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terça-feira, 15 de março de 2022

Chácara Bela Vista, Melo, Uruguai (Diário de Cecília, 1927)


Sexta-feira,11 de novembro


Está fazendo exatamente um mês que chegaram do Rio Mamãe, Papai, Quinquim e Lina. Neste momento disse-lhe adeus de novo, pois o Papai foi chamado pelos outros deputados da Esquerda e partiu com Mamãe... até quando?


Interrompi meu Diário justamente durante a “visita” que nos fizeram Papai e Mamãe, quando ele podia ter ficado mais interessante. Vou tentar um resumo dos fatos ocorridos a partir do dia 29 de setembro, quando ainda me achava em Bagé.


Ao ter notícia da chegada da Mamãe em Melo, telegrafei ao dr. Chico Macedo, pedindo-lhe que me acompanhasse até lá. Ele não se fez esperar. Encontrei os viajantes muito bem dispostos.


Vieram até Montevidéu no Saturnia, que é atualmente o maior navio de passageiros. Tem nove andares e elevadores, sendo movido a petróleo.


Seu Chico Macedo foi com o Papai à Estância Nova, conhecer o potrilho da Enérgica, filho do Kit Fox. Depois de muita discussão, recebeu o nome de Talismã. Papai não parou durante os dias que passou aqui. Procurou um campo para arrendar, decidindo-se pelo Berachi, do Teco Martins.


Os nossos animais, dispersos em quatro ou cinco lugares, agora poderão ser reunidos. Fomos visitar a Estância do Berachi. Ficamos encantados com o arvoredo e as acomodações para os animais. As casas de moradia são sólidas e espaçosas. Mas o que mais me encantou foi avistar o Brasil.


Distingue-se dali até a tapera onde os chimangos estiveram acampados, em 1924, quando o general Zeca Neto invadiu o Rio Grande, tendo o Boy a seu lado.


Avista-se também a venda do Cláudio Torres.


Durante sua estadia, Papai visitou três vezes a Estância Nova. Na última, ele e eu fomos nos despedir do Kit Fox, presenteado pelo Papai ao seu Chico Macedo e que já se encontra em São Gabriel, levado pelo Araci. Ficamos com pena de ver o kit Fox partir, pois ele fazia parte da família. Mas já que ficamos sem ele, antes seja para o seu Chico do que para qualquer outra pessoa.


Esteve de visita ao Papai o coronel Coriolano, intendente de Caçapava, o primeiro e único eleito pela oposição. Veio em companhia do sr. Flaubiano Medeiros e do dr. Silvio Faria Corrêa. Consola-nos a vaga esperança de termos Papai e Mamãe de volta para o Natal. Fiquei encarregada da Estância Nova, dos estudos da Lina e de escrever o Diário.


Fonte: Assis Brasil, Cecília. Diário de Cecília Assis Brasil, org. por Carlos Reverbel. Porto Alegre, L&PM, 1983, p. 163/164.




Capa: L&PM Editores sobre foto do Castelo de Pedras Altas, Rio Grande do Sul.

Ford (Diário de Cecília, 1928)


Quarta-feira, 1º de fevereiro


Papai precisa ir hoje a Melo e convidou-me para ir com ele.


Vi na Casa Sasiain a sensação do dia: o novo modelo Ford.


Havia uma porção de gente em torno do modelo exposto, uma baratinha verde, muito bonita.


Dizem que custa o mesmo que os Fords velhos, embora os melhoramentos apresentados sejam enormes.



Fonte: Assis Brasil, Cecília. Diário de Cecília Assis Brasil, org. por Carlos Reverbel. Porto Alegre, L&PM, 1983, p. 178.




Capa: L&PM Editores sobre foto do Castelo de Pedras Altas, Rio Grande do Sul.

segunda-feira, 14 de março de 2022

Tenente Vale e seus Coelhos (Diário de Cecília, 1928)

 

Estância da Coxilha Grande, Uruguay


Terça-feira, 12 de junho


O tenente Vale trouxe de Melo um manual do criador de coelhos, que lhe foi dado pelo tenente Vicente. Está entusiasmado com a ideia de criar coelhos para comer a carne e vender as peles.


Sexta-feira, 15 de junho


O tenente Vale já preparou as coelheiras, dois caixões com tela. Os coelhos virão de montevidéu, mandados pelo general Neto.


Domingo, 17 de junho


Os coelhos vieram abrigar-se na sala, porque lá fora chove a cântaros. São brancos e têm as patas, o rabinho, as orelhas, e a ponta do focinho lobunos. São puros, da raça Himalaia. Custaram 12 pesos. O tenente Vale diz que cada casal chega a dar 50 crias por ano e que se vende cada pele por um peso.


Quarta-feira, 20 de junho


Os coelhinhos andaram saltitando na horta. A Quinquim batizou-os Faridondon e Faridondaine, por causa dos estribilho de uma poesia antiga, que está no Chic à Cheval.


Terça-feira, 24 de julho


O tenente Vale trouxe-nos cedo o corpo de um dos coelhinhos. Disse que a ninhada morreu essa noite. Já tinham pelo e estavam bonitos e bem gordos. Devem ter morrido de frio.


Sexta-feira, 7 de setembro


A Quinquim foi examinar a toca da Faridondaine. Encontrou tudo revirado, só um dos coelhinhos vivo, os outros tinham sido devorados por um gambá.


O pior é que descobrimos que a Faridondaine não é puro-sangue Himalaia, pois os filhotes desta ninhada saíram todos mestiços de Petit Gris.


Uma verdadeira calamidade!


O tenente Vale, que pretendia fazer uma demonstração de como uma coelha vale mais do que uma ovelha, ficou desapontadíssimo...


Quarta-feira, 12 de setembro


O coelhinho da Faridondaine que restava foi encontrado morto, lá na sanga. Emancipou-se antes do tempo, talvez.


Diz o tenente Vale, depois de cada desastre, que está adquirindo experiência...


Vicente sonha com uma viagem aos Estados Unidos e Vale sonha com um emprego em Buenos Aires...


Fonte: Assis Brasil, Cecília. Diário de Cecília Assis Brasil, org. por Carlos Reverbel. Porto Alegre, L&PM, 1983, p.190/191/192/194/200/201.




Capa: L&PM Editores sobre foto do Castelo de Pedras Altas, Rio Grande do Sul.

Três Anos no Uruguay (Diário de Cecília, 1927)

 

Domingo, 28 de agosto


Fui pra cama cedo, pensando que há três anos, nesta data, pisei o solo uruguaio pela primeira vez. Lembro-me bem: deixei nossa casa em Pedras Altas, atravessando o rio jaguarão, na picada do Felipe, acompanhada pelo Boy e Rubens Maciel.


Do outro lado, estava o velho Cantalício, com um cavalo tordilho pela rédea, à minha espera. E a cavalo fui até o ranchinho onde se encontravam Papai, Mamãe e o Joaquim.


Seguiam-me, a pé, o Rubens, o Boy e o Cantalício, carregando a bagagem e os mantimentos que tínhamos trazido de auto, até a costa do Jaguarão.


Encontramos Mamãe a preparar o jantar, num braseiro, sobre o qual os ferros da velha máquina de costura serviam, ao mesmo tempo, de grelha e chapa.


O Papai aplainava paus com forquilhas e em forma de T, para fazer os cabides e as prateleiras do rancho.


O Joaquim, de bodoque na mão, andava pelo barro, satisfeito e clinudo.


Fonte: Assis Brasil, Cecília. Diário de Cecília Assis Brasil, org. por Carlos Reverbel. Porto Alegre, L&PM, 1983, p.153.




Capa: L&PM Editores sobre foto do Castelo de Pedras Altas, Rio Grande do Sul.

Sete sílabas de terra vermelha (Paulo Bentancur)

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