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sábado, 6 de junho de 2026

HÉLGIO TRINDADE ENTREVISTA JOAQUINA ASSIS BRASIL (16.11.1979)

 


NÚCLEO DE PESQUISA E DOCUMENTAÇÃO DA POLÍTICA RIO-GRANDENSE

CASTELO DE PEDRAS ALTAS

ENTREVISTADOR: Profº HÉLGIO TRINDADE

IFCH/UFRGS


"Quem atira pedra eu subo em cima da pedra e faço dela o meu pedestal". Ele repetia muito isso. Ele achava que a pessoa que vive com dignidade não precisa nem se defender.


H - Poderia a senhora me relatar algumas das suas vivências e alguns de seus depoimentos ligados a figura de seu pai?

J - Eu acho difícil, porque a gente tem muitas lembranças, mas assim coordenadamente é muito difícil começar.

H - Então a senhora poderia talvez começar falando do castelo. Qual foi a ideia que ele teve ao construir este castelo?

J - Ele, quando se aposentou ou resolveu se aposentar, (ainda não tinha conseguido a aposentadoria em 1908) ele veio morar em Pedras Altas. Nessa época foi que começou os trâmites da aposentadoria, e deixou a diplomacia. E a minha mãe estava muito contente, morando naquele chalé onde vocês estão hospedados agora. E ela sempre dizia: "Esta casa é pequenina, mas está nos dando muita felicidade, estamos criando os filhos, muito fortes, nunca nenhum teve doença grave. Vivíamos todos felizes. Meu pai casou na Europa, como todo mundo sabe, e a minha mãe foi criada nas capitais, um outro meio bem diferente do Rio Grande do Sul, e ela se adaptou admiravelmente bem ao Rio Grande do Sul e ao meio rural. Era uma fazendeira de mão cheia, fazia qualquer coisa, ela entendia muito de carne, de lãs, não tinha nada que ela não metesse a mão e não se especializasse nessa matéria. Mas meu pai sempre dizia: "Não, mas eu quero cumprir a minha promessa. Quando nós nos mudamos eu te disse: "Eu vou te levar para o Rio Grande do Sul, que é um meio um pouco rústico ainda hoje em dia, mas tu hás de ter o teu castelo". E levava naquela brincadeira. Então ele passava desenhando o castelo. De vez em quando eu acho nas costas de alguma carta o desenho, de umas torres, digo: "Aí está o sonho do papai". E esse sonho ficou assim como um castelo no ar, castelo distante, mas lá no fim do ano de 1907, apareceram três galegos da Galícia, e eles com uma trouxinha nas costas como vêm os espanhóis geralmente, se ofereceram para trabalhar, e meu pai quando soube que eram exímios carpinteiros, bateu no ombro da minha mãe e disse: "Agora sim, vamos construir nosso castelo". E desde aí começou, era aquela bateção de pedra, que me acompanhou na minha infância. Até 1913, quando se inaugurou o castelo, era só batida de pedra e o canto dos espanhóis, porque eles trabalhavam cantando sempre em galego, era muito pitoresco até o canto deles. Ele realizou o sonho dele, agora muita gente não interpretou bem. Achou que ele era um sonhador, isto e aquilo. Mas a ideia dele era que ele achava que no nosso meio Rio-grandense, o homem do campo devia ser dignificado, não havia motivo nenhum para o gaúcho ser um bruto, uma pessoa inculta, quando poderia perfeitamente ser culto. Ele trazia como exemplo os povos muito evoluídos da Europa, que quase sempre esses grandes estadistas, por exemplo na Inglaterra, tem uma casa de campo, e o supremo ideal deles é se retirarem para o campo. E as grandes inspirações dos artistas de verdade foram tiradas da natureza e não das grandes cidades. É só o que eu posso contar dessa parte.

H - A senhora falava anteriormente sobre aquela pedra. O que dizia pedra e o que significa?

J - Ah, a pedra angular. A pedra foi colocada em 1909, quando chegou na altura do resto do chão, os espanhóis gravaram com grande habilidade e perfeição, uma frase que o meu pai compôs em latim "Permania hanimus lapide perenius".

H - E que traduzida…

J - E trocando em miúdos, quer dizer, "Que a minha ideia tenha a permanência ou a duração desta pedra". Isto é o que está escrito ali.

H - Depois houve um projeto para a expansão do castelo, não é verdade?

J - Houve. Mais tarde quando a família cresceu, achou-se que não havia bastante cômodos, filhos já casados, muitos netos.

H - A senhora aprendeu francês como?

J - Em criança.…

H - Mas lendo, ou tinha uma perceptora?

J - Nós tínhamos sempre governantas estrangeiras, que a mamãe tomava com dois anos de contrato cada uma, sobretudo a inglesa, governanta para ensinar bons modos.

H - E ela era enérgica?

J - Não, era bem camarada, nós adorávamos nossas professoras, quando elas saíam era aquela choradeira.

H - E depois da inglesa, quem é que veio?

J - Eram muitas inglesas, era um rosário de inglesas. Tivemos também uma alemã, ela era bacharel, ela falava francês, como uma francesa. E era uma pessoa muito distinta, muito aristocrática. Então essa foi muito boa, para ensinar era ótima, sabia grego, latim…

H - Ela ficava no castelo?

J - Ela morava no andar de cima.

H - E elas gostavam do Brasil?

J - Adoravam, gostavam muito. Depois vieram mais inglesas.

H - Mas naquele momento em que nós interrompemos a entrevista, eu ia lhe perguntar o seguinte: os seus ancestrais, nós estávamos falando ontem, o nome Assis Brasil.

J - Ah, sim. É interessante isso. Eu emprestei para o meu irmão o último livro que recebi, escrito lá na Ilha Terceira, mas agora eu não tenho aqui.

H - O nome..

J - O nome, a origem da palavra Brasil, no nosso nome, era o senhorio do Forte Monte Brasil, foi concedido a um Santarenho, um cidadão de Santarém, chamado Pero Luiz de Souza, nos 1500 e pouco. E ele ficou com a alcunha, como dizem os portugueses, de Pero Luiz de Souza Brasil. E nas lendas de Santarém, diz que os descendentes que foram para o Brasil adotaram o nome de Souza Brasil. E o meu bisavô era José de Souza Brasil.

H - E o Francisco de Assis veio.…

J - Francisco de Assis, porque o meu avô nasceu em 1810, em Rio Pardo, no dia de São Francisco de Assis. Nós temos o sino que badalou na igreja, quando ele foi batizado. Mandaram, o padre, o vigário, há muitíssimos anos, viu que o sino estava rachado, mandou de presente para o papai. O papai ficou encantado, mandou fundir o sino, em Pelotas, fez o forno, mandou refundir, pôs prata dentro. E é com que nós chamamos os empregados, não ouviu?

H - Não. Fica nos fundos?

J - Hoje ainda se chamou o capataz. Cada um tem um toque. Mas tem um som que é uma beleza, houve-se lá da vila.

H - A senhora me falava também que o seu avô, ele era um dos, o seu bisavô teria recebido sesmarias de D. Maria.

J - Chamava-se Santa Eugênia.

H - Foi seu bisavô?

J - Eu creio que era o meu bisavô, José de Souza Brasil. Me parece que foi ele ou o pai dele. Agora não tenho bem certeza. Tem que olhar nos documentos, aqueles documentos do Jorge Felizardo contam, mas a própria Ata, o documento de doação da sesmaria, foi extraviado, o meu pai achava que era um dos irmãos dele que era um pouco displicente assim, a respeito de documentação, que pôs fora, que era interessante. Era assinado por D. Maria louca.

H - E essas terras ficavam na região de São Gabriel?

J - Uma parte era onde hoje é o município de Rosário, e a outra parte no município de Alegrete. E a estância de Ibirapuitã, que ainda hoje é da família, nunca pertenceu a ninguém mais, a não ser aos índios e a nossa família. E o meu pai achava estranho que o nome Ibirapuitã ou Imbirapuitã, quer dizer madeira vermelha, o angico abunda lá nos matos de Ibirapuitã, é uma madeira vermelha. Mas ele achava que talvez…

H - Fosse Pau-Brasil?

J - Um dele tinha aproveitado a coincidência de ser pau vermelho - pau-brasil. Porque o Varnaga nos fala, não se lembra, logo no início, ele diz o nome do pau-brasil é Imbirapuitã, para facilitar se diz Ibirapuitã, mas eles não pronunciavam assim. Madeira é Imbira, é um pouco difícil de pronunciar. Puitã quer dizer vermelha.

H - E o seu bisavô, a senhora me disse que ele era um monarquista?

J - Não, o meu avô, pai do meu pai, ele era um monarquista, chamavam de Camelo, durante a Guerra dos Farrapos. Ele era Camelo, como diziam. Era contra Bento Gonçalves. Mas o meu pai começou passar para o republicanismo, por causa de conversas com um senhor, um gaúcho velho, que ia muito lá na estância. Aqueles que se dão assim, tomar mate, comer assado, conversar, chamavam ele velho Cândido, Cândido Vicente, ele tem descendentes em São Gabriel, que me pedem até dados sobre ele, mas eu não posso achar a fotografia, existe uma fotografia dele, mas eu perdi, não sei onde está.

H - Mas ele era um homem rústico?

J - Era, rústico. Mas o meu pai dizia que ele tinha muito bom senso. Ele era desses gaúchos completamente inculto, mas tinha tino, como se diz em linguagem gauchesca.

H - Mas ele tinha ideias republicanas?

J - O meu pai estava uma vez na roda do mate dizendo que esses farrapos eram uns ladrões de cavalo, não valiam nada. E o velho Cândido levantou-se e disse: "Não, ministro, você está enganado, não vê que quando houve a paz - 1845 - (a paz foi firmada como de potência para potência) foram as palavras dele, eles foram respeitados porque tinham um ideal". O governo da República era uma necessidade do Brasil, até hoje é uma necessidade, e ele explicou tão bem, com tanto bom senso, que meu pai foi pensando naquilo, matutando. Quando ele chegou a ir a Faculdade, ele já estava cheio de ideias republicanas.

H - Que idade ele teria naquela época?

J - Ele era muito mocinho, vinha nas férias, passava as férias, na estância, ele já era órfão.

H - Isto na estância de Ibirapuitã?

J - Não. Na estância de São Gonçalo em São Gabriel, ele já era órfão de pai.

H - Provavelmente, isto deve ter influído na vida dele, não é?

J - Ah, sim. Ele citava muito, sempre em conversa ele dizia: "A gente nunca deve desprezar uma pessoa rústica, porque eles tem tanto contato com a natureza, que sabem verdades mais profundas do que muito sábios". E não há dúvida. Não vê como eles adivinham o tempo.

H - E ele considerava este homem, alguém que teria mudado as suas próprias convicções?

J - Sim, mas sendo uma pessoa assim um gaúcho, campeiro, simples.…

H - E ele nunca teve conflitos com o pai dele, em termos de ideias?

J - Nesse tempo ele já era órfão. Quando o pai dele morreu, ele tinha 14 anos. Era muito menino ainda.

H - E sobre a fase da propaganda…

J - Eu tenho, depois eu vou lhe mostrar, os escritos que ele fez da propaganda, que ele me deu. Foi o último presente de anos que ele me deu. Ele disse: "Tu vais guardar, eu sei que tu vais apreciar". Mas eu guardo tão bem que esqueço de limpar. Mas ele fez a propaganda a cavalo. Ele tinha uma mula chamada China, e um cavalo chamado Bagé, que tinha sido presenteado por um amigo, da família Martins, que era muito amigo dele, deu um cavalo crioulo.

H - E eles saíam em grupos, como é que saiam?

J - O cavalo Bagé era oveiro bordado como chamam. Ele sempre tinha com ele um peão de confiança, mas ele fazia as viagens a cavalo.

H - E ele não contava…

J - Ele contava muitas passagens interessantes. Eu sei que num lugar acima da serra, que eu não sei precisar qual era o lugarejo, ele foi numa estância, onde havia um senhor de idade. Ele chegou quase ao anoitecer e pediu pousada, e sabia que ele era monarquista, mas ele achava que cada um tinha o direito de ter as ideias que quisesse, de liberdade. Ele chegou na estância e explicou que à noite o tinha apanhado, o tempo estava feio, e ele pediu uma pousada para ele, para o peão, e para os cavalos. E esse senhor perguntou: "Mas quem é o senhor". E ele disse assim: "Eu sou estudante....".

H - Ele estava na Faculdade de Direito.

J - Ele explicou que era estudante, que estava na Faculdade de Direito. O senhor esse recebeu de cara amarrada no princípio. Mas o meu pai era não muito acessível. E eles estavam tomando mate, ele olhou para ver que horas eram e viu que o relógio dele tinha parado, olhou para o relógio da sala e o relógio também estava parado e ele perguntou ao senhor: "O que é que houve com o seu relógio". Ele disse: "Ah, este relógio anda maluco, ele bate as horas tudo errado". O meu pai disse: "O senhor dá licença, eu vou subir num banquinho ali e consertar". Acertou, fez andar o pêndulo, e fez acertar como se faz os ponteiros e começou a bater nas horas certas, e o dono da casa quieto, olhando, mas apreciando aquela perícia dele, que ele achou muito importante consertar as batidas do relógio. Continuaram conversando, sobre assuntos não políticos, mas nisto quando foi a hora de se despedir de manhã, o meu pai agradeceu a hospitalidade, se pôs às ordens sempre que ele quisesse. Ele disse: "Bom, o senhor não me pediu nada, não me pediu voto nenhum, mas pode contar com o meu voto, do meu genro, dos meus filhos, e toda minha gente que me cerca e que possa votar, vou votar no senhor para deputado republicano". O meu pai disse: "Eu ouvi dizer que o senhor era contra a República". "Ah, eu era. Mas depois que eu vi o senhor consertar o meu relógio, tão ligeiro, com tanta habilidade..." Era uma coisa tão simples, e ele achou muito importante aquilo. Ele achava uma graça nisto. Assim ganhou os eleitores sem esperar.

H - A senhora contava ontem umas coisas pitorescas a respeito da relação dele com o Castilhos, ele não falava quase, não é?

J - Não, ele nunca falou mal do Castilhos, ele queria bem, no fundo protegeu os filhos dele até o fim, sempre foi muito amigo, a Julinha era afilhada dele.

H - A Julinha era filha do Castilhos?

J - Era a filha mais velha, era afilhada do papai, ela vinha muito aqui, no Rio, nos procurava, sempre. O Edmundo Castilhos, foi protegido pelo meu pai, foi ele que o fez estudar. Mandou para São Paulo para estudar Direito. Mas infelizmente, não sei o que que houve, qualquer caso emocional na vida dele, e ele se suicidou.

H - Todos morreram cedo…

J - O único que nunca procurou o meu pai, foi o filho mais velho dele, os outros todos foram amigos.

H - Mas a senhora, a primeira esposa do Dr. Castilhos, ela morreu com que idade? Ela morreu moça, né?

J - Morreu cedo, mas eu não sei precisar a data, bem moça devia ter uns 30 e poucos anos.

H - Quando eles romperam ela já estava casada com ele?

J - Sim. Toda a história do rompimento tem ali naqueles livros.

H - Naquele manifesto de 91 ele fala nisto. Mas ele não chegou a aderir a dissidência na época, eu acho que…

J - Ele preferiu retirar-se do Rio Grande do Sul naquela época, por motivos de família, como ele era muito amigo do Prudente de Moraes. O Prudente insistia muito para dar a ele uma posição assim mais internacional, e ele aceitou nessa época, achou que era oportuno. Depois houve aquela desgraçada Revolução de 93, também. Ele não tinha nada com aquilo, só tinha prejuízos enormes.

H- Mas ele não participou?

J - Não, nada, nada. Ficou alheio, estava no estrangeiro.

H - Ele tinha um temperamento pessoal que às vezes ele se retirava, ficava acima…

J - Ele repetia muito aquela frase: "Quem atira pedra eu subo em cima da pedra e faço dela o meu pedestal". Ele repetia muito isso. Ele achava que a pessoa que vive com dignidade não precisa nem se defender. Quando vinha alguma coisa desagradável no jornal, às vezes a minha mãe lia e dizia: "Olha aqui o que estão dizendo de ti, que desaforo." E ele dizia: "Olha, então nem me contes, porque se não é verdade então não vale a pena tomar conhecimento".

H - Quer dizer que ele era um homem superior às pequenas…

J - Para a tranquilidade de espírito de uma pessoa é muito bom ter essa filosofia, não é?

H - Agora em termos partidários, a senhora acha que ele se envolvia muito, ou ele sempre foi um homem…

J - Ele sempre foi muito tranquilo, tolerante com os próprios adversários, todos que eram amigos continuaram. O Dr. Baltazar de Bem até morrer, justamente ele morreu combatendo contra os libertadores, até fim foram muito amigos, o meu pai sentiu imensamente a morte dele. Também foi muito amigo da família Aranha. Durante a propaganda em 1922 ele foi muito criticado pelos companheiros porque almoçou na casa do Coronel Euclides Aranha. Mas eram amigos, não tinha nada com a política. Uma coisa é a vida pública, e outra é a vida particular. Não tem nada uma coisa com a outra.

H - Onde é que foi assinado o Pacto de Pedras Altas?

J - Nesta mesa aqui.

H - Nesta pequena?

J - Existe uma fotografia. Está o pai do atual presidente da República. Ele esteve aqui mocinho. E outra vez durante a visita do Presidente Médici.

H - Mas o Castilhos era um temperamento bem mais rancoroso?

J - Eu não gosto de julgar, afinal é uma coisa do passado. O Capistrano de Abreu é que me contava coisas desagradáveis a respeito dele, porque meu pai não mencionou jamais.

H - O que o Capistrano contava?

J - Ah, coisas muito tristes mesmo.

H - Mas achava que ele tinha um certo…

J - Que tinha muito recalque, muita inveja, mas isso é bom a gente não falar essas coisas. Tem se publicado tanta coisa errada a respeito da vida do meu pai que eu sinto imensamente, até os amigos às vezes se informam em fontes que não são fidedignas.

H – O que a senhora falou do Mem de Sá, o que que ele escreveu?

J - Pois o livro do Mem de Sá "Politização do Rio Grande", ele conta episódio que é completamente falso a respeito do.…

(corte)

FITA - lado nº 2

H - Além dessas coisas que a senhora ouviu ele contar, qual foi a primeira vivência política que a sua memória recorda pessoalmente, a partir de quando que a senhora lembra do envolvimento político dele?

J - Me lembro da Campanha Civilista, vagamente.

H - Em 1910.

J - Em que ano foi?

H - Em 10. Em 1910.

J - Eu nasci no ano 1902.

H - O que a senhora lembra?

J - Eu me lembro muito bem que nós ficamos muito emocionados, as crianças todas, porque o meu pai disse que tinha que votar no Rui Barbosa, que era um dever que ele tinha, mas tinha que ser em Cacimbinhas, um distrito chamado Cacimbinhas, que hoje é Pinheiro Machado. E ele tinha um cavalo árabe chamado Pedro Sarmento, Colorado, Papado. Ele disse para minha mãe: "Fica sossegada, são 35 ou 36 Km (nesse tempo era mais comprido) e eu volto cedo ainda". E ela disse: "Não, tu não vais só, eu vou contigo". Ela mandou encilhar a Morena, a égua dela, a égua que era uma belezinha, era branquinha, era troteadora, era uma égua maravilhosa, bem branca, e a minha mãe montava muito, mas montava naqueles selins de senhora. E ela o acompanhou nesse dia, até lá, porque era uma época de muita perseguição política, perigo de vida mesmo.

H - Mas não aconteceu nada?

J - Não houve nada, felizmente. Sempre uma presença feminina parece que acalma os ânimos, não é?

H - Então ela tinha muita coragem pessoal?

J - Muita, ela tinha uma fibra extraordinária, eu acho que ela herdou muito da bisavó dela que era Farrapa, a D. Maria, chamava-se Doralina de Jesus Silveira.

H - De onde é que ela era?

J - Ela era de Piratini, era filha de Açorianos, dos Silveira, dos Açores, e aquele lenço Farroupilha pertenceu a ela. Eu sei que ela era tão corajosa que ela dormia com a espada do lado da cabeceira da cama, durante a guerra dos Farrapos.

H - E era uma mulher rústica?

J - Não, era muito educada. Era alta, enérgica, tinha os olhos azuis, bem loira. Era descendente de holandeses, porque os Silveira são descendentes de que ele traduziu o nome para Silveira.

H - Ela tinha nascido em Portugal?

J - Não, essa senhora não.

H - Não, digo a sua mãe.

J - A minha mãe nasceu em Bonjain. O meu avô era estudante. Não viu atestado dele da Universidade de Bonn, diz "Vir Brasilianus". Ele era brasileiro. Estudou em Bonn. E a minha mãe nasceu lá.

H - E ela foi educada na Europa?

J - Ela foi educada sempre na Europa. Casou com 19 anos, foi para os Estados Unidos. Quando ela veio para o Brasil, eu estava por nascer, ela já tinha duas filhas.

H - E depois em 23, a senhora lembra?

J - Ah, lembro muito, foi um quadro muito triste mesmo. Tivemos muita confusão aqui, a casa foi invadida. O Dr. Berchon de Pelotas ajudou muito, não viu nas cartas?

H - É, estava vendo ontem.

J - Ajudou a guardar os objetos de valor de família. Muitas coisas ele levou para a casa dele em Pelotas.

H - Mas e a família ficou no Castelo?

J - Não, nós tivemos que nos exilar, porque estávamos em perigo aqui. Os provisórios cercaram tudo, e depois eles, não viu as janelas quebradas ali, eles bateram com a coronha das armas, isso foi no ano 24 já, que eles quebraram as janelas para invadir a casa. Eles não conseguiram abrir a porta de ferro que é muito forte, então resolveram arrombar uma janela. Acamparam aqui.

H - Isso foi depois da pacificação?

J - Foi, depois…

H - Mas e como é, eles não cumpriram o acordo?

J - Não. E depois houve aquela revolta dos militares em 24. E aí recrudesceu…

H – E a senhora, a família, estava em Montevidéu ou Buenos Aires?

J - Não, nós estávamos na campanha, na fronteira perto de Melo. Nós trabalhávamos muito para sustentar.

H - E o Dr. Assis estava junto, ou estava envolvido na revolução?

J - Ele era líder, chefe civil do movimento, ele não quis fugir à responsabilidade, mas o Ministro da Guerra e outros pediram a ele que não ficasse em Pedras Altas, porque a vida dele corria perigo e eles não poderiam garantir. Tinham jurado mesmo matá-lo. E a minha mãe também estava muito nervosa. Resolvemos todos ficar lá enquanto durasse.

H - E ele estava junto com a família?

J - Sim, junto.

H - Mas, ele às vezes entrava também.

J - Não, nunca. Só quando foi eleito deputado.

H - E como é que se deu a assinatura do Pacto, ele veio para cá?

J - Bom isso foi em 23.

H - Foi em 23, a senhora está falando em 24.

J - Eu estou falando já depois, não foi cumprido, a paz foi estável. Apesar que o Pacto de Pedras Altas eu acho que foi muito importante porque proibiu a reeleição e fez cama para o voto secreto, o voto feminino e outra, independência dos juízes. Ele surtiu efeito, mas infelizmente continuaram as perseguições, não se podia tolerar uma coisa dessas.

H - E do Borges, quer dizer, comparando, a atitude dele com o Castilhos e o Borges. O Borges…

J - Não sei dizer.

H - Mas ele tinha menos simpatia pelo Borges do que pelo Castilhos, provavelmente.

J - Ele perdoava o Castilhos, porque tinha sido cunhado dele. Ele não gostava de falar. Depois ele se dava muito com os filhos dele, com as filhas.

H - Agora, com o Borges, ele tinha relações também?

J - Nunca teve relações, diz que ele sempre foi muito frio com ele. Mas se encontravam, quando se encontravam cordialmente.

H - Porque muitos Castilhistas tinham horror do Borges, não é?

J - É. Eu creio que ele não era muito simpatizado, coitado. Era muito distante, uma pessoa que não era comunicativa. Mas são coisas do passado. Agora o Rio Grande do Sul tem que se refazer, criar sangue novo, não ir para trás. Eu tenho muito medo dessa política agora, que dê um passo atrás em vez de dar um passo para frente. Não é admissível, não acha? Um país tão lindo, tão rico, о clima igual ao do Sul da Europa. Nós temos tudo na mão, é só ter bom senso, é o que falta.

H - Há quantos anos a senhora está cuidando da fazenda, do castelo?

J - O meu pai convidou-me para gerenciar a granja no ano 36. Porque os meus irmãos já estavam emancipados, cada um com a sua propriedade.

H - E a partir daí a senhora assumiu praticamente…

J - Porque eu sempre gostei muito de criação, sempre tive paixão criação. Tudo que é da natureza, tudo me interessa.

H - E ele era um apaixonado por isso também?

J - Ah, também.

H - Ele ensinava muito, ele era didático para os filhos?

J - Qualquer coisa que ele aprendesse, ele tinha muito prazer em transmitir em seguida. Assim que ele aprendia alguma coisa, ele tratava logo, o primeiro amigo ou pessoa rústica mesmo, que ele encontrasse ele já transmitia. Ele não guardava nada.

H - E a senhora aprendeu muito com ele?

J - Aprendi muito com ele. Naturalmente desses tempos para cá muita coisa evoluiu em agricultura, criação. Mas o que eu aprendi com ele ainda tem me servido muito.

H - E o que a senhora gosta mais de criar, é a parte de gado ou de cavalos?

J - Eu gosto, eu tenho paixão por cavalos. Mas infelizmente eu não posso me dedicar a tudo, todos os ramos. É demais para dois braços só. Agora eu tenho bons auxiliares, felizmente.

H - A senhora não planta aqui, não é?

J - Só pastagens, para engordar o gado, no inverno e no verão.

H - A senhora contava ontem que a agricultura sem orientação é um desastre.

J - Ah, é um desastre. Eu sempre me lembro de certas fórmulas que o meu pai tinha, para tudo, ele dizia: "Rasgar a epiderme da terra é como ferir uma pessoa". Dizia que convida a erosão, e é muito perigoso mesmo. O incompetente não deve rasgar a epiderme da terra, só quem entende mesmo, porque é muito perigoso. E o Rio Grande do Sul está muito propenso a virar deserto em algumas regiões, muito perigoso.

H - E nesta região tem muita plantação, agricultura.

J - Tem. Mas aqui eu creio que eles são muito cuidadosos, porque não há essa areia fina como no município de Alegrete, São Francisco de Assis. Tipo de areia que o vento traz e cobre tudo. É o que faz os Saaras do mundo, o Saara dizem que já foi seara e não Saara…

H - E ele deve ter ganho muitos prêmios em exposições, não?

J - Não, ele não ia quase a exposições...

H - Ah, não ia.

J - Ele só fundou as exposições de Bagé, porque ele achava que Bagé era muito importante. Mas ele não era muito dessas coisas de aparecer. Depois vinha tanta gente aqui, que não era necessário, os produtos eram vendidos com muita facilidade e felizmente ainda são.

H - Mas a senhora tem participado de exposições?

J - Sim, eu acho que hoje em dia é uma necessidade, mas os tempos estão mudando também. Os transportes estão muito caros e muito difíceis. Não sei se vamos poder continuar a entrar em muitas exposições. Uma por ano acho que vai ser o limite.

H - Mas na Argentina a senhora foi em alguma?

J - Não, só aqui no Brasil.

H - Leva as vacas Jerseys?

J - Ao Uruguai eu tenho estado em várias exposições.

H - Ele foi o primeiro criador de Jersey, não é?

J - O primeiro eu não sei dizer ao certo, porque dizem que os marinheiros traziam às vezes, vacas do Canal da Mancha, mas são coisas que se dispersaram. Mas o primeiro criador de verdade foi ele. Porque em 1895, ele comprou duas novilhas cobertas que deram cria, e esse gado ele mandou para Ibirapuitã, a estância dele no município de Alegrete. Chegou lá em 1896. Quer dizer que desde esse ano o Jersey nunca parou no Brasil. O meu pai é considerado o pioneiro do Jersey aqui. Assim como do Devon.

H - Ah, do Devon também. E cavalos, eram cavalos crioulos?

J - Bom, ele trouxe o cavalo árabe, para o Rio Grande do Sul, no fim do século, quando ele foi a Arábia, comprou três garanhões: Malec, Amir e Oasir.

H - Inclusive há o hábito de pôr nomes em todos os animais?

J - Não, mas eles já vinham com os nomes. Malec quer dizer rei, Oasir ou vizir quer dizer ministro, e Amir, bom Amir eu não sei o que é, não posso me lembrar.

H - Eram cavalos brancos?

J - Não, não eram brancos. Colorado, escuro e o outro era tostado.

H - E não tem descendentes deles mais?

J - Existem ainda descendentes. Quem entende muito dessa parte é o Carlinhos Reverbel, do Dr. Carlos Reverbel.

H - Ele esteve aqui inúmeras vezes?

J - Eu canso de convidar, mas ele é uma pessoa muito ocupada. Eu gostaria que ele viesse passar uma temporada aqui. Mas a Olga e ele são muito ocupados, eu sei que para ele é um sacrifício sair de casa. Eu suspiro por ele. Nem sabes como eu desejaria que ele viesse aqui para esclarecer certos pontos sobre a criação de cavalos que ele entende muito disto. Às vezes ele escreve no "Correio do Povo". Ele é muito entendido em cavalos, e gosta da natureza e de plantas. A chácara dele em Gramado é uma maravilha bem cuidada, um encanto mesmo. Estive lá e gostei tanto. Nunca pensei que ele pudesse cuidar tão bem. São velhas amizades, meu pai teve uns amigos que eram pessoas incomparáveis, assim dedicação e amizade perfeita, como diz La Fontaine. É verdade, não há nada como uma grande amizade. Ele teve um grande amigo no Sr. Chico Macedo, não sei se o senhor conhece este nome.

H - Ele é da fronteira?

J - Ele era de são Gabriel, eram companheiros, desde meninos, do colégio. O Sr. Chico Macedo era padrinho e talvez tenha meio criado o Carlos Reverbel, era como se fosse um segundo pai dele, por isso nós somos muito amigos, já de várias gerações.

H - E o Pilla a senhora conheceu pessoalmente?

J - Ele esteve aqui muitas vezes. Uma pessoa simpática, muito quieto, muito recolhido, por causa da surdez, talvez.

H - Muito introvertido.

J - Mas era uma pessoa muito correta, o papai o admirava muito. Só que eles não eram, na parte do parlamentarismo, não eram correligionários cento por cento, mas naturalmente se toleravam perfeitamente.

H - Mas ele devia ficar um pouco inibido na presença do seu pai que era um homem exuberante, não?

J - Não, eles se davam muito bem. A D. Dolores Caldas às vezes dizia que o Pilla é o discípulo bem amado, não é? E eu dizia: "Eu creio que sim, mas não sei se posso dizer que ele seja discípulo, porque ele tem as suas ideias próprias e o meu pai tem as dele, mas eles se entendem muito bem porque ambos são tolerantes.

H - E como é que ele se relacionava com o pessoal de Pelotas, mais do que de Bagé, politicamente, o Berchon…

J - Ah, o Dr. Berchon era um dos grandes amigos, mas em Bagé ele tinha um outro grande amigo intimíssimo, que era o Dr. Pedrinho Osório, Dr. Pedro Osório, era médico em Bagé.

H - Ah, era de Bagé. Era o que deu nome a cidade?

J - Não. Era parente desse, primo desse, o que deu o nome a cidade era Coronel. O Dr. Pedrinho Osório era médico em Bagé, ele era laureado pela Sorbonne em Paris. Uma pessoa inteligentíssima, era excessivamente modesto, não gostava de aparecer. Aqui ele se entendia muito bem conosco. Não havia trem nesse tempo, era um vaivém para casa dele, para cá, todo tempo. Quando havia um teatro bom ele vinha aqui nos buscar e levava toda a meninada para ir ao teatro.

H - Em Bagé?

J - É. Assim eu tive a oportunidade de ver a Lili Pons, por exemplo. Ir à ópera várias vezes, porque naquele tempo vinham artistas bons ao Rio Grande do Sul, agora não vêm mais.

H - Mas eles iam a Pelotas ou Bagé?

J - Iam a Pelotas, Bagé, Porto Alegre.

H - E aquele pessoal Cabeda, ele gostava desta turma de federalistas velhos?

J - Não tenho lembrança. Sei que tem o autógrafo do Rafael Cabeda aí no biombo.

H - Este biombo o que é?

J - A minha mãe colecionava autógrafos, e ela tinha feito, ela mesma, umas almofadas de couro de veado. Então ela pedia para as pessoas assinarem em cima com a caneta e depois ela pirogravava em seguida com o pirógrafo, e depois ela achou que almofada era uma coisa que ia se soltando, se estragando muito, então ela resolveu mandar fazer um biombo.


Fonte: https://cedap.ufrgs.br/xmlui/bitstream/handle/20.500.11959/8378/D.%20Joaquina%20Assis.pdf?sequence=1&isAllowed=y


Acesso 06 junho 2026

quarta-feira, 25 de outubro de 2023

Facundo Cabral por Pipo Lernoud (Revista Canta Rock, 1984)

 


La vida es hermosa, si podés no te la pierdas”.


Aqui tenemos el payador moderno, gaucho cantor y vagabundo de la era tecnotrónica, que no se limita al galope de su caballo sino que monta los modernos aviones para sentirse libre en el cielo, y como Martín Fierro, volver a empezar todos los días la aventura de vivir, con lo que venga de placer y de dolor, sin miedo a lo desconocido y con afecto a lo conocido. ¡Facundo, vaya nombre que se echó el hombre! Barbudo y guitarrero que conversa con Borges y con Atahualpa, que divaga por el mundo loco de Allen Ginsberg, el poeta que inspiró a los Beatles, y se hace amigo de los mozos y los basureros de China. Cantor de la injusticia sin panfletos y del absurdo mágico de la vida, a la que nunca se esquivó el bulto.

Latinoamericano al mango, lleno de historias fantásticas, conoce bien la tierra que cantan los folkloristas, y pudo haber sido un cantante de milongas bien digerido en Cosquín, aceptado por la academia del folklore, porque lo tiene todo: voz poderosa, manejo de la guitarra, habilidad para la rima y el toque pintoresco,

Empezó siendo un cantante tremendamente popular, con el homorístico apodo de “El indio Gasparino”, hace como veinticinco años. Cuando aquí no había canción libertaria fuera de la antigua tradición del tango y la florida y culta poesía del folklore, Gasparino se salía de los moldes comerciales mantenidos por Palito y las grabadoras, y se desbocaba en los clubes batiendo la posta. Pero a la larga se puso verde de bronca, sintiéndose encerrado en los estrechos pantalones del Indio Gasparino, y como el Increíble Hulk, reventó las costuras del éxito mandándose a mudar a la Isla de Pascua y a Cuzco, a conocer el mundo verdadero.

Es que Facundo ya sabía que hay que “Volar bajo, porque abajo está la verdad”. Lo dijo y lo hizo. Insatisfecho permanente, volvió a Buenos Aires para caer en las redes del circuito de café concerts, convertirse en un personaje de la bohemia elegante de la capital, cantante de protesta para tapados de visón, como él mismo dice. Eran los tiempos de temas como “John Parker Dimitrinsky”, un intento de burla a los dos imperialismos, y aquella outra que decía “El diablo es un señor que tiene cola pero la lleva en un maletín negro donde lleva también los documentos que lo autorizan a matar al pueblo”. De entonces es “Dale, dale Federico”, que quedó pegada en la memoria de todos.

Facundo ya estaba dejando de a poco el canto, la composición, para dedicarse a contar las cada vez má ricas historias y anécdotas que surgían de su vida y cabeza. Es una pena que Cabral no componga mucho, porque ha demostrado de sobra que lo sabe hacer, dejando esas pocas canciones sinceras llenas de fuerza y ternura.

Pero de nuevo Facundo no se bancó entrar en una huella y quedarse en un corral, aunque le fuera bien. En esos primeros años del setenta, el Gran Terror Nacional ya estaba empezando a mostrar su dentadura y Cabral se fue antes de que lo echaran. Entonces partió de nuevo, no sin dejar una despedida emocionada en un disco del 72: “Ahora que mi madre tiende mi cama para el que vendrá de más lejos cada vez, ahora me siento por fin en el camino, ahora iré por el mundo para leer el libro porque la obra de Dios se lee andando, la Creación es todo y eso es lo que voy a buscar”.

Ya lo ven: cuando salió del circulo de entendidos fue para conocer todo, para leer el libro de Dios sin saltear ni una página. Muchos en esos años dejaron el país porque corrían algún tipo de peligro, pero pocos fueron como Facundo capaces de aprovechar el salto para superar sus proprios limites culturales e ideológicos, fueron pocos los que se propusieron vivir el mundo a fondo. Como él dice por ahí: “Valía la pena escapar de mi pueblo y perderme en el mundo, reencontrarme, volver aquí y volverme a perder”.

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EXTRAÑAS HISTORIAS DE VIDA

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La historia de Facundo Cabral en Europa, Africa y Oriente se esfuma en un extraño laberinto de anécdotas que a veces parecen demasiado fantásticas para ser verdad. Anduvo por más de cien países, grabó en italiano, inglés y hasta cantó en idish por fonética. Conoció personajes como Golda Meir, Indira Ghandi, Arturo Rubinstein y Erich Fromm. Amasó una fortuna en Europa y la perdió para volver al vagabundaje por la India, Indochina y el Lejano Oriente, lo tirotearon en irlanda y vio caer el Napalm en Vietnam, anduvo con los beduínos, con los labradores y con los indios mejicanos. Quien pudo quedarse amasando una fortuna de cobros en Sadaic, quien varias veces triunfó comercialmente con su canto, no aguantó los cómodos terciopelos del éxito y eligió la vida, eligió seguir buscando el reino de los cielos, que en su opinión incluye la tierra. “Ayúdame Señor, no quiero ser un ciudadano de este mercado mediocre donde todos tienen precio”, ruega Cabral.

Hace poco volvió a la Argentina. “De las cinco primeras actuaciones, fui quatro veces preso”, comenta. Pero hay un público nuevo en la Argentina, un público joven que no para de buscar, que tiene las orejas abiertas para cosas tan diversas como Charly Garcia y Serrat. Los Twist y Mercedes Sosa. Un público que reconoce el olor de la autenticidad, y lo olfateó a Facundo de entrada, llenando masivamente sus vibrantes recitales de Ferrocabral. Ahora Facundo está aquí, en contato permanente con el público, haciendo giras, con su disco en vivo vendiéndose como pan caliente.

Facundo toca algo en la gente, algún secreto deseo de rebelión contra esta vida chata que nos toca vivir. Transmite libertad por todos los poros, sin necesidad de explicarlo demasiado. Se comunica con todos, directamente. Cuando estuvo internado al borde de la muerte, su lucha por la vida se convirtió en un ejemplo de dignidad humana que se reflejó hasta en las revistas más sensacionalistas, superando el chisme habitual en estos casos. El reportaje que figura en este número de Cantarrock fue echo en Arrecifes, provincia de Buenos Aires, antes y después de un recital. Y estando con Facundo se vela claramente que su mensaje, muchas veces complicado para el oído común, enciende algo en las personas de todas clases y edades.

Facundo puede ser contradictorio, genial, mentiroso, divertido, calculador, espontáneo, exagerado, revolucionario y reaccionario, todo al mismo tiempo. Va mostrando aí desnudo sus dudas y sus pasiones, hilando anécdotas y canciones a lo largo de la vida. Whitman, su maestro de siempre, decía en la introducción de su libro extraordinario, “Hojas de yerba”: “El que lee este libro toca un hombre”, lo mismo puede decirse de Facundo, porque el que va a sus recitales o escucha sus discos no asiste a un espectáculo artístico, recibe una lección de humanidad.

Fonte: Lernoud, Pipo. Revista Canta Rock nº 20, Buenos Aires: Barok S.R.L, 17/10/1984.

Ilustración de Tapa: Augusto Sicardi (https://blogger.googleusercontent.com/img/a/AVvXsEhkDiioxrW1D3vmg9QVZxXFOQe1tCTXa5O-IPLF5MdY9AJLghDjQUJ0ly2U9OsC1SXpoIv46g2F4aNSbbE7wk6c5ZydyhibbVHZclIZb2EZKouIzmMRtgm7aJ_CQ4TuoypcQNhC7yfGlVndUH31IYSyCs756QfPSmQX5OFKidnd-LrLl_jPNlu996pP=s600)

Crédito: https://folklore-raiz.blogspot.com/2021/12/revista-canta-rock-n-20-17-de-octubre.html?view=classic

Disponível: https://ahira.com.ar/wp-content/uploads/2020/08/Cantarock-n%C2%BA-20.pdf

Livro “O Balanço da Mata Norte – Batuque Rural na Bateria” (Rafael dos Santos, 2026)

  Batuque Rural na Bateria   Fonte:  https://viasabertas.com.br/nossos-trabalhos/livro-o-balanco-da-mata-norte-batuque-rural-na-bateria-2026...