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segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Prêmio (Zeca Blau)


As frutas que eu mandei foram plantadas

Por estas mãos, e, eu mesmo é que as colhi.

Aquelas horas eram descuidadas

E hoje, colhendo, foi pensando em ti!


Quanto tempo terei para esses nadas

- Os melhores instantes que eu vivi!

De brindar com lembranças namoradas

Esse alguém que está longe e eu sinto aqui…


Quanto irás apreciar – quase adivinho!

Tendo um pouco de mim cortando a ausência,

Vendo na arrumação todo o carinho.


Doce prêmio do tempo que labuto,

Venho ter quase ao termo da existência

Dos pomares da vida o melhor fruto!...



Fonte: Blau, Zeca. Horas do meu ocaso. Edição Sulina, 1968, p. 41

Saudade (Zeca Blau)


Se um dia eu endoidecer

No anseio em que me consumo,

Morrerei sempre acenando

Um lenço para o teu rumo.


Eu longe e te sinto a mão

querida presa na minha,

Tendo algo de ave cansada

que ternamente se aninha.


Tão longe! não se concebe,

- quem poderá concebê-lo?

que eu viva sempre sonhando

No afago do teu cabelo.


As horas de ti distante

que fundamente sentidas!

Desfio como um rosário

De contas tão doloridas…


Se lágrimas vêm, são folhas,

Caindo e trazendo calma,

De uns invisíveis ciprestes

que temos plantados na alma…


Que dom estranho tu tens!

É mesmo tão singular!

- De, estando, querida, ausente,

Perto de mim sempre estar.


Saudade dor que maneia!

Tu tão longe e sempre aqui,

Com aquela corda de seda

Tua presença prendi.


Como é tão longa esta ausência

Mas, olho em torno e te vejo,

Ouvindo alegros da voz

Nos esmorzandos de um beijo.


Por que Deus, criando o amor,

Fez a gente tão sensível?

Aceito, mas não perdoo

Também criasse o impossível…


Ligar pela alma dois seres!

Jamais, Deus, serás impune,

Por ter criado a tortura

Da distância que nos une.


Entre a saudade e a distância

É a escala feita por mim:

- Saudade, trena infinita,

Distância um pouquinho assim!


É cousa que não se entende,

Se Jesus pregou a união;

Dar destinos diferentes

Aos gêmeos do coração!


Se Deus é todo bondade,

- Segundo os crentes referem -

Por que é que fez a distância,

Separando os que se querem?



Fonte: Blau, Zeca. Horas do meu ocaso. Edição Sulina, 1968, p. 53

Bendizendo (Zeca Blau)

 

Este silêncio é prêmio que eu bendigo,

Quanta ventura nesta solidão!

Não ouço nunca neste teto amigo

A aspereza brutal do sempre – não!


Eu alongo meus passos neste chão,

Com essa imponência de um marquês antigo.

A mudez que me cerca é bendição

E esse é o manto imperial em que me abrigo.


Leio os meus livros. Como são diversos!

meu Eça de Queiroz das obras primas!

Bilac e Humberto, que primor de versos!


Esse recanto é todo um Eldorado,

Onde ao embalo musical das rimas

Eu esqueço as agruras do passado.


Fonte: Blau, Zeca. Horas do meu ocaso. Edição Sulina, 1968, p. 56

Suave Presença (Zeca Blau)

 

Vi-te. Falei-te. E, só, então, contigo

É que eu concebo inéditos momentos.

Vão-se-me as mágoas e aborrecimentos

E até a tristeza dissipar consigo.


Tua ternura é o meu mais doce abrigo.

És a moldura dos meus pensamentos.

Ah! como os dias sem ti se tornam lentos

Sem o quarenta e seis, meu teto amigo!


Longe e constantemente ainda te vejo

Ouvindo a meiga musical balada

Da surdina discreta do teu beijo.


E o meu mundo interior todo se agita

Na ilusão de sentir-te recostada

No velho peito que por ti palpita.



Fonte: Blau, Zeca. Horas do meu ocaso. Edição Sulina, 1968, p. 95

No Parque (Zeca Blau)


Silêncio e solidão. Mas que tumulto

De relembranças minha mente invade!

- Centralizando anseios o teu vulto

Na divina moldura da saudade…


Deus te mandou para trazer-me o indulto

De mágoa e penas. E saber quem há de,

Se, embora tarde, vieste a ser o culto

De um pouco ao menos de felicidade!


Ando no parque e, só, então, me atrevo

Dizer teu nome, como se rezasse,

Nesse instante de sonho e doce enlevo…


Retardo os passos… Entreparo. Quedo.

Como, querida, se contigo andasse

Nos tapetes de sombra do arvoredo!



Fonte: Blau, Zeca. Horas do meu ocaso. Edição Sulina, 1968, p. 96

terça-feira, 13 de junho de 2017

Alguns ditados que sei - Poema (José de Freitas Saratt (Ramão))



Dá licença patrão
Pra meu cantar meio rude
Charla bagual e bem certa
O formato não me aperta
E o povão compreende tudo.

Como disse Martin Fierro
Que foi cantor dos buenos
A “Lei” é uma artimanha
Igual a teia de aranha
Que só enreda os pequenos.

Canto do modo que posso
Rima fraca falta um resto
Igual pro pobre o pucheiro
Quem nasce com o dinheiro
Tem razões pra ser honesto.

Na carteada do amor
É bom guardar segredo
Pra não passar por chambão
Que ave de arribação
Deixa o ninho mais cedo.

Como e bebo com medida
Pra não ficar bichoco
Que a gula os fracos cevam
E as correntes fortes levam
Todo o peixe dorminhoco.

O canto que tem franqueza
Sempre traduz a verdade
O meu verso é meio tosco
Por fora sou meio osco
Mas por dentro sou claridade.

Todo o gaúcho guapo
Fita o parceiro de frente
Com um touro se assemelha
Guaipeca que pega ovelha
Traz lã no vão do dente.

Conheço o bom cantor
Dentro do tema que canta
Se é décor ou repente
O verso é como semente
Que germina e se levanta.

Conheço fogo de palha
E também chuva de manga
Conheço o fraco e o forte
E o tarquino de bom porte
Que aguenta o peso da canga.

Não trago gana de mestre
Porque é curto meu saber
E nada estou ensinando
O jumento morre orneando
E o poeta morre, pra nascer. 

Repontes de Experiências - Poema (José de Freitas Saratt “Ramão”)


Pedaço de chão nativo
Onde o cuéra nasceu
Nessa gleba cresceu
E foi tomando postura
Na campeira estrutura
Praticou, ganhou experiência
Na genuína vivência
Teve a xucra formatura.

Aprendeu com os vaqueanos
Longe dos bancos colegiais
A lidar com os animais
Nesse campeiro labor
Ficou conhecedor
Só no volteio da mangueira
A gueixa que é coiceira
O chimbo velhaqueador.

A conhecer pelo berro
O boi do seu arado
O mocho e o aspado
O relincho do seu tordilho
A idade do novilho
A do cavalo num repente
Olhando a cova do dente
E o potro pelo curnilho.

Notou que o pingo mestiço
Tem afeição pelo trato
Ovino de queixo chato
Tem oito anos pra frente
É bom guardar na mente
O que o vaqueano aconselha
Guaipeca que pega ovelha
Se examina nos dentes.

Lua nova não é boa
Pra enfrenar bagual
Fica babão em geral
Com propensão pra estreleiro
Peão asseado lava o baixeiro
Pra não pisar o redomão
Não se larga matungo gavião
Com os mansos do potreiro.

Ginete que é ginete
Monta em potro descansado
E já tira aguçado
Nos pingüelos abrindo rombos
Salta de vereda no lombo
Não se para aos socalões
Cansa o potro dando tirões
De medo de levar tombo.

Todo o bom castrador
Que castra com perícia
Se conhece por notícia
Sem mesmo andar indagando
Sempre tem alguém falando
Como esse não tem outro
Esse castra potro
Opera e larga pastando.

Sabe observar um enxame
Na entrada do cortiço
Pelo fumegar dos bichos
Escuta e ouve o rumor
Não sendo observador
Essas coisas não indaga
Só fura abelha magra
Não serve pra melador.

Somente no amor
Não se diga entendido
Não se dê pra convencido
Com as coisas do coração
Saiba aguentar o tirão
De um olhar de mormaço
Que quando vê cruzados em maço
Finge carinho e afeição.

Se tu gostar de visitas
Ata teu cusco brabo
E corte bem curto o rabo
Das ovelhas pra recria
Desde novo eu queria
Toda a lida aprender
E hoje me “gusta” escrever
Coisas que tem serventia.

Fazenda Santo Inácio - Poema ( José “Ramão” de Freitas Saratt)


Quem não conhece, ó gaúcho
Campos mesmo de luxo
Que nem macega têm
Faço estes versos sem medo
Em homenagem ao gaúcho Sezefredo
Dos campos do Itaroquém

Sua Fazenda tinha vida
Hoje como despedida
Abandonada, sem ninguém...
O campo grande não existe
Tudo é potreiro triste
Até macega hoje tem

Quem passa no corredor
Não sabe explicar quanta dor
Que sente no coração...
Ao olhar a velha Fazenda
Onde moravam muitos parentes
Bonitos como o verão

Minha tristeza é tão grande
E a dor em mim se expande
Que nem posso escrever mais...
Fazenda velha amiga
Que já é bastante antiga
E o dono não existe mais

A casa branca coberta de zinco
Passo noites afinco
Não existe mais solidão
Galpões e parapeitos
Com capricho foram feitos
Por ordem do Gauchão

Se o patrão velho de cima
Me desse o poder da rima
Pra dizer o que sinto...
Sinto um nó na garganta
Meus olhos não se levantam
É vontade de chorar, não minto

Casa velha hoje tapera
Não sei o que te espera
Pois a vida é mesmo má...
Conserva-te assim erguida
Aguenta os golpes da vida
Às vezes passo por lá...

Nas noites claras de lua
Quando a saudade acentua
Tua imagem resplandece
Parece chorar de tristeza
Maldizendo a natureza
Do teu dono não esquece

Do zinco da casa
Como também do galpão
Caem gotas de orvalho...
São lágrimas de choros tantos
Conserva-se sempre em prantos
Sua alma já é retalho.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Estrada Fora (Zeca Blau)


A mão trigueira deste índio
que por vezes te castiga,
é a mesma que ora te amima,
moldando firme estas pilchas
nos corredores da rima.

Sei que maldizem, meu flete,
domado por estes pulsos,
o teu mau trote, porém,
num arco de pata e rédea
não se olha o trote que tem!

Tilinta no estribo a espora,
meu tostado atira o freio,
atira o freio e relincha,
porque, como eu, vai pensando
no abrigo daquela quincha...

Sobre a tábua do pescoço
passo o rebenque leviano
que é de cacho de coqueiro,
sonhando com uma guerrilha
que terminou em entrevero.

Distraído, puo o naco
que arranca e por certo estranha
o gesto do seu senhor,
porque ele tem mais que a gente
consciência do seu valor.

Sargento é o nome que tem.
Na verdade o posto é baixo,
se eu fosse, amigo, afinal,
graduar no posto a bondade
meu flete era marechal!

Não te graduo no posto
mas te promovem na fama!
que entre os bons teu nome prima!
E eu dia a dia te dou
mais altos galões de estima.
(Zeca Blau, Poncho e Pala, Sulina, 1966)

A um Reúno (Zeca Blau)


          Quadro crioulo
Zeca Blau
Corredor, Carovi. No canhadão sombrio
a lagoa. Aguapé à flor da água parada;
e à beira, magro e só, todo em sestros de frio,
eis-te à sombra alongando a aspereza da ossada.

Lembrarás, sem querência, o esplendor que fugiu!
quando, outrora, bagual, repontando a manada
despertavas, marcial, em rebeliões, bravio,
sob o evoé de um relincho os rincões da invernada.

Mais tarde, em redomão, três ginetes de fama
não puderam contigo! e os venceste pachola,
pondo-os... mais de uma vez humilhados na grama.

Pobre tordilho velho! E hoje, na estrada, a esmo,
velho herói sem legenda infamado na esmola,
duvidando talvez que ainda sejas tu mesmo!
(Zeca Blau, Poncho e Pala, Sulina, 1966)

Conselhos ao meu filho (Zeca Blau)


Cubra-te a benção de Deus!
estes conselhos, guri,
são mais do povo que meus,
foi com o povo, que aprendi.

Há muito tempo que eu sondo:
Laranjeira carregada,
assim na beira da estrada,
é azeda ou tem marimbondo!

O homem, - não esquecerás –
tenho aqui neste resumo:
é como rolo de fumo,
tem voltas boas e más.

É bom não ter expansões
que vão esporear as de outros!
E antes de domar teus potros,
quebra o queixo das paixões!

Nunca apartes sem sinuelo,
- É o que a experiência me ensina. –
Não opines de atropelo,
nem julgues de relancina.

A estrada por que tu passas,
segue sem alterações,
pois que, - sete profissões:
quarenta e nove desgraças.

Quem trabalha, mostra calo.
Amigo? é artigo vasqueiro!
Tendo, preza-o em primeiro
e em segundo o teu cavalo.

É útil criar um cão,
para que se julgue o amigo.
Que um é o perigo fiel,
o outro é fiel no perigo...

Procura ter a alma sã.
Teus feitos? Que outros contem.
E, sempre guri, o teu ontem
seja espelho do amanhã!

Se envelheceres solteiro
e pensares num retôvo,
lembra o ditado brejeiro:
- Peito velho – emplasto novo...

Salvar-te, meu filho, do erro,
e dos volcaos das muchachas,
mais pode o livro de FIERRO
nos conselhos de VIZCACHA.

Guarda segredos, meu filho,
Como o guardião BORORÉ.
- Laranjeira pra ser doce,
tem que ter sombra no pé...

Fala franco, pensa muito,
tendo em vista o mandamento:
- Perdulário de palavras,
Pedinte de pensamento!

O velho, já sem aprumo,
da lonca da sua existência,
tira os tentos da experiência
para a trança do teu rumo.
(Zeca Blau, Poncho e Pala, Sulina, 1966)

Estradeando (Zeca Blau)


No trote solto de viajeiro, o douradilho,
Entre perfis patriarcais de Estância,
Desenrodilha horizontes
Pra tecer a trama fina, cor de cinza, das distâncias...

Com o fio abstrato das léguas estiradas,
Na almofada verde-lindo das coxilhas,
As patas torneaditas e aparadas
Esmagando a pluma frágil das flechilhas
Brincam musicalmente como bilros.

Os vagalumes que se cruzam extraviados
Iluminando as lombas,
São como inquietos alfinetes de ouro
Marcando os arabescos na almofada...

E os cascos do flete no chão duro
Têm um rumor de bordão.
E eu vou cantando rimas crioulas da querência
Como se me acompanhasse um violão.
(Zeca Blau, Poncho e Pala, Sulina, 1966)

Em Louvor Ao Meu Zaino (Zeca Blau)


(Zeca Blau, painéis crioulos, Poncho e Pala, Edição Sulina, 1966)

És um bárbaro poema, onde a prata da rima
fulge. E à tua altivez, glória! E à tua bravura!
que arde e floresce mais se, firme e esbelto, em cima,
convido-te a romper na carreira a planura.

Rude e crioulo sangue as tuas veias anima!
Quando no freio eu te alço à agachada segura,
dás-me – e galgas assim o alto apogeu da estima –
nos trabalhos de campo, arroubos de loucura.

Contigo a seleção foi pródiga e foi sábia:
Pôs-te no olhar afeito ao prélio dos rodeios,
moça, a flor dos clarões de ardentias da Arábia.

És sem rival na rédea e perfeito na estampa!
e em ti se concentrou em tumultos e anseios,
virgem na rebeldia, a alma antiga do pampa.

Umbu Solito - Poema (Zeca Blau)


No lombo manso da coxilha,
ao sol de outubro fulvo e quente,
lembra o perfil de um valente
guerrilheiro farroupilha.

É o último sobrevivente
sobre o campo da guerrilha!

Porém, se o vento minuano
Arrufa as ramas parelhas,
elas parecem gadelhas
de um menestrel campechano.

... Hay nos galhos araganos
como um ringir de cravelhas.

Aos gritos de ôpa... e oi... oi...
vi flanquar-lhe hoje uma tropa
que envultou nele e se foi,
vendo lá atrás a escura copa,

Penso num peão de tropa,
que ficou campeando boi.

Nos poentes rubros, mui concho,
mescla-le um sangue espanhol,
e, barulhento, a tiracol
atira a volta do poncho.

Bate-le um resto de sol
pra ser baeta de poncho.

Na tarde quieta, à distância,
dominando o latifúndio,
soberbo, sem petulância,
num tranquito vagabundo,

parece o dono da Estância
que vem do Posto-do-Fundo.

Nas noites mornas de outono,
pra um rumo que compromete,
é um gauchito sem dono
ao tranco largo do flete,

Tosado com luxo e entono,
de firulete e topete.

Se o vento sopra mansinho
e inclina um galho pra o chão,
é um domador que anda sozinho
repassando o redomão

É esse o gesto gauchão
de dá um tapa no focinho.

Mas, se o leste, bravo, o arranca
da quietude em que horas passa,
parece que sai pela anca
e enrola o poncho no braço.

Peleador velho de raça,
num duelo de arma branca...! 
(Zeca Blau, Poncho e Pala, Sulina, 1966)

Versos dum Cruzador (Zeca Blau)



  
Ao vento, a ramagem frouxa
do cinamomo da frente
acena, alegre, pra gente
como às ordens da morocha.

que, de saia alva e anilada
clareia, longe, na porta,
como garça ensimesmada
à orilha duma água morta.

Só, no mais, do meu tostado
boleio a rédea e, despácio,
chego mais teso e entonado
do que governo em palácio.

Começa a recriminar:
- Por que foi tanta a demora? –
e eu sem escusas pra dar,
giro a roseta da espora...
..................................................
Desmanchando o olhar zangado
seu lábio pra o meu se estende,
e o beijo dela rescende
manjericão machucado...
(Zeca Blau, Poncho e Pala, Sulina, 1966)

Serão Galponeiro - Poema (Zeca Blau)



Onde foi casa é tapera.
As trovas são as guanxumas
Que crescem uma por uma
Cá dentro desta tapera.

Noite de chuva. Solito,
lembro esquecidas pinguanchas...
Cordeonas... Trovas... Guitarras
nas cabeceiras das canchas.

E vêm chinocas passando
às pontas, barbaridade!
do brete do esquecimento
pra tarca desta saudade.

Pego a cordeona e floreio
uma toadita qualquer;
e em voz baixa canto uns versos
sobre o cavalo e a mulher.

Os dedos em contradança
pelo correr do teclado,
têm mais requebros e momos
do que negro namorado.

Meus dedos estão fogosos
e o verso pronto também.
Como changueiro adestrado,
de qualquer modo sai bem.

A trova do missioneiro
por gosto no mais cantando,
é faca marca coqueiro:
sai da bainha cortando.

Na gaita é que esqueço as dores
que, em pouco tempo, um pachola
alquebram, deixando o rosto
que nem retôvo de bola...

E lembro o que, com direito,
goza todo bom gaúcho,
onde ele encerra a alegria,
orgulho, prazer e luxo:

Conhecer , não sendo lerdo,
nem manco para um churrasco,
no escuro a vaca mais gorda
pelo barulho dos cascos.

Tomar o primeiro mate,
porém, sem nunca cevá-lo;
cortar o melhor pedaço;
montar o melhor cavalo.

Com boas pilchas campeiras,
e, assim, na flor da tropilha,
com aprumo empurrar o laço
sem misérias de rodilhas;

Num toso ser bacharel,
num quatro galhos: doutor,
governo destas chinocas
pelas províncias do amor.

Paro, que o tempo as esporas
no relógio chega e esbarra
bem em frente à meia-noite,
- égua madrinha das horas.
(Zeca Blau – Poncho e Pala, Ed. Sulina 1966)

Dia de Chuva - Poema (Zeca Blau)



Dia de chuva no campo.
De vez em quando um relampo
racha o céu de cima a baixo.

Lindo o dia. Dá cobiça
Pra um solteirito ir ao facho.
Puxo o baio com preguiça
com carinho escovo e rasco.

Olho o tempo. Enseio o pingo.
Miro uma coisa no casco.
Faz de conta que é domingo,
sou solteiro, quebro o cacho.

Chuvita, horas vadias,
quero ouvir tranquilo e ancho,
junto da flor mais sestrosa
tuas habaneiras macias,
sobre a coberta dum rancho.

Isso fechando um crioulito,
que deixa a mão amarela,
mas feito, assim, despacito,
em palha branca e cheirosa
cortada pela mão dela.

E penso nela com pena,
que me esperando não sai.
Cevado por mão morena
tem outro sabor o amargo!
E eu sem demora me largo,
cantando um larailailai.

Mas a chuva mansa e fina
que era, agora em jorros rola,
como uns cabelos de china,
que a gente às vez desenrola...

Já tenho preguiça de ir.
E antes, quantos rios a nado!
Fico assim meio embretado
entre ficar e seguir.

- Então? Pagou vale à chuva? –
(alguém sorrindo me zomba),
deixo a pergunta zunir,
e pélo o baio, anca de viúva,
e largo peito de pomba.

Não, patrício, sou vivente
quando quero perco o tino
não tenho medo de enchente,
sou laço de boi brasino,
sou tropa de marca quente!

Já vai pendendo pra tarde
poucas braças tem o sol,
que não se vê, mas calculo,
porque a chuva o céu encarde,
Trazem milho do paiol
pra os fletes deste gandulo.

E hoje, com mais ganância,
quebram maiz de sustância,
encolhiditos de frio;
soltam fumaça do lombo.
E este, no mais, o tombo
hoje com a chuva e com o frio.

No galpão há movimento,
cada um tem seu labor:
Um aquenta uma chaleira;
aquele, desquina um tento;
outro trança uma soiteira
e eu corto esse maneador...
Fonte: Poncho e Pala, Ed. Sulina, 1966.

Sete sílabas de terra vermelha (Paulo Bentancur)

  Montado em sete sílabas, Jayme Caetano Braun (1994 – 1999) não descuida um verso sequer o generoso horizonte da lírica repentista. O seu ...