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terça-feira, 7 de julho de 2026

Sete sílabas de terra vermelha (Paulo Bentancur)

 


Montado em sete sílabas, Jayme Caetano Braun (1994 – 1999) não descuida um verso sequer o generoso horizonte da lírica repentista. O seu mundo é um mundo deliberadamente limitado. Ao sul, sempre ao sul. Suas personagens não se multiplicam. Antes, encolhem-se na solidão que as faz andarem por lonjuras enormes numa condição minguada. Jayme canta a dor e a alegria – mais a dor que a alegria – de ser gaúcho numa terra de gaúchos, sim, mas sofrendo uma espécie de desterro cronológico, já que terra e tipos apresentam-se ameaçados pelo estigma de terem sobrevivido mais como símbolo de um mundo vencido pelo tempo.

Em boa hora se retoma a publicação de obra das mais importantes do maior payador entre nós, aquele que soube como ninguém beber na vertente de um Atahualpa Yupanqui (argentino), apenas que afeito tanto ao verso escrito quanto musicado – Jayme gravou sete discos com recitais, mídia sob medida para sua poesia de formato essencialmente popular.

Brasil Grande do Sul é um dos mais importantes livros lançados pelo poeta, a partir de 1954, ano da estreia, a 1990, quando Jayme dependura, não as chuteiras, mas as alpercatas.

A obra de Jayme Caetano Braun traz no seu íntimo um indisfarçável orgulho de suas raízes somado a elementos de uma simplicidade cotidiana. Sobretudo Brasil Grande do Sul, a súmula na qual cabe tudo o que gira em torno do gaúcho, esta figura emblemática, muitas vezes heroicizada, mas que nestes versos que redesenham seu território, o espaço de convivência de sobretudo um tipo humaníssimo, tão resistente quanto o nordestino que Euclides da Cunha descreveu em Os Sertões.


Objetos como monumentos

Nesse desfile, da primeira à última página, dos objetos de que é feito o universo sulino, temos as armas, os apetrechos, os animais, os amores e os cenários que fazem parte de um universo ritualizado pelo poeta. O mate amargo é vinho a consagrar a grandeza do passado ou “água-benta da raça”.

Grandeza a todo instante lembrada e, mais que lembrada, ostentada como um estandarte a justificar a marcha já num presente sem glória mas cujo heroísmo nunca será enterrado.

Seu léxico, particular de uma só região, circunscrito a um lugar e época que o cristalizam num esteticismo quase de gíria, preso a uma comarca, isto é, emparedado na província que o vampiriza e o enterra, acaba sendo a fala de um lugarejo, pó verbal que vai sumindo no ar como o som modesto, movido tão só do torrão inspirador, de um monólogo que no entanto jamais é despido de mistério.

Há em cada página de Jayme uma obsessão de reverência, um desejo ardente e completado pela entrega à tradição. Não conhece ruptura. Nem a morte o ameaça. Quando esta vier, o cavalo e o vira-lata o assistirão ser enterrado. É todo seu público, descendentes, herdeiros. Índio vago, sua fortuna é chorar a consciência de uma região mais que remota, na qual o convívio se dá somente pela saudade.

Reza a todo instante pela tradição, vista como um credo. E se ele vela o espectro que o inspira, pelo mesmo processo promove sua ressurreição.


Monarquia, conformismo, assombração

Se é constante o cerimonial nessa estética, isso se dá pelo tom de monarquia no imaginário que o assola. O gaudério, desgarrado, pária social, também é rei: dispões de um poder absoluto, poder autorizado pela valentia sem tréguas e pela sinceridade imperiosa. Nesse imaginário, portanto, o rei é justo. Não há abuso (exceto com os inimigos políticos, é claro). Trata-se, como numa fábula, de um monarca compreensivo e popular, não pela fama, mas pelo trânsito, pelos gostos, pelos hábitos. Um príncipe meio mendigo, e vice-versa. Sensível ao mais ocasional cachorro de beira de estrada.

Aí a política não faz nicho. O cantador convive sem conflito aparente com as duas facções que dividiram o estado, os chimangos (lenço branco) e os maragatos (lenço vermelho). Admira em ambas a disposição pela luta, que canta sem meios termos.

Os exageros dessa ótica se justificam pela pose de bravata, aceitável sobretudo pelo coração puro.

Tolhido pelo agora sem promessas de redenção, muito menos heroísmo (apenas resistência), trata já o relho como relíquia, e menciona o mundo que o gerou como uma região primitiva da qual só a memória sopra hoje, junto com o vento.

Retrata um gaúcho que ainda bebe de antigas ilusões (o passado é sempre heroico para ele). Resta-lhe a comovente fidelidade do cavalo e do cusco, que o acompanham sempre. Opção humana tanto do temperamento singelo quanto da solidão que não lhe deixa escolha.

Afinal, o mundo arcaico que ele pranteia oferece-lhe uma hóstia feito migalha. Mas uma migalha refinada pela poesia. Aí estão expostos os fantasmas que assombram e animam a lírica de Jayme: o passadismo como ilha segura para salvar a memória afetiva o que o presente já não anuncia.



Enrodilhado

A imagem emblemática do homem submetido constantemente, nas árduas lides campeiras, representa a ritualização de Braun e seus mais que singelos apetrechos. E mesmo a filosofia possível se faz ao ritmo do quero-quero e à luz de uma lamparina trêmula.

O payador veio disso. Da infância entre as ruínas das Missões, da terra vermelha de Bossoroca, então distrito de São Luiz Gonzaga, dos pés descalços de guri atento ao imaginário poderoso da região noroeste do Rio Grande do Sul. Misto de gringo, descendente de alemães (Braun) e gaúcho pelo caudal sanguíneo da mãe, de temperamento entre ibérico e silvícola.

Embalou-o um reino agora fantasmagórico de glória excelsa cantada insistentemente. Mais tarde, num tom muitas vezes permeado de melancolia. Os sinais das batalhas ecoam no tempo perdido e hoje servem de mortalha para o gaúcho cuja alma guerreira recorta sua personalidade, alimentada pela coragem e por um projeto político já enterrado.

Estampa a humildade dos conformados que se aliviam com o orgulho que sentem pela terra natal. Cenário às vezes fantasioso do qual extraem seus mitos e sua justificação. O poeta olha o fantasma e sua herança agora quase só relíquia – porém nunca suficientemente louvada.

Louva-os numa emissão típica dos hinos. Idealismo que busca unir uma ética de guerreiro e uma condição popular de deserdado material cuja riqueza só o espírito herdou.



Arquitetura do verso

Foi radialista, assim mais escutado que lido, que a sua é uma poesia com sabor de repente (o payador é um repentista, que compõe no embalo do recurso clássico dos versos regulares e das sílabas seguras, a maioria com rimas pobres, poemas num estalo, um atrás do outro). Eis a súmula do trabalho de Jayme Caetano Braun.

O setessílabo, redondilha maior, é um metro fácil, rápido, de apreensão imediata para o ouvinte ou leitor. As centenas de poemas de Jayme (extraídos de sua dúzia de livros e tantos discos gravados) verteram com a generosidade das fontes nos trópicos, e mataram, numa inversão metafórica, a sede de terra que todos tínhamos.

Falando em poesia, Braun leu os espanhóis, por exemplo, mas os de carne e osso que invadiram as Missões, expulsaram jesuítas e trucidaram índios. “Índio vago”, como ele mesmo se retrata em inúmeros versos, agarrou-se a esfarrapadas bandeiras de batalhas dolorosas. E mesmo batalhas que conheceram êxito. Sua poética é militar, guerreira, inspirada por um caráter bélico que forjou o gaúcho, guardião de fronteiras; e é social, naturalmente, prestando tributo a bolicheiros, a peões, a negros velhos, a gente humilde sem literatura alguma; e é engajada de muitas formas, especialmente num plano onde o afeto comanda forma e conteúdo e sua poesia busca estender a mão quando outras tentam impressionar.

Mais que um belo lance de oportunidade editorial (a rara presença de obras do payador em nossas estantes é de fato uma lacuna incompreensível para a necessária identidade do Estado e do País), esta edição especial, preparada com esmero, de Brasil Grande do Sul, representa uma homenagem no mínimo obrigatória a quem amou sua aldeia e dela não arredou-se um verso sequer. O limite de sua poesia é também seu alcance. Ela se compraz em ser local, regional, satisfaz-se em parir versos como num eco dolorido de quem destila suas mágoas preocupado apenas com a escancarada fidelidade à aldeia que deveria ser universal. Jayme Caetano Braun não arreda pé do seu pago.



Fonte:

Copyright: Aurora Ramos Braun

Edição: Sérgio Rosa de Paiva

Preparação de Originais e Revisão: Paulo Bentancur

Capa e projeto gráfico: Antonio Henriqson

Ilustrações a carvão: Figuras Estúdio (Diego Jaworski e Hostílio Ferreira)

à Arnildo Martínez Müller (in memorian)

B825d

Braun, Jayme Caetano, 1924-1999

Brasil Grande do Sul. Estudo crítico de Paulo Bentancur. Porto Alegre: Sefera, 2015, p. 5-10

ISBN 978-85-*60634-05-7

1. Poesia brasileria. 2. Poesia sul-rio-grandense. I. Bentancur, Paulo.

II. Título.

CDU 82(816.5)-1

Bibliotecária responsável: Giane Zacher – CRB 10/1984

SFERA EDITORA DE ARTES

sfera.editoradeartes@hotmail.com

(5103391.5929 / (51) 9909.0933

Imagem: https://www.jornaldocomercio.com/_midias/jpg/2015/12/04/206x137/1_pan_44217-400956.jpg


Acesso 07 julho 2026





sexta-feira, 3 de julho de 2026

Áudio do CD encartado no Livro Jayme Caetano Braun - De fogão em fogão - 2013

 

PRONAC 1011655 Jayme Caetano Braun De fogão em fogão Declamador/solista Adalberto Machado Músico/violonista Lucio Yanel Produzido por Sérgio Rojas SFERA EDITORA DE ARTES LEI DE INCENTIVO A CULTURA Realização: Ministério da Cultura GOVERNO FEDERAL PAÍS RICO É PAÍS SEM POBREZA PROIBIDA A VENDA E DISTRIBUIÇÃO SEPARADAMENTE Produzido por Digital Midiatec Comércio Fonográfico Ltda - CNPJ: 12.484.369/0001-04 Representado por DISC PRESS Comércio Fonográfico Ltda - CNPJ: 02.307.313/0001-12 - Fone/Fax: (51) 3023.8484 www.discpress.com.br - discpress@discpress.com.br Fabricado por CNPJ: 11.366.273/0001-70 Licenciado e sob encomenda de Sfera SRP Editora de Artes Ltda-ME CNPJ: 07.900.823/0001-12

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Áudio do CD encartado no Livro Jayme Caetano Braun - Brasil Grande do Sul - 2015


 PRONAC 1011655

Jayme Caetano Braun Brasil Grande do Sul Músico/violonista Sérgio Rojas Declamador/solista José Édil de Lima Alves Produzido por Sérgio Rojas SFERA EDITORA DE ARTES LEI DE INCENTIVO A CULTURA Realização: Ministério da Cultura GOVERNO FEDERAL BRASIL PÁTRIA EDUCADORA PROIBIDA A VENDA E DISTRIBUIÇÃO SEPARADAMENTE Produzido no pólo Industrial de Manaus por Sonopress Rimo Indústria e Comércio Fonográfica S/A - Indústria Brasileira - Av. Guaruba, Nº 585 - CEP 69075-080 - Manaus/AM - CNPJ: 67.562.884/0007-91 - sob encomenda de SferaSRP Editora de Artes Ltda - CNPJ: 07.900.823/0001-12

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Gaúcho: Um Título de Nobreza - Jayme Caetano Braun (Mariluza Costa - Revista Tarca Nº 08)

Entrevista
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Gaúcho: Um Título de Nobreza



Jayme Caetano Braun, missioneiro, payador e poeta,é símbolo do nativismo do Rio Grande do Sul. Acredita na arte comomeio de mudança social e sonha com um país mais livre e justo.Não confia em CTG’s, nem em comissões julgadoras defestivais. No entanto, acha que a arte gaúcha podeencontrar o caminho certo para atingir mercados maiores, desdeque mantenha a sua autenticidade e explore a própria riqueza.Com a marca do puro nativismo estampada na alma e na charla,Jayme Caetano Braun expõe suas razões.  

  
“SE NÓS SOMOS POVO, NOSSA MÚSICA É POPULAR, BRASILEIRA, ANTES DE SER REGIONALISTA”

TARCA: Jayme, o que é o gaúcho?
JAYME: Gaúcho é um estado de alma, uma filosofia de vida. Hoje, a imprensa do cento do País interpreta a gauchada, só para avacalhar, como uma coisa cômica, uma palhaçada.
Ser gaúcho é ter título de nobreza.
Em 1930, a entidade nativista uruguaia “Los Tientos” fez uma pesquisa sobre o gaúcho. Chegaram num rancho de um paisano velho, lança na porta, chiripá, bota garrão de potro, e perguntaram o que é ser gaúcho.
Bueno, disse ele, “conheci muitos gaúchos. E que gaúchos! Um branco, um moreno, um índio e até um inglês. Que gaúcho toro! Foi o mais gaúcho que conheci”.
Pra mim, a palavra vem de “guacho”, que quer dizer gaudério, teatino.
Agora, não sei o que deu na cabeça do Tau Golin, para querer destruir a história. Só porque não gosta dos estancieiros...


NATIVISMO/ABERRAÇÃO

TARCA: O que é o nativismo?
JAYME: Ninguém dizia esta palavra quando vim pra Porto Alegre. Não afirmo que fui eu que a trouxe, como o Nico Fagundes faz com o bombo leguero, instrumento que o índio sempre usou aqui, que ninguém trouxe.
Todo mundo falava “tradicionalismo”.
Num pinga-fogo de rádio, a questão foi levantada e o Nico respondeu: “problema do chimango, ele é missioneiro, eu sou brasileiro”.
Hoje, para essa gente, eu é que sou tradicionalista. E os que viam a palavra “nativismo” como aberração, hoje a usam para identificar seu trabalho.

TARCA: Existe uma polêmica divisão entre o tradicionalismo, agregado a CTG’s, e o nativismo, identificado nos trabalhos independentes. É isso mesmo?
JAYME: Dizem que o Raul Ellwanger é nativista. Na verdade, ele fez um estágio no nativismo latino, mas lançou um disco que não é nativo.
A separação não está bem delimitada. Aí entra o problema da literatura, dos escritores nativistas.
Uma vez, para eu participar de um encontro, o Luiz de Miranda, então presidente da Associação Gaúcha de Escritores, me mandou uma ficha de inscrição. Ora, eu não estava pleiteando nenhuma vaguinha! Agora, não admito um encontro de escritores gaúchos sem a presença do Rillo, Colmar Duarte, Retamozzo, Barbosa Lessa, Paixão Côrtes e tantos outros.

TARCA: Como tu defines a música popular brasileira?
JAYME: Pra mim não existe música popular brasileira. Existem músicas populares. Se nós somos povo, nossa música é brasileira, é popular, antes de ser regionalista.
Essa divisão chegou ao cúmulo de dividir, em um debate, a poesia do Rio Grande do Sul entre nativa e gaúcha. Parece brincadeira... Os culpados disso estão aqui mesmo, dentro da trincheira. No resto do Brasil ninguém é contra nós.

TARCA: Quem são esses inimigos?
JAYME: Todos sabem. Eles se manifestam nos congressos...
Quase deram cabo de um, lá em Santa Maria, porque não queriam que se falasse em índio nem em castelhano. Em negro, então, Deus me livre falar...
Essa mistura toda nos faz uma raça a parte, temos que conviver com isso.
  


“A PILCHA NÃO FAZ O GAÚCHO”

TARCA: E a música gaúcha?
JAYME: Um exemplo de música gaúcha é o trabalho de um catarinense, o Pedro Raimundo a quem deveríamos erguer um monumento. Era um especialista em xote, que é um ritmo alemão e inglês.
A mazurca, a rancheira, a vanera, são ritmos vindos da Europa. E é aí, onde está a nossa maior cultura, que o pessoal quer depreciar. O bonito é a diversificação.
No entanto, querem caracterizar a nossa música como o bugio, que é um ronco de vanera, de rancheira.

TARCA: Como tu defines a música missioneira?
JAYME: Nós cantamos a música missioneira, mas não existe um debate sobre isso. Foram os missionários que nos trouxeram as maiores contribuições, reunindo os melhores médicos, poetas, arquitetos da época, na Companhia de Jesus.
Eles tinham também o poder econômico, o que os padres detêm até hoje. Aqui, encontraram índios com facilidade para aprender. Imagine, eles fabricavam guitarras e até órgãos.
Eu recebi da Argentina, um inventário que arrolava guitarras “brasileñas”, fabricadas nas Missões.

TARCA: Como o compositor pode inovar a música gaúcha?
JAYME: Este problema já foi enfocado – e mal – na Carta de Uruguaiana. A nossa temática é inesgotável, em torno do cavalo, da tapera, por exemplo.
O Rillo deu uma entrevista, no que foi infeliz ao afirmar que precisamos mudar em forma e conteúdo.
Mas nós temos é que nos valorizar, manter o que é nosso. Ninguém pode limitar e nem há parâmetros para medir a criatividade.
Precisamos é abolir o conceito de que só é gaúcho aquele que usa pilcha. Ora, eu uso a pilcha como um ritual, um culto, mas sou o mesmo, com qualquer vestimenta.

“SOMOS BRASILEIROS POR TEIMOSIA”

TARCA: Então, por que a nossa música custa tanto a ultrapassar as fronteiras?
JAYME: Não falta qualidade, nem falta mercado. A barreira é aqui dentro mesmo.
O Rio Grande do Sul está para o Brasil assim como o Brasil está para os Estados Unidos e os bancos credores. Nós estamos hipotecados. Os nordestinos vêm aqui, são bem recebidos, coisa e tal, fazem uma onda bem grande. Mas não tem a metade da arte do César Passarinho cantando.
Tem ainda a barreira política, imposta ao Rio Grande desde que ele surgiu. O Estado se criou fora da Nação brasileira e continua até hoje, porque não tem governo.
O que acontece hoje é reflexo daquela época; nos consideram outro país, somado à pecha que nos lançam de sermos castelhanos.
Somos brasileiros por teimosia, porque tudo nos leva a nem ser castelhanos, mas sim a ser um outro país. Não devemos modificar para agradar aos outros. Renegar nossas raízes, nunca!

TARCA: Como tu analisas a poesia como instrumento de transformação social?
JAYME: A música e a poesia sempre vão ter em todos os movimentos nacionalistas, de qualquer povo, papel importante. A participação social é ativa, porque poesia é a expressão da alma, é a maneira mais direta de propagação de uma ideologia, é um jeito suave de lançar uma mensagem.
Eu mesmo sou um exemplo de política partidária: fui um dos fundadores do PTB, realizando campanhas em todo o Rio Grande do Sul, através da poesia.

TARCA: Qual é o papel do artista?
JAYME: Ele é o chasque, é o portador da mensagem, não a mensagem. Tem gente que confunde. Na Idade Média, os menestréis cantavam, de castelo em castelo, levando mensagem através da poesia.



“TENHO PAVOR DE CTG”

TARCA: E os festivais de música gaúcha?
JAYME: Sou a favor porque fortalecem o movimento e revelam valores. Mas a grande deficiência está nas comissões julgadoras, nos regulamentos, que são tudo a mesma coisa.
Tem que moralizar, o que tem de plágio é uma brincadeira!
E isso deve ser eliminado na triagem.

TARCA: Agora as comissões estão alegando sotaque...
JAYME: Não precisa ser castelhano para ter sotaque. O cara da fronteira é brasileiro e tem. O Daniel Torres é brasileiro, com todo aquele sotaque. E o Dante Ledesma, conquistou o povo cantando “Orelhano”.
O ritmo, o instrumento e o sotaque estão juntos. Nós temos que lutar é contra essas coisas de “Camisa de Vênus”, que eu tenho asco, contra essa cultura hostil para nós, contra a imprensa que se preocupa em fazer um jornal colorido só de novela com sotaque carioca...

TARCA: E os CTG’s?
JAYME: Tenho horror de CTG. Os militares tomaram conta dos CTG’s no golpe militar de 64. E hoje, essas mesmas pessoas que tomaram conta, estão virando de lado só para continuar no poder. O Onésimo Duarte, presidente do MTG, quer ser constituinte do nativismo. Pode? Que cara de pau!
Eu só participei, em 59, do conselho coordenador, em Cachoeira do Sul.
Depois veio o MTG, que tentava impedir a apresentação de conjuntos que não tinham licença. Até uma apresentação minha com o Cenair, em Caçapava, quiseram impedir. Era uma imoralidade, pedir licença pra eles para cantar.
Esse pessoal adotou siglas só para ter espaço, pra controlar. O que é isso??

“A MORATÓRIA É UM SONHO”

TARCA: Como tu vês a situação da América Latina hoje?
JAYME: A América Latina não tem líderes. Quando surge um, eles matam. Não puderam matar o Fidel Castro, mas o Che Guevara conseguiram.
O Brizola mesmo, veio acomodado para cá, mas se ele se arvora, morre. Ninguém vai entregar o poder assim no más. Na Nicarágua, os americanos vendem armas pra um lado e dão soldado pro outro. Gostaria de ver um louco como o Kadaf aqui no Brasil, sonho com isso, com as diretas e com a moratória para a dívida externa. O Sarney não vai fazer nada. Se tentar, tiram ele fora.

TARCA: Qual é o modelo político-econômico ideal para o Brasil?
JAYME: Eu sou por um modelo nosso, brasileiro, sem copiar ninguém. A primeira coisa é não pagar a dívida externa com a fome.
Cada vez que aparece a notícia de que batemos o recorde em exportação, deveríamos ficar tristes, porque é mais uma coisa para amortizar a dívida. Devia ficar para alimentar o povo, que é quem produz divisas.

TARCA: E com a Nova República, muda alguma coisa?
JAYME: De nova, só tem o nome. Querem comparar o Tancredo com Getúlio Vargas. Tancredo Neves surgiu de repente como estadista. Ele foi ministro do Getúlio. Quando Getúlio caiu, não aconteceu nada pra Tancredo.
Depois, ele foi ministro do Jango e seu maior ato foi levar o Jango para o aeroporto quando ele imigrou. De repente, surge como um baluarte!
A Nova República nasceu disso, tendo, depois, como Presidente, o Sarney, que durante vinte anos foi porta voz da ditadura.

Fotos: Tude Munhoz
Texto: Mariluzza Costa


Fonte: Revista Tarca - ANO II - Nº 08

domingo, 8 de julho de 2018

Jayme Caetano Braun - Payador Missioneiro (Documentário Karin Schmidt - 2016)




Com duração de 18 minutos, o documentário retrata um pouco da vida, da obra e do legado de Jayme Caetano Braun, com imagens inéditas dos lugares onde ele viveu grande parte de sua infância e juventude. Depoimentos exclusivos de Pedro Ortaça, Glênio Fagundes, Juca Ramos, Gelsa Ramos e Vinícius Ribeiro enaltecem com maestria, veracidade e encantamento, a missão do nosso payador maior.

Reconhecido internacionalmente, Jayme Caetano Braun foi poeta, declamador e payador (aquele que faz versos de improviso opinando sobre algo). Simplicidade e ternura definem o sentimento que Jayme trazia na alma, na voz, no olhar e na vida, sempre exaltando em suas payadas o valor da cultura terrunha da região das Missões e do Rio Grande do Sul.

Senti a presença do Jayme em cada verso que ouvi, em cada palavra das pessoas que entrevistei, em cada sorriso de quem trabalhou comigo, em cada dificuldade que aparecia e eu encontrava forças pra não desistir. Acima de tudo, senti a presença do Jayme em cada batida do meu coração, na medida em que eu conhecia um pouco mais de sua história tão grandiosa e ao mesmo tempo tão simples. Compreendi, na mais pura essência, o que ele quis dizer em um de seus versos: a vida com poesia fica muito mais bonita!

Para quem, assim como eu, tem admiração pelo nosso payador missioneiro, não deixe de conhecer o Complexo Turístico Cultural Jayme Caetano Braun, em São Luiz Gonzaga. Será uma oportunidade de ver bem de pertinho o monumento, utensílios que pertenceram ao Jayme, além da Venda do Bonifácio com produtos típicos artesanais. Também poderá assistir o documentário no espaço do Complexo, que sempre é exibido para todos os visitantes.

Reitero meus agradecimentos a todos que tornaram possível a concretização deste trabalho, produzido em 2016, em especial, Sandra Ferreira e Vinicius Ribeiro, que estiveram ao meu lado durante os oito meses de produção. Cada um dos nomes que aparece nesta obra teve participação determinante, pois este documentário foi feito por muitas mãos e muitos corações.

É com muito carinho, alegria e respeito que apresentamos o documentário 
JAYME CAETANO BRAUN – PAYADOR MISSIONEIRO!
Karin Schmidt

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Vaneirão do Mentiroso (Jayme Caetano Braun/Talo Pereyra) Intérprete: Eraci Rocha



7ª TERTÚLIA MUSICAL NATIVISTA

Gravadora: Chantecler
Catálogo: 2.04.405.232
Ano: 1986


Quase sempre o mentiroso
se tapa de quero-quero!
Mas eu, faz tempo que espero
o mate do João Cardoso!

Um dia a terra me come,
mas ninguém faz o que eu faço...
Desde que trancei o laço
dum couro de lobisomem!
¼
Minha potra de índio rude
não há quem possa detê-la,
desde que bebi uma estrela
na gamela do açude...

Vou ganhar lugar no céu
sem precisar de mandinga,
pois já torci meu sovéu
dum couro de jacutinga!
¼
O negro do pastoreio,
eu quero que me apareça,
pra me ver botar o freio
numa mula sem cabeça!

Não refugo gineteada
de touro nem de cavalo,
desde que numa rodada
pisei na orelha dum galo!
¼
Se foi a sorte mesquinha
deixando apenas de sobra,
uma guampa de galinha,
pra tirar leite de cobra...

Peguei a diaba da cola
quando se banhava nua,
e tirei lasca da lua
com um balaço de pistola!

Irmãos de canto e guitarra!
De tertúlia e de cordeona!
A vida é uma temporona,
que a gente leva por farra...

Pealo em gato de cucharra,
que a tradição se reaviva!
Apague o sol com saliva
e leite de pomba-rola...

Mas... guardem sempre crioula
nossa música nativa!

Fonte Ficha Técnica LP:  http://www.immub.org/album/7a-tertulia-musical-nativista   acesso 06.07.2018
Fonte Captura de Áudio: https://www.youtube.com/watch?v=sceV_iHYcF8 acesso 06.07.2018

Sete sílabas de terra vermelha (Paulo Bentancur)

  Montado em sete sílabas, Jayme Caetano Braun (1994 – 1999) não descuida um verso sequer o generoso horizonte da lírica repentista. O seu ...