Acesso 18 agosto 2026
terça-feira, 18 de agosto de 2026
quinta-feira, 13 de agosto de 2026
domingo, 28 de junho de 2026
Trem de Alagoas [Livro e Música] Maria d'Apparecida, Ascenso Ferreira & Guazelli
PDF: https://drive.google.com/file/d/1UAUk7lZrnx-2wDAsI3d4i8PykadiQYdY/view?usp=sharing
Livro TREM DE ALAGOAS ASCENSO FERREIRA ILUSTRAÇÕES DE GUAZELLI MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO PNBE 2012 1º ao 5º Ano Ensino Fundamental VENDA PROIBIDA Martins Fontes, 1ª ed., 2009 Trilha Maria d'Apparecida - Trem de Alagoas (Ascenso Ferreira-Waldemar Henrique) Jardin eclectique
sexta-feira, 27 de março de 2026
História Moderna – N. Efímov
Da Santa Aliança (1815) até as vésperas da revolução de 1870
A crise da França feudal-absolutista – Os camponeses – A decadência da agricultura
O camponês era obrigado a entregar ao latifundiário uma parte da colheita (geralmente a quarta parte), ou a pagar-lhe seu valor em dinheiro. Outra parte da colheita era subtraída ao camponês pelos ávidos sacerdotes, através do dízimo. Se o camponês morria, apresentava-se o mordomo do latifundiário e cobrava um elevado imposto pela transmissão da herança. Para passar os cereais e demais produtos por uma ponte, ainda que ela tivesse sido construída pelos próprios camponeses, o latifundiário – o senhor – cobrava um imposto especial. Para moer os cereais no moinho do senhor, para cozinhar o pão no forno do amo, tinha que pagar em separado. Inclusive no caso de o senhor não dispor de um forno para cozinhar o pão, era igualmente exigido do camponês o pagamento do imposto anual, implantado outrora para uso do forno. A ponte ou o moinho podiam desaparecer, porém o imposto anual pela passagem ou pela moagem era cobrado pontualmente.
Eram conservados ainda, na França, outros tributos medievais aos camponeses. Enquanto se divertia na caça, o senhor tinha o direito de talar os campos semeados dos camponeses, passando através deles com seus convidados a cavalo e com seus cães atrelados. Cada latifundiário tinha um pombal. As pombas devastavam as plantações dos camponeses, porém estes, no caso de matar alguma pomba, eram ferozmente castigados. Também eram conservadas muitas outras cargas, se bem que não tão pesadas, mas humilhantes. Durante a noite, nas casas senhoriais, as rãs tinham que ser espantadas para que os senhores pudessem dormir tranquilos. Em seus encontros com o amo e seus funcionários, o camponês era obrigado a fazer profundas reverências, e a beijar a mão ou as costas do senhor.
Não havia onde apresentar queixas contra o senhor. O próprio latifundiário, ou algum juiz por ele nomeado, administrava a justiça. Nos tribunais eram aplicados tormentos.
O camponês não dependia somente do senhor. Era gravado também com pesados impostos em favor do rei. O camponês pagava um imposto de bens (a talha), e além desse, complementarmente, em imposto de renda (a vigésima), o chamado imposto real. Mas isso ainda era pouco: havia, também, o imposto por cabeça (a capitação). Além dos impostos diretos, o camponês ainda era esmagado pelos indiretos.
Também o consumo do sal foi gravado com pesados tributos. Para que o camponês não se negasse a comprar o sal, que se tornava desproporcionalmente caro, era obrigado a adquirir pelo menos 7 libras por ano e por pessoa, “para a panela e o saleiro”, isto é, para o consumo na alimentação. Para curtir e para o gado, o camponês tinha que comprar sal em separado. Para evitar que o camponês comprasse sal de contrabando, os contrabandistas eram enviados durante nove anos às galés, ou seja, aos trabalhos forçados como remadores, encadeados em seus bancos. No caso de reincidência, o traficante de contrabando de sal era enforcado. Também eram ferozmente castigados os camponeses que compravam sal sem pagar o respectivo imposto.
Destacamentos especiais de inspetores armados expulsavam os camponeses dos lugares de onde podiam eles próprios extrair o sal.
O vinho foi gravado com um alto imposto. Para a França que tinha muitos vinhedos e cujos vinhos gozavam de fama em todo o mundo, esse imposto era particularmente importante. Vinte e sete mil inspetores fiscais revolviam as adegas camponesas, mediam os tonéis, contavam as garrafas.
Nas barreiras, cobravam-se de todos os pedestres e viajantes pela passagem. Não menos de um milhão e meio de camponeses, na França, foram reduzidos à situação de vagabundos, que perambulavam por todas as partes e se dedicavam ao roubo. As grandes estradas na França não tinham qualquer segurança contra os assaltantes.
Certo bispo, pouco antes da revolução, escrevia: “O povo de nossas aldeias vive na mais horrível pobreza, em cavernas vazias, sem camas nem mesas. Entre a maioria escasseia o alimento e não dá nem para meio ano até mesmo a farinha de centeio e de aveia, seu alimento principal. Mas, também, desse alimento, o camponês se vê obrigado a privar-se e a privar os filhos, para poder pagar os impostos”.
Se o camponês ficava impossibilitado de pagar os impostos, punham-se à venda seu gado e seus instrumentos de trabalho.
A luta do povo grego pela independência
O grande país da Antiguidade, a Grécia, no século XIX era uma província turca de segunda ordem. Nos vales da Grécia viviam camponeses os raias, que conservavam o cristianismo, gravados com um pesado tributo, em benefício dos conquistadores turcos. Nas montanhas viviam os belicosos cleftas, camponeses montanheses, que infundiam medo aos turcos com suas incursões. Nas ilhas estava fortemente desenvolvido o comércio: quase todo o comércio de cereais da Rússia com a Europa ocidental era realizado por mercadores gregos intermediários.
Em 1821 teve início, na Grécia, a luta pela independência, que se prolongou por 8 anos, até 1829. Aproveitando-se das divergências existentes entre a Turquia e as grandes potências europeias (em 1827, a esquadra anglo-franco-russa unida iniciou, na baía de Navarino, ações bélicas contra a frota turco-egípcia), os gregos conseguiram que seu país fosse reconhecido como Estado independente. Na luta do povo grego por sua independência participou o grande poeta inglês Byron, que sacrificou a vida pela causa da libertação da Grécia, morrendo de febres na frente de combate.
As teorias políticas reacionárias e a corrente reacionária no romantismo
O conde José de Maistre, de Sabóia, em 1792, depois da incorporação Da Sabóia à França revolucionária, abandonou sua pátria e entrou a serviço, primeiramente, do rei da Sardenha e, depois, radicou-se em Petersburgo, na corte czarista. Com o fim de lutar contra as revoluções, De Maistre propunha restaurar na Europa o poder político ilimitado do Papa romano. Entusiasmava-se com o regime medieval de castas e apelava para a restauração desse regime. Na Rússia, De Maistre elaborou um “Memorandum sobre a instrução pública na Rússia”, no qual sugeria “não prestar, de modo algum, proteção à extensão dos conhecimentos científicos entre as camadas inferiores do povo”. Esse obscurantista afirmava que “as ciências naturais são diretamente nocivas”. Considerava perigosa a literatura e propunha proibir, em geral, o ensino da história. “Toda nova invenção” – dizia De Maistre – é simplesmente uma desgraça”.
O realismo na literatura. Balzac
“Devorais uns aos outros como aranhas. Não existem princípios, há somente circunstâncias, e o homem inteligente se adapta a elas para depois transacionar com elas de maneira nova”.
Indústria, transporte e comunicações
Os instrumentos mecanizados e as máquinas a vapor apareceram pela primeira vez na Inglaterra nos fins do século XVIII. No século XIX, a produção fabril se estendeu também aos demais países da Europa e à América do Norte. As próprias máquinas passaram a ser fabricadas, não à mão, como antes, mas por meio de outras máquinas.
O desenvolvimento da técnica trouxe muitas modificações no modo de vida. Algumas delas foram as velas de estearina (em lugar das de sebo), as lâmpadas de querosene, a venda de roupas feitas, a tapeçaria de papel. Nas ruas apareceram, pela primeira vez, os lampiões à gás.
Nesse mesmo período verificou-se também uma transformação básica no transporte. Em 1807, Fulton adaptou uma caldeira, uma máquina a vapor e rodas de remo a um navio fluvial. O vapor de Fulton partiu de Nova York e na sua primeira viagem percorreu 240 quilômetros pelo rio. Entusiasmado pelos resultados dessa viagem, Fulton escrevia: “Adiantei-me a todas as lanchas e embarcações. Parecia que todas elas estavam ancoradas”.
Pouco depois, os vapores adaptaram-se à navegação marítima. Em 1819, o primeiro vapor realizou uma viagem através do Atlântico, porém numa parte da viagem, por falta de carvão, foi preciso navegar a vela.
O emprego, com êxito, do vapor no transporte aquático levantou o problema de se era possível também utilizá-lo para o transporte por terra. Bem depressa comprovou-se que era possível.
Em 1814, o filho de um operário inglês, engenheiro autodidata Stephenson, construiu a primeira locomotiva, que conduzia oito vagões e fazia seis quilômetros por hora. Em 1825, foi inaugurada na Inglaterra a primeira estrada de ferro de utilização pública, cujos trens desenvolviam uma velocidade de 10 quilômetros. Nos meados do século XIX, os trens já alcançavam uma velocidade de 50 quilômetros por hora.
Nos primeiros tempos, as estradas de ferro infundiam medo. Os médicos alemães, por exemplo, afirmavam que era preciso proibir a construção de estradas de ferro, e se isso não fosse possível, era preciso cercá-los de valas mais altas do que um homem para que o gado não se assustasse e as pessoas não enlouquecessem. Os reacionários, porém, não puderam impedir a construção de estradas de ferro. Em 1830, a extensão da rede ferroviária em todo o mundo era somente de 332 quilômetros. Cinco anos mais tarde essa extensão alcançava 8.000 quilômetros e, em 1870, mais de 200.000 quilômetros.
Um dos meios atuais mais importantes de comunicação, o telégrafo elétrico foi inventado, em 1837, pelo norte-americano Morse. Logo começaram a ser estabelecidas as primeiras linhas telegráficas de utilidade pública.
Fonte:
Publicação: Centro do Livro Brasileiro
Lisboa – Porto
Arranjo Gráfico: Esfera Publicidade
Impressão e Acabamentos: Agapê Estúdio Gráfico
Páginas: 27/28/104/105/116/240
Exemplar disponibilizado pela Biblioteca de Rua ACISAP.
terça-feira, 24 de março de 2026
Sagamorosa/Gabriely Santos - Destaques
Amor é essa coisa que começa de quase nada e termina de quase tudo.
Estamos todos nessa mesma luta, talvez precisemos todos concluir que somos apaixonados e apaixonantes – só os ‘quens’, quandos, os quês e porquês variam… que possamos tentar sofrer menos um pouco. Ou, pelo menos, sobreviver, porque morrer de amor saiu de moda depois do século XVIII.
O engraçado é como as palavras são tudo e podem não significar nada.
Nada nunca é repentino, tudo é repetido, decorado e desgastado.
...todo mundo e Proust sabem que os verdadeiros paraísos são os paraísos perdidos.
O ser humano existe diante do outro e é o que é por causa desse outro.
… não foi Shakespeare que disse que lembrar é fácil para quem tem memória, esquecer é difícil para quem tem coração?
E sempre pode ser só uma crise. É preciso se perder para se encontrar, diz o clichê.
Precisamos dessa ilusão de que o mal é o outro, o estranho, não quem tá perto; é sempre o país vizinho, o sexo do outro ou o que o outro faz com esse sexo, a cor de sua pele, a sua classe social. O mal tá nele, no diferente. Assim, continuamos idiotamente fechando os olhos pros erros de quem consideramos nossos iguais para cultivarmos ódio do que é diferente, ao invés de, comparar e questionar e encontrar o mal em nós mesmos, pra entender que tá todo mundo errando e acertando o tempo todo.
Porque as pessoas e coisas só importam enquanto existem ali na função de te amar ou entreter, depois elas somem em suas próprias histórias.
Odiamos o não. Durante grande parte de nossas vidas ele representa o paraíso negado, a delícia destruída, o delírio desmontado em dilúvio. O não é o grande fim da trajetória do nosso desejo. Odiamos com amor e desprezo a boca que nos desfere essa palavra. Independente de seus motivos.
Fonte: Santos, Gabriely. Sagamorosa: camaleões. Curitiba: Eu-i, 2023, p. 11/13/17/58/59/74/81/96/133.
Capa: Jéssica Iancoski
terça-feira, 6 de janeiro de 2026
domingo, 4 de janeiro de 2026
Historia topographica e bellica da nova colonia do sacramento do rio da prata (1900)
Historia topographica e bellica da nova colonia do sacramento do rio da prata
Fonte: Acervo Digital Bibliteca Brasiliana Guita e José Mindlin/USP
domingo, 2 de novembro de 2025
quinta-feira, 10 de abril de 2025
Patrimônio Ferroviário no Rio Grande do Sul (Livro)
Inventário das Estações (1874 - 1959)
Downloads - 014 Livro Patrimônio Ferroviário no RS (4 partes em PDF)
Fonte:
http://www.iphae.rs.gov.br/Main.php?do=DownloadDetalhesAc&item=57600
Acesso 14/04/2025
IPHAE - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado
P214 Patrimônio Ferroviário no Rio Grande do Sul. Inventário das Estações: 1874 - 1959/Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Secretaria da Cultura do Rio Grande do Sul: pesquisadoras Alice Cardoso e Frinéia Zamin. Porto Alegre: Palotti, 2002.
p.:II.
1. Patrimônio cultural: ferrovias: Rio GRande do Sul.
2. História: Ferrovias: Rio GRande do Sul.
3. Arquitetura ferroviária: Rio GRande do Sul.
I. Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado.
II. TítuloCDU - 351.71:008:656.21 (816.5)
Ficha elaborada pela Biblioteca Pública do Estado
Capa: Assessoria de Imprensa/SEDAC
sexta-feira, 16 de agosto de 2024
Último parágrafo (antes da conclusão) da teoria das emoções de Sartre (1939)
Junto à emoção, uma consciência reflexiva pode sempre se dirigir. Nesse caso a emoção aparece como estrutura da consciência. Ela não é qualidade pura e indizível, como é o vermelho cor de tijolo ou a impressão pura de dor – e como ela deveria ser segundo a teoria de James. Ela tem um sentido, ela significa alguma coisa para minha vida psíquica. A reflexão purificadora da redução fenomenológica pode compreender a emoção na medida em que ela constitui o mundo sob a forma mágica. “Acho-o detestável porque estou furioso.” Mas essa reflexão é rara e necessita motivações especiais. Geralmente, dirigimos junto à consciência emotiva uma reflexão cúmplice que percebe, certamente, a consciência como consciência, mas enquanto motivada pelo objeto: “Estou furioso porque ele é detestável”. É a partir dessa reflexão que a paixão vai se constituir.
Capa: Projeto gráfico de Néktar Design
Foto da capa: Jean-Paul Sartre, 1951. Foto de Philippe Halsman (Magnum Photos)
Fonte: Título original: Esquisse d’une théorie des émotions. Primeira edição na Coleção L & PM Pocket Plus, agosto de 2006. Sartre, Jean-Paul, 1905-1980. Esboço para uma teoria das emoções. Tradução de Paulo Neves. Porto Alegre: L & PM, 2013, p.89
quinta-feira, 15 de agosto de 2024
Paris, 1800 (François Taillandier)
As ruas do Marais estão, nessa época, longe de serem as de um bairro da moda e altamente cobiçado em que hoje se transformaram. Um pouco mais tarde, quando o jovem Victor Hugo buscar um alojamento módico para ele e sua família, escolherá uma casa na Place des Vosges… Esse hoje renovado e prestigiado bairro, que se desenvolveu no início do século XVII, é então o bairro dos lojistas, dos artesãos, dos funcionários públicos, dos que vivem com pequenas rendas. Estudante e depois escrevente de procurador, o jovem Balzac saltita por essa grande cidade de ruas estreitas, barulhentas, bastante sujas, da qual descobre, no escritório do seu patrão, as pequenas questões de casamento e herança, os conflitos comerciais, as comédias e os desastres.
A Paris do início do século XIX oferece uma fisionomia bastante diferente da que conhecemos e que é, para muitos, o legado de Haussmann.
A não ser pela Notre-Dame e a parte mais antiga do Louvre, mais ou menos cercadas de casebres, assim como o Panthéon (que a Restauração chama novamente de igreja Sainte-Geneviève) e os Invalides, construídos no reinado de Louis XV, nenhum dos pontos de referência que estruturaram a Paris de hoje está presente. A cidade se estabelece entre os grandes bulevares do norte e, ao sul, na margem esquerda do Sena, os traçados dos atuais Boulevard de l’Hôpital, Saint-Marcel e de Montparnasse até os Invalides. Fora desses limites já estão os faubourgs, a periferia. Há terrenos baldios no que se chama a planície de Grenelle, Vaugirard é um vilarejo, veem-se hortas no atual 11º distrito. As grandes artérias como o Boulevard Saint-Michel ou Sébastopol não existem. O centro de Paris é um entrelaçamento de ruelas estreitas, frequentemente insalubres, das quais Restif de la Bretonne e Louis-Sébastien Mercier, antes e durante a Revolução Francesa, nos deixaram quadros surpreendentes.
Um elefante reina no meio da Place de la Bastille, maquete de gesso e ferro de um monumento projetado durante o Império. Hugo situará nas entranhas desse elefante um episódio célebre de Os miseráveis.
A cidade possui mais água limpa desde que Napoleão abriu o canal de Ourcq para revitalizá-la. O cunhado de Balzac, Surville, marido de Laure, que é engenheiro, participa de sua manutenção. Como todos os grandes soberanos, Napoleão havia sonhado em transformar Paris e ordenou obras de embelezamento das quais restam projetos, titânicos aliás, que não teve tempo de levar a cabo, o que talvez seja bom. O imperador deixará em Paris apenas algumas pontes marcadas por um N. O Arco do Triunfo está sendo construído e não é a monarquia restaurada que vai se apressar para impulsionar os trabalhos…
A Concorde, já ornada de prédios grandiosos de Gabriele, que datam de Louis XV, é um terreno baldio. Murmura-se que os animais de tração bufam ao passar pelo local da guilhotina de tanto que a terra, naquele lugar, impregnou-se de sangue. A Champs-Elysées é um passeio arborizado onde se vai durante o dia tomar ar fresco e assistir a números de saltimbancos, mas que é evitada à noite: o lugar não é muito seguro, e a prostituição impera. A atual Avenue Montaigne chama-se então “o caminho das viúvas”, o que diz muita coisa.
Em 1815, é nessa mesma área que os cossacos russos estabelecem seus quartéis, o que marcará por muito tempo a memória dos parisienses.
É que a história está em ebulição. Certamente não se ouvia no colégio dos Oratoriens o deslocamento dos exércitos e o estrondo dos boletins de vitória. Nessa época, Honoré tudo assiste dos camarotes. Não resta dúvida de que a família preocupa-se com os acontecimentos políticos: a situação do sr. Balzac lhe impõe que seja bem visto pelo poder, esteja este nas mãos de quem estiver. A desastrosa e terrível expedição a Moscou marcou, no Império, o início do fim. Depois de anos de uma guerra atroz, impiedosa, ainda a Espanha escapou do domínio da águia. Os ingleses se estabeleceram em Portugal. Em 1813, a coalizão formada por Prússia, Rússia, Alemanha, Inglaterra e Áustria inflige ao imperador uma derrota em Leipzig. Então é possível vencê-lo?! No ano seguinte, face aos adversários decididos a acabar com ele, as forças francesas lutam no seu próprio território. Champaubert, Montmirail, Château-Thierry… Os amadores de estratégias militares afirmam que o gênio do pequeno tenente corso nunca foi tão brilhante. Talvez, mas morre-se por nada, e de agora em diante os franceses o sabem. Ainda mais as francesas, a quem o Ogro tomou os irmãos, os maridos e, agora, os filhos.
Em 31 de março, os Aliados estão na capital. Napoleão abdica em 6 de abril. Louis XVIII, que aguardava os acontecimentos na Bélgica, volta a Paris.
Menos de um ano depois, enganando a segurança dos navios e espiões, o Ogro consegue deixar a ilha de Elba. Desde a sua chegada no continente, é saudado pelo mesmo povo que o vaiava alguns meses antes. As coligações se multiplicam. O marechal Ney, que enquanto isso havia se aliado à monarquia, volta atrás e se joga aos pés do Imperador. O rei Louis XVIII foge. Napoleão retoma as rédeas. Tentativa vã: cem dias depois, em Waterloo, o Imperador é esmagado. Esse último retorno custaria ainda alguns milhares de vidas humanas à Europa…
Dessa vez, trata-se de colocar a França em ordem. Pensa-se até em dividi-la em duas, criando um reino distinto no Sul, que teria Toulouse por capital. O duque de Angoulême, sobrinho do rei, ocuparia o trono.
Os Aliados tomam novamente Paris. É difícil imaginar o trauma que isso significa para os franceses. Desde sempre a cidade venera Santa Genoveva, que dizem ter desviado as tropas de Átila da capital com as suas preces. Homem algum se lembra de Paris tomada jamais! Um pouco mais tarde, sob Louis-Philippe, se buscará dotar a cidade de novas defesas: aquelas famosas fortificações, os fortifs, que cederão o espaço necessário, depois de 1960, à construção da perimetral.
Esse é o ambiente no qual se desenrola a adolescência de Honoré de Balzac. O império desmoronado deixa uma França militarmente vencida, profundamente dividida depois de 25 anos de perturbações. Mais de um milhão de franceses morreram em vinte anos nos campos de batalha. Vive-se em meio a uma guerra civil. Os acertos de contas, as delações, os processos sumários se multiplicam. Dumas situará nesses momentos de distúrbio o seu grande romance, O conde de Montecristo.
São os tempos do Terror Branco, que foi, aliás, menos sistemático do que se costuma afirmar: o velho Louis XVIII, depois de ter passado boa parte de sua vida no exílio (exílio esse que não foi, de modo algum, sempre dourado), aspira à tranquilidade e esforça-se, com relativo sucesso, para refrear o espírito revanchista de uma pequena parte de seu entorno, a começar pelo seu irmão, o conde de Artois, que reinará um pouco mais tarde, com o nome de Charles. Diz-se que Louis XVIII era egoísta, medíocre, prudente até a covardia: o que é, sem dúvida, verdade, mas é graças a esses defeitos que ele presta serviços à França, que, então, precisa de tudo, menos de um provocador. Será o primeiro a conseguir fazer funcionar nesse país um regime de tipo burguês e parlamentar. Esse que os franceses chamam de “porcão” traz, ao menos, a paz.
Ao longo desses vinte anos, aconteceram muitas coisas que seriam impensáveis durante a velha monarquia. Filhos de artesãos tornaram-se marechais do Império e têm títulos pretensiosos, os de uma nova e falsa nobreza, recuperada em toda a Europa: duque de Elchingen, duque de Otrante ou príncipe de Moskowa! Camponeses fizeram fortuna; burgueses desconhecidos, vindos das províncias, votaram a morte do descendente de São Luís. Todos aqueles que tinham boas razões para temer uma Restauração foram os sustentáculos mais zelosos da ditadura imperial. Durante mais de quinze anos, os produtos franceses tiveram mercado em toda a Europa. Os fornecedores dos exércitos ganharam milhões. A velha nobreza, na maioria dos casos, está arruinada.
Se Napoleão soube organizar a França depois do período revolucionário e dar-lhe uma estrutura administrativa e legislativa da qual diversos aspectos ainda permanecem em vigor, ele deixa para trás uma França demográfica e politicamente fraca, que irá semear as futuras paixões nacionalistas. O triste sr. de Metternich, o cínico sr. de Talleyrand é que vão assegurar à Europa quase meio século de paz. Mas a preferência popular é injusta: Napoleão permanece o ídolo do povo francês, especialmente entre a geração mais jovem.
Capa: Projeto gráfico – Ed. Gallimard
Retrato anônimo de Balzac. Rue des Archives/The Granger Collection NYC. Extrato do manuscrito O lírio do vale.
Fonte: Taillandier, François, 1955-. Balzac. Tradução de Ilana Heineberg. Porto Alegre: L & PM, 2006. Coleção Biografias L & PM Pocket, vol. 556, p. 25/29
sábado, 27 de abril de 2024
Destaques de Dois Irmãos (MIlton Hatoum)
(...) as palavras parecem esperar a morte e o esquecimento; permanecem soterradas, petrificadas, em estado latente, para depois, em isenta combustão, acenderem em nós o desejo de contar passagens que o tempo dissipou. E o tempo, que nos faz esquecer, também é cúmplice delas. Só o tempo transforma nossos sentimentos em palavras mais verdadeiras, (…)
Cedo ou tarde, o tempo e o acaso acabam por alcançar a todos.
(…) a vingança é mais patética que o perdão.
Alguns dos nossos desejos só se cumprem no outro, os pesadelos pertencem a nós mesmos.
Fonte: Hatoum, Milton. Dois irmãos. São Paulo: EDITORA SCHWARCZ LTDA/Companhia das Letras, 2000, epub.
domingo, 14 de abril de 2024
Cancioneiro de Otto Brod (Adair Philippsen)
Estabelecido em Linha Taquaruçu (f. 1973). Privilegiada voz de baixo e pessoa muito divertida, mantinha rico repertório de canções alegres, na maioria pouco conhecidas, pois sem publicações em textos. Passou-os para seu sobrinho, padre Ivo Bersch, que os organizou no cancioneiro Recordar é Viver. Entre elas:
Das ABC
Die Modendamen
S’war mal ein kleiner Mann
Ein Soldat in einer Schenke
Holadiri
Klein, klein dar sie nicht sein
Bei Kaiserin Phylomine
Der Flöh Fang
Fonte: Philippsen, Adair. Um século de encanto. Breve histórico do Coral Santa Cecília de Santo Cristo. Santa Rosa: Public Gráfica e Gravadora, 2016, p. 18
Dialeto (Adair Philippsen)
(…) os cantores, no dia a dia, falavam o Hunsrückish, variedade linguística de Hunsrück¹, mas que sofreu o “aportuguesamento” nas colônias devido ao reduzido contato com falantes de português, agravado pela falta de oferta do ensino oficial nas áreas interioranas.
Surgiu então o Hunsrückisch Platt, verdadeiro símbolo da cultura teuto-brasileira, contudo marcado por palavras estranhas ao Hochdeutsch², donde a inicial dificuldade de compreensão, como destaca Roque Danilo Bersch, resultou em variante linguística pouco estudada.
¹O Hunsrück é uma serra de montanhas baixas, às margens do Rio Reno e Mosela, no oeste da Alemanha, região de onde partiram centenas de famílias para o Brasil no começo do século XIX, impulsionadas pelo sonho de um mundo melhor nas selvas do Brasil.
²Variante oficial (standard ou padrão) do alemão.
Fonte: Philippsen, Adair. Um século de encanto. Breve histórico do Coral Santa Cecília de Santo Cristo. Santa Rosa: Public Gráfica e Gravadora, 2016, p. 24
Cubiertos (Causo do Maestro Guido por Adair Philippsen)
Encontro de dois dias em Monte Caseros, Argentina. No convite, a observação:
- Por favor, traigan cubiertos.
Desde os doze anos, com seu irmão Ivo, Guido cantava música de Miguel Aceves Mejia, guarânias, boleros e tangos. Julgava-se pós-graduado em espanhol e por isso recomendou aos coralistas:
- É fim de inverno, vamos mais ao Sul, em campo aberto, na margem do rio, pode ser frio. Levemos, pois, cobertores.
Na primeira noite os anfitriões serviram boi assado com couro e pelo, bastante alho e outros temperos. Muitos pedaços com mais pelo do que carne – o Kuno Bieger (in memoriam), na viagem de retorno, ainda cuspia pelos de boi…
No segundo dia almoçaram na sede da gendarmeria na beira do rio Uruguai. Na entrada pediram:
-¿Trajeron los cubiertos?
Só então descubriram que cubiertos são talheres!
E o ônibus abarrotado de cobertores.
Fonte: Philippsen, Adair. Um século de encanto. Breve histórico do Coral Santa Cecília de Santo Cristo. Santa Rosa: Public Gráfica e Gravadora, 2016, p. 52
terça-feira, 9 de janeiro de 2024
Espaço e escolhas (Fefe Resende)
A tela pode ser o que a gente faz dela. Bem-estar digital tem a ver com escolhas! E é muito possível pensar, compartilhar truques e técnicas, experimentar exercícios no próprio dia a dia e seguir tentando estabelecer um bom relacionamento da gente com o nosso tempo, com os nossos valores e importâncias (…)
Organizar nossos próprios limites é um fundamento de fazer boas escolhas. A psiquiatra americana Pooja Lakshmin diz que um caminho pra conseguir é se ligar nos ‘nãos’ que a gente precisa sustentar para abraçar os nossos ‘sims’:
“É importante sempre voltar para uma posição de autoavaliação e reflexão: autocuidado de verdade envolve criar espaço para você – seus pensamentos, seus sentimentos e suas prioridades na vida. Estabelecer limites é a maneira de recuperar seu tempo, sua energia e sua atenção.”
Capa: Angelo Bottino
Fonte: Resende, Fefe. Gente > internet. Rio de Janeiro: Mapa Lab, 2023, p. 15/16
domingo, 3 de dezembro de 2023
Pós-F
Em tudo, a grande maldade é a ignorância. E, sem sombra de dúvidas, concretamente, a ignorância é proposital.
Esses conflitos todos da luta dos sexos, esses conflitos da luta entre homem e mulher, ainda sim poderiam ser evitados se tivéssemos uma consciência muito mais sofisticada, tanto da psicanálise quanto espiritual. Não por meio do que pregam as religiões, mas da noção de que somos de fato todos iguais. Porque somos manifestações únicas de um jogo lindo de consciência, quer você chame de Deus ou não. Mas isso não interessa. Não seria rentável pensar assim. E tudo o que não interessa é o tempo inteiro descartado ou considerado balela. E os discursos que são muito mais lucrativos e que são considerados mais interessantes, eles surgem e sempre apresentam uma grande briga, seja entre os sexos, ou mesmo entre religiões.
Mediocridade
Dizem que a mediocridade é a atuação do ser. Não é o ser em si. É quando você se descola; é Brecht, você atuando em cima do personagem.
Melhor lugar
Cada dia que passa, e há muito, sei que o melhor lugar em que posso estar é em mim. Essa é uma lição que aprendi que deixo com muito amor, neste livro, e todas as vezes em que dou entrevistas: tenham autoestima. Espero que eu possa inspirar meninas, mulheres, e também meninos, homens, a habitarem em si, jamais no outro. Com o(a) outro(a) nós exercitamos inúmeros estágios do crescimento. Aprendemos mesmo quando erramos. Mas somente você estará o tempo inteiro aí, seja na festa, no esplendor de grandes ocasiões, nas dores, principalmente nas dores…
Culpa
Tem um livro, Culpa, que me recorda bastante você: O pequeno príncipe. É lá que está escrito que nós nos tornamos responsáveis por aquilo que cativamos.
Capa: Victor Burton
Fonte: Young, Fernanda. Pós-F: para além do masculino e do feminino. Rio de Janeiro: LeYa, 2018.
sábado, 7 de outubro de 2023
Recortes de Morangos Mofados (Caio Fernando Abreu)
(…) mas não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma?
“Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco seria uma outra forma de loucura.
Necessariamente porque o dualismo existencial torna sua situação impossível, um dilema torturante. Louco porque tudo o que o homem faz em seu mundo simbólico é procurar negar e superar sua sorte grotesca. Literalmente entrega-se a um esquecimento cego através de jogos sociais, truques psicológicos, preocupações pessoais tão distantes da realidade de sua condição que são formas de loucura – loucura assumida, loucura compartilhada, loucura disfarçada e dignificada, mas de qualquer maneira loucura (Ernest Becker, A negação da morte).”
(…) a dor é a única emoção que não usa máscara.
(…) as pessoas falam coisas, e por trás do que falam há o que sentem, e por trás do que sentem há o que são e nem sempre se mostra. Há os níveis não formulados, camadas imperceptíveis, fantasias que nem sempre controlamos, expectativas que quase nunca se cumprem e sobretudo, emoções.
Fonte: Abreu, Caio Fernando, 1948-1996. Morangos Mofados, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009, ebook
Capa: Joca Reiners Terron
Acesso 07/10/2023
Livro “O Balanço da Mata Norte – Batuque Rural na Bateria” (Rafael dos Santos, 2026)
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