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sábado, 7 de julho de 2018

2ª Tropeada de Livramento e as propostas de Luis Coronel (Danilo Ucha)


FESTIVAIS



Especial para “Tarca”

Até o dia 30 de junho estarão abertas as inscrições para a 2ª Tropeada da Canção Nativa de Sant’Ana do Livramento, festival que será realizado, naquela cidade da fronteira com o Uruguai, entre os dias 31 de julho e 2 de agosto. O prêmio para o ganhador e a ajuda de custo devem estar entre os mais baixos dos festivais de música que se realizam no Estado, mas o pessoal do CTG Rincão da Carolina, que organiza o evento, está tentando encontrar formas para que o sucesso e a repercussão da festa compensem a grana curta.

Esta situação possibilita que se analise um pouco a proposta feita pelo Luis Coronel, na edição anterior da “Tarca”, quando sugere que nenhum músico aceite participar de festival se não tiver garantido um cachê de Cz$ 5 mil por apresentação. O Coronel sugere, também, que não se use mais a expressão “ajuda de custo” para designar o dinheiro que cada festival entrega aos compositores que tiveram músicas classificadas para ajudá-los a pagar os músicos e cantores que levam para defender suas músicas.

É importante e interessante esta sugestão do Luis Coronel, principalmente por que vem em defesa do músico e do crescimento da qualidade de cada festival. Acredito, no entanto, que o assunto precisa ser melhor analisado. Acho que posso falar com certa tranquilidade sobre o assunto “ajuda de custo” porque fui dos primeiros a defender sua criação, na Califórnia da Canção Nativa, de Uruguaiana, quando ele era o primeiro festival de música nativa importante do Estado, estava crescendo e não dava quase nenhuma consideração aos músicos. Hoje a história é outra, mas, naqueles anos de 73, 74 e 75 – o próprio Coronel é testemunha disso – o pessoal fazia os 700 quilômetros até Uruguaiana por sua única e exclusiva conta. Ivaldo Roque e Jerônimo Jardim, por exemplo, cansaram de chegar a Uruguaiana, de ônibus, poucas horas antes de ter que subir ao palco, e logo depois voltar a Porto Alegre, porque precisavam trabalhar no outro dia. Se, como aconteceu, tivessem música classificada para a última noite, tinham que fazer outra viagem, e tudo com dinheiro do próprio bolso.

Lembro-me da primeira mesa redonda que fizemos na Califórnia, numa sala do Hotel Glória, com a participação, entre outros, do Paixão Cortes, do Glaucus Saraiva e do Osvil Lopes para sugerir aos organizadores, entre os quais Colmar Duarte e Henrique Dias de Freitas Lima, a adoção do sistema de ajuda de custo aos compositores classificados. Foi uma batalha difícil. Posteriormente, levei a mesma luta para todos os festivais cujos organizadores me procuravam para solicitar sugestões, e estes, confesso, foram mais rápidos do que a Califórnia na adoção do sistema.

Não tenho, como o Luis Coronel, o mesmo preconceito contra a expressão “ajuda de custo”. Ela é isso. Nada mais. Agora, se ele acha que os compositores devem cobrar com um “X” para colocarem suas canções e seus músicos no palco, aí é outra coisa. Acho que ninguém pode me chamar de inimigo dos músicos. Ao contrário. Mas entendo esta sugestão do Coronel muito discutível. Se formos colocar em prática isso que ele sugere, estão o festival deixará de ser festival. Passará a ser um espetáculo, montado como outro qualquer, onde músicos e cantores apenas estarão apresentando músicas inéditas, as quais o público não conhece. Terá sido eliminado o risco. E isso, na iniciativa privada, que o Coronel defende, como empresário que é, e neste tipo de competição que é um festival, faz parte importante do esquema.

Já há quem diga que os festivais de música do Rio Grande do Sul – são 38, segundo um levantamento do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore – são um circo, com os mesmos artistas, os mesmos números, os mesmos palhaços, que se locomovem de um lado para outro, em verdadeira companhia de borlantim, Se houver este tipo de pagamento, como um cachê por apresentação, um pouco mais do mistério, do sabor, da aventura e da competição deixará de existir. Os festivais, que já envolvem certos aspectos estranhos à música e ao público, como a política, por exemplo, passarão a outro nível. Ou será que o Luis Coronel que transformá-los em algo certinho, sem erros, mas assépticos, como os festivais da Globo? Lá todo mundo recebe seu cachê, direitinho e um mundo de mordomias, mas qual é o resultado? As coisas boas, infelizmente, é uma regra do mundo, precisam ser batalhadas e obtidas com dificuldades e superação de obstáculos. A vitória assim, tem melhor sabor.

LIVRAMENTO

Mas, voltemos à 2ª Tropeada da Canção Nativa, cuja divulgação me levou ao debate com o Luis Coronel. Ela será realizada no Ginásio Cirino L. Azevedo e distribuirá, além de Cz$ 5 mil para o primeiro, Cz$ 2.500,00 para o segundo e Cz$ 1.500,00 para o terceiro colocado, prêmios aos melhores intérpretes masculino e feminino, conjunto vocal e instrumental e melhor instrumentista. Cada música classificada receberá uma ajuda de custo de Cz$ 1.500,00.

As músicas devem ter uma linha campeira, pois um dos objetivos do festival é cultivar o gosto pelos temas regionais. Cada compositor poderá inscrever até três composições. Os organizadores não colocaram no folheto com a ficha de inscrição o endereço para remessa das fitas cassete e das letras, mas um dos patrocinadores do evento é o jornal “A Platéia”, que fica na rua 13 de Maio, 715, Sant’Ana do Livramento, CEP 97.570. A Ordem dos Músicos do Brasil, em Porto Alegre, também deve ter informações sobre o evento.

O que o CTG Rincão da Carolina, principal patrocinador da 2ª Tropeada da Canção, deveria fazer é pressionar a Prefeitura Municipal, o comércio e a indústria de Livramento para obter mais recursos para a premiação. A quantia de Cz$ 5 mil para o primeiro colocado é irrisória. A ajuda de custo também é pequena, considerando-se que a distância entre Livramento e Porto Alegre, por exemplo, é de quase 500 quilômetros. Só em combustível e numa refeição, durante a viagem, o pessoal gasta os Cz$ 1.500,00 da ajuda de custo por música classificada. E Livramento, pelo que todos sabemos, é uma cidade rica, movimentada, com um comércio exuberante, principalmente em função de sua qualidade de fronteira com Rivera, constantemente visitada por turistas. Quanto mais dinheiro o poder público e a iniciativa privada investir num festival desse tipo, mais a cidade será conhecida em outras regiões.


O vencedor da 1ª Tropeada, em 1985, foi o gaiteiro, compositor e cantor Nelson Cardoso. Pelo seu nome, ele levou o da cidade pelos meios artísticos do Estado e do País. Se a nova edição for ampliada, tiver mais recursos e atrair bons músicos de fora, a divulgação de Livramento será muito maior.
Fonte: Tarca – Revista de Cultura Gaúcha – ANO III – Maio/1986 -  Nº 14 - p. 33/34

quinta-feira, 30 de março de 2017

Um Gaiteiro Com Ritmo de Fronteira (Por Danilo Ucha)


O gaiteiro Nelson Cardoso, um dos artistas mais autênticos da fronteira oeste do Estado, cujas músicas têm o ritmo e a poesia xucra dos campos fronteiriços, acaba de gravar um disco que em breve começará a ser vendido pela PolyGram.

            É um trabalho que mostra o poeta popular e o instrumentista talentoso que nasceram depois de um longo convívio de Nelson Cardoso com os usos e costumes de sua terra em carreiras de cavalo, marcações de gado, fandangos e manifestações culturais rio-grandenses. A produção foi feita por Ayrton dos Anjos, um dos principais responsáveis pela maior parte dos discos de músicos gaúchos aparecidos nos últimos anos.

            Não é, no entanto, o primeiro disco de Nelson Cardoso. Aos 42 anos, ele já possui uma vasta bagagem musical, iniciada quando, ainda jovem, aprendeu a tocar gaita com os músicos que animavam carreiras, pelo interior de Sant’Ana do Livramento, ou faziam a alegria dos peões e das chinocas nos bailes de fim-de-semana, em grandes fazendas ou nos ranchos de pau-a-pique espalhados pelos corredores ou esquinas de campos.

            Há dois anos, gravou seu primeiro elepê “solito”, “Meu Jeito”, numa iniciativa independente, mas, antes, já participara de outros dois elepês com o conjunto “Os Vaqueanos”, que fundou, em 1967, junto com Heber Artigas, conhecido como “Gaúcho da Fronteira”, e Adair de Freitas.

            O trabalho da segunda metade dos anos 60 foi pioneiro, pois o nativismo não estava em alta cotação, como atualmente, e eles conseguiram viajar por todo o País, levando a música do Rio Grande do Sul aos demais brasileiros. “Os Vaqueanos” conquistaram fama e foram até chamados ao Rio para apresentar-se na TV Globo. Em 1972, os membros do grupo resolveram seguir carreiras independentes, desfazendo-se o conjunto.

            Nelson Cardoso resolveu voltar para as terras da família, nas “Pitangueiras”, em Livramento, e dedicar-se às lides do campo. Não abandou, porém, a velha gaita, companheira dos longos entardeceres do pampa e de algumas esporádicas excursões pelos bailes das redondezas ou de algum festival de música nativista. Paralelamente, fundou o piquete “Negrinho do Pastoreio”, que todo o mês de setembro monta animado “fogão” lá pelas bandas da “Pecuária” e coloca nas ruas da cidade mais de 600 homens a cavalo desfilando em homenagem ao “Decênio Heroico”. As “festas farroupilhas” do “Negrinho do Pastoreio”, onde nunca falta carne, são as mais famosas do nativismo popular santanense. Há sempre chimarrão e trago de canha buena. E em roda de músico, não falta nunca a boa música.

            Neste novo disco, onde conta com a participação de Albino Manique (gaita) e Luiz Cardoso (violão), entre outros músicos, Nelson Cardoso gravou composições próprias, de Adair de Freitas e de Lauro Simões, além de duas músicas recolhidas junto a velhos gaiteiros da região da Campanha. Uma delas tocada pelos músicos do batalhão “Pé no Chão”, corpo guerreiro das antigas revoluções rio-grandenses, a outra, intitulada “Marcha do Cati”, que levantava os ânimos dos soldados do coronel João Francisco nos tempos do acampamento famoso.

            São músicas alegres, agitadas, ágeis, que movimentam o disco de Nelson Cardoso, que ele mesmo considera um trabalho “parelho e bem elaborado”.

            Uma das músicas novas, que certamente fará sucesso, é “Cordeona, Ponteio e Canto”. Há, também, “Para um pouco e vem de novo”, que nasceu da necessidade que ele tinha de explicar às pessoas porque estava demorando a fazer um novo disco. Na milonga “Parceiro”, Nelson Cardoso fala de amor e romance, duas coisas sempre presentes em suas músicas; e, na valsa “Sentimental”, mostra um estilo antigo, bem galponeiro, simples e tocante. “É só largar esta valsa, de manhãzita, num final de baile, que os índios veios, mesmo com um baita facão atravessado na cintura, começam a lacrimejar”, diz o poeta.

            Por tudo isso, vale a pena esperar pelo novo disco de Nelson Cardoso. Ayrton dos Anjos promete coloca-lo no mercado o mais breve possível.

Fonte: Revista Tarca – Cultura Gaúcha – ANO I – Nº 4

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Livro “O Balanço da Mata Norte – Batuque Rural na Bateria” (Rafael dos Santos, 2026)

  Batuque Rural na Bateria   Fonte:  https://viasabertas.com.br/nossos-trabalhos/livro-o-balanco-da-mata-norte-batuque-rural-na-bateria-2026...