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domingo, 26 de janeiro de 2020

Tradição (Raul Annes di Primio)



Os jesuítas foram os introdutores do gado no Rio Grande do Sul, até então povoado por animais silvestres e por índios. Estes foram a causa dessa tropeada de gado do Paraguai e que viria a constituir fonte segura e constante de alimentação dos índios reduzidos, pois a feita com caça, pesca e agricultura era irregular e imprevista, dependendo sempre das condições climáticas com períodos negativos em invernos rigorosos, secas, geadas, pragas castigando as lavouras e emagrecendo as “caças”.

Essa animália introduzida e distribuída na área missioneira e acomodada nas suas diversas estâncias que serviam de apoio abastecedor dos povos das reduções teve que ser, ainda que empiricamente, atendida com os meios existentes na época.

Coube, pois, aos padres a obrigação de ensinar aos índios catequizados a lidarem com esses animais até então desconhecidos, e deles tirarem os proveitos úteis e necessários tais como alimento, carne, leite, lavração, transporte, bem como o manejo para a manutenção desses gados, que deviam aumentar paralelamente ao crescimento populacional e consumidor dos índios catequizados.

Uma das primeiras medidas para aumento da criação foi a proibição do abate de fêmeas, na política de proteção e conservação de úteros necessários à produção de terneiros.

Em suas estâncias mantinham o gado confinado em áreas delimitadas por acidentes naturais: cerros, rios, banhados, matos, procurando sempre aquerenciá-los nestas áreas, chamadas antigamente de rincões. O gado era “rinconado”. Não havia ainda cercas de arame.

Medidas sanitárias não existiam. As bicheiras eram curadas com pomadas mercuriais já na época dos jesuítas.

Os nomes de santo nas raras capelas existentes e a maioria dos trabalhos rotineiros de uma estância são heranças dos jesuíticos. Tudo girava em torno dos santos. Não há registro de como surgiram, mas todas as benzeduras invocam o nome de Cristo ou ainda da cruz.

Para evitar essas bicheiras os padres campeiros (cada padre tinha sua especialização nas reduções), aconselhavam a marcação dos terneiros após o dia de São João (com o frio a mosca desaparece).

No entanto, com o decorrer do tempo, esses nomes santificados nas estâncias foram sendo substituídos pelos nomes pagãos de árvores, cerros, paisagens, etc. Por exemplo, Cinco Salsos, Estância da Figueira, Estância Cerro Negro, Estância Posto Branco, Boa Vista, Itaúna, Crianças, União, Pedras Brancas, etc.

Nos trabalhos de campo, durante o ano, muito por não saberem ler nem escrever e levar a “escrita” na cabeça, criaram um calendário próprio e “sui generis” para a cronologia dos trabalhos na administração de seus interesses.

Assim, para firmar data, não só para si, mas também para seus empregados, para que “fixassem” essas atividades, os serviços da estância eram determinados por datas históricas e não sacras e nesse sistema adotavam:

- 20 de setembro, assinalação de cordeiros, em homenagem à revolução Farroupilha;

- 3 de outubro, entourar, homenagem à revolução de 30;

- Após 2 de novembro, início da esquila, em homenagem aos mortos;

- 1º de maio, retirada dos touros do gado de cria, em homenagem ao trabalhador (Dia do Trabalho);

- 3 dias depois do carnaval, largada dos carneiros (somente Corriedale) do rebanho de cria, em homenagem aos foliões;

- 1º de abril; retirada dos carneiros do rebanho de cria, em homenagem aos bobos.

Este cronograma encontramos em uma estância da fronteira, de propriedade de um advogado formado em São Paulo, com larga experiência campeira. É uma maneira sábia e filosófica de firmar na memória uma rotina fixa, definida, numa exploração em tempos passados, com pouca ou nenhuma escolaridade, em que a maioria dos patrões e empregados eram analfabetos, e os raros que não eram se guiavam pelos calendários conhecidos como “folhinhas”, distribuídas pelos bolichos de campanha.

A época de entourar no Rio Grande é na primavera e geralmente a partir de 1º de outubro. A de encarneirar varia um pouco de acordo com a raça e inicia em dezembro com as raças de lã fina e em fevereiro/março com as raças de cruza média e grossa. A esquila, ainda de acordo com a região, inicia em meados de outubro e vai até janeiro.

(Raul Annes di Primio. Vento Sul: costumes campeiros. Porto Alegre: Edigal, 2000.)

O Mate do Gaúcho (Raul Annes Gonçalves)



Também chamado de chimarrão, entre os campeiros é mais conhecido por mate, simplesmente. O mate é feito e tomado pelos gaúchos somente em cuia proveniente do porongo. Porém, as mulheres utilizam também caneco de barro ou alouçado e cuias feitas de madeira para tomarem seu mate doce. São só as mulheres que tomam mate com açúcar. elas também apreciam o mate de leite, isto é, em vez de água, o mate é enchido com leite quente, já preparado com açúcar, canela e erva-doce. O mate de leite é tomado de preferência pela tarde, acompanhado com pão, bolacha ou biscoitos e entre visitas íntimas, vizinhas ou comadres.

O gaúcho toma o seu mate amargo pela madrugada. Porém, quando de folga, toma-o a qualquer hora. Em seu rancho, ao chegar uma visita ou algum forasteiro, é logo obsequiado com um amargo. O gaúcho costuma pôr na chaleira, destinada ao mate, algum “jujo”, isto é, casca de certas árvores, raízes ou folhas de ervas que servem como medicamento.

O mate é tomado no galpão, entre peões, e é enchido só por um deles, sendo passado de mão em mão, sempre da direita para a esquerda. Mas, se na roda houver pessoa de categoria mais elevada, ou mesmo o patrão, a este é oferecido o mate em primeiro lugar.

O mate tomado na sala, entre pessoas de cerimônia, nunca é enchido no próprio recinto. Neste caso, cabe a uma mulher, de preferência uma das filhas do dono da casa, já moça, “tranquear” o mate da cozinha para a sala.

Nunca usam duas cuias na mesma roda de chimarrão, salvo em acampamento, quando o número de pessoas é grande.

Ao se agradecer o mate, é de praxe fazê-lo ao entregar a cuia e não recebê-la das mãos do enchedor.

Quem ao receber o mate, estando meio apertado ou entupido e sendo enchido por outro, não deve procurar corrigi-lo. Isso seria uma falta de atenção para com o enchedor. Neste caso, o direito é devolvê-lo a quem estiver enchendo e desculpando-se, pedir que o arrume.

O mate bem cevado sempre conserva um morrão de erva seca na boca da cuia. Essa erva deve ser depositada ao lado esquerdo de quem toma o mate. Se estiver à direita, o mate é canhoto, pois para enchê-lo, é forçoso despejar-se a água da chaleira por cima do morrão e isso não fica bem.

Ao entregar a cuia, depois de haver tomado o mate, não se deve levantar do banco ou do assento para tal, mesmo tratando-se de pessoa de cerimônia ou desconhecida. Basta fazer um simples gesto, estirando o braço, fazendo ver ao enchedor seu desejo de lhe entregar a cuia. A pessoa que estiver enchendo o mate é que atravessa a sala para entregar ou receber a cuia.

É também de bom costume, ao terminar o mate, fazer roncar a cuia, discretamente. Isso serve para advertir a quem estiver enchendo o mate, que este está tomado. Nunca se deve entregar o mate sem tê-lo tomado totalmente.

A cuia nunca deve passar de um dia para outro com erva. Isto faz com que o porongo fique com cheiro e gosto de azedo. Para retirar-se o azedo de uma cuia basta, antes de iniciar um novo mate, colocar dentro do porongo algumas brasas, despejando logo água fria em cima.

O mate sempre foi uma aproximação e oportunidade para os namorados, pois ao receber ou devolver a cuia sempre havia facilidade de se tocarem os dedos sem serem percebidos por terceiros que estivessem na sala.

No galpão, quando se colocava a chaleira sobre tições em vez de pôr no gancho ou na trempe, alguém logo lembrava este adágio: “Chaleira em cima do tição, tomaremos mate ou não”.

(Raul Annes Gonçalves. Mala de Garupa (Costumes campeiros). 3ª ed. Porto Alegre (RS): Martins Livreiro – Editor, 2004.)

Hábitos e Costumes – Matear Solito (Raul Annes di Primio)




Há muitos anos atrás, isto até a década de 40, uma doença que grassava impiedosamente era a tuberculose e quando chegava ao extremo era denominada tísica. Não havia tratamento, a morte era certa. Famílias inteiras tinham esse problema, aliás, bem retratado no livro “De todo o laço”, do médico Blau Souza.

Como o contágio era violento e vários membros da família adquiriam a doença, comum em muitas e muitas moradias rurais, uma das medidas tomadas para evitar esse contágio, acreditavam nossos antepassados, era eliminar o uso em comum do chimarrão. Nesse sentido e com essa intenção preventiva, muitos adotaram o mate individual. Cada um com sua cuia.

O visitante de outra região, quando chega em uma casa que tem esse costume e o desconhece, passa momentos de vexame. Muitas vezes o visitante se vê numa situação de matear sozinho, embaraçosa, desajeitada, inclusive para cevar o mate, em frente à família desconhecida que fica observando as dificuldades do mateador solitário, que até se autojulga contaminante ou de mau aspecto.

Por outro lado, quem toma seu chimarrão em roda gosta também, na parte da manhã, ainda de madrugada, de chimarrear sozinho, para pensar e por suas “idéias em ordem”.

Convivendo com famílias que adotaram o mate individual, nos acostumamos a aceitar essa discriminação, achando uma opção familiar ou individual, ainda que se tratando do chimarrão que para o gaúcho é uma bebida social.

Em muitas madrugadas nos acostumamos a ver no Castelo de Pedras Altas, na volta de um prefixo de rádio amador, a família Assis Brasil, Dona Lídia, Quinquinha, e a Menina Lídia, cada uma com seu mate, e, no entanto, nunca soubemos da existência de moléstia contagiosa nessa família.

(Vento Sul: costumes campeiro. Raul Annes di Primio. Porto Alegre: Edigal, 2000.)




sábado, 7 de julho de 2018

MILTON SOUZA: Entre o Tradicionalismo e o Nativismo

GENTE GAÚCHA

Por Marta Barboza

Abrimos espaço a Milton Souza, um dos idealizadores da Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana, onde mora e desempenha suas funções de radialista, que lhe permite inúmeros contatos com o mundo da música regional e tradicionalista, o que de certa forma lhe dá um “cacife” de ter participado e acompanhado todo o movimento cultural do Estado. Portanto, um homem respeitado também pelo Movimento Nativista, razão pela qual o classificamos como “gente gaúcha”. Leia as suas razões:

TARCA: Milton Souza, tu és um guerreiro dos festivais, do movimento cultural do Sul. Tu te assumes nativista ou tradicionalista?
M. SOUZA: Eu sempre tive dúvidas nessa diferença que se faz entre o tradicionalismo e o nativismo. Eu tenho dúvidas porque fui um dos iniciadores do movimento hoje chamado de Nativista e me considero um tradicionalista (esse movimento nasceu dentro de uma entidade tradicionalista que foi o Sinuelo do Pago). O movimento nativista vem adquirindo normalmente o seu espaço. Então, quando uma pessoa me diz que é nativista, eu o considero um homem urbano, que gosta das mesmas coisas que eu gosto; que tem o mesmo desejo de lutar pelo desenvolvimento da nossa cultura. Ele não é um homem diretamente ligado aos CTGs; não liga muito para detalhes que, ainda hoje, perduram dentro do Movimento Tradicionalista, obrigando a colocar esta ou aquela peça do vestuário masculino. Nas primeiras Califórnias eu entendia que só poderíamos permitir no palco aquele que estivesse devidamente pilchado. Com o correr do tempo, eu fui me ajustando e hoje eu olho com outros olhos para um grupo que está de alpargatas, faixa ou camisa sem lenço. Essa figura que está no palco é mais uma figura do nativista desta geração que se criou no Rio Grande do Sul.  

TARCA: Então tu sentes melhor no lado nativista, te situas melhor nessa nova fase? Há uma tendência muito forte do movimento no Estado, a ponto de armarem uma reunião em porto Alegre para uma tomada de posição entre tradicionalista ou nativista?
M. SOUZA: Eu não faço distinção quanto ao posicionamento. Eu faço distinção entre a ação das duas coisas. Jamais poderei me colocar entre tradicionalista ou nativista, porque assim como venho aqui colaborar com festival como jurado, eu estou em Uruguaiana pertencendo à diretoria de um CTG. Para mim é muito difícil tomar uma posição entre os dois movimentos. Eu vivo as duas coisas, se é que existe essa diferença que alguns querem fazer. Agora, uma das coisas que eu não admito é dizer que não existe nativismo no Rio Grande do Sul. Nativismo existe e está aí. Se os CTGs dos municípios onde se realizam festivais não aderirem a esse movimento novo, a tendência é que eles diminuam cada vez mais, porque o Movimento não para. Eles devem, isto sim, é aderir a esta nova ideia, a este novo ângulo das nossas tradições, do nosso folclore, dos nossos costumes com que o Nativismo hoje se preocupa, ou seja, manter uma vivência em torno da arte, em torno da música, em torno da poesia. Há 36 anos atrás, quando eu entrei no tradicionalismo (era o que tinha na época) a tendência era pender para o lado crioulo do assunto,  para o lado rural. Era cultuar pura e simplesmente o homem do campo. Hoje, para um sujeito pertencer a um CTG, não precisa que ele seja um exímio domador, laçador ou seja lá o que for. Ele pode ser um intelectual. Os CTGs perderam muitos valores da cultura rio-grandense porque eles se chocavam. Aqueles que faziam o Movimento Tradicionalista Gaúcho procuravam “engrossar”. Achavam que para ser gaúcho tinham que falar o português errado. E não é assim! E tem gente que não reconhece o Movimento Nativista no Rio Grande do Sul. Há uma omissão dos CTGs, dos tradicionalistas, virando as costas para um movimento que é uma realidade, que é esse movimento artístico-musical do Rio Grande do Sul. Se não fosse ter criado esse movimento nativista e esse espaço para que os jovens viessem a nós, nós estaríamos como antes de 71: dificilmente se via um jovem com um instrumento na mão.


TARCA: O grupo que fez a Califórnia já era, então, um grupo aberto do Tradicionalismo, com uma outra visão, outro ponto de vista?
M. SOUZA: A nossa preocupação era esta: nós precisávamos de mais cultura e menos “grossura” dentro do CTG, pelo posicionamento de certos tradicionalistas do início da época. Então, quando assumimos a direção do Sinuelo do Pago a nossa intenção era, justamente, trabalhar em torno da cultura rio-grandense. Junto com o Henrique de Freitas Lima e o Colmar Duarte, nos preocupamos em atrair os colégios, dar aulas. Nós dávamos aulas de História, Geografia, Usos e Costumes, Folclore, os índios rio-grandenses. Aí formamos um pólo cultural. Então, como desde 63 eu tinha um programa de rádio, eu comecei a sentir dificuldade de encontrar músicas que viessem a colaborar com a cultura do Rio Grande do Sul. As músicas da época eram coisas muito escassas. Só existiam os conjuntos Farroupilha, Os Gaudérios, Os Sinuelos e eram as músicas que nós utilizávamos, 4 ou 5 LPs. Aí começou a preocupação de fazermos alguma coisa para atrair alguém, para que aquelas músicas, a nossa cultura poético-musical tivessem vez de alguma forma. No programa de rádio, nós convidávamos pessoas para apresentações ao vivo, para que não se repetisse tanto em um programa de uma hora. No entanto, não surgia nada novo. Ficava difícil a produção do programa por falta de material. Dentro do Sinuelo do Pago foi se formando, ao natural, o encontro de pessoas com a mesma preocupação de fazer música e com condições de fazer música. A partir desse entusiasmo resolvemos fazer alguma coisa para que aumentasse esse material para serem rodados nos programas. E tivemos êxito porque veio resultar na Califórnia da Canção Nativa, nome esse dado por Colmar Duarte e que instituiu, também, o Troféu Calhandra (pássaro que canta e imita todos os outros pássaros). Nós notávamos que, naquela época, todas as composições eram muito saudosistas, coisas que contavam o Rio Grande do passado e que, já naquela época, não era a realidade em que vivíamos. Nós poderíamos ser tradicionalistas, criar outras coisas, mas dentro da realidade. Nós temos que deixar de fazer poemas daquilo que foi, porque o gaúcho histórico não existe mais. O monarca das Coxilhas, o sentinela dos pampas já morreu, é histórico. Deu lugar, isto sim, para os gaúchos que somos hoje, os nativistas, os tradicionalistas, andarmos juntos, de braços dados. Este é o gaúcho que temos de cantar, os seus anseios, as suas esperanças. Vamos colaborar para que conheçam mais este Rio Grande de hoje, não adianta só conhecer o Rio Grande do passado, o Rio Grande histórico, o Rio Grande guerreiro. Nós temos de vivenciar essa tradição nos dias atuais, com a melhor elaboração dessas composições (que é o que leva o Rio Grande, porque a cavalo ele demoraria muito para chegar), que a música tenha essa penetração rápida nos meios de comunicação de massa. A gente precisa, cada vez mais, de bons trabalhos.

TARCA: Milton, diga-nos, para encerrar, quais as expectativas para a 16ª Califórnia.
M. SOUZA: A Califórnia é um palco aberto a todos aqueles que se ajustem aos critérios, à filosofia da Califórnia e que levem a sua contribuição. Ela luta muito contra coisas que, eventualmente, vêm em prejuízo da promoção, certas ideias que querem fugir das linhas tomadas pela Califórnia. Ela sempre teve por objetivo a valorização da música do Rio Grande do Sul. Então, a nossa preocupação é no sentido de que as músicas que vão compor o disco da Califórnia possam ser tocadas em qualquer emissora de rádio e em qualquer horário. Daí o porquê da gente querer trabalhos bem acabados.
Aqui surgiu um movimento de valorização da música e integrou-se o jovem. Por isso os festivais não podem ser fechados, ortodoxos. Não podemos nos preocupar com minúcias de roupas. Precisamos, isto sim, é deixar de sermos saudosistas e cantar um Rio Grande atual, de 86, suas esperanças e seus anseios.
Fonte: Tarca – Revista de Cultura Gaúcha – ANO III – Maio/1986 – Nº 14 - p. 7/8


“Os Aiatolás da Tradição” - JUAREZ FONSECA e GILMAR ETELWEIN


REPORTAGEM
TRADIÇÃO OU
NATIVISMO?

“Os Aiatolás da Tradição”

Estamos publicando uma reprodução de textos da matéria assinada pelos jornalistas JUAREZ FONSECA e GILMAR ETELWEIN – “OS AIATOLÁS DA TRADIÇÃO”, central de ZH Cultura (14.06.1986). Reprodução esta válida e oportuna, pois vem de encontro com a linha editorial e específica deste órgão de imprensa que vem lutando pelo novo, direção correta da cultura do Rio Grande nativo, até então palanqueada nos incertos moirões e aramados do tradicionalismo.
TUDE MUNHOZ
*** Imaginando que podem deter a marcha da História, impedir a liberdade de criação, atrasar o processo de evolução cultural e manter autoprivilégios de donos da verdade, começaram a levantar a voz no Rio Grande do Sul, nos últimos anos, os “aiatolás” da tradição. Depois que o despertar da juventude se tornou nítido, ocupando os espaços e apoiando, em palco e em plateia, uma nova e moderna forma de cantar sua região e sua história, os “aiatolás” julgaram aplainado o terreno para manifestar-se, posando de professores e guardiões do templo. Já arriscam ressuscitar dogmas, reviver formas autoritárias de pensamento, e pouco a pouco passam a julgar-se proprietários das manifestações que digam respeito ao cantar gaúcho. Vão ocupando postos de influência na organização de festivais e em suas comissões julgadoras, nos meios de comunicação, nas instituições fiscais de qualquer âmbito. E, na maioria das vezes, sempre fechando, limitando, ditando regras e formas de comportamento. Atacando agressivamente, às vezes, quem não aprendeu a ler por suas cartilhas. Por tudo isso, quem se julga no direito de criar com liberdade a música do Rio Grande do Sul, colocando nela suas angústias, seus amores, suas paixões, suas denúncias, suas esperanças e desesperanças quanto ao presente, seus temores e crenças quanto ao futuro, por tudo isso, deve manifestar-se e reagir contra os “aiatolás” da tradição. Sabe-se o que é a tradição e sabe-se que os “aiatolás” a estão contaminando com suas brigadas repressivas.

*** O Movimento Tradicionalista Gaúcho existe de fato e de direito, tem suas regras, seus princípios, suas bibliografias. Não se pode dizer que exista de direito um Movimento Nativista, mas é inegável que ele existe de fato. Nativista não é o dogmático, não está ligado a critérios pré-estabelecidos. Sabe que além do Rio Grande do Sul existem os outros Estados brasileiros e, além deles, o mundo. O nativista acha que guitarras e sintetizadores são apenas instrumentos musicais e não objetos diabólicos e corruptores. Ele também quer ter a liberdade de, tranquilamente, se deixar influenciar por outras ideias musicais, como aconteceu com seus antepassados do século XIX, que levaram para animar o campo os ritmos que vinham dos centros europeus. Os nativistas têm presente a realidade do Rio Grande do Sul de hoje e sabem que os tão decantados (e contraditoriamente tão discriminados) “peões” de que falam os “aiatolás da tradição”, não andam felizes pelo pampa. Andam trabalhando duríssimo, de bombacha ou calça remendada, calçando não lustrosas botas mas prosaicos chinelos-de-dedo. Ou andam vagando pelas estradas e acampamentos de sem-terra. Os nativistas são a favor da reforma agrária, de uma ordem social mais justa, e contra o sistema latifundiário e quase escravagista que ainda persiste. Os nativistas não concordam com a hierarquização alimentada e defendida pelos tradicionalistas como se o mundo fosse um grande quartel.

*** É preciso dizer que os atuais “aiatolás da tradição”, encastelados em suas verdades imutáveis, em suas formas fechadas e divisionistas, juízes do bem e do mal, detentores do segredo do poema, maridos da musa da melodia e afilhados prediletos do deus do ritmo puro, estão exercendo o papel de irresponsáveis censores da consciência e da sabedoria alheias. Xenófobos muitas vezes, insistem em manter uma visão microscópica da arte e da realidade. E tão seguros sentem-se em sua presumível onipotência, que passam o tempo ditando regras, separando o “joio” do “trigo”, encontrando chifres em cabeça de cavalo. Preservar certas tradições é necessário, e nisso os CTGs cumprem o seu papel. Agora, querer encampar os festivais do Rio Grande do Sul como propriedade do “movimento tradicionalista” é uma aberração. Envolver a música e a manifestação artística gaúchas em uma cerca de arame farpado é algo que não se pode entender nem permitir. Os “aiatolás da tradição”, todos bem postados nas cidades, querem reviver e manter a mística do campo, sob o argumento fugidio de que os peões tinham lá casa, comida e felicidade. Uma mística alimentada por fazendeiros, que perderam uma força de trabalho estável e disciplinada. Mas por que saíram do campo estas levas que hoje tornaram-se operários desqualificados da construção civil, papeleiros, lavadeiras, domésticas e prostitutas, gerando trombadinhas e logo assaltantes? Analfabetos, sem raízes, guerrilheiros de “baixa sociedade”. Os “aiatolás da tradição” querem que se cante o seu passado ideal e não o seu drama.

*** Quando se fala no “conflito” entre as formas novas e as mais tradicionais, as cabeças menos dotadas logo imaginam que está sendo proposta uma abertura ao rock e à música urbana, em contraposição ao xote, à vaneira, à milonga. Não há nada mais pueril do que esse raciocínio. Porque, na verdade, na maior parte das vezes ele se prende à mera questão do instrumental usado. Quanto à temática das letras não pode ser porque (e os discos estão aí mesmo para se tirar qualquer dúvida) não apareceu ainda, em nenhum festival, sequer uma música que falasse de algo não entendível pelo Rio Grande do Sul em qualquer quadrante. Pelo contrário, mesmo os compositores dito “urbanos”, que eventualmente participam dos festivais, às vezes procuram adequar-se até à terminologia dita “campeira”. Quanto ao ritmo também não pode ser; as comissões de pré-seleção, bem batizadas por Dilan Camargo de “comissões de inquérito”, jamais deixariam passar um rock ou um ritmo definidamente urbano. Mas voltando aos discos dos festivais, eles têm uma gama tão grande de abordagens rítmicas, tantas formas de milongas, de xotes, de vaneiras, de toadas, dignas de enlouquecer um purista radical. 
  
*** Antes que os inventores do “neo-tradicionalismo” se apossassem do tradicionalismo original, pesquisado e inventado por Paixão cortes, Barbosa Lessa e Glaucus Saraiva no final dos anos 40, já andavam os Irmãos Bertussi gravando “sambas campeiros” e “chorinhos campeiros”. Os Gaudérios, fizeram sucesso gravando músicas de um compositor “urbano”, Lupicínio Rodrigues, que nasceu na Ilhota, em Porto Alegre, e só foi botar os pés em uma estância poucos anos antes de morrer. Para os recentes “aiatolás da tradição”, a História parece ser uma coisa a ser escamoteada. Os tradicionalistas de 48 afirmaram uma postura e em nenhum momento (os livros publicados por eles estão aí mesmo para provar isso) estiveram preocupados em negar a realidade do Estado gaúcho. Pelo contrário, evoluíram com elas e ele, mas suas invenções e pesquisas originais foram formando dogmas, catecismos de incautos, embora eles mesmos as venham subvertendo. De qualquer forma, estamos neste parágrafo para falarmos de instrumentos e instrumentação. Os “aiatolás” têm ojeriza pelos sintetizadores e até pela guitarra elétrica. Embora com a guitarra dancem em todos os fandangos – alguém precisa explicar porque pode guitarra nos bailes, e não pode nos palcos dos festivais? Ou, então, porque pode baixo elétrico nos palcos e não pode guitarra? Alguém precisa explicar, também, porque os sintetizadores causaram tanta comoção e agressividade na última Califórnia da Canção, se em 76 (10 anos atrás) eram o único instrumento fazendo base para a música Sementes de Pedra, vencedora da Linha de Projeção Folclórica do mesmo festival. A gaita entrou no Rio Grande do Sul no final do século passado para ajudar a viola de arame e a rabeca. Foi muito bem vinda. Cem anos depois, os inteligentes “aiatolás” encrespam com os sintetizadores. Estão cem anos atrás em matéria de abertura. Imaginem se os caras de 1880 não aceitassem a gaita por ser “instrumento alienígena”. Ou não aceitassem os schottish, as valsas, as habaneiras, as polcas e as mazurcas que chegaram da Europa. A história da música gaúcha se fez no dia-a-dia do passado, e agora querem impedir que ela se faça no dia-a-dia do presente.

*** Quem não aceitar as regras, que não participe dos festivais dominados pelo pensamento tradicionalista, ou conservador. Analisada superficialmente, essa parece ser uma questão de livre arbítrio – de quem organiza e de quem participa. Mas trata-se de uma análise falsa e enganosa, porque não se pode confundir a cultura de um povo com partidos políticos. E mesmo que se pudesse, a porta para a discussão deve permanecer sempre aberta, sob pena de cair-se no alagadiço terreno da opinião exclusiva, da ‘verdade incontestável” que levou ao nazismo e ao fascismo. Precisa-se contestar e boicotar as regras do jogo, quando esse jogo tem um juiz que puxa para um lado só. Quando falamos em festivais, falamos da cultura musical gaúcha, abrangente, diversificada, livre, que se não desconhecer a base do passado, muito menos pode deixar de lado a indesmentível, crua, fascinante e inevitável realidade do presente. Os festivais precisam mudar, abrir-se à diversificação; é necessário que cada um deles tenha espaço para as novas formas, e que elas convivam harmoniosamente com as formas mais tradicionais. Só assim se poderá dar a eles credibilidade. Quando, na competição, o “velho” for melhor que o “novo”, ou quando o “novo” superar em qualidade o “velho”. Caso contrário, será sempre um jogo de cartas marcadas, um clube fechado e antidemocrático, onde o tradicional exprime-se da responsabilidade com o presente real. E isso também é falso. Diga-se porque ninguém está livre de seu cotidiano. E o cotidiano não é tradicionalista.

*** Por que nossa música de base folclórica é considerada apenas “regionalismo gaúcho” e só tem aceitação fora daqui como curiosidade, como manifestação meramente regional? Será que é um complô do Brasil contra nós, ou será que nós, mesmo querendo e pregando a Projeção de nossa música no País, estamos insistindo em uma visão unilateral, querendo impor valores e conceitos domésticos restritos? O segredo talvez esteja nos dogmas, no orgulho arcaico que nos aparta da nacionalidade. Queremos conquistar o Brasil segundo nossas condições, queremos impor-nos sem pensar que, para isso, teremos que viver o Brasil.

*** As poucas músicas de festivais que tiveram uma certa projeção nacional, saíram em sua maioria absoluta da linha de Projeção Folclórica da Califórnia da Canção – que forma com o Musicanto e a Ciranda o trio de eventos síntese do nativismo. Pode-se apontá-las: Gaudêncio 7 Luas e Cordas de Espinhos, ambas de Luiz Coronel e Marco Aurélio Vasconcellos; Semeadura, de Vitor Ramil e José Fogaça; Estrela Guria, de Pery Souza e Fogaça; Desgarrados, de Mário Barbará e Sérgio Napp (que já tem sete gravações). Semeadura tem uma história particular, pois tornou-se, também, internacional na gravação de Mercedes Sosa e foi a única música brasileira escolhida pelo acordeonista argentino Tarragó Ros para seu show na Califórna. Os “aiatolás da tradição”, que estão declarando guerra contra a evolução da arte nativa, por causa de seu conservadorismo, apego a um passado estanque e seu divisionismo, estão deflagrando também uma nova onda antitradicionalista – e não é isso que se quer. O que se quer é a convivência salutar, sem verdades exclusivas. Que os pais e avós tenham orgulho dos filhos e netos que descobrem seus caminhos próprios. Além do mais, a cultura gaúcha pertence a todos os gaúchos e cada um tem uma maneira de vê-la, entendê-la e reproduzi-la. Chega de conceitos ultrapassados, chega de repressão, chega de pretender que só é gaúcho quem foi fabricado em uma única forma. E que os festivais transformem-se em todos os verdadeiros encontros de discussão cultural aberta, de manifestação cultural criativa, e não em eventos apenas turísticos.
Fonte: Tarca – Revista de Cultura Gaúcha – ANO III – Maio/86 – Nº 14 - p. 24/26


domingo, 24 de junho de 2018

A’ MARGEM DO REGIONALISMO – JOÃO PINTO DA SILVA¹


O nosso regionalismo é fértil em conteurs e paizagistas. Seus reflectores fócam os assumptos, parcel’.adamente, por zonas, em episodios avulsos e fragmentarios. Ha situações e typos que se repetem, com frequencia. Pouco differem, de um livro a outro livro, os scenarios, a mise-en-scéne. E’ indisfarçavel, por isso mesmo, a monotonia que, ás vezes, de muitas de suas melhores paginas se evola.
Esse perpassar de identicos truques, em torno de personagens que quasi nada variam, dá, afinal, a impressão falsa de que o Rio Grande é pobre de aspectos physicos e moraes. Falta-nos, em verdade, um romance, uma novella, pelo menos, que apanhe, por exemplo, no seu raio de acção, mediante opportuna série de paineis retrospectivos, as varias faces da evolução da nossa vida rural, a physionomia typica do periodo de transição que atravessamos, iniciado logo após a revolução de 1893.
A fixação esthetica, - indirecta, portanto, - deste instante historico especial, de tão radicaes transformações, mostrar-nos-ia não gaúchos mais ou menos phantasmaticos e sim homens vivos, criaturas que a civilização mechanica tentou eliminar ou pôr á margem, sem o conseguir; porque o gaúcho se converteu, graças a um phenomeno surprehendente de plasticidade mental, em instrumento dynamico de progresso.
Certos autores, daqui e do Prata, descrevem o gaúcho á semelhança de materia inorganica, inassimilavel. E’ um erro, oriundo da contemplação excessiva do passado. Contra isso impõe-se um movimento de reacção. Há os inadaptaveis, certamente, mas esses são diminuta minoria.
O que o homem dos nossos campos, tanto o estancieiro quanto o mais humilde trabalhador rural, offerece de impressionante a qualquer observador meticuloso, é justamente a sua capacidade de renovação, a presteza da sua activa e intelligente adaptação ás exigencias novas da vida.
Poucas industrias já soffreram, aqui, tão largas modificações como a pastoril. Sob a suggestão do exemplo de dois ou tres extrangeiros corajosos, fizeram-se os gaúchos, elles proprios, sem relutancia, orgãos propulsores da implantação de todos os methodos modernos de criação e pastoreio.
Affeitos á evocação do gaúcho anterior á estrada de ferro, ao Ford e á introducção do Hereford e do Durban, para a cruza dos rebanhos creoulos, não comprehendemos, por via de regra, a mutação. E só vislumbramos destroços, precisamente onde se forjam e articulam os materiaes do nosso rejuvenescimento.
O homem que alguns dos nossos regionalistas surprehendem, decepcionados, no interior, a guiar, com pericia, um automovel, a marcar o gado com o auxilio do bréte, a estabular reproductores de puro sangue, a expedir novilhos, tranquillamente, em vagões ferro-viarios, para as xarqueadas e os frigorificos, está por certo bem longe do typo lendario que a imaginação delles, imaginação poetica e, em geral, livresca, idealizava.
Póde não ser o seu gaúcho, mas é o gaúcho, com as linhas psychologicas raciaes intactas.
Não é o xiripá, não é a indumentaria o essencial á sua caracterização, como o não é, tampouco, o modo exterior de se conduzir na vida, que perdeu em theatralidade o que ganhou em efficiencia.
Vestido á européa, a pé ou a cavallo; derrubando touros ou extendendo aramados; ouvindo as operas do Colon, de Buenos Aires, por intermedio do radio, em vez da ancestral cordiona, o que dá physionomia historica ao gaúcho, o seu vinco de differenciação, em summa, é a franqueza, nas attitudes e nas palavras; o narcisismo; a bravura quichotesca; a instantaneidade impulsiva das resoluções; a vehemente vocação cívica; a altaneria; o bom humor, mesclado a irreprimiveis explosões sentimentaes e fatalistas.
Taes virtudes e defeitos constituem o fundo permanente, immutavel, do seu caracter. Por isso, não variam com as condições materiaes, ou moraes, de vida. Exprimem uma postura ideal e typica de alma. São os traços distinctivos da estirpe.
Esses defeitos e virtudes identificam, soldam, espiritualmente atraves do tempo, o gaúcho de hontem ao de hoje.
Acóde-me, a proposito, á lembrança, o caso de Frederico de Ahumada, o Zogoibi, do admiravel romance do sr. Enrique Larreta. E’ um gaúcho europeizado, quasi deslocado no pago, depois das suas viagens e aventuras. No entanto, por debaixo daquelle verniz parisiense, o que lateja são as qualidades positivas e negativas da raça, o instincto especifico da grei.
Confrontemol-o, por exemplo, com o D. Segundo Sombra, de Ricardo Güiraldes. Fica este, por certo, muito mais proximo, apparentemente, das nossas fontes originarias. E’ um ser quasi primitivo, na sua vivacidade elementar, agitando-se num ambiente agreste.
Será um neto de Martin Fierro? não o será, antes, de Viscacha?
Talvez de ambos...
Examinem-se-lhe detidamente, entretanto, os actos e as intenções. Ver-se-á, no intimo, que é um typo convencional. Nada obstante as exterioridades circumstanciaes e as preocupações symbolicas, é bem menos expressivo do Pampa do que o heróe semi-desenraizado de Zogoibi.
Não é um gaúcho, rigorosamente, mas um moujik.
Acompanhae-o nas suas sentenças e attitudes, no mysterio das suas origens e propositos. No fundo, é mystico e melancholico. E’ uma personagem de Gorki, extraviada no Pampa.
Vêde! E’ Konovalov a cavallo...
¹ Grafia original.
Fonte: O Rio Grande do Sul em Revista, p. 115. OF. GRAF. DA LIVRARIA DO GLOBO. Porto Alegre: 1930.

Sete sílabas de terra vermelha (Paulo Bentancur)

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