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domingo, 26 de julho de 2020

Ocasião e Circunstâncias



Ocasião, ao lembrar Carlos Reverbel, parafraseando outrem – que respondia algum questionamento embaraçoso, como por exemplo:

- Por que o Sr. não…..?

A resposta:

- Por falta de ocasião!

Circunstâncias surgem da (re)leitura do Compêndio de Introdução à Ciência do Direito, de Maria Helena Diniz, edição 2003, trecho inicial, antes da centésima página, sobre conduta do ser humano, trabalhando os conceitos de um autor mexicano do início do século XX.

Releitura não seria propriamente, porque o livro foi utilizado na disciplina de Introdução ao Estudo do Direito, não por recomendação expressa da professora, mas como subsídio para provas e trabalhos, tendo em vista que em geral, não anotava quase nada dos conteúdos ministrados.

Um pouco por cansaço, outro pouco por desleixo, e pela questão física de ocupar a última cadeira de uma sala com 85 alunos…

O fundo da sala é uma selva, discussões aguerridas sobre a série C do Campeonato Brasileiro, coisas de suma importância para a formação acadêmica…

Uma hora vou escrever mais sobre a faculdade, ou não…

Pois bem, no devaneio dominical, “deu certo”, combinamos um passeio, saímos com pouco compromisso, sem (mas com) rumo, factível de retorno em um final de semana…

A fronteira Oeste sempre me convida!

E temos essa questão!

Que joga um rio de água fria, gelada, em qualquer plano.

Sobra imaginação, para quem dispõe dela, falta consecução.

A quem desafia o cotidiano, fica a probabilidade real, o aleatório.

Para quem desafiou, restou curar-se ou perecer.

Sobre leituras, lembro charge de Tom Gauld. Retrata uma estante, a cor das lombadas dos livros com legenda, separada por cores: livros que li, que não li, a ler, que fingi ter lido, e assim por diante…

Sobre o Compêndio, ele ficou “para trás” quando observei que a apostila da profe era baseada em um livro dos anos 70, do tempo em que o pai cursou Direito e manteve sob custódia em casa: Bingo!

Agora, a leitura é maçante, mas insisto.

Ninguém falou que seria fácil.

Levei um mês para ‘matar’ um livro de Processo Civil de 500 páginas. Nesse ritmo…

Às vezes, fico 3 dias sem abrir um livro.

Tecnologia tem me enfarado, ontem que rebusquei uns sites e, lendo artigo do El País sobre o disco de Metal mais vendido da história, a tragédia e a sequência da banda, ouvi todo o Back in Black do AC/DC.

Desculpe, tive muito tempo ouvindo música dita nativista e regional.

Escrevendo isso, retomei quase todos os vídeos do Chango Spasiuk, fazia tempos que não ouvia ele, até repassei os álbuns para um pen drive, hora dessas toca, se não houver erro de leitura e uma gloriosa mensagem “no device” aparecer no player.

Ao escrever, refiro que essa madrugada caiu o resto do galpão que havia nos fundos da casa que foi da Vó (a casa foi vendida). Estrondo forte, um tiro, prefiro não estender o tema.

Sobre negações, conceitos e definições, interessante o áudio extraído de um vídeo do Major Olímpio (está no ‘kinder ovo’ do Foro de Teresina 110), citando uma ‘pá’ de termos maçônicos.

Qual a parte da sociedade secreta que essa turma não entendeu?

Fiquei como o título de um disco do Mário Rubens Batanolli (Mano) Lima, “Um Homem Fora de Seu Tempo”.

E lembro que além da existência de grupos de “zap”, o que coloca em dúvida a “secretitude” (sic!, muito sic!, sic mesmo, tá?) dessa organização lendária e secular. Lembro até que o mesmo “Mano” teve fotos de sua iniciação divulgadas na rede.

Citando a Revista Piauí, li um artigaço na edição 164, tendo por título ‘Os Subterrâneos’. Uma verdadeira viagem, para quem está, como disse ao Sr. Darci Leopoldo Uhry essa semana que passou, na “peceva”.

De fungos, a micorrizas, conexões intra arbóreas, a Floresta de Epping, na Inglaterra, território de caça de um Rei no século XII. Graças ao Dr. Google, temos condições de ir até lá, “dar uma espiada, uma abaixadinha” (Opa!, isso é uma letra do Tchan Tchaaann!!).

Da floresta, o autor vai a Chernobyl, ao maior fungo do planeta, com 4 km de largura, no Oregon, se não me engano, à uma ilha no Canal do Panamá, experiências científicas, borbulhas de seiva auscultadas com estetoscópio, experimentos envolvendo abelhas e cidra feita com frutos da famosa macieira de Sir Isaac Newton.

Muito bem, levando a leitura à associação de como alguém provido de muita criatividade assimilaria tal reportagem… E como repassaria a outros interlocutores, naquele ditado do Rillo de quem “conta um conto, acrescenta um ponto.”

Pois sobre destinos, numa saída rápida, sem parada, mantendo os limites de velocidade impostos pela legislação e sinalização de trânsito, estive após 2 anos em Tucunduva. Mauá está fechado e, naturalmente, os outros portos deviam estar abarrotados no final de tarde de sábado ensolarado à beira do Rio Uruguai. Tuparendi não entrei, estava na hora do lusco-fusco, melhor guardar a última imagem, do cumprimento mui cordial de uma moça, não sei se por susto ou troça, quando estive por lá, de bicicleta, no início do ano.

Destino porque a tragédia encampa esse escrevente, com pitadas de melancolia. Em Tucunduva pereceu tragicamente o Legenda, como o Maurício Hermann se refere ao Roque Moos.

Não fale mal do cavalo”, conforme o Maurício, era o mantra que utilizava para se referir à motocicleta. É ela que colocou o ciclista em alguma enrascada, ela vai tirá-lo. Não no caso do Legenda, infelizmente.

Mas o Mauricião citou o ditado como dica para não nos queixarmos do serviço. Sábia dica!

Tudo passa, tudo passará!

Chega mais, Dom Mario: eles passarão, eu passarinho!

E vem, como em outro texto, Yalom.

Deveria gravar os insights, para depois verter ao papel, mas tenho a certeza que causaria espécie, falando de coisas aleatórias, ficaria um caso curioso, e de curioso basta O Curioso Caso de Benjamin Button. Aqui foi mais um parágrafo para a pausa da piadinha super, super engraçada.

Bueno, como amanheci ‘universitário’, Yalom me foi apresentado – e aos outros 84 colegas matriculados na mesma sala; que tinha audiência máxima nos períodos em que as ausências chegavam próximas a 25 %, tendo em vista a frequência de 75 % a ser observada contratualmente pelo aluno - por um professor de Teoria Geral do Processo. Lembro que exercia a magistratura em Santa Rosa e tinha São Jerônimo como cidade natal.

Esse professor, em ímpeto de indignação, certa noite teceu comentário sobre “poder”, em sentido amplo:

- “É como um grande tonel, cheio de excremento...”

Ele não falou o termo excremento, estou normalizando e respeitando a(o) minha(eu) leitora(o).

Outra feita, teceu ilação sobre ‘faz de conta’:

- Eu faço de conta que dou aula;

- Vocês fazem de conta que prestam atenção;

- A Administração faz de conta que está tudo bem.

Na apresentação do escritor em comento, tinha sido lançada a obra “Quando Nietzsche Chorou”, e o professor relatou que não se termina um livro de Yalom da mesma forma como se começou…

Agradeço parapsicologicamente ao maestro, mesmo tendo sido omisso aos conteúdos afeitos à disciplina. Essa parte eu tirei proveito, chegando a memorizar um trecho que diz: “as coisas que você fez o colocaram nisso; as que fizer, poderão tirá-lo disso”.

E voltamos à teoria do Legenda.

Deve ser conhecimento universal, tradição, não pode ser coincidência. Ou talvez circunstância.

Creio que não, não tem lógica.

Lógica que, como brinca o professor Ítalo Romano Eduardo, é como procurar um chapéu preto, num quarto desprovido de iluminação, sabendo que o mesmo não está lá.

Ausência de lógica foi o presente texto, agradecendo a audiência e a paciência, como diria o grande filósofo Fausto Silva, pelo tempo dispendido em sua leitura, e que talvez tenha sido de valia para, pelo menos, preencher as horas de um domingo, ou de outro dia qualquer, nesse inverno pandêmico ou em vindouras épocas. Avante!

P.S.: Inconscientemente, o fecho ficou analogamente parecendo com o presente na obra “Você não merece ser feliz, como conseguir mesmo assim”, do Craque Daniel. Lamento. E ‘até’!

sábado, 15 de fevereiro de 2020

A vida ao lado de um homem que tem megatons de frustração represados (Leila Guerriero)


Nos olhos dele não há compreensão, só um pântano seco onde pulsa o rancor


O fim será pavoroso. Mas agora prepare tudo com a ilusão que surge da ignorância. Convença-se de que você faz isso por amor. 

Diga a si mesma que é a maneira –adulta, racional– de as coisas retomarem seu curso, de que escutá-lo voltar para casa –o ruído emocionante da chave na porta, a forma como ele a abre, como se temesse atropelar alguém do outro lado– seja, como costumava ser, a melhor parte do dia.

Tente se lembrar de quando começou. Aquele mutismo rude que ele engendra desde as primeiras horas da manhã e que se dirige a você como um míssil sem dissimulação; aquela hostilidade que o recobre como uma névoa solta e que parece uma mensagem que tem você como destinatária: como se você tivesse feito algo repugnante, imperdoável: como se você fosse repugnante, imperdoável. Diga a si mesma, como já faz há algum tempo, que o assunto deve levar alguns meses (se pergunte se não vai levar anos e descarte de imediato o pensamento com um respingo de dor supersticiosa).

Agora, quando chega em casa, em vez de cumprimentá-la –"oi, amor!"–, diz coisas como "esqueci a maldita peça na loja de ferragens"; e quando você pergunta se tudo foi bem no trabalho, responde coisas como: “Sim. Mas discuti com o imbecil do meu irmão”. Você sente que essas palavras –maldito, imbecil– têm você como destinatária, como se fosse o centro em ebulição de uma culpa inexplicável, de uma amargura que escorre pela vida dele e a transforma em uma vida miserável.

Pense –enquanto repassa o que vai dizer: as primeiras palavras de uma conversa tranquila– que ele está há muito tempo vivendo em um tom baixo, apagado, mergulhado em algo que poderia ser melancolia– por um motivo que você desconhece –ou repulsa (por algo em que ele não quer pensar: pela forma como você não é mais a garota despreocupada que ele conheceu, mas essa mulher hiperativa que sempre parece saber o que fazer e como, e julga o que ele faz como se fosse dona de um conhecimento superior?). 

Todas as manhãs, quando você sai para o trabalho –um trabalho que te agrada, mas que às vezes faz você se perguntar se não será essa a fonte do problema: sua vida de fêmea genial ao lado de um homem que tem um emprego anódino, megatons de frustração represados–, ele se despede com uma alegria que se assemelha ao alívio (alívio de não vê-la por um tempo?), e você desaparece no elevador com um gesto de submissão e súplica (sem saber a quem se submete ou suplica o quê) . Às vezes, ao longo do dia, trocam mensagens e paira entre vocês um carinho que parece sincero, mas que, quando voltam a se ver, se liquefaz como o corpo de um pássaro escravizado sob uma corrente de ácido.

Termine de preparar um jantar simples. Receba-o sem dar sinais de nada. Escute, em seu cumprimento, essa queixa filha da irritação com que desta vez ele diz: "Meu velho deixou cair o celular e a tela quebrou". Diga, tirando a importância disso: "Bem, sempre se conserta". Quando ele responder "estou cheio disso", escute: "estou cheio de você". Sirva o jantar, comente coisas sem importância. Procure dentro de si as primeiras palavras sensatas que você preparou durante dias. Diga-as em um tom que parece amável e caloroso. Veja como de repente ele presta atenção. 

Sinta crescer dentro de si o otimismo necessário para seguir em frente. Escute a si mesma dizendo frases prolixas (detecte nelas palavras como "antes", "eu não entendo", "eu preciso"; diga a si mesma que tem que evitá-las; não faça isso). Veja como ele cruza os talheres no prato (escute uma voz que diz: "Chega, não diga mais nada", mas não pare). 

Solte as amarras. Convença-se de que este é o momento de deixar tudo jorrar, de abrir as comportas. Diga-lhe que a atitude dele a magoa (pense: "Não! Ele não é seu cúmplice, não vai cuidar de você"). Veja como ele olha para o prato com um distanciamento animal. Sinta, subitamente, sinta que tudo o que você diz exala uma superioridade na qual você não se reconhece. 

Pense: “Esta não sou eu. Eu não faço essas coisas.” Mas não faça caso da intuição lamurienta que sussurra que você está sendo patética. 

Continue. 

Quando acabar, pergunte: “O que está pensando?”. Olhe para ele. 

Veja que nos seus olhos não há compreensão, somente um pântano seco onde pulsa o rancor. Escute como ele diz: “Sinceramente? Tenho medo de você”. 

Entenda que ele sente – sabe – que você arruinou a vida dele. Que você é o inimigo.

Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2020/02/03/eps/1580729785_113909.html
Acesso: 15/02/2020

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Da arte de aprender a cair (Vladimir Safatle)


O desejo procura a queda porque ela é o impulso que temos para ser diferente de nós mesmos, diferente do que fomos até agora. Talvez seja por isso que entramos em relação


Vladimir Safatle

Eu sempre quis começar um texto perguntando-me por que livros de ética normalmente são tão ruins. Não falo apenas dos livros para grande público, normalmente repletos de descrições edificantes sobre virtudes que parecem feitas para animar palestras motivacionais de grandes empresas ou exortações morais que dificilmente escondem seu tom claramente redutor. Como se houvesse algo da ordem de palavras encantatórias que quanto mais repetidas mais teriam o dom de simplificar a existência e seus caminhos. Mesmo quando tais livros começam com um tom de ruptura e de rebeldia, é apenas para chegar a alguma digressão mágica sobre felicidade ou algum produto congênere da mesma família. Melhor seria se eles começassem por se perguntar por que a felicidade tornou-se historicamente, ao mesmo tempo, impossível e imoral para nós; por que ela deve começar por ser recusada se quisermos ainda permanecer fiel a seu impulso inicial. Parafraseando Kafka, dizer que há felicidade, mas não para nós, seria uma maneira de começar por lembrar que a verdadeira decisão ética aqui consiste em recusar qualquer compromisso com a permanência de uma situação histórica fundada na infelicidade de muitos.

Mas, se voltarmos os olhos aos livros que circulam no mundo acadêmico na área que chamamos normalmente de “filosofia moral”, encontraremos uma terra devastada não muito distinta. Difícil não perceber como eles estão entre os mais esquemáticos. Alguém deveria começar por lembrar que não se fala de posições éticas sem definir as fronteiras de suas limitações históricas. Como se fosse possível falar de virtudes da mesma forma que Aristóteles, quando nem sequer fazia sentido a distinção entre as virtudes do cidadão (porque se trata de um problema de homens) e as virtudes privadas, já que o horizonte social de fundamentação da vida ética não era passível de questionamento. Ou melhor, só era questionado como ruína e catástrofe nos momentos mais dilacerantes do teatro, como vemos por exemplo em Antígona, de Sófocles. 

Mas poderíamos continuar este estranhamento em relação ao apagamento da situação histórica de enunciação nos perguntando sobre o erro de falar de dever como na época de Kant, quando a crença na forma procedural e universalizante do julgamento ético podia ainda aparecer como um ganho de racionalidade em relação à vinculação local dos costumes e tradições, quando a exortação a agir por amor ao dever podia ainda ser um contraponto à consolidação da redução de nossas motivações para a ação ao quadro calculador da maximização dos interesses individuais. Não perceber que a história dessa crença na universalização foi também a história de uma desafecção catastrófica em relação a contextos, de uma abstração que trazia no seu bojo as marcas das piores violências seria, mais uma vez, tomar a filosofia pela arte da descrição de estrelas imaginárias, ou seja, descrição de entidades aparentemente imutáveis que existem apenas nos olhos de quem as descreve.

No fundo, todas essas estratégias, e elas são múltiplas, partilham ao menos um erro fundamental: o erro de acreditar que uma reflexão sobre ética seria a melhor forma de alimentar nosso desejo de invulnerabilidade e de inviolabilidade. A ética como uma forma, talvez a mais astuta, deste estranho desejo humano de inviolabilidade. Pois se soubéssemos nos orientar de forma segura na dimensão moral seríamos invioláveis, andaríamos em um solo firme, mesmo se nossas certezas morais produzissem continuamente equívocos e fracassos. Ou seja, a ética como a versão secularizada da procura por uma segurança ontológica. Por trás de suas questões do tipo “como quero ser?” ou "o que devo fazer?” haveria sempre este desejo por um último amparo, pela crença de que nada nos retirará do domínio de nós mesmos. Que este desejo esteja dirigido ao nosso vínculo aos deuses ou a nossa pretensa capacidade de julgar e avaliar nossas próprias ações e as ações de outros, isto não muda um dado fundamental, a saber, haveria uma segurança ontológica a me guiar. Nietzsche costumava dizer que nunca nos desvencilharemos de deus enquanto acreditarmos na gramática. Ele tinha razão, e poderíamos ainda acrescentar que nunca nos desvencilharemos de deus enquanto desejarmos nossa invulnerabilidade. E nós sabemos o quanto nossas regressões sociais periódicas estão vinculadas às formas do desejo de imunidade, do estar em possessão de si mesmo, do pertencer a si mesmo, do destruir tudo que me retire de tal possessão de si mesmo. 

Por isso, talvez a única posição ética à altura de nosso tempo deveria partir da procura em assumir uma insegurança ontológica fundamental. Nesse sentido, poderíamos mesmo dizer que a ética tornou-se para nós um aprendizado sobre como cair e como se quebrar. Há certos momentos em que fica claro como o mais importante é saber como cair, como se quebrar. Pois fomos feitos para nos quebrarmos.

Em uma de suas raras declarações sobre educação (que ele julgava uma tarefa impossível), Sigmund Freud afirmava que toda educação estava fadada ao fracasso porque ela partia do aprendizado da norma, das situações ideais, dos princípios. Mas um princípio é o que é, ou seja, apenas algo que aparece no princípio, nunca um resultado. Melhor seria, dizia Freud, se ensinássemos as situações concretas e essas, bem, essas mostram coisas muito diferentes. Melhor seria se nos disséssemos desde o início: “prepare-se porque um dia você irá se quebrar, você irá se trair”. Você irá se deparar com aquilo que não se submete ao seu controle, aquilo que o tira da jurisdição de si mesmo, aquilo que o desfaz em suas identidades, aquilo que desorienta a ação e o julgamento.

Nessas horas, faz toda a diferença saber como cair, como cair de outra forma. Não com a expectativa de restaurar o sentimento de estar intacto, não com esta fúria projetiva que procura jogar para outros a causa de nossas quedas, não com esse desejo mórbido de esconder nossa vulnerabilidade pregando o evangelho da culpabilidade e da punição para os que se afogaram. Mas cair com a solidariedade com os que caíram e cairão, com a consciência da falibilidade de nossa ações e da violência de nossos trajetos. Cair perguntando-se por que se quis cair, o que quis de fato realizar, mesmo que de maneira desesperada. Isso poderia mudar de forma significativa nossa forma de relação a si e ao outro.

As quebras são nosso destino porque somos seres em relação. Não há como evitar quebras porque procuramos colocar em relação corpos com tempos distintos, ritmos distintos, desenvolvimentos idem. Corpos que nos atravessam. Há uma relação fundamental entre desejo e queda, mas não devido à ladainha cristã da culpa por desejar o que não se deveria desejar. A melhor maneira de nos livrarmos dessa teologia travestida de psicologia moral é ressignificando todos os seus significantes. O desejo procura a queda porque ela é o impulso que temos para ser diferente de nós mesmos, diferente do que fomos até agora. Talvez seja por isso que entramos em relação.

Mas isso é indissociável da descoberta de uma violência imanente às relações, uma violência seguramente inextirpável. Só mesmo uma ilusão liberal para acreditar que a diferença vem sob a forma pacificada da tolerância, e não sob a forma agonística da explosão. Menos Locke e mais Francis Bacon (o pintor, não o filósofo) seria útil. Nesse sentido, um erro contemporâneo clássico consiste em tentar reduzir à figura da opressão todas as formas de violência imanente às relações. Quando conseguirmos eliminar as relações de opressão (e nós um dia conseguiremos), ainda restarão essas violências que nos quebram quando estamos em relação. Mas estamos em relação desde o início e até o fim. Talvez uma verdadeira reflexão ética deveria partir disso.

Vladimir Safatle é professor de filosofia da USP

Acesso 10/01/2020

sábado, 7 de setembro de 2019

12 Pessoas (Mariló García Martín / El País)


Seis tipos de pessoas que podem nos beneficiar mais
Elena Cedillo
Pessoas motivadas

São comprometidas e ativas. Estabelecem metas, perseveram, são entusiasmadas e geralmente não se deixam paralisar pelo medo. São o espelho no qual deveriam refletir-se os que se fustigam com cada erro que cometem, pois as pessoas motivadas lembram que um erro é uma experiência de crescimento e aprendizagem.

Pessoas inspiradoras

Assumiram as rédeas de suas vidas, mudaram o que não queriam ou mostraram uma grande capacidade de superação em circunstâncias específicas. Têm uma atitude constante de perseverança e acreditam em si mesmas e em suas possibilidades. As pessoas inspiradoras nos mostram que não devemos parar de lutar, que nunca é tarde para criar propósitos e perseguir objetivos.

Pessoas positivas

Elas nos ajudam a perceber o lado bom das coisas, a correr riscos, a alcançar uma solução satisfatória dos problemas. Pessoas positivas nos fazem acreditar em nossas possibilidades, assumir a responsabilidade por nossas vidas e sorrir mais. E o sorriso tem um poder inegável.

Pessoas abertas

Estão razoavelmente livres de preconceitos e sempre dispostas a ouvir diferentes critérios e opiniões, mesmo que não correspondam a seus pontos de vista. Empatizam mais com os outros e não têm tanto medo de mudar. Aceitam melhor as críticas (e isso é muito importante porque seu efeito é muito mais potente do que a adulação) e vivem de maneira mais despreocupada com o que os outros pensam delas. Pessoas abertas nos darão mais flexibilidade, nos ensinarão a ter mais diálogo, a aceitar melhor as críticas e a manter maior equilíbrio emocional.

Pessoas apaixonadas

Vivem com entusiasmo, aproveitam cada momento e investem tempo naquilo que realmente as apaixona. Sua alta motivação é um mecanismo poderoso. Pessoas apaixonadas nos ensinam uma grande lição: "Se você encontrar a sua verdadeira paixão, nunca haverá falta de motivação".

Pessoas agradecidas

Nós tendemos a nos concentrar mais naquilo em que não estamos satisfeitos, em vez de focar nas coisas boas que constantemente acontecem conosco. Aumentar a gratidão ou estar com pessoas agradecidas aumentará nosso bem-estar emocional, nos situará em nosso presente e nos manterá afastados da queixa inútil.

Seis tipos de pessoas que devemos tentar evitar
Valeria Sabater

Pessoas que se queixam

Quem vive em uma espiral de reclamações constantes tem um problema para cada solução, e fazer da reclamação seu modo de vida geralmente envolve a criação de cativos: eles nos procuram para desabafar ou nos tornar o motivo de suas reclamações. É melhor fazê-los ver que, com seu comportamento derrotista, não resolvem nem ganham nada. Se não mudarem, não devemos nos deixar contagiar por sua atitude nem dar valor a seus comentários negativos.

Pessoas invejosas

No momento em que alguém experimenta a inveja se percebe como inferior ou como perdedor, e isso não apenas gera frustração, mas também produz algo muito perigoso, a raiva. De fato, até mesmo isso que chamamos de "inveja saudável" esconde o desejo por algo que não se possui e isso pode moldar situações incômodas, nas quais se perde a confiança em nossos relacionamentos. A admiração sempre será melhor que a inveja. Quem te inveja, não te ama nem te respeita.

Pessoas que fazem fofoca

Estão sempre mais preocupados com o que os outros fazem do que com a responsabilidade por si mesmas. Têm um tipo de personalidade que é muito daninha no local de trabalho porque intoxica o ambiente, cria problemas onde não há e dificulta a produtividade. Não caia nesse jogo. A fofoca morre quando atinge o ouvido inteligente que decide parar esse boato ou mexerico. Esse tipo de pessoa gosta de entrar nesses jogos porque adquire poder. Portanto, é melhor não dar valor às fofocas e menos ainda ao fofoqueiro.

Pessoas que se sentem culpadas

Usam a vitimização como uma estratégia manipuladora, um detalhe que deve ser levado em consideração porque pode ser uma faca de dois gumes. Por se mostrarem deprimidas (há as que estão e não se nota) e arrastando o peso da culpa em suas costas, estão na realidade usando uma afiada manipulação emocional. São pessoas que estão sempre pedindo perdão e costumam ser submissas para obter benefícios.

Pessoas agressivas

Carecem de empatia, são autoritárias, usam a comunicação violenta e priorizam de modo exclusivo suas necessidades e direitos. Viver com esse tipo de personalidade pode erodir gravemente nossa autoestima, e não podemos ignorar que estamos enfrentando um tipo de abuso. A melhor coisa nesses casos é manter distância. Viver com alguém agressivo, seja na família ou no trabalho, deixa sérias sequelas em todos os níveis.

Pessoas psicopatas

Há um dado interessante: as pessoas com comportamento psicopata têm maior probabilidade de se candidatar a cargos de gerência ou poder. A explicação é que sua personalidade agressiva, sua falta de empatia ou a capacidade de manipular usando seu charme para obter objetivos são características exigidas em certas categorias de trabalho. Esse tipo de perfil tende a contornar a legalidade ou o permitido para obter benefícios. Diante do psicopata, é melhor estabelecer limites, deixar claras as consequências de suas ações e, acima de tudo, nunca ceder.

Acesso: 07 setembro 2019

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Você nunca vai agradar a todos (Francesc Miralles/El País)



Você nunca vai agradar a todos. Aprenda a não ligar para isso


7 ABR 2019

A verdadeira liberdade pode residir em conseguir ser feliz sem precisar da aprovação alheia

UM DOS LIVROS mais populares dos últimos anos no Japão reúne as conversas entre um jovem insatisfeito e um filósofo que lhe ensina, entre outras questões, a arte de não agradar aos outros. É um tema sensível numa cultura tão complacente como a nipônica, mas este compêndio de conversações entrou também nas listas de mais vendidos dos Estados Unidos, e no Brasil foi publicado como A Coragem de Não Agradar (Sextante).

O mestre é Ichiro Kishimi, especialista em filosofia ocidental e tradutor de Alfred Adler, um dos três gigantes da psicologia junto com Freud e Jung. E é justamente o pensamento de Adler que articula o diálogo com o jovem Fumitake Koga sobre como se emancipar da opinião alheia sem se sentir marginalizado por causa disso.

O debate socrático que eles mantêm ao longo das mais de 260 páginas do livro parte dessa ideia central: todos os problemas têm a ver com as relações interpessoais. Nas palavras do próprio Adler, “se as pessoas querem se livrar dos seus problemas, a única coisa que pode fazer é viver sozinhas no universo”. Como isso é impossível, sofremos por alguma destas razões ao nos relacionarmos com os outros:

- Sentimos um complexo de inferioridade em relação a quem “tenha conseguido mais” do que nós.

- Sentimo-nos injustamente tratados por pessoas que amamos ou ajudamos e que não nos correspondem como esperamos.

- Tentamos desesperadamente agradar os outros para obtermos sua aprovação.

Este último ponto se transformou em um vício generalizado. Podemos vê-lo claramente nas redes sociais, onde publicamos posts procurando a aprovação dos outros na forma de curtidas e comentários. Quando uma foto ou uma reflexão importante para nós obtém poucas reações, podemos chegar a nos sentir ignorados. 

Também nas relações analógicas, muitos problemas interpessoais têm a mesma origem: não recebemos do outro o que acreditamos merecer. O fato de não nos agradecerem suficientemente por alguma delicadeza que fizemos, por exemplo, pode desatar o ressentimento e esfriar uma amizade.


Sob este desejo de concessões há uma ânsia de reconhecimento. Se o outro me agradecer, se apreciar o meu trabalho, se corresponder ao meu favor com um ato amável, então me sentirei reconhecido. Se isso não acontecer, interpreto como se eu não tivesse feito nada, como se não existisse para o outro. Essa visão é um poderoso gerador de problemas, já que as relações nunca são totalmente simétricas. Há pessoas que desfrutam dando, e outras que transmitem a impressão, mesmo que incorreta, de que não querem receber nada. Isso provoca muitos mal-entendidos, somado ao fato de que cada indivíduo tem uma forma diferente de expressar seu amor e gratidão. Há pessoas que verbalizam de maneira imediata e direta o que sentem por nós, e outras que nos apreciam igualmente, mas têm menos facilidade para expressar amor, ou o fazem de forma diferida, quando encontram o momento e lugar adequados.

Todas as opções são corretas, sempre que nos liberemos da ânsia por encontrar uma compensação imediata e equitativa, como em um comércio no qual será preciso receber imediatamente pela mercadoria entregue.

Conforme afirma o professor Ichiro Kishimi, “quando uma relação interpessoal se alicerça na recompensa, há uma sensação interna que diz: ‘Eu lhe dei isto, então você tem que me devolver aquilo’”, o que é uma fonte inesgotável de conflitos.

Porque, além das diferentes maneiras de expressar afeto, encontraremos pessoas que simplesmente não nos entendem ou inclusive não gostam de nós. Fazer um drama por causa disso transformará nosso dia a dia em um terreno fértil para os desgostos. 

A verdadeira liberdade inclui não nos importarmos com o fato de algumas pessoas não irem com a nossa cara, porque estatisticamente é impossível agradar a todos. Deixar de nos preocupar com o que os outros acham de nós, especialmente os que não nos entendem, é o caminho para a serenidade.

“Quando desejamos tão intensamente que nos reconheçam, vivemos para satisfazer as expectativas dos outros”, afirma Ichiro Kishimi, e com isso já deixamos de ser livres.

Não exigir contrapartidas e se permitir viver à sua maneira, dando-se inclusive o direito de não agradar, é algo que traz liberdade, paz mental e, afinal, melhores relações com demais.
Francesc Miralles é escritor e jornalista experiente em psicologia.



Autor da Imagem: Gorka Olmo

Acesso: 12/04/2019

Sete sílabas de terra vermelha (Paulo Bentancur)

  Montado em sete sílabas, Jayme Caetano Braun (1994 – 1999) não descuida um verso sequer o generoso horizonte da lírica repentista. O seu ...