Íntegra: https://drive.google.com/file/d/1853DM24hOWak1zlkW2ke6Ju9CZpUzUh8/view?usp=sharing
Link original: https://opal.latrobe.edu.au/articles/book/Memorias_de_Joao_Daudt_Filho/22299772/1
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Fui possuído hoje, logo após o café da manhã, por súbita nostalgia das estradas carroçáveis. Tanto as guardo na memória involuntária, no aconchego das melhores recordações, que elas acabam de alçar voo nesta clara manhã setembrina, mas conhecendo tão bem o caminho de volta quanto as pombas de Raimundo Corrêa, é certo que ao entardecer retornarão ao ninho antigo.
Havia um médico em São Gabriel que, ao ser chamado ao interior do município, despachava um próprio na frente, investido da missão de depositar garrafas de cerveja nos riachos e sangas por onde ele deveria passar a caminho da casa do cliente. A mesma providência era adotada para a viagem de volta, completando-se, assim, a engenhosa operação que o referido facultativo chamava de “medicina de campanha, com cerveja fresca de ida e volta”. Enquanto os cavalos tomavam um fôlego, ele tomava suas cervejas à sombra de angicos, guajuviras e outras árvores extintas. Tudo com mansuetude e calma, tanto na ida como na volta.
Começada na era da tração animal, essa maneira de amenizar os sacrifícios do sacerdócio médico prolongou-se até a época do Ford de bigode (quando as estradas ainda eram carroçáveis), só terminando com a chegada da era do asfalto e, coincidentemente, com o falecimento do introdutor (já muito idoso) da mencionada amenidade clínica.
Ainda no tempo das carruagens deu-se o caso de um fazendeiro, natural de Lavras mas residente em Bagé, ter de permanecer diversos dias em porto Alegre, em afanosas atividades peruaríssimas. Necessitando ir diariamente a um matadouro situado nas redondezas da capital, o nosso estancieiro teve de contratar um carro de praça. O carro não era dos piores, mas a parelha que o puxava era de fazer dó, sendo formada por velhos matungos.
Em compensação, o boleeiro não podia ser mais prestativo e diligente. Caprichava tanto na prestação de seus serviços que o fazendeiro, embora tido e havido como sujeito empedernido, prometeu dar-lhe de presente uma linda e fagosa parelha de cavalos baios, para substituir seus velhos e trôpegos matungos.
De volta aos pagos, a primeira providência do fazendeiro não foi mandar os cavalos baios, foi esquecer a promessa que fizera ao cocheiro porto-alegrense. Mas este não se esqueceu e começou a bombardeá-lo com sucessivos telegramas, reclamando o presente. E nada de resposta.
Até que um belo dia o fazendeiro resolveu encerrar o assunto, transmitindo ao cocheiro este telegrama;
“Parelha baio morreu raio.” (O pelo dos animais foi colocado no singular pelo telegrafista para facilitar a rima).
Li domingo passado, no Sérgio da Costa Franco, a notícia de que a Companhia União de Seguros, sob a feliz inspiração de seu diretor, Lauro Guimarães, tomou a iniciativa de promover a reedição de uma série de obras raras da bibliografia rio-grandense, a começar pelas fundamentais “Memórias Econômico-políticas”, de Antônio José Gonçalves Chaves.
A propósito, tenho para mim que as “Memórias”, de João Daudt, reúnem todas as condições para serem incluídas na projetada coleção. Dentro de sua época, não sei de obra mais interessante, no gênero, que tenha sido publicada entre nós. Já a percorri duas vezes e sou capaz de repetir a dose.
O autor viveu numa época em que todas as estradas gaúchas eram carroçáveis. Entre outras, descreve uma viagem fantástica, feita de carreta, por ele e sua família, de Santa Maria a Rio Pardo, em cujo porto tomaram o primeiro barco (“moderno e a vapor”), empregado na navegação do Jacuí, entre Porto Alegre e Cachoeira.
Os barcos eram “modernos e a vapor”, mas as estradas ainda eram carroçáveis. Isto empresta grande interesse à narrativa, em relação aos dias de hoje, quando as rodovias se modernizaram e as águas dos nossos rios regrediram, estranhamente, à época das estradas carroçáveis.
(Setembro, 1977)
Fonte: Reverbel, Carlos. Saudações Aftosas. Porto Alegre, Martins Livreiro, 1980, p. 77/78.
Essa conversa toda em torno do professor polivalente, tida e havida como grande inovação pedagógica, nada apresenta de novo, sendo até muito velha, senão caduca e desmemoriada.
Antigamente, todos os professores do curso primário, e grande parte dos que se viravam no curso secundário, eram polivalentes, isto é, ensinavam todas as matérias, inclusive a benfazeja caligrafia, hoje, ao que parece, com certas probabilidades de volta à reabilitação.
Contrariamente ao que acontecia com as outras matérias, em cujas áreas cada discípulo deslanchava na medida do seu talento, uns distinguindo-se dos outros, operava-se através do treinamento da caligrafia evidente uniformização, fazendo com que todos os alunos ficassem, para o resto da vida, quase com a mesma letra, por sinal muito boa.
O talhe da letra funcionava, assim, como uma espécie de marca registrada de cada colégio. Conheço bem de perto, por instituições de natureza familiar, umas dessas “marcas” caligráficas, que teve como matriz o curso do Prof. Trajano de Oliveira, notável educador completamente esquecido, embora tenha sido “mestre-escola” de figuras como Assis Brasil e Júlio de Castilhos.
Terminada a Guerra do Paraguai, o oficial pernambucano Trajano de Oliveira aquartelou-se na cidade de São Gabriel, com as gloriosas tropas do Gen. Mallet, ali desengajando e deixando-se ficar, definitivamente, como dono e “professor polivalente” dum colégio, cujo programa ia do primeiro ao secundário.
Sendo homem de ideias avançadas, que se dizia liberal e livre-pensador, procedendo na escola e na comunidade de acordo com as suas concepções políticas e filosóficas, exerceu larga influência na chamada Terra dos Marechais, através das diversas gerações que preparou para a vida, influindo-lhes, acima de tudo, o sentimento da responsabilidade dos cidadãos.
A uniformização da caligrafia, que parece ter sido a causa que afastou o seu ensino das escolas, nunca cerceou a espontaneidade nem a criatividade dos alunos do Prof. Trajano, jamais impedindo que cada um se afirmasse de acordo com a sua individualidade.
Assis Brasil e Júlio de Castilhos, embora tivessem o mesmo talhe de letra (e fossem cunhados), não poderiam ser mais diferenciados, sob todos os outros aspectos.
Muitos alunos do Prof. Trajano fizeram apenas o curso primário, outros nem chegaram a terminá-lo. Mas todos, assim como os que concluíram estudos superiores, tinham praticamente a mesma letra, o que, talvez, ofereça material dos mais curiosos para estudos de grafologia.
Júlio de Castilhos frequentou durante pouco tempo o colégio do Prof. Trajano, transferindo-se, ainda nas primeiras letras, para uma escola de Santa Maria, encontrando-se, nas valiosas Memórias de João Daudt Filho, que foi seu colega de aula, interessantes informações a respeito do então simples colegial.
Se estou bem lembrado da leitura desse livro, por sinal apaixonante e cuja reedição não canso de recomendar, o problema da gagueira já criava os primeiros embaraços ao futuro Patriarca…
Seja como for, também Júlio de Castilhos deve ter sofrido a influência do Prof. Trajano na formação de sua vigorosa personalidade. Quanto a Assis Brasil, essa influência terá sido ainda maior, pois os primeiros anos de sua formação foram passados sob a influência do notável “mestre-escola” gabrielense, embora de procedência e pura cepa pernambucana.
Aliás, o Prof. Trajano foi um dos tantos “baianos” (como se qualificava, entre nós, genericamente, os brasileiros de outras províncias aqui aportados) que muito contribuíram para o amadurecimento do Rio Grande do Sul, a unidade federativa mais nova historicamente.
Assis Brasil teve como amigos, durante toda a vida, diversos colegas dos tempos de colégio do Prof. Trajano, parecendo, mesmo, que lhes dedicava especial afeição, como tive ocasião de testemunhar, através da perene e fraternal amizade que o ligava, entre outros companheiros da velha escola municipal, a Francisco de Macedo Couto – o querido Dindinho – a melhor criatura humana que tive a felicidade de conhecer.
Deixo neste pequeno lembrete, para os futuros biógrafos de Assis Brasil e Júlio de Castilhos, o nome de um grande homem, que nunca saiu da obscuridade: Trajano de Oliveira.
E solicito ao meu muito prezado amigo Sérgio da Costa Franco, no seu zelo de historiador e como autor da principal obra até agora publicada sobre Júlio de castilhos, que confira o nome que acabo de mencionar.
Capa: Tânia Porcher
Foto: Jorge Rolla
Fonte: Ainda sobre caligrafia. Reverbel, Carlos. Barco de papel. Porto Alegre: Editora Globo S.A., 1978, p. 167/169.
Livro: Memórias, João Daudt Filho, disponível em:
“Meu pai, precisando de cozinheira, comprou uma. Dizia o dono, ao oferecê-la, que ela não servia para o trabalho da roça, por isso vendia por qualquer preço. Já lhe havia dado uma tunda de laço, mas de nada serviu porque ela não prestava mesmo para o que ele necessitava. Chegou em casa toda encolhida, gemendo de dores, em estado lastimável, com as costas em carne viva, crivada de lanhos fundos feitos pela tunda de que se vangloriava o antigo senhor. Até bichos tinham as feridas. Chamava-se Felicidade.”
Este episódio aconteceu na cidade de Santa Maria da Boca do monte, na década de 1860. E vem narrado num livro há muito esgotado, quase raridade bibliográfica: Memórias, de João Daudt Filho.
O autor relembra, além desse, diversos outros da época da escravidão em Santa Maria, de que foi contemporâneo, quando ali vivia com seus pais, ainda menino. Menciona, inclusive, a existência de um quilombo, num dos morros que circundam aquela cidade, fato de que não se tinha informações. Atribui aos escravos a propagação de crendices tais como o boitatá, o minhocão, o lobisomem, o bicho-tutu. E não deixa de narrar uma série de atrocidades de que os escravos eram vítima, a exemplo daquelas pelas quais passara Felicidade, comprada para cozinheira de sua família.
Aqui vai outro episódio, no gênero: “nunca pude esquecer um quadro horrível que vi quando ainda era menino, estando de passeio em casa de meus tios, negociantes, na estrada da Serra. Chegou ali uma escolta de quatro soldados a cavalo, conduzindo um negro a pé, seminu, de corda ao pescoço puxada por um dos soldados, os dois braços amarrados pelas costas e o corpo todo ferido dos golpes de espada. O pobre negro era obrigado a acompanhar o trote dos cavalos”.
O capítulo sobre a escravidão dá a medida, por si só, do interesse que podem despertar as Memórias de João Daudt Filho. Vale a pena transcrever outros episódios, como antecipação do que significaria a reedição desse livro, uma das obras que realmente contam na bibliografia rio-grandense. Esta passagem, por exemplo:
“Meu pai recebeu em pagamento de uma dívida antiga dois moleques: um preto e outro mulato. Fiquei íntimo dos moleques, que eram mais ou menos da minha idade. Prestavam-se a ser cavalos de meu andar, parelha de puxar a ajudavam-me a fazer urupucas, mundéus, esparrelas e alçapões para caçar passarinhos, e as gaiolas para prendê-los. Eu me julgava muito feliz em tão boa companhia. Aconteceu, porém, que, chegada a época de meu pai ir a Porto Alegre surtir-se de mercadorias para o seu negócio, quis levar-me a passeio. Os moleques também seriam para cuidar dos cavalos durante a viagem. Subi às nuvens de contentamento, pela companhia dos moleques. Chegados a Porto Alegre, tive porém um grande desgosto. Os moleques e eu fomos enganados! Papai não podendo ter em casa maior número de escravos, viu-se obrigado a desfazer-se deles (quer dizer, vendê-los). Chorei muito com eles quando nos despedimos.”
Finalmente, para encerrar os quadros de escravidão, este episódio estarrecedor: “Tudo isso não espanta em face da monstruosidade dos senhores para com as escravas suas concubinas e mães de seus filhos. Contou-me meu cunhado, general Joaquim de Andrade Vasconcelos, o seguinte: um pretendente à compra dos moleques, em conversa com um seu compadre, perguntou: ‘Onde poderei comprá-los em boas condições?’ Este respondeu: ‘Tenho aí o pátio cheio, pode escolher à vontade’. E o outro: ‘Mas não são seus filhos?’ A resposta: ‘Que tem isso? São meus escravos, poderei vendê-los. Custa-me caro a criação deles”.
Estes episódios, como tantos outros, (inclusive a lenda do “Negrinho do Pastoreio”, imortalizada por J. Simões Lopes Neto) contrariam, frontalmente, o mito da bondade do senhor de escravos do Rio Grande do Sul, criado por Saint-Hilaire, embora seja o naturalista francês, entre os viajantes estrangeiros que percorreram a nossa terra, no século passado, o observador mais atento, mais agudo, mais fidedigno e mais compreensivo.
Além de ser um valioso livro de memórias, gênero tão pouco cultivado entre nós, a obra de João Daudt Filho também se singulariza, do ponto de vista bibliográfico, pela circunstância de ter merecido três edições, todas publicadas por conta do autor, para distribuição fora do comércio. A primeira saiu em 1936, quando o autor se aproximava dos 80 anos de idade, sendo destinada apenas aos seus parentes e aos amigos mais chegados. O exemplar de que disponho fora ofertado pelo autor a Salatiel de Barros, que dele abriu mão, presenteando-me. Mais tarde o próprio Salatiel, homem da estirpe de João Daudt Filho, seguiu o exemplo de seu velho amigo, também escrevendo interessante livro de memórias, em parte formado pelas “reminiscências” que publicava no Correio do Povo, a que era muito ligado, como companheiro de Caldas Júnior e primeiro gerente do velho órgão.
O aparecimento das Memórias de João Daudt Filho despertou tanto interesse, dando lugar a tantas solicitações, que o autor teve de mandar imprimir mais duas edições, sempre por sua conta e distribuídas fora do comércio. Talvez seja o único caso, entre nós, em que um livro publicado fora do comércio chegou à terceira edição, pintando como best seller.
“Receoso de cair no ridículo pela pobreza de imaginação e pelo estilo chão” – confessa o autor, sobre seus originais – “pedi a opinião de meu amigo Álvaro Moreira, escritor consagrado, respondendo ele que, além de lhe parecerem interessantes estas reminiscências, achava também exatamente que, na simplicidade e na naturalidade da linguagem, a mesma com que converso na intimidade, é que se encontrava o mais forte motivo para a sua publicação”.
Embora escrito sem literatura, como observou Álvaro Moreira, os originais de João Daudt Filho resultaram livro destinado a perdurar na bibliografia rio-grandense, mesmo porque faz parte de um gênero cujos valores fundamentais muitas vezes transcendem aos de natureza propriamente estética ou literária.
Depois de ter sido comandante do primeiro navio a vapor utilizado na navegação do Jacuí, entre cachoeira e porto Alegre, o pai de João Daudt Filho (pertencente à primeira geração de imigrantes alemães estabelecidos em São Leopoldo em 1824) radicou-se em Santa Maria, onde se estabeleceu como comerciante e constituiu família. Por isso, as primeiras recordações do memorialista datam daquela cidade, oferecendo subsídios de grande interesse para a monografia do município. Notadamente sobre o período revolucionário de 1893, a vida escolar e a infância e mocidade de Júlio de Castilhos (de quem o autor foi colega de curso primário), contendo, ainda, informações de real valia sobre as condições de vida em Santa Maria e no Rio Grande do Sul, naquela época.
Além de escrever o modo como se viajava no primeiro vapor a singrar as águas do Jacuí, João Daudt Filho narra uma viagem por terra, feita por ele e seus pais de Santa Maria a Rio Pardo. “Fizemos a vigem em 15 dias” – conta o memorialista – “numa carretilha puxada por três juntas de bois. A estrada era horrível a tal ponto que só mesmo com a força de meia dúzia de possantes bois poderia safar-se o veículo das sangas e atoladores. Outra meia dúzia de bois ia por diante, para muda. Uma tropa de 12 bois somente para conduzir a carga de uma pequena família”.
Na sua passagem como aluno pelo famoso educandário N. Sª da Conceição, dos Padres Jesuítas, em São Leopoldo, João Daudt Filho foi contemporâneo do episódio dos Muckers, de que relata a versão corrente na época. Já formado e estabelecido com uma farmácia, em Santa Maria, foi envolvido nas malhas da Revolução de 93, de que narra uma série de acontecimentos inconcebíveis para as atuais gerações. É quando o livro atinge o ponto culminante, sobretudo pelas cenas de banditismo que enumera e descreve, de uma das quais foi vítima o seu cunhado, Dr. Filipe de Oliveira, pai do poeta do mesmo nome, que nasceu órfão, seno adotado e criado por João Daudt Filho.
Trata-se enfim, de uma obra que vem pedindo para ser reeditada.
Capa: Tânia Porcher
Foto: Jorge Rolla
Fonte: Chamava-se Felicidade. Reverbel, Carlos. Barco de papel. Porto Alegre: Editora Globo S.A., 1978, p 182/186.
Disponível para aquisição: https://editoraufsm.com.br/assuntos/artes-e-letras/memorias-de-joao-daudt-filho.html
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