Meu
pai tem um melhor amigo, o PABLO, (pense num bicho enrolado!) que só
arrumava serviço roubada e posso ouvi-lo “Ô Luisão, peguei o
trabalho de derrubar a caixa d’água lá, tem segredo não! É só
quebrar...”
Eu
amo essa estória da caixa d’água que saiu rolando e amassando
carro.
Aliás,
o PABLO merece uma Thread um dia. Preciso contar pra vocês da vez
que ele convenceu meu pai a vender TUDO e investir em extintor de
carro e um mês depois caiu a obrigatoriedade pra extintor em carro.
Ficamos anos com a casa lotada de caixas e mais caixas de extintor.
Um
dia o PABLO falou pro meu pai “Luisão, vamos vender caju e pequi
na feira? Encontrei uma mina de cajueiro e pé de pequi no meio da
serra!” Meu pai perguntou se não tinha dono e Pablo “moço, é
mata nativa”. Corta para: Meu pai e Pablo correndo dos tiros do
dono das terras!
Um
dia meu pai brigou feio com o PABLO. Pra reconquistar meu pai, PABLO
chegou lá em casa com um galo de presente. Esse galo era super
agressivo, atacou minha mãe, bicou o pênis do meu irmão e a
fábrica do meu pai foi fechada pela vigilância sanitária por ter
“criação de animais”
Uma
vez, Pablo pegou um bico de dedetização pra fazer com meu pai. “É
fácil demais, Luisão, tem segredo nenhum! Quem paga profissional é
otário!”... Corta para: Meu pai com o olho do tamanho de uma
laranja e o médico falando “provavelmente o veneno te deixará
cego desse olho”.
Enfim,
são mais de 20 anos de roubadas. Eles são a melhor definição de
“parceria” que eu conheço. Um dia escrevo aqui sobre essa
amizade. Ainda nem contei sobre a relação de amor e ódio da minha
Mãe com o PABLO...
Meu
pai ia vender churrasquinho na praia, aí PABLO “Luisão, isopor
todo mundo usa, vamo fazer uma churrasqueira com rodas! Fica
levinha!” Corta para: Um trambolho de ferro (pesando toneladas),
impossível de arrastar na areia. Precisava de 5 pessoas pra mover o
“isopor” do meu pai.
A
churrasqueira chegou num guincho. Parecia uma carruagem de ferro e,
quando era empurrada, ragia parecendo um grito “IEEEEEEEEEEN”.
Meu pai deu problema nas costas nesse verão e tivemos que pagar um
ferro velho pra tirar a churrasqueira da areia.
O
Pablo é tipo um irmão/tio. Nossa casa é a casa dele. Problema é
que ele sente isso também: Uma vez deu o nome do meu pai como
voluntário pra acolher pessoas na igreja e não avisou. Um dia minha
casa ficou cheia (UM ÔNIBUS) de peregrinos de Manaus indo pra
Aparecida do Norte!
Meu
pai queria comprar uma bicicleta cargueira pra eu vender salgado na
rua e uma bicicleta pra eu ir pra escola. PABLO falou “Luisão,
muito caro, tem como ter as duas em uma só!”, ele soldou
toscamente várias garupas numa Caloi e eu nunca me recuperei do
bullying daquela época.
Pablo
um dia achou que meu pai pagava muito caro na carne moída que ia no
pastel. Homem de negócios que é, achou um NEGOÇÃO: Uma carne
muito mais barata direto da fonte! Um caminhão do matadouro parou na
porta da minha casa e deixou UM BOI INTEIRO no meio da cozinha da
minha mãe.
Eu
contei pra vocês que PABLO e meu pai são uma dupla sertaneja? Sim.
“LUIZ E LUAN” teve apenas uma apresentação marcada num programa
de rádio. PABLO (Luan) arregou e meu pai ficou sozinho na rádio
dizendo o programa todo “acho que ele tá apongando aí gente... NÉ
PUSSIVE!”. Era.
PABLO
ama tanto meu pai que, quando meu pai adoece, a minha mãe não pode
contar pro Pablo de qualquer maneira, tem que sentar o Pablo, dar um
chá de camomila e falar “VOCÊ VAI TER QUE SER FORTE...”. É
sério. Toda vez que meu pai interna, o Pablo passa mal!
Um
dia meu pai foi fazer uma cirurgia e só podia ir um acompanhante:
Minha mãe! Pois quando abriram as portas do centro cirúrgico, NÃO
SABEMOS COMO, minha mãe vê que o Pablo estava acompanhando de
dentro da sala de cirurgia vestido e com crachá de enfermeiro!
PABLO
também é a grande concessionária de meu pai. Foi ele quem
encontrou, convenceu e articulou a venda de todos os carros que minha
família teve, inclusive, minha mãe movida pelo ranço nunca andou
em nenhum!
Há
uma teoria desenvolvida pelo meu irmão de que a zica PABLO está
intrinsecamente ligada ao ranço e olho ruim de mamãe. Meu pai diz
“Vou começar um negócio com o PABLO”, minha mãe diz “hum
hum”... Ali as nuvens já fecham e o feitiço já foi lançado...
NÃO VAI DAR CERTO!
De
todos os carros que PABLO e meu pai arrumaram, nenhum durou mais de
um ano. Todos tinham nome. Deles, destaco dois: Baratinha (uma pampa
anos 80) e o Cicatriz (um escort muito velho). Sacou? O nome do carro
é cicatriz pq ele é um EX CORTE! Sim, Pablo e Luisão são
engraçadões.
A
Baratinha é um carro que você andava e ficava com dor nas pernas: O
carro tinha um buraco no banco do passageiro, a gente tinha que andar
com as pernas pra cima, sem poder relaxar. Era melhor ir a pé! PABLO
disse “Luisão, isso aqui a gente arruma” e colocou um tapete no
buraco.
Um
dia, minha mãe deu uma chance de paz e resolveu entrar na Baratinha
pra gente ir tomar banho na praia do caju. Sentou bem bonita com sua
cachorra Kaká no colo, vira-lata-caramelo que mamãe insistia em
tratar como um Lulu-da-pomerânia... No meio do caminho, CADÊ A
KAKÁ?
Ninguém
tinha avisado pra minha mãe sobre o buraco. A KAKÁ foi engolida
pelo buraco e atropelada pelo Pablo. Vai somando aí pra tu sacar
essa relação Pablo X Mamãe...
KAKÁ
sobreviveu, mas ficou com um tique de mexer uma das patas traseiras
pra cima, o tempo todo, involuntariamente. O que divertiu a mim e meu
irmão para sempre, pois era só colocar um regue e a mágica estava
feita: ESSA CACHORRA DANÇA!
Nota
de aprofundamento: Nessa época, meu pai é minha mãe se casaram na
igreja. Eu entrei com minha mãe, meu irmão levou as alianças,
PABLO CANTOU PRA MINHA MÃE ENTRAR... Nas filmagens, tem uma cena
ótima da minha mãe dançando na terra com vestido de noiva,
acompanhanda pela KAKÁ!
Já
o Cicatriz, meu pai andou nele poucas vezes: A primeira, pra chegar
lá em casa, a gasolina acabou. Meu pai ligou “PABLO, traz 5 litros
de gasolina?”, Pablo levou. Depois, meu pai foi no mercado, não
era 10km lá de casa, os 5L acabaram. Meu pai “PABLO traz 5
L”...Virou um bordão!
Em
menos de uma semana, aconteceu o maravilhoso diálogo: - PABLO, traz
mais 5 litros? - Tranquilo, Luisão, tá onde? - Na BR... - Tem funil
aí pra por a gasosa no carro? - Não precisa, não quero pra
abastecer não... - E quer pra quê? - PRA BOTAR FOGO NESSA
DESGRAAAAAAAAÇA!!!
PABLO
não levou a gasolina, mas foi lá acalmar meu pai. Uma das grandes
cenas da minha vida: Eu e meu irmão com a nossa arara em cima do pé
de goiaba assistindo meu pai pegar o litrão de arnica com álcool da
minha mãe pra botar fogo no carro...
Minha
mãe gritava “VAI DESPERDIÇAR MINHA ARNICA NESSE LIXO DE CARRO?”,
meu pai “MALDITA A HORA QUE EU GASTEI MEU DINHEIRO NESSA DESGRAÇA”
jogando arnica no carro enquanto tentava acender o fósforo… Pablo
assoprava os fósforos que meu pai acendia: “NÃO FAZ BESTEIRA
LUISÃO!!!”
Eu,
meu irmão e a arara nunca esquecemos.
Falei
tudo isso pra contar a última do PABLO, que aconteceu essa semana,
mas antes tenho que contar da nossa viagem pra Uberaba que foi O
GRANDE MOMENTO da minha mãe com o PABLO!
Eu
disse que ia contar da nossa trip de Uberaba, mas meu irmão fez uma
consideração importante: É preciso que vocês saibam de alguns dos
DESASTROSOS FINAIS DE ANO da minha família e a relação do PABLO
com eles.
Primeiro
de 3 - ANDAR COM FÉ EU VOU! Minha mãe combinou com as irmãs dela
de passarmos o natal em Trindade, capital da fé colada em Goiânia,
e logo deu a letra: “EU NÃO VOU CHEGAR EM TRINDADE DE ÔNIBUS!
VAMOS ALUGAR UM CARRO PRA VISITAR (se amostrar para) TODOS OS
PARENTES”
É
preciso que vocês saibam que minha mãe é uma pobre metida. No
sentido de que, ela pode estar fudida passando abacate da rua na
cabeça pra hidratar o cabelo, e consegue convencer as vizinhas de
que aquilo é última moda em algum lugar, que ela ESCOLHEU fazer
daquela maneira.
Minha
mãe é rainha na flexibilização do ponto de vista, uma GÊNIA na
disputa de narrativa entre a pobreza e simplicidade. Minha mãe
consegue lançar moda e transformar sua falta de grana em hype. Uma
GÊNIA.
Talvez,
o maior embate dessa relação Mamãe e PABLO, seja justamente esse:
PABLO mostra pra mamãe onde ela está, quem ela é. Ele arranca a
moldura que minha mãe faz da realidade e joga bosta na cara dela. A
elegância de mamãe é muito frágil.
Pois
bem, PABLO disse pro meu pai “Luisão, tu sabia que nessas empresas
de alugar carro, você pode alugar pela metade do preço se aceitar
um carro com um defeitinho?” Meu pai (QUE É UMA DIVINDADE DA
ECONOMIA MERDA) brilhou os olhos.
Luisão
- Mas que tipo de defeitinho? PABLO - Coisa pequena: arranhãozinho,
banco manchadinho... essas besteirinha... ALUGAMOS UM PALIO NA LOJA
DO AMIGO DO PABLO, CUJO O DEFEITINHO ERA NO MOTOR DE PARTIDA. SABE O
QUE O MOTOR DE PARTIDA FAZ? LIGA O CARRO!
PRO
CARRO LIGAR, TINHA QUE EMPURRAR! Minha mãe disse “Eu não vou
empurrar desgraça nenhuma, eu tô com ódio, vocês nem olhem pra
minha cara!”. Meu pai tava com o pé machucado, Pablo dirigia, meu
irmão era novinho demais. Adivinha? Empurrei o carro com a família
na ida e na volta!
Quase
2 mil quilômetros com a minha mãe querendo mijar a cada 50Km...
Vocês acham que eu sou abençoado de graça? Me chamaram pra
apresentar o Criança Esperança, eu pensei “Mereço sim. Deus tá
é me indenizando”. Tudo que acontecer de bom comigo eu já paguei
com a minha família!
Segunda
parte de 3 - O DIA QUE MINHA MÃE CANCELOU O NATAL! Fim de ano lá em
casa é sempre desastroso. Eu nem sofro mais. Faz alguns anos que eu
não vou, quem vai é um personagem meu que observa e sorri. Vai
chegando o fim de ano, eu já mando pro meu irmão “QUE AVENTURA
VEM AÍ?”
E
meu irmão me responde coisas do tipo “meu pai quer levar a gente
pra pescar no dia 31 de dezembro num barco pilotado pelo Pablo que
acabou de tirar a carta de barco. Será que desta vez ele mata a
gente?” E eu sempre respondo “com fé em Deus”.
Era
outubro e minha mãe já tinha combinado com a minha vó paterna da
gente ir passar o natal com ela em Goiás. Meu pai foi planejar nossa
ida e minha mãe, sempre preocupada na imagem que está passando para
as irmãs, fez uma compra de mais de mil reais na IDEAL TECIDOS.
Comprou
principalmente roupa pra nós. Pois, para a mulher do interior, os
filhos e os maridos andarem MULAMBOS é uma desonra que gera fofoca e
humilhação. Desde outubro as roupas estavam lá nas malas, mas não
podia usar, era pro nosso maravilhoso fim de ano!
Eu
estava na mesa do almoço quando meu pai começou a falar sobre os
gastos da nossa ida. Meu pai vira o homem que calculava quando quer
justificar uma merda. “TAVA PENSANDO, CEIÇÃO, NOSSA IDA E VOLTA
VAI FICAR CARA... NÃO SERIA MELHOR PEGAR ESSE DINHEIRO E COLOCAR
NUMA COISA QUE A GENTE POSSA APROVEITAR DEPOIS? NUM BEM DURÁVEL.
SABE?” minha mãe não disse nada, ficou em silêncio esperando a
merda igual a família da praia no filme impacto profundo, meu pai:
“POR ISSO EU RESOLVI PEGAR O DINHEIRO E ARRUMAR O ESCORT DO PABLO
PRA GENTE VIAJAR NELE”. Silêncio.
Lembra
dele? Sim, Pablo comprou o cicatriz do meu pai. O carro quando não
parava por falta de gasolina, parava por falta de peça. Era nessa
maravilha de possibilidades que estavam depositadas nossas esperanças
de um fim de ano ruim, como sempre é, mas dentro do aceitável.
Minha
mãe, desde então, não abriu a boca sobre o fim de ano. Ficou no
mais absoluto silêncio sobre isso. Fazia as coisas meio no
automático, quase um robô, sem expressão... Apenas um olhar de
quem sabia que ia dar merda e, quando desse, mataria meu pai.
Nós
partiríamos no cicatriz de madrugada e meu pai e Pablo deram um
churrasco pros amigos salgadeiros nessa mesma noite. A ideia era
emendar o churrasco nas 12 horas de viagem até a casa da minha vó,
que é o que o DETRAN recomenda, né? Dirigir bem cansado!
No
fim da festa, PABLO foi levar uma peguete dele no reino tão tão
distante onde ela morava. Nós fomos nos arrumar com a “roupa da
chegada”, um dos looks que minha mãe tinha comprado em 10X na
Ideal. PABLO não voltou no horário. PABLO demorou. O tempo passou e
PABLO não voltava.
Estava
quase amanhecendo quando PABLO ligou: “Dona Conceição, passa aí
pro Luisão?”, depois de um longo silêncio, minha mãe disse:
“Pode falar...” como se já estivesse preparada para aquela
ligação desde o almoço em que meu pai avisou onde iríamos viajar.
“O
MOTOR DO CARRO FUNDIU!”
Meu
pai, DIVO DO COACH BARATO, começou a discursar sobre ver o lado bom
das coisas, como teria sido pior se fosse no meio da estrada, que
aquilo era Deus, que o importante era estarmos juntos e terminou
dando a deixa perfeita para mamãe “agora é tentar salvar o
Natal...”.
Transcrevo
o surto que Mamãe deu, falando com um cigarro no canto da boca,
enquanto jogava as roupas novas no lixo: SALVAR NATAL? QUE NATAL? EU
NÃO QUERO OUVIR UMA PALAVRA SOBRE NATAL! JESUS ESTÁ PROIBIDO DE
NASCER, PAPAI NOEL QUE TOME NO CU, O NATAL ESTÁ CANCELADO NESSA
CASA!!!
Esse
foi o ano que minha mãe virou o grinch: Jogou fora os panetones,
caçou e quebrou tudo que era natalino lá em casa e, rainha do tempo
que é, pulou do dia 23 de dezembro para 1 de janeiro.
Na
terceira parte, contarei como PABLO e LUISÃO fizeram uma viagem de
10 horas durar TRÊS DIAS INFERNAIS!
Sim,
voltei pra contar a parte 3 da trilogia dos finais de ano, e
finalmente terminar esse perfil do Pablo pra poder me aprofundar no
novo negócio dos dois. Uma roubada que tá acontecendo agora, esse
ano, ao vivo!
Terceira
parte de 3 - A PIOR VIAGEM DE TODOS OS TEMPOS! Minha vó é daquelas
véia que todo ano fala “esse é meu último natal, acho que eu não
duro até o ano que vem não...”, por mais que vovó tente, o
monólogo de despedida anual dela não é a pior parte do nosso
natal.
São
cenas que se repetem todo ano: Minha tia Raquel se esforçando pra
fazer uma mesa bonita com minha mãe, eu e minha prima fazendo cesta
de melancia. Vovó se despedindo. Meus tios e pai bêbados pegando as
comidas da mesa pra fazer de tira gosto, destruindo a ceia...
Minha
tia Raquel indo brigar com meu tio Brasa, tio Brasa jogando na cara
de tia Raquel que ela foi morar com a madrinha dela quando eles
estavam na rua...
Minha
vó sempre aproveita esse momento pra jogar uma parada pesadíssima
na roda também. Todo ano é uma nova. Eu e meu irmão sempre damos
uma nota para O GRANDE BAFÃO ANUAL DE VOVÓ, comparamos com os
outros anos e observamos o texto usado e o impacto na vida cotidiana
da família.
Teve
um ano que vovó disse que queria ter abortado todos os filhos, nota
9. Teve um ano que ela disse que queria ter casado com o primo, nota
7. Teve um ano que ela disse que a mãe dela, minha bisa, revelou no
leito de morte q ela e a irmã não eram filhas do mesmo pai,
DEEEEEZ!
Esse
10 de vovó foi com louvor, pois no momento que ela escolheu pra
contar, minha tia-avó, essa não filha, estava no colo do seu não
pai beijando e dizendo “meu pai é tudo que eu tenho nessa vida”.
POW! Não tem mais nada agora, então. Vovó cruelíssima.
Enfim,
os natais sempre terminam com tia Raquel bebendo uma água com
açúcar, chorando e dizendo: EU NÃO SEI PORQUE QUE EU FICO NESSAS
BESTEIRA DE JUNTAR A FAMÍLIA... ANO QUE VEM EU NÃO VOU FAZER NADA,
EU VOU CRIAR VERGONHA NA MINHA CARA, CÊS VÃO VER!
Tudo
isso pra dizer: Vocês podem a imaginar a minha animação para o
Natal em família. Eu nunca imaginei que pudesse piorar... Sim,
poderia ser este natal elevado à décima potência pois meu pai
queria juntar toda a família em Uberaba. Isso do lado paterno. Esse
natal prometia...
Pois,
se do meu lado paterno a bagaceira é institucionalizada, o lado da
minha mãe é pura aparência. A irmã de minha mãe, Tia Eva, tinha
comprado um latifúndio com água e tudo, o que significava que mamãe
tinha que chegar ARRASADORA em trindade pra mostrar que também
estava ótima!
Minha
tia ligava e falava “CEIÇÃO, CÊ PRECISA DE VER! QUE LUGAR
LINDO... PARECE UM PARAÍSO... TEM UM RIO QUE PASSA PELA PROPRIEDADE,
UMA CASA TODA EM MADEIRA BOA EQUIPADA COM TUDO... MENINA, CÊ VAI
AMAR LÁ!” E isso só pressionava mamãe a planejar sua chegada com
fogos e banda...
Em
novembro, Pablo já tinha deixado minha mãe a-rra-sa-da com a
notícia de que, pela primeira vez em muitos anos, ele não passaria
o fim de ano conosco. Ele voltou a falar com a família dele e
passaria o Natal lá. Pablo comprou antecipadamente a passagem de
ônibus p/ ver os seus.
Meu
pai ficou triste desde então. E quase sempre, se meu pai está
triste, minha mãe está feliz. Ela comentou “vamos ver se, sem o
PABLO, seu pai faz a coisa certa!”. Meu primeiro objetivo era
convencer meu pai a fazer esse rolê de avião...
Quando
eu falei isso com o meu pai, parecia que eu tinha matado um filhote
de panda na LIVE do Greenpeace... Revoltou! Me chamou de riquinho,
disse que “DEUS CASTIGA O TRABALHADOR QUE VENCE COM UM FILHO
PLAYBOY”...
Enfim,
meu pai e eu é que nem Deus e Jesus: Os planos dele sempre envolvem
meu sofrimento. É por isso que eu sou cristão. Entendo JESUS
totalmente...
O
plano era: Sairíamos de Palmas dia 21 de dezembro, com 10 horas de
carro estaríamos em Trindade. Minha mãe veria as irmãs. Depois
faríamos mais umas horinhas de estrada até Uberaba. No dia: Meu pai
mandou dar revisão no carro, lavar, trocar os pneus, tudo
perfeito...
Minha
mãe estava feliz pois, sem o PABLO, meu pai perdia força (Igual
Sansão sem cabelo) e podia ser domado. A maior alegria dela é que
pela primeira vez na história ela poderia fazer uma viagem com a
possibilidade de mexer as pernas... Tudo perfeito!
Estávamos
no carro e meu pai sentou atrás com minha mãe e meu irmão. “Tenho
uma surpresa: PABLO VAI COM A GENTE!”. PABLO sentou no banco do
motorista e contou que tinha cancelado a passagem “VOCÊS SÃO
FAMÍLIA! NÃO POSSO ABANDONAR VOCÊS DEPOIS DE TANTOS ANOS?!” Foi
bonito foi.
Entenda
esse espaço: São 5 pessoas dentro de um Classic e minha mãe era a
única que pesava menos de 100kg! A cena é: PABLO de motorista, eu
do lado e minha mãe espremida entre meu pai e meu irmão PUTA DA
VIDA, com seus óculos da Ana Hickman na cara.
Aprofundamento:
Eu tinha feito um trabalho pra uma ótica que me deu como parte do
cachê um vale compras. Dei de presente pra minha mãe, uns óculos
da coleção da Ana Hickmann. Ela guardou dois anos e essa viagem era
A GRANDE ESTREIA DOS ÓCULOS DA ANA HICKMANN!
A
CHEGADA DELA TAVA TODA BASEADA NO LUXO DESSES ÓCULOS. Pessoa
imaginaria - Que óculos bonito, Conceição! Ela: Pois é,
caríssimo. É da ANA HICKMANN. Não há uma foto “rica” de mamãe
que ela não esteja com eles.
No
carro, já na estrada, PABLO comentou “O BARULHO SUMIU, NÉ LUISÃO?
NÃO TE FALEI QUE IA FICAR FINO?”, minha mãe: “Tinha barulho
onde?” E Pablo, ignorando o olhar de desespero do meu pai foi
entregando tudo: “EU JÁ ARRUMEI. EU QUE DEI A REVISÃO NO CARRO...
É COISA SIMPLES... “.
Meu
pai não tinha levado o carro na oficina. Ele e PABLO deram revisão,
arrumaram tudo que precisava, pois eles tudo sabem e tudo economizam.
Com a força do INSTITUTO UNIVERSAL BRASILEIRO, que formou os dois em
todas as ciências que existem no mundo.
Não
há nada que um aluno do Instituto Universal Brasileiro não saiba
fazer. Quem quer, consegue! Se chegar uma nave alienígena na terra,
PABLO e Luisão sabem mexer. Eu disse mexer, não arrumar... Qualquer
dia eu conto sobre a carreira de DETETIVE (formado pelo IUB) do meu
pai.
Quando
eu soube dessas informações, eu disse: “Eli, Eli,
LAMASALABACTANI? ” e entrei em estágio de auto hipnose induzida.
Esperando toda e qualquer merda... E elas vieram.
Na
astrologia, Saturno é o planeta q testa seus limites, suas
fraquezas, é o técnico. Podemos dizer que o Carro do pobre é
Saturno: Ele vive pra te fuder, quebra nos piores lugares pra te
ferrar (porque não era nem pra vc ter ele, o carro). NUNCA AJUDA O
POBRE… É o Guedes de rodas!
Seguindo
a lógica, o desgraçado do carro esperou o pior lugar possível e
quebrou. Não tinha como voltar, não tinha como andar, só tinha
como chorar.
Anestesiado,
resiliente e preparado, vi um restaurante de beira de estrada, desci
do carro e caminhei direto pra lá. Sentei, pedi uma coca 0, botei
“consumation” da Nina Simone no último volume e fiquei sentado
de longe, observando minha família explodir.
Foi
uma obra de arte. Minha mãe gesticulava ferozmente no time da
música, meu pai e Pablo faziam uma balé desesperado em volta do
carro, meu irmão ainda com alguma esperança de família tentando
ajudar - OS BERROS - A FUMAÇA - OS ÓCULOS DA ANA HICKMANN!
Meu
irmão desistiu, veio se sentar comigo, eu lhe dei um fone. Logo
minha mãe veio, pedi uma poção... E vimos o dia passar... Produtor
que sou, descobri que mulher do restaurante tinha um irmão mecânico
em uma cidade vizinha distante, já mandei vir, era nossa única
opção!
Lá
pelas 20h da noite, Pablo e meu pai fizeram o carro funcionar.
Comemoração dos dois! Eu disse: “Já mandei vir um mecânico,
vamos esperar pra que ele dê uma olhada?” Meu pai: “EU NÃO SEI
DE QUE SENADOR ESSE MENINO É FILHO, ELE ACHA QUE AS COISAS SÃO
FÁCEIS...”. Playboy e etc!
Segundo
PABLO, o problema tinha sido uma coisinha simples que já estava
resolvida. “AGORA VAMOS PARAR SÓ EM TRINDADE!”. O diabo e o
carro riram gostosas gargalhadas para trás.
O
carro esperou as luzes da cidade desaparecerem no meio do mato na
estrada, e quebrou novamente. Nesse lugar nós ficamos a madrugada
inteira pedindo carona.
O
único carro que parou para nós foi um guincho (perfeito, né?) que
disse “tô indo pra muito longe, só volto amanhã meio dia!” não
resolveu nada. De resto, NINGUÉM PARAVA! Nossa água acabou, nossa
comida acabou, passamos sede e fome.
Era
quase 5 da madrugada quando eu olhei minha mãe pedindo carona com
seus óculos da Ana Hickmann (sim, de madrugada), coluna hetera,
sorriso no rosto, arrogante que só ela, quase dizendo “SE QUISER
PARAR, PARA, MAS EU NÃO PRECISO DE VOCÊ NÃO!”.
Foi
aí que eu resolvi gastar minha Fátima Toledo e dar um curso de
expressão corporal pra minha família. Preparei o elenco pra pedir
carona. Ensinei minha mãe a se mostrar frágil: Coluna arqueada,
cabeça baixa, mãos na barriga ou estendidas como quem pede ajuda...
Na
primeira tentativa, OSCAR! O cara parou. Era um caminhão. Explicamos
que precisávamos que ele levasse alguém até a próxima cidade pra
essa pessoa voltar com ajuda. Ele disse “Eu levo a moça” eu e
meu irmão gritamos “NOSSA MÃE NÃO! LEVA O PABLO!”. E lá se
foi PABLO com o moço...
O
dia amanheceu e nada do PABLO. Sede. Fome. Desilusão. Foi então que
vimos outro guincho... Não, pera! Era o mesmo. Já era mais de meio
dia do dia seguinte... Colocamos o carro no guincho e fomos pra
próxima cidade.
Chegando
na cidade, meu pai foi caçar o PABLO. Também tinha isso: E se o
caminhoneiro matou o PABLO? Enquanto meu pai ia procurar, falei:
“Pai, será que a gente não pega um quarto nesse hotel do
posto?”... EU QUERIA SABER EM QUE MARISTA VOCÊ ESTUDOU PRA SER
PLAYBOY DESSE TANT...
Meu
pai encontrou o Pablo chorando, achando que a gente já tinha morrido
de fome, o único guincho da cidade era aquele mesmo que voltou com a
gente. Ainda bem que PABLO também já tinha se adiantado e já sabia
onde ficava o único mecânico da cidade...
Empurrando
o carro até o mecânico, meu pai, que é piadista e não tem medo da
morte, perguntou se minha mãe não ia ajudar a empurrar, ela disse:
“SE VOCÊ FALAR COMIGO MAIS UMA VEZ, EU VOU AFUNDAR SUA CARA NESSE
CARRO ATÉ FAZER O DESENHO CERTINHO NA LATARIA!”. O climão veio
empurrar!
Chegamos
exaustos na borracharia. O mecânico que PABLO tinha arrumado estava
assistindo televisão, nós entramos, ele continuou onde estava. Meu
pai falou “trouxemos o carro pra...” o mecânico gritou “DEPOIS
DA MINHA NOVELA Ô DESGRAÇA!”. Sentamos e assistimos a novela com
ele.
Depois
da novela, o mecânico viu que o problema era numa peça que não
tinha na cidade. Minha sugestão: Vamos dormir em um hotel hoje,
tomar um banho e amanhã resolvemos. Sugestão do PABLO: Vamos tirar
a peça, ligar direto e vamos seguir, a verdade é que nem precisa
dessa peça...
PORQUE
É ISSO QUE A CHEVROLET FAZ, ELA COLOCA APÊNDICES NO CARRO. COISAS
DESNECESSÁRIAS. ELA FALA ASSIM “EU PODERIA LIGAR ISSO AQUI DIRETO,
MAS NÃO, VOU CRIAR ESSA PEÇA INÚTIL PRA TODO MUNDO USAR, MENOS O
PABLO... ELE VAI SACAR LOGO O NOSSO PLANO E ELE NÃO PODEREMOS
ENGANAR...”
Compramos
muita água, e voltamos pra estrada com o carro sem a tal peça. O
carro foi parando inúmeras vezes. Sem a peça, alguma coisa
esquentava e Pablo precisava parar pra jogar água. Até uma hora
parar de vez no meio do nada e, mais uma vez, a gente ficar sem água
e com sede.
Estão
acompanhando? Já estamos no segundo dia... Quando amanheceu, vimos
que estávamos na porta de uma fazenda, entramos pra pedir água e
andar mais alguns metros... rs
Na
fazenda, conhecemos a minha figura favorita nessa odisseia, uma
figura que eu e meu irmão chamamos de: A VÉIA DOS PATOS. A fazenda
estava decadente, sem cuidados e lá morava uma senhora solitária
com um cachorro caolho. Foi quando nós mudamos para: A VÉIA
SOLITÁRIA DOS PATOS.
A
fazenda era cheia de patos, mas também tinha galinha d’angola,
galinhas... Parecia que as criações tinham tomado o controle da
fazenda. Ela não regulava muito bem, parecia aérea, assim que nos
conheceu, disse uma coisa tristíssima: NINGUÉM VEM PRO NATAL.
Cortou nosso coração.
A
nossa vontade era ficar e passar o natal com a VÉIA SOLITÁRIA DOS
PATOS. Ela era muito fofinha e foi nos contando sobre a vida dela
enquanto tomávamos um café. A véia dos patos tinha algumas
ferramentas, então os alunos do IUB fizeram a festa, dava pra fazer
até um foguete!
Nessa
altura, enquanto os cientistas da mecânica estavam em ação no
quintal da véia, eu minha mãe e meu irmão já estávamos dando uma
limpada na cozinha. Era lindo de ver a ralação dela com o
cachorrinho caolho, que andava com muita dificuldade... Tadinha...
No
meio do papo, a senhorinha estava nos contando que era viúva, que o
marido dela tinha sido assassinado pelo irmão dela por causa de
terras... Nós super compadecidos e, do nada, a véia disse “FOI
MELHOR ASSIM. BOM PRA TODO MUNDO!”. Estranhamos, mas seguimos...
Tadinha...
Aos
poucos, fomos notando que a véia solitária dos patos era uma pessoa
horrível. Ela disse, tomando um cafezinho, na maior fofura: “ESSE
AQUI NÃO QUER MORRER (com o cachorro caolho no colo), ELE COMEU UM
PATO MEU, EU BATI COM UM FERRO NA CABEÇA DELE E O OLHO SAIU PRA
FORA...”
Ela
continuou “EU PENSEI QUE TINHA MATADO ELE, JOGUEI ELE MORTO NUM
BURACO, AÍ NO DIA SEGUINTE ELE TAVA AQUI!” Foi quando ela virou a
VÉIA DESGRAÇADA SOLITÁRIA PORQUE MERECE MALDITA FDP DOS PATOS.
Fomos
embora chorando por não poder levar o cachorro caolho. Eu e meu
irmão criamos uma teoria de que o cachorro tinha voltado pra se
vingar, ele estava só esperando o melhor momento pra matar a véia.
Voltando
pra nossa vida... O carro andou mais um pouco e parou novamente. Não
dava mais! Dois dias sem comer direito, sem banho, nas piores
condições possíveis... Ligamos pra nossa família em Trindade e
pedimos socorro. O resgate, meu primo, chegaria até a manhã do dia
seguinte.
Ainda
assim meu pai, muso da economia, não achou que era a hora de um
hotel. Mesmo eu me oferecendo pra pagar. Dormimos em papelões no
posto de gasolina. EU SEMPRE DIGO QUE DEUS PROVIDENCIA ESSAS
AOMILHAÇÕES COMO DOSES HOMEOPÁTICAS DE HUMILDADE. Só pode.
Meu
primo chegou no meio da noite e, até abrir as borracharias das
cidades vizinhas, nos levou pro... adivinha? PRO LATIFÚNDIO DE TIA
EVA, TERRA SAGRADA ONDE TRANSBORDAVA LEITE E MEL. De manhã foram
tentar achar um lugar pra arrumar o carro.
A
sapolândia que tia Eva pintou de paraíso era, na verdade, uma
espécie de assentamento... Eu nunca entendi se era invasão, o que
era aquilo... A casa de madeira nobre, era de caixa de fruta, e o
rio... De fato passava na propriedade dela...
MAS
ERA UM BARRANCO DE UMA ALTURA QUE ERA SIMPLESMENTE IMPOSSÍVEL
COLOCAR OS PÉS NA ÁGUA. ERA UM PENHASCO DE BARRO, QUE IMPEDIA VOCÊ
DE CHEGAR NO RIO BARRENTO. VOCÊ ATÉ PODERIA MERGULHAR, SÓ NÃO
VOLTARIA...
Minha
mãe, parecia que estava na Disney! Amou tudo isso... Fez foto e
gravou vídeo! Quando passou das 16h, a fome bateu e não tinha nada
pra comer nas terras de titia, minha mãe que descende dos povos
originários extrativistas, entrou no meio do mato e voltou com dois
ovos. JURO.
Do
nada, ela descolou dois ovos. Não me pergunte como, ou de que bicho
eram... uma regra quando minha mãe descola alimentação de
guerrilha: NUNCA PERGUNTE O QUE É! Comemos a farofa.
Quando
os príncipes da mecânica voltaram, amarraram uma corda no carro pra
arrastar até o mecânico. Fui eu e PABLO no carro puxado... EM CADA
CURVA, EU VIA UM CAMINHÃO VINDO E A VOZ DE DEUS ME CHAMANDO... PABLO
freava, o carro da frente acelerava, meu primo brigava “não
freia”!
Isso
forçou tanto o carro que ele começou a pegar fogo. Sim. Ainda não
chegamos em Trindade. Sim, eu disse que era longo... Vocês que
insistiram!
DEPOIS
QUE O CARRO PEGOU FOGO, conseguimos um mecânico que conseguiu
finalmente arrumar o carro. Finalmente estava tudo resolvido.
Finalmente poderíamos respirar em paz. Foi quando minha mãe apalpou
o rosto... Apalpou o cabelo... Olhou a bolsa... “MEU ÓCULOS DA ANA
HICKMANN!”
Os
óculos de mamãe tinham ficado na fazenda da VÉIA DESGRAÇADA
SOLITÁRIA PORQUE MERECE MALDITA FDP DOS PATOS. Meu pai disse: “Pode
esquecer! Não vamos voltar lá por causa de um óculos besta...”.
FOI QUANDO MINHA MÃE LEVANTOU UM PNEU DE TRATOR E FALOU “AH VAI...
VAI SIM!”
Minha
mãe deu o piti do universo. Eu não sei nem mensurar o que foi
aquilo. Ela pulou em cima do carro falando “EU NÃO VOU CHEGAR EM
TRINDADE SEM O MEU ÓCULOS DA ANA HICKMANN!!!!”. Foram uns 5
minutos de Piti, que mais pareceram a queima de fogos da Disney, de
tão catárticos!
Foram
3 dias de sofrimento na estrada. Ela merecia. Quando terminou, minha
mãe chorou. Quando minha mãe chora, é quando todo mundo se
desespera: Eu, meu irmão, meu pai, o PABLO...
Voltamos
pra pegar os óculos e, cês não vão acreditar: A VÉIA DOS PATOS
estava com os óculos da minha mãe na cara! Tentando amolecer o
coração amargo de mamãe, a véia falou “Ele é tão bonzin de
usar”... Minha mãe praticamente arrancou da cara dela “É POR
ISSO QUE EU USO!”.
Chegamos
em Uberaba na noite do dia 24.
3
DIAS DEPOIS.
Fim?
Acabou?
Só
um minuto, meu anjo... Quem roteiriza a minha vida é a HBO do céu,
é coisa fina, eu tenho certeza que Deus assiste minha vida como
entretenimento. Tem o gran finale.
Chegamos
na festa, tinha uma prima que eu não conhecia em cima da mesa
cantando em inglês inbromation. Umas tias falando “desce fulana...
Ela é assim, ela bebe e fica falando inglês”. Como eu não
conheço a maioria do povo, na dúvida, peço bença pra todo mundo.
Falei
pro meu irmão: “Pega pela esquerda pedindo bença, que eu vou pelo
outro lado, a gente se encontra lá no meio. No meio das bençãos, a
prima bilíngue chegou em mim, pegou no meu pau e falou “Saudade
docê Luiz, e daquelas sacanage que a gente fazia…” É MUITA
INFORMAÇÃO SENHOR
A
ÔTA ME CONFUNDIU COM O MEU PAI E ME DEU UMA PERSPECTIVA DE PAPAI E
DA FAMÍLIA QUE EU NÃO QUERIA, CADÊ MINHA VÓ COM O DISCURSO FINAL?
Fui dando bença na velocidade 6 pra encontrar logo meu irmão e
contar o que tinha acontecido.
Falei
“Neto de Deus a prima bilíngue me confundiu com o meu pai e pegou
no meu p*” ele falou “Eu sei. pegou no meu também!”
Eu
comentei “Melhor assim. Deus ajude que ela não ache o pau
verdadeiro pq vai dar confusão”. FOI SÓ EU FALAR. VIRAMOS JUNTOS
E VIMOS MINHA MÃE LEVANTANDO A PRIMA BILÍNGUE PELO PESCOÇO.
É
importante ressaltar que essa era uma parte da família que meu pai
não via há quase 20 anos. Tá? Não tinha nem meia hora que a gente
tinha chegado. Neto comentou “não deu tempo nem de nóis comer”.
Lá
estava minha mãe, com os óculos da Ana Hickmann, enforcando uma
mulher duas vezes maior que ela. O povo pedindo calma, CALMA GENTE...
pra finalizar, um primo subiu num banco e fez um discurso sobre como
o dia era de alegria, que o importante era estarmos todos juntos, sem
briga...
Pra
selar a paz, esse meu primo teve a brilhante ideia de soltar um
foguete. Era um foguete de 3 disparos. Soltou um pra cima e abaixou a
mão. Os outros dois vieram no meu rumo: queimou minha mão, minha
cara, eu fiquei 6 meses surdo de um ouvido e escutando um zumbido no
outro.
Ps:
Adivinha quem não conhecia ninguém da família, mas já estava
enturmado a ponto de acender o foguete com o meu primo? Exato. Sobe
os créditos.
Pra
quem não conhece meu trabalho... Eu escrevo, atuo e coordeno uma
série chamada “Isso é muito minha vida”. Tô batalhando pra
fazer a segunda temporada, a primeira você pode assistir DE GRAÇA
aqui.
Um
aspecto muito delicado dessas relações: A BRIGA DE MAMÃE MÉDICA E
PABLO CURANDEIRO PELO PACIENTE LUISÃO.
Meu
pai é doente. Além das coisas que ele já teria normalmente, “pelo
sangue ruim da sua vó” (como diz minha mãe), tem anos de amizade
com o PABLO, o que traz muita sequela e danos psicossomáticos.
Quem
tem parente diabético sabe que não pode machucar, é um trabalhão
pra curar qualquer arranhão... Meu pai passou quase um ano pra sarar
um ferimento no pé, quando sarou, PABLO resolveu fazer uma
comemoração: Um dia no lago!
Quando
eu vi a movimentação, falei “gente, mas não tá tendo piranha no
lago, não?”; Pablo disse “isso é invenção do povo, Luisão!”,
e meu pai “EM QUE TI-CHI-BUM QUE ESSE PLAYBOY FEZ NATAÇÃO DESDE
CRIANÇA QUE PERDEU O COSTUME DE BANHÁ NO LAGO? QUE NUNCA VIU
PEIX...”. O de sempre.
Nem
precisava o lago estar com um surto de piranhas - o que estava - A
PIRANHA PODERIA ESTAR NA MALÁSIA, QUE ELA VIRIA AO ENCONTRO DA NOSSA
FAMÍLIA, JÁ QUE PABLO TEVE A BRILHANTE IDEIA DE COLOCAR A
CHURRASQUEIRA NA ÁGUA.
Cada
pinguinho de sangue ou gordura na água, era um convite, era um
chamado para todos os seres das profundezas das águas se
apresentarem. Era como gritar “VEM SATÔ numa mesa de tabuleiro
ouija...
Não
deu outra: em pouquíssimo tempo, uma piranha quase arrancou o
dedinho da minha mãe, que saiu da água e ficou P* da vida na areia
falando “vambora dessa desgraça dessa praia!”. Era o que
qualquer pessoa normal faria... Não PABLO e Luisão!
Segundo
PABLO, só tinha uma piranha na área, como ela já tinha comido o
dedinho da minha mãe, ela não ia atacar mais... TUDO ISSO BASEADO
EM ALGUM CURSO DE BIOLOGIA DO INSTITUTO UNIVERSAL BRASILEIRO - quem
quer, consegue! Essa harvard do virginiano.
Meu
pai... Confiou no PABLO, lógico! Até porque, você nunca vai ver
minha família desistir de um passeio. NUNCA.
Não
importa o que aconteça, minha família vai ficar no passeio até o
fim. Uma vez, fomos num parque de diversões todo enferrujado e
alguém caiu do chapéu mexicano e morreu. Todo mundo indo embora e
meu pai perguntando pra moça do parque: “MAS, SERÁ QUE DEMORA PRA
REABRIR?”.
Eu
lembro de uma vez que meu povo tava bebendo num posto: Eu fui escalar
uma torre de energia, tomei um choque, caí de muito alto, fiquei
desacordado... Quando acordei, MINHA FAMÍLIA NÃO FOI EMBORA! Nada
acaba com o rolê.
Voltando...
Lá estava minha família na água infestada de piranhas. Minha mãe
eliminada. Se fosse no BBB, a tv da minha mãe já estaria apagada,
mas lá estavam os guerreiros modernos mantendo o passeio de pé a
qualquer custo... É claro que o pior aconteceu.
Mesmo
que não fosse acontecer, amado, minha mãe tava lá da areia com o
olho de secar pimenteira mandando aquele reike do mal. TAVA LÁ
FALANDO EM LÍNGUAS OCULTAS BEM BAIXINHO E OLHANDO PRO MEU PAI. NÃO
TEM COMO DAR CERTO. ELA JÁ TAVA COM O “BEM FEITO! EU AVISEI!”
TATUADO NA TESTA.
Uma
piranha levou um senhor pedaço do dedão do meu pai. Pedação! Como
não pode dar ponto em mordida de bicho, teve mil complicações...
Até amputar o dedo! No dia da cirurgia, meu pai disse que minha mãe
falou pra ele em tom de ameaça: “PORQUE VOCÊ NÃO ME ESCUTA,
LUIZ? ...”
Minha
mãe acha que ela é médica desde o dia em que ela teve acesso a um
livro chamado “MEDICINA DE A a Z”. Mermão, não há nada que
minha mãe não cure com essa Bíblia dos chás. Ela é capaz de
discutir com os doutores da lei de qualquer Oxford, usando este único
livro como base!
De
modo que quando PABLO sugere qualquer tratamento alternativo pro meu
pai, ele cria uma guerra com Mamãe. Não só por roubar o
protagonismo curandeirístico dela, mas principalmente por estes
tratamentos não constam nos seus estudos... E ela é muito
cientista, ela.
Meu
pai é cobaia da minha mãe pra tudo: Desde “vê se o molho tá
ardendo” até “deixa eu passar esse creme em você pra ver se
irrita a pele...” Agora mesmo, ela tá desenvolvendo uma pesquisa
de óleos essenciais e coronavírus, coisa fina. Mamãe não aceita
dividir a cobaia com PABLO!
Então,
meu pai tá sempre fazendo algum tratamento que o PABLO descobriu,
escondido da minha mãe. Entenda: Minha mãe é tipo mórmon e seu
livro sagrado é o MEDICINA DE A a Z e nada lhe gripará!
O
PABLO foi lá em casa com um homem que vendeu pro meu pai esse
IONIZADOR DE ÁGUA. Foi caríssimo, mas segundo o homem curava “até
câncer”. No interior, um remédio pra ser bom tem que curar
câncer, no mínimo!
Não
tinha nenhum embasamento esse “BASTÃO IONIZADOR”, mas eu lembro
que o vendedor disse coisas impactantes como “COM A FORÇA DA
TURMALINA” “ATUA NA ANTIOXIDAÇÃO DO SISTEMA MUNOLÓGICO” e
principalmente “AJUDA NA SAÚDE DO HOMEM”. Tudo que é “saúde
do homem” envolve ereção.
Meu
pai colocou isso no filtro até enferrujar e começar a fazer mal pra
gente.
Outro
produto que Pablo e meu pai mergulharam de cabeça: O NONI, uma fruta
que já traz no nome uma certa negação!
Não
pense que isso era barato, o traficante de remédios do Pablo cobrava
150 reais por garrafada de suco fedido: O trem fedia tanto, que meu
pai era proibido de abrir a garrafa dentro de casa! Tinha que tomar o
remédio lá fora...
Só
que o NONI foi um mercado que se reinventou igual a dengue. Quando os
véi achou que isso aí não funcionava... veio o Noni com uva! AGORA
SIM!!!
Quando
cansaram do Noni com uva, veio o NONI PLUS! ESSE SIM! Se tem HBO
PLUS, DISNEY PLUS, TU ACHA QUE O NONI NÃO IA LANÇAR SUA VERSÃO
PLUS?
...E
assim por diante! O mercado do Noni não morre, porque o NONI é o
Latino dos remédios: Quando tu pensa que acabou, ele vem com uma
nova versão e conquista tudo de novo!
Um
dia, meu pai foi com o Pablo numa chácara muito longe buscar umas
folhas pra fazer um chá pra remédio... Meu pai tava animado com o
novo tratamento.
O
dono da chácara não recebeu eles muito bem, devia ser desafeto do
PABLO, meu pai disse que o cara era muito sistemático, pediu pra
eles descerem do carro... PABLO pegou o remédio e foram embora.
Na
volta, tinha uma blitz e PABLO ficou muito nervoso. A carteira dele
tava vencida, meu pai se ofereceu pra trocar de lugar, mas PABLO
explicou que esse era o menor problema: eles estavam com duas sacolas
(do quarteto) cheinhas de folhas e mudas de maconha.
Aliás,
esse diálogo é maravilhoso: - Luisão, se pegarem a gente, enquadra
como traficante... - Por causa de remédio? - Até explicar que
maconha é remédio... - Maconha? Que maconha? Cê não falou que
isso era CANABIS? - Uai, Canabis é maconha! - E EU SEI DISSO
DESGRAÇADO?!
“EU
VOU SABER QUE CANABIS É DROGA? EU ACHEI QUE ERA UM CHÁ, UMA RAIZ,
UMA CASCA DE PAU... MEU DEUS DO CÉU! ME AJUDA DIVINO PAI ETERNO... “
Eu
amo a possibilidade do meu pai ser preso como Zé droguinha. Eu ia
curtir cada segundo dessa ida na cadeia... Eu ia dizer “parece que
o jogo virou, né?”.
Porque
eu nunca usei nada e meu pai sempre achou que eu era maconheiro. Toda
vida meu pai, detetive que é (formado pelo Instituto Universal
Brasileiro), batalhou pra me pegar no flagra igual o professor que
procura padrinhos mágicos!
Meu
pai ATÉ HOJE olha minha bolsa atrás de pontas, isqueiros... Na
adolescência era pior, ele achava que eu não falava coisa com coisa
e vivia de olho vermelho: Era depressão e niilismos.
Eles
foram parados pela polícia, CLARO. Pablo começou a enrolar o
policial, CLARO. Meu pai interrompeu o PABLO e confessou toda
verdade, CLARO! HAHAHAHAHA
Eu
soube dessa história pela minha mãe, meu pai não fala sobre isso,
é tabu o dia de traficante por um dia dele. Diz minha mãe que, meu
Pai chorou tanto que o policial teve que acalmar ele! “EU NUNCA
MEXI COM ESSAS COISAS, EU NUNCA NEM VI...” HAHAHAHAHA
A
mãe do policial também tomava, ele super entendeu. Meu pai parou de
falar com o PABLO e nem quis tomar a erva com álcool. Minha mãe,
que nem doente estava, tomou tudo e adorou.
Essa
foi a vez que eu pensei “PABLO tocou na honra de Papai, acho que
essa amizade acabou”... ATÉ PARECE! O record de briga deles é uma
semana, no máximo!
Na
semana seguinte, PABLO já estava lá novamente sugerindo um
tratamento super bizarro: Você retira seu próprio sangue e você
mesmo reaplica seu sangue em você mesmo, devolvendo seu sangue para
a sua corrente sanguínea. Uma espécie de “pesca esportiva” de
vampiro, não sei.
Engraçado
é quando meu pai tem alguma melhora. Ele tá envolvido em tantos
tratamentos que nunca dá pra saber o que ajudou. Vira uma briga de
egos científicos: Minha mãe corre pra publicar na Science as novas
propriedades do Boldo; PABLO corre pra encomendar mais seringas e
Noni!
PAPAI
É UM SOBREVIVENTE
Ou
seja: Na melhor das hipóteses, o PABLO ainda vai meter meu pai em
algum crime e destruir minha carreira. Eles estão trabalhando
incansavelmente pra isso.
Hoje
eu gostaria de falar sobre uma fase que durou muitos anos na história
de #PabloeLuisao, fase que eu resolvi nomear de a FASE SITCOM!
Nessa
época, meu pai começou a fornecer salgado pra muita gente e, pela
primeira vez, as coisas estavam indo bem! PABLO, como sempre,
trabalhava com meu pai que o nomeou gerente. Sabe quantos
funcionários tinha na fábrica pra PABLO gerenciar/mandar? Dois: Eu
e minha mãe.
O
título de “gerente” deu ao Pablo um total de 0 reais de aumento
e nenhum respeito entre os colaboradores. Mesmo assim, desde o dia em
que ele recebeu o título, nunca mais foi o mesmo no ambiente de
trabalho e passou a ir trabalhar de camisa social e óculos Juliet.
A
fábrica era na minha casa, de modo que, eu dividia o quarto com o
meu irmão e também com sacos de farinha de trigo e fardos de óleo.
Era
muito confuso, pois, PABLO mandava na fábrica... Mas minha mãe
mandava na casa! Bingo! O fogão de fazer almoço e recheio de
coxinha era o mesmo.
PABLO
- Dona Conceição, descasca a batata pro pastel de carne? Conceição
- Eu vou bater a massa, descasca você! PABLO - Sim senhora. Era
gerente decorativo, coitado.
Meu
pai resolveu contratar um único funcionário para o Pablo mandar, é
nesse momento que surge uma das personagens que eu mais amo nessa
fase: SEU JUSTINO!
O
que falar de Seu Justino? Uma das pessoas mais maravilhosas do mundo.
Seu Justino era um maranhense de mais de 50 anos, preto, de aparência
rude, forte como um touro (sovava 10kg de massa na mão), casado,
pai, hétero e absolutamente afeminado.
Ele
era exatamente igual ao Bita de Barão.
Seu
Justino não falava NHA e NHE, como bom maranhense do interior falava
COXINEA, VINEO (vinho), MARANIÃO... amo! Ele também alongava todas
as frases com um M imaginário, tipo: DONA CONCEIÇÃOUMMMMMMMMMMM...
Ressoava como um sino.
Todas
essas características, mais um humor afiado e um deboche que só as
puta de BR sabem fazer, fazem de Seu Justino um perfeito
amigo/aliado/parceiro/muso de quem?
Exatamente.
O plano do meu pai deu errado. Seu Justino tinha trabalhado anos em
hotéis e restaurantes chiques, o que lhe dava embasamento pra
rejeitar tudo no PABLO e amar a arrogância de Mamãe! Foi amor a
primeira vista! SEU JUSTINO e MAMÃE viraram mais amigos, pai e
filha.
A
vida de PABLO era odiar SEU JUSTINO, e a vida de Seu Justino era
irritar o Pablo. Ele vivia pra isso. Se ele soubesse que uma coisa
tava dando choque, mandava o PABLO pegar nela... Pablo levava choque
e ele “TOMÔ PABLUMMMMMM? HIHIHI” e sempre ouvíamos de longe
“VÉI DESGRAÇADO!”
SEU
JUSTINO era aluno do MOBRAL, então, tudo que ele aprendia na aula,
repercutia no dia seguinte: “PABLUMMMM, TU SABE QUAIS DESSES
TRANGULUMS SÃO OBTUSÂNGULUMMMMMS?” e PABLO “o triângulo do teu
cu” e em seguida “TEM QUE VOLTAR PRA ESCOLAMMMM, TÁ BURRUMMMM”
... “VÉI DESGRAÇADO!”
Usando
toda sua experiência internacional, que se resumia em: Já ter visto
muitos gringos (Sim, isso mesmo, isso é tudo), SEU JUSTINO colocava
sempre uma palavra em inglês ou chique pra batizar suas criações.
Suco congelado? “ISSO AQUI É UM GELICE” (mistura de Gelim com
ice)
Esqueci!
TUDO tinha o sobrenome “DELICIAMMMMMM” então, era “GELICE
(gelaice) DELICIAMMMMM”. As coxinhas que seu Justino fazia, eram as
“COXINHAS DELICIAMMMMMMS” e os pastéis “PASTÉIS
DELICIAMMMMMS” e assim por diante...
Seu
Justino batizava todos os novos salgados da fábrica junto com a
minha mãe. Então, era maravilhoso ver os vendedores de salgado
explicarem na rua: “ESSE AQUI É O CHEESE DELICIAMMMMM, que é
salgado de queijo!”.
Os
salgados que PABLO inventava não tinham o sobrenome “DELICIAMMMMM”
e era maravilhoso ver como isso doía no PABLO, um homem de 35 anos!
Ele queria que os salgados dele tivessem o sobrenome delícia, mas
esse era um título que só Justino tinha a patente.
Um
dia, Pablo estava mostrando um salgado novo que ele tinha feito: -
Essa é a torta de frios delícia... E Seu Justino gritou “NÃO
PABLUMM, ESSA NÃO É DELICIAMMMMMM” E Pablo ficou triste.
Na
real, todo mundo é só uma criança no recreio querendo ser aceita e
amada.
PABLO,
por sua vez, sacaneava as orelhas de abano de seu Justino e seu jeito
peculiar de andar de bicicleta: Seu Justino não sabia começar a
andar com a bicicleta parada, então ele se sentava no banco e ia
andando com as pernas abertas até começar a correr e pegar embalo.
Parecia
uma ave enorme e desajeitada. Todo dia, na hora de Seu Justino ir
embora, PABLO e meu pai o acompanhavam dando uma pequena corridinha e
gritando: VAI VOAR! VAI VOAR! VAI VOAAAAAAAAAAAAAAAAAAAR!
Entendam,
Seu Justino não é vilão, ele só amava demais uma única pessoa:
MINHA MÃE. Pela primeira vez na vida, estava empatado.
Na
fábrica, tinha uma despensa muito pequena onde ficava a fritadeira.
Só cabia uma pessoa e a porta tinha um defeito: Não podia fechar!
Se batesse a porta, não tinha como abrir por dentro. (Vai guardando
essa informação...)
Toda
vida nós usamos a farinha de trigo Rosa Branca, que era boa e
barata. Surgiu uma baratíssima chamada LILI. Essa Lili até dava pra
fazer pastel... Mas coxinha, que é uma massa mais delicada, não
dava! Se não dava pra fazer coxinhas normais, imagine as coxinhas
DELICIAMMMMS?
PABLO
levou uns 10 quilos pra gente testar. Horrível! “PABLO, não
compra!” O que Pablo fez? Comprou 4 sacos de 50 Kg! Meu Deus...
Mermão,
ao colocar a coxinha no óleo, elas simplesmente CORRIAM ATRÁS DE
VOCÊ!NÃO SEI O QUE ACONTECIA, ELAS SALTAVAM DA PANELA NA SUA
DIREÇÃO! ELAS PEGAVAM IMPULSO E SE LANÇAVAM AO TETO E FICAVAM
DEPENDURADAS, ELAS EXPLODIAM E JOGAVAM LAVA QUENTE DE RECHEIO DE
FRANGO NA SUA CARA!
Pra
fritar as coxinhas, tu precisava vestir moletom e usar uma tampa de
panela gigante como escudo entre você e a fritadeira. Depois de um
mês lutando igual Dom Quixote, Seu Justino armou sua vingança...
PABLO
pediu pro seu Justino fritar algumas coxinhas, Ele disse “FRITA TU
QUE EU TÔ NO MEU HORÁRIO DE ALMOÇUMMMMMM”. Pablo colocou as
benditas coxinhas no óleo e quando as bombas começaram a chiar pra
explodir, seu Justino foi lá e bateu a porta!!!
(POW!)
VÉI DESGRAÇADO ABRE ESSA PORTA! (PÊI! ) AI! EU VOU TE MATAR VÉI
VIADO! (BUM!) VÉI DESGRAÇADO! AI! DESGRAÇA! VÉI MALDITO! AÍ! E
seu Justino “TOMÔ PABLUMMMMMMM! HIHIHI! ESSA FARINHA LILI É BOAM
NÉ? COMPRA MAIS DELAMMMMM!”
Essa
fase se chama SITCOM porque todo dia era uma aventura com início,
meio e fim, arcos dramáticos que se repetiam, bordões e: ENTRADAS!
A
fábrica ficava em um terreno aberto, sem muro. Na rua ao lado ficava
um “hospício”, todo mundo que ia se consultar lá, parava lá em
casa! Era a boa e velha CURVA DE RIO! Eu e meu irmão brincávamos de
aplaudir os personagens que entravam, como em uma SITCOM!
Todo
dia tinha personagem novo, mas os personagens fixos eram os nossos
favoritos!
Tinha
o DILSO, o doido favorito do meu pai. DILSO entrou pra família,
chegou a morar lá em casa um tempo... DILSO chamava meu pai de “Tio”
e tinha prestígio e autoridade diante dos outros doidos.
DILSO
tinha até bordão. Era só não dar o que ele pedia, que ele te
ameaçava com o fato de que um dia compraria uma arma. Era engraçado
porque “quem venderia uma arma pra um doido?”... 2020... DILSO
era doido naquela época, hoje seria um homem do seu tempo.
DILSO
apontava na rua. Seu Justino - Ó O DOIDUMMMMM... Eu e meu irmão
aplaudíamos Dilso - Tio, me dá essa bicicleta? Luisão - Já chega
pedindo, não fala nem bom dia? Dilso - Bom dia... Me dá? Luisão -
NÃO! BORDÃO:
Outro
bordão do DILSO era: EU NÃO SOU DOIDO, EU SOU É DA BAHIA!
PABLO
ficou muito amigo de um enfermeiro que fazia a guarda do hospício,
esse cara contou quase tudo que sabíamos da vida do DILSO. A família
não cuidava... Meu pai adotou DILSO pra vida dele. Quando Dilso
internava, Pablo e meu pai dividiam o turno no hospital.
Nessa
época, a gente tinha uma Arara como animal de estimação, a
Rosa...Tinha uma doida que todo dia sentava debaixo do pé de goiaba
e conversava com a Arara como se ela fosse um anjo: “HEN, ME AJUDA
ANJO GABRIEL, FALA COMIGO ANJO...” E o anjo Gabriel respondia “DÁ
O PÉ!”
Tinha
também uma ex cafetina que achava que minha mãe era puta dela: Ela
chegava e falava “Ê, RAPARIGA! VAI FAZER UM CAFÉ PRA MIM!”.
Minha mãe odiava essa mulher, bateu boca com ela várias vezes, mas
meu pai sempre falava “Vai brigar com a doida, Ceição?”. Sim,
minha mãe ia.
Minha
mãe é o tipo de pessoa que briga com doido, debate com criança e
morde em cachorro. Juro: Na nossa rua tinha um cachorro que todo dia
mordia minha mãe, ela falava com a dona mas não resolvia nada... Um
dia ele mordeu minha mãe, ela correu atrás dele e o mordeu de
volta!
A
imagem é esta: Minha mãe com os dentes no rabo do cachorro. O
cachorro “Caimmmmmmmm” E minha mãe “PRO CÊ VÊ O TANTO QUE É
BÃO...”
Minha
família e minha história só podem ser lidas aos olhos do humor. Se
for ler aos olhos do que é certo, é tanta coisa errada que o
cancelamento é inevitável.
Uma
vez, a ex cafetina fez uma coisa maravilhosa! Pediu um suco pro meu
pai, ele disse “não tem suco pronto, quando tem eu dou”. Ela
pediu dois reais, meu pai deu; Ela se virou pra minha mãe, deu 1
Real pra ela e disse “Ê RAPARIGA, VAI LÁ FAZER UM SUCO PRA MIM
QUE EU TÔ PAGANDO!”
Entendeu
o que essa GÊNIA fez? Ela empreendeu. Ela chegou no objetivo, ela
comprou mercadoria mais barata, ela economizou, ela teve lucro, ela é
praticamente o espírito natalino do Partido Novo CARAI!
PABLO
e o enfermeiro/guarda (nunca soube direito como era essa função)
ficaram grandes amigos. O enfermeiro passava horas lá em casa, vai
ver que era por isso que os pacientes tavam tudo solto... rs.
Quando
o enfermeiro apontava, eu e meu irmão aplaudíamos e seu Justino
falava: O NAMORADO DO PABLUMMMMMMM... “VÉI DESGRAÇADO!”
Seu
Justino que me ensinou uma brincadeira de trava véia que eu faço
até hoje: dublar as pessoas da rua! Enquanto eles falavam de
futebol, a gente tava “PABLO FLORINDA!” “QUE PRAZER O SENHOR
POR AQUIMMMM” “EU TROUXE ESSA INJEÇÃO PRO SENHOR” “ENTRA
PRA COMER MINHA COXINHAMMM”
Um
dia, a gente começou a escutar uns gritos “SOCORR TIO! ME AJUDA
TI!”. Meu pai achou parecido com a voz do Dilso, fomos atrás dos
gritos e, pasmem, encontramos O ENFERMEIRO BATENDO NO DILSO! Pablo e
meu pai voaram em cima do cara!
Enquanto
isso, Dilso tava revoltado com a demora na assistência “EU GUITEI,
GUITEI ‘tio!’ ‘Tio’ E O TI NÃO VINHA...”
Descobrimos
que o enfermeiro batia no Dilso. Fomos no hospício denunciar! Minha
família tem essa mania, nunca vai um, vai sempre um monte de gente!
E sempre tem um sujo de farinha de trigo, minha mãe cheia de
prendedor na blusa pq tava lavando roupa, a barriga molhada do
tanque...
FOMOS
EXIGIR A EXONERAÇÃO DO PROFISSIONAL ENFERMEIRO E GUARDA QUE BATIA
NOS INTERNOS! JUSTIÇA! JUSTIÇA! JUSTIÇA!
Foi
então que descobrimos que o cara não era guarda de lá, nem
enfermeiro, era paciente! Ou melhor: ele era interno! O Dilso podia
sair, ele não! Ele fugia e ia lá pra casa...
Seu
Justino, imediatamente: “AI MEU DEUS, PABLUM CONVERSOU UM ANO COM O
HOMI E NÃO VIU QUE ELE ERA DOIDUM? ACHO QUE O DOIDO MAIOR É O
PABLUMMMMMM!” “CALA A BOCA VÉI DESGRAÇADO!” “NÃO VÃO TE
DEIXAR SAIR DAQUI NAUMMMMMM”
Essa
é uma das minhas fases favoritas da nossa vida. Amo a fase SITCOM!
Amo os amigos doidos e Seu Justino que me apoiaram na fase difícil
que é a pré adolescência... Seu Justino, Pablo, os doidos, Dilso,
a Arara... Como diz meu tio Brasa, “NÃO ERA UMA CASA, ERA UM
ECOSSISTEMA!”.
Gostaria
de presentear vocês com a informação de que meu pai e Pablo estão
com o carro parado em alguma cidade no interior do Tocantins. Eles
foram pra lá fazer negócios (o novo negócio que ainda vou contar)
e o carro do PABLO não aguentou a emoção.
A
ideia era chegar em casa hoje 6 da tarde... Parece que, no melhor dos
cenários, chegarão manhã à noite.
No
dia mais claro, na noite mais escura, nenhum mal escapará a minha
visão! Que aqueles que adoram o poder do mal, temam o meu poder ...
A LUZ DO LANTERNA VERDE E DE PABLO E LUISÃO... COMEÇA AGORA!
Essa
é minha vida. TEM QUE RIR PQ SE FOR CHORAR NÃO PARO MAIS. Espero
que vocês tenham tido paciência de chegar até o final.
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aí pra esse trabalho não ficar de graça!
Por
hoje é isso. Volto qualquer dia!
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: @PauloVieiraReal
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PDF:
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Acesso
13/01/2022 e 29/07/2022