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domingo, 23 de maio de 2021

Estilhaços de Olga Nawoja Tokarczuk

"Toda cultura é alicerçada sobre mecanismos de defesa."

"É muito normal que tentemos estancar e suprimir tudo aquilo que não é confortável para nós."

"Escrever é procurar pontos de vista muito particulares e específicos da realidade."

"Cada minúscula partícula do mundo é feita de sofrimento."

Fonte: Estilhaços da história. Ruth Franklin, trad. Renato Marques de Oliveira. Revista Piauí 158, novembro/2019


quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

VÉSPERA DE NÃO (Dirceu Villa)


preso à minha classe, eu vejo as grades da prisão:

a reprovação do crédito, a reprovação da renda, os

bairros assinalados onde sobreviver, as roupas que

se gastam no corpo, e que prosseguem nele, gastas.



o espaço mínimo que me cabe de vida e trabalho, a

voz que não se projeta além dos confins prescritos

na certidão de nascimento, a educação consentida

que indique com clareza os limites de circulação, os



embates que herdei na ferocidade domada do sangue,

na consciência do destino, no cuidado da ração e no

domínio da força em exercício, estoico de incontáveis

perdas no silêncio mordido, no sorriso, véspera de não.


Fonte: Revista Piauí, ed. 171, dezembro 2020

domingo, 26 de julho de 2020

Ocasião e Circunstâncias



Ocasião, ao lembrar Carlos Reverbel, parafraseando outrem – que respondia algum questionamento embaraçoso, como por exemplo:

- Por que o Sr. não…..?

A resposta:

- Por falta de ocasião!

Circunstâncias surgem da (re)leitura do Compêndio de Introdução à Ciência do Direito, de Maria Helena Diniz, edição 2003, trecho inicial, antes da centésima página, sobre conduta do ser humano, trabalhando os conceitos de um autor mexicano do início do século XX.

Releitura não seria propriamente, porque o livro foi utilizado na disciplina de Introdução ao Estudo do Direito, não por recomendação expressa da professora, mas como subsídio para provas e trabalhos, tendo em vista que em geral, não anotava quase nada dos conteúdos ministrados.

Um pouco por cansaço, outro pouco por desleixo, e pela questão física de ocupar a última cadeira de uma sala com 85 alunos…

O fundo da sala é uma selva, discussões aguerridas sobre a série C do Campeonato Brasileiro, coisas de suma importância para a formação acadêmica…

Uma hora vou escrever mais sobre a faculdade, ou não…

Pois bem, no devaneio dominical, “deu certo”, combinamos um passeio, saímos com pouco compromisso, sem (mas com) rumo, factível de retorno em um final de semana…

A fronteira Oeste sempre me convida!

E temos essa questão!

Que joga um rio de água fria, gelada, em qualquer plano.

Sobra imaginação, para quem dispõe dela, falta consecução.

A quem desafia o cotidiano, fica a probabilidade real, o aleatório.

Para quem desafiou, restou curar-se ou perecer.

Sobre leituras, lembro charge de Tom Gauld. Retrata uma estante, a cor das lombadas dos livros com legenda, separada por cores: livros que li, que não li, a ler, que fingi ter lido, e assim por diante…

Sobre o Compêndio, ele ficou “para trás” quando observei que a apostila da profe era baseada em um livro dos anos 70, do tempo em que o pai cursou Direito e manteve sob custódia em casa: Bingo!

Agora, a leitura é maçante, mas insisto.

Ninguém falou que seria fácil.

Levei um mês para ‘matar’ um livro de Processo Civil de 500 páginas. Nesse ritmo…

Às vezes, fico 3 dias sem abrir um livro.

Tecnologia tem me enfarado, ontem que rebusquei uns sites e, lendo artigo do El País sobre o disco de Metal mais vendido da história, a tragédia e a sequência da banda, ouvi todo o Back in Black do AC/DC.

Desculpe, tive muito tempo ouvindo música dita nativista e regional.

Escrevendo isso, retomei quase todos os vídeos do Chango Spasiuk, fazia tempos que não ouvia ele, até repassei os álbuns para um pen drive, hora dessas toca, se não houver erro de leitura e uma gloriosa mensagem “no device” aparecer no player.

Ao escrever, refiro que essa madrugada caiu o resto do galpão que havia nos fundos da casa que foi da Vó (a casa foi vendida). Estrondo forte, um tiro, prefiro não estender o tema.

Sobre negações, conceitos e definições, interessante o áudio extraído de um vídeo do Major Olímpio (está no ‘kinder ovo’ do Foro de Teresina 110), citando uma ‘pá’ de termos maçônicos.

Qual a parte da sociedade secreta que essa turma não entendeu?

Fiquei como o título de um disco do Mário Rubens Batanolli (Mano) Lima, “Um Homem Fora de Seu Tempo”.

E lembro que além da existência de grupos de “zap”, o que coloca em dúvida a “secretitude” (sic!, muito sic!, sic mesmo, tá?) dessa organização lendária e secular. Lembro até que o mesmo “Mano” teve fotos de sua iniciação divulgadas na rede.

Citando a Revista Piauí, li um artigaço na edição 164, tendo por título ‘Os Subterrâneos’. Uma verdadeira viagem, para quem está, como disse ao Sr. Darci Leopoldo Uhry essa semana que passou, na “peceva”.

De fungos, a micorrizas, conexões intra arbóreas, a Floresta de Epping, na Inglaterra, território de caça de um Rei no século XII. Graças ao Dr. Google, temos condições de ir até lá, “dar uma espiada, uma abaixadinha” (Opa!, isso é uma letra do Tchan Tchaaann!!).

Da floresta, o autor vai a Chernobyl, ao maior fungo do planeta, com 4 km de largura, no Oregon, se não me engano, à uma ilha no Canal do Panamá, experiências científicas, borbulhas de seiva auscultadas com estetoscópio, experimentos envolvendo abelhas e cidra feita com frutos da famosa macieira de Sir Isaac Newton.

Muito bem, levando a leitura à associação de como alguém provido de muita criatividade assimilaria tal reportagem… E como repassaria a outros interlocutores, naquele ditado do Rillo de quem “conta um conto, acrescenta um ponto.”

Pois sobre destinos, numa saída rápida, sem parada, mantendo os limites de velocidade impostos pela legislação e sinalização de trânsito, estive após 2 anos em Tucunduva. Mauá está fechado e, naturalmente, os outros portos deviam estar abarrotados no final de tarde de sábado ensolarado à beira do Rio Uruguai. Tuparendi não entrei, estava na hora do lusco-fusco, melhor guardar a última imagem, do cumprimento mui cordial de uma moça, não sei se por susto ou troça, quando estive por lá, de bicicleta, no início do ano.

Destino porque a tragédia encampa esse escrevente, com pitadas de melancolia. Em Tucunduva pereceu tragicamente o Legenda, como o Maurício Hermann se refere ao Roque Moos.

Não fale mal do cavalo”, conforme o Maurício, era o mantra que utilizava para se referir à motocicleta. É ela que colocou o ciclista em alguma enrascada, ela vai tirá-lo. Não no caso do Legenda, infelizmente.

Mas o Mauricião citou o ditado como dica para não nos queixarmos do serviço. Sábia dica!

Tudo passa, tudo passará!

Chega mais, Dom Mario: eles passarão, eu passarinho!

E vem, como em outro texto, Yalom.

Deveria gravar os insights, para depois verter ao papel, mas tenho a certeza que causaria espécie, falando de coisas aleatórias, ficaria um caso curioso, e de curioso basta O Curioso Caso de Benjamin Button. Aqui foi mais um parágrafo para a pausa da piadinha super, super engraçada.

Bueno, como amanheci ‘universitário’, Yalom me foi apresentado – e aos outros 84 colegas matriculados na mesma sala; que tinha audiência máxima nos períodos em que as ausências chegavam próximas a 25 %, tendo em vista a frequência de 75 % a ser observada contratualmente pelo aluno - por um professor de Teoria Geral do Processo. Lembro que exercia a magistratura em Santa Rosa e tinha São Jerônimo como cidade natal.

Esse professor, em ímpeto de indignação, certa noite teceu comentário sobre “poder”, em sentido amplo:

- “É como um grande tonel, cheio de excremento...”

Ele não falou o termo excremento, estou normalizando e respeitando a(o) minha(eu) leitora(o).

Outra feita, teceu ilação sobre ‘faz de conta’:

- Eu faço de conta que dou aula;

- Vocês fazem de conta que prestam atenção;

- A Administração faz de conta que está tudo bem.

Na apresentação do escritor em comento, tinha sido lançada a obra “Quando Nietzsche Chorou”, e o professor relatou que não se termina um livro de Yalom da mesma forma como se começou…

Agradeço parapsicologicamente ao maestro, mesmo tendo sido omisso aos conteúdos afeitos à disciplina. Essa parte eu tirei proveito, chegando a memorizar um trecho que diz: “as coisas que você fez o colocaram nisso; as que fizer, poderão tirá-lo disso”.

E voltamos à teoria do Legenda.

Deve ser conhecimento universal, tradição, não pode ser coincidência. Ou talvez circunstância.

Creio que não, não tem lógica.

Lógica que, como brinca o professor Ítalo Romano Eduardo, é como procurar um chapéu preto, num quarto desprovido de iluminação, sabendo que o mesmo não está lá.

Ausência de lógica foi o presente texto, agradecendo a audiência e a paciência, como diria o grande filósofo Fausto Silva, pelo tempo dispendido em sua leitura, e que talvez tenha sido de valia para, pelo menos, preencher as horas de um domingo, ou de outro dia qualquer, nesse inverno pandêmico ou em vindouras épocas. Avante!

P.S.: Inconscientemente, o fecho ficou analogamente parecendo com o presente na obra “Você não merece ser feliz, como conseguir mesmo assim”, do Craque Daniel. Lamento. E ‘até’!

domingo, 10 de maio de 2020

Rascunho de um bilhete suicida (Sérgio Sant’Anna)

Quando anoiteceu, saí à rua, disposta a entregar-me ao primeiro que passasse, por dinheiro. Depois de consumado o ato, não tive coragem de cobrar. Descobri que era uma amadora irremediável


Esse “Rascunho” foi escrito para ser dito pela personagem Ercília, da peça Vestir os Nus, de Luigi Pirandello, que será encenada pelo Atelier de Manufactura Suspeita, em São Paulo.

ERCÍLIA:

– O bilhete do suicida é o mais breve dos gêneros literários.

– Para confirmar a tese, telefonei para o maior entendido no gênero, o contista brasileiro Dalton Trevisan. Ele atendeu e disse: “Eu não estou.”

– Portanto, estou só. Aliás, sem o advérbio, seria um bilhete perfeito. Só que mentiroso. O que mais tem é gente fungando no meu pescoço. Um oficial de Marinha, um escritor, a senhoria dele, um jornalista e até um cônsul.

– Eu era babá da filha do cônsul, mas um dia ele me atraiu e, enquanto me comia, a menina caiu do terraço da casa e morreu.

– Não. “Me comia” fica muito mal num último bilhete. “Enquanto eu me entregava a ele”, fica melhor.

– Antes eu já perdera a virgindade para o oficial de Marinha, que me prometeu casamento.

– Depois da tragédia, cheia de remorsos, fui para Roma e descobri que meu noivo havia ficado noivo de outra.

– O dono do hotel vagabundo onde me hospedara disse que, se eu não pagasse a conta, me poria na rua aquela noite.

– Quando anoiteceu, saí à rua, disposta a entregar-me ao primeiro que passasse, por dinheiro. Mas, depois de consumado o ato, não tive coragem de cobrar. Descobri que eu era uma amadora irremediável.

– Só me restava assim, tão dura e desonrada, tomar a cápsula de veneno que trazia comigo, como saída de emergência.

– Mas isso não é um bilhete de suicida. Merda… Oh, desculpem-me. É o resumo da minha história.

– Se coubessem reflexões num bilhete do gênero, eu poderia me perguntar se não trazia comigo uma vocação para dar e para o suicídio.

– Assim: primeiro o desejo de morrer, depois a busca dos motivos.

– Na Roma antiga, como na Grécia, suicidar-se ou foder era normalíssimo também para as mulheres. Não, não. Esse verbo, “foder”, não deve entrar no meu bilhete.

– Mas estamos em 1922 e fui socorrida e salva num hospital.

– É verão, nada acontece na cidade e um jornalista veio entrevistar-me e acabou arrancando de mim os meus segredos mais íntimos. Eu não imaginava que ia ocupar a página inteira de um jornal, com fotografia e tudo. São uns abutres, os jornalistas. Entre outras coisas, disse que o motivo principal para me matar fora a traição do oficial de Marinha.

– Foi então que veio visitar-me o grande escritor. Lera minha triste história no jornal e convidou-me para morar em seu apartamento. Disse que me queria para um romance.

– Fiquei honradíssima, claro, em ser personagem do romance de um grande escritor.

– Mas, chegando em sua casa, ele falou que me queria para viver um romance de verdade com ele. Eu era magra, frágil, pálida, mortiça. O seu tipo.

– Alguém já me advertira de que a maior parte dos escritores escreve para comer as mulheres, tirando as alegres, claro. Deste parágrafo eu não retiraria o “comer”. Le mot juste, como aconselhava o grande ídolo deles, Gustave Flaubert.

– Já os jornalistas nem precisam de mulher. Eles gozam com suas próprias matérias sórdidas.

– Só que o apartamento não era do escritor, e a senhoria dele me tratou como a uma vagabunda. O escritor a pôs para fora e, quando ela voltou, tratou-me como se eu fosse sua filha. Pois lera os jornais e descobrira que eu me tornara uma celebridade.

– O escritor mostrou-me sua cama, que ele me cederia com prazer. Mostrou-me também o seu escritório, uma bagunça inacreditável. Mas é silencioso, ele gabou-se, desde que não se abra a janela, pois os ruídos da rua são como um poema ou uma composição musical futurista.

– Já me caíra nas mãos, por acaso, o Manifesto Futurista, e vi que os membros do movimento desprezavam as mulheres. Preferiam as locomotivas. Marinetti e seu bando de veados.

– Mas o teatro deles é interessante.

– Porra, minha linguagem se torna cada vez mais chula e nunca chego ao ponto. Ao bilhete.

– Mas falta ainda contar que minha vida na residência do escritor virou um entra-e-sai danado, como no teatro. Vieram ver-me, cada um com seus motivos, o cônsul, o jornalista e o meu ex-noivo, que deixara a Marinha. Queria de novo casar-se comigo, reparar o seu erro, emocionado porque eu tentara matar-me por sua causa.

– Eu o fiz ver que aquilo foi o primeiro motivo que me veio à cabeça, para dizer ao jornalista. Na verdade, o desprezava.

– Um oficial de Marinha, depois que despe o uniforme, é lamentável, com o seu penduricalho ridículo.

– Acabei caindo fora, a pretexto de buscar minha mala que ficara no hotel, pois o escritor pagara a minha conta.

– Nela havia uma outra cápsula de veneno.

– Mas, porra, nada de bilhete, ainda.

– Quem sabe não ficaria melhor um bilhete meio abstrato, vago, simbolista?

– Assim: uma certa lassidão, a noite que não chega no verão dessa cidade em ruínas. O som de uma lira imaginária no longo crepúsculo de fogo.

– Ou algo mais triste e concreto. A lembrança de um filhote de pássaro agonizante na calçada enquanto multidões de futuristas continuam a passar. Eu sou esse pássaro.

– Ou: morro porque desejo para sempre as doces trevas, um eclipse total do sol e do ser. Caralho, que poesia ruim.

– Ah, eureca! Talvez o mais breve e eloqüente dos bilhetes de suicida seja o bilhete nenhum.

– Mas os gestos precisos, sim.

– Tomo o veneno e corro de novo, para o apartamento do escritor. Antes de entrar, despi-me de toda a minha roupa.

(Mudando o tom de voz, para um mais masculinizado. Ou eu mesmo, Sérgio Sant’Anna, posso dizer essa fala:)

– O que você quer? – ele disse, vendo-me tonta e nua, caindo sobre minha mala.

– A sua cama – eu disse.

– À vontade – ele disse, esfregando as mãos de cobiça por meu corpo.

– Ambígua até na morte – ele acrescentou. – Assim será no meu romance.

– Também, que vantagem, pensei. É um profissional.

– E se conseguir trancar a porta por dentro, fora das vistas dos outros, talvez se deite comigo em minha agonia, ou mesmo depois de minha morte.

– Tenho o romance perfeito, em mais de um nível – ele diz, trancando a porta.

– E eu, na agonia, aprendo mais um segredo daquele ofício dúbio.

– Mas, e o bilhete? Depois de todas essas palavras, vejo-o cintilar, breve e belo:

– ESTA AQUI NÃO PÔDE VESTIR-SE NEM NA MORTE!

Ela rasga seus papéis em pedacinhos, que atira para o público, como confete:

– Mas melhor ainda, repito, é o silêncio. Tout le reste est littérature.

A frase em maiúscula é mesmo de Pirandello, embora não haja nenhum bilhete.

Fonte: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/rascunho-de-um-bilhete-suicida/
Acesso: 10/05/2020

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Arguição de Tese - Piada (Fernando de Barros e Silva)

O arguidor fala ao sujeito que está defendendo a tese:

"A sua tese tem coisas boas e coisas novas.

O problema é que as coisas novas não são boas,

e as coisas boas não são novas."


Fonte: 
Foro de Teresina #4: Um elefante na eleição, o recado do Tocantins e a dança dos números (20:33) 
https://www.youtube.com/watch?v=B__EOvwkkrE&list=PLn_YkZF2TTNswsNEGCLOCXJIJdHTcBj_k&index=93&t=0s
Acesso: 15/02/2020

Sete sílabas de terra vermelha (Paulo Bentancur)

  Montado em sete sílabas, Jayme Caetano Braun (1994 – 1999) não descuida um verso sequer o generoso horizonte da lírica repentista. O seu ...