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domingo, 23 de maio de 2021

Cenair Maicá (João Vicente Ribas/Jornal do Comércio)

 

A vida e obra de Cenair Maicá, um dos troncos da música missioneira


Escutando Argentino Luna e Tránsito Cocomarola no toca-fitas, Cenair Maicá percorria com seu Chevette a rodovia RS 536 no Noroeste do Estado. Essa estrada é a que leva os viajantes da BR 285 até São Miguel das Missões, onde o cantor e compositor viveu nos anos 1970 e administrou o restaurante que recebia os turistas nas ruínas das reduções jesuítico-guaranis.


Agora, esse caminho possui um novo nome: "Rodovia Cenair Maicá". Pois, no ano passado, a Assembleia Legislativa aprovou um projeto de lei de autoria do deputado e músico Luiz Marenco, que propôs a homenagem.


É também na cidade de São Miguel que outro tributo está sendo preparado. Já está em pé desde fevereiro uma estátua de Cenair Maicá, de quatro metros de altura e quatro toneladas de concreto armado. Devido à pandemia de Covid-19, a festa de inauguração está adiada por tempo indeterminado, bem como a conclusão da praça no entorno.


Essa homenagem contou com fãs do missioneiro que realizaram uma campanha de arrecadação e o apoio da prefeitura municipal. A escultura é obra de Vinicius Ribeiro, autor de monumentos a outros artistas, como Jayme Caetano Braun, Mano Lima e Noel Guarany.


Desde que faleceu em 1989, Cenair Maicá se consagrou em uma série de reverências nos municípios em que viveu. Na terra natal, Tucunduva, e em Santo Ângelo, logo batizaram travessas com seu nome. A comunidade de São Luiz Gonzaga inaugurou um palco e os santo-angelenses instalaram um busto do cantor, confeccionado por Tadeu Martins, e um mausoléu no cemitério onde estão seus restos mortais.


Sua presença também se impôs postumamente nos palcos e fonogramas. Além do relançamento de alguns LPs em formato CD, em 2004, filhos, irmãos e sobrinhos reuniram-se e gravaram um primeiro álbum interpretando músicas de Cenair para marcar 15 anos de saudade. Uma década depois, gravaram outro.


Neste meio tempo, Patrício Maicá lançou um disco tributo ao pai, contendo uma canção inédita, Potranca tordilha, guardada pelo violonista Paulo Guerra, que o acompanhou nos últimos anos de vida em Soledade. O músico também esteve envolvido em uma série de shows realizados na cidade em homenagem ao colega. "Cenair era fantástico, muita simplicidade, mas muito conhecimento, um verdadeiro mestre", recorda.


As composições de Cenair Maicá são pedras fundamentais do repertório missioneiro.  Trinta anos depois, seguem ganhando regravações, a exemplo das que Ângelo Franco registrou para Balaio, lança e taquara e Mágoas de posteiro. "Todo missioneiro da minha geração já nasceu ouvindo, já nasceu fã do Cenair Maicá", afirma.


Mas de onde vem tanta reverência? Para compreender um pouco desta importância, buscamos nesta reportagem recuperar arquivos e depoimentos que ajudam a pontuar a trajetória de Cenair Maicá. Uma das principais fontes está na biografia escrita por Valter Portalete, que desvenda detalhes de sua vida e de sua morte, em 1989, por complicações nos rins, após uma série de problemas que teve desde a juventude, quando foi baleado.


Conversando com o filho Patrício, sabemos que seu pai era uma pessoa muito calma, embora artisticamente inquieto. "Pai estava à frente do tempo dele", afirma. E confessa que tem muita saudade: "Eu queria ver o pai vivo hoje, ver sobre o que estaria escrevendo". Nos últimos anos, Patrício tem se dedicado ao legado musical de Cenair Maicá, pois percebe que há reconhecimento. Por isso, emociona-se ao cantarolar uma das canções: "Mas se algum dia meu cantar for sufocado/ Por negra morte ou por capricho do destino/ Há de ficar meu canto xucro perpetuado/ No assobio de alguma boca de menino".


Já o historiador Tau Golin, amigo de diversas aventuras, define-o como um baita parceiro: "Gostava de encontros, de cantar no meio das pessoas". Ao mesmo tempo, lembra que Cenair era introspectivo, falava só o necessário. "Lá fora, encilhava um cavalo e saía sozinho pelo campo. Ficava contemplativo", recorda.


Além dos depoimentos de quem conviveu com o músico, acessamos arquivos que revelam sua própria voz. Um grande achado foi uma entrevista em áudio do acervo do Museu Antropológico Diretor Pestana.


Outro documento significativo foi uma edição da revista Tarca, em que Cenair conta histórias de quando foi participar de um show ao lado de nomes como Chico Buarque e Milton Nascimento, mas a censura acabou cancelando. Na revista, fala também das origens e do reconhecimento da música missioneira, em uma época em que predominavam os estilos de baile serrano e sertanejo.


Por isso, acreditava ter criado um novo estilo, ao lado de Noel Guarany, Pedro Ortaça, Chaloy Jara e Jayme Caetano Braun. "Acho que o músico, além de cantar as coisas bonitas, a alegria, tem que ser um porta-voz do povo", sustentava.


Quando se pesquisa no Google o nome Cenair Maicá, chega-se a um conjunto de dados básicos. Na Wikipédia, lê-se que "foi um cantor e instrumentista brasileiro de música nativista, conhecido por cantar a natureza e os índios". Nos resultados da busca, enumeram-se seus três maiores sucessos: Canto dos Livres, Baile do Sapucay e Rio de minha infância. Para completar, a rede digital lista datas e locais de nascimento (3 de maio de 1947, Tucunduva) e falecimento (2 de janeiro de 1989, Porto Alegre).


Mas logo que se começa a pesquisar a fundo o ícone da música missioneira Cenair Maicá, por outras fontes menos informatizadas, notam-se incongruências. Por exemplo, quando se lê o livro Terra e cidadania na obra de Cenair Maicá (FuRi, 2012), de Valter Portalete, pode-se corrigir um equívoco repetido na internet a respeito de sua discografia. As fontes do ciberespaço omitem sua primeira gravação, o compacto duplo Belezas missioneiras, lançado em 1970 pelo selo Solar Discos. Em seu lugar, destacam o compacto simples que gravou acompanhando Noel Guarany, no mesmo ano, chamado Filosofia de gaudério.


Quando acessamos as plataformas de streaming, descobrimos que apenas Meu canto (1985) e Troncos Missioneiros (1989) estão disponíveis no Spotify e no Deezer. É preciso acessar o YouTube para conseguir ouvir outros álbuns, mas a discografia não está acessível de forma completa. Um dos vídeos mais acessados, com quase 300 mil visualizações, é o de uma apresentação no programa Oigalê Tchê, da RBS TV de Chapecó, em que canta ao lado de Chaloy Jara e Jayme Caetano Braun, no ano de 1984.


Ainda insistindo na pesquisa via internet, no site Letras.mus.br, encontramos na página destinada a Cenair Maicá suas 20 mais tocadas. Compilando os versos digitalizados, foi possível compor uma nuvem de palavras com o aplicativo Wordart.com. Desta forma concluímos que a palavra mais recorrente é "rio", seguida de "terra", "milonga" e "amor". Esse resultado oferecido pela tecnologia provavelmente não surpreende os fãs. Afinal, ainda em vida, ficou conhecido no popular como Cantor das Águas.


Cenair Maicá elaborava teses: "Na verdade, o nativismo nasceu com Sepé Tiaraju nas Missões. Foi o primeiro nativista registrado na história. Um cara que se ergueu e morreu pela terra dele, pelas coisas dele, isso é a base do nativismo".


Afirmações prenhes de posicionamento como essa recheiam a edição número 5 da revista Tarca, publicada em setembro de 1984. Nela, uma entrevista de três páginas. Entre anúncios da CRT e JH Santos, o jornalista Adalberto Jardim afirmava que Cenair Maicá era uma das vozes mais respeitadas do meio artístico gaúcho. "Respeito que se impôs pela lucidez com que Maicá tem interpretado os sentimentos do homem simples, que não precisa se utilizar da linguagem rebuscada - e às vezes enganosa - para exercer um agudo senso crítico", escreveu.


Na revista, revela-se que o cantor estava "temporariamente afastado da atividade artística, por causa da saúde abalada". Havia seis meses enfrentava insuficiência renal, fazendo hemodiálise e aguardando para realizar um transplante de rim. Mas já projetava a volta aos palcos.


Pode-se observar na fala do músico críticas à falta de diversidade nos festivais nativistas e aos limites do movimento tradicionalista, embora reconheça o papel importante na preservação de raízes. Sobram reprovações também à "alienação bárbara e americanista" do Rock in Rio, e a Teixeirinha: "Distorceu que o gaúcho é fanfarrão, que mata 50, que dá tiro, que é agressivo". Por outro lado, fala de projetos, como a fundação de um centro cultural nativista em São Miguel e a criação de uma universidade das Missões.

O Museu Antropológico Diretor Pestana, em Ijuí, guarda em seu acervo uma entrevista histórica, gravada em fita em 1982. A convite de pesquisadores, conversaram por mais de duas horas Cenair Maicá, Chaloy Jara, Dedé Cunha, Noel Guarany e Pedro Ortaça. Neste arquivo inédito, os músicos missioneiros comentam sobre a cena musical da época, avaliando a conduta dos CTGs e das gravadoras. Fazem comparações com a música folclórica argentina, que recebia subsídios governamentais para pesquisa e difusão. Dão aula sobre a cultura e a história das Missões, destacando o elo latino-americano, a origem do chamamé e a presença do bandoneon.


Com volume e firmeza na voz, Cenair intervém na conversa em diversos momentos, inclusive discordando de Noel Guarany em alguns pontos. Adverte que não se considera pesquisador, mas que canta o que aprendeu na infância. Fala da "infiltração" da música estrangeira, mais especificamente a norte-americana, que teria despertado a adesão dos músicos da região, por questão de sobrevivência. "Nós, os poucos idealistas que sobraram, resolvemos até trabalhar em outros empregos, mas conservamos a bela música que aprendemos", afirma.


Um dos assuntos mais abordados na conversa foram os festivais, dos quais participou muito mais como contratado para shows do que concorrendo. "Quem pode julgar a arte é o povo mesmo, e não meia dúzia de pessoas que se dizem intelectuais da música gaúcha", critica. Já quando perguntado sobre a diferença entre nativismo e sertanejo, Cenair destaca o romantismo. Observa que não há problema em cantar o amor, mas que o sertanejo cantava o amor "para fazer dinheiro". E com isso não concordava.


A primeira posição que aprendeu no violão foi dó maior. Depois aprendeu gaita. Aos 10 anos já tocava e cantava nas rádios em Santa Rosa, em dupla com o irmão Adelque. Estes detalhes estão presentes na entrevista concedida à equipe do museu de Ijuí. Nela, também salienta que todos os seus oito irmãos tinham vocação musical (após sua morte, o que mais prosperou foi Valdomiro Maicá, autor de mais de 20 discos). Recuperando sua árvore genealógica, sabemos que seus três filhos mais velhos, Potiguara, Patrício e Miguel Caraí, são do casamento com Maria Geceli. Já Catira e Gabriel, que morreu aos 21 anos de leucemia, são filhos com Issara Hactz.


Cenair fazia questão de contar que ainda criança foi morar em Misiones, na Argentina, pois seu pai era balseiro e se instalou na região de fronteira. Essa experiência de vida teria marcado sua obra. Logo no primeiro álbum, Rio de minha infância (1978), convidou para acompanhá-lo dois grandes músicos argentinos: Chaloy Jara e Martín Coplas.


Seu biógrafo Valter Portalete recupera fragmentos importantes de sua importância no mercado musical. Em 1970, Cenair Maicá conheceu o empresário Arlindo Gagliotto, que lhe propôs a representação das gravadoras RDB, Solar Discos e Pampa Discos. Uma das primeiras duplas descobertas por Cenair foram as Gauchinhas Missioneiras. Diversificando sua fonte de renda, nesta época também foi representante das máquinas de escrever Olivetti.


Uma segunda edição ampliada da biografia de Cenair Maicá está sendo preparada pelo autor para este ano. O livro inclui histórias das parcerias com José Mendes, com quem tocou bailes, e com Noel Guarany, com quem venceu um festival em Santo Tomé. A partir daí passou a pesquisar e a compor sobre as Missões. Vivendo em São Miguel, também se aproximou de Pedro Ortaça. Seu filho Patrício relata que lá o pai "recebia os indígenas e fazia registros, como um antropólogo". Paralelamente, Cenair Maicá apresentava programas nas rádios Repórter de Ijuí e Sepé Tiaraju de Santo Ângelo.


Sua vida de radialista teria continuidade nos anos 1980, quando ingressou na Liberdade FM em Viamão, a convite do jornalista Paulo Mendonça. "Cenair pode ser considerado um dos compositores mais importantes de todos os tempos no Rio Grande do Sul. Suas canções possuem signos terrunhos e leveza universal", avalia.


Um dos momentos marcantes de sua trajetória se deu quando a censura do regime militar impediu que Cenair Maicá cantasse uma canção que acabaria sendo um dos seus maiores sucessos: Canto dos Livres. Aquela que possui os versos: "Quisera um dia cantar com o povo/ Um canto simples de amor e verdade/ Que não falasse em misérias nem guerras/ Nem precisasse clamar liberdade".


Hoje, para revelar as memórias daqueles tempos, é possível pesquisar no Arquivo Nacional. Nele encontram-se documentos processados na Divisão de Censura de Diversões Públicas. Ao inserir as palavras-chave "Cenair Maicá" e "Canto dos Livres" no mecanismo de busca digital do arquivo, localizam-se apenas letras aprovadas pelos censores para gravação em disco e apresentação em festivais. Incluída Canto dos Livres. Então, quando teria ocorrido a censura? Em entrevista à revista Tarca, Cenair comenta o episódio: "Fomos pra São Paulo pra fazer o lançamento do meu novo disco e nos barraram lá. Trancaram o disco, dois meses censurado".


Em resenha do jornal Zero Hora de 1983, o jornalista Juarez Fonseca relata que a canção "teve execução em rádio proibida" e que Cenair estava aguardando a ação que a gravadora WEA havia promovido para liberá-la. Já Tau Golin, que organizava shows dos missioneiros naquela época em Santa Maria, recorda que Canto dos Livres tinha que escolher onde ia cantar. "Havia dedos-duros e pressão por vias não-oficiais, por isso Cenair foi realmente tocar ela em público só no período de abertura, antes não", lembra.


Cenair Maicá foi um dos Troncos Missioneiros da música e poesia popular do Rio Grande do Sul no século XX. Ao lado de Noel Guarany, Jayme Caetano Braun e Pedro Ortaça (único ainda vivo), cantou a natureza, as lutas do homem do campo, a história e cultura da região das Missões. O tema já foi destaque nas reportagens culturais do Jornal do Comércio. O caderno Viver publicou anteriormente as biografias de Braun, Ortaça e Guarany.


Os Troncos Missioneiros ofereceram uma via estética alternativa na cultura gaúcha. Iuri Daniel Barbosa, músico e mestre em Geografia (UFRGS), comenta que o grupo buscou abrir um outro mercado que não era nem de festival nem de baile. E obtiveram reconhecimento da crítica, inclusive do Centro do País. Barbosa define o estilo inaugurado por eles como Música Regional Missioneira, para diferenciá-la da música missioneira histórica. Até hoje, Pedro Ortaça, Jorge Guedes, entre outros, seguem nesta linha.


Barbosa destaca que Cenair era multi-instrumentista e analisa sua performance vocal: "Era sensível, um cantar mais calmo, menos empostação". Também avalia os arranjos com mais elementos harmônicos, que se aproximam de uma música mais urbana. Esta aproximação se dá também na gravação de canções de Jerônimo Jardim e Raul Ellwanger, que foi produtor do disco Caminhos (1980).


Atualmente, sua escola influencia novas gerações. Ângelo Franco, por exemplo, conviveu com Cenair Maicá. Suas famílias eram amigas e tocavam Baile do Sapucay em São Luiz Gonzaga. "Tenho muita afinidade com a obra do Cenair, carinho por esta história indígena, este respeito, este quase remorso, entre aspas, que a gente carrega pelo genocídio indígena", revela.


Do ponto de vista estético, Franco pegou sua influência de cantar em espanhol, e, na questão política, de "fazer um protesto exortativo, não impositivo". Por fim, observa que Cenair ajudou a entender que há uma música que está presente nos dois lados do rio Uruguai e além.


Afora a vivência fronteiriça e com indígenas, Cenair Maicá teve vivência campeira. Frequentou estâncias próximas a Santa Maria, junto a Tau Golin. Com isto, o historiador acredita que o amigo tentava resolver o conflito existencial entre o gaúcho e o indígena, que gera uma inquietação estética entre latifúndio privatizado oligárquico e a organização coletiva e familiar missioneira. Mesmo gostando da lida campeira, teria sido responsável por tirar o "absolutismo do imaginário do campo" na música gaúcha e trazer os ribeirinhos. "Missioneiros como o Cenair nos colocaram na América Latina, fizeram com que nós tivéssemos esta fronteiridade", pontua.



Fonte: https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/especiais/reportagem_cultural/2021/05/791032-a-vida-e-obra-de-cenair-maica-um-dos-troncos-da-musica-missioneira.html

Publicada em 21h23min, 06/05/2021.

Acesso 23/05/2021

Crédito Foto: Assis Hoffmann, Capa LP Canto dos Livres, RODEIO, BR 79005, BERRANTE, Fabricado e distribuído por EMI-ODEON, janeiro/1983

sábado, 7 de julho de 2018

TRADICIONALISTAS & REGIONALISTAS & NATIVISTAS (Luiz Coronel - Revista Tarca)

ATUALIDADE


Conciliação Inteligente ou Ruptura Imediata

Por LUIZ CORONEL

Ciclo dos Festivais:

A presença dos festivais de cunho nativista, após 15 anos de caminho andado, afirma a importância destes eventos no movimento cultural gaúcho.

Poetas, músicos, intérpretes, instrumentistas muito devem a estes eventos em termos de conquista de espaço para revelação de seus trabalhos. Mas chegamos a um impasse, isso é uma verdade sem saída para malabarismos. Precisamos dar nitidez aos personagens. Clareza às posições assumidas.

Recusa:

O ímpeto conservador e o impulso transformista existem até mesmo dentro de uma molécula. Faz parte da dinâmica da vida essa contradição de forças.

O trabalho retrospectivo e o proponente conviveram muito bem dentro dos festivais.

Até que chegou o momento da opção. Da opção conservadora. A recusa à convivência não partiu da linha de frente, dos compositores abertos a novas formas, criadores de uma nova linguagem. Partiu de uma recusa do pensamento conservador, que primeiramente eliminou a participação dos músicos inovadores e, presentemente, pela declaração expressa de seu pensamento exclusivista.

A comissão de seleção, como diz Dilan Camargo, se tornaram “pelotões de fuzilamento, comissão de inquérito” em face ao novo.

Importa dizer:

Os compositores voltados ao futuro, a uma nova linguagem, regional, gaúcha, mas renovada, nunca se preocuparam em determinar domínio sobre os festivais.

Quem teve este gesto, foram os tradicionalistas.

Porque para nós todos, o violão do Glênio Fagundes, o trabalho do Telmo de Lima Freitas, dos Angueras, e todo esse acervo de linha galponeira, foi sempre aceita, estimada e valorizada e a recíproca não aconteceu?

Porque os tradicionalistas temem o futuro. Sua viagem é rumo a um passado. Centauros, lendas, heróis, e quem tentar usar uma linguagem feita de imagens novas, de arranjos recriados, de motivos contemporâneos, passa a ser profano.

Nós aplaudimos Esquilador, Vozes campeiras, Guri, mas para os tradicionalistas é quase impossível encarar a existência de um Astro Haragano, Cordas de Espinho, Pampa de Luz.

Esta argumentação põe bem claro de onde parte a recusa.

Os fatos:

Não me tenho na qualificação de vanguardista de nada. Cito Lukacs: “em arte importa ficar na vanguarda das retaguardas e na retaguarda das vanguardas”.

Mas basta não ter tido uma postura rotineira para ter sentido na pele o látego da incompreensão. Numa narrativa pessoal comecei e vivi, prestigiado e perseguido pelos festivais.

Na Califórnia, “Caminho de Volta” com Marco Aurélio Vasconcellos ganhava o prêmio de melhor letra e desclassificava por uma única razão: havia um “cello” entre os instrumentos.

Comenta-se que em Bagé, capital de minha infância, um tradicionalista ortodoxo, chegou a propor um negócio, na hora da classificação: - “Faço qualquer troca, mas nunca SERVENTIA em primeiro lugar”. A letra era profana, pois falava em rádio de pilha, azulejo, livros contábeis.

Arte:

Creio ser necessário definir que existe antes de tudo uma profunda e definitiva divisão de águas, no que se refere ao conceito e função da arte, entre as partes contendoras no âmbito da cultura gaúcha.

Parto do princípio de que o “passado é povoado de fantasmas, o presente de máscaras e o futuro de sonhos”.

Arte é um voo livre. É um salto da realidade através das asas da imaginação.

Arte é uma proposta de inauguração da vida, reproposta pela criatividade.

Desta forma, arte é uma antecipação do futuro, muito mais que uma redescoberta do passado.

Que a arte deva partir de uma substância histórica, de uma identificação e solidariedade de vidas, isso é lógico e transparente. A tentativa de fazer uma arte como teriam feito nossos antepassados, é para mim uma obstinação em animar museu. Dar manivela nas estátuas, colocar pilhas nas lembranças.

Cada vez mais penso que fazer arte é tocar fogo na fábrica de fogos de artifício. Isso é: iluminar o céu e a terra com as estrelas de nossa imaginação.

Vamos e venhamos, é bem diferente uma posição como essa, daquela que bem caracteriza os que andam ainda em busca de mitos que perderam seu poder de imantação sobre a mente e o coração dos homens, habitantes deste fim de século XX.

Preconceitos:

Einstein, leia-se gênio, dizia que era mais fácil fissurar um átomo que romper um preconceito.

Da mesma forma que existe um preconceito nas emissoras, que separam, qual estivessem inoculadas de doença contagiosa, a música de tema gaúcho, existe um preconceito contra a postura inovativa. Há Moisés demais descendo a coxilha trazendo novas tábuas da lei para dizer o que deve ser feito para manter a sacra fidelidade aos valores fundamentais da arte tradicionalista.

Pelo amor de Deus: a ninguém foi dado o direito de dizer a nenhum artista o que ele deve fazer!

Respeitem a beleza do estilo pessoal. Prestigiem a evolução criativa de cada um dos compositores. Viabilizem a postura de cada um dos intérpretes. Um palco é um palco, não é um altar.

Pessoalmente

Sou de alma branda, nada dado a grandes polêmicas. Não existe ressentimento pessoal no que dito.

Essa luta é de postura cultural. Existem pessoas optando pela profissão de músico; pessoas definindo-se como artistas profissionais, que estão sendo incompreendidas, barradas, injustiçadas em nome de dogmas asfixiantes. Eu gostaria de colocar é que é preciso e lindo que exista o tango de Gardel e a música de Piazzolla. Que convivam, para dar âmbito e riqueza, vastidão e verdade, Pery Souza e Gaúcho da Fronteira.

A esta altura de minha vida, com oito livros publicados, definições claras sobre a vida e a arte, nada peço para mim. Os festivais nada mais têm a me dar. Falo em nome de algo maior: a cultura gaúcha e sua viabilidade.

Evento & Legado:

Tenho dito que um festival é seu espetáculo, mas também seu legado.

Os festivais, se seguirem a opção conservadora, poderão, por mais uns cinco anos, manter o brilho do espetáculo, mas estarão enterrando o movimento cultural gaúcho, em sua extensão musical. Ao mesmo tempo em que edificam a construção de seu evento, fazem a cova deste ciclo.

PROPOSTAS:

E me torno uma flor de obsessão quando digo: Festival não tem proposta. Quem tem proposta é o artista.

Festival tem identidade, pois um festival de Taquara deverá ter uma diferenciação sobre um festival de Uruguaiana.

É essa hedionda história da proposta do festival que faz a munição dos fuzilamentos das comissões de seleção, com sua guarda cativa.

Definição:

E assim chegamos ao impasse irremediável.

Ou há uma abertura e os festivais englobam a cultura gaúcha em sua expressão mais aberta, ou os festivais, cada um por si, faz sua declaração conservadora de princípios, e o grande grupo dos músicos e compositores de formação e proposta inovadora, definem sua não participação. Jogo de regras claras. Conciliação ou rompimento.

Não estou me precipitando, falando por conta própria, estou, isto sim, expressando uma tendência irremediável.

Rio Grande do Sul,

somos uma cidade estado, meio lusos, meio espanhóis, com trajes típicos, ritmos próprios, história diferenciada.

Isso deverá render, artisticamente um produto cultural diferenciado. Mas diferenciado não quer dizer ausente, de seu tempo, das grandes causas, das imensas esperanças, das inquietações que marcam e cicatrizam o rosto de nossa época.

É preciso frisar que ninguém tem o monopólio da afeição pelo Rio Grande.

O homem em cima do cavalo e em cima da Asa-Delta, são da mesma maneira gaúchos.

O homem do bandoneon e o da guitarra elétrica, conhecem o mesmo milagre da afeição por sua terra.

O pintor abstrato e o figurativista falam a mesma linguagem da emoção do mundo vista pela dor.

Será difícil compreender essa meridiana realidade?

A discriminação que está sendo realizada, em nome do nativismo, é, antes de mais nada, desumana.

Einstein dizia:

“Depois que inventaram o trator é inútil aprimorar o arado”.

Existe algo de equívoco e contraditório na postura tradicionalista ortodoxa. Empregam microfones. Adoram ver suas promoções na TV, mas querem que a mensagem seja feita de lembranças ou referências de episódios que datam do candeeiro, do boi de canga, da carreta.

Viajam pelo asfalto, mas proíbem que nele se fale.

Andam de avião, mas querem a glorificação do cavalo.

Gravam o disco, mas querem de forma, tema e conteúdo, datem uma expressão de mundo e vida que anteceda a tudo isso.

Ou seja: há um mascaramento da realidade.

Tradicionalistas & Regionalistas:

Quando uso estas expressões, busco não definições sociológicas, mas procuro captar características destes contingentes.

Os tradicionalistas são caracterizados por uma grande afeição às tradições. Cultuam com profundidade lendas e mitos. Realizam uma ideação romântica do passado. Assumem uma postura saudosista, lamentam a perda de um paraíso perdido.

Encontram na valentia dos heróis, o ciclo dourado de nossa história. E a partir daí, fazer arte é restaurar estes tempos.

Os regionalistas já assumem uma posição de síntese e transposição de todo o passado.

A história passa a interessar como legado de características culturais. Acreditam na dinâmica dos tempos. Estão despertos às dimensões do tempo: passado, presente e futuro.

Querem do gaúcho seus elementos essenciais, mais do que o pictórico ou legendário.

Distanciam-se dos universalistas, na medida em que estes acreditam que o mundo universalizou a cultura, criando uma só entidade humana indiferenciada.

Em síntese: os regionalistas tendem ao sulino como essência, os tradicionalistas, querem o gaúcho como mito.

Difícil e desafiador, no meu entender, é estender uma ponte entre estas tendências.

Wilde:

Oscar Wilde, quando vítima de processo por sua obra Salomé, respondeu a seus algozes: “uma obra de arte será ou não será bela”. Ou seja: não é moral nem imoral, é arte ou não é arte.

Jerônimo Jardim teve postura correta ao endossar a classificação de “Vozes Campeiras” no Musicanto. Era uma música com letra que acredito diametralmente oposta às suas concepções estéticas. Mas era um trabalho bem sucedido.

Assim, é hora de dar um basta ao “isso é nativo, isso não é nativo”. É hora de dizer: é um trabalho de nível artístico.

Stalin, Mac Arthur, Franco:

Nossos tempos conhecem três posturas típicas da intolerância.

Stalin com o realismo socialista asfixiou as artes russas.

Mac Arthur com sua “caça às bruxas” corre Chaplin dos EEUU.

Os Franquistas cantavam: “cara ao sol e guerra à inteligência”. E um de seus comentários dizia: “Cada vez que ouço falar em cultura tenho ímpetos de puxar o revólver”.

No Brasil saímos de 20 anos de censura. Há campo para sentir e dizer a vida em nossos festivais. Mas uma outra censura se instaura: A censura estética, oriunda de concepções conservadoras de arte.

Grécia:

A vida dos gregos era talvez mais simples, rústica que a do nosso homem do campo.

Plantavam favas, cultuavam suas terras, o mel, as casas simples. Sua arte, no entanto fez o voo mais alto e definitivo da história da humanidade.

A tragédia grega é um monumento da indagação das inquietações da alma humana. Ficassem os gregos apenas falando da rotina de seus campesinos, não teriam legado sua obra.

E lembre-se: no século de ouro, Atenas tinha apenas 500 mil habitantes.

Walt Whitman e Maiacóviski:

São dois gigantes. Americano o primeiro. Russo o segundo. Whitman transmitia a seus cidadãos: “a tradição é o futuro”.

Maiacóviski bradava do outro lado: “um novo tempo pede novas formas”. Vamos abrir os ouvidos, a alma e o coração, a estes dois gigantes que nos gritam do corredor do século, pedindo novas posturas.

POSTURAS:

Vejamos as argumentações dos tradicionalistas ortodoxos: “quem quiser assistir rock que assista. Quem quiser ouvir samba que ouça. Mas se quiser ouvir música gaúcha, que seja música gaúcha autêntica”. O impasse surge na definição de “autêntico”.

Autêntico é o que não se renova? É o que repete velhas estruturas? Não. Autêntico, em arte, é o que tem ímpeto criativo. Há uma confusão entre arte ingênua e autêntica, sem saída.

Não há arte sem sinceridade:

A encomenda cultural termina criando um produto artístico caricatural de tão frágil. O artista é um ser liberato e não cativo.

O critério da encomenda segundo regulamentos termina, à curto prazo, por criar uma arte de oportunistas e não de criadores.

POLÊMICA:

Quero encerrar citando Gramsci: “Precisamos acreditar na polêmica. Com ela o respeito às ideias opostas. Se acreditarmos na dialética das ideias, temos de nos predispor à polêmica. Quem não respeita as ideias do outro, desrespeita suas próprias ideias”.
O movimento cultural gaúcho, em sua manifestação musical, dentro do ciclo dos festivais, sempre foi carente de um debate amplo e aberto. Comemos rebanhos. Dançamos e cantamos. Esquecendo que arte é divertimento, mas é mais do que tudo, uma forma rica de conhecimento da verdade da vida.
Fonte: Tarca – Revista de Cultura Gaúcha – ANO III – Maio/1986 – Nº 14 - p. 21/23


sábado, 20 de maio de 2017

Cultura Terrunha - Pra Pensar (Glênio Fagundes)

Nativismo

...pra pensar!...

Cultura Terrunha

Glênio Fagundes   

A identidade cultural nas triagens

É comum nas triagens deparamos com temas (canções) de conotação urbana de grande gosto e beleza. Neste momento se o corpo de jurados não estiver embutido da proposta cultural do evento que se diz “NATIVISTA”, poderá ficar em dúvida! Por isto, antes de ocuparmos o lugar de jurado devemos ter intimidade com a área nativa, além das propostas do evento. Só aquele que tem consciência sabe do alto grau de responsabilidade que pesa sobre os ombros de quem vai emitir pareceres culturais num corpo de jurados! Pois quando se trata de enriquecimento cultural, a identidade com as raízes da cultura, deverá se fazer presente, antes mesmo da beleza do tema. E para tanto, requer conhecimento.

O jurado cultural, não pode guiar-se apenas pelo fato de gostar ou desgostar do tema (canção) inscrito no evento. Por isto, a triagem é de suma importância.

A ajuda de custo nos festivais

Está mais que comprovado o fato de que a AJUDA DE CUSTO é fundamental para a grandeza do evento, possibilitando a presença de melhor apresentação dos temas.

O instrumental acústico não basta?

Sabemos que os microfones usados em nossos festivais nativos, já possuem qualidade suficiente para transmitir a sensibilidade do artista, sem distorções, por que não estimular a simplicidade do instrumental acústico?

Por onde andará a simplicidade?

Se no regulamento diz: “no máximo (7) sete elementos em palco”. Este item é seguido quase ao pé da letra, pois é rara a vez que as canções apresentadas não trazem esse número de participantes.

Pelo fato do pouco tempo entre a pré-seleção e a apresentação em palco, notamos através dos temas um verdadeiro mosaico de bons artistas, mas sem unidade. É uma lástima que não haja uma preocupação maior com a simplicidade.

O urbano e o nativo

Por que não temos um festival de música urbana, se possuímos mais de cinquenta encontros nativos musicais?

Será que temos música popular urbana de raiz?

Sabemos que o hibridismo nunca foi processo de aculturação, no enriquecimento cultural.

Mais intimidade cultural

Notamos muitas vezes que nos encontros musicais de arte nativa a intimidade com a cultura da nossa terra deixa muito a desejar. Não basta extrair de um dicionário gauchesco termos para elaboração de uma letra. Os temas são inesgotáveis. O esvaziamento repetitivo está na pobreza de quem o elabora.

A simplicidade no personal

Lamentavelmente ouvimos comentários sobre o fato de que alguns artistas estariam usando o esquema de participarem dos festivais apenas pela ajuda de custo, descuidando da boa apresentação do trabalho. Em virtude desse fato, alguns festivais, criariam uma nova cláusula. Seria permitido no evento a presença em palco no mínimo de três elementos e no máximo de sete.

Teríamos muito a lamentar com este fato. Onde ficaria o artista personal e os duetos?

- As manifestações simples nunca deixam dúvidas, ou são boas ou são ruins, ao passo que quanto mais elementos em palco mais difícil sua apresentação, uma vez que a premência de tempo nos julgamentos dos festivais já possui carência.

A carteira da ordem dos músicos

A exigência da carteira de músico ao amador “NO PALCO DOS FESTIVAIS” não nos parece inteligente e justa. Este fato inibe aquele que no momento, atuando em outra área, lhe é imposta a credencial da ordem. Neste momento, perde a cultura e perde a Ordem, com o afastamento deste elemento.

A carteira só deveria ser exigida no evento se o participante desejasse atuar como espetáculo ou fora do palco como profissional.

E assim lucraria nossa cultura e a Ordem com esse manancial de amadores, quem sabe até, futuros profissionais.

Fonte: Revista Tarca – Cultura Gaúcha – ANO III – nº 16 (AGO/SET/OUT/86) – p. 15

Crédito da Foto: Revista Tarca – Cultura Gaúcha – ANO I – Nº 0 (1984)

Livro “O Balanço da Mata Norte – Batuque Rural na Bateria” (Rafael dos Santos, 2026)

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