O
meu saudoso amigo Dario de Bitencourt, que foi uma figura de destaque
como advogado, professor universitário e homem de letras, conservava
uma preciosidade: o arquivo de Aurélio Veríssimo de Bitencourt, seu
avô, que fôra secretário particular e grande amigo de Júlio de
Castilhos.
Ao
tempo em que governava o Rio Grande do Sul, Castilhos recolhia-se,
com frequência, a uma chácara de sua propriedade – a Chácara da
Figueira – comunicando-se com o secretário, que permanecia no
Palácio do governo, através de cartas e bilhetes, levados a cavalo
por soldados da guarda presidencial.
Quando
Dario de Bitencourt, homem extremamente gentil e dotado de imensas
reservas de boa vontade, colocou em minhas mãos o valioso arquivo de
seu avô, permitindo-me copiar as cartas e bilhetes de Júlio de
Castilhos a Aurélio Veríssimo de Bitencourt, esta documentação
era conservada em seis pastas, abrangendo, em ordem cronológica, um
período de dez anos, entre 1894 e 1903, sendo de notar que o
derradeiro recado trazia precisamente a data de 11 de outubro de
1903, escrito, portanto, três dias antes da morte do estadista.
A
continuidade da correspondência explica-se pela circunstância de
que, mesmo depois de deixar o governo do Estado, em 25 de janeiro de
1898, substituído pelo seu discípulo dileto, Borges de Medeiros, o
ex-presidente conservou o cargo de chefe unipessoal do Partido
Republicano Rio-Grandense, mantendo Aurélio Veríssimo de Bitencourt
como secretário particular, função que este passou a acumular com
a de secretário do novo presidente, atuando, então, na dupla função
de secretário de Júlio de Castilhos e e Borges de Medeiros.
“Era
uma eminência duplamente parda…”
Nesta
alusão bem humorada, feita durante uma das muitas entrevistas que
concedeu, Dario de Bitencourt quis significar que, além da cor
parda, seu ancestral exercia certa influência política junto ao
chefe do Partido, Júlio de Castilhos, e certa influência
administrativa junto ao chefe do governo, Borges de Medeiros, o que
não escapou à aguda inteligência de Ramiro Barcelos, no “Antônio
Chimango”.
No
famoso “poemeto campestre”, o Coronel Prates (Júlio de
Castilhos) entrega o jovem Antônio Chimango (Borges de Medeiros) aos
cuidados de Aureliano (Aurélio Veríssimo de Bitencourt),
atribuindo-lhe o seguinte encargo:
“Tu,
que és um conhecedor
De
tudo como se faz
Ensina-me
este rapaz
As
manhas de governar
Que
ele vai desempenhar
O
cargo de capataz.
Leva-o
lá para o teu rancho
Vai-lhe
ensinando os segredos
Que
ele só conta nos dedos
E
não tem nenhuma prática.
Ensina-lhe
a tua gramática
Pra
desmanchar os enredos.”
Como
vimos, Júlio de Castilhos recolhia-se seguidamente, à Chácara da
Figueira, situada junto ao morro da Cascata, hoje arrabalde da Glória
e cuja área terminou sendo atravessada pela atual avenida Oscar
Pereira. Naquela época, a zona da Glória não era sequer subúrbio,
ficando em plena área rural do município de Porto Alegre. Daí
referências como estas, aliás, frequentes nas cartas e bilhetes de
Júlio de Castilhos ao secretário:
“Aurélio,
resolvi não ir hoje à cidade. O terreno está muito encharcado, há
muita lama pelas estradas”.
Mas,
sempre cioso de seus deveres, acrescenta:
“Isto
não seria obstáculo para mim se houvesse urgente necessidade de
minha presença aí.”
Sempre
que era possível, Júlio de Castilhos percorria a chácara, onde
possuía cavalos de montaria, parelhas de tiro, vacas leiteiras, bois
mansos e ovelhas para consumo, cercando-se, assim, de um ambiente
campesino, que de algum modo lembrava o das estâncias paternas.
Também costumava recolher-se à sua chácara nos momentos em que
necessitava de tranquilidade para executar trabalhos de maior
responsabilidade, como as mensagens à Assembleia dos Representantes,
que eram de sua elaboração pessoal, na redação, na revisão das
provas e até mesmo na feição tipográfica.
Não
tardou, porém, a reconhecer que nem a distância, nem o mau tempo,
nem tampouco a lama das estradas serviriam de barreiras aos que não
lhe davam tréguas no peditório ou na bajulação.
“Nunca
supus – queixa-se num dos bilhetes ao secretário, datado de
6-10-1896 – que na distância em que me acho da cidade fosse tão
perturbado no meu serviço! Aí em Palácio, já a mensagem estaria
concluída, há dias.”
Queixas
como essa se repetem seguidamente:
“Ainda
não tenho certeza – adianta ao secretário – de ir aí amanhã.
A resolução depende do avanço que tiver o meu trabalho, o que é
incerto devido à constante ameaça dos cacetes, que constituem agora
o meu maior tormento.”
Noutro
bilhete, nova queixa, nestes termos:
“Já
sofri hoje dois algozes aqui: o Juvêncio e um tipo de Gravataí.
Tratei-os bem, mas adverti que não me procurassem mais.”
Em
diversas cartas ao secretário, repete esta recomendação:
“Mais
uma vez, peço-te que me livres dos cacetes que me atormentam aqui!
Agora mesmo chegou, de carro, o Ângelo, que veio interromper o meu
trabalho, isto é, a leitura dos anexos. Que teimosia irritante.”
Havia,
porém, na Chácara da Figueira, horas de pleno lazer e satisfação
pessoal, quando ele recebia os amigos a que era realmente afeiçoado.
“Aqui
estiveram ontem, informa Castilhos ao secretário – o Medeiros e o
Simch, que me fizeram muito agradável companhia.”
Referia-se
ele, evidentemente, a Antônio Augusto Borges de Medeiros e Francisco
Rodolfo Simch.
Com
frequência, aos domingos, formavam-se rodas de palestras, com o
comparecimento de maior número de amigos e correligionários,
ocasiões em que ocorria a então chamada “branquinha”. Júlio de
Castilhos tomava providências pessoais para que não faltasse a
bebida de preferência geral. Ainda não se havia propagado o costume
do “whisky”.
“Amanhã
quando vieres – recomendava – deves trazer no carro duas garrafas
de caninha especial (Lágrimas de Santo Antônio), visto haverem sido
ontem esgotadas, em abundante palestra dos amigos, as duas que eu
trouxe sexta-feira.”
E
noutro bilhete, ainda dirigido ao secretário:
“Incluo
25$000 que entregarás ao Cássio (seu ajudante-de-ordens, Cássio
Brum Pereira). É a importância da dúzia de “Lágrimas”, que
ele comprou há dias. Dize-lhe que encomende outra dúzia.”
Moral
da história: ainda não havia sido institucionalizado o regime das
mordomias risonhas e francas.
Entre
os 717 documentos ligados a Júlio de Castilhos que tive em mãos, ao
consultar o arquivo de Aurélio Veríssimo de Bitencourt, um dos mais
importantes, diz respeito a uma invasão do Estado de Santa Catarina,
por tropa rio-grandense, autorizada pelo então presidente e
comandada pelo coronel Bento Porto, um veterano de 1893 que fez parte
da Divisão do Norte e, ao que tudo indica, foi quem deu a ordem de
fogo de que resultou a morte de Gumercindo Saraiva.
Quando
narrei a história dessa invasão, há coisa de uns dez anos, aqui
mesmo no “Correio do Povo”, fiquei na expectativa de enorme
repercussão, pois o episódio se conservava inédito, pelo menos na
sua feição verdadeira, e fora contado, na ocasião, à luz de
documentos até então sem qualquer divulgação. Não houve,
entretanto, o menor sinal de que o fato tivesse qualquer repercussão.
Vejo,
agora, que o “scholar” norte-americano Joseph L. Love, na obra
que escreveu sobre “o regionalismo gaúcho e as origens da
Revolução de 30”, reportou-se ao episódio, narrando-o do
seguinte modo e indicando a fonte onde o encontrara:
“Enquanto
os habitantes de Canudos eram exterminados, um evento semelhante
ocorria nas fímbrias do Rio Grande do Sul. Neste caso, porém,
envolveu um massacre, e não uma luta prolongada. No município de
Lages, bem em cima dos limites do Rio Grande com Santa Catarina,
estava desenvolvendo-se uma comunidade milenarista. Em agosto de
1897, um jornal de Lages, assumindo a dimensão
sebastianista-restauradora, sugeria que o povoado de Entre Rios, de
300 habitantes, tinha ligações não só com Antônio Conselheiro,
mas também com os federalistas gaúchos. Para castilhos, esta
“evidência” era suficiente. Imediatamente planejou com o
governador de Santa Catarina um ataque combinado das duas forças
policiais estaduais sobre o vilarejo, mas apenas os gaúchos parecem
ter participado. Dirigiu a operação o subchefe de polícia do 1º
Distrito. Desencadeando um ataque de surpresa a Entre Rios, suas
tropas mataram todos os homens da comunidade e queimaram suas
cabanas, deixando as mulheres e as crianças vivas, porém,
desabrigadas. Ao receber o relatório da operação, em fins de
agosto, Castilhos observava satisfeito que o subchefe “conduziu-se
como eu esperava”, merecendo “todos os louvores e aplausos”.
Apenas
um reparo à narrativa do “brazilianist” Joseph L. Love: embora
Júlio de Castilhos tenha convidado o presidente de Santa Catarina,
Hercílio Luz, para participar da operação, na hora de autorizá-la
nada comunicou ao chefe do governo barriga-verde, deixando para
fazê-lo depois do fato consumado, com a invasão do Estado vizinho e
extermínio dos fanáticos de Entre Rios.
Talvez
o presidente catarinense viesse com panos quentes, no momento de ser
executada a operação contra os fanáticos, cujo aldeamento
representava, aos olhos de Júlio de Castilhos, uma nova ameaça à
consolidação da República, coisa que ele jamais admitiria, levando
até as últimas consequências, como sempre o fez, a sua reação
aos inimigos (reais ou supostos) do regime republicano.
(Maio,
1979)
Capa:
Jairo Devenutto
Fonte:
Reverbel, Carlos. Saudações Aftosas. Porto Alegre, Martins
Livreiro, 1980, p. 73/76.