Acesso 07 junho 2026
Dona Joaquina (1902-1988), ou melhor, Quinquim para os íntimos. Ou ainda Kiki, como sugeriu-lhe em tupi-guarani o historiador e amigo Capistrano de Abreu
Capistrano de Abreu (Moranguape, CE,23/10/1853- Rio de Janeiro,13/08/1927)
Filha de Joaquim Francisco de Assis Brasil, nascida na Estância de São Gonçalo, Cacequi, em 17 de janeiro de 1902, Dona Joaquina de Assis Brasil foi a guardiã de “um mundo de coisas”. A partir da morte de sua mãe até a data de seu próprio falecimento, aos 16 de novembro de 1988, em Pedras Altas, responsabilizou-se por um patrimônio cultural extremamente rico.
Estância São Gonçalo, Cacequi, casa dos pais de J. F. De Assis Brasil
- Dona Joaquina, como surgiu o sobrenome Assis Brasil?
- Meu avô, Francisco de Assis Souza Brasil, nasceu a 4 de outubro, dia de São Francisco de Assis, e foi batizado na igreja de São Francisco, em Rio Pardo. Nós recebemos o sino desta igreja como presente e até hoje ele é usado aqui na Granja, para chamar os peões. Papai ficou encantado quando o ganhou. Estava rachado, mas mandamos fundi-lo novamente e ficou muito bom. Meu pai também foi batizado Francisco de Assis, ficando, então, Joaquim Francisco de Assis Brasil. O padre que o batizou e que também foi seu padrinho chamava-se Joaquim Ribeiro de Andrade e Silva. Teve um grande destaque na Revolução Farroupilha.
Os irmãos de papai não assinavam Assis: Tio Paulo Brasil, Tio Diogo Brasil. Só o Tio Bartolomeu resolveu usar esse sobrenome.
- Dona Joaquina, como foi a sua educação, há mais de 80 anos e no campo?
- Nasci em 1902 e fui para os Estados Unidos com poucos meses de idade. A primeira língua que falei foi o inglês. Mamãe resolveu que todos os filhos, desde pequenos, aprenderiam inglês. Foi uma boa ideia, não foi? Tínhamos, então, as “nurse-maid”, amas como chamam aqui. Depois, voltando para o Brasil, sempre fui educada em casa por institutrizes estrangeiras, que eram contratadas de dois em dois anos, exceto uma, que foi por três anos. Tivemos várias: Miss Rosser, Miss Studart, Miss Day, que veio duas vezes e que morava no cottage, naquele quarto até hoje chamado o “da Miss Day”. Depois dela veio uma alemã que era nobre, chamava-se Helena von Jass. Essa era altamente sabida, muito sabichona! Formada pela Universidade de Grenoble, no sul da França, falava francês como uma francesa, conhecia o grego e o latim, era uma verdadeira latinista! Muito do que aprendi foi com ela. Veio de Baden Baden e foi embora quando estourou a guerra. Disse que era melhor voltar para o seu país de origem porque o Brasil tinha tomado posição contra a Alemanha. Nós choramos muito a partida dela. Naquela noite fui mandada para a cama mais cedo, para ver se parava de chorar… Eu senti muito…
Tínhamos, também, aqui em Pedras Altas, um núcleo de ótimos operários especializados. Papai dizia que para evitar o êxodo rural era necessário que as pessoas tivessem uma profissão rendosa no campo. Trouxe bons operários de Buenos Aires, Montevidéu, Itália, Espanha, Portugal, Alemanha. O seu Albino Eisfeldt era das colônias alemãs. Ele era um ferreiro formidável. Um verdadeiro artista! Os marceneiros alemães também eram formidáveis. Toda a marcenaria de imbuia foi feita em casa. Tínhamos aqui em Pedras Altas, realmente, um núcleo de ótimos operários. Depois que tiraram o trem, toda essa gente se mandou, saiu daqui, nunca mais voltou…
Mr Mc Gregor
Papai preocupou-se muito com o campo. Ele gostaria que não fosse bruto e inculto. Fez todo o possível para isso, porém, naquele tempo, qualquer coisa que ele quisesse fazer, o governo borgista era contra. Não queria que ele aparecesse, mas a sua intenção era somente o progresso. Papai dizia que a joia do Brasil era o Rio Grande, por ter o mesmo clima do sul da Europa. Tinha muita admiração pelos gaúchos que, com as guerras, abriram um pouco os olhos e aprenderam que a tirania era injusta. Achava este povo formidável, inculto mas com talento que outros povos não tinham. Meu pai foi muito campeiro! Não errava um tiro de laço. Fazia uma armada média e certeira. Na época de domar, era ele quem laçava para os peões manearem.
- E o teatro na família?
- Ah! Mas era de brincadeira! Nós apresentávamos até óperas. Fazíamos a Dama das Camélias, como sempre! La Traviata… Era muito engraçado porque a gente improvisava tudo na hora. Escrevi uma peça em inglês. Há poucos dias ainda vi lá em cima. Cecília também escrevia. Era só para a gente se entreter.
- E o esporte?
- O sport principal era o tennis. O material era inglês, tudo de ótima qualidade. A rede foi feita por nós. As professoras inglesas, todas, sabiam jogar muito bem. Uma tinha sido até instrutora na Europa. A Cecília jogava muito bem. Todos lá em casa jogavam muito bem. Só eu era péssima jogadora. Quando faltava gente para fazer o double eles me chamavam mas diziam para não chutar a bolinha, que era a minha tendência.
Esse sistema de educação que papai deu aos filhos, os chimangos achavam muito antipatriótico. Diziam que se alguém quisesse ver um caso de antipatriotismo, era só ir a Pedras Altas para ouvir sussurros em inglês, francês e alemão. Achavam isso muito feio (risos)…
Hoje em dia, com a educação do jeito que está, as crianças passam o dia todo longe dos pais e aprendem coisas muito deselegantes, sem aquela intimidade com a família que havia nos tempos em que a gente estudava em casa… Acho que deveria haver mais participação da família. Assim me parece, não sei se estou enganada.
- O que era o Bando dos Bem-te-vis?
- Fomos educados também para amarmos a natureza. Então criamos o grupo chamado Bando dos Bem-te-vis. Quando o Marechal Rondon esteve por aqui, junto com o seu valet de chambre, um negro de Barbados que falava inglês, ficou encantado com o Bando dos Bem-te-vis. Logo o convidamos para ser Bem-te-vi Honorário, do Mato Grosso. Cantamos o hino do grupo, que foi escrito em português por papai e cuja melodia foi tirada do hino dos Boers na guerra dos holandeses contra africanos, conheces? (canta o hino em holandês). Minhas irmãs que estudaram na Suíça o aprenderam com colegas holandesas. Rondon achou muito bonito. Ele era uma pessoa simples, que gostava de crianças e de gente moça. Gostava de ensinar e dizia: “Quando vocês quiserem aprender bororo” – pronunciava como os índios, em vez de bororó – “eu sou professor de bororo”. Sabia falar a língua de várias tribos. Uma pessoa interessante! Quando criamos os Bem-te-vis, foram feitas, também, leis para o grupo: não se podia mentir, nunca! Uma vez Francisco pregou uma e foi demitido do Bando por algum tempo. Tudo foi inspirado naquele livro do Mogly. Mogly era nosso modelo. Podíamos ficar perdidos no meio do mato, que conhecíamos as plantas que eram comestíveis, as frutas não venenosas e os animais que se podiam comer, como o lagarto, cuja carne do rabo é bem branca e se parece com a do peixe. A letra do hino que papai escreveu é assim:
“Formam nossa companhia
Quatro moças e um guri
Queremos tomar por guia
O passarinho valente
Que alegra e desperta a gente
Com o grito – bem-te-vi!”
- Seu pai usou o arado como símbolo poético do trabalho. Como era o trabalho em família?
- Trabalhávamos no campo trazendo o gado, parando rodeio e quando tinha marcação a gente ajudava. Sempre tomávamos parte nas lidas. Dolores era a mais campeira, até domava! Só que deixava os cavalos cheios de balda. Os rapazes eram “machões”, ficavam separados fazendo outro tipo de serviço. Não gostavam de que a gente mimasse os animais. As mulheres, todas, gostavam muito de bordar. Neste tempo sempre tínhamos boas empregadas. Lembro-me da Felícia. Era um “motor” de tanto trabalho! Trabalhávamos muito no jardim, com as flores e plantas, na colheita das frutas, quando era tempo de fazer doces e sucos. Todos ajudávamos mamãe! A von Jass me ensinou muito sobre botânica. Era uma grande conhecedora, também, dessa área.
Cavalo Vampiro, preferido de D. Joaquina
- E a religião na família?
- Cada um tinha a liberdade de ser o que quisesse. A Cecília acreditava em coisas sobrenaturais. Eu não acredito, mas respeito. Mamãe era católica e papai livre pensador. Ele dava plena liberdade, sem discriminação ou intolerância. Todos nós fomos batizados. Ele mandava vir bispos para crismar aqui. Tinha grande amizade com os bispos. Eles diziam: “Dr. Assis, só lhe falta a fé, porque o senhor é um verdadeiro cristão, modelo de cristão”. Papai respondia: “Vocês estão julgando-me bom demais…”. Papai admirava muito Renan, que também era um livre pensador. Papai fez um poema sobre Cristo (recita de memória):
“Pelos campos sem luz da mística Judeia
Andava errante e triste um pobre viajor
O verbo semeando e recolhendo a ideia
Que todo o seu poder, que todo o seu valor
Estava em enxugar o pranto da miséria
No manto sideral do seu divino amor…
Homens, vós sois a guerra e eu vos trago a paz!”
Papai achava imoral o luxo, a riqueza e a venda de indulgências no catolicismo…
- Dona Joaquina, como foi o exílio?
- Minha irmã Maria, por ser a mais velha da família, foi encarregada de fazer o acervo das coisas que tínhamos que esconder. Ela as colocava em caixotes grandes para que o Dr. Berchon, nosso grande amigo, nos enviasse pelo trem. Tínhamos esconderijos secretos para as coisas preciosas apartadas, fazíamos uma parede falsa e colocávamos as pratarias e outras coisas de valor. Foi muito cruel o que Borges fez com meu pai! Deu ordem para os bancos retirarem seu crédito porque não era pessoa de confiança. Deixou que invadissem os bens de papai: levaram tropas e tropas. Saquearam a estância de Ibirapuitã e a de Itaiassu. Soltaram cavalos dentro do jardim aqui da Granja, onde até hoje guardamos a marca do “templo profanado” pelos chimangos. Felizmente os amigos forma muito fiéis. O seu Chico Macedo Couto, muito relacionado com tropeiros, recuperava o gado roubado, deixava no seu campo e depois mandava para o Uruguai, onde estávamos exilados. Ele estava sempre arriscando a vida ou ir para a prisão por nossa causa… Foi muito triste ter que começar tudo de novo!
Aacleto Firpo, Assis Brasil e Raul Pilla, 1931
- E a respeito das calúnias sofridas por Assis Brasil?
- Os chimangos diziam coisas horríveis: que papai tinha matado sua primeira mulher com um tiro na cabeça, que trouxe tudo quanto foi praga para o Estado, como o berne, o pardal… e são coisas que nem existem em Pedras Altas. Até a Lina, minha irmã, que é quieta, já publicou um artigo no antigo Correio do Povo. Tomou a caneta na mão e escreveu que parecia incrível que uma pessoa com inteligência tão fulgurante como papai, fosse acusado de fazer tanta coisa ruim. A respeito dos tiros, não tem cabimento! Papai gostava muito de armas, tinha armas de primeira ordem e era só ele que as limpava e manipulava. Ficavam fechadas à chave, para não haver nenhum acidente. Papai enxergava bem até depois de velho. Tudo isso é coisa de políticos sujos e estúpidos… Pequenezas! O mais comovente é que a geração do próprio Castilhos e mais outra geração de parentes, todos ficaram amicíssimos de papai. Vinham aqui tropas de Castilhos: o Inocêncio, a Julinha, filha de Júlio de Castilhos, o Raimundo, que papai orientou mandando-o para São Paulo para estudar. A carta da mãe de Júlio de Castilhos ao papai é muito significativa. Hoje a família toda é nossa amiga.
- A ideia de construir Pedras Altas foi de Assis Brasil. Dona Lydia, sua mãe, continuou e nomeou-a guardiã deste tesouro cultural. Dona Joaquina, quem lhe sucederá?
- “Permaneat animus lapide perennius”. Foi papai que construiu essa frase que quer dizer: a ideia ou o ideal permaneça perene como a pedra. Ah! Se eu pudesse fazer uma fundação! Os outros não deixariam de ser donos, só não teriam licença para vender. Não posso esvaziar Pedras Altas doando o acervo. Por mim eu fazia um bom museu, com bons guardas, se cobraria entrada… Papai tinha certeza de que os filhos e netos teriam continuado, tomariam conta. Se ele soubesse que não, teria tido uma grande decepção. Não há coisa pior do que a falta de continuidade de uma família...
Lídia
de Assis Brasil,
Joaquina
de Assis Brasil e Antonio Bonini.
Entrevista concedida ao arquivista Luiz Francisco Mazo Martins no “boudoir” do castelo, em janeiro de 1988. Seus depoimentos requerem uma interpretação atenta, por constituírem trilhas seguras para se penetrar nos labirintos da História.
Capa: Valter Noal Filho
Fonte: Rocha, Artheniza Weinmann, Luiz Gonzaga Binato de Almeida e José Newton Cardoso Marchiori. Ed. UFSM, Santa Maria: 1995, p.127/130.
Crédito foto biblioteca: http://www.botasbonini.com.br/historia.htm
Acesso 04/04/2023
“Mas sempre há lugar para um pouco de filosofia. Não em 93, mas em 23, espécie de modelo reduzido, de segunda parte meio frustrada da primeira tragédia (e, sem querer fazer humor, dizia Cervantes que as continuações dos bons livros não costumam ser boas), ocorreu certo fato que merece registro. Contam que certos caudilhos fizeram o possível para reeditar os horrores de três décadas antes e alguns, honra seja feita, com relativo sucesso”.
Na transcrição que acabo de fazer, Carlos Rafael Guimaraens (“Lição da Ferocidade”, Correio do Povo, 6-11-77) chama atenção para a circunstância de que as cenas de banditismo registradas na Revolução de 23 seriam uma ‘imitação”, felizmente bastante atenuada, das atrocidades que caracterizaram a Revolução de 93, tendo como traços marcantes os degolamentos, por vezes praticados em profusão, como no rio Negro e no Boi Preto.
O artigo foi lançado a propósito da reedição de Voluntários do Martírio, de Ângelo Dourado, médico e herói da coluna do grande guerreiro Gumercindo Saraiva. E, como sempre, o Guimaraens trouxe uma contribuição singular pela agudeza de suas observações e pela segurança dos seus conceitos, justificando, mais uma vez, a homenagem que não se pode deixar de prestar à luminosidade de sua inteligência e ao vigor do seu espírito: é um senhor jornalista, como seria, se o quisesse, um senhor ensaísta.
Há espíritos que me fazem lembrar a metáfora de J. Simões Lopes Neto, quando disse que “o sol olha pra água, atravessando”. Pertencem a uma estirpe que se distingue pela capacidade de penetração no âmago dos fatos e das coisas (e o Carlos Rafael Guimaraens faz parte dessa pequena-grande família).
Recolhi um subsídio ao vivo, por me ter sido contado pelo principal protagonista do episódio, que se enquadra na “espécie de modelo reduzido” de que fala o Guimaraens na sua apreciação sobre 23 em relação a 93.
No combate de Santa Maria Chico, que foi um dos primeiros da Revolução de 23, um combatente da força legalista desgarrou-se de sua gente, durante a ação, ocultando-se num caponete, que não tardou a ser envolvido por um piquete adversário. Ali surpreendido, foi imediatamente passado pelas armas, isto é, degolado.
Tratava-se de simples soldado, por sinal peão de estância, como também eram os que lhe aplicaram a terrível “gravata colorada”, não existindo entre os que o aprisionaram e degolaram nenhum combatente graduado, tudo se consumando entre homens da mesma extração galponeira, mas que se criaram ouvindo “causos” de degola acontecidos na Revolução de 93.
Quando o episódio chegou ao conhecimento do bravo Cel. Clarestino Bento, ele próprio veterano de 93 e comandante do destacamento de que faziam parte os responsáveis pela atrocidade, este os admoestou com severidade, advertindo-lhes que, em caso de reincidência, seriam castigados exemplarmente, ficando sujeitos até mesmo à pena de fuzilamento sumário. Nada faria dessa vez porque todos os implicados eram soldados inexperientes, que haviam entrado na linha de fogo pela primeira vez. E, além do mais, o combate tinha sido ganho pelo inimigo…
Então, destacou-se do grupo o soldado que havia “pedido a bolada” e executado pessoalmente o ato da degola, dizendo as seguintes palavras à guisa de justificativa: “Me desculpe, seu coronel, mas sempre ouvi dizer que prisioneiro se passa na faca”.
Este episódio, a respeito de cuja autenticidade não tenho dúvidas, serve para demonstrar que, durante as três décadas que se estenderam entre as duas revoluções, ficou na memória da gente da campanha gaúcha “a lição de ferocidade” a que se refere Carlos Rafael Guimaraens, no seu excelente artigo sobre Voluntários do Martírio.
Por sinal, o lendário Adão Latorre, apontado como um dos maiores degoladores de 93, morreu no combate de Santa Maria Chico, com cerca de 80 anos, comandando uma carga de lança, à frente de uns poucos companheiros, contra forte linha inimiga, que atirava de metralhadoras. E, por sua vez, também foi degolado, mas só depois de morto…
Dir-se-ia que fora impelido, na hora da derradeira carga de lança, pelos fantasmas de 93.
Capa: Tânia Porcher
Foto: Jorge Rolla
Fonte: Reverbel, Carlos. Barco de papel. Porto Alegre: Editora Globo S.A., 1978, p. 173/175.
Segunda-feira, 26 de setembro
Choveu e trovejou toda a noite. Dormi mal, com medo que o Seu Chico Macedo não viesse por causa da chuva. Mas o coitado, sempre fiel, veio às seis menos um quatro.
Eu estava pronta, de chapéu e luvas.
Na estação, o Seu Chico Macedo comprou os jornais. Lemos o programa do Partido Democrático Nacional, o discurso do Papai sobre esse programa e a circular do Borges, apresentando os nomes do Getúlio Vargas e do João Neves da Fontoura, para futuros presidente e vice-presidente do Rio Grande do Sul.
Nas estações por onde passávamos o povo caía em cima do vendedor de jornais do trem.
O tempo se manteve encoberto e de vez em quando chuviscava. Mesmo assim estavam lindos aqueles campos.
Quando subíamos a rampa de Pedras Altas havia uma cerração tão fechada como no dia em que o Chimango passou para inaugurar o marco de Aceguá.
Esperavam-nos na porteira a Vitalina e um filho do Faustino Pinto, com um auto pintado de encarnado.
A cerca de lídias que havia na entrada não existe mais, senão um pequeno trecho do lado das oliveiras. Foi substituída por horrível cerca de arame farpado.
Os pinheiros da pista estão magníficos. Agora cobrem com seus galhos todo o caminho, formando um túnel verde, meio escuro em alguns lugares.
Ao entrar no jardim estranhei ver árvores que de tão altas escondem a casa.
O pé de cânfora, que deixei como arbusto, está uma linda árvore, de uns cinco metros.
A laranjeira da entrada apresentava-se coberta de flores.
Os “cupressus lambertiana” estão mais altos que a sotéia da sala de música.
Começou a chover, tive de entrar em casa.
A nossa porta está cheia de inscrições de admiradores do Papai. Há também a assinatura do comandante do 17º Corpo Auxiliar da Brigada Militar, com a data da ocupação pelas forças governistas.
Encontramos o pobre hall muito feio, com as cadeiras alinhadas só de um lado e a mesa coberta com estopa.
O piano ficou russo, com o verniz todo rachado, nem parece de madeira, está com aspecto enferrujado.
Vi a janela do hall que os chimangos arrombaram. Quebraram quatro vidros e arrebentaram a trava de aço com uma alavanca. Também via a cadeira de couro que eles cortaram. Andei em todos os quartos, por toda parte há vestígios dos chimangos.
Não há uma gaveta em que não tenha mexido.
No quarto da Maninha e Carolina a Vitalina mostrou as camas e disse:
“Era aqui que os tenentes da Brigada dormiam”.
Fiquei mais triste quando vi o meu quarto, tão remexido, não encontrando uma porção de quadrinhos e outros tarecos de estimação que eu tanto queria.
O álbum de figurinhas que eu colecionava desde que ganhei a Graflex estava com os retratos descolados e arrancados. Que destino terão levado meus pobres retratinhos?
Havia fotografias do dr. Osório e do Capistrano, gente que nunca mais poderei substituir.
O Papai tem razão quando diz que Pedras Altas é um templo profanado.
A minha escrivaninha, que deixara cheia de papéis, está quase vazia. Levaram até os palitos feitos pelo Papai, que eu juntava.
A chiffonière da Mamãe foi arrombada, com o emprego de alavanca.
Também no escritório do Papai tudo remexeram. Quebraram o vidro do retrato do Mitre.
Achei nossa bandeira no armário das armas, como um trapo amarrotado.
Estava junto com uma bandeira inteiramente encarnada (que eu nem sabia que existia), da qual cortaram pedaços e amarraram nos candelabros, em cima da lareira. Dobrei a nossa bandeira e guardei-a numa gaveta, com o retrato do Mitre.
Não tive tempo de ir à biblioteca, porque volta e meia chegavam visitas, que não me largavam um momento.
As cinco horas que passamos em Pedras Altas voaram. Retornamos a Bagé pelo trem da tarde.
Fonte: Assis Brasil, Cecília. Diário de Cecília Assis Brasil, org. por Carlos Reverbel. Porto Alegre, L&PM, 1983, p.159/160/161.
Capa: L&PM Editores sobre foto do Castelo de Pedras Altas, Rio Grande do Sul.
Montado em sete sílabas, Jayme Caetano Braun (1994 – 1999) não descuida um verso sequer o generoso horizonte da lírica repentista. O seu ...