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quinta-feira, 15 de junho de 2017

O Autor Luiz Sérgio Metz (Sérgio Jacaré)



Nasci em Santo Ângelo, no inverno de 1952. Meu grande sonho era permanecer analfabeto, se não fosse A mãe, do Górki, lá pelos quinze anos, me meter no coração uma certa senda proletária, igual a de meu pai.

Decorre daí que iniciei Filosofia, na Universidade Federal de Santa Maria. Por
um erro de computador e matrícula, acabei formado em Jornalismo.

Um grande equívoco de Martins Livreiro fez com que publicasse o livro de contos O primeiro e o segundo homem.

Tenho participado de várias lutas como já o fiz no movimento estudantil e político em Santa Maria e Santo Ângelo, todas em defesa da dignidade humana, da liberdade e da igualdade, todas visando o fim da exploração do homem pelo homem.

Gosto de poesia e tenho escrito alguns versos, alguns versos que foram musicados.

Gostaria de ser enquadrado na escola ou na corrente ou na vertente dos que escrevem versos cubo-futurista-nativista.

Tenho uma certeza na vida: viver é para os desiludidos. Viver é ser utópico.

Hoje trabalho, como assessor da diretoria, no Sindicato dos Bancários de Porto Alegre.  

Fonte: Revista Tarca – ANO III – Nº 15 – Julho 1986 – p. 07


Aureliano de Figueiredo Pinto (Luiz Sérgio Metz)


Era um homem culto, Aureliano, este menino que viajava parnasiano. Das visões das janelas do trem lembraria a fixação dos imigrantes italianos, povo que amou muito a ponto de aprender sua língua. O mesmo fez com os franceses. O mesmo com os ingleses. O mesmo com seus patrícios anexados, portenhos e
orientais. Dominava, como se houvesse nascido falando, a língua de Quixote e de dom Segundo Sombra, que conhecia como ninguém que nesta hora tivesse dez anos e estivesse pronto a fazer os primeiros voos parnasianos...


Imagino que Aureliano pagava o preço de sua dimensão à poesia. Ele sabia da grandiosidade que ela encerra e por isso o fúlgido e o imenso respeito a ela e aos poetas. Talvez seja o motivo de sua ira à notoriedade, que o levou a não publicar nada ou publicar tardiamente. Por certo comparava-se com seus atores preferidos. Talvez sofresse muito com isso. Talvez. Sua sina em reescrever sempre e incansavelmente um mesmo verso, a procura da palavra ou a própria fuga dela, o domínio do linguajar rude e o momento de empregar termos gaúchos ou espanholismos levaram-no a rabiscar papeis de toda a espécie e finalidade: receitas médicas, bulas, carteiras de cigarro, papel de embrulho, livros, cadernos escolares, postais, cartas...

Aureliano não era um homem do poder (Tu bem conheces meu sereno ‘sceptismo’ a respeito dos homens públicos deste país, escreve, em agosto de 1932, em carta a Antero Marques). O poder se ofereceu a ele, em dinheiro, tempo e condições de melhorar sua vida. Principalmente dinheiro e tempo. Ele poderia ser o sub do sub do sub no fundo da última vila, que o poder provavelmente pagaria para ele escrever e abandonar a medicina. Como bardo moderno, Aureliano sabia: o poder não cega fisicamente, mas coopta os artistas, que é cegá-los através da alma. Aureliano poderia dedicar-se finalmente aos livros. Recusou as propostas. E recusou na raiz: a iniciativa dos amigos neste sentido. Que barrou e impediu...

Ele deveria ser a ponte, mal ou bem. Falava, seguidamente, em relação a seus versos: “mau mas meu”. E registrou a voz de um homem diante seu assombro: O inverno. O sol. A dor. O prazer rápido, sempre fugidio, que um campeiro leva à sua garupa, ou pelo prazer é levado. A mulher e o homem, sempre fugindo, às pressas, da morte ou dos olhares, fugindo, para um fundo de rancho no fundo do mundo pequeno. Longe dos olhares de Cachucha, a que significava o tudo sempre igual. Longe de todos e de tudo. Cruz antiga. Chuva. Fogo do diabo. Relato de enforcado. Chimarrão da madrugada. Sesteada. Triste tarde. Filosofia de peão. Unha-de-fome...

Para conseguir estas duas entrevistas com Aureliano, um problema tinha de ser superado: onde localizá-lo, em que mundo? Em que região de país sonharia, com cuia e chaleira à mão, Aureliano? A geológica coluna ou lâmina do tempo calcada nas calçadas missioneiras lhe abriria espaço para passar? O espaço confabularia com o tempo para juntos talharem Aureliano contra o céu de nuvens vermelhas, e seu passo marcaria novamente a terra dos guaranis? Em que solidão ou multidão luminar ou subsolar o poeta declamaria suas gestas ao berçário das estrelas? Em que século estaria? 


Fonte: Coleção Esses Gaúchos, Editora Tchê / Revista Tarca – ANO III – Nº 15 – Julho 1986 – p. 07

sexta-feira, 21 de abril de 2017

O CANTO PARINDO FUNDO (Luiz Sérgio Jacaré Metz)



“A arte não nasce arte de massa, sê-lo-á através de muito esforço...”
                                                                                                      MAIAKÓVSKY
   

Por natureza, por essência, por definição e postura o artista é um cidadão incomum e iluminante. Deriva de sua agudíssima sensibilidade esse posicionamento diferenciado. O artista é, na prática, difícil de reunir, impossível de redomonear, instável de conviver; enxerga os absurdos antes dos demais, sente as transformações sociais primeiro e privilegiadamente e isso, não raro, o coloca em permanente estado de alarme e angústia. Expressa-se de forma precisa sobre seu tempo e, por dialogar através de imagens, símbolos e metáforas – que são sínteses transformadas e transformadoras da realidade, às vezes é chamado de “absurdo”, “hermético” e, ainda pejorativamente, de “visionário”, “complexo”, “obscuro”.

Mas todas essas alcunhas (todo esse trabalho ardoroso de rebaixar o talento criador) são inócuas, vãs, tardias. Toda tentativa de cooptar um criador de sons e um artífice de poemas, principalmente de cooptá-lo para a ideologia arcaica de atual domínio em nosso meio cultural, já nasce pretérita. Domam-se mil potros, encilham-se os mil, mas a alguém que mereça ser chamado artista não se põe qualquer xergão, por mais morto de fome que possa viver, por mais fundo que seja o fosso onde se encontrar. Ali, nessa fome e nesse fosso, é que ele recria o som e revive a palavra.

Fruto dessa disciplina férrea e invisível, solidificados na disposição de produzir, em razão da arte, por seu povo, é que surgem os grandes gênios. E a preocupação com o surgimento deles (processo complexo que o tempo dimensiona), é trabalho de todos aqueles que, mesmo por diletantismo, se ocupam do fazer artístico. Criar essas condições para que as obras possam ser veiculadas requer, de parte dos interessados nessa divulgação, uma sensibilidade aguda, um respeito profundo e um conhecimento básico amplo. Retirando essas condições, toda a boa vontade se anula, toda a intenção se perde. E, quando houver essa base ao trabalho criativo, certamente surgirão, ao público, no momento presente, grandes criações da arte local.

Isso feito, isso estabelecido, pode-se iniciar a discussão aberta e aclaradora. Opinar, criticar, rever, ajudar. Posicionar-se frente aos trabalhos, fundamentalmente, sem preconceitos ou narcisismo tacanho, que só ajudam para confundir os conceitos de popular e original, normalmente transladando-os para o terreno do grotesco e do ultrapassado. Com essas ressalvas, gostaria de dizer que a assimilação ou repulsão de uma obra advém, também, de um outro tipo de trabalho, qual seja o de difundir com insistência as obras importantes que foram rotuladas de “não ao gosto popular”. Trabalhar no aprimoramento da sensibilidade de um povo é tarefa que dignifica os que acreditam ter a arte o poder de reduzir o obscurantismo, a barbárie, a selvageria nas relações humanas.

O “1º Musicanto Sul-Americano de Nativismo” deu o clima ao artista. E isto basta e bastou. Quem o organizou teve, como primordial respeito, a sensibilidade e a solidariedade. O “Musicanto” rastreou, perscrutou, intuiu, averiguou, medrou e entregou – a todos – um palco e um público, um júri e uma cidade que se abrem para o futuro da canção latino-americana. Por forte irmandade entre organização e senso artístico, o “Musicanto” nasce queimando etapas. E isso, sem precipitação, o compara à “Califórnia da Canção Nativa” que caminha, há treze anos, em busca de rumos ao canto gaúcho. Comparar o “Musicanto” à “Califórnia” não desmerece a última, nem reduz o primeiro. Os dois festivais são, de certa forma, irmãos que não cabem na mesma casa: seus objetivos diferem na concepção da latinidade (geográfica e humana) do cantar.

NO SANGUE DA TERRA NADA SOLIDÁRIA

Ao iniciar este comentário, escolhi as palavras de Maiakóvsky em primeiro lugar pelo seu conteúdo perfeitamente aplicável a música “No sangue da Terra Nada Guarani”, de Nelson Coelho de Castro. Em segundo, por ser Maiakóvsky um poeta militantemente solidário. Como “a arte não nasce arte de massa”, isto é, a arte necessita ser veiculada e discutida para ser plenamente assimilada (e não há heresia em dizer – e repetir aqui – que consideramos trabalhar a sensibilidade do povo, alienado da sua cultura pelas grandes produções sonoras massificantes), é que o trabalho de Nelson requer (mas não prescinde) a nossa solidariedade. Fugir de sua letra e de sua música é, e será para quem for do ramo um retorno fatal na concepção criativa musical e poética. E, sinto e devo dizer, muitos e importantes artistas em nosso meio fugiram à responsabilidade de serem solidários ao novo e claro canto do “Sangue da Terra Nada Guarani”.

Isso aconteceu também, julgo, com a composição do Rillo e Barbará, “Era Uma Vez”, que apontava na 8ª Califórnia, um caminho a ser bem melhor aproveitado. Voltando ao tema solidariedade: é irrespirável, autofágico, um meio artístico que se mede por classificações em festivais (porque isso rebaixa a criação, quando não a anula, e afere ao júri um papel decisivo na produção, que ele não tem, nem terá). Ao contrário de minimizar a importância ou rotular a composição de Nelson (resolvida com talento por Berê), devemos ouvi-la como alimento substancial à energia do movimento artístico gaúcho. Toda a tramoia de ranço e choradeira, euforia e puxação-de-saco dos festivais, passa dois dias após. O que não passa é a “coragem que vem por dentro parindo/vem parindo feio...” E, mal parafraseando a canção, acrescento que não se amansa a descaso ou a ignorância uma grande obra e seu criador.

Fonte: Revista Tarca – Cultura Gaúcha – ANO I – Nº 00

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