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domingo, 2 de novembro de 2025

"A LENDA DA ESTÂNCIA SÃO SEBASTIÃO" (Raul Pont)

Estância São Sebastião, do Cel. Feliciano Ribeiro De Almeida

O Rio Ibirocaí faz a divisa entre os dois municípios rio-grandenses, Uruguaiana e Alegrete, correndo de sul para norte, vai lançar-se no caudaloso Ibicuí, que por sua vez é tributário do Rio Uruguai, que nos separa da República Argentina. Justamente na confluência do Ibicuí e Uruguai, na zona do tradicional Ipané, começa a erguer-se a coxilha de Japeju, que vem descendo à distância o trajeto do Ibirocaí. Entre um e outro, à altura do Plano Alto, acima do arroio Jiquiquá e um tanto abaixo do arroio Guabiju, se estende a grande estância denominada SÃO SEBASTIÃO, hoje pertencente à família Macedo Pons, de tradicionais raízes genealógicas no Estado, provindas do ramo do fabuloso Visconde do Cerro Formoso, iniciada por Francisco Pereira de Macedo, nascido em Rio Pardo, nos idos de 1806, filhos do Capitão-mor Manoel de Macedo e dos troncos fundadores de Rio Pardo.




Essa velha herdade foi implantada, logo após a Guerra dos Farrapos, pelo primitivo Juiz de Paz, Cel. Feliciano Ribeiro de Almeida, um dos onze filhos do casal Brigadeiro Bento Manoel Ribeiro de Almeida e da. Mencia Conceição Ribeiro, que tinham estância encravada nas fraldas do Cerro do Jarau, entre nosso município e o de Quaraí.


Já a personalidade do juiz Feliciano de Almeida, probo e bem-quisto cidadão que chefiava o Partido Conservador e por isso mesmo era um dos primeiros líderes da nascente Vila de Uruguaiana, se impunha pela bondade e fidelidade ao império. Era aumentada essa posição social, pelo nome que lhe deixara o Brigadeiro Bento Manoel Ribeiro, seu pai, de tanta influência na luta dos Farrapos e depois escolhido para ajudante-de-ordens do ínclito Duque de Caxias para pacificar o Rio Grande.

Eram bravios e incultos os rincões do Ibirocaí e especialmente daquele recanto do município recém-formado, próximo ao Guabiju, pela cerrada mata que margeava aquele arroio.

Ali se instalou no vetusto solar da Estância São Sebastião, o Cel. Feliciano, chefe de Milícia, autoridade respeitada, já em idade madura e exercia as funções de juiz de Paz.


Diversos viajores da época que se aventuravam ao trânsito do deserto pampeano, ali se hospedavam; pois era passagem forçada pelos ínvios caminhos que demandavam ao vizinho povo do Alegrete. Dentre estes, ali estiveram sendo hóspedes da Estância, o Dr. Robert Avé Lallemand, médico alemão e escritor, que sobre a visita escreveu em suas Memórias Descritivas e depois, lá por 1865, o Magnânimo Imperador D. Pedro II, quando viera ter com as forças Aliadas que retornavam a Vila de Uruguaiana, da ocupação paraguaia.

Existe nessa Estância, como lembrança da passagem de S. A. Real, uma imensa mesa de refeições, com pés torneados em fino jacarandá, onde o Imperador deixou sua Augusta rubrica, numa homenagem ao velho solar que o abrigou.

O nome da estância foi dado pelo próprio Coronel Feliciano, pela grande devoção que tinha pelo Santo. Por isso o fez seu Padroeiro. Em seu natalício, que era em 20 de janeiro, - e também dia do Santo - promoviam-se grandes comemorações religiosas. A coincidência do onomástico fez lembrar-lhe o nome do Santo para patrono do solar. Lembrava o Cel. Feliciano, em suas palestras amáveis, dando indisfarçável demonstração de erudição, que São Sebastião era também o padroeiro dos prisioneiros; que fora Oficial do exército Romano, ao tempo de Diocleciano, quando ocultou sua religião para melhor servir aos correligionários... e por haver sido descoberto cristão, foi entregue à sorte de suplícios e morto a pauladas em 288 A.D...

Por isso, para venerá-lo, mandara o Cel. edificar uma capela, a uma distância de cem braças da sede da Estância, feita em tijolos e revestida de pedras coloridas, que mandou reunir no campo.

Nessa capela, estiveram os Padres Antonio Dornelles - um dos primeiros párocos da Catedral de Uruguaiana, por volta de 1863; e, mais tarde, o Cônego João Pedro Gay. Ambos eram íntimos do Coronel.

As procissões da Estância eram muito concorridas. Vinham os vizinhos, outros visitantes e tomava uma certa imponência, quando em cada 20 de janeiro, se transportava o Santo da Capela para a Estância, donde retornava, à tardinha, com o mesmo cortejo.

À frente, o Cel. Feliciano e sua família, ocupando uma diligência de quatro rodas, puxada por sete baguais fogosos e uma indispensável "quarta".

Logo, seguiam-se as carretas, as carretilhas e as carroças, conduzindo o povo. Por último, fechando o cortejo, os inúmeros escravos da estância, acompanhados de suas mulheres e filhos, conduzindo ramos verdes e flores...

O bom Cel. Feliciano, de alma cristã, permitia aos seus escravos que participassem das procissões e dos cultos e ainda mais, após a devoção, os deixava livres para suas práticas de candomblés e xangôs, - tradição africana que os escravos não dispensavam.

Desse meio de fanatismo e batucadas, se teria originado a lenda que criou corpo, contada à beira do fogo, nos galpões desta fronteira.

Surgiu, assim, levada de boca em boca, não se sabe quando, a lenda de São Sebastião, - padroeiro daquela estância, orago da Capelinha e das redondezas.

Contava-se que, nos matos do Ibirocaí, se abrigava um bandido, um índio vago, chamado Basualdo, foragido de muitos crimes e reconhecido baderneiro. Era o valentão, temido por suas atrocidades e seguidamente aparecia nas estâncias, acompanhado de mais outros capangas gaudérios e de mala sina, que armados, assaltavam, roubavam, matavam quem resistisse...

Escondidos, no fundo das invernadas e na costa do mato, carneavam frouxo, pois apareciam as carniças, denunciando a rapinagem.

Entre outras turbulências, investindo a cavalo, nas procissões, esparramavam as gentes indefesas, perseguia os paroquianos desprevenidos, assustava as mulheres e crianças, muitas vezes ferindo-os e maltratando-os.

Quando na época das festas religiosas, surgia do esconderijo, reproduzindo suas bravatas, desmantelava as festividades e causava pânico.

Justamente, certa vez, depois de um 20 de janeiro, foi encontrado o cadáver do bandido, com um profundo ferimento no peito: medonha brecha se via, entre as costelas de Basualdo, que inda sangrava à porta da Capelinha.

Logo todo mundo alvoroçou-se, procurando saber quem teria dado cabo às tropelias do índio vago, que tanta repulsa provocava.

Perguntava-se na redondeza, nos, galpões, na cozinha, quem teria podido matar um bandido tão temido, tão mau?

Alguém que andou examinando o local, as proximidades da Capela e o bárbaro ferimento que o prostara, logo foi lembrando: mas o ferimento, por suas proporções, parecia sobrenatural...Não teria sido feito por pessoa humana...

Diziam: Quem sabe, não fôra até o próprio Santo? Quem poria dúvidas?

São Sebastião fora valente e forte e era superior até em estatura, ao bandido do Ibirocaí!

Vieram as autoridades, buscando esclarecer o assassinato. Inquiriram, indagaram, aqui e acolá. Instaurou-se o processo. Na falta de Comarca, ainda, na Vila de Uruguaiana, os autos correriam pela Justiça de Alegrete, comarca mais próxima ao acontecimento.

Depuseram vários suspeitos e entre estes, um informou que sabia haver sido o crime praticado pelo próprio Santo. Juntou ainda: pela madrugada, observava a lança, na Capela; esta gotejava sangue! Bem poderia ser o Santo:era um guerreiro e já andava cansado dos desaforos do índio...

É certo que ninguém viu.

Ninguém testemunhou, mas as provas eram certas e incriminavam ao Santo...

Pediram licença ao Cel. Felicino e levaram o pobre do São Sebastião para o interrogatório, no Forum de Alegrete. Depois do acareamento, o Juiz foi decisivo: o Santo não quer falar; o culpado continua mudo e surdo. Diz o ditado: Quem cala, consente! O pretenso assassino é culpado! Deve ser julgado e condenado!

Na cadeia de Alegrete cumpriu pena, o coitado, por vários anos... Foi julgado sumariamente. Mas a condenação foi mínima, considerando-se a vida pregressa do bandido de passado nada recomendável.

O Coronel Feliciano apelou aos seus correligionários políticos. Não pode influir na absolvição, teve de submeter-se à Justiça.

Mas quando chegavam as comemorações da Estância, o Coronel precisava do Santo para as procissões. Mandava, então, tirar um alvará de liberdade temporária condicional de alguns vinténs e a Milícia da Vila deixava o Santo vir até a Estância, onde passava todo o dia 20 de janeiro e visitava sua Capela.

Mas quando terminava a procissão, como era longe, o santo era devolvido, numa carroça, pois não poderia pernoitar na Estância. Vinham policiais armados e escoltavam a carroça, com o Santo, para terminar na cela, sua pena.

Depois de três anos, cumprido o julgamento, voltou São Sebastião a ocupar sua Capelinha, nas mansas e silenciosas paragens do Ibirocaí... até hoje! (Há uma outra versão, magistralmente contada por ALCEU MAYNARD ARAUJO, recolhida em julho de 1958, do folclore paulista de Beira-Mar. A presente variante é contada nos fogões gaúchos, desde o ano de 1876, há mais de um século reproduzida de gerações em gerações.)

Há uma interessante e honrosa ligação de Uruguaiana com o Visconde da Graça, natural de Pelotas.

Foi revivida por vínculos familiares, mas antes estabelecidas por ligações históricas de Domingos José de Almeida - o velho tropeiro de Mariana (Diamantina) - que além de idealizador e criador de Uruguaiana foi o delineador e mentor do progresso de Pelotas.

Em 04 de outubro de 1876, procedia-se, na Igreja Matriz, eleição para renovação da Câmara de Deputados à Assembleia Legislativa, entre os partidos Conservador (do governo de então) e Liberal. Os liberais, sabendo que perderiam a eleição, devido a fraudes feitas pelos conservadores, no processo de alistamento e organização dos trabalhos eleitorais, trataram de impedir seu término, promovendo tumulto no recinto da igreja.

Os mais exaltados procuravam quebrar a urna, do que resultou grande conflito, partindo tiros de diversos grupos, sendo nessa ocasião ferido por arma de fogo, o Coronel Feliciano Ribeiro de Almeida, chefe conservador e Presidente da Mesa Eleitoral. Suspenso o processo eleitoral, só realizou-se eleição no ano seguinte. Como supostos implicados foram presas várias pessoas, entre as quais, mais tarde, trinta foram despronunciadas pelo Juiz de Direito da Comarca; mas, onze foram pronunciadas como responsáveis pelo atentado de que fora vítima o Coronel Feliciano. Entre estes, encontrava-se o Barão de Ijuí, o Major Gabriel Rodrigues Portugal e outros. O processo foi longo, instaurando-se vários julgamentos. Nestes, provou-se a isenção de culpa do Barão de Ijuí e dos elementos da família Portugal, seus cunhados, todos líderes do Partido Liberal. Entre os incriminados resultara: o preto Antero João Evangelista Pires, João Barcellos de Oliveira, Antonio Ruivo, Alferes Roberto, Candido Anastácio Vieira e um indivíduo conhecido pela alcunha de Angolista.

A Estância São Sebastião estava onerada por dívida hipotecária com o VISCONDE DA GRAÇA. Recebeu-a dos herdeiros do Cel. Feliciano, em 1882, parte em pagamento da hipoteca e parte por compra feita a Fidencio de Souza Franco e sua mulher e mais outra parte adquirida a Domingos Demarchi e sua mulher e D. Maria Luiza Ribeiro.

Carlos Reverbel, em Um Capitão da Guarda Nacional (Martins Livreiro, 1981) diz que em 1894, o estabelecimento fronteirista reunia 6.500 reses de cria, ao valor de 10 mil-réis por cabeça, 1.500 reses de corte, estimadas em 36 mil-réis por unidade, 800 ovelhas, a 2 mil-réis cada uma e 100 animais cavalares xucros, a 5 mil-réis por cabeça.

Viera de Pelotas, da estância da Graça, um filho do Visconde, Catão Bonifácio Lopes, com o fim de receber e administrar a São Sebastião.

É ainda Carlos Reverbel quem escreve: Catão Bonifácio ao fazer a declaração de bens acima transcrita, informou que poderia haver quebra nos números apresentados pois "os aramados estavam por terra, cortados pelas forças envolvidas na Revolução que flagelava o Estado."

Pelo mesmo motivo, não havia cavalos mansos na estância, todos tendo sido potreados, prática adotada pelas tropas em operações, não só para atender às suas necessidades de remonta, como para privar os inimigos de um instrumento de guerra indispensável nas refregas caudilhescas do pampa: o cavalo. Embora o município de Uruguaiana tenha sido dos menos atingidos pela Revolução de 93, ficando praticamente à margem do teatro dos acontecimentos, nem assim a cavalhada de suas estâncias esteve livre das potreadas. Piquetes de maragatos e pica-paus se adentravam no município em busca de cavalos mansos e em bom estado.

Consta do Livro nº 13 (p. 46, verso, Cartório do Tabelião Ranquetat - Uruguaiana), o seguinte: Inventário do Visconde da Graça, de quem foi inventariante a Viscondessa, Euphrasia Gonçalves Lopes, que obteve o julgamento da partilha em 30.06.1894: Estância de São Sebastião, no município de Uruguayana - um campo e matos, com uma área com 226 milhões, 285 mil, 305 metros quadrados, situado entre os arroios Jequiquá, Ibirocaysinho e Ibirocay e a denominada Coxilha Geral de Sant'Anna, com casa de morada, aramados e benfeitorias. Parte recebida em pagamento dos herdeiros do Coronel Feliciano Ribeiro de Almeida em 15 de maio de 1882, adjudicada pelo Juiz Justimiano Belarmino Ribeiro e parte comprada aos herdeiros do mesmo Feliciano, bem como as propriedades da Estância, segundo escripturas de 29 de março de 1887 e retificação em 05 de setembro de1891...

Da área acima mencionada, coube por herança à Viscondessa da Graça, e à sua filha maria Joaquina, 130.552.008 m². Nessa transação foram avaliados a 1:000$000 rs, cada fração de 1.871.200 m² (quadra de sesmaria) ou a 50;000$000, cada fração de 43.560.000 m² (légua de sesmaria), importando a totalidade de 130.552.008 m², na importância de 149:852$741 rs. O referido campo, incluídas as benfeitorias constantes de casa de moradia, mangueiras, cercados, arvoredos e plantações, tudo no valor de 157.852$741 rs.

As três marcas reproduzidas pertenceram ao Cel. Feliciano Ribeiro de Almeida, que as registrou pessoalmente na Câmara Municipal de Uruguaiana, em 09.10.1858, conforme consta no livro de Registros nº 1, fa. 33.

No início do Capítulo, se reproduzem mais outras três marcas. Ao todo eram seis, uma em cada rodeio, como era o costume anterior aos alambrados.


Na partilha dos bens do Visconde, a São Sebastião, até agora administrada por Catão Bonifácio Simões Lopes, coube à Maria Joaquina Lopes de Almeida, que havia casado com o Cel. Junius Brutus Cassio de Almeida, um dos filhos de Domingos José de Almeida, ministro Farrapo.

O Cel. Junius era homem experimentado nas lides campeiras, muito viajado, aliando ao poder de observação, aprimorada cultura. Fez bons amigos em Uruguaiana, dentre os quais poderíamos citar: Alberto Tarragó e Pedro Vaucher, este, criador também no Ibirocaí. Fazia-se acompanhar de um secretário, que se encarregava da parte executiva. quando vinha a Uruguaiana, geralmente se hospedava na casa particular da família Vaucher.

Há um fato curioso ligando a descendência dos Almeida: exatamente cinquenta anos antes, o bravo mineiro, seu pai, criava a Capela de Santana do Uruguai, em 1843 e agora seu filho, Cel. Junius Brutus vinha administrar seus bens. Por certo que não teria sido sem emoções o seu retorno a Uruguaiana, já considerada uma cidade importante.


Conta-se que na viagem para o município fronteirista, a fim de receber a estância, Brutus de Almeida teve de estacionar no Cati, local de muda e também de inspeção das diligências pelo célebre destacamento ali aquartelado, sob o comando do Cel. João Francisco. Sendo federalista, e estando-se em plena Revolução, o viajante ficou receoso de que pudesse lhe acontecer algo desagradável ou coisa muito pior. Mas o que houve no encontro entre os dois adversários foi exatamente o contrário.

O famigerado Caudilho, então apontado pela imprensa federalista como a Hiena do Cati, foi, no entanto, pródigo em atenções e gentilezas para com o visitante CASIUS JUNIUS BRUTUS DE ALMEIDA, não indagando nem mesmo das cores partidárias do hóspede, pois Brutus se sabe que era Maragato. Ainda ao despedir-se, determinou que um vaqueano da Estância, de inteira confiança do Cel. João Francisco, o acompanharia no resto da viagem, pois, afirmou: Daqui pra frente o amigo vai atravessar uma zona ainda infestada de remanescentes do banditismo, que o Destacamento da Brigada do Cati vinha lutando para exterminar...

Segundo as pesquisas preciosas do historiador CARLOS REVERBEL, na obra já citada, não podemos deixar de reproduzir o fato de que o célebre contista JOÃO SIMÕES LOPES NETO, filho de CATÃO B. S. LOPES, estivera residindo por largo tempo na Estância São Sebastião. Daí foi levado a visitar, por várias vezes, as Furnas do Jarau, e nos contos de galpão se reproduziam as versões crioulas da Salamanca.

Percorrendo os campos do Garupá e do famoso cerro, recolheu os elementos que mais tarde serviriam aos seus contos. Este fato é digno de inspirar um certo orgulho e vaidade aos uruguaianenses, cujos campos teriam contribuído largamente para corporificar a mais bela lenda do Rio Grande e que também imortalizou ao inolvidável contista pelotense. Conta ainda Reverbel, que o famoso folclorista tomou como personagem central do conto Contrabandista, a que deu o nome de Jango Jorge, um bandoleiro que vivia nos banhados do Ibirocaí, isto é, nos banhados da velha Estância São Sebastião.

Depois de 1882 - ano em que o VISCONDE DA GRAÇA recebeu a São Sebastião - foram levadas a registro duas marcas, registros estes feitos pelo próprio CATÃO BONIFÁCIO SIMÕES LOPES, na Câmara da Vila de uruguaiana, conforme Livro de Registro de Marcas e sinais, nº 3 e fs. 65 e em data de 4 de fevereiro de 1888.

Os registros feitos pelo administrador dos bens da famosa Estância, foram feitos em nome do VISCONDE DA GRAÇA.


À título de curiosidade histórica, se reproduz a marca que pertenceu ao Visconde do SERRO FORMOSO, que também foi, muito depois, usada em gados da Estância centenária, chegando até nós através de descendência de Manoel de Macedo pons, seu décimo bisneto, conforme minuciosa genealogia apresentada pelo linhagista Tácito van Langendonck (PINACOTECA DOS ASCENDENTES - São Paulo - Gráfica Furest Ltda., 1966).


Ilustração

Bernardina Francisca de Magalhães Prado Lima e Joaquim dos Santos Prado Lima (cavalgando de cachoeira para Uruguaiana, onde implantaram a Estância ANJO DA GUARDA, Sesmaria dos Prado, Sarandí e Lagoa da Música - 1840) por Luiz Alberto Pont Beheregaray "Berega", Calendário Fertisul - Ipiranga, 1981.

CATALOGAÇÃO NA FONTE

p811c

Pont, Raul, 1912 -

Campos realengos: formação da fronteira sudoeste do Rio Grande do Sul. Ilust. por Luiz Alberto Beheregaray. Porto Alegre, Renascença, 1983 - 1ª edição; Edigal, 1986. 2ª edição, p. 99-100/741-749.

2v. 23 cm.

1. Rio Grande do Sul - História. I. Título.

CDD: 981.65

CDU: 981.65

(816.509

981.65"17/18"

981.65-04"17/18"

ÍNDICE ALFABÉTICO PARA O CATÁLOGO SISTEMÁTICO:

1. HISTÓRIA: RIO GRANDE DO SUL 981.65

2. RIO GRANDE DO SUL: HISTÓRIA (816.5)9

3. HISTÓRIA: RIO GRANDE DO SUL: SÉCULOS XVIII A XIX 981.65"17/18"

4. HISTÓRIA: RIO GRANDE DO SUL: FRONTEIRAS: SÉCULOS XVIII A XIX

981.65-04 "17/18"

Bibliotecária responsável: Ilka Ferreira Caselgrandi - CRB-10/479)

Esta obra está prestigiada pela FUNDAÇÃO NACIONAL PRÓ-MEMÓRIA, que colaborou com a Prefeitura Municipal de Uruguaiana, para a primeira Edição através do MEC - Secretaria da Cultura e Projeto Interação da Educação Básica com Diversos Contextos culturais existentes no País.


Foto da fachada da Estância São Sebastião: https://www.anchietano.unisinos.br/publicacoes/cadernos/textos/cadernos_003.pdf

Acesso 01/11/2025







































































segunda-feira, 10 de julho de 2023

João Simões Lopes Neto, obra (Carlos Reverbel)

 

O baú

J. Simões Lopes Neto publicou em vida apenas três livros: Contos Gauchescos, Lendas do Sul e Cancioneiro Guasca. Postumamente, foram editadas duas obras de sua autoria: Terra Gaúcha e Casos do Romualdo.

A produção do grande regionalista teria sido bem maior se os diversos livros que ele anunciou, como “em preparo” ou “a sair”, tivessem realmente aparecido. Nunca apareceram pela simples e boa razão que jamais foram escritos.

Na época do velho Simões, um escritor municipal, que viveu e editou seus livros em Pelotas, era frequente os literatos anunciarem obras de que havia apenas o título, o que levaria os pesquisadores, em alguns casos, a empreender trabalhosas buscas no vazio.

Foi o que aconteceu em relação ao notável escritor pelotense, na acurada e inútil procura de originais cuja autoria ele próprio se atribuía, inclusive dois romances regionais – Peona e Dona e Jango Jorge – que J. Simões Lopes Neto costumava apresentar como inéditos, isto é, já concluídos, faltando, apenas, serem publicados. Tudo leva a crer, entretanto, que esses romances somente existiram na imaginação do escritor, indo com ele para o túmulo.

Não foi, felizmente, o que se daria com os Casos do Romualdo, cuja descoberta faria com que a reduzida bibliografia simoniana viesse ganhar novo e valioso título, tendo, ao mesmo tempo, enriquecido o nosso regionalismo literário com uma obra que, segundo Augusto Meyer, aponta “novas qualidades no grande regionalista”

Quando estive em Pelotas, em 1945, a serviço da Editora Globo, para realizar uma pesquisa em torno da vida e da obra de J. Simões Lopes Neto, a viúva do escritor, D. Francisca Meirelles Simões Lopes, ainda vivia, na condição de ter de trabalhar (apesar da avançada idade), para prover o próprio sustento e o de uma filha de criação chamada Firmina e sem qualquer capacitação profissional. D. Francisca exercia com dignidade e eficiência as funções de secretária do Conservatório de Música local. Dela se dizia na cidade: é pobre, mas orgulhosa.

Como vinha fazendo em relação a todos que a procuravam, por causa do nome literário do marido, já então bastante valorizado postumamente, recebeu-me com muitas reservas, só faltando bater-me com a porta na cara, quando lhe disse dos motivos de minha visita. Afirmando ter sido vítima de falcatruas, com perdas e até roubos de originais inéditos do marido (inclusive o dos Casos do Romualdo), por parte de pesquisadores que me haviam antecedido e até por parte de escritores que se inculcavam como “amigos e admiradores” de J. Simões Lopes Neto, ela resolvera não mais receber “essa espécie de gente”, emprestando às últimas palavras um tom que poderia ser interpretado como “essa espécie de exploradores”.

Não tive, assim, outra alternativa senão deixá-la entregue aos seus ressentimentos e amarguras e tratar de iniciar a pesquisa em outras fontes. Lá pelas tantas, no andamento do trabalho, que já se revelara bastante proveitoso, a ponto de Augusto Meyer apontá-lo, mais tarde, como obra de “copista beneditino”, fui levado pela mão de Francisco Cardoso, um contemporâneo do escritor, que fora seu amigo e grande admirador, ao sótão de um casarão abandonado, onde tive a sorte de encontrar, entre outros guardados, um volume encadernado do Correio Mercantil, jornal pelotense há muito fora de circulação.

Por pura sorte, ali encontrei, publicado em folhetim, a partir da edição de 1º de junho de 1914, o texto completo dos Casos do Romualdo, livro cujos originais todos informavam, a começar pela viúva do autor, terem sido extraviados por Pinto da Rocha, que os levara, numa de suas passagens por Pelotas, para fazer-lhe o prefácio e procurar-lhe editor, no Rio de Janeiro, deles não tendo ficado cópia, nem rastro.

Voltei à casa de D. Francisca (que era conhecida na cidade pelo apelido de D. Velha), já então armado com a cópia datilográfica do folhetim, perguntando-lhe se não tinha lembrança que a obra havia sido publicada, num jornal local, em 21 capítulos, ainda em vida de J. Simões Lopes Neto. Ela, cada vez mais sestrosa e retrancada, afirmou que jamais houvera tal publicação, voltando aos casos de extravios, perdas e espoliações de que se dizia vítima.

Tomei, então, a iniciativa de entregar-lhe o texto datilografado do livro, com a observação de que, à vista do sucedido, parecia que ela deixara de acompanhar a vida literária do marido, por não reconhecer, talvez, o seu talento de escritor, enquanto ele vivera a seu lado. A velhinha desmontou, literalmente. E, voltando-se para os fundos da sala, limitou-se a bradar, com energia: “Firmina, traz o baú”.

Foi, assim, colocado à minha disposição velho e precioso baú, em que D. Velha guardara, fechado a sete chaves, o que havia sobrado do espólio literário do grande escritor gaúcho, inclusive as páginas inéditas e manuscritas das Recordações da infância, umas vinte e tantas laudas, que me deram a impressão de ser o começo de um livro de memórias, mas que a ensaísta Eliane Zagury identificou, com grande acuidade, como a tentativa de um romance. Talvez as primeiras páginas de Peona e Dona ou de Jango Jorge, as únicas que não teriam ficado no tinteiro.

D. Francisca Meirelles Simões Lopes sobreviveu ao marido nada menos de 48 anos, tendo falecido a 3 de janeiro de 1965, aos 95 anos de idade e em plena lucidez. Dela recebi, a título de colaboração às minhas pesquisas, valiosa documentação. E, naturalmente, nos tornamos bons amigos, como testemunham as cartas que dela conservo, com gratidão e ternura.




Capa: Tânia Porcher

Foto: Jorge Rolla

Fonte: Reverbel, Carlos. Barco de papel. Porto Alegre: Editora Globo S.A., 1978, p 3/6.

Crédito Carta D. Francisca: Laitano, Cláudia. Tumultuário: cadernos de memórias de Carlos Reverbel. Orientador: Luís Augusto Fischer. Dissertação (Mestrado), Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Letras, Porto Alegre, 2022, p. 101.

Disponível: https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/242236/001145263.pdf?sequence=1&isAllowed=y 

Acesso 10/07/2023

Júlio de Castilhos e aguardente (Carlos Reverbel)

 

Lágrimas de Santo Antônio

Amanhã quando vieres, deves trazer no carro duas garrafas de caninha especial (Lágrimas de Santo Antônio), visto haverem sido ontem esgotadas, em abundante palestra dos amigos, as duas que eu trouxe sexta-feira.”

Este bilhete foi dirigido por Júlio de Castilhos a Aurélio Veríssimo de Bitencourt, seu secretário. Na ocasião o então presidente do Estado se encontrava na Chácara da Figueira, de sua propriedade e situada no atual arrabalde da Glória, para onde se recolhia com certa frequência.

Entre os amigos a que se refere, o Patriarca (como Castilhos passaria a ser chamado) menciona apenas dois: Borges de Medeiros e Francisco Rodolfo Simch, pelo que se depreende do bilhete, igualmente apreciadores de Lágrimas de Santo Antônio.

Noutro bilhete, também dirigindo ao secretário, Júlio de Castilhos mandou o seguinte recado a Cássio Brum Pereira, seu ajudante-de-ordens:

Incluo 25$000, que entregarás ao Cássio. É a importância da dúzia de Lágrimas de Santo Antônio, que ele comprou há dias. Dize-lhe que encomende outra dúzia.”

Estávamos no último quartel do século passado, época em que ainda não se havia inventado o dadivoso modelo de economia doméstica denominado mordomia. E, nestas condições, nada se conseguia sem mostrar a cor do próprio dinheiro, não havendo discriminações entre os consumidores, por parte do bodegueiro. Segundo a famosa Carta de 14 de Julho, inspirada nas ideias políticas de Augusto Comte, todos eram iguais perante o balcão do armazém da esquina.

Talvez por medida de economia (pois, como se sabe, o Patriarca era parcimonioso nos gastos), chegou um momento em que entendeu de abastecer-se de Lágrimas de Santo Antônio na própria fonte de produção. Recorria, então, aos préstimos do Cel. José Maciel, intendente municipal de Santo Antônio da Patrulha, conforme se verifica através desta missiva:

Amigo José Maciel, aceitai minhas saudações. Senti não encontrar-me convosco quando viestes ultimamente a esta capital. Eu estava então veraneando em uma chácara. Desejo que continueis a administrar com felicidade o vosso município e a dirigir com acerto o Partido Republicano local, de que sois zeloso chefe. Prevalecendo-me dos vossos oferecimentos, tomo a liberdade de pedir-vos que me envieis com a brevidade possível um barrilote de aguardente especial, a melhor que aí houver. Desejo servir a um amigo, que me fez tal encomenda. Quando fizerdes a remessa do barrilote, deveis enviar a nota do preço, a fim de receberdes a respectiva importância. Aguardo vossa resposta. Contai sempre com o vosso amigo obr. - Júlio de Castilhos.”

Esta carta traz a data de 24 de março de 1899. Foi encontrada nos papéis deixados pelo Cel. Maciel. Também foi encontrada, nos papéis do mesmo, uma nota com os seguintes dizeres:

Embarco na carreta do Sr. Manuel Agostinho Ribeiro um caixote para ser entregue, em Porto Alegre, ao Ex.mo Sr. Dr. Júlio de Castilhos. Santo Antônio, 10 de dezembro de 1900. - José Maciel.”

Nessa mesma nota, embaixo, se lê o seguinte, escrito do próprio punho de Castilhos:

Recebi. Porto Alegre, 14-12-1900. - Júlio de Castilhos. Aproveito o ensejo para apresentar ao prezado colega meu cordial abraço.”

Como se vê pelas datas registradas na nota acima transcrita, a “carreteada” de Santo Antônio a Porto Alegre levou apenas quatro dias. E fica evidente, pelas respectivas datas, que era uma outra encomenda, não a que se refere a carta de Júlio de castilhos a José Maciel, datada de 24 de março de 1899. Tudo indica que as encomendas se tornaram regulares e habituais.

Embora na sua carta Júlio de Castilhos tenha deixado a critério do Cel. Maciel a escolha da marca da 'branquinha” encomendada, tem-se como certo que esta recaiu sobre a denominada Lágrimas de Santo Antônio, a cachaça mais afamada entre as já produzidas no Estado.

O papel hoje desempenhado pela Escócia, com ativa participação dos falsificadores de uísque, brasileiros e paraguaios, era naquela época exercido, com honra e glória, pelo município de Santo Antônio da Patrulha.

Há uma quadrinha do cancioneiro gaúcho que diz o seguinte:

A gaita matou a viola,

O fósforo matou o isqueiro;

A bombacha o chiripá

E a moda o uso campeiro.”

Resta acrescentar que o uísque matou a cachaça…



Capa: Tânia Porcher

Foto: Jorge Rolla

Fonte: Reverbel, Carlos. Barco de papel. Porto Alegre: Editora Globo S.A., 1978, p 105/107.

Borges por João Neves da Fontoura (Carlos Reverbel)

 

O presidente e a bailarina

Na carência da bibliografia sobre Borges de Medeiros, as Memórias de João Neves da Fontoura talvez reúnam as melhores páginas já escritas a respeito do poderoso chefe republicano, em que pese a relação de dependência partidária e a afeição pessoal que os vinculava.

Entre outras, esta passagem é bastante ilustrativa:

Como já assinalei” - sublinha o memorialista - “o Sr. Borges de Medeiros foi, no poder, o homem solitário. Sem confidentes nem conselheiros. Assessores, mesmo, a rigor nunca os teve. Nem a família se intrometia na política ou se arrogava o direito de participar da administração do Estado ou da direção do Partido. As mensagens do Sr. Borges de Medeiros, seus discursos, seus despachos, não eram tão somente obras dele, como os escrevia do próprio punho, com aquela letra magnífica – igual, cheia, regular, de caracteres bem desenhados, letra que conserva, apesar dos anos, a beleza do antigo talhe. Quando cometia a outros a elaboração de projetos, não o fazia para depois apresentá-los como de sua autoria. Nomeava por decreto as pessoas escolhidas e mais tarde se limitava a corrigir ou alterar, a seu juízo, o trabalho que lhe fosse apresentado. Assim aconteceu com a reforma da Lei da Organização Judiciária”.

Em fins de 1925, quando ia entrar no penúltimo ano de seu terceiro mandato presidencial, Borges de Medeiros convidou Sérgio Ulrich de Oliveira para Secretário da Viação e Obras Públicas. Esta escolha foi interpretada, na época, como sinal de que o novo secretário seria o substituto de Borges de Medeiros na presidência do Estado.

A propósito, comenta o memorialista:

Era, entretanto, natural que a escolha de Sérgio de Oliveira para a pasta de Obras Públicas despertasse, no mundo político, a suposição, perfeitamente razoável, de que as preferências do Sr. Borges de Medeiros se haviam fixado na pessoa do seu novo secretário, para sucedê-lo. Sérgio representava, sem favor nem exagero, uma das melhores expressões, de conjunto, no seio do Partido Republicano. Caracterizava-o – primus inter pares – a harmonia entre os predicados morais e mentais. Insigne advogado, exercia a profissão com os rigores de uma ética exemplar. Fronteiriço, tinha da zona de seu berço as qualidades dos homens, sem os defeitos. Cultura esmerada nos domínios do Direito, da Filosofia Política, da Literatura, era um orador diserto, falando sem arroubos mas fiel à máxima de Quintiliano: quem sabe bem diz bem. Desde o início de sua vida, revelou profunda compreensão quanto à prevalência dos deveres sobre as conveniências.”

Tratava-se, enfim, de um homem público que, seja como político, seja como pessoa, quer pela integridade moral e pela firmeza de caráter, quer pela inteligência e pelo saber, reunia todas as condições para empunhar as rédeas do governo, estando, assim, perfeitamente à altura de recebê-las das mãos de Borges de Medeiros, na sua austeridade e na sua intransigência. E tinha-se como certo de que Sérgio de Oliveira seria o futuro presidente do Estado, embora Borges de Medeiros mantivesse rigoroso silêncio a respeito, como era de seu feitio de esfinge.

Quando foi um certo dia, já em fins de 1926, ocasião em que começara a ser organizada a chapa republicana para a Câmara dos Deputados, Borges de Medeiros mandou chamar Sérgio de Oliveira, comunicando-lhe que seu nome iria fazer parte da respectiva nominata.

Sérgio no dia seguinte” - informa o memorialista - “com a sua habitual elegância, exonerou-se da Secretaria, recolhendo-se à sua casa de Uruguaiana. Pequena não foi a decepção dos que nele anteviam o sucessor do Dr. Borges de Medeiros na presidência do Estado”.

Começou, então, a correr o boato de que Sérgio de Oliveira havia perdido a oportunidade de chegar ao governo do Estado porque teria se deixado “enfeitiçar pelas graças” de uma bailarina espanhola, em atuação no Clube dos Caçadores, famoso cabaré da época.

Embora o político uruguaianense fosse viúvo e tudo tivesse acontecido – se é que realmente aconteceu – na maior discrição, teria sido quanto bastou para que Borges de Medeiros, informado do episódio por um espírito de porco, que sempre os há, segundo Nelson Rodrigues, passasse a pensar noutro nome para substituí-lo. E esse outro nome não foi outro senão o de Getúlio Vargas.

O episódio deve realmente ter acontecido, de acordo com a sábia filosofia de que onde há fumaça há fogo. E dele se conclui que, se não fosse o célebre Clube dos Caçadores, com as suas importações de bailarinas espanholas, cançonetistas francesas e outras “artistas internacionais”, a história de 1930 para cá poderia ter sido um pouco diferente.

João Neves da Fontoura, por sua vez, encara o episódio, nas suas valiosas Memórias, da seguinte maneira:

De tudo quanto acabo de narrar, decorre uma inevitável filosofia: como teria sido diferente a história contemporânea do Brasil se, em lugar de Vargas, o Sr. Borges de Medeiros houvesse adotado, em 1927, a candidatura de Sérgio de Oliveira à presidência do Rio Grande!”.



Capa: Tânia Porcher

Foto: Jorge Rolla

Fonte: Reverbel, Carlos. Barco de papel. Porto Alegre: Editora Globo S.A., 1978, p 98/101.

Florianópolis, 1934 (Carlos Reverbel)

 

O lagarto e o camelô

Por volta de 1934 fui dar com os costados na ilha de Santa Catarina, terminando a viagem como repórter de um jornal de Florianópolis. Era no tempo em que o Palácio patrocinava o direito de ir e vir, sem ônus para o Tesouro. Um telefonema para o agente da Costeira resolveu, na hora, o problema da passagem, colocando em termos reais a aventura que me borbulhava na imaginação. E assim fiz o batismo de mar, barra a fora, num barco lerdo e acanhado, porém sincero: o Comandante Capela.

O jornal, que fazia oposição sistemática, teimando em defender a política decaída em 1930, realizava o milagre de ainda sair todos os dias. Era composto à unha, por velhos tipógrafos, todos grandes sujeitos. Ainda mantinham a tradição da classe, antigamente muito chegada às belas-letras. Tomavam intimidade com o “colega” Machado de Assis e cada qual se julgava o maior conhecedor de Cruz e Sousa. As apostas em que se empenhavam, para tirar a teima, eram capazes de levá-los a declamar as obras completas do lendário poeta catarinense.

Na redação, éramos apenas três gatos pingados. Um desembargador aposentado, responsável pelo artigo de fundo. O secretário, gênero pé-de-boi, que fazia, praticamente, o jornal todo. E este seu criado, no campinho do noticiário geral, aliás, muito despovoado, pois nunca havia espaço para os acontecimentos apartidários. O diretor só aparecia para dar as tintas políticas ou para salvar o valente órgão, alcançando-lhe, pouco antes de exalar o último suspiro, magra pecúnia, sempre captada entre os mesmos (e poucos) correligionários, mas que nunca deixava de reunir o estritamente necessário para prolongar-lhe os estertores.

A vida na ilha barriga-verde, naquele tempo, não podia ser mais amena e dadivosa. O cacho de bananas, que serviria, em caso de aperto, para fornecer proteínas por uma semana inteira, costumava ser ofertado a menos de 500 réis. O peixe só faltava pedir licença para fugir do mar e invadir as cozinhas, precipitando-se nas panelas, de ponta-cabeça. Mas sempre preferi na beira da praia, preparado em lata de querosene marca Jacaré, sobre o braseiro crepitando num buraco feito na areia. Aprendi a preparar e degustar a especialidade numa colônia de pescadores, segundo a clássica receita de camões:

Não se aprende, Senhor, na fantasia,

sonhando, imaginando ou estudando,

senão vendo, tratando e pelejando”.

Como moradia, um quarto de pensão, cujo único luxo consistia em ser individual. Mas, um belo dia, a dona do estabelecimento pediu permissão para nele introduzir outro hóspede. Como a mensalidade nem sempre era atendida de modo pontual, não tive outra saída senão capitular, como Koutouzov em Austerlitz. E logo pude constatar, com perplexidade, que, em vez de um, apareceram dois novos hóspedes: o Aristides e seu companheiro Juquinha.

Nesse preciso momento, o Graf Zeppelin começou a sobrevoar a bela cidade de Florianópolis que, vista das alturas, a voz geral comparava a um presépio. Entretanto, era tal minha depressão, em face da dupla invasão do meu domicílio, que não tive ânimo, sequer, para chegar à janela e assistir ao “acontecimento do século”. Em estado de melancolia profunda, fui a única alma, em todo o litoral brasileiro, que não viu a passagem do dirigível Zeppelin, navegando precisamente na rota em que, ao passar pelo Recife, levaria o poeta Ascenso Ferreira a exclamar, pela voz de uma de suas criaturas folclóricas:

Meu Deus! Como a pomba do Espírito Santo cresceu!”

Toca-me agora a vez de também exclamar:

Meu Deus! Como a gente se engana neste mundo!”

Reunidos sob o mesmo teto, tornamo-nos os melhores amigos. Como o meu trabalho era noturno e o de Aristides e Juquinha se realizava durante o dia, a coabitação quase desaparecia nessa providencial diferença de horários. Assim, se quisesse encontrar os companheiros de quarto, teria de ir até o Mercado Público, onde eles exerciam a sua admirável arte.

Para atrair o público, Aristides retirava o Juquinha de dentro de uma sacola, colocava-o carinhosamente sobre a calçada e começava a dialogar com o inteligente parceiro, também revelando, por sua vez, grande talento histriônico. Formada a roda de basbaques, que nunca faltavam, renovando-se como em sessões permanentes de cinema, Aristides recolhia o Juquinha à respectiva sacola e começava a apregoar e vender a sua mercadoria, a toda velocidade.

Era um medicamento infalível, segredo de curandeiros indígenas do Alto Amazonas, elaborado com poderosas resinas medicinais, que tinha a propriedade de curar todas as doenças e fechar o corpo do paciente para as vindouras. Só não iam na conversa os companheiros de quarto do genial camelô, eu e o lagarto Juquinha, acostumados ao engenho com que ele fabricava, usando água da pena e uma anilina esverdeada, a sua milagrosa maravilha curativa.



Capa: Tânia Porcher

Foto: Jorge Rolla

Fonte: Reverbel, Carlos. Barco de papel. Porto Alegre: Editora Globo S.A., 1978, p 90/92.

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