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sexta-feira, 27 de março de 2026

História Moderna – N. Efímov

 


Da Santa Aliança (1815) até as vésperas da revolução de 1870

A crise da França feudal-absolutista – Os camponeses – A decadência da agricultura

O camponês era obrigado a entregar ao latifundiário uma parte da colheita (geralmente a quarta parte), ou a pagar-lhe seu valor em dinheiro. Outra parte da colheita era subtraída ao camponês pelos ávidos sacerdotes, através do dízimo. Se o camponês morria, apresentava-se o mordomo do latifundiário e cobrava um elevado imposto pela transmissão da herança. Para passar os cereais e demais produtos por uma ponte, ainda que ela tivesse sido construída pelos próprios camponeses, o latifundiário – o senhor – cobrava um imposto especial. Para moer os cereais no moinho do senhor, para cozinhar o pão no forno do amo, tinha que pagar em separado. Inclusive no caso de o senhor não dispor de um forno para cozinhar o pão, era igualmente exigido do camponês o pagamento do imposto anual, implantado outrora para uso do forno. A ponte ou o moinho podiam desaparecer, porém o imposto anual pela passagem ou pela moagem era cobrado pontualmente.

Eram conservados ainda, na França, outros tributos medievais aos camponeses. Enquanto se divertia na caça, o senhor tinha o direito de talar os campos semeados dos camponeses, passando através deles com seus convidados a cavalo e com seus cães atrelados. Cada latifundiário tinha um pombal. As pombas devastavam as plantações dos camponeses, porém estes, no caso de matar alguma pomba, eram ferozmente castigados. Também eram conservadas muitas outras cargas, se bem que não tão pesadas, mas humilhantes. Durante a noite, nas casas senhoriais, as rãs tinham que ser espantadas para que os senhores pudessem dormir tranquilos. Em seus encontros com o amo e seus funcionários, o camponês era obrigado a fazer profundas reverências, e a beijar a mão ou as costas do senhor.

Não havia onde apresentar queixas contra o senhor. O próprio latifundiário, ou algum juiz por ele nomeado, administrava a justiça. Nos tribunais eram aplicados tormentos.

O camponês não dependia somente do senhor. Era gravado também com pesados impostos em favor do rei. O camponês pagava um imposto de bens (a talha), e além desse, complementarmente, em imposto de renda (a vigésima), o chamado imposto real. Mas isso ainda era pouco: havia, também, o imposto por cabeça (a capitação). Além dos impostos diretos, o camponês ainda era esmagado pelos indiretos.

Também o consumo do sal foi gravado com pesados tributos. Para que o camponês não se negasse a comprar o sal, que se tornava desproporcionalmente caro, era obrigado a adquirir pelo menos 7 libras por ano e por pessoa, “para a panela e o saleiro”, isto é, para o consumo na alimentação. Para curtir e para o gado, o camponês tinha que comprar sal em separado. Para evitar que o camponês comprasse sal de contrabando, os contrabandistas eram enviados durante nove anos às galés, ou seja, aos trabalhos forçados como remadores, encadeados em seus bancos. No caso de reincidência, o traficante de contrabando de sal era enforcado. Também eram ferozmente castigados os camponeses que compravam sal sem pagar o respectivo imposto.

Destacamentos especiais de inspetores armados expulsavam os camponeses dos lugares de onde podiam eles próprios extrair o sal.

O vinho foi gravado com um alto imposto. Para a França que tinha muitos vinhedos e cujos vinhos gozavam de fama em todo o mundo, esse imposto era particularmente importante. Vinte e sete mil inspetores fiscais revolviam as adegas camponesas, mediam os tonéis, contavam as garrafas.

Nas barreiras, cobravam-se de todos os pedestres e viajantes pela passagem. Não menos de um milhão e meio de camponeses, na França, foram reduzidos à situação de vagabundos, que perambulavam por todas as partes e se dedicavam ao roubo. As grandes estradas na França não tinham qualquer segurança contra os assaltantes.

Certo bispo, pouco antes da revolução, escrevia: “O povo de nossas aldeias vive na mais horrível pobreza, em cavernas vazias, sem camas nem mesas. Entre a maioria escasseia o alimento e não dá nem para meio ano até mesmo a farinha de centeio e de aveia, seu alimento principal. Mas, também, desse alimento, o camponês se vê obrigado a privar-se e a privar os filhos, para poder pagar os impostos”.

Se o camponês ficava impossibilitado de pagar os impostos, punham-se à venda seu gado e seus instrumentos de trabalho.

A luta do povo grego pela independência

O grande país da Antiguidade, a Grécia, no século XIX era uma província turca de segunda ordem. Nos vales da Grécia viviam camponeses os raias, que conservavam o cristianismo, gravados com um pesado tributo, em benefício dos conquistadores turcos. Nas montanhas viviam os belicosos cleftas, camponeses montanheses, que infundiam medo aos turcos com suas incursões. Nas ilhas estava fortemente desenvolvido o comércio: quase todo o comércio de cereais da Rússia com a Europa ocidental era realizado por mercadores gregos intermediários.

Em 1821 teve início, na Grécia, a luta pela independência, que se prolongou por 8 anos, até 1829. Aproveitando-se das divergências existentes entre a Turquia e as grandes potências europeias (em 1827, a esquadra anglo-franco-russa unida iniciou, na baía de Navarino, ações bélicas contra a frota turco-egípcia), os gregos conseguiram que seu país fosse reconhecido como Estado independente. Na luta do povo grego por sua independência participou o grande poeta inglês Byron, que sacrificou a vida pela causa da libertação da Grécia, morrendo de febres na frente de combate.

As teorias políticas reacionárias e a corrente reacionária no romantismo

O conde José de Maistre, de Sabóia, em 1792, depois da incorporação Da Sabóia à França revolucionária, abandonou sua pátria e entrou a serviço, primeiramente, do rei da Sardenha e, depois, radicou-se em Petersburgo, na corte czarista. Com o fim de lutar contra as revoluções, De Maistre propunha restaurar na Europa o poder político ilimitado do Papa romano. Entusiasmava-se com o regime medieval de castas e apelava para a restauração desse regime. Na Rússia, De Maistre elaborou um “Memorandum sobre a instrução pública na Rússia”, no qual sugeria “não prestar, de modo algum, proteção à extensão dos conhecimentos científicos entre as camadas inferiores do povo”. Esse obscurantista afirmava que “as ciências naturais são diretamente nocivas”. Considerava perigosa a literatura e propunha proibir, em geral, o ensino da história. “Toda nova invenção” – dizia De Maistre – é simplesmente uma desgraça”.

O realismo na literatura. Balzac

Devorais uns aos outros como aranhas. Não existem princípios, há somente circunstâncias, e o homem inteligente se adapta a elas para depois transacionar com elas de maneira nova”.

Indústria, transporte e comunicações

Os instrumentos mecanizados e as máquinas a vapor apareceram pela primeira vez na Inglaterra nos fins do século XVIII. No século XIX, a produção fabril se estendeu também aos demais países da Europa e à América do Norte. As próprias máquinas passaram a ser fabricadas, não à mão, como antes, mas por meio de outras máquinas.

O desenvolvimento da técnica trouxe muitas modificações no modo de vida. Algumas delas foram as velas de estearina (em lugar das de sebo), as lâmpadas de querosene, a venda de roupas feitas, a tapeçaria de papel. Nas ruas apareceram, pela primeira vez, os lampiões à gás.

Nesse mesmo período verificou-se também uma transformação básica no transporte. Em 1807, Fulton adaptou uma caldeira, uma máquina a vapor e rodas de remo a um navio fluvial. O vapor de Fulton partiu de Nova York e na sua primeira viagem percorreu 240 quilômetros pelo rio. Entusiasmado pelos resultados dessa viagem, Fulton escrevia: “Adiantei-me a todas as lanchas e embarcações. Parecia que todas elas estavam ancoradas”.

Pouco depois, os vapores adaptaram-se à navegação marítima. Em 1819, o primeiro vapor realizou uma viagem através do Atlântico, porém numa parte da viagem, por falta de carvão, foi preciso navegar a vela.

O emprego, com êxito, do vapor no transporte aquático levantou o problema de se era possível também utilizá-lo para o transporte por terra. Bem depressa comprovou-se que era possível.

Em 1814, o filho de um operário inglês, engenheiro autodidata Stephenson, construiu a primeira locomotiva, que conduzia oito vagões e fazia seis quilômetros por hora. Em 1825, foi inaugurada na Inglaterra a primeira estrada de ferro de utilização pública, cujos trens desenvolviam uma velocidade de 10 quilômetros. Nos meados do século XIX, os trens já alcançavam uma velocidade de 50 quilômetros por hora.

Nos primeiros tempos, as estradas de ferro infundiam medo. Os médicos alemães, por exemplo, afirmavam que era preciso proibir a construção de estradas de ferro, e se isso não fosse possível, era preciso cercá-los de valas mais altas do que um homem para que o gado não se assustasse e as pessoas não enlouquecessem. Os reacionários, porém, não puderam impedir a construção de estradas de ferro. Em 1830, a extensão da rede ferroviária em todo o mundo era somente de 332 quilômetros. Cinco anos mais tarde essa extensão alcançava 8.000 quilômetros e, em 1870, mais de 200.000 quilômetros.

Um dos meios atuais mais importantes de comunicação, o telégrafo elétrico foi inventado, em 1837, pelo norte-americano Morse. Logo começaram a ser estabelecidas as primeiras linhas telegráficas de utilidade pública.




Fonte:

Publicação: Centro do Livro Brasileiro

Lisboa – Porto

Arranjo Gráfico: Esfera Publicidade

Impressão e Acabamentos: Agapê Estúdio Gráfico

Páginas: 27/28/104/105/116/240

Exemplar disponibilizado pela Biblioteca de Rua ACISAP.


terça-feira, 24 de março de 2026

Sagamorosa/Gabriely Santos - Destaques

 


Amor é essa coisa que começa de quase nada e termina de quase tudo.

Estamos todos nessa mesma luta, talvez precisemos todos concluir que somos apaixonados e apaixonantes – só os ‘quens’, quandos, os quês e porquês variam… que possamos tentar sofrer menos um pouco. Ou, pelo menos, sobreviver, porque morrer de amor saiu de moda depois do século XVIII.

O engraçado é como as palavras são tudo e podem não significar nada.

Nada nunca é repentino, tudo é repetido, decorado e desgastado.

...todo mundo e Proust sabem que os verdadeiros paraísos são os paraísos perdidos.

O ser humano existe diante do outro e é o que é por causa desse outro.

não foi Shakespeare que disse que lembrar é fácil para quem tem memória, esquecer é difícil para quem tem coração?

E sempre pode ser só uma crise. É preciso se perder para se encontrar, diz o clichê.

Precisamos dessa ilusão de que o mal é o outro, o estranho, não quem tá perto; é sempre o país vizinho, o sexo do outro ou o que o outro faz com esse sexo, a cor de sua pele, a sua classe social. O mal tá nele, no diferente. Assim, continuamos idiotamente fechando os olhos pros erros de quem consideramos nossos iguais para cultivarmos ódio do que é diferente, ao invés de, comparar e questionar e encontrar o mal em nós mesmos, pra entender que tá todo mundo errando e acertando o tempo todo.

Porque as pessoas e coisas só importam enquanto existem ali na função de te amar ou entreter, depois elas somem em suas próprias histórias.

Odiamos o não. Durante grande parte de nossas vidas ele representa o paraíso negado, a delícia destruída, o delírio desmontado em dilúvio. O não é o grande fim da trajetória do nosso desejo. Odiamos com amor e desprezo a boca que nos desfere essa palavra. Independente de seus motivos.

Fonte: Santos, Gabriely. Sagamorosa: camaleões. Curitiba: Eu-i, 2023, p. 11/13/17/58/59/74/81/96/133.

Capa: Jéssica Iancoski



sábado, 2 de agosto de 2025

AS LOCOMOTIVAS A VAPOR E AS FERROVIAS NO RIO GRANDE DO SUL (Ápio Cláudio Beltrão)

 


ORELHA” por Fausto J. L. Domingues

O doutor Ápio Cláudio Beltrão, com sabedoria e proficiência, entrega-nos paciencioso relato de sua vivência juvenil e dos seus posteriores estudos a respeito de pouco conhecidos aspectos da nossa antiga saga ferroviária. Enquanto empreendia a leitura atenta do seu texto, sempre lúcido e desdobrado com desvelo, muito prazerosamente, vinham-me à lembrança inesquecíveis momentos e circunstâncias da mesma época. Enternecidamente, nitidamente revelados, relembrava aqueles sítios que assinalaram, de forma inconfundível, a minha infância e juventude. Dois centros ferroviários, Cacequi e Santa Maria, unidos pela linha férrea, mas, sobretudo, pelos laços afetivos do coração. As gares, as oficinas, os depósitos, as vilas contíguas, a cooperativa, as casas de saúde e farmácias, as escolas, os clubes sociais e de futebol, a política, os funcionários, desde os tucos e carregadores de malas aos gerentes de estação e chefes de trem, tudo e todos vivendo em seu próprio mundo social, amalgamados pela inquieta e fremente alma ferroviária. Enxerguei-me em plena viagem entre a casa paterna e o colégio marista, naquele comboio, conduzido por possante locomotiva, que, enquanto deixava para trás fumaça e fuligem, também carregava, além do cheiro do carvão de pedra, esperanças e saudades. Pela janela, olhar contemplativo, o desfile efêmero de conhecidas imagens que, hoje, na fugacidade da memória, constituem apenas paisagens de sonho e ilusão. Os pequenos lugarejos, à margem da linha, tinham seu silêncio interrompido pelo áspero ringir do aço nos trilhos, pelo furor das locomotivas e pelos insistentes apitos que denunciavam a chegada e partida da velha Maria Fumaça. A recepção aos trens, em todas as estações, era festiva e festejada como ponto de encontro, pela busca de encomendas, de notícias, pelas visitas aguardadas e as de forasteiros com os mais diversos desígnios. A estrada semeou cidades e vilas, estimulou o desenvolvimento, empregou e alimentou famílias.

Faz-se indispensável anotar, todavia, que esta obra não é meramente evocativa; não é apenas revivência de surradas estampas do passado. Longe dos devaneios e das incursões saudosistas que também fascinam ao seu autor, este trabalho possui múltiplos significados e singular importância. Também não se restringe à simples contemplação das linhas férreas então existentes, mas observa, com rigor histórico, a evolução das ferrovias, os diversos ramais, as estações e paradas, além de um criterioso estudo sobre as locomotivas e máquinas a vapor. Didático, técnico, elucidativo, constitui também um alerta. É notória, na atualidade, a omissão de técnicos, estudiosos e historiadores a respeito desta questão. Enquanto em países desenvolvidos cuida-se do aprimoramento do seu desempenho, aqui, interesses políticos que atenderam e atendem às mais diversas e escusas conveniências, muito antes de mirarem os aspectos sociais, materiais, humanos e econômicos, surrupiaram o funcionamento, promoveram a supressão, inspiraram o descaso e obstaram um possível e desejável aperfeiçoamento da atuação ferroviária. Pela austeridade e ineditismo com que o assunto é versado, este trabalho tende a constituir-se em um chamamento à responsabilidade, à reflexão e uma justa homenagem aos tempos em que o velho trem de passageiros cortava as coxilhas do nosso Rio Grande.

Três parágrafos” do Prólogo

As opiniões do autor resultam da reflexão sobre os dados momentaneamente disponíveis e, naturalmente, podem modificar-se à vista de novas informações, ou, mesmo, de meditações repetidas que levem à mudança de entendimento.

Além de atender à sua satisfação pessoal, o autor tem como objetivo proporcionar aos leitores uma visão preliminar do assunto abordado, de modo a que se sintam estimulados a ir mais além por seus próprios meios.

No entanto, se alguém se sentir tocado, por ocasião da leitura, pela recordação das impressões, talvez já um tanto esmaecidas, de momentos felizes passados junto a ferrovias, o mais sublime propósito desta obra foi atingido, sem a menor sombra de dúvida.

CONTRACAPA “Memórias Vivas”, de Leo Petersen Fett

Ruídos, cheiros, dezenas de janelinhas iluminadas, as linhas aerodinâmicas dos vagões Pullmann, com uma cor marrom escura, misturada com grafite e tons avermelhados, parecia que se dirigiam para a Lua ou para Marte… Também era costume de parentes dos viajantes acompanharem o trem de automóvel Caminho Novo afora, abanando freneticamente. Por fim, aquela imensa lagarta, com uma lanterna vermelha, o último vagão sumia à distância, soltando uma poeira e algumas brasinhas do cinzeiro entre os trilhos.

Os trens tinham nome: “O Passageiro”, “O Carga”, “O Lastro”, “O Giruá”, “O Cruz Alta”, “O Pagador”, e assim por diante. Também as locomotivas: a “241”. a “237” e a “249”, a “Manobrista”, a “Mallet”, a “Seiscentas”…

Uma nuvem de vapor se formava à saída das válvulas de segurança que chegava a envolver a própria locomotiva. Pois atravessávamos essa nuvem sentindo cheiro e vapor misturado ao cheiro de enxofre característico do nosso carvão de pedra, e ainda mais o zunidinho do escapamento da dita válvula de segurança.

Capa e Editoração: Priscila Pereira Pinto

Imagem da Capa: Locomotiva 806 da VFRGS. Museu do Trem, São Leopoldo/RS

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

B453I

Beltrão, Ápio Cláudio

As locomotivas a vapor e as ferrovias no Rio Grande do Sul / Ápio Cláudio Beltrão. Porto Alegre: Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, 2017.

149 p.; ilustrado.

ISBN 978-85-62943-13-3.

1. Locomotivas. 2. Locomotivas a vapor. 3. História: Ferrovias: Rio Grande do Sul. 4. Material rodante. 5. Transporte ferroviário. 6. Ferrovias. 7. Estações ferroviárias. 8. Paradas ferroviárias. 9. Estradas de ferro. 10. Viação férrea: Rio Grande do Sul. I. Ápio Cláudio Beltrão. II. Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul. III. Título.

CDU 629.4

Bibliotecária: Márcia Piva Radtke.

CRB 10/1557

Crédito para o vídeo:

Projeto Nitratos Cinemateca Brasileira

CEREMÔNIAS” E FESTA DA IGREJA EM SANTA MARIA ESTADO RIO GRANDE DO SUL

Festas de sagração e inauguração da Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição, em Santa Maria, Rio Grande do Sul, em 5 de dezembro de 1909. Saída do povo da Igreja pela ocasião da festa, da quermesse e da procissão.

Na estação de trem: a plataforma de embarque, os vagões de serviço, os passageiros e a locomotiva partindo.

Código FB: 840

Gênero: Não ficção

Categoria: Curta-metragem

Ano: 1910

Estado: RS

Cromia: BP

Disponível: https://www.youtube.com/watch?v=wNjCENtD7F0

Acesso 02/08/2025

Áudios trem: BBC Sound Effects: https://sound-effects.bbcrewind.co.uk/search?q=railway

Captura de Áudio:

SONY IC RECORDER ICD-PX312

Digitalização capa e contracapa:

EPSON L 395


https://youtu.be/Kd4iegJvVKA

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Último parágrafo (antes da conclusão) da teoria das emoções de Sartre (1939)

 

Junto à emoção, uma consciência reflexiva pode sempre se dirigir. Nesse caso a emoção aparece como estrutura da consciência. Ela não é qualidade pura e indizível, como é o vermelho cor de tijolo ou a impressão pura de dor – e como ela deveria ser segundo a teoria de James. Ela tem um sentido, ela significa alguma coisa para minha vida psíquica. A reflexão purificadora da redução fenomenológica pode compreender a emoção na medida em que ela constitui o mundo sob a forma mágica. “Acho-o detestável porque estou furioso.” Mas essa reflexão é rara e necessita motivações especiais. Geralmente, dirigimos junto à consciência emotiva uma reflexão cúmplice que percebe, certamente, a consciência como consciência, mas enquanto motivada pelo objeto: “Estou furioso porque ele é detestável”. É a partir dessa reflexão que a paixão vai se constituir.

Capa: Projeto gráfico de Néktar Design

Foto da capa: Jean-Paul Sartre, 1951. Foto de Philippe Halsman (Magnum Photos)

Fonte: Título original: Esquisse d’une théorie des émotions. Primeira edição na Coleção L & PM Pocket Plus, agosto de 2006. Sartre, Jean-Paul, 1905-1980. Esboço para uma teoria das emoções. Tradução de Paulo Neves. Porto Alegre: L & PM, 2013, p.89

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Paris, 1800 (François Taillandier)

 

As ruas do Marais estão, nessa época, longe de serem as de um bairro da moda e altamente cobiçado em que hoje se transformaram. Um pouco mais tarde, quando o jovem Victor Hugo buscar um alojamento módico para ele e sua família, escolherá uma casa na Place des Vosges… Esse hoje renovado e prestigiado bairro, que se desenvolveu no início do século XVII, é então o bairro dos lojistas, dos artesãos, dos funcionários públicos, dos que vivem com pequenas rendas. Estudante e depois escrevente de procurador, o jovem Balzac saltita por essa grande cidade de ruas estreitas, barulhentas, bastante sujas, da qual descobre, no escritório do seu patrão, as pequenas questões de casamento e herança, os conflitos comerciais, as comédias e os desastres.

A Paris do início do século XIX oferece uma fisionomia bastante diferente da que conhecemos e que é, para muitos, o legado de Haussmann.

A não ser pela Notre-Dame e a parte mais antiga do Louvre, mais ou menos cercadas de casebres, assim como o Panthéon (que a Restauração chama novamente de igreja Sainte-Geneviève) e os Invalides, construídos no reinado de Louis XV, nenhum dos pontos de referência que estruturaram a Paris de hoje está presente. A cidade se estabelece entre os grandes bulevares do norte e, ao sul, na margem esquerda do Sena, os traçados dos atuais Boulevard de l’Hôpital, Saint-Marcel e de Montparnasse até os Invalides. Fora desses limites já estão os faubourgs, a periferia. Há terrenos baldios no que se chama a planície de Grenelle, Vaugirard é um vilarejo, veem-se hortas no atual 11º distrito. As grandes artérias como o Boulevard Saint-Michel ou Sébastopol não existem. O centro de Paris é um entrelaçamento de ruelas estreitas, frequentemente insalubres, das quais Restif de la Bretonne e Louis-Sébastien Mercier, antes e durante a Revolução Francesa, nos deixaram quadros surpreendentes.

Um elefante reina no meio da Place de la Bastille, maquete de gesso e ferro de um monumento projetado durante o Império. Hugo situará nas entranhas desse elefante um episódio célebre de Os miseráveis.

A cidade possui mais água limpa desde que Napoleão abriu o canal de Ourcq para revitalizá-la. O cunhado de Balzac, Surville, marido de Laure, que é engenheiro, participa de sua manutenção. Como todos os grandes soberanos, Napoleão havia sonhado em transformar Paris e ordenou obras de embelezamento das quais restam projetos, titânicos aliás, que não teve tempo de levar a cabo, o que talvez seja bom. O imperador deixará em Paris apenas algumas pontes marcadas por um N. O Arco do Triunfo está sendo construído e não é a monarquia restaurada que vai se apressar para impulsionar os trabalhos…

A Concorde, já ornada de prédios grandiosos de Gabriele, que datam de Louis XV, é um terreno baldio. Murmura-se que os animais de tração bufam ao passar pelo local da guilhotina de tanto que a terra, naquele lugar, impregnou-se de sangue. A Champs-Elysées é um passeio arborizado onde se vai durante o dia tomar ar fresco e assistir a números de saltimbancos, mas que é evitada à noite: o lugar não é muito seguro, e a prostituição impera. A atual Avenue Montaigne chama-se então “o caminho das viúvas”, o que diz muita coisa.

Em 1815, é nessa mesma área que os cossacos russos estabelecem seus quartéis, o que marcará por muito tempo a memória dos parisienses.

É que a história está em ebulição. Certamente não se ouvia no colégio dos Oratoriens o deslocamento dos exércitos e o estrondo dos boletins de vitória. Nessa época, Honoré tudo assiste dos camarotes. Não resta dúvida de que a família preocupa-se com os acontecimentos políticos: a situação do sr. Balzac lhe impõe que seja bem visto pelo poder, esteja este nas mãos de quem estiver. A desastrosa e terrível expedição a Moscou marcou, no Império, o início do fim. Depois de anos de uma guerra atroz, impiedosa, ainda a Espanha escapou do domínio da águia. Os ingleses se estabeleceram em Portugal. Em 1813, a coalizão formada por Prússia, Rússia, Alemanha, Inglaterra e Áustria inflige ao imperador uma derrota em Leipzig. Então é possível vencê-lo?! No ano seguinte, face aos adversários decididos a acabar com ele, as forças francesas lutam no seu próprio território. Champaubert, Montmirail, Château-Thierry… Os amadores de estratégias militares afirmam que o gênio do pequeno tenente corso nunca foi tão brilhante. Talvez, mas morre-se por nada, e de agora em diante os franceses o sabem. Ainda mais as francesas, a quem o Ogro tomou os irmãos, os maridos e, agora, os filhos.

Em 31 de março, os Aliados estão na capital. Napoleão abdica em 6 de abril. Louis XVIII, que aguardava os acontecimentos na Bélgica, volta a Paris.

Menos de um ano depois, enganando a segurança dos navios e espiões, o Ogro consegue deixar a ilha de Elba. Desde a sua chegada no continente, é saudado pelo mesmo povo que o vaiava alguns meses antes. As coligações se multiplicam. O marechal Ney, que enquanto isso havia se aliado à monarquia, volta atrás e se joga aos pés do Imperador. O rei Louis XVIII foge. Napoleão retoma as rédeas. Tentativa vã: cem dias depois, em Waterloo, o Imperador é esmagado. Esse último retorno custaria ainda alguns milhares de vidas humanas à Europa…

Dessa vez, trata-se de colocar a França em ordem. Pensa-se até em dividi-la em duas, criando um reino distinto no Sul, que teria Toulouse por capital. O duque de Angoulême, sobrinho do rei, ocuparia o trono.

Os Aliados tomam novamente Paris. É difícil imaginar o trauma que isso significa para os franceses. Desde sempre a cidade venera Santa Genoveva, que dizem ter desviado as tropas de Átila da capital com as suas preces. Homem algum se lembra de Paris tomada jamais! Um pouco mais tarde, sob Louis-Philippe, se buscará dotar a cidade de novas defesas: aquelas famosas fortificações, os fortifs, que cederão o espaço necessário, depois de 1960, à construção da perimetral.

Esse é o ambiente no qual se desenrola a adolescência de Honoré de Balzac. O império desmoronado deixa uma França militarmente vencida, profundamente dividida depois de 25 anos de perturbações. Mais de um milhão de franceses morreram em vinte anos nos campos de batalha. Vive-se em meio a uma guerra civil. Os acertos de contas, as delações, os processos sumários se multiplicam. Dumas situará nesses momentos de distúrbio o seu grande romance, O conde de Montecristo.

São os tempos do Terror Branco, que foi, aliás, menos sistemático do que se costuma afirmar: o velho Louis XVIII, depois de ter passado boa parte de sua vida no exílio (exílio esse que não foi, de modo algum, sempre dourado), aspira à tranquilidade e esforça-se, com relativo sucesso, para refrear o espírito revanchista de uma pequena parte de seu entorno, a começar pelo seu irmão, o conde de Artois, que reinará um pouco mais tarde, com o nome de Charles. Diz-se que Louis XVIII era egoísta, medíocre, prudente até a covardia: o que é, sem dúvida, verdade, mas é graças a esses defeitos que ele presta serviços à França, que, então, precisa de tudo, menos de um provocador. Será o primeiro a conseguir fazer funcionar nesse país um regime de tipo burguês e parlamentar. Esse que os franceses chamam de “porcão” traz, ao menos, a paz.

Ao longo desses vinte anos, aconteceram muitas coisas que seriam impensáveis durante a velha monarquia. Filhos de artesãos tornaram-se marechais do Império e têm títulos pretensiosos, os de uma nova e falsa nobreza, recuperada em toda a Europa: duque de Elchingen, duque de Otrante ou príncipe de Moskowa! Camponeses fizeram fortuna; burgueses desconhecidos, vindos das províncias, votaram a morte do descendente de São Luís. Todos aqueles que tinham boas razões para temer uma Restauração foram os sustentáculos mais zelosos da ditadura imperial. Durante mais de quinze anos, os produtos franceses tiveram mercado em toda a Europa. Os fornecedores dos exércitos ganharam milhões. A velha nobreza, na maioria dos casos, está arruinada.

Se Napoleão soube organizar a França depois do período revolucionário e dar-lhe uma estrutura administrativa e legislativa da qual diversos aspectos ainda permanecem em vigor, ele deixa para trás uma França demográfica e politicamente fraca, que irá semear as futuras paixões nacionalistas. O triste sr. de Metternich, o cínico sr. de Talleyrand é que vão assegurar à Europa quase meio século de paz. Mas a preferência popular é injusta: Napoleão permanece o ídolo do povo francês, especialmente entre a geração mais jovem.


Capa: Projeto gráfico – Ed. Gallimard

Retrato anônimo de Balzac. Rue des Archives/The Granger Collection NYC. Extrato do manuscrito O lírio do vale.

Fonte: Taillandier, François, 1955-. Balzac. Tradução de Ilana Heineberg. Porto Alegre: L & PM, 2006. Coleção Biografias L & PM Pocket, vol. 556, p. 25/29

sábado, 27 de abril de 2024

Destaques de Dois Irmãos (MIlton Hatoum)

(...) as palavras parecem esperar a morte e o esquecimento; permanecem soterradas, petrificadas, em estado latente, para depois, em isenta combustão, acenderem em nós o desejo de contar passagens que o tempo dissipou. E o tempo, que nos faz esquecer, também é cúmplice delas. Só o tempo transforma nossos sentimentos em palavras mais verdadeiras, (…)

Cedo ou tarde, o tempo e o acaso acabam por alcançar a todos.

(…) a vingança é mais patética que o perdão.

Alguns dos nossos desejos só se cumprem no outro, os pesadelos pertencem a nós mesmos.

Fonte: Hatoum, Milton. Dois irmãos. São Paulo: EDITORA SCHWARCZ LTDA/Companhia das Letras, 2000, epub.


domingo, 14 de abril de 2024

Cancioneiro de Otto Brod (Adair Philippsen)

 

Estabelecido em Linha Taquaruçu (f. 1973). Privilegiada voz de baixo e pessoa muito divertida, mantinha rico repertório de canções alegres, na maioria pouco conhecidas, pois sem publicações em textos. Passou-os para seu sobrinho, padre Ivo Bersch, que os organizou no cancioneiro Recordar é Viver. Entre elas:

Das ABC

Die Modendamen

S’war mal ein kleiner Mann

Ein Soldat in einer Schenke

Holadiri

Klein, klein dar sie nicht sein

Bei Kaiserin Phylomine

Der Flöh Fang


Fonte: Philippsen, Adair. Um século de encanto. Breve histórico do Coral Santa Cecília de Santo Cristo. Santa Rosa: Public Gráfica e Gravadora, 2016, p. 18

Dialeto (Adair Philippsen)

 

(…) os cantores, no dia a dia, falavam o Hunsrückish, variedade linguística de Hunsrück¹, mas que sofreu o “aportuguesamento” nas colônias devido ao reduzido contato com falantes de português, agravado pela falta de oferta do ensino oficial nas áreas interioranas.

Surgiu então o Hunsrückisch Platt, verdadeiro símbolo da cultura teuto-brasileira, contudo marcado por palavras estranhas ao Hochdeutsch², donde a inicial dificuldade de compreensão, como destaca Roque Danilo Bersch, resultou em variante linguística pouco estudada.

¹O Hunsrück é uma serra de montanhas baixas, às margens do Rio Reno e Mosela, no oeste da Alemanha, região de onde partiram centenas de famílias para o Brasil no começo do século XIX, impulsionadas pelo sonho de um mundo melhor nas selvas do Brasil.

²Variante oficial (standard ou padrão) do alemão.


Fonte: Philippsen, Adair. Um século de encanto. Breve histórico do Coral Santa Cecília de Santo Cristo. Santa Rosa: Public Gráfica e Gravadora, 2016, p. 24

Cubiertos (Causo do Maestro Guido por Adair Philippsen)

 

Encontro de dois dias em Monte Caseros, Argentina. No convite, a observação:

- Por favor, traigan cubiertos.

Desde os doze anos, com seu irmão Ivo, Guido cantava música de Miguel Aceves Mejia, guarânias, boleros e tangos. Julgava-se pós-graduado em espanhol e por isso recomendou aos coralistas:

- É fim de inverno, vamos mais ao Sul, em campo aberto, na margem do rio, pode ser frio. Levemos, pois, cobertores.

Na primeira noite os anfitriões serviram boi assado com couro e pelo, bastante alho e outros temperos. Muitos pedaços com mais pelo do que carne – o Kuno Bieger (in memoriam), na viagem de retorno, ainda cuspia pelos de boi…

No segundo dia almoçaram na sede da gendarmeria na beira do rio Uruguai. Na entrada pediram:

-¿Trajeron los cubiertos?

Só então descubriram que cubiertos são talheres!

E o ônibus abarrotado de cobertores.


Fonte: Philippsen, Adair. Um século de encanto. Breve histórico do Coral Santa Cecília de Santo Cristo. Santa Rosa: Public Gráfica e Gravadora, 2016, p. 52

quarta-feira, 10 de abril de 2024

Parmênides (o uno e o múltiplo, as formas inteligíveis)

 

Eis o problema. Quando enunciamos Não é, queremos indicar outra coisa, tirante a ausência de existência naquilo que afirmamos não ser?

Não será senão isso.

Quando dizemos que alguma coisa não é, não queremos afirmar com isso que, em certo sentido, ele não é, mas que noutro sentido é? Ou a expressão Não significa, de maneira rigorosa, que o que não é não existe em absoluto e não participa de nenhum jeito da existência? É tomada no mais rigoroso sentido. Logo, o que não é, de jeito nenhum poderá participar da existência.

Não, de fato.

0 formar-se e o perecer, em que poderão consistir, se não for em adquirir existência ou em vir a perdê-la?

Em nada mais.

Mas o que em nenhum modo participa da existência, não poderá adquiri-la nem vir a perdê-la. Como o poderia?

0 Uno, por conseguinte, que todo o jeito não é, não pode receber nem perder a existência nem dela participar.

Sem dúvida.

Logo, o Uno que não é nem parece nem nasce, visto não participar de modo algum da existência.

É claro que não.

Nem se altera de maneira nenhuma; se tal acontecesse, nasceria e pereceria.

É verdade.

E se não se altera, não será também forçoso não mover-se?

Necessariamente.

Como também podemos dizer que o que não existe em parte alguma não está em repouso; o que repousa terá de permanecer no mesmo lugar.

No mesmo, como não?

Voltamos, por conseguinte, a afirmar que o que não é não está parado nem em movimento.

Não de fato.

Como não tem nada do que é; se participasse de alguma coisa, participaria também do ser.

É claro.

Como não terá grandeza nem pequenez nem igualdade.

Sem dúvida.

Nem semelhança nem diferença, tanto em relação consigo mesmo como com as outras coisas.

É evidente que não.

Como! As outras coisas poderiam ser algo para ele, se nada terá de estar em relação com ele?

Não é possível.

Como as outras coisas não lhe serão nem iguais nem desiguais, nem idênticas nem diferentes.

Sem dúvida.

E então? As expressões Daquele ou Para aquele, Alguma coisa, Deste, A este, De outro ou Para outro, ou ainda: Outrora, Mais tarde, A gora, Conhecimento, Opinião, Sensação, Definição ou Nome, ou seja o que for, poderiam aplicar-se ao que não é?

De jeito nenhum.

Desse modo, o Uno que não é não tem condição de espécie alguma.

Parece mesmo que não tem.

Passemos agora a considerar o que acontecerá com as outras coisas, se o Uno não é.

Sim, façamos isso mesmo.

Obviamente, é preciso que sejam outras; se não fossem outras, nada se poderia dizer das outras coisas.

Certo.

Ademais, se é das outras coisas que se fala, terão de ser diferentes. Ou não empregas para a mesma coisa a expressão Outra e Diferente?

Sem dúvida.

Porém quando dizemos Diferente, queremos significar que é diferente de algo diferente, e que Outro, também, é outro de outra coisa.

Certo.

Para as outras coisas, também, se tiverem de ser outras, terá de haver outras coisas com relação às quais elas sejam outras.

Necessariamente.

Que será? Do Uno é que elas não poderão ser outras, porque o Uno não é.

Não, de fato.

Nesse caso, terão de ser outras entre elas mesmas; é só o que lhes resta, para não serem outras em relação a nada.

Certo.

Assim, é sempre em grupos que cada uma é outra em relação às outras; como unidade é que não poderão ser já que o Uno não é. Pelo contrario; ao que parece, cada uma dessas massas é infinita em número, e quando alguém pensa haver tomado uma porção mínima, de súbito, como nos sonhos, em vez de uma, como parecia, nos surge múltipla, e em lugar de muito pequena, imensamente grande, comparada com as partículas de que é composta.

Certíssimo.

É como massas desse tipo que as outras coisas são outras em si, se forem outras sem que haja o Uno.

Perfeitamente.

Terá de haver, portanto, grande número dessas massas que individualmente parecerão unidade, sem que, no entanto, o sejam, visto não haver o Uno.

Isso mesmo.

Como também parecerá que elas formam número, sem que em verdade o sejam, uma vez que há o Uno.

Como não há.

E também parecerão conter, é o que dizemos, a quantidade mínima; mas essa quantidade parecerá múltiplas e imensa em comparação com cada um desses múltiplos que em si mesmos são pequenos. Como não?

Ademais, cada massa será imaginada como igual a suas numerosas e pequenas partes, pois não poderá parecer que passa da maior para a menor antes de dar a impressão de chegar ao meio, o que já seria um simulacro e igualdade.

É provável.

E cada massa, não parecerá limitada com relação às outras e a si mesma, conquanto não tenha nem começo nem meio nem fim?

Como assim?

Porque se em qualquer delas considerarmos em pensamento algo nesse sentido, por detrás do começo aparecerá outro começo, para além do fim sobrará sempre outro fim, e no meio, mais central do que ele, outro meio menor, por não ser possível conceber nenhum deles como unidade, visto não existir o Uno.

Perfeito.

Assim, todo ser que concebermos em pensamento, terá forçosamente de milpartir-se em pedacinhos, segundo creio; será sempre apreendido como massa carecente de unidade.

Perfeitamente.

Para quem as contemplar de longe, com vista turva, cada uma dessas massas aparecerá forçosamente como unidade; mas para quem as examinar de perto, com espírito atilado, cada uma se revelará como multidão infinita, visto carecer do Uno que não é. É mais do que obrigatório ser dessa maneira. Assim, terão as outras coisas de parecer infinitas e limitadas, unas e múltiplas, no caso de não existir o Uno, mas apenas as outras coisas que não o Uno.

Sem dúvida.

E não parecerão também semelhantes e dissemelhantes?

Como assim?

À maneira de certos quadros: de longe, tem-se a impressão de unidade, parecendo, assim, de característica uniforme e semelhante. Perfeitamente. Porém de perto, aparecem como múltiplo e diferente, e esse simulacro de diferença lhes empresta caráter de diversidade e de dissemelhança consigo mesmo.

Certo.

É, pois, inevitável que as massas pareçam semelhantes e dissemelhantes, tanto entre elas como individualmente consideradas.

Perfeitamente.

Como também iguais e diferentes entre elas mesmas, em contacto e separadas, agitadas por toda espécie de movimento e imóveis de todas as maneiras, nascendo e morrendo e sem nascerem nem morrerem, e tudo o mais do mesmo gênero que nos fora fácil enumerar, uma vez que, não havendo o Uno, só há multiplicidade.

É mais do que certo.

Agora, voltando mais uma vez para o começo, digamos o que acontecerá se o Uno não é, porém sejam as outras coisas que não o Uno.

Sim, digamos isso mesmo.

Então, as outras coisas não poderão ser um.

Como o poderiam?

Nem muitas, também, pois se fossem muitas, o Uno estaria entre elas. Mas se nenhuma delas é um. Em conjunto serão nada, do que resulta não serem muitas.

É verdade.

Mas, se entre as outras coisas não há o Uno, aquelas nem serão muitas nem uma.

Não de fato.

Como não parecem ser nem uma nem muitas.

Por quê?

Porque de nenhum jeito e em caso algum as outras coisas poderão ter relação de qualquer natureza com o que não existe, não podendo nenhuma dessas coisas que não existem estar em nenhumas das outras, visto não haver partes do que não existe.

É verdade.

Como não haverá, também, nem opinião nem aparência do que não existe, não podendo, outros sim, em nenhuma condição e sob nenhum aspecto, ser concebido o que não existe.

Com efeito.

Se o Uno não existe, nenhuma das outras coisas poderá ser concebida como um ou como múltiplo, pois sem o Uno não é possível imaginar a pluralidade.

É impossível, realmente.

Logo, se o Uno não existe, as outras coisas nem são nem pode ser concebidas como unidade e nem como pluralidade.

Parece mesmo que não podem.

Nem como semelhantes nem como dissemelhantes.

Com efeito.

Nem como idênticas ou diferentes, nem em contacto nem separadas, e assim sucessivamente, com relação a tudo o que anteriormente elas nos pareciam ter. As outras coisas nem são nem parecem nada disso, uma vez que o Uno não existe.

É muito certo.

Desse modo, resumíssemos tudo isso e afirmássemos: Dado que não exista o Uno, nada existe, teríamos falado certo?

Com a maior exatidão possível.

Pois então afirmemo-lo, com o seguinte acréscimo, como parece: Quer o Uno exista quer não exista, tanto ele como as outras coisas, ou seja em relação com ele mesmo ou em suas relações recíprocas, todos eles de toda a maneira são tudo e não são nada, parecem ser tudo e não parecem nada.

Absolutamente certo.


Platão. Parmênides (o uno e o múltiplo, as formas inteligíveis) (Portuguese Edition). Edição do Kindle.

Versão eletrônica do diálogo platônico “Parmênides”

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Créditos da digitalização: Membros do grupo de discussão Acrópolis (Filosofia)





domingo, 7 de abril de 2024

‘Algumas’ notas do subsolo de Dostoiévski

 (…) é no desespero que acontecem os prazeres mais intensos, especialmente quando você já percebe muito fortemente que sua situação não tem saída.

(…) o produto direto, imediato e legítimo da consciência é a inércia, isto é, o ficar-sentado-de-braços-cruzados conscientemente.

(…) todos os indivíduos e homens de ação diretos são ativos precisamente porque são obtusos e limitados. Como isso se explica? Da seguinte maneira: em consequência de sua tacanhez, tomam os motivos mais próximos e secundários como se fossem os motivos originais e, assim, eles se convencem mais rápida e facilmente do que as outras pessoas de que encontraram um fundamento irrefutável para a sua causa, e então ficam tranquilos. Isso é o mais importante. Pois, para se começar a agir, é preciso que antes se esteja completamente calmo e totalmente livre de dúvidas. E como eu, por exemplo, me tranquilizaria? Onde estão os meus motivos originais, nas quais me apoiaria? Onde estão os fundamentos? De onde vou tirá-los? Faço uma ginástica mental, e, em consequência, cada motivo original imediatamente arrasta atrás de si outro, ainda mais original, e vai por aí afora, até o infinito. Essa é precisamente a essência de toda consciência e reflexão. Portanto, novamente já estamos falando das leis da natureza. E, finalmente, qual é o resultado? O mesmo, ora. Lembrem-se: há pouco falei sobre a vingança (os senhores, na certa, não se aprofundaram no assunto). O que eu disse foi: o homem se vinga porque acha que está fazendo justiça.

(…) em toda minha vida nada consegui começar nem terminar. Está bem, está bem. Eu sou um tagarela, um tagarela inofensivo e enfadonho, como todos nós. Mas que se há de fazer se o único e evidente destino de todo homem inteligente é tagarelar, ou seja, dedicar-se propositalmente a conversas para boi dormir?

Penso até que a melhor definição para o homem é: um ser bípede e ingrato. Mas isso ainda não é tudo, esse não é o seu pior defeito: seu defeito mais grave é sua constante má conduta. Sim, constante, desde o dilúvio universal até o período schleswig-holsteiniano dos destinos da humanidade. A má conduta e, por consequência, a falta de bom senso (…)

Em suma, tudo se pode dizer da história universal, tudo que possa ocorrer à imaginação mais perturbada. Só uma coisa não se pode dizer: que ela seja sensata. Os senhores engasgariam na primeira palavra. E vejam até o que acontece volta e meia: constantemente aparecem na vida pessoas tão corretas e sensatas, tão sábias e amantes do gênero humano que assumem como seu objetivo de vida comportar-se da maneira mais correta e sensata possível para, por assim dizer, ser uma luz para os demais, provando para eles que é possível de fato viver neste mundo de maneira correta e sensata. E daí? Sabe-se que muitos desses amantes do gênero humano, uns mais cedo, outros mais tarde, alguns já no fim da vida, traíram a si mesmos, dando margem a anedotas, algumas até bem obscenas. Agora pergunto-lhes: o que se pode esperar do homem, sendo ele um ser dotado de características tão estranhas? Pois bem, cubram-no de todos os bens que há na Terra, mergulhem-no de cabeça na felicidade mais completa, de modo que somente borbulhas subam à superfície; deem-lhe tal bem-estar econômico, de modo que não lhe reste nada mais a fazer, além de dormir, comer (…)

Pois chegamos ao ponto de quase achar que a verdadeira “vida viva” é um trabalho, quase um emprego, e todos nós no íntimo pensamos que nos livros é melhor. E por que às vezes ficamos irrequietos, inventamos caprichos? E o que pedimos? Nós mesmos não sabemos. Nós mesmos nos sentiremos pior se nossos pedidos forem atendidos. Pois bem, façam uma experiência, deem-nos, por exemplo, mais independência, desamarrem as mãos de qualquer um de nós, ampliem nossa esfera de ação, relaxem a tutela e nós… eu lhes asseguro: nós imediatamente pediremos a volta da tutela. Sei que os senhores talvez fiquem bravos comigo, comecem a gritar e a bater com os pés (…)

Redução Jesuítica de São Nicolau

Fonte: Dostoiévski, Fiódor, 1821-1881. Notas do subsolo (recurso eletrônico); tradução do russo de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares. Porto Alegre, RS: L&PM, 2011. Recurso digital – Coleção L&PM POCKET v. 670.



terça-feira, 9 de janeiro de 2024

Espaço e escolhas (Fefe Resende)

 

A tela pode ser o que a gente faz dela. Bem-estar digital tem a ver com escolhas! E é muito possível pensar, compartilhar truques e técnicas, experimentar exercícios no próprio dia a dia e seguir tentando estabelecer um bom relacionamento da gente com o nosso tempo, com os nossos valores e importâncias (…)

Organizar nossos próprios limites é um fundamento de fazer boas escolhas. A psiquiatra americana Pooja Lakshmin diz que um caminho pra conseguir é se ligar nos ‘nãos’ que a gente precisa sustentar para abraçar os nossos ‘sims’:

É importante sempre voltar para uma posição de autoavaliação e reflexão: autocuidado de verdade envolve criar espaço para você – seus pensamentos, seus sentimentos e suas prioridades na vida. Estabelecer limites é a maneira de recuperar seu tempo, sua energia e sua atenção.”



Capa: Angelo Bottino

Fonte: Resende, Fefe. Gente > internet. Rio de Janeiro: Mapa Lab, 2023, p. 15/16

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Vida pessoal (Maria Ribeiro)

 Acho “vida pessoal” a expressão mais maravilhosa/horrível do mundo. Existe termo mais redundante? E mais maltratado?

(…) Até porque, pro mal e pro bem, somos todos muito mais parecidos e previsíveis do que gostaríamos.



Capa: Angelo Bottino

Fonte: Ribeiro, Maria. Eu e ela. Rio de Janeiro: Mapa Lab, 2023

domingo, 3 de dezembro de 2023

Pós-F


Ignorância, consciência e Deus
Em tudo, a grande maldade é a ignorância. E, sem sombra de dúvidas, concretamente, a ignorância é proposital.
Esses conflitos todos da luta dos sexos, esses conflitos da luta entre homem e mulher, ainda sim poderiam ser evitados se tivéssemos uma consciência muito mais sofisticada, tanto da psicanálise quanto espiritual. Não por meio do que pregam as religiões, mas da noção de que somos de fato todos iguais. Porque somos manifestações únicas de um jogo lindo de consciência, quer você chame de Deus ou não. Mas isso não interessa. Não seria rentável pensar assim. E tudo o que não interessa é o tempo inteiro descartado ou considerado balela. E os discursos que são muito mais lucrativos e que são considerados mais interessantes, eles surgem e sempre apresentam uma grande briga, seja entre os sexos, ou mesmo entre religiões.

Mediocridade
Dizem que a mediocridade é a atuação do ser. Não é o ser em si. É quando você se descola; é Brecht, você atuando em cima do personagem.

Melhor lugar
Cada dia que passa, e há muito, sei que o melhor lugar em que posso estar é em mim. Essa é uma lição que aprendi que deixo com muito amor, neste livro, e todas as vezes em que dou entrevistas: tenham autoestima. Espero que eu possa inspirar meninas, mulheres, e também meninos, homens, a habitarem em si, jamais no outro. Com o(a) outro(a) nós exercitamos inúmeros estágios do crescimento. Aprendemos mesmo quando erramos. Mas somente você estará o tempo inteiro aí, seja na festa, no esplendor de grandes ocasiões, nas dores, principalmente nas dores…

Culpa
Tem um livro, Culpa, que me recorda bastante você: O pequeno príncipe. É lá que está escrito que nós nos tornamos responsáveis por aquilo que cativamos.



Capa: Victor Burton

Fonte: Young, Fernanda. Pós-F: para além do masculino e do feminino. Rio de Janeiro: LeYa, 2018.


sábado, 2 de dezembro de 2023

Preço do Jornal O Povo (Gianni Carta)

 

O Povo (160 edições, set/1838-maio/1840), periódico quinzenal e oficial da República Rio-Grandense tinha um número reduzido de leitores, uma vez que o índice de alfabetização do Rio Grande do Sul era de cerca de 20% apenas dos seus 150 mil habitantes.

Um exemplar de 4 páginas custava 80 réis, e a assinatura semestral, 4 mil réis, o preço de dois cavalos.

(Adaptado)



Capa: David Amiel
sobre pintura de Giuseppe Garibaldi a cavalo, óleo sobre tela de Filippo Palizzi, 1851, e mapa da América do Sul por Jeremiah Greenleaf, 1840

Fonte: Carta, Gianni. Garibaldi na América do Sul: o mito do gaúcho. Tradução: Flávio Aguiar e Magda Lopes. 1ª de. São Paulo, Boitempo, 2013, ebook.

Baiocco (Gianni Carta)

 

Alexandre Dumas promoveu Garibaldi via L’Independente de 1860 a 1864. Em um folheto que circulou em 4 de julho de 1860, anunciou que os principais artigos e notícias do novo periódico seriam impressos em italiano. Os folhetins de Dumas, sua correspondência com os leitores e outros artigos variados seriam impressos em francês. O jornal seria publicado quando tivesse 6 mil assinantes; 150 exemplares do jornal seriam vendidos nas ruas.

Uma assinatura por três meses custava dois ducados, e o preço na rua era de quatro baioccos – moedas usadas nos Estados Pontificais e no Reino dos Bourbon; na época, um baiocco correspondia a 0,001 lira.

(Adaptado)



Capa: David Amiel
sobre pintura de Giuseppe Garibaldi a cavalo, óleo sobre tela de Filippo Palizzi, 1851, e mapa da América do Sul por Jeremiah Greenleaf, 1840

Fonte: Carta, Gianni. Garibaldi na América do Sul: o mito do gaúcho. Tradução: Flávio Aguiar e Magda Lopes. 1ª de. São Paulo, Boitempo, 2013, ebook.

Livro “O Balanço da Mata Norte – Batuque Rural na Bateria” (Rafael dos Santos, 2026)

  Batuque Rural na Bateria   Fonte:  https://viasabertas.com.br/nossos-trabalhos/livro-o-balanco-da-mata-norte-batuque-rural-na-bateria-2026...