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domingo, 23 de maio de 2021

Cenair Maicá (João Vicente Ribas/Jornal do Comércio)

 

A vida e obra de Cenair Maicá, um dos troncos da música missioneira


Escutando Argentino Luna e Tránsito Cocomarola no toca-fitas, Cenair Maicá percorria com seu Chevette a rodovia RS 536 no Noroeste do Estado. Essa estrada é a que leva os viajantes da BR 285 até São Miguel das Missões, onde o cantor e compositor viveu nos anos 1970 e administrou o restaurante que recebia os turistas nas ruínas das reduções jesuítico-guaranis.


Agora, esse caminho possui um novo nome: "Rodovia Cenair Maicá". Pois, no ano passado, a Assembleia Legislativa aprovou um projeto de lei de autoria do deputado e músico Luiz Marenco, que propôs a homenagem.


É também na cidade de São Miguel que outro tributo está sendo preparado. Já está em pé desde fevereiro uma estátua de Cenair Maicá, de quatro metros de altura e quatro toneladas de concreto armado. Devido à pandemia de Covid-19, a festa de inauguração está adiada por tempo indeterminado, bem como a conclusão da praça no entorno.


Essa homenagem contou com fãs do missioneiro que realizaram uma campanha de arrecadação e o apoio da prefeitura municipal. A escultura é obra de Vinicius Ribeiro, autor de monumentos a outros artistas, como Jayme Caetano Braun, Mano Lima e Noel Guarany.


Desde que faleceu em 1989, Cenair Maicá se consagrou em uma série de reverências nos municípios em que viveu. Na terra natal, Tucunduva, e em Santo Ângelo, logo batizaram travessas com seu nome. A comunidade de São Luiz Gonzaga inaugurou um palco e os santo-angelenses instalaram um busto do cantor, confeccionado por Tadeu Martins, e um mausoléu no cemitério onde estão seus restos mortais.


Sua presença também se impôs postumamente nos palcos e fonogramas. Além do relançamento de alguns LPs em formato CD, em 2004, filhos, irmãos e sobrinhos reuniram-se e gravaram um primeiro álbum interpretando músicas de Cenair para marcar 15 anos de saudade. Uma década depois, gravaram outro.


Neste meio tempo, Patrício Maicá lançou um disco tributo ao pai, contendo uma canção inédita, Potranca tordilha, guardada pelo violonista Paulo Guerra, que o acompanhou nos últimos anos de vida em Soledade. O músico também esteve envolvido em uma série de shows realizados na cidade em homenagem ao colega. "Cenair era fantástico, muita simplicidade, mas muito conhecimento, um verdadeiro mestre", recorda.


As composições de Cenair Maicá são pedras fundamentais do repertório missioneiro.  Trinta anos depois, seguem ganhando regravações, a exemplo das que Ângelo Franco registrou para Balaio, lança e taquara e Mágoas de posteiro. "Todo missioneiro da minha geração já nasceu ouvindo, já nasceu fã do Cenair Maicá", afirma.


Mas de onde vem tanta reverência? Para compreender um pouco desta importância, buscamos nesta reportagem recuperar arquivos e depoimentos que ajudam a pontuar a trajetória de Cenair Maicá. Uma das principais fontes está na biografia escrita por Valter Portalete, que desvenda detalhes de sua vida e de sua morte, em 1989, por complicações nos rins, após uma série de problemas que teve desde a juventude, quando foi baleado.


Conversando com o filho Patrício, sabemos que seu pai era uma pessoa muito calma, embora artisticamente inquieto. "Pai estava à frente do tempo dele", afirma. E confessa que tem muita saudade: "Eu queria ver o pai vivo hoje, ver sobre o que estaria escrevendo". Nos últimos anos, Patrício tem se dedicado ao legado musical de Cenair Maicá, pois percebe que há reconhecimento. Por isso, emociona-se ao cantarolar uma das canções: "Mas se algum dia meu cantar for sufocado/ Por negra morte ou por capricho do destino/ Há de ficar meu canto xucro perpetuado/ No assobio de alguma boca de menino".


Já o historiador Tau Golin, amigo de diversas aventuras, define-o como um baita parceiro: "Gostava de encontros, de cantar no meio das pessoas". Ao mesmo tempo, lembra que Cenair era introspectivo, falava só o necessário. "Lá fora, encilhava um cavalo e saía sozinho pelo campo. Ficava contemplativo", recorda.


Além dos depoimentos de quem conviveu com o músico, acessamos arquivos que revelam sua própria voz. Um grande achado foi uma entrevista em áudio do acervo do Museu Antropológico Diretor Pestana.


Outro documento significativo foi uma edição da revista Tarca, em que Cenair conta histórias de quando foi participar de um show ao lado de nomes como Chico Buarque e Milton Nascimento, mas a censura acabou cancelando. Na revista, fala também das origens e do reconhecimento da música missioneira, em uma época em que predominavam os estilos de baile serrano e sertanejo.


Por isso, acreditava ter criado um novo estilo, ao lado de Noel Guarany, Pedro Ortaça, Chaloy Jara e Jayme Caetano Braun. "Acho que o músico, além de cantar as coisas bonitas, a alegria, tem que ser um porta-voz do povo", sustentava.


Quando se pesquisa no Google o nome Cenair Maicá, chega-se a um conjunto de dados básicos. Na Wikipédia, lê-se que "foi um cantor e instrumentista brasileiro de música nativista, conhecido por cantar a natureza e os índios". Nos resultados da busca, enumeram-se seus três maiores sucessos: Canto dos Livres, Baile do Sapucay e Rio de minha infância. Para completar, a rede digital lista datas e locais de nascimento (3 de maio de 1947, Tucunduva) e falecimento (2 de janeiro de 1989, Porto Alegre).


Mas logo que se começa a pesquisar a fundo o ícone da música missioneira Cenair Maicá, por outras fontes menos informatizadas, notam-se incongruências. Por exemplo, quando se lê o livro Terra e cidadania na obra de Cenair Maicá (FuRi, 2012), de Valter Portalete, pode-se corrigir um equívoco repetido na internet a respeito de sua discografia. As fontes do ciberespaço omitem sua primeira gravação, o compacto duplo Belezas missioneiras, lançado em 1970 pelo selo Solar Discos. Em seu lugar, destacam o compacto simples que gravou acompanhando Noel Guarany, no mesmo ano, chamado Filosofia de gaudério.


Quando acessamos as plataformas de streaming, descobrimos que apenas Meu canto (1985) e Troncos Missioneiros (1989) estão disponíveis no Spotify e no Deezer. É preciso acessar o YouTube para conseguir ouvir outros álbuns, mas a discografia não está acessível de forma completa. Um dos vídeos mais acessados, com quase 300 mil visualizações, é o de uma apresentação no programa Oigalê Tchê, da RBS TV de Chapecó, em que canta ao lado de Chaloy Jara e Jayme Caetano Braun, no ano de 1984.


Ainda insistindo na pesquisa via internet, no site Letras.mus.br, encontramos na página destinada a Cenair Maicá suas 20 mais tocadas. Compilando os versos digitalizados, foi possível compor uma nuvem de palavras com o aplicativo Wordart.com. Desta forma concluímos que a palavra mais recorrente é "rio", seguida de "terra", "milonga" e "amor". Esse resultado oferecido pela tecnologia provavelmente não surpreende os fãs. Afinal, ainda em vida, ficou conhecido no popular como Cantor das Águas.


Cenair Maicá elaborava teses: "Na verdade, o nativismo nasceu com Sepé Tiaraju nas Missões. Foi o primeiro nativista registrado na história. Um cara que se ergueu e morreu pela terra dele, pelas coisas dele, isso é a base do nativismo".


Afirmações prenhes de posicionamento como essa recheiam a edição número 5 da revista Tarca, publicada em setembro de 1984. Nela, uma entrevista de três páginas. Entre anúncios da CRT e JH Santos, o jornalista Adalberto Jardim afirmava que Cenair Maicá era uma das vozes mais respeitadas do meio artístico gaúcho. "Respeito que se impôs pela lucidez com que Maicá tem interpretado os sentimentos do homem simples, que não precisa se utilizar da linguagem rebuscada - e às vezes enganosa - para exercer um agudo senso crítico", escreveu.


Na revista, revela-se que o cantor estava "temporariamente afastado da atividade artística, por causa da saúde abalada". Havia seis meses enfrentava insuficiência renal, fazendo hemodiálise e aguardando para realizar um transplante de rim. Mas já projetava a volta aos palcos.


Pode-se observar na fala do músico críticas à falta de diversidade nos festivais nativistas e aos limites do movimento tradicionalista, embora reconheça o papel importante na preservação de raízes. Sobram reprovações também à "alienação bárbara e americanista" do Rock in Rio, e a Teixeirinha: "Distorceu que o gaúcho é fanfarrão, que mata 50, que dá tiro, que é agressivo". Por outro lado, fala de projetos, como a fundação de um centro cultural nativista em São Miguel e a criação de uma universidade das Missões.

O Museu Antropológico Diretor Pestana, em Ijuí, guarda em seu acervo uma entrevista histórica, gravada em fita em 1982. A convite de pesquisadores, conversaram por mais de duas horas Cenair Maicá, Chaloy Jara, Dedé Cunha, Noel Guarany e Pedro Ortaça. Neste arquivo inédito, os músicos missioneiros comentam sobre a cena musical da época, avaliando a conduta dos CTGs e das gravadoras. Fazem comparações com a música folclórica argentina, que recebia subsídios governamentais para pesquisa e difusão. Dão aula sobre a cultura e a história das Missões, destacando o elo latino-americano, a origem do chamamé e a presença do bandoneon.


Com volume e firmeza na voz, Cenair intervém na conversa em diversos momentos, inclusive discordando de Noel Guarany em alguns pontos. Adverte que não se considera pesquisador, mas que canta o que aprendeu na infância. Fala da "infiltração" da música estrangeira, mais especificamente a norte-americana, que teria despertado a adesão dos músicos da região, por questão de sobrevivência. "Nós, os poucos idealistas que sobraram, resolvemos até trabalhar em outros empregos, mas conservamos a bela música que aprendemos", afirma.


Um dos assuntos mais abordados na conversa foram os festivais, dos quais participou muito mais como contratado para shows do que concorrendo. "Quem pode julgar a arte é o povo mesmo, e não meia dúzia de pessoas que se dizem intelectuais da música gaúcha", critica. Já quando perguntado sobre a diferença entre nativismo e sertanejo, Cenair destaca o romantismo. Observa que não há problema em cantar o amor, mas que o sertanejo cantava o amor "para fazer dinheiro". E com isso não concordava.


A primeira posição que aprendeu no violão foi dó maior. Depois aprendeu gaita. Aos 10 anos já tocava e cantava nas rádios em Santa Rosa, em dupla com o irmão Adelque. Estes detalhes estão presentes na entrevista concedida à equipe do museu de Ijuí. Nela, também salienta que todos os seus oito irmãos tinham vocação musical (após sua morte, o que mais prosperou foi Valdomiro Maicá, autor de mais de 20 discos). Recuperando sua árvore genealógica, sabemos que seus três filhos mais velhos, Potiguara, Patrício e Miguel Caraí, são do casamento com Maria Geceli. Já Catira e Gabriel, que morreu aos 21 anos de leucemia, são filhos com Issara Hactz.


Cenair fazia questão de contar que ainda criança foi morar em Misiones, na Argentina, pois seu pai era balseiro e se instalou na região de fronteira. Essa experiência de vida teria marcado sua obra. Logo no primeiro álbum, Rio de minha infância (1978), convidou para acompanhá-lo dois grandes músicos argentinos: Chaloy Jara e Martín Coplas.


Seu biógrafo Valter Portalete recupera fragmentos importantes de sua importância no mercado musical. Em 1970, Cenair Maicá conheceu o empresário Arlindo Gagliotto, que lhe propôs a representação das gravadoras RDB, Solar Discos e Pampa Discos. Uma das primeiras duplas descobertas por Cenair foram as Gauchinhas Missioneiras. Diversificando sua fonte de renda, nesta época também foi representante das máquinas de escrever Olivetti.


Uma segunda edição ampliada da biografia de Cenair Maicá está sendo preparada pelo autor para este ano. O livro inclui histórias das parcerias com José Mendes, com quem tocou bailes, e com Noel Guarany, com quem venceu um festival em Santo Tomé. A partir daí passou a pesquisar e a compor sobre as Missões. Vivendo em São Miguel, também se aproximou de Pedro Ortaça. Seu filho Patrício relata que lá o pai "recebia os indígenas e fazia registros, como um antropólogo". Paralelamente, Cenair Maicá apresentava programas nas rádios Repórter de Ijuí e Sepé Tiaraju de Santo Ângelo.


Sua vida de radialista teria continuidade nos anos 1980, quando ingressou na Liberdade FM em Viamão, a convite do jornalista Paulo Mendonça. "Cenair pode ser considerado um dos compositores mais importantes de todos os tempos no Rio Grande do Sul. Suas canções possuem signos terrunhos e leveza universal", avalia.


Um dos momentos marcantes de sua trajetória se deu quando a censura do regime militar impediu que Cenair Maicá cantasse uma canção que acabaria sendo um dos seus maiores sucessos: Canto dos Livres. Aquela que possui os versos: "Quisera um dia cantar com o povo/ Um canto simples de amor e verdade/ Que não falasse em misérias nem guerras/ Nem precisasse clamar liberdade".


Hoje, para revelar as memórias daqueles tempos, é possível pesquisar no Arquivo Nacional. Nele encontram-se documentos processados na Divisão de Censura de Diversões Públicas. Ao inserir as palavras-chave "Cenair Maicá" e "Canto dos Livres" no mecanismo de busca digital do arquivo, localizam-se apenas letras aprovadas pelos censores para gravação em disco e apresentação em festivais. Incluída Canto dos Livres. Então, quando teria ocorrido a censura? Em entrevista à revista Tarca, Cenair comenta o episódio: "Fomos pra São Paulo pra fazer o lançamento do meu novo disco e nos barraram lá. Trancaram o disco, dois meses censurado".


Em resenha do jornal Zero Hora de 1983, o jornalista Juarez Fonseca relata que a canção "teve execução em rádio proibida" e que Cenair estava aguardando a ação que a gravadora WEA havia promovido para liberá-la. Já Tau Golin, que organizava shows dos missioneiros naquela época em Santa Maria, recorda que Canto dos Livres tinha que escolher onde ia cantar. "Havia dedos-duros e pressão por vias não-oficiais, por isso Cenair foi realmente tocar ela em público só no período de abertura, antes não", lembra.


Cenair Maicá foi um dos Troncos Missioneiros da música e poesia popular do Rio Grande do Sul no século XX. Ao lado de Noel Guarany, Jayme Caetano Braun e Pedro Ortaça (único ainda vivo), cantou a natureza, as lutas do homem do campo, a história e cultura da região das Missões. O tema já foi destaque nas reportagens culturais do Jornal do Comércio. O caderno Viver publicou anteriormente as biografias de Braun, Ortaça e Guarany.


Os Troncos Missioneiros ofereceram uma via estética alternativa na cultura gaúcha. Iuri Daniel Barbosa, músico e mestre em Geografia (UFRGS), comenta que o grupo buscou abrir um outro mercado que não era nem de festival nem de baile. E obtiveram reconhecimento da crítica, inclusive do Centro do País. Barbosa define o estilo inaugurado por eles como Música Regional Missioneira, para diferenciá-la da música missioneira histórica. Até hoje, Pedro Ortaça, Jorge Guedes, entre outros, seguem nesta linha.


Barbosa destaca que Cenair era multi-instrumentista e analisa sua performance vocal: "Era sensível, um cantar mais calmo, menos empostação". Também avalia os arranjos com mais elementos harmônicos, que se aproximam de uma música mais urbana. Esta aproximação se dá também na gravação de canções de Jerônimo Jardim e Raul Ellwanger, que foi produtor do disco Caminhos (1980).


Atualmente, sua escola influencia novas gerações. Ângelo Franco, por exemplo, conviveu com Cenair Maicá. Suas famílias eram amigas e tocavam Baile do Sapucay em São Luiz Gonzaga. "Tenho muita afinidade com a obra do Cenair, carinho por esta história indígena, este respeito, este quase remorso, entre aspas, que a gente carrega pelo genocídio indígena", revela.


Do ponto de vista estético, Franco pegou sua influência de cantar em espanhol, e, na questão política, de "fazer um protesto exortativo, não impositivo". Por fim, observa que Cenair ajudou a entender que há uma música que está presente nos dois lados do rio Uruguai e além.


Afora a vivência fronteiriça e com indígenas, Cenair Maicá teve vivência campeira. Frequentou estâncias próximas a Santa Maria, junto a Tau Golin. Com isto, o historiador acredita que o amigo tentava resolver o conflito existencial entre o gaúcho e o indígena, que gera uma inquietação estética entre latifúndio privatizado oligárquico e a organização coletiva e familiar missioneira. Mesmo gostando da lida campeira, teria sido responsável por tirar o "absolutismo do imaginário do campo" na música gaúcha e trazer os ribeirinhos. "Missioneiros como o Cenair nos colocaram na América Latina, fizeram com que nós tivéssemos esta fronteiridade", pontua.



Fonte: https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/especiais/reportagem_cultural/2021/05/791032-a-vida-e-obra-de-cenair-maica-um-dos-troncos-da-musica-missioneira.html

Publicada em 21h23min, 06/05/2021.

Acesso 23/05/2021

Crédito Foto: Assis Hoffmann, Capa LP Canto dos Livres, RODEIO, BR 79005, BERRANTE, Fabricado e distribuído por EMI-ODEON, janeiro/1983

domingo, 8 de julho de 2018

Jayme Caetano Braun - Payador Missioneiro (Documentário Karin Schmidt - 2016)




Com duração de 18 minutos, o documentário retrata um pouco da vida, da obra e do legado de Jayme Caetano Braun, com imagens inéditas dos lugares onde ele viveu grande parte de sua infância e juventude. Depoimentos exclusivos de Pedro Ortaça, Glênio Fagundes, Juca Ramos, Gelsa Ramos e Vinícius Ribeiro enaltecem com maestria, veracidade e encantamento, a missão do nosso payador maior.

Reconhecido internacionalmente, Jayme Caetano Braun foi poeta, declamador e payador (aquele que faz versos de improviso opinando sobre algo). Simplicidade e ternura definem o sentimento que Jayme trazia na alma, na voz, no olhar e na vida, sempre exaltando em suas payadas o valor da cultura terrunha da região das Missões e do Rio Grande do Sul.

Senti a presença do Jayme em cada verso que ouvi, em cada palavra das pessoas que entrevistei, em cada sorriso de quem trabalhou comigo, em cada dificuldade que aparecia e eu encontrava forças pra não desistir. Acima de tudo, senti a presença do Jayme em cada batida do meu coração, na medida em que eu conhecia um pouco mais de sua história tão grandiosa e ao mesmo tempo tão simples. Compreendi, na mais pura essência, o que ele quis dizer em um de seus versos: a vida com poesia fica muito mais bonita!

Para quem, assim como eu, tem admiração pelo nosso payador missioneiro, não deixe de conhecer o Complexo Turístico Cultural Jayme Caetano Braun, em São Luiz Gonzaga. Será uma oportunidade de ver bem de pertinho o monumento, utensílios que pertenceram ao Jayme, além da Venda do Bonifácio com produtos típicos artesanais. Também poderá assistir o documentário no espaço do Complexo, que sempre é exibido para todos os visitantes.

Reitero meus agradecimentos a todos que tornaram possível a concretização deste trabalho, produzido em 2016, em especial, Sandra Ferreira e Vinicius Ribeiro, que estiveram ao meu lado durante os oito meses de produção. Cada um dos nomes que aparece nesta obra teve participação determinante, pois este documentário foi feito por muitas mãos e muitos corações.

É com muito carinho, alegria e respeito que apresentamos o documentário 
JAYME CAETANO BRAUN – PAYADOR MISSIONEIRO!
Karin Schmidt

sábado, 13 de maio de 2017

Cantor das Águas, da Terra e do Trabalho



Henrique Júdice Magalhães    

Hay os que cantam desditas de amores,
por conveniência, agradando senhores.
Mas os que vivem a cantar sem patrão
tocam nas cordas do seu coração.

(Cenair Maicá, Canto dos Livres)

Cenair Maicá (1947-1989) foi o responsável por inscrever estes e outros versos na história do Rio Grande do Sul. Do cantor e compositor nascido em Águas Frias, no atual município de Tucunduva (então distrito de Santa Rosa) em 3 de maio de 1947, disse o grande poeta Jayme Caetano Braun:

Outro é o Cenair Maicá
do canto bárbaro e doce,
que com certeza extraviou-se
da flor do caraguatá.


Com sua voz encorpada e ao mesmo tempo suave, Cenair gravou indelevelmente também seu nome entre os grandes da arte popular gaúcha. Homem e artista da melhor extração missioneira, colocou sempre sua voz e seu talento a serviço de sua terra e de sua gente. A exemplo e ao lado dos outros "troncos missioneiros" (seus parceiros e amigos Noel Guarany, Jayme Caetano Braun e Pedro Ortaça), personificou a identidade histórica e cultural de sua região. Também junto a eles, foi responsável por inserir as Missões no mapa histórico e cultural oficial do estado, desencadeando a redefinição de uma identidade gaúcha até então calcada quase exclusivamente na exaltação dos senhores feudais da região da campanha.

Dupla histórica

Músico desde os 10 anos de idade - quando começou a se apresentar em público ao lado de seu irmão Adelqui, Cenair faria sua entrada triunfal na história da música gaúcha ao vencer o 7º Festival do Folclore Correntino em 1970, em Santo Tomé, na Argentina com “Fandango na Fronteira”. Na apresentação, Cenair dividiu o palco com quem a havia composto: Noel Guarany (ver AND 33). Foi a consagração de ambos e de cada um como artista e também dos esforços iniciados pelos dois e por Ortaça em 1966, quando lançaram um manifesto reivindicando a herança guarani e anunciando a intenção de criar, a partir dela, uma nova arte missioneira. O espírito da iniciativa é bem representado por estes versos de Cenair:

Sou seiva pura de uma raça que não morre;
meu sangue corre através das gerações,
a força viva e secular do nativismo
no atavismo deste povo das missões.


A vitória no festival rendeu a Cenair e Noel a gravação de um disco compacto, Filosofia de Gaudério (1970). Apenas em 1978, porém, viria o disco solo de Cenair, Rio de Minha Infância. Solo talvez não seja a palavra adequada: a produção e a direção couberam a Noel, autor, também, de quatro das dez músicas que o integram.

Da terra e da gente

O resultado é um dos discos mais bonitos da música brasileira. A harmonia entre letras, interpretação e arranjos é tamanha que o ouvinte chega a sentir que navega nas águas do Uruguai enquanto vê, refletido em suas águas, o sol que ilumina a terra missioneira - ainda que não tenha a mais vaga ideia de onde ela fica.

Um dos pilares da identidade missioneira, o rio Uruguai é o mote do disco. Mas seu universo temático não se resume à paisagem da região. Tanto ou mais do que sua terra e suas águas, Cenair retrata, sob vários prismas, sua gente e a relação que ela mantém com o meio que a circunda. O tom intimista da canção que dá nome ao disco, de sua autoria, convive com a descrição do trabalho e do cotidiano dos homens que vivem nele em Balseiros do Rio Uruguai, de Barbosa Lessa.

Seria, contudo, um grande erro deduzir da singeleza das letras e da aparente despretensão do universo temático que se está diante de um artista despolitizado ou ingênuo. Isto nem seria possível nas Missões, onde a dimensão do cotidiano e a da história se entrelaçam. Cenair, a exemplo dos outros missioneiros, sabia exatamente o que estava fazendo. O compositor que recorda, saudoso, o rio de sua infância é o mesmo que escreve, um pouco depois, em Homem Rural, que "enxada em terra alheia nunca traz dia melhor".

Servir ao povo

Os propósitos de Cenair e o grau de consciência que ele tinha do que estava em jogo no momento histórico que lhe coube viver no Rio Grande do Sul ficam muito claros em várias de suas entrevistas.

"Eu acho que o músico, além de cantar as coisas alegres, a paisagem, a história, tem o dever de ser útil ao povo com o qual convive no dia-a-dia. Então eu procuro, dentro da minha música, dizer alguma coisa que possa motivar ou sensibilizar pessoas no sentido de resolver certos problemas de nosso povo. Porque nós, os artistas, temos uma força na mão, que é o instrumento, e temos a oportunidade de nos comunicar com o povo através dos canais de divulgação. Então temos o dever de ser útil ao povo" — declarou ao Jornal Cotrifatos, da Cooperativa Tritícola de Santo Ângelo (Cotrisa), em agosto de 1983.

Foi certamente esta preocupação que inspirou várias de suas letras, como Homem Rural e Balaio, Lança e Taquara, em que fala das agruras que atravessava a gente simples do interior gaúcho: camponeses, balseiros, índios... Ou João Sem Terra, na qual satiriza a política habitacional do regime de 64 descrevendo as agruras imaginárias de um conhecido passarinho:

Ainda bem que o João Barreiro não precisa de alvará:
não paga o BNH e usa o barro brasileiro.
Mas te cuida, João Barreiro, 
que os 'hôme' vão te pegar...

Cenair sabia também dos obstáculos que existiam no caminho que escolheu. O enfrentamento com os monopólios fonográficos fazia parte de suas preocupações. "As multinacionais do disco infiltravam a música norte-americana" - recordou em outra entrevista, realizada em 1982 no Museu Antropológico Augusto Pestana - "mas nós tínhamos um compromisso de manter a cultura missioneira". Nisto, como em muitas coisas, comungava das mesmas ideias de seu parceiro Noel Guarany.

Missões sem fronteiras

Outro aspecto que Cenair e Noel compartilharam foi o fato de terem passado parte da juventude na Argentina, mais precisamente na província de Misiones. Aos três anos, Cenair cruzou a fronteira com sua família para viver em acampamentos de extração de madeira às margens do Uruguai.

Este dado foi decisivo para a formação de sua personalidade musical. Criado no meio de madeireiros, balseiros e pescadores, absorveu desde cedo a musicalidade de suas formas de expressão. Com os peões argentinos e paraguaios que trabalhavam com seu pai, Cenair aprendeu os primeiros acordes da guitarra. Em Rio Ibicuí, lembraria o ambiente dos acampamentos:

E de volta ao acampamento passa o trago, 
corre o chimarrão.
Contam causos, proeza, alegria.
Lindas melodias brotam do coração.

Esta convivência despertaria nele outro traço comum aos troncos missioneiros: a postura fraternal para com os países vizinhos. "A história missioneira não pertence somente ao Rio Grande do Sul, mas também à Argentina e ao Uruguai" - pode-se ouvi-lo dizer na entrevista gravada no Museu Antropológico Augusto Pestana.

A biografia de Cenair tem também um outro aspecto - este de cunho trágico - em comum com a de seu grande amigo. Como Noel, Cenair viveu pouco. Uma infecção hospitalar contraída durante a colocação de uma prótese femural levou-o embora aos 41 anos, em 2 de janeiro de 1989.

Longa é a arte

Sua arte, porém - transcorridos, agora, tantos anos desde sua morte quantos se passaram entre sua consagração no Festival de Santo Tomé até ela - permanece viva, confirmando o dito de Hipócrates.

Cenair Maicá é, hoje, uma referência para todos aqueles que se propõem defender o patrimônio natural, histórico, cultural, econômico e, principalmente, humano do Rio Grande do Sul. Um episódio que ilustra bem sua importância é narrado pela cantora Maria Luiza Benitez, que o homenageia no CD Ouro Azul. Uma noite, ela sonhou que Cenair lhe dizia: "grava um disco só com canções de rio, porque canções e rios unem os povos". "Acordei às 4 horas da manhã e anotei as músicas" - conta.

 (Cenair Maicá)

Pelos Caminhos que me levam a meu povo,
quero chegar nas torres de São Miguel.
Olhar ao longe, beber dos horizontes,
cruzar os rios, campos e montes num tropel.

Sentir nos ventos que sopraram em outros tempos
a história viva dessa raça-guarani:
traço de união simbolizando essa verdade.
A mesma casa, o mesmo pão a dividir.

Que Deus me guie ao bravo povo de Sepé
e junto olharmos para o céu com igualdade
e ver que o sangue derramado nesta luta
regou na terra semente da liberdade.

Pois na memória de seus filhos vive ainda
os mesmos caminhos que trilharam outros pés.
Pelas noites, entre o brilho das estrelas,
reluz de guia o lunar do índio Sepé.

Pela noite, entre o brilho das estrelas,
reluz de guia o lunar de São Sepé.

 *****


Valdir Lima (Pertônico) e Cenair Maicá









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