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terça-feira, 11 de julho de 2023

População dos 7 Povos em 1822 (Antônio José Gonçalves Chaves)

 

Antônio José Gonçalves Chaves*, na obra Memorias economopolíticas sobre a administração publica do Brazil (1823) fornece os seguintes dados.

Em 1801 José Borges do Canto conquistou as Missões para a coroa portuguesa, a população reduzida seria 14.000 pessoas (almas, para os jesuítas).


Povo

Ano 1801

Ano 1822

São Miguel

1900

600

São João

1600

300

São Lourenço

960

250

Santo Ângelo

1960

350

São Luiz

2350

200

São Nicolau

3940

250

São Borja

1300

400

Total

14010

2350


Ainda depois da independência do Brasil, as Missões estavam separadas da província, formando uma seção administrativa.

Cada povo tem um Corregedor e mais Magistrados civis (melhor diríamos rurais). O Governo nomeia-lhes Administradores, e um Governador que vigia sobre tudo.

Os povos, em vez de prosperar, cada vez diminuem mais.

cousa de três anos tirou-se dali um Corpo de tropas de 400 Guaranys.


Texto adaptado

*Português, viveu em Pelotas, onde foi charqueador.




Fonte: Brasil, Joaquim Francisco de Assis. História da República Rio-Grandense (Estante Rio-Grandense União de Seguros – ERUS). Porto Alegre: Companhia Rio-Grandense de Artes Gráficas, 1982, p. 18

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Oração Guarany

 

Versiculos em guarany, que os indios de Missões, costumão cantar na Semana Santa, e que narrão varios padecimentos de Christo em sua Paixão, com sua tradução em portuguez. (1)


GUARANY


1º Christo nhandejará cohemibôravá ycuatia pîrera nhânde monhângara. A! Christo nhandejará, ah! Christo nhandejará. (2)


2º Conde (3) quarepotê yioqua hacuera nhânde monhângara, ioqua pirera. Ah! Christo etc, etc.


3º Conde tâtaedê hecaheca hacuera, nhânde monhângárá, hecaheca pîrera, ah!...


4º Conde ibûrtê ynhembôe hacuera, nhânde monhângárá, inhemboe hacuera ah!


5º Conde poriru hobap^te hacuera, nhânde monhângárá, hobapete îrera, ah!


6º Conde eûepucu S. Pedro rembiporucuera, nhâ… mon… S. Ped. rebipor…; ah!


7º Conde uruguaçu S. Pedro mboya heohacuera, nhâ… monh…. S. Pedro mbocha heo arerá...


8º Conde nhoati ynhâcaucha cuera, nhânde monhângárá, inacacutupêrara, ah!


9º Conde tucûmbo pocua hacuera, nhâ… monh… ipocua pîrera, ah! Christo...


10. Conde columna inhâpêti hacuera, nhâ… monh… inhapêtîrera, ah! Christo...


11. Conde açote ynupa hacuera, nhâ… monhan, inupa hîrera, ah! Christo...


12. Conde domiri hobahîcî hacuera, nhâ… monh… hobahîcî pîrera, ah...


13. Conde tacuetê heie nhembosarai hacuera, nhâ… monh… hecenhembo pîrera, ah...


14. Conde euruçu ymbobo hû hacuera, nhâ… monh…. Imbobo hû pîrera, ah!


15. Conde yiape imbocuapûhacuera nhâ… monhân… impocuapû pîrera, ah!…


16. Conde caliz Pilatos yepohei hacuera, nhâ… monh… Pilatos iepohei hucuera, ah!...


17. Conde ahobae ymomegua hacuera, nhân… monhân… imomegua pîrera, ah!…


18. Conde curuçu ymano hacuera, nhâ… monh… ymano hacuera, ah! Christo...


19. Conde tapêcua ipocutu hacuera, nhân… mohân…. Ipêcutu pîrera, ah!...


20. Conde martillo impobota hacuera, nhâ… monhân… ipembo, tupirera ah!


21. Conde mimbucu ychîqueraça hacuera, nhâ… monh… ichîqueraça pîrera, ah!...


22. Conde vinagre ymbocû hacuera, nhân… monh… imbocû pîrera, ah! Chr…


23. Conde camisa ymode hacuera… nhân… monhân… imode pîrera, ah! Chr…


24. Conde tenaça heûi heûi hacuera, nhân… mohân… heûi heûi pîrera, ah! Chr...


25. Conde yeupica hero ehû hacuera, nhâ… monh… hero ehû pîrera, ah! Chr...


26. Cº sepulchro inhotû haciera, nh… mon… inhotû mbîrera, ah! Chr. Nhandêjara.


(1) Parece que estes versiculos Guaranys foram compostos não pelos jesuitas, mas pelo Rev. Padre Paim.


(2) Em cada versiculo ha sempre a mesma repetição ao fim, por isso abreviei as repetições.


(3) Conde significa tomai, vede, olhai, eis.


PORTUGUEZ


1º Christo Nosso Senhor padeceu por ter-se feito conhecer nosso Creador! Ai! Christo Nosso Senhor, ai! Christo Nosso Senhor.


2º Olhai esse dinheiro com que foi comprado Nosso Creador, com que foi comprado, Ai! Christo etc, etc.


3º Olhai essa vela com que foi buscado Nosso Creador, om que foi buscado, ai!


4º Olhai esse horto onde rezou Nosso Creador, onde rezou, Ai Christo...


5º Olhai essa luva com que foi esbofeteado N. Creador, com q' foi esbofeteado...


6º Olhai esse facão com que S. Pedro se servio, Nosso Creador, se servio! Ai...


7º Olhai esse gallo que fez chorar a S. Pedro, Nosso Creador, chorar a S. Pedr.


8º Olhai essa corôa d'espinhos q'lhe pozerão na cabeça, N. C., lhe pozerão na cab.


9º Olhai essa corda com q' lhe atarão as mãos, N. Creador, lhe atarão as mãos.


10. Olhai essa columna em que foi atado, Nosso Creador, em que foi atado. Ai!


11. Olhai essa disciplina com que foi castigado, Nosso Creador, com que foi...


12. Olhai esse panno (veronica) em que ficou estampado, N. Senhor, em que...


13. Olhai essa cana com q' foi injuriado, Nosso Creador, com q' foi injuriado...


14. Olhai essa cruz que ha carregado, nosso Creador, qu ha carregado, ai!


15. Olhai essa pedra em que o fizerão sentar, Nosso Creador, o fizerão sentar, ai!


16. Olhai essa bacia (nhaé, cálix) em q' Pilatos lavou as mãos, N. C., Pil. Lavou...


17. Olhai essa alva com q' revestirão por irrisão, n. C., com q' revestirão...


18. olhai essa cruz em q' elle morreu, N. Creador, em que elle morreu, ah! Chr....


19. Olhai esses pregos com q' foram cravar suas mãos e seus pés, N. C., com q' etc.


20. Olhai esse martello com que golpearão os pregos, Nosso Creador, com que...


21. Olhai essa lança com q' lhe furarão o costado, Nosso Creador, com que lhe...


22. Olhai esse vinagre q' lhe derão a beber, N. Creador, que lhe derão a beber...


23. Olhai essa tunica que vestio, Nosso Creador, que vestio, ai Christo Nosso...


24. Olhai essas tenazes com q' arrancarão os pregos, Nosso Creador, com que...


25. Olhai essa escada com que foi baixado da cruz, Nosso Creador, com que...


26. Olhai esse sepulchro em q' foi enterrado, N.C., em que foi enterrado… etc.



O CONEGO VIGARIO João Pedro Gay



Publicado originalmente na Revista Trimensal do Instituto Histórico e Geográfico da Província de São Pedro, ANO IV, n. 1, 1863



Fonte: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, nº 123, Porto Alegre – RS - Brasil, 1982, p. 168/169

domingo, 26 de janeiro de 2020

Gado e Gente do Pampa (Blau Souza)



Os jesuítas que tinham desenvolvido populosas aldeias no Guairá fugiram dos bandeirantes com o que restou de seus índios e se instalaram nas costas do alto Uruguai. Na margem oriental, a partir do Padre Roque González, em 1626, instalaram-se dezoito povos, cujos habitantes chegaram ao rio Jacuí e o ultrapassaram, desenvolvendo notável civilização e grandes rebanhos. Sua sina, entretanto, não desaparecera. Os bandeirantes continuavam a apresar gentios para escravizar e isso era facilitado pela existência de aldeamentos quase indefesos, pois os índios das Missões ainda não tinham autorização da coroa espanhola para o uso de armas de fogo.

As Missões foram dizimadas por Raposo Tavares, Manoel Preto, Francisco Bueno, André Fernandes, Fernão Dias Pais e outros aventureiros vicentinos, cujas famílias e posses dependiam diretamente do sucesso das bandeiras. Os últimos índios reduzidos fugiram para o outro lado do rio Uruguai por volta de 1640 e deixaram para trás seus rebanhos, sem donos a partir de então. O Padre Simão Vasconcellos, jesuíta português, descrevia em 1663: “É notável por aqui a bondade da erva, os campos não têm fim, o número de gado são milhões e milhões; donde só pelos couros se mata, e se carregavam muitos navios deles, deixando a carne por inútil”.

Jesuítas de várias nacionalidades, sob bandeira espanhola, conseguiram despertar a cobiça bandeirante, primeiro com os próprios indígenas nas reduções e depois com os rebanhos vacum, cavalar e ovino que deixaram a vagar pelo mar verde do pampa. Aventureiros, homens nômades, passaram a agir nesse meio. Eram índios, brancos, negros e mestiços, os mais variados; muitos deles a fugir da convivência humana ou da própria vida e que ganharam uma identidade em função da exploração da riqueza pecuária. Hábeis cavaleiros, e nisso se notabilizaram os charruas e os minuanos, passaram à matança do gado, pois havia compradores para os couros não só entre os comerciantes das nações ibéricas, como nos navios de piratas franceses ou de outras nacionalidades que se habituaram a aportar em nosso perigoso litoral. Os faeneros ou changadores usavam laços, boleadeiras e lâminas em meia-lua adaptadas a cabos longos de madeira e que serviam para desjarretear ou cortar o tendão posterior das patas, o garrão, impedindo que as reses se locomovessem.

A cor negra dos abutres salpicava o verde dos campos, e eles disputavam a cães chimarrões e a outros comedores de carne, as carcaças que iam apodrecendo e empestando aires não tão buenos. Ia surgindo um tipo humano, ainda sem nome, adaptado ao pampa e que lutava, sobretudo, pela sobrevivência. A devastação dos rebanhos prosseguia com agravantes: os touros, todos os machos o eram, forneciam os pesados couros, de boa espessura, e as novilhas, de carne mais macia, eram abatidas para fornecer um ou dois assados para matar a fome dos gaúchos. Acham que a palavra, gaúcho, caiu bem? Claro que sim, pois foi aí que ele surgiu, como homem adaptado a um meio que exigia exímios cavaleiros, capazes de sobreviver à solidão do pampa. A separação das coroas ibéricas em 1640, depois de sessenta anos de frágil união no reinado dos Felipes de Espanha, agravou a rivalidade entre as duas nações, logo transmitida às suas terras na América. As Missões alcançaram grande desenvolvimento no lado espanhol depois que os bandeirantes abandonaram a perseguição aos índios, depois de derrotados em Mbororé no ano de 1641 por missioneiros já armados com arma de fogo e preparados para guerrear. O aumento populacional preocupava os padres, que não tinham esquecido as terras da margem esquerda do Uruguai. A instalação da Colônia do Sacramento pelos portugueses em 1680 e a volta dos jesuítas espanhóis com seus índios à margem oriental do Rio Uruguai, criando os Sete Povos a partir de São Borja em 1682, serviram para ressaltar as qualidades e os defeitos desses homens do pampa, que passaram a lutar sob diferentes bandeiras e falando português ou espanhol.

(Blau Fabrício de Souza. Uma no cravo, outra na ferradura. Crônicas do Campo. Porto Alegre, AGE, 2004.)


domingo, 8 de julho de 2018

Jayme Caetano Braun - Payador Missioneiro (Documentário Karin Schmidt - 2016)




Com duração de 18 minutos, o documentário retrata um pouco da vida, da obra e do legado de Jayme Caetano Braun, com imagens inéditas dos lugares onde ele viveu grande parte de sua infância e juventude. Depoimentos exclusivos de Pedro Ortaça, Glênio Fagundes, Juca Ramos, Gelsa Ramos e Vinícius Ribeiro enaltecem com maestria, veracidade e encantamento, a missão do nosso payador maior.

Reconhecido internacionalmente, Jayme Caetano Braun foi poeta, declamador e payador (aquele que faz versos de improviso opinando sobre algo). Simplicidade e ternura definem o sentimento que Jayme trazia na alma, na voz, no olhar e na vida, sempre exaltando em suas payadas o valor da cultura terrunha da região das Missões e do Rio Grande do Sul.

Senti a presença do Jayme em cada verso que ouvi, em cada palavra das pessoas que entrevistei, em cada sorriso de quem trabalhou comigo, em cada dificuldade que aparecia e eu encontrava forças pra não desistir. Acima de tudo, senti a presença do Jayme em cada batida do meu coração, na medida em que eu conhecia um pouco mais de sua história tão grandiosa e ao mesmo tempo tão simples. Compreendi, na mais pura essência, o que ele quis dizer em um de seus versos: a vida com poesia fica muito mais bonita!

Para quem, assim como eu, tem admiração pelo nosso payador missioneiro, não deixe de conhecer o Complexo Turístico Cultural Jayme Caetano Braun, em São Luiz Gonzaga. Será uma oportunidade de ver bem de pertinho o monumento, utensílios que pertenceram ao Jayme, além da Venda do Bonifácio com produtos típicos artesanais. Também poderá assistir o documentário no espaço do Complexo, que sempre é exibido para todos os visitantes.

Reitero meus agradecimentos a todos que tornaram possível a concretização deste trabalho, produzido em 2016, em especial, Sandra Ferreira e Vinicius Ribeiro, que estiveram ao meu lado durante os oito meses de produção. Cada um dos nomes que aparece nesta obra teve participação determinante, pois este documentário foi feito por muitas mãos e muitos corações.

É com muito carinho, alegria e respeito que apresentamos o documentário 
JAYME CAETANO BRAUN – PAYADOR MISSIONEIRO!
Karin Schmidt

Sete sílabas de terra vermelha (Paulo Bentancur)

  Montado em sete sílabas, Jayme Caetano Braun (1994 – 1999) não descuida um verso sequer o generoso horizonte da lírica repentista. O seu ...