Fonte: Agenda Seeb Santa Rosa, Porto Alegre: Verdeperto editora, 2024
Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
Ou metade desse intervalo, porque também há vida…
Sou isso, enfim…
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.
Capa: Almada Negreiros (1954)
Fonte: Pessoa, Fernando, 1888-1935. Poesia de Álvaro de Campos. São Paulo: Editora Martin Claret, 2006. Coleção a obra-prima de cada autor. Série Ouro; 47, p. 370
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Prefiro rosas, meu amor, à pátria
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.
Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.
Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,
Se cada ano com a primavera
Aparecem as folhas
E com o outono cessam?
E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?
Nada, salvo o desejo de indiferença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.
1-6-1916
Capa: Marcellin Talbot
Fonte: Pessoa, Fernando. Poesia de Ricardo Reis. Coleção a obra-prima de cada autor (250). São Paulo: Editora Martin Claret, 2006, p. 72/73.
Frutos, dão-os as árvores que vivem,
Não a iludida mente, que só se orna
Das flores lívidas
Do íntimo abismo.
Quantos reinos nas mentes e nas coisas
Te não talhaste imaginário! Tantos
Sem ter perdeste,
Sonhos cidades!
Ah, não consegues contra o adverso muito
Criar mais que propósitos frustrados!
Abdica e sê
Rei de ti mesmo.
6-12-1926
Capa: Marcellin Talbot
Fonte: Pessoa, Fernando. Poesia de Ricardo Reis. Coleção a obra-prima de cada autor (250). São Paulo: Editora Martin Claret, 2006, p. 102.
Nada fica de nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pese
Da húmida terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.
Leis feitas, státuas altas, odes findas -
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, por que não elas?
Somos contos contando contos, nada.
28-9-1932
Capa: Marcellin Talbot
Fonte: Pessoa, Fernando. Poesia de Ricardo Reis. Coleção a obra-prima de cada autor (250). São Paulo: Editora Martin Claret, 2006, p. 128/129.
Ninguém a outro ama, senão que ama
O que de si há nele, ou é suposto.
Nada te pese que não te amem. Sentem-te
Quem és, e és estrangeiro.
Cura de ser quem és, amem-te ou nunca.
Firme contigo, sofrerás avaro
De penas.
10-8-1932
Capa: Marcellin Talbot
Fonte: Pessoa, Fernando. Poesia de Ricardo Reis. Coleção a obra-prima de cada autor (250). São Paulo: Editora Martin Claret, 2006, p. 127.
Quer pouco: terás tudo.
Quer nada: serás livre.
O mesmo amor que tenham
Por nós, quer-nos, oprime-nos.
1-11-1930
Capa: Marcellin Talbot
Fonte: Pessoa, Fernando. Poesia de Ricardo Reis. Coleção a obra-prima de cada autor (250). São Paulo: Editora Martin Claret, 2006, p. 120/121.
Inglória é a vida, e inglório o conhecê-la.
Quantos, se pensam, não se reconhecem
Os que se conheceram!
A cada hora se muda não só a hora
Mas o que se crê nela, e a vida passa
Entre viver e ser.
26-4-1928
Capa: Marcellin Talbot
Fonte: Pessoa, Fernando. Poesia de Ricardo Reis. Coleção a obra-prima de cada autor (250). São Paulo: Editora Martin Claret, 2006, p. 112/113.
Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.
1-7-1916
Capa: Marcellin Talbot
Fonte: Pessoa, Fernando. Poesia de Ricardo Reis. Coleção a obra-prima de cada autor (250). São Paulo: Editora Martin Claret, 2006, p. 74/75.
Andas por esos mundos como yo; no me digas
Que no existes; existes, nos hemos de encontrar;
No nos conoceremos, disfrazados y torpes
Por los mismos caminos echaremos a andar.
No nos conoceremos, distantes uno de outro
Sentirás mais suspiros y te oiré suspirar.
¿Dónde estará la boca, la boca que suspira?
Diremos, el camino volviendo a desandar.
Quizás nos encontremos frente a frente algún día.
Quizás nuestros disfraces nos logremos quitar.
Y ahora me pregunto... ¿Cuando ocurra, si ocurre,
Sabré yo de suspiros, sabrás tu suspirar?
Ilustrações: Mariana Gil
Fonte: Storni, Alfonsina (1892-1938). Antologia poética; tradução de Ezequiela Zanco Scapini. Porto Alegre: Editora Coragem, 2020, p. 72.
Veja, quando a gente ama a semente, pode vir a planta que vier.
Pois o amor latente ama fortemente
A essência que faz ser o que é.
Fonte: Vieira, Paulo. O dia que a árvore do meu quintal falou comigo. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2022, p. 19.
Capa: Elder Galvão
Disponível: https://www.livrariascuritiba.com.br/o-dia-que-a-arvore-do-meu-quintal-falou-comigo-lv489960/p
Fui manso como um cordeiro,
Alvo, puro, immaculado;
Fui dos homens o primeiro,
Embora sanctificado.
No fundo abysmo da terra,
Nas entranhas sepultada,
Vivo, se é que vida encerra,
Pobre pedra abandonada.
CONCEITO
Sou da raça que proscripta,
Sobre a terra vive errante;
Sou dessa raça maldicta,
Qu’inda quer ir por diante.
Fonte: Cabrião: semanário humorístico editado por Ângelo Agostini, Américo de Campos e Antônio Manoel dos Reis: 1866-1867. Ed. fac-similar/introdução de Délio Freire dos Santos. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado: Arquivo do Estado, 1982, p. 39.
Reprodução fac-similar do original de 51 fascículos, publicado em São Paulo no período de 30 de setembro de 1866 a 29 de setembro de 1867.
Beijo na face
Pede-se, e dá-se,
Dá?
Que custa um beijo?
Não tenha pejo!
Vá!
Um beijo é culpa,
Que se desculpa:
Dá?
Um beijo é graça,
Que a mais não passa:
Vá!
Teme que a tente?
E' innocente:
Dá?
Guardo segredo,
Não tenha mêdo:
Vê?
Dê-me um beijinho,
Dê, de mansinho,
Dê!
Fonte: Cabrião: semanário humorístico editado por Ângelo Agostini, Américo de Campos e Antônio Manoel dos Reis: 1866-1867. Ed. fac-similar/introdução de Délio Freire dos Santos. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado: Arquivo do Estado, 1982, p. 78.
Reprodução fac-similar do original de 51 fascículos, publicado em São Paulo no período de 30 de setembro de 1866 a 29 de setembro de 1867.
SÃO PAULO, 11 DE DEZEMBRO DE 1866.
Meu querido Gedeão
Das Tramoyas Cansanção.
Ha muito, presado amigo,
Dos meus males doce abrigo,
Pretendia eu novas dar-te
D'esta Patria do Deus Marte;
Porém sempre perseguido,
Pelo fado fementido,
Vivo tão atropelado,
De trabalho estenuado,
Que nem sei como mastigo
As torradinhas de trigo,
Com que dou conforto ao peito,
Já das magoas tão desfeito.
Bem sei eu, que a velha historia,
Por querer turbar a gloria
Aos preclaros descendentes
Dos heroes armipotentes
- Cubas, Pires e Buenos -,
Que venceram Turcos, Brenos,
Chinos, Persas, Anglicanos,
Fanfarroens heroes hispanos
- Sancho Pansa e Dom Quixote -,
A bodoque e chifarote,
Quer, por força, que o Deus Marte
Fosse nado em outra parte.
Eu, porém, protesto e juro,
Do que digo bem seguro,
Que a extrangeira historia mente;
Porque Marte é d'esta gente.
Inda mais, dizer-te quero,
Contra a voz do mundo fero,
Que as victorias d'esta terra
Quer lançar do lodo á berra,
Que São Jorge, o gram guerreiro,
Aqui viu a luz primeiro;
Que São Pedro, o pescador,
Aqui foi agricultor;
E São Paulo, o cabalista,
Pela fama, foi Paulista.
Isto dito, á pressa embhora,
Tratar vou de mim aghora.
Sabes tu, bom Gedeão,
Como vive o cidadão,
Que, mettido entre fidalgos,
Como lebre ao pé de galgos,
Anda sempre amedrontado,
Que lhe-vão, sobre o costado,
Dar de rijo, com pujança,
Por amor da temperança;
Pois o pobre, por mania,
Vive sempre em gritaria
Contra os fóros da nobreza,
Que, arrogante, fera e teza,
Vai malhando na gentalha,
Que pisa, rosna e ralha...
De saude não vou bem;
De dinheiro,... nem vintém;
De namoros... menos mal;
Pois que, sendo jovial,
Não receio ser ferido
Pela setta de Cupido.
E, demais, meu Gedeão,
N'esta era do Balão,
Deve o homem namorar,
Que é negocio bem casar.
Quem pretende hury formosa,
Que em belleza, excede á rosa,
Na candura á neve algente,
Ou do Sol á luz nitente,
Anjo excelso de primores,
Mas sem dote – sem valores...
Será tudo, até beocio;
Nunca homem de negocio.
Tartaruga com dinheiro!...
Isso é vaso e outro cheiro;
Que bem vale o sacrificio,
Que redunda em beneficio;
Nescia ou tola, malcriada,
Ha de ser idolatrada;
Que, á hum noivo calculista,
Nada ha que dê na vista.
O desfructe é distração,
A sandice reflexão.
A feiura symphatia,
Seja torta, velha ou tia;
Pois lá diz o velho adagio,
Dos tartufos apanagio,
- Que o dinheiro tudo encobre
E defeito é só ser pobre-.
Por seu lado, as taes matronas,
Apesar de velharronas,
Soccoridas do postiço,
Que, de alcaides, é feitiço,
Fazem dar volta ao miolo
Do sagaz tartufo ou tolo.
Vê-se aqui cada magriça,
Com formato de linguiça,
Repimpada atroz perúa,
Roçagante pela rua,
Embrulhada em fino raz,
Preza ao braço de hum rapaz,
Tam himpante, tam pimpona,
Que parece huma Amazona,
Ou singrante Náo de Aveiro
Rebocada por Saveiro!
Que rotunda matronaça,
Para quem parece escaça
Toda a terra Americana,
Desde o Prata até Goyana!
Sem postiço a magricela
Dá seus ares de gazela,
De raposa ou velha gata;
Mas, vestida, oh, que Fragata!
Tem postigos, portinholas,
Suspensorios, sugigolas,
Ferros, mastros, cordoalhas,
Encrespadas maravalhas,
Bordas falsas, cabrestantes,
Sondas, boyas e oitantes,
Bujarronas, vela-grande,
Em que o vento audaz se-espande;
Chaminé, carvão e gaz,
Breu, azeite e agua-raz;
Por botinas duas lanchas;
Os dois pés servem de pranchas;
Lenha, estopa, o alcatrão,
Tudo embaixo do Balão!
A garbosa rapazia
Não se-deixa em calmaria:
Cabelleiras, garbinados,
Chapéos pretos, niveos, pardos,
Pince-nez de toda a casta,
Parvoice muito vasta,
Calça larga, á porcalhota,
Gravatinhas de janota,
Tudo tem, com abastança
Quem se-trata com chibança.
Viva a moda, meu amigo,
Morra tudo que é antigo!
Deixa a roça, Gedeão,
Basta já de ser poltrão
Anda: vem para a cidade,
Traz a tua F'licidade,
A Marica, a Josephina,
Bella rosa purpurina.
Quero vel-as estufadas,
De tundás com almofadas,
Rochunchudas e galantes,
Quaes repolhos ambulantes.
Segue a moda e o progresso;
Volta as costas ao regresso.
E' a moda o salvaterio
Dos que a-buscam com mysterio;
Da velhota inconsolavel,
Do janota desfrutavel,
Que campando de galante,
Mostra a todos que é pedante;
Do pansudo sem juizo,
Que com ella cobra o sizo;
Té no próprio Pio nono,
A moda ferrou tal mono,
Que, de humilde franciscano
O-tornou republicano!...
E mais tarde, por magana,
Revirou-o, com tal gana,
Que dos Reis, irmão querido
Fez o Papa fementido.
Modas ha com tal fartura,
Que parece já loucura:
Chapellinhos á franceza,
Babadinhos á turqueza,
Largas mantas, á romana,
Penteados á sultana,
Capotinhos, sedas frouchas,
Franjas, pentes, rendas, trôchas;
Lindas flores indianas,
Molas d'aço, barbatanas,
Para erguer seios cahidos
E fazer guapos vestidos.
N'estes tempos, meu querido,
E' que vale ser marido.
Vê lá tu, que és hum mestraço,
Com teus visos de madraço,
Si não é hum grande achado
Este meu enunciado.
E si pescas da sciencia,
Nota bem a consequencia:
Sabe o marido, coitado,
Pela esposa fulminado,
Vai á loja da Madama,
Que é modista d'alta fama,
Compra leques, luvas, cheiros,
Traz comsigo seis caixeiros,
Carregados de chocalhos,
Que não valem cascas d'alhos,
E, de amores transportando,
Sem se-ver pobre e pellado,
Chama a Eva portentosa,
Que vem toda vaporosa,
De cabello esparralhado,
Vestido longo arrastado,
Bocejando, com desdem,
Como quem mil contos tem,
Ergue os olhos molemente;
Encara o pobre demente,
E, com ar de gran Sultana,
Brada ao tal José-Banana:
« Inda aqui não vejo tudo!
« Que é da capa de velludo?
« O vestido de chalim?
« O toucador de marfim?
« O corpinho decotado?
« O mantellete bordado?
« Pois eu hei de ir ao Cantante
« Sem pulseira de brilhante?
« Ande. Vá buscar o resto,
« Que, se não, já lhe-protesto,
« (Isto diz rufando as patas)
« De o-mandar plantar batatas!...»
E que tal, meu Gedeão,
Te-parece este sermão?
Vou casar-me, quanto antes,
Para ter destes instantes.
Depois d'isto a consequencia,
Que nos-mata a paciencia:
Muito filho malcriado,
Muito cueiro perfumado,
Choros, berros, gritaria;
Vem depois a estrepolia,
As escholas, os collegios,
E mais outros privilegios,
Que o papae ha de pagar,
Sem tugir, nem resmungar.
Quando quer a negra sorte,
Hum capricho da consorte,
Que, por artes do demonio,
Ou encantos de Trophonio,
Torce a orelha e poem cabana
Ao marido, que é pastrana;
E com labia e com geitinho
D'elle faz hum coitadinho...
De outras cousas, Gedeão,
Inda cá tenho porção.
De politica não fallo.
Pois que é sino sem badalo,
Em que vai qualquer tarelo
Repicar com seu martelo:
E' negocio de velhacos,
Que só serve para os Cacos.
Do Papado nada digo,
Vivo alheio, charo amigo,
A' batina e á corôa,
nN'isto sempre andei atôa.
Faço ponto, Gedeão;
Até outra occasião.
Não te-zangues da maçada,
Que já vai mui prolongada;
E dispoem, si assim te apraz,
Do teu velho
BARRABRAZ.
S. Paulo – 1866 – Typ. IMPARCIAL
Fonte: Cabrião: semanário humorístico editado por Ângelo Agostini, Américo de Campos e Antônio Manoel dos Reis: 1866-1867. Ed. fac-similar/introdução de Délio Freire dos Santos. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado: Arquivo do Estado, 1982, p. 95.
Reprodução fac-similar do original de 51 fascículos, publicado em São Paulo no período de 30 de setembro de 1866 a 29 de setembro de 1867.
Batuque Rural na Bateria Fonte: https://viasabertas.com.br/nossos-trabalhos/livro-o-balanco-da-mata-norte-batuque-rural-na-bateria-2026...