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terça-feira, 7 de junho de 2022

Cid e Foguinho por Ruy Carlos Ostermann

 

O período do Cid [Pinheiro Cabral] e do Foguinho [Oswaldo Azzarini Rolla], contrapostos, foi extraordinário. Eram duas pessoas que se odiavam, do ponto de vista profissional. O Foguinho, sendo técnico do Grêmio, vitorioso naquele período de fins de 1950 e início de 1960, e o Cid desesperado do outro lado, o principal cronista da cidade, colorado, bem identificado, e então, tudo que ele podia jogar contra o Foguinho ele jogava.


E o Foguinho odiava e dava resposta.


Lembro-me de uma ocasião em que o técnico do Internacional era o capitão Cunha, e o Cid resolveu, através de sua coluna no Correio do Povo, influenciar o Cunha na escalação do time. Cid sugeriu que o Larry fosse colocado no meio-de-campo, dando lugar ao Diogo como centroavante.


Saí da rádio, fui até a Rua da Praia e encontrei o Foguinho. Primeira coisa que fiz foi convidá-lo para tomar um cafezinho. Estávamos no café conversando e, lá pelas tantas, deixei escapar que o Larry estaria no meio-de-campo. Foguinho, em seguida, falou:


“Isso é ideia daquele homem, o Cid Pinheiro Cabral. E lhe digo mais, seu Osterrrmann, escreva-se e publique-se: se o Internacional jogar com o Larry no meio-de-campo, o Grêmio fará cinco gols. O senhorrr escreva, anote”.


No outro dia, encontrei-me com Cid e perguntei se seu artigo estava pronto. Ele respondeu que sim e mostrou-me o artigo. Aliás, o Cid escrevia 20 vezes, cortava folhas e coisas assim. Na verdade, só o Ivo Corrêia Pires fazia mais remendos em papel que o Cid. Então eu falei:


- Olha, Cid, eu já tenho a entrevista resposta do Foguinho e ele disse que o Internacional vai levar cinco gols.


- Pois eu quero ver! Vamos publicar a minha coluna e a entrevista dele.


Resultado do jogo: Grêmio 5 X 2 Internacional.


Na segunda-feira, fui até a alfaiataria do seu Rolla, que ficava no prédio da Loja Krahe. Na alfaiataria não existia luz elétrica. Então eu disse para ele:


- Pô, seu Rolla, o senhor é pão-duro, nem luz o senhor põe aqui.


- Não senhorrr!… É que daí eu sei quando é noite.


- Seu Rolla, essa história de publicar o artigo do Cid e a sua entrevista ao mesmo tempo me criou um enorme problema.


- Não, senhorrr!… Quem criou o problema foi o seu amigo…

Fonte: Coiro, José/Grabauska, Cléber. Sala de redação: a divina comédia do futebol. Porto Alegre: L&PM, 1998, p. 102/103.




Capa: Ivan Pinheiro Machado sobre ilustração de Edgar Vasques

Ruy Carlos Ostermann

 

Antes, o comentário era uma coisa bastante intuitiva, subjetiva, retilínea. Ninguém anotava muita coisa. As coisas mudaram depois que eu criei a planilha. A planilha é criação minha. Isso aconteceu em 1962.


Eu uso um caderno e nele coloco o local do jogo, a data, o horário do início do jogo, os times. Embaixo, se deixa um espaço para colocar as substituições e os arremates a gol e para, através de algum sinal, tu fazeres a distinção daquilo que foi feito com os pés.


Então, com o advento da planilha, surgiu uma coisa assim: o Internacional arrematou 14 vezes a gol, e o Grêmio, 16. Isso não existia antes. Ninguém anotava, não tinham uma planilha para isso.


Foi daí que as pessoas começaram a notar que o meu discurso era diferente do dos demais colegas. É por isso que o Lauro diz que sou um divisor de águas.


Em parte o meu apelido de professor decorre dessa minha frase didática, enfática e repetitiva. Eu faço comentários circulares, não os faço de forma linear. Eu vou até um ponto e depois volto e assim vou sucessivamente, até porque é assim que se aprende. Faço um processo de repetição, não com as mesmas palavras.

Fonte: Coiro, José/Grabauska, Cléber. Sala de redação: a divina comédia do futebol. Porto Alegre: L&PM, 1998, p. 108.




Capa: Ivan Pinheiro Machado sobre ilustração de Edgar Vasques

Sala de Redação por Ruy Carlos Ostermann, 1998

 

O programa Sala de Redação é a reunião de pessoas com personalidades fortes e que advêm de campos diferentes do conhecimento e campos diferentes de experiência. Essas pessoas são colocadas em torno da mesa, sem pauta, sem organização alguma, para ficarem aí cerca de uma hora, durante cinco dias da semana, ao longo do ano.


E ficam a conversar e debater sobre uma coisa apaixonante e contraditória que é o futebol. Então, é inevitável que haja desavenças, até pessoais, mas sobretudo de ordem conceitual, ideológica, de pontos de vista.


No Sala há muito “chutômetro”, há muita opinião, há muito isso, há muito aquilo. Essas coisas são contraditórias e entram nesse conjunto.

Fonte: Coiro, José/Grabauska, Cléber. Sala de redação: a divina comédia do futebol. Porto Alegre: L&PM, 1998, p. 100.




Capa: Ivan Pinheiro Machado sobre ilustração de Edgar Vasques

sexta-feira, 3 de junho de 2022

Inacreditável (Programa Sala de Redação 29/05/1998)

 

SANT’ANA: (…) Em Capão Novo, uma das nossas praias aqui do litoral norte, ontem aconteceu o seguinte: o posto de saúde estava fechado e havia um aviso estampado na porta principal: “Fechado por motivo de doença”.


(…) Professor, eu, em Florianópolis, passei por uma funerária, de automóvel. Na parede do prédio tinha um enorme cartaz que dizia assim: “Funerária Caminho do Céu”. Então, parei o meu carro, desci e me aproximei. Um cartaz menor, colado na porta, dizia: “Fechado por motivo de falecimento do proprietário”.


LAURO QUADROS: O Sant’Ana tem mania de ler coisas absurdas. Hoje de manhã ele fez o seguinte: eram 7h25min quando ele entrou no programa do Rogério Mendelski.


KENNY: Então, Lauro, tu és um ouvinte fiel do Rogério Mendelski?


LAURO: É isso mesmo. Eu ouço só para me irritar, o Rogério sabe disso.


SANT’ANA: Pois o Rogério me disse que assiste ao programa do Lauro na TVCOM, o Estúdio 36, também para se irritar, pra dormir mal, tudo por puro masoquismo.


LAURO: Mas, voltando ao assunto, o Sant’Ana disse assim: “Entrei numa tabacaria em Turim, na Copa de 1990, comprei uma carteira de cigarros e, quando fui acender, o meu cigarro, o cara da tabacaria disse: ‘Fumar aqui, não!’ Isso mesmo. O cara falou: ‘Vetato fumare’.” Isso é inacreditável! Mas inacreditável mesmo foi o que eu vi aqui em porto Alegre. Um cara foi na farmácia, comprou uma camisinha-de-vênus e queria experimentá-la dentro da farmácia.


RUY: Acredite se quiser…


SANT’ANA: Eu contei que um motorista na estrada de Florianópolis fazia sinais. Seu caminhão estava parado no acostamento e ele parecia desesperado. Na parte traseira existia um letreiro grande com os seguintes dizeres: “Cuidado! Inflamável! Óleo diesel.” Então, eu parei meu carro e fui lá falar com o motorista.


- O que é que houve, meu filho? Por que estás parado na estrada?


- Faltou óleo diesel, meu senhor… (Risadas do grupo do Sala.)


Em Passo Fundo, entrei numa churrascaria enorme, parecia a churrascaria Mosqueteiro ou quem sabe a Nova Bréscia. Na parede, um enorme cartaz, havia um conselho da secretaria da saúde que dizia: “Não comas carne vermelha. Faz mal à saúde”. Isso é uma coisa inacreditááávelll!


Finalmente, em Sapucaia, na porta de um banco existia um cartaz que dizia assim: “Este banco não se responsabiliza pelos valores aqui depositados”. (Risadas gerais.)


E Sant’Ana gritava: É inacreditááávelll!


LAURO: Nas garagens aqui de porto Alegre, têm enormes letreiros dizendo que não se responsabilizam pelos automóveis lá guardados.


SANT’ANA: Não ouvi toda a história, mas parece que o Rogério Mendelski contou que em Lisboa o presídio fica na rua da Liberdade. E parece que lá existe um parque onde todo mundo faz cooper, caminham na mais plena liberdade, todo mundo muito alegre, e o parque se chama Parque da Opressão.


RUY: Pois em Lisboa, numa praça, existia o seguinte aviso: “Não pise na grama. Se não souber ler, pergunte ao guarda”.


KENNY: Mas isso aí que o Rogério falou não é inédito. O presídio mais temível e terrível da ditadura uruguaia, onde todas as pessoas que eram contra o regime eram massacradas, esse presídio se chamava Libertad.


LAURO: E o caminho certo para o hotel São Domingos, no Recife, onde se hospedava a Seleção Brasileira do João Saldanha, o caminho certo era a Rua do Hospício.


RUY: Outro dia, eu fui estacionar meu carro numa garagem aqui, bem próximo da Zero Hora. Dirigindo-me para a rádio, caminhando, vi o primeiro, o segundo e o terceiro carros, todos com seus vidros quebrados para levarem os rádios e toca-fitas.


SANT’ANA: Professor, agora vou lhe contar o que aconteceu naquele estacionamento que fica na rua Zero Hora, passando as oficinas. Eram 20h01min. Eu e mais 12 pessoas fomos buscar nossos carros nesse estacionamento. Pasmem! O portão do estacionamento estava fechado com um baita cadeado. O funcionário tem ordem expressa de fechar às oito horas em ponto, por causa da falta de segurança. Mas eu fico até as três horas da manhã escrevendo. E então? Pois, voltando ao assunto, o guarda do estacionamento puxou um gigantesco molho de chaves com 48 chaves, experimentou uma por uma, e nós ali aguardando. Sabem o que aconteceu? Nenhuma das chaves abria o cadeado. Inacreditááávelll!


Fonte: Coiro, José/Grabauska, Cléber. Sala de redação: a divina comédia do futebol. Porto Alegre: L&PM, 1998, p. 37/40.




Capa: Ivan Pinheiro Machado sobre ilustração de Edgar Vasques

EBOOK NOSSO PAMPA DESCONHECIDO (Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul)

 https://www.sema.rs.gov.br/upload/arquivos/201708/25130950-nosso-pampa-desconhecido.pdf Org.  Luiza Chomenko & Glayson Ariel Bencke  Fo...