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domingo, 16 de abril de 2023

João José Machado de Oliveira e o trem (Carlos Reverbel)

 


Velho amigo e compadre de Assis Brasil. Homem vivaz e malicioso. Fazendeiro abonado, só viajava de 2ª classe.

Tendo alguém lhe perguntado por que se sujeitava a esse desconforto, sua resposta veio logo:

- Porque não existe 3ª classe em nossos trens.”


Capa: Calito Azevedo Moura

Fonte: Reverbel, Carlos. Pedras Altas. A vida no campo segundo Assis Brasil. Porto Alegre: L&PM Editores Ltda, 1984, p. 16.

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Capistrano de Abreu – Hóspede em Pedras Altas

 

Nas suas visitas a Pedras Altas, certa vez Capistrano de Abreu ali permaneceu cerca de seis meses, deixando bem assinalada a sua presença, viva até hoje. Tanto assim que a memória do grande historiador ainda humaniza o lugar, quando se indica, aos atuais visitantes, “a sanga do banho do Capistrano”, local onde ele tomava seus banhos.


Ou, então, quando se mostra o recanto onde ele se colocava sua rede nordestina, ali permanecendo como lembrança as antigas argolas de sustentação.


Sendo costume do autor de Capítulos de História Colonial ler até tarde, à luz de vela, certa noite numa parede de madeira da casa de hóspedes que ele ocupava ficou chamuscada. Embora indicasse o sinal de um princípio de incêndio, jamais se permitiu que aquela mancha negra na parede de tábua fosse removida. Seria conservada, com todo carinho, como recordação de Capistrano de Abreu. E ali permanece.


Fonte: Reverbel, Carlos. Assis Brasil (Rio Grande Político) – 2ª ed. Porto Alegre: IEL, 1996, p. 94.




Capa: Márcia Contri

quinta-feira, 14 de abril de 2022

Política Pastoril - Carlos Reverbel/Rio Grande Político, 1990

 

Em 1895, quando foi enviado a Portugal, como Ministro Plenipotenciário junto à corte de Lisboa, para restabelecer a normalidade nas relações entre os dois países, rompidas desde a Revolta da Armada, em 1893, ele adquiriu duas vacas Jersey na Inglaterra, dando início, assim, à sua criação dessa raça bovina, com vistas, ao mesmo tempo, a introduzi-la no Brasil.


Os animais pertenciam ao plantel da Rainha Vitória, não havia melhores no Reino Unido. Mantidas inicialmente em Portugal, as duas excelentes vacas, ambas “vitorianas”, foram levadas para a estância de Ibirapuitã e, posteriormente, para a Granja de Pedras Altas.


Foi assim que se introduziu a raça Jersey no Brasil, sem dúvida um ato de boa política agrícola.


Reportando-se um dia a esse fato, informaria Assis Brasil:


Outra peculiaridade da raça é a aptidão para dar leite continuamente, mesmo durante o período de nova gestação, ou durante os anos em que a vaca, por qualquer motivo, permanece falhada. Desde que se alimente por outra forma o bezerro, é mesmo preferível desmamá-lo quando ainda muito tenro. A mãe não deixará por isto de dar leite regularmente.


Para não ir buscar longe o exemplo – as duas vaquinhas que serviram de fundamento ao atual plantel de Pedras Altas foram logo separadas das crias e deram rico e abundante leite durante três anos, sem que fossem de novo cobertas.”


Fonte: Reverbel, Carlos. Assis Brasil (Rio Grande Político) – 2ª ed. Porto Alegre: IEL, 1996, p. 81/82.




Capa: Márcia Contri

domingo, 10 de abril de 2022

Pedras Altas (Assis Brasil, 1908)

 

(Introdução ao opúsculo publicado por Assis Brasil em Buenos Aires, em 1908, sobre “o que é e o que deve ser Pedras Altas”)


A Granja de Pedras Altas, em cujo terreno está encravada a estação do mesmo nome, demora a margem da estrada de ferro que une a cidade de Rio Grande à de Bagé e, prolongando-se ao entroncamento de Cacequi, se liga a todo o sistema ferroviário nacional e platino. Dista da cidade e porto de Rio Grande menos de 200 quilômetros e menos de 100 de Bagé.


Ao ponto mais próximo da República Uruguaia contam-se pouco mais de 30 quilômetros. A essa fronteira terá de levar-se brevemente um ramal ferroviário que, ligado à estrada uruguaia, em adiantada construção, porá Pedras Altas a poucas horas de Montevidéu.


Essa situação foi calculada para o mais fácil acesso dos visitantes e para a mais conveniente expedição dos produtos da granja.


Há na estação de Pedras Altas serviço de correio, estação telegráfica em combinação com o telégrafo geral, bem como telefone de longa distância.


O estabelecimento se levanta sobre o dorso da Coxilha Geral ou Coxilha Grande, onde se divorciam as águas da bacia do Prata das que correm para as lagoas dos Patos e Mirim.


A grande elevação que esta circunstância ocasiona - cerca de 400 metros sobre o nível do mar – e a latitude avançada – coisa de 32 graus – dão ao sítio um clima fresco e agradável. A terra granítica, ainda de composição diferente, é profunda e permeável e presta-se bem à cultura, mediante os socorros da agronomia; a água é abundante, clara, leve, francamente potável; as pastagens variadas e suculentas.


A fundação da granja é relativamente recente. No dia 7 de maio de 1904 foi adquirido o terreno, inculto e deserto. Ainda que esse desde esse dia se haja lidado incessantemente, o progresso do estabelecimento tem sido grandemente retardado pela quase constante ausência do proprietário. Agora apesar de tudo, três anos depois de batida a primeira estaca, vai aparecendo algum resultado apreciável: as árvores começam a dar sombra e fruto; as terras vão obedecendo ao amanho e aos corretivos; veem-se já muitos e conspícuos representantes das várias espécies e raças de animais domésticos que compõe, o programa definitivo; trabalha-se nos últimos edifícios e instalações; o fundador, enfim, se estabelece no teatro do labor e vai dirigir em pessoa toda a atividade.


Quando a granja estiver em plena operação, o visitante há de encontrar nela:


Uma biblioteca de alguns milhares de volumes sobre todas as ordens de conhecimentos e especialmente ciências, artes e indústrias agrícolas;


Instrumentos aratórios e outros aparelhos de uso rural em harmonia com as condições peculiares ao Rio Grande do Sul e distritos análogos do Brasil, sendo os interessados instruídos sobre a montagem e utilização dos mesmos e vendo-os operar nos campos experimentais da granja;


Mudas e sementes de plantas úteis, ornamentais, frutíferas e industriais;


Produtos autênticos de reprodutores puros (selecionados segundo as mais escrupulosas regras da zootecnia e adaptados ao clima e outras circunstâncias locais) das espécies domésticas de maior utilidade – aves de diferentes raças, suínos para carne e gordura, ovinos para lã e carne, vacuns para carne, leite e trabalho, cavalares para velocidade, montaria e tração;


Finalmente, instalações industriais econômicas para fabricação de laticínios, conservas de frutas e outros produtos.


Muitos dos objetos referidos – quase a totalidade deles – podem desde já serem vistos na granja, ainda que sem a profusão e regularidade que devem existir quando houver tempo para se fazer sentir a influência da presença do dono.


Pedras Altas representa um esforço no sentido de demonstrar com o exemplo o que a palavra, escrita e falada, tem evangelizado à saciedade quanto a muitas reformas de economia rural necessárias entre nós.


É também uma tentativa de realizar, em pleno campo e mediante modestíssimos recursos de fortuna, a vida confortável e inteligente – bem-estar sem luxo, repouso sem ociosidade.


Para responder a esses intuitos, o estabelecimento inteiro – construções, divisões, distribuição das várias secções de lavoura, criação e indústrias rurais – obedece a um plano concertado durante anos de meditação e experiência própria e alheia.


O ideal do fundador de Pedras Altas é que, quando a granja estiver completa e em plena operação, digamos, nestes dois anos, uma visita a ela valha por uma lição de coisas. Não há vaidade pretensiosa nessa aspiração. Lição não é imposição.


Todos somos livres para não aceitar o que se nos ensina.


Mas nenhuma pessoa razoável poderá negar a utilidade de qualquer ensinamento honesto, embora seja para seguir por caminho muito diverso. Neste sentido, é mestre toda gente que faz alguma coisa, ainda que seja errada.


Quem nada faz é que nada ensina.”


Fonte: Reverbel, Carlos. Assis Brasil (Rio Grande Político) – 2ª ed. Porto Alegre: IEL, 1996, p. 59/61.




Capa: Márcia Contri

terça-feira, 15 de março de 2022

Cinco horas no Castelo (Diário de Cecília, 1927)

 

Segunda-feira, 26 de setembro


Choveu e trovejou toda a noite. Dormi mal, com medo que o Seu Chico Macedo não viesse por causa da chuva. Mas o coitado, sempre fiel, veio às seis menos um quatro.


Eu estava pronta, de chapéu e luvas.


Na estação, o Seu Chico Macedo comprou os jornais. Lemos o programa do Partido Democrático Nacional, o discurso do Papai sobre esse programa e a circular do Borges, apresentando os nomes do Getúlio Vargas e do João Neves da Fontoura, para futuros presidente e vice-presidente do Rio Grande do Sul.


Nas estações por onde passávamos o povo caía em cima do vendedor de jornais do trem.


O tempo se manteve encoberto e de vez em quando chuviscava. Mesmo assim estavam lindos aqueles campos.


Quando subíamos a rampa de Pedras Altas havia uma cerração tão fechada como no dia em que o Chimango passou para inaugurar o marco de Aceguá.


Esperavam-nos na porteira a Vitalina e um filho do Faustino Pinto, com um auto pintado de encarnado.


A cerca de lídias que havia na entrada não existe mais, senão um pequeno trecho do lado das oliveiras. Foi substituída por horrível cerca de arame farpado.


Os pinheiros da pista estão magníficos. Agora cobrem com seus galhos todo o caminho, formando um túnel verde, meio escuro em alguns lugares.


Ao entrar no jardim estranhei ver árvores que de tão altas escondem a casa.


O pé de cânfora, que deixei como arbusto, está uma linda árvore, de uns cinco metros.


A laranjeira da entrada apresentava-se coberta de flores.


Os “cupressus lambertiana” estão mais altos que a sotéia da sala de música.


Começou a chover, tive de entrar em casa.


A nossa porta está cheia de inscrições de admiradores do Papai. Há também a assinatura do comandante do 17º Corpo Auxiliar da Brigada Militar, com a data da ocupação pelas forças governistas.


Encontramos o pobre hall muito feio, com as cadeiras alinhadas só de um lado e a mesa coberta com estopa.


O piano ficou russo, com o verniz todo rachado, nem parece de madeira, está com aspecto enferrujado.


Vi a janela do hall que os chimangos arrombaram. Quebraram quatro vidros e arrebentaram a trava de aço com uma alavanca. Também via a cadeira de couro que eles cortaram. Andei em todos os quartos, por toda parte há vestígios dos chimangos.


Não há uma gaveta em que não tenha mexido.


No quarto da Maninha e Carolina a Vitalina mostrou as camas e disse:


Era aqui que os tenentes da Brigada dormiam”.


Fiquei mais triste quando vi o meu quarto, tão remexido, não encontrando uma porção de quadrinhos e outros tarecos de estimação que eu tanto queria.


O álbum de figurinhas que eu colecionava desde que ganhei a Graflex estava com os retratos descolados e arrancados. Que destino terão levado meus pobres retratinhos?


Havia fotografias do dr. Osório e do Capistrano, gente que nunca mais poderei substituir.


O Papai tem razão quando diz que Pedras Altas é um templo profanado.


A minha escrivaninha, que deixara cheia de papéis, está quase vazia. Levaram até os palitos feitos pelo Papai, que eu juntava.


A chiffonière da Mamãe foi arrombada, com o emprego de alavanca.


Também no escritório do Papai tudo remexeram. Quebraram o vidro do retrato do Mitre.


Achei nossa bandeira no armário das armas, como um trapo amarrotado.


Estava junto com uma bandeira inteiramente encarnada (que eu nem sabia que existia), da qual cortaram pedaços e amarraram nos candelabros, em cima da lareira. Dobrei a nossa bandeira e guardei-a numa gaveta, com o retrato do Mitre.


Não tive tempo de ir à biblioteca, porque volta e meia chegavam visitas, que não me largavam um momento.


As cinco horas que passamos em Pedras Altas voaram. Retornamos a Bagé pelo trem da tarde.


Fonte: Assis Brasil, Cecília. Diário de Cecília Assis Brasil, org. por Carlos Reverbel. Porto Alegre, L&PM, 1983, p.159/160/161.




Capa: L&PM Editores sobre foto do Castelo de Pedras Altas, Rio Grande do Sul.

Glórias de Pedras Altas (Diário de Cecília, 1917/1918)

 

Quinta-feira, 24 de janeiro


Venderam-se 100 pêssegos ao Pinho, a 20 mil réis.


Os “Glórias de Pedras Altas” estão amadurecendo em quantidade.


Sentei-me nas escadas com o Papai, depois do jantar. Ficamos olhando o céu, que os raios rasgavam em todas as direções, e ouvindo a trovoada ao longe. Lembrei-me de um poema de Lamartine: Jehovah.


Sexta-feira, 25 de janeiro


Dia quente. Ventos leste e norte.


Colhemos “Glórias de Pedras Altas” para dar e vender. Para serem vendidos em Bagé, a 500 réis cada, foram remetidos ao Fabião Lima 100 pêssegos perfeitos.


O Pinho comprou um cento a 20 mil réis.


Leleu, Nenê Correia e dr. Nabuco receberão de presente uma porção.


Fonte: Assis Brasil, Cecília. Diário de Cecília Assis Brasil, org. por Carlos Reverbel. Porto Alegre, L&PM, 1983, p. 36.




Capa: L&PM Editores sobre foto do Castelo de Pedras Altas, Rio Grande do Sul.

segunda-feira, 14 de março de 2022

Pedras Altas (Diário de Cecília, 1916/1917)

 

Quinta-feira, 26 de outubro


Primeiro dia de verão. Acabei de ler Capitain Courageous, de Kipling.


Apareceu, pela manhã, vinda de Alegrete, a velha Sia Josefa. Veio ver o Florêncio, seu afilhado. Pediu bóia e pousada.


Os tiros que ouvimos ontem foram dados numa briga, entre a polícia da Estação.


Abri inquérito e apurei o seguinte: estava na venda do Pinho um praça do Tutuca (delegado), muito mal encarado e bêbado. Como estivesse armado, mandaram chamar o inspetor Sabino, para tirar-lhe as armas.


Chega o Sabino todo bem vestido. Estava num casamento, completamente desarmado. Intimou o sujeito a entregar o revólver. Este respondeu mal, saiu discussão e o Sabino acabara levando um tiro.


Aí apareceu um outro praça e entrou na briga, de vereda, respondendo ao primeiro tiro.


Em seguida surgiu o Tutuca, acompanhado de dois praças. E dispararam seus revólveres contra o indefeso Sabino.


De repente, surge um tal Ramão e não sei quem mais.


Caíram de facadas e tiros também sobre os agressores do Sabino.


Resultado: quatro homens feridos, a começar pelo Sabino, com seis balaços, um deles passando pelo “figo”.


Todos acham que ele morre. Foi levado para Bagé em trem especial, assim como o Tutuca (com um enorme talho no crâneo), e mais um praça, que está à morte.


Segunda-feira, 30 de outubro


Os cinamomos estão todos em flor.


A Mamãe anda muito abatida, mas eu a conheço bem demais para saber que é inútil insistir, pedindo-lhe que se poupe.


Que bom que o Papai voltasse…


Bordei durante o temo que pude. Debulhamos favas. Visitei a Matutina, do Bernardino Bueno, para falar em negócios.


Deitei duas galinhas W. W.. Achei uma ninhada de 24 ovos, das galinhas do Maneca.


Fez muito calor.


Li algumas Tales do E. Poe. Como é que esse homem podia imaginar tantos horrores?


Sábado, 23 de dezembro


Levantei cedo, tosei as lídias, limpei o dog’s room e cortei o pasto dos frisos do jardim.


Depois fui tomar mate na Floresta.


Quando o trem chegou, Boy, Quinquim e eu fomos ao encontro do Papai e Seu Januário, que vinham da Estação. É a primeira vez que o vejo. É muito calado e simpático. Tomou mate de vereda.


O dr. Cabral veio cá almoçar. Gostou dos meus Petit Suisses.


Fiz manteiga e ajudei a Maninha a ensaiar um plumpudding.


De tarde o Papai, Seu januário, Boy e Dolores saíram a cavalo.


Chegaram muitos números atrasados da Illustration.


A Lina já bate palmas.


Domingo, 24 de dezembro


Arrumamos a árvore de Natal na sala do piano.


Fomos à Estação. Chegaram o dr. Osório, Dona Faustina, Dona Lola e a égua do dr. Osório, Morena, com os joelhos esfoladíssimos.


Na Estação fui apresentada ao coronel Pedro Osório.


Muito cedo vieram visitar Papai uns doutores Requeijão, isto é, Requião, pai e filho.


O dr. Osório voltou hoje mesmo. Levou pêssegos.


Depois do jantar ouve a festa de Natal. Todos receberam presentes. Os peões receberam seis pares de meias cada um, de todas as cores existentes no arco-íris e fora dele.


Desabou grande temporal.


Pedras Altas, segunda-feira, 1º de janeiro de 1917


Que 1917 nos traga felicidade!


O dia raiou lindo e o Ano Novo foi recebido alegremente por todos. Não velamos a morte de 1916 porque queríamos madrugar para fazer os preparativos necessários a uma viagem que ficou engatilhada desde ontem.


Levantei-me então às 5 e meia e vi o sol e o dia e o ano nascerem ao mesmo tempo, num jorro de luz e no meio de nuvens magnificamente coloridas. Enquanto me vestia olhei pela janela e vi Papai, arrancando uma carqueja no jardim.


Foi a primeira coisa que ele fez em 1917.


Quando desci levei uns rolos de papel nos quais tinha escrito versos para oferecer às pessoas de mais importância na casa. Peço mil desculpas ao V. Hugo por ter parodiado seu belo poema A Mlle. Louise B. que faz parte dos Chants du Crépuscule.


Éramos 16 pessoas no passeio à casa do seu Lauro. Enchemos um vagão. Também foram a banda de música e um grupo de moças pedraltenses.


Depois do almoço fomos ao rancho da Sia Basilissa.


Pegamos uns matungos velhos e lerdos. Montei num tordilho-vinagre chamado Garça, de muito bom cômodo, mas manso como cordeiro.


Pela primeira vez na minha vida andei a cavalo enganchada. Gostei mais do que da outra posição. Pena a Mamãe não gostar que eu monte assim.


Fonte: Assis Brasil, Cecília. Diário de Cecília Assis Brasil, org. por Carlos Reverbel. Porto Alegre, L&PM, 1983, p. 13/14/24/31/32.




Capa: L&PM Editores sobre foto do Castelo de Pedras Altas, Rio Grande do Sul.

Timpanite (Diário de Cecília, 1918)

 

Sexta-feira, 17 de maio


Hoje foi um dia bastante infeliz.


Estávamos acabando de almoçar quando vieram dizer que uma das nossas vacas estava deitada e muito inchada.


Era a Valquíria, que tinha sido amarrada pela Quinquim nas laranjeiras, onde havia muito Sorghum alepeuse.


Fomos correndo, mas já encontramos a pobrezinha agonizante, com a barriga enorme de tão inchada. Voltamos o mais ligeiro possível para pedir ao Papai que viesse, mas quando ele chegou, com o trocate, a vaquinha tinha acabado de morrer.


Nem sei dizer o quanto fiquei triste.


Foi tão de repente que ela morreu, e quase que por nossa culpa.


Até senti que o Papai não tivesse ficado zangado, nem ralhasse conosco. Ele só nos explicou como se evita a timpanite e mostrou-nos onde guarda o trocate, para usarmos quando for preciso, outra vez.


A Valquíria tinha quatro anos, dera duas crias e era a menor e a vaca mais típica de todo o nosso rebanho Jersey.


Pelo trem da tarde Papai partiu para Itaiaçu. Fez um calor úmido, muito desagradável. E de noite desabou grande temporal.


Fonte: Assis Brasil, Cecília. Diário de Cecília Assis Brasil, org. por Carlos Reverbel. Porto Alegre, L&PM, 1983, p. 46.




Capa: L&PM Editores sobre foto do Castelo de Pedras Altas, Rio Grande do Sul.

Trator (Diário de Cecília, 1923)

 

Quinta-feira, 11 de janeiro


Reli Jane Eyre. Depois, tênis.


Podalírio está arando a lavoura das oliveiras, perto da Estação.


Junta-se gente (carreteiros e povinho), para ver o trator trabalhar.


Fonte: Assis Brasil, Cecília. Diário de Cecília Assis Brasil, org. por Carlos Reverbel. Porto Alegre, L&PM, 1983, p. 32.




Capa: L&PM Editores sobre foto do Castelo de Pedras Altas, Rio Grande do Sul.

Sete sílabas de terra vermelha (Paulo Bentancur)

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