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sexta-feira, 17 de março de 2023

"Patriarca" Borges de Medeiros, por Carlos Reverbel

Futuroso e outros adjetivos

Já funcionou em Porto Alegre uma bolsa política, cujas cotações eram apregoadas por intermédio de adjetivos, através das colunas do jornal “A Federação”, órgão do Partido Republicano Rio-Grandense. O Dr. Borges, então presidente do Estado e chefe unipessoal do partido dominante, era quem punha e dispunha no singular pregão.

O adjetivo futuroso era reservado a jovens paladinos que se lançavam na carreira política. No início era empregado com fartura, alcançando a muitos competidores, indóceis no partidor quais fogosos corcéis, à imagem e semelhança dos que se apresentavam no hipódromo dos Moinhos de Vento. Com o tempo, começava a diminuir o emprego do adjetivo, até ficar limitado a uns dois ou três o páreo dos futurosos. Ficava-se então sabendo que pelo menos um entre eles seria incluído na próxima chapa republicana para a Assembleia dos Representantes, primeiro degrau da escalada parlamentar.

Como todo jornal, “A Federação” tinha um diretor, mas quem a dirigia era o Dr. Borges. Todo santo dia, ali pelas dez horas (o influente órgão era vespertino), um rapazote ia ao Palácio levar as provas do editorial e da matéria política, a fim de submetê-las ao crivo presidencial. O poderoso morubixaba as examinava, introduzindo-lhes modificações de próprio punho, se fosse o caso. E costumava fiscalizar, com especial rigorismo, o emprego dos adjetivos, para evitar repercussões equivocadas na bolsa política.

O saudoso companheiro Tircio Teles de Miranda Ferrari começou na imprensa local, ainda rapazola, exercendo as funções de estafeta entre “A Federação” e o Palácio do Governo. Durante alguns anos foi portador das provas tipográficas que deviam ser submetidas ao dono do poder, tarefa para a qual a pessoa era escolhida a dedo. O jovem estafeta terminou ficando amigo do Dr. Borges e um dos seus homens de confiança dentro de “A Federação”. E quando o velho cacique caiu, o Tircio Ferrari caiu junto, “morrendo” abraçado com o chefe, por pura lealdade, procedimento que poucos tiveram na ocasião, como sempre acontece em tais circunstâncias.

Já despido de todo o mando, um dia o Dr. Borges subiu as escadas do “Correio do Povo” e pediu ao Dr. Breno um lugar na redação para o Ferrari. O pedido foi atendido na hora e o Tircio Ferrari assumiu na redação do velho róseo o que então se denominava “página no interior”. E assim o tivemos na velha casa, como exemplar companheiro, até seu prematuro falecimento, tendo ele programado a própria morte, como nos tempos do romantismo. Uns poucos sobreviventes continuam a zelar pela sua memória. E toda vez que me lembro dele penso na palavra lealdade. Foi a lição que deixou aos amigos e a herança que legou aos parentes.

Admirável palestrador, o Ferrari conhecia de cor e salteado os adjetivos empregados e sua cotação na bolsa política de “A Federação”, recordando com muita verve episódios relacionados com a curiosa instituição, talvez a única, no gênero, que tenha existido no mundo partidário. Júlio de Castilhos, um ser substantivo por excelência, era colocado acima de toda adjetivação, recebendo, invariavelmente, o grau e o título de “patriarca”. Alguns republicanos históricos admitiam a superioridade do Arquiteto do Universo e de Augusto Comte. Outros, nem esta.

A escala das cotações, que começava modestamente, com o adjetivo futuroso, ia tomando vulto e ganhando proporções até chegar ao adjetivo preclaro, privilégio de muitos poucos, com a minguada nominata sendo encabeçada por Pinheiro Machado. Desde o momento em que assumiu a sua cadeira cativa no Senado, até o dia em que foi assassinado, pelas costas, conforme previra, as notícias de “A Federação” sobre o grande líder começavam sempre assim: “O nosso preclaro correligionário, senador Pinheiro Machado”, etc, etc. Antes de chegar ao Senado, nenhum prócer do Partido Republicano recebia o tratamento de preclaro.

Naquela época, havia uma miniatura do Dr. Borges, em termos de poder, na maioria dos municípios rio-grandenses, tendo-se o cuidado de que, sempre que possível, nas comunidades, de origem alemã e italiana, o cacique local fosse da mesma origem. O velho Muratore marcou época em Caxias, ainda quando as casas eram quase todas de madeira. Alcancei os restos dessa época, ocasião em que conheci o Italo Balen menino, mas já antecipando, pela inteligência e pelo coração, o homem que viria a ser, para os amigos, a família e a comunidade.

Assim como o Presidente não largava as rédeas do governo, reelegendo-se com absoluta regularidade, era de seu agrado dispor de prepostos que pudessem fazer o mesmo, nos municípios, dando preferência ao tipo do coronel à moda rio-grandense, bem diferente dos que atuaram e ainda atuam em outros pontos do país, com invejável sucesso em teimosas regiões nordestinas. Como o chefe, alguns desses coronéis chegaram a permanecer mais de 20 anos dando as cartas e jogando de mão.

Por incrível que possa parecer, eram eles quase sempre boas pessoas, no sentido paternalista. Não raro financiavam as atividades partidárias locais. E as suas posses frequentemente iam diminuindo, diminuindo, até deixá-los na clássica postura da pobreza com dignidade, com uma mão adiante e a outra no traseiro. A política municipal, com suas tricas e futricas, deixou muita gente de tanga, no tempo dos coronéis, com as exceções de praxe, naturalmente. Os coronéis eram aquinhoados pela “A Federação” com o adjetivo prestigioso, mesmo depois de prontos.

Conta-se que um desses militares da Guarda Nacional, ao ser recebido pelo Dr. Borges, teve a infeliz ideia de começar conjugando o verbo pensar. Interrompido de imediato pelo Presidente, que em tais circunstâncias costumava levantar o dedo em riste, não foi além da primeira pessoa do presente do indicativo: “Eu penso”. Então o Dr. Borges, cuja dignidade o elevara à casta dos intocáveis, tomou a palavra e proferiu uma frase que ficou célebre: “O senhor pensa que pensa, mas quem pensa sou eu”. Mais tarde ficou esclarecido que o sentido da frase fora distorcido, por obra do que então se chamava de intriga da oposição, campo onde atuavam eméritos fofoqueiros, tanto nas áreas municipais e estaduais, como naturalmente, também nas federais.

O que houve foi o seguinte: tendo o desastrado coronel cometido uma heresia partidária, o Dr. Borges, sempre rígido e ortodoxo, o advertiu na hora, com certa severidade, dada sua condição de chefe unipessoal do Partido. E, assim, quando disse “quem pensa sou eu”, não estava se referindo a si próprio, mas à entidade dona do Partido, que ele encarnava. O que, de resto, era absolutamente correto, pois o Partido, afinal de contas lhe pertencia, de fato e de direito, tendo sido recebido de mão beijada, em parte por herança e em parte por usucapião.

E tanto tudo isto era a pura expressão da verdade histórica que o Dr. Borges deixou a chefia num dia e logo no outro, de madrugadita, o então todo poderoso Partido Republicano Rio-Grandense começou a morrer, de tuberculose galopante, cabendo ao Dr. Getúlio botar a vela na mão do moribundo e segurar na alça do caixão do defunto.

(Março, 1979)



Fonte: Reverbel, Carlos. Saudações Aftosas. Porto Alegre, Martins Livreiro, 1980, p. 33/35

Meninórias porto-alegrenses (Carlos Reverbel)

 

Mudança para Bruxelas


Não tenho pejo de confessar que sou um cidadão acomodado e omisso e, como tal, completamente destituído de espírito público. Isto não impede, entretanto, que seja de parecer que indivíduos deste jaez deveriam ser fuzilados, a começar por mim, naturalmente.


Relendo as palavras alinhadas acima, não posso deixar de acrescentar que, apesar de me falecerem os sentimentos cívicos, sou bem aquinhoado de outras virtudes, modéstia à parte. Duvido, por exemplo, que o pessoal aqui da redação (a partir do “copy-desk”) seja capaz de amparar as palavras em desuso, como eu as amparo, empregando-as com frequência, naturalidade e, sobretudo, com abundância de coração.


Isto posto, sinto-me perfeitamente à vontade para declarar que, no dia de hoje, minha afeição está voltada para as palavras pejo e jaez, empregadas logo no início destas poucas e mal traçadas linhas, por motivos humanitários, pois acho uma crueldade como começam a ser relegadas pelas pessoas de bom gosto e fino trato.


Peço ao “copy-desk” que as respeite, embora sabendo-o de ordinário desalmado. É que, estando quase em desuso, elas se encontram quase moribundas, merecendo, assim, mais respeito e comiseração do que se já estivessem exalado o último suspiro.


Por causa do meu desmedido, quando não desvairado amor pelas palavras que estão em capítulo de morte, ultimamente tenho frequentado os clássicos, com bastante assiduidade e proveito. Ainda outro dia, lendo “A família e a festa na roça”, do nosso querido Martins Pena, deparei com esta fala do personagem Juca: “Na cidade, isso se fia mais fino. Há meninórias finas como lã de cágado”.


Entre parêntese: proponho a inclusão desta passagem da famosa comédia na prova de português dos próximos exames vestibulares. Os candidatos, em geral meninórios, ficariam muito bem servidos para darem largas aos seus vastos conhecimentos de vernáculo e humanidades.


Talvez tenha sido Martins Pena o último autor a levar ao palco o substantivo meninória, mas a palavra ainda não foi retirada do “Aurelião”, sendo este um dos motivos por que serei eternamente grato ao grande dicionarista, de alta estirpe alagoana, não paulistana, diga-se “en passant”.


Tenho usado com relativo êxito o sinônimo moçoila, mas pretendo, na primeira oportunidade, colocá-lo na geladeira, substituindo-o pelo termo meninória, bem mais arcaico e, como tal, bem mais chegado ao meu velho coração cansado.


Se as meninórias, segundo Martins Pena, eram “finas como lã de cágado”, afinal de contas, o que vem a ser a aludida lã e o respectivo cágado?

Depois de ter consultado meus alfarrábios, vendo pelo que comprei esta pequena elucidação: aplicava-se a expressão, em priscas eras, às mulheres dotadas de malícia e esperteza. Quer me parecer, no entanto, que Martins Pena avançou um pouco o sinal, ao estendê-la às meninórias, pois estas, naqueles recuados tempos, eram em geral pulcras, pudicas e pundonorosas, senão bonocas, no sentido lato da palavra.


Por falar em meninórias, defendo a teoria segundo a qual os apreciadores do material, se moradores de Porto Alegre, não deveriam procurá-las em outros lugares. Além de existirem em profusão, eu vos asseguro, do alto da minha senilidade, que as meninórias mais bonitas do globo terráqueo fixaram residência em Porto Alegre, muito antes da obra de humanização da cidade levada a efeito pelo nosso excelente prefeito.


Outra coisa: elas estão muito bem representadas tanto na classe A, como na B e até mesmo na C, podendo ser encontradas, nestas condições, tanto nos Moinhos de Vento, como na Rua da Varzinha e até mesmo no Campo da Tuca.


Meninórias que em Paris serviriam para modelo dos grandes costureiros e que interromperiam o trânsito nos Champs Elysées (pela primeira vez na história da França), aqui podem ser encontradas até mesmo entre estouvadas balconistas e trêfegas bancárias.


Neste festival de belas meninórias, nada mais comovente do que ser moça feia em Porto Alegre, mesmo pendendo para o tipo engraçadinho. Em tais casos, aliás, pouco frequentes, costumo aconselhar mudança de domicílio, se possível para Bruxelas, onde qualquer porto-alegrense seria apontada como tipo de rara beleza.


(Fevereiro, 1979)



Fonte: Reverbel, Carlos. Saudações Aftosas. Porto Alegre, Martins Livreiro, 1980, p. 14/15.

Rua Coronel Bordini (Carlos Reverbel)


Caso estranho 


Trata-se do seguinte: o comportamento do automóvel na Rua Coronel Bordini. Embora estranho, o fenômeno pode ser constatado ao vivo por qualquer observador, bastando 20 por cento de olhos de lince e outros tantos de ouvidos de mercador, índices ao alcance do homem comum.


Carros absolutamente normais, à medida em que vão se aproximando da referida via pública começam a entrar em parafuso, ficando completamente transtornados ao atingi-la. O estranho fenômeno se agrava, de forma galopante, na chamada calada da noite. Aliás, esta expressão pode ser aplicada a qualquer lugar, menos em relação à Rua Coronel Bordini, onde a última calada da noite teria ocorrido, segundo os moradores mais antigos, por volta de fevereiro de 1920, ainda na gestão do prefeito José Montauri de Aguiar Leitão.


Além das tradicionais correrias, com os canos de descarga em ritmo de discoteca e as buzinas botando a boca no mundo, agora deram para aparecer automóveis que perdem a identidade ao entrar na Rua Coronel Bordini, assumindo outras funções, como a de campainhas, por exemplo. Em lugar de apertar na campainha, o motorista aperta a buzina. E a pessoa procurada abre-lhe a porta da casa ou a janela do apartamento, indo ao seu encontro ou convidando-o a entrar.


Mas, afinal de contas o carro-campainha não passa de uma amenidade perto do que aconteceu com o pobre do seu Percílio. Ainda não se fez a estatística, mas a esquina da coronel Bordini com a 24 de outubro deve deter o recorde porto-alegrense de atropelamento de pedestres e acidentes de trânsito. Tanto assim que há moradores da zona que fazem o sinal as cruz antes de atravessá-la. Outros fazem promessas ou pedem graças ao Padre Reus. E alguns não se animam a atravessá-la, remontando até a esquina da Hilário Ribeiro. São os que acreditam piamente naquela história de que o seguro morreu de velho.


Com o aparecimento dos supermercados, houve o desaparecimento dos bodegueiros. Mas alguns, antes de fecharem o negócio, conseguiram vendê-lo a incautos seduzidos pela ideia de ingressarem no ramo de secos e molhados, como se dizia na “belle époque”. Recém chegado do interior, trazendo no bolso o produto da venda de sua colônia, o seu Percílio foi um desses incautos, comprando um armazém situado nas cercanias da fatídica esquina formada pela Bordini e a 24 de Outubro.


Logo me inscrevi entre os seus fregueses, tirando a respectiva caderneta, como aquelas de antigamente.


Por sinal, tenho uma vizinha, a dona Carmosina, que coleciona cadernetas de armazém, datada a primeira de 1912, coincidentemente o ano em que vim ao mundo, sem consulta prévia, configurando-se, assim, o primeiro atentado contra os direitos humanos de que fui vítima neste vale de lágrimas. Prefaciadas e anotadas pelo prof. Gudin, essas cadernetas poderiam ser publicadas como subsídio para a história da inflação no país.


O armazém do seu Percílio funcionou até o momento em que ele foi atropelado por um carro na esquina da morte, isto é, na esquina da Bordini com a 24 de Outubro. O seu corpo ficou de barriga para cima, no meio da rua. Logo chegou uma vizinha com uma espécie de lençol. Outra trouxe uma vela. Mas os motoristas que se aproximavam e não podia passar ficavam por conta com o cadáver.


Não é preciso acrescentar que tudo ficou por isso mesmo, pois o motorista goza no Brasil das prerrogativas dos menores, também sendo beneficiado pelo estatuto da irresponsabilidade penal. Por esse motivo, sou de parecer que não se deve andar armado de revólver, nem de facão, nem de metralhadora, nem de bomba molotov, mas apenas de automóvel. É quanto basta para matar e não ir para a cadeia.


Com o assassinato impune do último bodegueiro da zona, fiquei privado de alguns prazeres do cotidiano, como o de adquirir feijão preto embrulhado em papel de jornal. Embora continue a cozinhar o produto em panela de ferro e fogão à lenha, não é a mesma coisa, pois o feijão perde muito de seu caráter popular quando vem na sofisticação das embalagens modernas, tipo supermercados. Aliás, esses estabelecimentos são acima de tudo um festival de embalagens, coisas não comestíveis, razão pela qual só alimentam a barriga da inflação.


(Março, 1977)




Capa: Jairo Devenutto

Fonte: Reverbel, Carlos. Saudações Aftosas. Porto Alegre, Martins Livreiro, 1980, p. 71/72.

Ardil contra Rui (Carlos Reverbel)

 

Encontrei um escritor muito agastado por causa dos erros de revisão com que apareceu seu último livro. Surpreendi-o numa livraria, de esferográfica em riste, fazendo correções nos exemplares ali colocados à venda.


Suponho que vai percorrer, na sua via-sacra autoral, todas as casas do ramo, hoje acrescidas de alguns supermercados. Talvez fosse menos cansativo recolher a edição, mas não ousei apresentar-lhe a ideia. Não se podia prever do que será capaz um beletrista em tais circunstâncias.


Pelo trabalho braçal de que fui espectador, este encontro de livraria me colocou frente a uma atitude nova na vida literária. Os autores costumam, quando muito, corrigir falhas tipográficas, de próprio punho, nos exemplares destinados aos críticos. E, às vezes, procedem do mesmo modo, como deferência em relação a amigos.


Guardo um livro de Gilberto Amado, cravejado de emendas feitas pela mão do notável escritor. E ainda outro dia recebi “O contrabando no sul do Brasil”, de Guilhermino Cesar, com diversas correções e alguns acréscimos manuscritos, reproduzindo palavras que a linotipo havia devorado, com apetite antropofágico.


Não chegarei ao ponto de fazer o elogio do erro de revisão, mas não esqueço que um dos livros mais interessantes que li, parece que esqueceram de fazer a revisão, tal a mixórdia tipográfica em que foi apresentado. Refiro-me a “Se não me falha a memória”, de Joaquim de Sales, um mineiro que fez jornalismo político no Rio, em alto nível, e terminou como deputado federal pelo seu Estado. Não sei de outra obra em que tenha refletido, com tanta expressividade, a vida parlamentar da chamada República Velha, retratada através da atuação dos grandes nomes que passaram pela Câmara e pelo Senado, no período compreendido entre a primeira constituinte republicana e a Revolução de 30.


De Germano Hasslocher, hoje nome completamente esquecido, mas que foi das figuras mais singulares da política rio-grandense nos tempos de Pinheiro Machado e Júlio de Castilhos, conta Joaquim de Sales um episódio que dá a medida não só da argúcia, como da eloquência e do preparo de que era dotado aquele parlamentar gaúcho.


A grande dor de cabeça de Pinheiro Machado, na época que antecedeu a Campanha Civilista, era encontrar um nome no parlamento que estivesse à altura de responder os ataques e as críticas de Rui Barbosa.


A escolha recaiu em Germano Hasslocher, e sua primeira iniciativa, para dar conta do recado, foi entrar em contato com o livreiro de Rui Barbosa, encarregando-lhe de também adquirir para ele, daí em diante, todos os livros que Rui Barbosa encomendasse para si próprio. E assim o astuto parlamentar rio-grandense, que era versado em diversas línguas, passou a contar com as novidades bibliográficas estrangeiras, jurídicas, filosóficas, políticas, sociológicas e literárias, com as quais Rui Barbosa costumava embasar a opinião pública nacional.


A partir de então, toda vez que a Águia de Haia fazia as suas famosas demonstrações de erudição, Germano Hasslocher saia ao seu encalço, respondendo-lhe com os mesmos autores, citados no original. Acabara o reportório de novidades de que o grande baiano era usufrutuário exclusivo. E isto passou a irritá-lo a ponto de fazer com que, por vezes, ficasse perturbado e levasse desvantagem na discussão.


(Novembro, 1978)




Capa: Jairo Devenutto


Fonte: Reverbel, Carlos. Saudações Aftosas. Porto Alegre, Martins Livreiro, 1980, p. 69/70.

No Tempo do churrasco (Carlos Reverbel)



Embora fosse naturalista, interessado principalmente em botânica, Saint-Hilaire não se limitou a fazer pesquisas nesse campo, durante o roteiro de nove meses e 1500 quilômetros que cumpriu no Rio Grande do Sul, em 1820, vadeando rios e arroios, pois não existia nenhuma ponte.


Além de trabalhos d herborização, objetivo específico de sua viagem, manteve um diário em que ia anotando o que observara à sua volta, pelos caminhos percorridos ora a cavalo, ora de carreta; não de “carroça”, como diz o tradutor brasileiro.


Não raro Saint-Hilaire se identificava com o agreste meio ambiente, a ponto de não só experimentar, por simples curiosidade, certos hábitos nativos, mas de cultivá-los regularmente nas suas andanças. Foi assim que se tornou habitual tomador de chimarrão, enquanto transitou pelo Rio Grande do Sul.


A primeira vez que provei essa bebida – informa o naturalista – achei-a sem graça, mas logo me acostumei a ela, e atualmente tomo vários mates, de enfiada, mesmo sem açúcar.”


Saint-Hilaire atribuía diversas propriedades ao mate, inclusive a de ser estomacal e, “por conseguinte, necessário a uma região onde se come enorme quantidade de carne, sem os cuidados da perfeita mastigação.”


A carne não era degustada, era engolida, com maus modos, pouca mastigação e voracidade um tanto quanto canina. Mas agora estamos entrando numa fase em que a carne será degustada com fina etiqueta e requintes de voluptuosa mastigação. Deixando de dar o ar de sua graça no trivial caseiro, receberá as honras devidas aos pratos de alta culinária.


Na atual escassez e carestia do produto, resta-nos o consolo de podermos recordá-lo, com água na boca, tal como era deglutido nos velhos tempos. A exemplo do que fez no seu diário, em relação a tantos aspectos da vida cotidiana rio-grandense, Saint-Hilaire desce aos mínimos detalhes, ao fixar os hábitos alimentares do gaúcho, desabridamente, quando não exclusivamente carnívoro, ao tempo de sua viagem.


Referindo-se ao que lhe ofereceram para comer numa estância em que se hospedou, o naturalista assim alude ao cardápio, formado por vários pratos, mas na base de um só ingrediente:


O bom Silvério quis fazer-me almoçar esta manhã, sendo a refeição, como a de ontem à tarde, inteiramente composta de carnes. Nesta região não se come outra coisa. Carne cozida, carne assada, carne picada ou cortada em pedaços, sempre a carne e quase sempre de vaca ou de boi”.


Conta ainda que os estancieiros, mesmo os de menores posses, costumavam carnear uma ou duas reses, para oferecer aos seus visitantes, pedindo-lhes que escolhessem os pedaços de sua preferência, enquanto os restantes eram abandonados no local da carniça. A carne sobrava tanto na mesa do patrão e sua família, como na dos empregados e escravos.


Ainda segundo Saint-Hilaire, num intervalo entre as guerras com o Prata, a guarnição da fronteira ficou durante 27 meses sem receber soldo. Sem dinheiro para comprar outros alimentos, os oficiais e soldados se mantiveram, todo esse tempo, somente na base do churrasco, não havendo sal nem farinha.


Aliás, como também observa o naturalista, a circunstância das tropas da fronteira se alimentar quase exclusivamente de carne muito contribuía para a mobilidade de suas operações militares, pois não precisavam carregar lentos e pesados trens de guerra, com cargueiros e carretas para o transporte de seu aprovisionamento. O gado se deslocava por seus próprios meios de locomoção, acompanhando o ritmo das marchas da cavalaria.


(Outubro, 1979)




Capa: Jairo Devenutto

Fonte: Reverbel, Carlos. Saudações Aftosas. Porto Alegre, Martins Livreiro, 1980, p. 57/58.

Porto Alegre por Carlos Reverbel



Quando vim para Porto Alegre havia apenas um casarão com pretensões alterosas: o edifício Malakoff. Ficava na Praça 15, ainda não conflagrada e de alta periculosidade, como é de sua natureza hoje em dia. Por causa dessas e outras modificações urbanas às vezes sou convidado a dar meu testemunho sobre a evolução da cidade.



Os rapazes de hoje montaram diversos dispositivos para amolar as velhas gerações. As chamadas entrevistas, em que colhem subsídios para suas pesquisas, funcionam com grande eficiência nesse azucrinante sentido.


Ainda noutro dia fui brindado com a visita de um entrevistador, por sinal condenado ao desemprego, como castigo por ter ingressado no curso de sociologia, profissão que não existe no nosso mercado de trabalho. Em lugar de prestar-lhe pronto socorro, aconselhando-o a mudar de curso, me submeti pacientemente ao seu implacável interrogatório. O futuro “chomeur” queria saber em que medida Porto Alegre tem contribuído para o tipo brasileiro de civilização urbana.


O tema é realmente sedutor, motivo pelo qual merece amplo esclarecimento e vasta divulgação. Senão, vejamos. Como as dúvidas que existiam a respeito já foram dirimidas, permito-me afirmar, em caráter definitivo, que o vendedor-ambulante-parado é uma criação porto-alegrense.


Igualmente porto-alegrense é uma outra inovação, também revolucionária: o “trailer” sem rodas. De acordo com a mais recente estatística, temos na cidade 165 “trailers”, todos sem rodas, o que pode prejudicar sensivelmente o comércio de pneumáticos, mas, em compensação, veio dar novas dimensões à indústria de reboques, permitindo-lhes desempenhar as funções de mercadinhos, quitandas, cafés, bares, restaurantes, lanchonetes, boates e até quartos de alta rotatividade.


Porto Alegre pode reivindicar, ainda, o lançamento do artesanato-em-série, cujas peças, fabricadas mecanicamente, são tocadas pela mão do artesão somente no ato de sua venda ao freguês, operação que se processa a céu aberto e em plena rua, dispensando o trivial e mercenário aparato do comércio lojista.


Os geógrafos mais afoitos têm apontado o aterro do Guaíba como uma solução holandesa, não porto-alegrense. Mas não se pode concordar com a leviana assertiva. Além do odor acre de maresia, o aterro holandês se diferencia do nosso por não ter sido motivado por falta de terra (vulgo espaço vital), o que lhe tira toda a originalidade, enquadrando-o no rol das coisas prosaicas e necessárias. Já o aterro do Guaíba, no seu antropofágico engulimento do rio, não passa de um exercício surrealista de engenharia, pois terra boa e barata nunca nos faltou.


O muro da Mauá, por sua vez, é a primeira tentativa no sentido de criação em grande escala, de uma mitologia porto-alegrense. Foi construído em desafio à posteridade, tudo indicando que jamais será decifrada a sua utilidade. Entretanto, pelas dúvidas, já devia ter sido tombado, pois é sempre possível um arquitetonicídio, como o que ameaça a pranteada Farmácia Carvalho.



Aliás, a Farmácia Carvalho, assim como o saudoso Cinema Guarani, deveriam permanecer em ruínas, a exemplo do Coliseu romano, da Acrópole ateniense e da Igreja do Galo, em São Gabriel, a popular terra dos marechais. Talvez seja mais turístico conservar-se a farmácia e o cinema assim em ruínas, como destroços da antiga civilização da Rua da Praia. Lamentavelmente não poderá fazer parte do conjunto, por já ter sido vítima da picareta do progresso, o não menos histórico Restaurante Ghilosso.


Na falta do vetusto imóvel, talvez seja de boa política abrir voluntariado para tombamento dos fregueses sobreviventes do restaurante, entre os quais me incluo, evocando neste momento solene, através da memória gustativa e com água na boca, o suculento cardápio do extinto estabelecimento, cuja mesa, dentre outros frequentadores históricos, era distinguida, diariamente, pelo abundante e voluptuoso apetite de meu avantajado amigo Oswaldo Goidanich.


Como já tive a lealdade e coragem de confessar, a minha bibliografia, por sinal bastante atentada, é constituída por obras não escritas. Pretendo enriquecê-la oportunamente, com as memórias do Restaurante Ghilosso.


(Agosto, 1978)



Capa: Jairo Devenutto




Fonte: Reverbel, Carlos. Saudações Aftosas. Porto Alegre, Martins Livreiro, 1980, p. 87/88.

Imagem Farmácia Carvalho: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/56/Farm%C3%A1cia_carvalho_-_porto_alegre.jpg

Imagem Ed. Malakoff: https://prati.com.br/porto-alegre/porto-alegre-exercicios-de-bombeiros-edificio-malakoff-decada-1900.html

Acesso 17/03/2023

Crime e Castigo, O Assalto a Casa de Câmbio em Porto Alegre - 1911 (Carlos Reverbel)

 


O Dr. Joaquim Tibúrcio de Azevedo estava fazendo a barba no Salão Brasil. Como era de seu costume, chegou ao estabelecimento às primeiras horas da matina. Enquanto escanhoava o ilustre causídico, o popular Galdino Franco, novidadeiro como todo bom fígaro, colocava-o ao corrente dos últimos acontecimentos.


Eis senão quando, o sossego da Rua da Praia é sacudido por diversos estampidos de armas de fogo, disparados dentro do prédio fronteiro, uma conceituada Casa de Câmbio. O Dr. Tibúrcio, metade da barba feita e a outra metade por fazer, mas já devidamente ensaboada, precipitou-se da cadeira, ganhando a rua, no que foi seguido pelo seu trêfego barbeiro.


Ainda deu tempo para ambos assistirem a retirada de quatro indivíduos de feições eslavas que, trajando a caçador, “empunhavam pistolas fumegantes, tipo Browning”. Na Casa de Câmbio, local do insólito episódio, jazia crivado de balas o corpo de infeliz “rato branco”.


De linha estendida, os atiradores desapareceram na esquina da Rua do Comércio, dirigindo-se para a Praça 15 de Novembro, onde tomaram um carro e obrigaram o boleeiro a conduzi-los, a toda a brida, para lugar incerto e não sabido.


Na disparada, quando alcançava a Praça Visconde do Rio Branco, o carro atropelou uma carroça, não por imperícia do boleeiro, mas em razão do estado de pânico de que fora possuído, pois a corrida de que era protagonista parecia, na sua vertiginosa andadura, com as disputas de diligência em filmes de “far-West”. No acidente, pereceu um dos cavalos de tiro, com a verilha atravessada pelo varal da carroça.


Sempre empunhando suas armas automáticas, os fugitivos abandonaram a desastrada carruagem e prosseguiram a pé, somente se detendo na frente da usina da Cia. Força e Luz, uns três quarteirões além do teatro dos acontecimentos. Foi quando apareceu, providencialmente, um bonde Navegantes, que vinha para o centro da cidade, cheio de “ilustres passageiros”, inclusive o “belo tipo faceiro” de que fala a famosa quadrinha publicitária.


Concluída num abrir e fechar de olhos a operação de ocupação do bonde, o motorneiro foi obrigado a fazer cara-volta, enquanto alguns passageiros conseguiram despencar-se do veículo pelo caminho, sofrendo pequenas fraturas e escoriações generalizadas. Os fugitivos trocavam entre si, de longe em longe, palavras arrevezadíssimas, numa língua de trezentos diabos.


Chegados ao fim da linha, em tempo recorde, fizeram baldeação para uma carroça de leiteiro, o único veículo que ali se encontrava, naquela maldita hora. Por coincidência, evolavam-se pelas janelas de uma residência, situada no bucólico fim-de-linha, os acordes do “Maldito Tango”, dedilhado ao piano por gentil donzela.


O leiteiro, que atendia pelo nome de Mateus Borato, não teve dúvidas em desvencilhar-se dos seus tarros de leite (aliás “batizados” numa sanga das redondezas), cedendo lugar, na sua pequena carroça, aos inquietos e inquietantes fugitivos. Amontoados no veículo, mandaram tocar, através de gestos de expressiva mímica, para a várzea do Gravataí, onde desembarcaram, embrenhando-se nos brejos e matagais que ainda a revestiam, ecologicamente. Estando-se na plenitude de outubro, havia florada na várzea, com generosa colaboração dos maricás, unhas-de-gato, espinilhos e corticeiras.


A todas essas, o Dr. Tibúrcio e o barbeiro Galdino já haviam comunicado a ocorrência às autoridades. Incontinente, um destacamento da Brigada Militar e outro da Guarda Civil, este constituído pelos chamados “ratos brancos” (aliás, de saudosa memória). Marcharam para a várzea do Gravataí, tendo como “guia Lopes” da expedição o leiteiro Borato, tão compenetrado de sua missão quanto o legendário vaqueano da Retirada de Laguna.


Embora tresnoitado, o repórter Mário Cinco Paus já estava a postos, tendo rumado, num cabriolé de duas rodas e capota móvel, para a zona de perigo. O popular repórter, tipo pernalta e de nariz adunco, ia preparado para tudo embora não envergasse indumentária de campanha. Não se separara, sequer, da velha picareta (já abaiada pelo uso) nem da longa bengala de junco, com as quais dava o toque pessoal na sua desataviada indumentária.



Por sua vez, o orador popular Carlos Cavaco fizera inflamados discursos pelas esquinas da Rua da Praia, concitando o povo a tomar parte ativa na caçada humana. Formou-se logo um contingente de voluntários, que também tomou o caminho da várzea do Gravataí, aos gritos de: Lincha! Lincha!


Os bandidos não tardaram a ser encontrados e cercados pela tropa, escapando, assim, do linchamento. Talvez tenham tido melhor sorte, mas ficaram iguais a paliteiros, tendo recebido, em média, cerca de trinta tiros “per capita”.


Os quatro cadáveres foram colocados num carroção, que desfilou pelo centro da cidade, a fim de que a população aplacasse a ira de que estava possuída por causa do movimentado latrocínio. Depois, ficaram expostos à visitação pública, num casarão situado entre as ruas Clara e do Arroio.


No dia seguinte o prof. Anes Dias ministrou uma aula de Medicina Legal em meio aos cadáveres. “Entre os estudantes presentes – conta Hernani de Irajá, em suas memórias – Batista Luzardo destacava-se pela curiosidade com que procurava esmiuçar as regiões atingidas pelas descargas”.


O assalto à Casa de Câmbio foi praticado em 1911, por quatro imigrantes russos que haviam desembarcado em Porto Alegre como agricultores, mas resolveram desistir da lavoura, antecipando-se numa atividade que terminaria virando coisa de rotina e sem maiores consequências.


(Outubro, 1979)


Fonte: Reverbel, Carlos. Saudações Aftosas. Porto Alegre, Martins Livreiro, 1980, p. 28/30.




Crédito imagem Mário Cinco Paus: https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcR1aQpyisu5p3-91pT5PFZAHjgf_zt_vY8sp1socApkg2FscbD5SD17ext3XEganVs1lZw&usqp=CAU

Acesso 17/03/2023

A ilha (Carlos Reverbel)

 


No ano de 1934, a gente podia ser pobre em Florianópolis. A vida era quase de graça. Com 200 réis, preço de um cacho de bananas, o estômago ficava apascentado por uma semana. Devia ser por causa dessa fruta que não havia mendicância na cidade.


O meu trabalho era num jornal, “A Pátria”, dirigido pelo dr. Gil Costa, desembargador aposentado. Um dia eu lhe entreguei um texto cheio de adjetivos. Então ele me disse: “Meu filho, corta os adjetivos. Nesse jornal trabalhamos à base de substantivos e verbos.” E ensaiou um trocadilho: “Embora a verba seja curta, como estás cansado de saber”.


Só voltei a usar adjetivos quando mudei de jornal, indo para o “Correio do Estado”, de Flávio Bertoluzzi de Souza, um barriga-verde que um dia sumiu, reaparecendo trinta anos depois como prefeito da fidalga cidade de Petrópolis. Sendo ele também fidalgo, terminou no lugar certo.


Superada a fase aguda da banana, comecei a frequentar restaurantes populares, quase sempre o Recreio dos Marujos, casa de pasto especializada em frutos do mar e alguns pratos portugueses, sendo de notar que em Florianópolis, naquela época, o peixe era comida de pobre, assim como o camarão e outras dádivas do velho mar.


O velho Cirilo, amigo da turma do jornal, exercia com generosidade e grossura as funções de garçom do estabelecimento, abrindo créditos a certos fregueses por sua conta e risco. Eu chegava, aboletava-me na mesa coletiva e ia pedindo sopa de camarão ou ensopado de peixe ou tainha assada ou um caldo verde, verdinho, coisas nessa base. Muito autoritário e preocupado com minha magreza e o excesso de cerveja Cascatinha, o rústico e bondoso Cirilo mudava por sua conta o pedido, trazendo-me um tracanaz de carne de zebu, ainda por cima malpassada. E ainda me advertia, fingindo brabeza: “Vê se toma jeito, rapaz. Precisas te fortalecer, curar essa tosse.”


Um dia fui passear na Ponte Hercílio Luz, em companhia de uma funcionária da pensão da dona Zoé, de nome Narinha, quando aconteceu de um cidadão que andava por ali atirar-se de ponta cabeça no oceano Atlântico. Eu ainda não sabia, mas era costume do lugar, usar-se a majestosa obra de arte como trampolim para o destemido salto da morte. Fui cientificado mais adiante que um desses acróbatas deixara um bilhete que terminava de forma singela: “Adeus, Graziela”. A presença na cidade da festejada declamadora Graziela Passos da Fonte foi mera coincidência, nada tendo a ver com o tresloucado gesto.


A ilha era ligada ao continente pela Ponte e ao resto do mundo por vapores e hidroaviões, duas ou três vezes por semana. Os enormes pássaros metálicos (como então se dizia), pousavam de barriga na baía e ficavam balançando no fulgor azulado das águas maneiras. Eram agraciados, às vezes, com a pantomima marinha executada por botos de vocação circense ali aquerenciados.


Quando apareciam, os navios do Lóide e da Costeira ancoravam ao largo e se quedavam algumas horas, olhando a cidade de fogos acesos, prontos para o cerimonial da partida. Apesar da Ponte e desses ocasionais meios de transporte o isolamento da ilha não a deixava progredir e nisso residia, no consenso da população, o seu maior encanto. Certo dia o hidroavião enguiçou, ficando os passageiros retidos na cidade. Entre eles figurava o dr, Antônio Guerra Flores da Cunha. Fui ao hotel entrevistá-lo, mesmo porque eu tinha dado com os costados em Florianópolis graças a uma passagem no “Comandante Capela”, que me havia sido alcançada (via Ezequiel Maristany Júnior, agente da Costeira), por intermédio de um de seus irmãos, o meu velho e querido amigo Lelinho Flores da Cunha.


A gente passava na rua por uma pessoa bonita, ia ver era da família Luz. Além da Ponte, o famoso dr. Hercílio deixou numerosa descendência com marca registrada: a beleza repartida equitativamente entre filhos e filhas, netos e netas. Dizem que a tradição continua, já agora na quarta ou quinta geração.


Havia uma professora negra que ensinava português na Escola Complementar e publicava aos sábados um rodapé no “Estado”, o órgão tradicional da cidade, se não me engano ainda em circulação. Assinava-o com um pseudônimo: Maria da Ilha. Fui visitá-la algumas vezes, atraído pela graça de seu estilo e pela finura de sua sensibilidade. Para o meu gosto era quem escrevia melhor na imprensa catarinense de então. Se for viva (pelo que faço votos), deve estar bem velhinha, pois já naquela época não cozinhava na primeira fervura. Ainda vou a Florianópolis reler na coleção do “Estado” os rodapés de Maria da Ilha.


Na ocasião eu tinha uma camaradinha chamada Nilva que trabalhava no armarinho do seu Aristeu, mas não gostava de ser balconista, tinha a mania de escrever um diário e de tornar-se professora, como a “Maria da Ilha” acentuava, na sua fala cantava. Levei-a um domingo, a seu pedido, à casa do desembargador Gil Costa, homem de grande doçura e infinita bondade, embora surdo como uma porta, humanista emérito e encarniçado como buldogue nas suas vigílias cívicas e lutas partidárias. Atendendo-a, o desembargador consegui-lhe matrícula na Escola Complementar e ainda lhe arranjou um emprego melhor, com tempo para frequentar as aulas da Maria da Ilha. Guardei no coração a frase que ele diria, a propósito do seu gesto: “Com boa bondade a gente consegue mudar o destino das pessoas.”


Já tinham me prevenido na redação sobre um beletrista que era portador do Mal de Hansen e costumava procurar os recém-chegados à cidade, pois todo mundo o evitava na sociedade local. O pobre homem não demorou a aparecer, tomando a direção da minha mesa, de mão estendida. Por sorte a mesa ficava perto da janela. Então me fiz de louco e pulei a janela, pois naquele tempo a concepção a respeito da lepra era tão errada e desumana como na Idade Média. De noite tive um bruto pesadelo e ninguém para me amparar empregando a técnica do cafuné.


As reportagens foram muitas, figurando entre elas a da passagem do Graf Zeppelin sobre a Ponte Hercílio Luz, cujo flagrante foi fotografado e transformado em lindo cartão postal. Lembro-me de um camelô amigo, o Aristides, dono do lagarto Juquinha, ter comparado o impotente engenho voador com um charuto pouco maior que os consumidos pelo senador Ivo d’Aquino. Mas a reportagem que mais me tocou foi sobre uma mocinha chamada Nazaré que trabalhava na loja de um turco chamado Agapito e que ateou fogo às vestes por motivos ignorados. Mesmo assim cometi o sacrilégio de querer fazer graça, dizendo na reportagem que Agapito não era nome de se botar em turco, o que podia ser a pura verdade, mas não era para ser dita naquelas circunstâncias.


Segundo minha experiência de repórter policial, nos tempos heroicos do jornalismo romântico, as moças bem nascidas da então chamada alta sociedade nunca tinham ideia de atear fogo às vestes, mas as gurias do povo e, por fatalidade, geralmente as mais bonitinhas, eram muito chegadas a tais provas pirotécnicas, o que para mim constitui até hoje um dos chamados enigmas do universo.


(Fevereiro, 1979)




Fonte: Reverbel, Carlos. Saudações Aftosas. Porto Alegre, Martins Livreiro, 1980, p. 54/56.



Ida e volta (Carlos Reverbel)

 

Fui possuído hoje, logo após o café da manhã, por súbita nostalgia das estradas carroçáveis. Tanto as guardo na memória involuntária, no aconchego das melhores recordações, que elas acabam de alçar voo nesta clara manhã setembrina, mas conhecendo tão bem o caminho de volta quanto as pombas de Raimundo Corrêa, é certo que ao entardecer retornarão ao ninho antigo.


Havia um médico em São Gabriel que, ao ser chamado ao interior do município, despachava um próprio na frente, investido da missão de depositar garrafas de cerveja nos riachos e sangas por onde ele deveria passar a caminho da casa do cliente. A mesma providência era adotada para a viagem de volta, completando-se, assim, a engenhosa operação que o referido facultativo chamava de “medicina de campanha, com cerveja fresca de ida e volta”. Enquanto os cavalos tomavam um fôlego, ele tomava suas cervejas à sombra de angicos, guajuviras e outras árvores extintas. Tudo com mansuetude e calma, tanto na ida como na volta.


Começada na era da tração animal, essa maneira de amenizar os sacrifícios do sacerdócio médico prolongou-se até a época do Ford de bigode (quando as estradas ainda eram carroçáveis), só terminando com a chegada da era do asfalto e, coincidentemente, com o falecimento do introdutor (já muito idoso) da mencionada amenidade clínica.


Ainda no tempo das carruagens deu-se o caso de um fazendeiro, natural de Lavras mas residente em Bagé, ter de permanecer diversos dias em porto Alegre, em afanosas atividades peruaríssimas. Necessitando ir diariamente a um matadouro situado nas redondezas da capital, o nosso estancieiro teve de contratar um carro de praça. O carro não era dos piores, mas a parelha que o puxava era de fazer dó, sendo formada por velhos matungos.


Em compensação, o boleeiro não podia ser mais prestativo e diligente. Caprichava tanto na prestação de seus serviços que o fazendeiro, embora tido e havido como sujeito empedernido, prometeu dar-lhe de presente uma linda e fagosa parelha de cavalos baios, para substituir seus velhos e trôpegos matungos.


De volta aos pagos, a primeira providência do fazendeiro não foi mandar os cavalos baios, foi esquecer a promessa que fizera ao cocheiro porto-alegrense. Mas este não se esqueceu e começou a bombardeá-lo com sucessivos telegramas, reclamando o presente. E nada de resposta.


Até que um belo dia o fazendeiro resolveu encerrar o assunto, transmitindo ao cocheiro este telegrama;


Parelha baio morreu raio.” (O pelo dos animais foi colocado no singular pelo telegrafista para facilitar a rima).


Li domingo passado, no Sérgio da Costa Franco, a notícia de que a Companhia União de Seguros, sob a feliz inspiração de seu diretor, Lauro Guimarães, tomou a iniciativa de promover a reedição de uma série de obras raras da bibliografia rio-grandense, a começar pelas fundamentais “Memórias Econômico-políticas”, de Antônio José Gonçalves Chaves.


A propósito, tenho para mim que as “Memórias”, de João Daudt, reúnem todas as condições para serem incluídas na projetada coleção. Dentro de sua época, não sei de obra mais interessante, no gênero, que tenha sido publicada entre nós. Já a percorri duas vezes e sou capaz de repetir a dose.


O autor viveu numa época em que todas as estradas gaúchas eram carroçáveis. Entre outras, descreve uma viagem fantástica, feita de carreta, por ele e sua família, de Santa Maria a Rio Pardo, em cujo porto tomaram o primeiro barco (“moderno e a vapor”), empregado na navegação do Jacuí, entre Porto Alegre e Cachoeira.


Os barcos eram “modernos e a vapor”, mas as estradas ainda eram carroçáveis. Isto empresta grande interesse à narrativa, em relação aos dias de hoje, quando as rodovias se modernizaram e as águas dos nossos rios regrediram, estranhamente, à época das estradas carroçáveis.



(Setembro, 1977)



Fonte: Reverbel, Carlos. Saudações Aftosas. Porto Alegre, Martins Livreiro, 1980, p. 77/78.

A gota (Carlos Reverbel)

 

Fui aquinhoado, nesta altura dos acontecimentos, com uma crise aguda de gota. Logo às primeiras ferroadas da doença, recorri ao dr. Jorge Pereira Lima. Por via das dúvidas, aguardei-o preparado para o pior.


O grande médico chegou e lascou o diagnóstico de supetão, na base do que antigamente se chamava olho clínico: “Isto é gota, meus parabéns”.


Recebi, posteriormente, diversas e efusivas demonstrações de distinto apreço e alta consideração. A gota, segundo a tradição britânica, é uma doença aristocrática e de origem vitoriana, conferindo aos seus eleitos foros de alta dignidade heráldica.


O Júlio Duarte, na sua notória condição de velho gotoso, não tardou a oferecer os seus valiosos préstimos, garantindo-me que não haverá necessidade de cortar a cerveja. E o Rivadávia Souza (cuja gota é de origem gaulesa, portanto atípica), dirigiu-me de Brasília a seguinte mensagem telegráfica: “Parabéns teu ingresso nosso clube”.


Tive a confirmação de que o referido clube existe ao receber, ainda acamado, a visita do Milton Baggio, vindo especialmente de Bom Jesus para congratular-se com o meu ingresso na ilustre confraria. Por sinal, o Milton é detentor de um privilégio: foi acometido pela doença aos 20 anos de idade, coisa muito rara na literatura médica. Seria como se o Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry, sofresse do mesmo mal.


Também recebi presentes, graças à providencial gota, vulgo edema localizado junto à articulação metatarso-falangeana do dedão do pé, ou primeiro dedo, segundo os anatomistas. O presente mais apreciado veio da Ivete Brandalise: um livro que pertencera à biblioteca que vendi em 1947. Encontrando-o num sebo, a admirável cronista teve a nímia gentileza de recuperá-lo, pelo que serei eternamente grato.


Por falar em livro, sou dos que acreditam, por experiência própria, na terapêutica leitura. Posso garantir, por exemplo, que os cinco alentados volumes das memórias de Gilberto Amado são um porrete para úlceras duodenais. E nada melhor para aplacar as lesões pulmonares de primeiro grau do que a “Guerra e Paz”, de Tolstoi, na edição da Bibliothèque de la Pléiade, mas desde uma vez que o paciente também recorra aos cuidados do abalizado dr. Palombini, pois o seguro morreu de velho, segundo o Leão do Caverá.


Desta vez, nesta gota, descobri que Lima Barreto é excelente coadjuvante para a cura clínica da torturante enfermidade. Faço a afirmativa com a tranquilidade de quem debulhou a obra completa do grande escritor, nos 17 volumes organizados para a Editora Brasiliense por Francisco de Assis Barbosa, com a autoridade de quem, escrevendo a biografia do autor das “Recordações do escrivão Isaías Caminhas”, produzira uma obra perfeita.


É impressionante a atualidade de Lima Barreto. Num de seus romances – “Numa e Ninfa” – foi criada e entregue a um charlatão russo – o dr. Bogóloff – uma Estação Experimental de Reversão Animal e Quadruplicação dos Bois. Propunha-se o impostor adotando processos baseados na bioquímica, produzir porcos do tamanho de bois e bois do tamanho de elefantes. Propunha-se ainda, injetando gens de uma em outra espécie, produzir cabritos que eram ao mesmo tempo carneiros, e porcos que eram cabritos ou carneiros, à vontade.


Já tendo assinado em sua gestão 2.727.832 decretos, 78.345 regulamentos e 1.725.384 avisos, o titular da Agricultura, ministro Xandu, assinou novo ato, aprovando o projeto do dr. Grégory Petróvitch Bogóloff e promovendo-o a diretor da Pecuária Nacional, com o que se deu por muito satisfeito, jamais cobrando do charlatão eslavo a prestação dos serviços a que este se propusera. Como ainda hoje acontece com os “bogóloffs” brasileiros.



(Agosto, 1979)




Fonte: Reverbel, Carlos. Saudações Aftosas. Porto Alegre, Martins Livreiro, 1980, p. 50/51.



Sete sílabas de terra vermelha (Paulo Bentancur)

  Montado em sete sílabas, Jayme Caetano Braun (1994 – 1999) não descuida um verso sequer o generoso horizonte da lírica repentista. O seu ...