceses denominam canne-épée.

Quando atingimos as cercanias da Casa Masson (heroica sobrevivente, que nada fica a dever a La Pasionaria, em relação à Guerra Civil Espanhola), ela puxou pela memória, lembrou-se da época em que fazia o footing na Rua da Praia, e desfechou a seguinte pergunta:

- Cadê a Rua da Praia?

- Terminou – foi minha peremptória resposta.

- Como assim?

- A Rua da Praia – esclareci – só vinha conseguindo existir, a duras penas, no livro do Nilo Ruschel. Agora que o livro do Nilo Ruschel terminou, isto é, ficou esgotado, a Rua da Praia também terminou.

- Não haverá jeito duma ressurreição? - voltou a indagar.

- Só falando com o José Otávio e conseguindo-se a reedição do livro do Nilo Ruschel – sugeri, esperançado.

Ficamos conversados, abrindo-se, a seguir, um compasso de espera, em cujo interregno, coisa assim de meia hora, minha vizinha resolveu, satisfatoriamente, seu angustiante problema.

Por ocasião da retirada estratégica, inspirada nas artimanhas do Gen. Koutouzov, ao atrair Napoleão para o interior da Rússia tzarista, assistimos a uma anciã botar a boca no mundo, ao ser despojada da respectiva bolsa, com seus proventos de aposentada do INPS, tendo-lhe sido ministrado, com a devida antecedência, uma espécie de rabo de arraia.

Ao defrontarmos a nova área de lazer, menina dos olhos do prefeito Villela, formada com o fechamento de parte da Avenida Borges de Medeiros, alguns engraxates se encontravam em pé de guerra, investindo uns contra os outros, armados com as competentes caixas de serviço.

Então, convidei-a para demorar-se um pouco mais, na expectativa de novos acontecimentos, pois em geral o ambiente se apresenta bem mais desenvolto e beligerante. Diante de sua recusa, procurei demovê-la, argumentando com Balzac, segundo o qual não é de bom alvitre ficar por fora das coisas de sua cidade.

Fazendo ouvidos moucos, ela limitou-se a apelar para meu cavalheirismo, solicitando que tratasse de completar, o quanto antes, as operações de regresso a seu domicílio. Naturalmente foi feita a sua vontade, mas já então resolvi introduzir, na estratégia de retirada, alguns ardis vulgarizados pelo marechal de campo von Rommel, a popular raposa do deserto.

Ao despedir-se, minha vizinha preveniu que não pretende, mas poderá ter de retornar à Rua da Praia, dentro dos próximos 12 anos, não deixando, então, de recorrer novamente aos meus préstimos.



Capa: Tânia Porcher

Foto: Jorge Rolla

Fonte: Reverbel, Carlos. Barco de papel. Porto Alegre: Editora Globo S.A., 1978, p. 127/129.

sexta-feira, 17 de março de 2023

Porto Alegre por Carlos Reverbel



Quando vim para Porto Alegre havia apenas um casarão com pretensões alterosas: o edifício Malakoff. Ficava na Praça 15, ainda não conflagrada e de alta periculosidade, como é de sua natureza hoje em dia. Por causa dessas e outras modificações urbanas às vezes sou convidado a dar meu testemunho sobre a evolução da cidade.



Os rapazes de hoje montaram diversos dispositivos para amolar as velhas gerações. As chamadas entrevistas, em que colhem subsídios para suas pesquisas, funcionam com grande eficiência nesse azucrinante sentido.


Ainda noutro dia fui brindado com a visita de um entrevistador, por sinal condenado ao desemprego, como castigo por ter ingressado no curso de sociologia, profissão que não existe no nosso mercado de trabalho. Em lugar de prestar-lhe pronto socorro, aconselhando-o a mudar de curso, me submeti pacientemente ao seu implacável interrogatório. O futuro “chomeur” queria saber em que medida Porto Alegre tem contribuído para o tipo brasileiro de civilização urbana.


O tema é realmente sedutor, motivo pelo qual merece amplo esclarecimento e vasta divulgação. Senão, vejamos. Como as dúvidas que existiam a respeito já foram dirimidas, permito-me afirmar, em caráter definitivo, que o vendedor-ambulante-parado é uma criação porto-alegrense.


Igualmente porto-alegrense é uma outra inovação, também revolucionária: o “trailer” sem rodas. De acordo com a mais recente estatística, temos na cidade 165 “trailers”, todos sem rodas, o que pode prejudicar sensivelmente o comércio de pneumáticos, mas, em compensação, veio dar novas dimensões à indústria de reboques, permitindo-lhes desempenhar as funções de mercadinhos, quitandas, cafés, bares, restaurantes, lanchonetes, boates e até quartos de alta rotatividade.


Porto Alegre pode reivindicar, ainda, o lançamento do artesanato-em-série, cujas peças, fabricadas mecanicamente, são tocadas pela mão do artesão somente no ato de sua venda ao freguês, operação que se processa a céu aberto e em plena rua, dispensando o trivial e mercenário aparato do comércio lojista.


Os geógrafos mais afoitos têm apontado o aterro do Guaíba como uma solução holandesa, não porto-alegrense. Mas não se pode concordar com a leviana assertiva. Além do odor acre de maresia, o aterro holandês se diferencia do nosso por não ter sido motivado por falta de terra (vulgo espaço vital), o que lhe tira toda a originalidade, enquadrando-o no rol das coisas prosaicas e necessárias. Já o aterro do Guaíba, no seu antropofágico engulimento do rio, não passa de um exercício surrealista de engenharia, pois terra boa e barata nunca nos faltou.


O muro da Mauá, por sua vez, é a primeira tentativa no sentido de criação em grande escala, de uma mitologia porto-alegrense. Foi construído em desafio à posteridade, tudo indicando que jamais será decifrada a sua utilidade. Entretanto, pelas dúvidas, já devia ter sido tombado, pois é sempre possível um arquitetonicídio, como o que ameaça a pranteada Farmácia Carvalho.



Aliás, a Farmácia Carvalho, assim como o saudoso Cinema Guarani, deveriam permanecer em ruínas, a exemplo do Coliseu romano, da Acrópole ateniense e da Igreja do Galo, em São Gabriel, a popular terra dos marechais. Talvez seja mais turístico conservar-se a farmácia e o cinema assim em ruínas, como destroços da antiga civilização da Rua da Praia. Lamentavelmente não poderá fazer parte do conjunto, por já ter sido vítima da picareta do progresso, o não menos histórico Restaurante Ghilosso.


Na falta do vetusto imóvel, talvez seja de boa política abrir voluntariado para tombamento dos fregueses sobreviventes do restaurante, entre os quais me incluo, evocando neste momento solene, através da memória gustativa e com água na boca, o suculento cardápio do extinto estabelecimento, cuja mesa, dentre outros frequentadores históricos, era distinguida, diariamente, pelo abundante e voluptuoso apetite de meu avantajado amigo Oswaldo Goidanich.


Como já tive a lealdade e coragem de confessar, a minha bibliografia, por sinal bastante atentada, é constituída por obras não escritas. Pretendo enriquecê-la oportunamente, com as memórias do Restaurante Ghilosso.


(Agosto, 1978)



Capa: Jairo Devenutto




Fonte: Reverbel, Carlos. Saudações Aftosas. Porto Alegre, Martins Livreiro, 1980, p. 87/88.

Imagem Farmácia Carvalho: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/56/Farm%C3%A1cia_carvalho_-_porto_alegre.jpg

Imagem Ed. Malakoff: https://prati.com.br/porto-alegre/porto-alegre-exercicios-de-bombeiros-edificio-malakoff-decada-1900.html

Acesso 17/03/2023

Sete sílabas de terra vermelha (Paulo Bentancur)

  Montado em sete sílabas, Jayme Caetano Braun (1994 – 1999) não descuida um verso sequer o generoso horizonte da lírica repentista. O seu ...