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domingo, 14 de junho de 2020

20 mandamientos para ser feliz de Pau Donés


1. Que sepamos vivir el presente.

2. Que no perdamos el tiempo pensando en el futuro.

3. Que dejemos de creer en la suerte y creamos en nosotros mismos.

4. Que dejemos de hacer montañas de granitos de arena.

5. Que la tristeza nos dé ganas de reír. Que nos riamos mucho.

6. Que cantemos en la ducha, en los bares, en las bodas, en las cenas con losamigos o donde nos apetezca cuando nos venga en gana.

7. Que aprendamos a decirnos “te quiero” sin que nos dé vergüenza.

8. Que nos besemos, nos toquemos y nos achuchemos mucho.

9. Que nos escuchemos tanto como sepamos compartirnos en silencio.

10. Que nos queramos, a los demás y sobre todo a nosotros mismos.

11. Que nos peleemos lo menos posible. Estar enfadado es una gran y estúpida pérdida de tiempo. ¡A la mierda el ego y el orgullo!

12. Que nos dejemos de rollos, de chorradas, de hacer ver lo que no somos, que eso no sirve pa’ ná.

13. Que le perdamos el miedo a la muerte, pero también le perdamos el miedo a vivir.

14. Que decidamos por nosotros mismos. Que nunca dejemos que los demás decidan por nosotros.

15. Que cuando la vida nos cierre una ventana sea cuando más abramos las alas para romper el cristal y salir volando.

16. Que las cosas nos lleven adonde sea, pero que nos vayan bien.

17. Que los cerebros de zafios, hipócritas, memos, mamelucos, corruptos, pesaos, estúpidos, tocapelotas, mentirosos, gilipollas... se reprogramen y entiendan que en la vida no hace falta ser así, que la vida va de otra cosa.

18. Que a las penas, puñaladas y al mal tiempo, buena cara. O mala, que tampoco pasa nada.

19. Que la vida sea siempre un sueño.

20. Y, en fin, que a la vida le demos calidad, porque belleza sobra.

Fonte: https://www.infobae.com/america/entretenimiento/2020/06/13/antes-de-morir-pau-dones-dejo-escritos-sus-20-mandamientos-para-ser-feliz/
Acesso: 14/06/2020

terça-feira, 7 de abril de 2020

Vença a tentação de procrastinar (Willian Vieira)

Postergar não é se entregar à preguiça. Quem procrastina faz muitas coisas, só não o que deveria. Eis algumas dicas para fazer hoje o que você costuma deixar para depois


Liste as missões fáceis e as quase impossíveis – Procrastine, mas de maneira estruturada. Autor de “A Arte da Procrastinação”, o professor de Stanford, John Perry, sugere que você faça “esse mal funcionar para você”. Coloque na sua to do list tanto as tarefas simples de concluir (como regar as plantas), quanto aquelas que lhe causam temor ou aversão. Fica mais fácil enfrentar o monstro da lista quando você está feliz por riscar outros itens.

Divida uma tarefa complexa em pequenos passos – Repensar o tamanho de uma tarefa, dividindo-a em nacos que possam ser abocanhados, digeridos e celebrados – o que os psicólogos comportamentais chamam de microscheduling – ajuda. Planejar um grande projeto em etapas curtas é uma maneira de reduzir a ansiedade e de controlar a impulsividade. Pessoas mais impulsivas costumam procrastinar em busca de um prazer imediato. Afinal, por que esperar a conclusão de uma árdua tarefa se podemos sentir algo parecido, em menor escala, rolando o feed do Instagram? Para esses casos, a dica é associar uma recompensa a cada item concluído. Vale um chocolate, um happy hour (virtual, afinal é o que dá no momento) ou um cochilo de cinco minutos no sofá.

Evite distrações e a lenda do multitarefa – Um estudo no “Journal of Experimental Psychology” concluiu que ser “multitarefa” é pouco eficiente, já que o cérebro demora para mudar completamente de uma tarefa para outra, o que pode custar 40% do tempo produtivo. Evite ter muitas coisas para enfrentar ao mesmo tempo. É o que os psicólogos chamam de “controle de estímulos”: quanto menos tentações estiverem disponíveis (um chat aberto, uma página de notícias ao lado do seu Excel ou o Whatsapp no desktop), mais fácil focar no que se precisa ser feito.

Faça pausas, dê uma caminhada, desconecte-se – O corpo leva 90 minutos para ir de um estado de atenção total para a fadiga, como explica Tony Schwartz, autor do livro “The Way We’re Working Isn’t Working”. O ideal seria alternar uma hora e meia de foco total com 20 minutos de descanso. Método similar à Técnica Pomodoro (pense no popular cronômetro gastronômico na forma de um tomate, pomodoro em italiano), que sugere colocar um cronômetro para 25 minutos, trabalhar em uma única tarefa com todo o foco possível e, ao final, parar por cinco minutos. Depois, repetir o ciclo.
Uma pesquisa publicada em 2016 no “International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity” apontou que levantar a cada hora e caminhar por cinco minutos melhora o humor e combate a letargia, sem reduzir a atenção.

Descubra o que te faz deixar coisas para depois – Todos procrastinam, em maior ou menor escala. Muitos de nós, inclusive, “herdam” geneticamente a tendência, segundo estudo do Dr. Daniel Gustavson, da Universidade do Colorado. Mas é preciso acreditar que algo pode mudar. “Faça uma reavaliação cognitiva”, escreve a professora e psicóloga na Universidade de Sheffield, Fuschia Sirois. Entenda o que sente, rotule o sentimento que impede a realização da tarefa e lide com ele.                     

Fonte: https://gamarevista.com.br/bem-estar/5-dicas/venca-a-tentacao-de-procrastinar/
Acesso: 07 abril 2020

sábado, 15 de fevereiro de 2020

A vida ao lado de um homem que tem megatons de frustração represados (Leila Guerriero)


Nos olhos dele não há compreensão, só um pântano seco onde pulsa o rancor


O fim será pavoroso. Mas agora prepare tudo com a ilusão que surge da ignorância. Convença-se de que você faz isso por amor. 

Diga a si mesma que é a maneira –adulta, racional– de as coisas retomarem seu curso, de que escutá-lo voltar para casa –o ruído emocionante da chave na porta, a forma como ele a abre, como se temesse atropelar alguém do outro lado– seja, como costumava ser, a melhor parte do dia.

Tente se lembrar de quando começou. Aquele mutismo rude que ele engendra desde as primeiras horas da manhã e que se dirige a você como um míssil sem dissimulação; aquela hostilidade que o recobre como uma névoa solta e que parece uma mensagem que tem você como destinatária: como se você tivesse feito algo repugnante, imperdoável: como se você fosse repugnante, imperdoável. Diga a si mesma, como já faz há algum tempo, que o assunto deve levar alguns meses (se pergunte se não vai levar anos e descarte de imediato o pensamento com um respingo de dor supersticiosa).

Agora, quando chega em casa, em vez de cumprimentá-la –"oi, amor!"–, diz coisas como "esqueci a maldita peça na loja de ferragens"; e quando você pergunta se tudo foi bem no trabalho, responde coisas como: “Sim. Mas discuti com o imbecil do meu irmão”. Você sente que essas palavras –maldito, imbecil– têm você como destinatária, como se fosse o centro em ebulição de uma culpa inexplicável, de uma amargura que escorre pela vida dele e a transforma em uma vida miserável.

Pense –enquanto repassa o que vai dizer: as primeiras palavras de uma conversa tranquila– que ele está há muito tempo vivendo em um tom baixo, apagado, mergulhado em algo que poderia ser melancolia– por um motivo que você desconhece –ou repulsa (por algo em que ele não quer pensar: pela forma como você não é mais a garota despreocupada que ele conheceu, mas essa mulher hiperativa que sempre parece saber o que fazer e como, e julga o que ele faz como se fosse dona de um conhecimento superior?). 

Todas as manhãs, quando você sai para o trabalho –um trabalho que te agrada, mas que às vezes faz você se perguntar se não será essa a fonte do problema: sua vida de fêmea genial ao lado de um homem que tem um emprego anódino, megatons de frustração represados–, ele se despede com uma alegria que se assemelha ao alívio (alívio de não vê-la por um tempo?), e você desaparece no elevador com um gesto de submissão e súplica (sem saber a quem se submete ou suplica o quê) . Às vezes, ao longo do dia, trocam mensagens e paira entre vocês um carinho que parece sincero, mas que, quando voltam a se ver, se liquefaz como o corpo de um pássaro escravizado sob uma corrente de ácido.

Termine de preparar um jantar simples. Receba-o sem dar sinais de nada. Escute, em seu cumprimento, essa queixa filha da irritação com que desta vez ele diz: "Meu velho deixou cair o celular e a tela quebrou". Diga, tirando a importância disso: "Bem, sempre se conserta". Quando ele responder "estou cheio disso", escute: "estou cheio de você". Sirva o jantar, comente coisas sem importância. Procure dentro de si as primeiras palavras sensatas que você preparou durante dias. Diga-as em um tom que parece amável e caloroso. Veja como de repente ele presta atenção. 

Sinta crescer dentro de si o otimismo necessário para seguir em frente. Escute a si mesma dizendo frases prolixas (detecte nelas palavras como "antes", "eu não entendo", "eu preciso"; diga a si mesma que tem que evitá-las; não faça isso). Veja como ele cruza os talheres no prato (escute uma voz que diz: "Chega, não diga mais nada", mas não pare). 

Solte as amarras. Convença-se de que este é o momento de deixar tudo jorrar, de abrir as comportas. Diga-lhe que a atitude dele a magoa (pense: "Não! Ele não é seu cúmplice, não vai cuidar de você"). Veja como ele olha para o prato com um distanciamento animal. Sinta, subitamente, sinta que tudo o que você diz exala uma superioridade na qual você não se reconhece. 

Pense: “Esta não sou eu. Eu não faço essas coisas.” Mas não faça caso da intuição lamurienta que sussurra que você está sendo patética. 

Continue. 

Quando acabar, pergunte: “O que está pensando?”. Olhe para ele. 

Veja que nos seus olhos não há compreensão, somente um pântano seco onde pulsa o rancor. Escute como ele diz: “Sinceramente? Tenho medo de você”. 

Entenda que ele sente – sabe – que você arruinou a vida dele. Que você é o inimigo.

Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2020/02/03/eps/1580729785_113909.html
Acesso: 15/02/2020

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Eu sei, mas não devia (Marina Colasanti)



Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.


* Marina Colasanti nasceu na Etiópia, em 1937. Além de poeta, é pintora, jornalista e também escreve livros para crianças. É casada com o poeta Affonso Romano de Sant’Anna e mora no Rio de Janeiro.

Fonte: Colasanti, Marina. Eu sei, mas não devia. Rio de Janeiro: Rocco, 1996. 88 p. 
Crônica integrante da obra: O pequeno livro das grandes emoções. – Brasília: UNESCO, 2009. 60 p., p. 53/54.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Da arte de aprender a cair (Vladimir Safatle)


O desejo procura a queda porque ela é o impulso que temos para ser diferente de nós mesmos, diferente do que fomos até agora. Talvez seja por isso que entramos em relação


Vladimir Safatle

Eu sempre quis começar um texto perguntando-me por que livros de ética normalmente são tão ruins. Não falo apenas dos livros para grande público, normalmente repletos de descrições edificantes sobre virtudes que parecem feitas para animar palestras motivacionais de grandes empresas ou exortações morais que dificilmente escondem seu tom claramente redutor. Como se houvesse algo da ordem de palavras encantatórias que quanto mais repetidas mais teriam o dom de simplificar a existência e seus caminhos. Mesmo quando tais livros começam com um tom de ruptura e de rebeldia, é apenas para chegar a alguma digressão mágica sobre felicidade ou algum produto congênere da mesma família. Melhor seria se eles começassem por se perguntar por que a felicidade tornou-se historicamente, ao mesmo tempo, impossível e imoral para nós; por que ela deve começar por ser recusada se quisermos ainda permanecer fiel a seu impulso inicial. Parafraseando Kafka, dizer que há felicidade, mas não para nós, seria uma maneira de começar por lembrar que a verdadeira decisão ética aqui consiste em recusar qualquer compromisso com a permanência de uma situação histórica fundada na infelicidade de muitos.

Mas, se voltarmos os olhos aos livros que circulam no mundo acadêmico na área que chamamos normalmente de “filosofia moral”, encontraremos uma terra devastada não muito distinta. Difícil não perceber como eles estão entre os mais esquemáticos. Alguém deveria começar por lembrar que não se fala de posições éticas sem definir as fronteiras de suas limitações históricas. Como se fosse possível falar de virtudes da mesma forma que Aristóteles, quando nem sequer fazia sentido a distinção entre as virtudes do cidadão (porque se trata de um problema de homens) e as virtudes privadas, já que o horizonte social de fundamentação da vida ética não era passível de questionamento. Ou melhor, só era questionado como ruína e catástrofe nos momentos mais dilacerantes do teatro, como vemos por exemplo em Antígona, de Sófocles. 

Mas poderíamos continuar este estranhamento em relação ao apagamento da situação histórica de enunciação nos perguntando sobre o erro de falar de dever como na época de Kant, quando a crença na forma procedural e universalizante do julgamento ético podia ainda aparecer como um ganho de racionalidade em relação à vinculação local dos costumes e tradições, quando a exortação a agir por amor ao dever podia ainda ser um contraponto à consolidação da redução de nossas motivações para a ação ao quadro calculador da maximização dos interesses individuais. Não perceber que a história dessa crença na universalização foi também a história de uma desafecção catastrófica em relação a contextos, de uma abstração que trazia no seu bojo as marcas das piores violências seria, mais uma vez, tomar a filosofia pela arte da descrição de estrelas imaginárias, ou seja, descrição de entidades aparentemente imutáveis que existem apenas nos olhos de quem as descreve.

No fundo, todas essas estratégias, e elas são múltiplas, partilham ao menos um erro fundamental: o erro de acreditar que uma reflexão sobre ética seria a melhor forma de alimentar nosso desejo de invulnerabilidade e de inviolabilidade. A ética como uma forma, talvez a mais astuta, deste estranho desejo humano de inviolabilidade. Pois se soubéssemos nos orientar de forma segura na dimensão moral seríamos invioláveis, andaríamos em um solo firme, mesmo se nossas certezas morais produzissem continuamente equívocos e fracassos. Ou seja, a ética como a versão secularizada da procura por uma segurança ontológica. Por trás de suas questões do tipo “como quero ser?” ou "o que devo fazer?” haveria sempre este desejo por um último amparo, pela crença de que nada nos retirará do domínio de nós mesmos. Que este desejo esteja dirigido ao nosso vínculo aos deuses ou a nossa pretensa capacidade de julgar e avaliar nossas próprias ações e as ações de outros, isto não muda um dado fundamental, a saber, haveria uma segurança ontológica a me guiar. Nietzsche costumava dizer que nunca nos desvencilharemos de deus enquanto acreditarmos na gramática. Ele tinha razão, e poderíamos ainda acrescentar que nunca nos desvencilharemos de deus enquanto desejarmos nossa invulnerabilidade. E nós sabemos o quanto nossas regressões sociais periódicas estão vinculadas às formas do desejo de imunidade, do estar em possessão de si mesmo, do pertencer a si mesmo, do destruir tudo que me retire de tal possessão de si mesmo. 

Por isso, talvez a única posição ética à altura de nosso tempo deveria partir da procura em assumir uma insegurança ontológica fundamental. Nesse sentido, poderíamos mesmo dizer que a ética tornou-se para nós um aprendizado sobre como cair e como se quebrar. Há certos momentos em que fica claro como o mais importante é saber como cair, como se quebrar. Pois fomos feitos para nos quebrarmos.

Em uma de suas raras declarações sobre educação (que ele julgava uma tarefa impossível), Sigmund Freud afirmava que toda educação estava fadada ao fracasso porque ela partia do aprendizado da norma, das situações ideais, dos princípios. Mas um princípio é o que é, ou seja, apenas algo que aparece no princípio, nunca um resultado. Melhor seria, dizia Freud, se ensinássemos as situações concretas e essas, bem, essas mostram coisas muito diferentes. Melhor seria se nos disséssemos desde o início: “prepare-se porque um dia você irá se quebrar, você irá se trair”. Você irá se deparar com aquilo que não se submete ao seu controle, aquilo que o tira da jurisdição de si mesmo, aquilo que o desfaz em suas identidades, aquilo que desorienta a ação e o julgamento.

Nessas horas, faz toda a diferença saber como cair, como cair de outra forma. Não com a expectativa de restaurar o sentimento de estar intacto, não com esta fúria projetiva que procura jogar para outros a causa de nossas quedas, não com esse desejo mórbido de esconder nossa vulnerabilidade pregando o evangelho da culpabilidade e da punição para os que se afogaram. Mas cair com a solidariedade com os que caíram e cairão, com a consciência da falibilidade de nossa ações e da violência de nossos trajetos. Cair perguntando-se por que se quis cair, o que quis de fato realizar, mesmo que de maneira desesperada. Isso poderia mudar de forma significativa nossa forma de relação a si e ao outro.

As quebras são nosso destino porque somos seres em relação. Não há como evitar quebras porque procuramos colocar em relação corpos com tempos distintos, ritmos distintos, desenvolvimentos idem. Corpos que nos atravessam. Há uma relação fundamental entre desejo e queda, mas não devido à ladainha cristã da culpa por desejar o que não se deveria desejar. A melhor maneira de nos livrarmos dessa teologia travestida de psicologia moral é ressignificando todos os seus significantes. O desejo procura a queda porque ela é o impulso que temos para ser diferente de nós mesmos, diferente do que fomos até agora. Talvez seja por isso que entramos em relação.

Mas isso é indissociável da descoberta de uma violência imanente às relações, uma violência seguramente inextirpável. Só mesmo uma ilusão liberal para acreditar que a diferença vem sob a forma pacificada da tolerância, e não sob a forma agonística da explosão. Menos Locke e mais Francis Bacon (o pintor, não o filósofo) seria útil. Nesse sentido, um erro contemporâneo clássico consiste em tentar reduzir à figura da opressão todas as formas de violência imanente às relações. Quando conseguirmos eliminar as relações de opressão (e nós um dia conseguiremos), ainda restarão essas violências que nos quebram quando estamos em relação. Mas estamos em relação desde o início e até o fim. Talvez uma verdadeira reflexão ética deveria partir disso.

Vladimir Safatle é professor de filosofia da USP

Acesso 10/01/2020

domingo, 22 de setembro de 2019

Técnicas para dar uma entrevista (Domingos Oliveira)



1 - Saiba que você já perdeu. O entrevistador pensou o dia inteiro em como armar o buraco em que você vai cair.

2 - Sem falar que ninguém tem nada a dizer. É evidente que melhor seria não dizer nada. Nada nada nada nada nada. Nada.

3 - Reduzamo-nos então ao capítulo das filosofias úteis. Nos tempos de hoje, nem a filosofia pode se dar ao luxo de ser inútil.

4 - Já que tudo e todos o são. Conversar, por exemplo, em bares e botequins, em uma esquina, em frente ou atrás de câmeras, em geral, é chatíssimo. Temos de trazer de novo para as pautas as nobres técnicas da arte da conversação. Reaprender essa arte como se ainda fossemos (ah, que saudade) pessoas de séculos passados. Música, por favor. Pode ser Coreli, Scarlatti ou até um bom cantochão. 

5 - Só existe um modo de conversar utilmente com alguém. Só existe uma pergunta a fazer logo após sentar-se na mesa. “Companheiro, o que a vida te ensinou de mais importante desde a última vez em que nos encontramos?” Assim, na lata. “Companheiro, o que a vida te ensinou de mais importante desde a última vez em que nos encontramos?”

6 - Me ensina que eu quero aprender.

7 - Sempre descobri a filosofia que me iria salvar a alma uma vez por mês. Ou duas. Depois encho o saco dela e encontro outra para não ficar de alma perdida. Deixo aqui apenas as duas últimas. Creiam que já é muito. A prova disso é que você vai achar que é uma frase como outra qualquer. Coisa estúpida. A verdade está sendo dita a cada momento em todos os lugares, o difícil não é dizê-la, é ouvi-la.

8 - Em nenhum lugar do universo está escrito que a vida tem sentido. Não tem. E não tem nenhuma obrigação de ter. Porém, enfrentar de cara limpa uma barbaridade dessas não é para qualquer um. Mas a vida não tem sentido.

9 - Absolutamente não tem. Quando adolescentes conversam sobre esse assunto exaltados sentados no chão, as bocas das calças apertadas, calça skinny, eu me afasto lentamente e vou ver se por acaso tem brigadeiro na mesa. De chocolate ou doce de leite.

10 - A melhor coisa que pode acontecer com um homem... é ele achar que a vida não tem sentido.

Todas as frases ditas aqui, não importa seu valor, são livres de copyright.

Acesso 22 setembro 2019

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

O Patrimônio Mais Importante das Organizações (Ricardo Orlandini)


Quem não consegue aprender com seus erros, não consegue mudar, evoluir. Assim sendo, temos que procurar errar o mínimo e, quando errarmos, errar rápido. Lembremos que “dois erros não fazem um acerto”.

Organizações modernas devem ver as pessoas como seu patrimônio mais importante. Nada vale mais que as pessoas.

Sim, são as pessoas que fazem com que uma organização seja vencedora. O diferencial é o “talento” de cada membro da equipe e os “valores” de cada um e da organização. Foram pessoas que montaram “o grande Lego” que fez a humanidade dar esse salto gigantesco. São as pessoas que fazem essa diferença nas organizações.

Trecho do Texto Rumo ao Planeta Vermelho (Ricardo Orlandini)

Fonte: Todos Por Um, obra coletiva, Ed Escuna, 2019, p. 94
Para adquirir a obra, contate o Editor Paulo Pruss: paulopruss@hotmail.com

sábado, 30 de junho de 2018

Os 10 Mandamentos de Thomas Jefferson

1 - Não deixe para amanhã o que pode fazer hoje.
2 - Não peça ajuda de outros no que pode fazer por si mesmo.
3 - Não compre coisas inúteis sob pretexto de que são baratas.
4 - Não sejas vaidoso nem orgulhoso, pois o orgulho e a vaidade custam mais do que a fome, a sede e o frio.
5 - Não se arrependa de ter comido pouco.
6 - Não gaste seu dinheiro antes de ganhá-lo.
7 - Pratique suas ações de boa vontade e nunca se cansarás.
8 - Não tenha ansiedade pois não sabemos o que o futuro nos reserva. As desgraças que mais tememos são, em geral, as que nunca se realizam.
9 - Medite todas as coisas sob um ponto de vista favorável.
10 - Quando estiveres contrariado, conte até dez, antes de proferir qualquer palavra e conte até cem se estiver com raiva.

Não se esqueça... (Carlos Torres Pastorino)


Não se esqueça de que, qualquer que seja sua posição na vida, há sempre dois níveis a observar: os que estão acima e os que estão abaixo de você.

Procure colocar-se algumas vezes na posição de seus chefes; e outras vezes na posição de seus subordinados.

Assim você poderá compreender ao vivo os problemas que surgem dos dois lados.

E, desta forma, poderá ajudar melhor a uns e a outros.


Não se Exalte


NÃO se exalte, não se irrite, não discuta...
A mansidão e a serenidade conquistam os corações e representam a felicidade.
Ninguém resiste a uma pessoa calma e serena, e esta pode resistir a todos.
Não há força que derrube a mansidão, e nada é empecilho para ela.
Os mansos e serenos conseguem tudo o que desejam na terra, com a vantagem de jamais estragarem sua saúde tão preciosa.

Disponível em: APP “Sabedoria” http://goo.gl/ONTbi
Acesso: 29.09.2016

Dedicação e Comprometimento (Aragonê Fernandes)



"Independentemente do cargo que se ocupa, demonstrar compromisso é essencial. Não se deve usar os cargos como um mero instrumento para subir na vida. Devemos valorizar e dar o melhor de nós em cada etapa". Além disso, serenidade e inteligência emocional são fundamentais. O estudo deve ser visto como uma ferramenta temporária para que a gente alcance objetivos perenes".

Aragonê Fernandes, de 36 anos, que atualmente ocupa o cargo de juiz substituto do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT), já passou em 10 concursos. Foto: Arquivo pessoal

Acesso: 01/04/2016

sábado, 2 de junho de 2018

Pollyanna (Parágrafo-Resumo) Eleanor H. Porter

O que homens e mulheres precisam é de encorajamento. Os poderes naturais de resistência devem ser fortalecidos, não enfraquecidos... em vez de sempre falar dos erros de um homem, fale a ele sobre suas virtudes. Tente retirá-lo dos maus hábitos. Mostre-lhe a melhor parte de seu ser, do seu ser verdadeiro que pode ousar e vencer. A influência de um caráter belo, prestativo e cheio de esperança é contagiosa, e pode revolucionar uma cidade inteira... As pessoas irradiam o que vai em sua mente e em seu coração. Se um homem sente bondade e compromisso, seus vizinhos irão sentir-se dessa forma também, depois de algum tempo. Mas se ele repreende, olha de cara feia e critica, seus vizinhos irão desenvolver caretas e críticas... com juros. Quando se espera o pior, a gente consegue. Quando sabemos que iremos encontrar o bem... é o que encontramos...
Fonte: Porter, Eleanor H., 1868-1920. Pollyanna; tradução Luiz Fernando Martins - 4 ed. - São Paulo: Martin Claret, 2013. (Coleção A Obra-Prima de Cada Autor, 264), p. 138

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Não se vitimize, esse é o maior erro do processo de mudança psicológica (Dr. Cristiano Nabuco)


 Após três décadas de trabalho como profissional da psicoterapia, inevitavelmente se aprende bastante a respeito do sofrimento humano. Estar tão próximo de pessoas que chegam em diferentes estágios de aflição emocional, faz com que um olhar mais atento possa revelar aspectos importantes daqueles que são, continuadamente, assolados pelas mazelas da vida, tão comum a todos, não respeitando idade nem condição social.

Eu e você, portanto, fazemos parte desse grupo.

Assim sendo, uma coisa é certa: independentemente de seu grau de instrução ou fase da sua vida, você terá que manejar as marolas afetivas que lhe atingem a todo momento. E, dependendo da maneira que você se posicionar diante desse sofrimento, seguramente, ele poderá ser suavizado e, em muitos casos, abreviado.

Sim, é exatamente isso que você entendeu.

De acordo com sua destreza pessoal, transitar pelos sentimentos ruins é algo que também pode ser aprendido e, caso você ainda não saiba, é exatamente isso que fazemos em uma boa psicoterapia: ajudar as pessoas de maneira técnica e efetiva no desenvolvimento de várias formas de resiliência psicológica e na criação de habilidades de enfrentamento.

A aflição psicológica se apresenta, normalmente, nestes níveis bastante claros:

O primeiro diz respeito àquelas condições em que as pessoas se queixam das situações da vida como as grandes causadoras de seu sofrimento pessoal. Ou seja, muitos, ao analisarem retrospectivamente, se descrevem como vítimas de sua existência. Assim sendo, semelhante a uma criança que, ao tentar sair do berço, por exemplo, assume condutas arriscadas – dada sua pouca maturidade, e acaba caindo, faz do “berço” o maior “responsável” pela sua angústia. Vou lhe dizer então, que grande parte dos pacientes assim se descrevem, ao se sentarem à minha frente no começo de uma psicoterapia, pois, ainda com uma compreensão limitada, responsabilizam terceiros como os verdadeiros causadores de seu infortúnio particular.

Para florescer a sua personalidade, pare de se vitimizar diante das situações.

Nesse estágio, é como se as outras pessoas – e não elas mesmas – fossem colocadas como as verdadeiras responsáveis por favorecer (ou atravancar) a realização pessoal. E, obviamente, ao procedermos assim, entregamos aos outros a incumbência de nos oferecer as verdadeiras possibilidades de transformação – o que, diga-se de passagem, não é lá muito correto.
Evidentemente que uma parte de nós já vivenciou situações muitas vezes devastadoras ao longo de seu desenvolvimento e que, de fato, muitos dos problemas foram causados por algo externo e instável como uma doença, morte, acidente, entretanto, devo dizer que as causas incontroláveis não são, muitas vezes, uma maioria.

A grande parte padece, e ainda assim, insiste em culpabilizar os outros por sua dor. E o pior: permanecem vivendo dessa maneira, não apenas enquanto os fatos ocorreram, mas, em muitas situações, por toda uma vida, o que colabora para que se tornem amarguradas e melancólicas por longos períodos de tempo, comprometendo seriamente suas possibilidades de transformação.
Eu sei, há muitas pessoas, realmente, que são bastante tóxicas e, portanto, devem por nós serem evitadas. Entretanto, tenha em mente: quando lidamos com a natureza humana, estamos, na verdade, nos relacionando muito mais com as limitações dos outros do que com suas habilidades. As pessoas, assim, expressam muito mais suas incompetências do que suas aptidões e, portanto, nosso sofrimento ocorre, grande parte das vezes, por que nossas expectativas não são preenchidas, fazendo do desencantamento uma engrenagem central em nosso drama pessoal.

Esperamos ser bem tratados e não somos. Esperamos receber carinho e atenção e, na verdade, isso não corre. Desta forma, igual à criança que caiu do berço e culpa o berço, em muitos casos a transgressão é imputada ao outro por não conseguir responder a nossas necessidades. Sou infeliz, porque meu pai não me dá atenção ou porque meu chefe não percebe meus esforços, por exemplo. E, assim, ficamos magoados (bravos e tristes sejam as palavras corretas), limitando nossa capacidade de reação por décadas.

A saída, obviamente, existe e, se assim não fosse, estaríamos fadados ao sofrimento perene.

Primeiro passo para a mudança interna

Assim, vai minha dica: tente olhar um pouco mais adiante ou, se você preferir, compreenda um pouco melhor a raiz do comportamento dos outros que tanto o frustra. Devo dizer que isso é algo bem simples, embora não muito agradável de ser feito por nós.

Sabe por quê? Pois raciocinamos da seguinte maneira: “Sofremos e ainda temos, de quebra, que tentar compreender o outro?” Sim, e esse é o primeiro passo para um trânsito eficaz de mudança psicológica interna, o desenvolvimento de uma autêntica empatia.

Veja só, a pessoa que não lhe dá atenção, possivelmente, nunca recebeu atenção de seus familiares em sua vida pregressa. Ou seja, nunca aprendeu a ser bem tratada e, portanto, não consegue passar adiante qualquer afetividade, por menor que ela seja.

Lembre-se: apenas podemos dar aquilo que um dia nos lembramos de ter recebido. Portanto, se não há registros, esqueça, simplesmente o determinado gesto não virá. Isso não quer dizer que tenhamos que aceitar incondicionalmente as limitações dos outros, entretanto, tente deixar de sentir o mau tratamento que nos é dirigido como algo pessoal.

Quando colocamos o comportamento do outro em perspectiva, não aceitamos mais o que o outro nos faça de mal e, dessa maneira, começamos a adentrar em um segundo estágio da mudança que é o de compreender que, na realidade, somos todos sobreviventes (nós e os outros) das situações que passamos e que, na ocasião, muito pouco tínhamos a fazer, dado nosso pouco grau de maturidade. Por alguma razão, lá estávamos todos e agora, independentemente dos fatos, fizemos o que julgávamos ser correto e, assim, temos que seguir adiante e olhar para frente.

Esse prelúdio de tomada de consciência é o prelúdio de grandes mudanças pessoais. Quando começamos a ver todas essas implicações na teia de reações emocionais às quais estamos presos, começamos a depender menos dos outros e mais de nós mesmos, o que é, diga-se de passagem, extremamente libertador.

Assim, ao não darmos mais ao outro a possibilidade de nos controlar, não mais nos sentimos vítimas do meio ambiente e nossas aflições começam a diminuir exponencialmente.

Adentramos, então, no último estágio de mudança psicológica humana que nos coloca não mais como vítimas ou como sobrevivente, mas como os reais protagonistas de nossa existência.

Quando finalmente começamos a compreender isso, um grande salto é dado no sentido de começarmos a nos debruçar sobre nossas limitações pessoais e, portanto, podemos caminhar a passos largos em direção a uma autêntica mudança psicológica interna.

O tema precisaria ser mais discutido, mas acredito que você já entendeu o que estou tentando lhe dizer. Acho que você consegue continuar daqui sozinho...

E, para finalizar, eu lhe lanço uma pergunta final:

Você algum dia já parou para pensar o que (ainda) está fazendo para atrapalhar a sua realização?

O processo de mudança psicológica está em suas mãos e eu creio piamente que você já tem o bastante para, finalmente, poder alçar o seu voo, não tem?


Acesso em 07/02/2018

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Resumo Motivacional para Concursos (Prof. Ítalo Romano Eduardo)

Saindo da “Zona de Conforto”

ü  Muita força de vontade;

ü  Firmeza de propósito;

ü  Vontade de melhorar;

ü  Disciplina;

ü  Uma pitada de ambição;

ü  110% de dedicação;

ü  Muita abdicação.

O grande segredo do mundo dos concursos é a REPETIÇÃO.

Quanto maior for sua capacidade para abdicar aos prazeres e planos da sua vida, “dar uma parada geral”, mais rápida será sua aprovação.

A diferença entre os que vão e os que não vão lograr êxito estará justamente no nível de comprometimento em relação ao objetivo traçado.

Estar comprometido com algo exige foco no objetivo, coragem, 120% de dedicação, jamais desistir, tolerância e frustração, firmeza de propósito, abdicação, uma pitada de ambição e o mais importante, estar mentalmente programando para o sucesso (...) Todas as incertezas devem ser abolidas.

“Se você pensa que pode ou se pensa que não pode, de qualquer forma você está certo”. (Henry Ford)



quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Regras para o Galpão e para a Vida (Blau Souza)


Faz bem a solidariedade dos amigos quando sofremos duras perdas. A morte do meu irmão Jacques propiciou muitas manifestações, como a do Fernando Adauto no SulRural, em que o carinho e as recordações comoveram a mim e a todos que o conheceram. Lá está dito que Jacques vivia a Qualidade Total, e assim o era.

Assumindo a Estância do Sobrado aos dezessete anos, dobrou a sua área e com campos lotados. Tinha um raciocínio simples: sua moeda corrente era o gado. Para aumentar o rebanho, arrendava campos e quando da devolução das áreas arrendadas, vendia o gado que havia nelas e comprava campos vizinhos aos do Sobrado. O sucesso foi conseguido com muito trabalho e disciplina.

Divulgo, para proveito de outros, como ele gostaria, suas instruções aos empregados, colocadas em 20 itens pendurados na sala da estufa no galpão da estância. Foram feitas pequenas adaptações na forma, para facilitar o entendimento.
     
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“É impossível haver progresso
sem mudança, e quem não
consegue mudar a si mesmo
não muda coisa alguma.”
George Bernard Shaw
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      “Estância do Sobrado. Medidas a serem tomadas para o melhor andamento dos serviços:

1. Assumir com responsabilidade e boa vontade suas obrigações, sempre pronto a ajudar os colegas de trabalho.

2. Terminar com conversas, fofocas, etc., que só dividem e nada somam. Elas só desgastam a pessoa que as faz.

3. Quando estiver descontente com alguma coisa, procurar falar comigo em particular. Tenho o maior interesse e boa vontade com todos.

4. Por ocasião de temporal, independente de função, tomar as devidas providências, fechando janelas, portões, moinho, etc.

5. Ter criatividade e bom-senso. Exemplo: recolher pedaços de arame, sacos plásticos, arrancar espinhos e outras pragas.

6. Quando estragar alguma coisa, ou machucar um animal, comunicar a administração. Jamais querer transferir para os outros, mas assumir as faltas.

7.  Procurar não pegar, sem necessidade maior, arreios, xergões, pelegos, cordas e outras coisas dos patrões.

8. Cuidar do arreamento, poncho e demais utensílios, bem como desencilhar em lugar apropriado e deixando tudo em ordem.

9. Procurar trazer sua cama arrumada, bem como as demais coisas dos quartos, que devem permanecer limpos.

10. Reparar sempre se não ficou torneira mal fechada, ou a descarga do vaso escapando, principalmente quando houver mais gente nas casas.

11. Procurar trazer os utilitários de galpão sempre limpos, nos devidos lugares e dando a manutenção necessária a alguns implementos.

12.  Não trazer cachorro para o estabelecimento sem o meu consentimento.

13.  Sempre que chegar alguém, ver quem é e dar o atendimento necessário, comunicando após a administração.

14.  Procurar, dentro do possível, estar por dentro das contas de bovinos e ovinos de cada invernada.

15.  Por ocasião de banho de gado, vacinação ou outros serviços nas mangueiras, ajudar a verificar se as porteiras estão fechadas, se o corredor está aberto e, após, se foi fechado e se foi medida a carga do banheiro.

16.  Sempre que abrir porteiras, não esquecer de colocar o pino de segurança ao fechá-las.

17.  Procurar não maltratar os animais e, nas mangueiras, evitar gritaria e cachorro. Tenho certeza que assim fazendo o gado vai ficando cada vez mais dócil.

18. Fazer todo o empenho para terminar com rixas entre funcionários. Elas só criam problemas para a administração.

19. Sejamos bem-educados, não cuspindo no chão, não jogando toco de cigarro em qualquer lugar e, sempre que possível, juntando outras sujeiras.

20. Sempre: sejamos amigos. Existindo a amizade, existirá a lealdade. Agradecido. (a) Jacques. N.B. Bebidas alcoólicas, somente se oferecidas pelos patrões.”

Homem de convicções fortes, temia ser prepotente e colocou em lugar de destaque do galpão o seguinte cartaz: “É impossível haver progresso sem mudança, e que não consegue mudar a si mesmo não muda coisa alguma. (a) George Bernard Shaw”. Religioso e buscando ser justo, puxava a seguinte oração antes das refeições no Sobrado: “Senhor, dai pão a quem tem fome, e fome de justiça a quem tem pão”.

Publicada em fevereiro de 2006 (SulRural 269).
Fonte: Souza, Blau. Por falar em passarinhos... Crônicas do pampa publicadas no jornal Sul Rural/Blau Souza. 
Porto Alegre, RS: AGE, 2016, p. 69-71.

Sete sílabas de terra vermelha (Paulo Bentancur)

  Montado em sete sílabas, Jayme Caetano Braun (1994 – 1999) não descuida um verso sequer o generoso horizonte da lírica repentista. O seu ...