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domingo, 26 de janeiro de 2020

O Mate do Gaúcho (Raul Annes Gonçalves)



Também chamado de chimarrão, entre os campeiros é mais conhecido por mate, simplesmente. O mate é feito e tomado pelos gaúchos somente em cuia proveniente do porongo. Porém, as mulheres utilizam também caneco de barro ou alouçado e cuias feitas de madeira para tomarem seu mate doce. São só as mulheres que tomam mate com açúcar. elas também apreciam o mate de leite, isto é, em vez de água, o mate é enchido com leite quente, já preparado com açúcar, canela e erva-doce. O mate de leite é tomado de preferência pela tarde, acompanhado com pão, bolacha ou biscoitos e entre visitas íntimas, vizinhas ou comadres.

O gaúcho toma o seu mate amargo pela madrugada. Porém, quando de folga, toma-o a qualquer hora. Em seu rancho, ao chegar uma visita ou algum forasteiro, é logo obsequiado com um amargo. O gaúcho costuma pôr na chaleira, destinada ao mate, algum “jujo”, isto é, casca de certas árvores, raízes ou folhas de ervas que servem como medicamento.

O mate é tomado no galpão, entre peões, e é enchido só por um deles, sendo passado de mão em mão, sempre da direita para a esquerda. Mas, se na roda houver pessoa de categoria mais elevada, ou mesmo o patrão, a este é oferecido o mate em primeiro lugar.

O mate tomado na sala, entre pessoas de cerimônia, nunca é enchido no próprio recinto. Neste caso, cabe a uma mulher, de preferência uma das filhas do dono da casa, já moça, “tranquear” o mate da cozinha para a sala.

Nunca usam duas cuias na mesma roda de chimarrão, salvo em acampamento, quando o número de pessoas é grande.

Ao se agradecer o mate, é de praxe fazê-lo ao entregar a cuia e não recebê-la das mãos do enchedor.

Quem ao receber o mate, estando meio apertado ou entupido e sendo enchido por outro, não deve procurar corrigi-lo. Isso seria uma falta de atenção para com o enchedor. Neste caso, o direito é devolvê-lo a quem estiver enchendo e desculpando-se, pedir que o arrume.

O mate bem cevado sempre conserva um morrão de erva seca na boca da cuia. Essa erva deve ser depositada ao lado esquerdo de quem toma o mate. Se estiver à direita, o mate é canhoto, pois para enchê-lo, é forçoso despejar-se a água da chaleira por cima do morrão e isso não fica bem.

Ao entregar a cuia, depois de haver tomado o mate, não se deve levantar do banco ou do assento para tal, mesmo tratando-se de pessoa de cerimônia ou desconhecida. Basta fazer um simples gesto, estirando o braço, fazendo ver ao enchedor seu desejo de lhe entregar a cuia. A pessoa que estiver enchendo o mate é que atravessa a sala para entregar ou receber a cuia.

É também de bom costume, ao terminar o mate, fazer roncar a cuia, discretamente. Isso serve para advertir a quem estiver enchendo o mate, que este está tomado. Nunca se deve entregar o mate sem tê-lo tomado totalmente.

A cuia nunca deve passar de um dia para outro com erva. Isto faz com que o porongo fique com cheiro e gosto de azedo. Para retirar-se o azedo de uma cuia basta, antes de iniciar um novo mate, colocar dentro do porongo algumas brasas, despejando logo água fria em cima.

O mate sempre foi uma aproximação e oportunidade para os namorados, pois ao receber ou devolver a cuia sempre havia facilidade de se tocarem os dedos sem serem percebidos por terceiros que estivessem na sala.

No galpão, quando se colocava a chaleira sobre tições em vez de pôr no gancho ou na trempe, alguém logo lembrava este adágio: “Chaleira em cima do tição, tomaremos mate ou não”.

(Raul Annes Gonçalves. Mala de Garupa (Costumes campeiros). 3ª ed. Porto Alegre (RS): Martins Livreiro – Editor, 2004.)

Hábitos e Costumes – Matear Solito (Raul Annes di Primio)




Há muitos anos atrás, isto até a década de 40, uma doença que grassava impiedosamente era a tuberculose e quando chegava ao extremo era denominada tísica. Não havia tratamento, a morte era certa. Famílias inteiras tinham esse problema, aliás, bem retratado no livro “De todo o laço”, do médico Blau Souza.

Como o contágio era violento e vários membros da família adquiriam a doença, comum em muitas e muitas moradias rurais, uma das medidas tomadas para evitar esse contágio, acreditavam nossos antepassados, era eliminar o uso em comum do chimarrão. Nesse sentido e com essa intenção preventiva, muitos adotaram o mate individual. Cada um com sua cuia.

O visitante de outra região, quando chega em uma casa que tem esse costume e o desconhece, passa momentos de vexame. Muitas vezes o visitante se vê numa situação de matear sozinho, embaraçosa, desajeitada, inclusive para cevar o mate, em frente à família desconhecida que fica observando as dificuldades do mateador solitário, que até se autojulga contaminante ou de mau aspecto.

Por outro lado, quem toma seu chimarrão em roda gosta também, na parte da manhã, ainda de madrugada, de chimarrear sozinho, para pensar e por suas “idéias em ordem”.

Convivendo com famílias que adotaram o mate individual, nos acostumamos a aceitar essa discriminação, achando uma opção familiar ou individual, ainda que se tratando do chimarrão que para o gaúcho é uma bebida social.

Em muitas madrugadas nos acostumamos a ver no Castelo de Pedras Altas, na volta de um prefixo de rádio amador, a família Assis Brasil, Dona Lídia, Quinquinha, e a Menina Lídia, cada uma com seu mate, e, no entanto, nunca soubemos da existência de moléstia contagiosa nessa família.

(Vento Sul: costumes campeiro. Raul Annes di Primio. Porto Alegre: Edigal, 2000.)




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