Circulando
aos sábados e quartas, sem regularidade. Tinha o formato 20 cm X 30
cm, com duas colunas de texto. Foram publicadas 160 edições
totalizando 676 páginas, de 1º de setembro de 1838 a 23 de maio de
1840.
Alguns
autores afirmam que foi Rossetti que comprou, em Montevidéu, a
tipografia para imprimir “O Povo”. Moacyr Flores diz que ele “se
encarregou da aquisição da tipografia junto ao presidente Oribe”.
O
dinheiro, segundo Abeillard Barreto, seria de Domingos José de
Almeida, que vendeu 17 escravos (dos 36 que mantinha alugados em
Montevidéu para sustentar a família) para comprar o prelo e os
tipos para imprimir o jornal.
Homem
rico da Província, Almeida tinha interesses e razões pessoais em
relação ao jornal, conforme consta na Coleção Varela (13 mil
documentos, a maior parte do acervo de Almeida, reunidos pelo
historiador Alfredo Varela).
Num
balancete de contas do governo, de 13 de janeiro de 1837, almeida
refere-se ao “pagamento à tipografia: 3.852$800” (três contos e
oitocentos e cinquenta e dois mil e oitocentos réis).
Para
se ter uma ideia deste valor: no mesmo balancete, há o registro de
um pagamento feito ao general Netto por 371 cavalos, no valor de
3.986$120.
Seis
meses depois, em junho, Almeida remete um ofício ao Presidente da
República, José Gomes Jardim, com um pedido: “(…) Como não
tenha vindo a tipografia, consulto a V. Excia. Se farei bem em mandar
devolver dito capital”. No mesmo papel, consta o despacho do
Presidente: “Suponho que a esta hora a tipografia já está
comprada”.
Almeida
desejava um jornal para desfazer intrigas sobre sua posição de
controle das finanças da recém-fundada República.
Em
ofício de 23 de setembro de 1837, ao capitão Domingos Crescêncio
de Carvalho declara:
“Avisado
por pessoa fidedigna de que alguns oficiais da distinta 1ª Brigada
pretendem meu assassinato por dilapidar os fundos públicos…
nomeiem uma comissão a quem eu mostre minhas contas. Se, porém, meu
sangue é indispensável para fazer prosperar a árvore da liberdade
em nosso país, eu não me retiro, e com ele pode contar”.
Em
outro ofício, 2 meses depois, Almeida insiste para que examinem as
contas apresentadas ao comando da revolução e requisita os
materiais da tipografia:
“Quanto
à tipografia chegar, tinta, papel, e o mais já vindo lhe sejam
entregues não só por ser tudo comprado com dinheiro do suplicante e
com grave sacrifício seu, mas ainda porque desejando ele continuar a
prestar seus serviços à boa causa que esposou pretende tomar a si a
redação de um periódico, onde inserido somente o expediente do
governo, do comandante em chefe e operações do exército trate de
manietar a intriga mostrando os seus perniciosos efeitos e
consequências, e de estabelecer, por meio de exemplos, a evitar de
outros povos em idênticas circunstâncias do nosso, a sã moral e os
bons costumes por hora alterados pelas vicissitudes das coisas”.
Riopardense
de Macedo fez as contas e constatou que os 627 dias de existência de
“O Povo” representam 18,35% do tempo de duração da Revolução
Farroupilha, que se estendeu por 3.446 dias. Rossetti foi seu
“redator”, cargo equivalente ao atual editor, até o número 47,
menos de um terço do total das 160 edições.
Um
bilhete de Domingos José de Almeida, de 1º de abril, descreve o
início do fim do jornal:
“Na
madrugada, evacuamos a capital… o inimigo destruiu todo o arquivo
da contadoria do tesouro e algumas peças de pau da tipografia, a
tinta da mesma e todos os reparos”.
Em
30 de maio de 1840, o governo rio-grandense evacua Caçapava,
perdendo-se a tipografia.
“O
Povo” não volta mais a circular.
Capa: Ivan G. Pinheiro Machado
Reverbel,
Carlos/Bones, Elmar. Luiz Rossetti: o editor sem rosto & outros
aspectos da Imprensa no Rio Grande do Sul. Porto Alegre:
Copesul/L&PM, 1996, p. 118, 120, 121122, 123.