Você nunca vai agradar a todos. Aprenda a não ligar
para isso
7 ABR 2019
A verdadeira
liberdade pode residir em conseguir ser feliz sem precisar da aprovação alheia
UM DOS LIVROS mais
populares dos últimos anos no Japão reúne as conversas entre um jovem
insatisfeito e um filósofo que lhe ensina, entre outras questões, a arte de não
agradar aos outros. É um tema sensível numa cultura tão complacente como a
nipônica, mas este compêndio de conversações entrou também nas listas de mais
vendidos dos Estados Unidos, e no Brasil foi publicado como A Coragem de Não
Agradar (Sextante).
O mestre é Ichiro
Kishimi, especialista em filosofia ocidental e tradutor de Alfred Adler, um dos
três gigantes da psicologia junto com Freud e Jung. E é justamente o pensamento
de Adler que articula o diálogo com o jovem Fumitake Koga sobre como se
emancipar da opinião alheia sem se sentir marginalizado por causa disso.
O debate socrático
que eles mantêm ao longo das mais de 260 páginas do livro parte dessa ideia
central: todos os problemas têm a ver com as relações interpessoais. Nas
palavras do próprio Adler, “se as pessoas querem se livrar dos seus problemas,
a única coisa que pode fazer é viver sozinhas no universo”. Como isso é
impossível, sofremos por alguma destas razões ao nos relacionarmos com os
outros:
- Sentimos um
complexo de inferioridade em relação a quem “tenha conseguido mais” do que nós.
- Sentimo-nos
injustamente tratados por pessoas que amamos ou ajudamos e que não nos
correspondem como esperamos.
- Tentamos
desesperadamente agradar os outros para obtermos sua aprovação.
Este último ponto
se transformou em um vício generalizado. Podemos vê-lo claramente nas redes
sociais, onde publicamos posts procurando a aprovação dos outros na forma de
curtidas e comentários. Quando uma foto ou uma reflexão importante para nós
obtém poucas reações, podemos chegar a nos sentir ignorados.
Também nas
relações analógicas, muitos problemas interpessoais têm a mesma origem: não
recebemos do outro o que acreditamos merecer. O fato de não nos agradecerem
suficientemente por alguma delicadeza que fizemos, por exemplo, pode desatar o
ressentimento e esfriar uma amizade.
Sob
este desejo de concessões há uma ânsia de reconhecimento. Se o outro me
agradecer, se apreciar o meu trabalho, se corresponder ao meu favor com um ato
amável, então me sentirei reconhecido. Se isso não acontecer, interpreto como
se eu não tivesse feito nada, como se não existisse para o outro. Essa visão é
um poderoso gerador de problemas, já que as relações nunca são totalmente
simétricas. Há pessoas que desfrutam dando, e outras que transmitem a
impressão, mesmo que incorreta, de que não querem receber nada. Isso provoca
muitos mal-entendidos, somado ao fato de que cada indivíduo tem uma forma diferente
de expressar seu amor e gratidão. Há pessoas que verbalizam de maneira imediata
e direta o que sentem por nós, e outras que nos apreciam igualmente, mas têm
menos facilidade para expressar amor, ou o fazem de forma diferida, quando
encontram o momento e lugar adequados.
Todas as opções
são corretas, sempre que nos liberemos da ânsia por encontrar uma compensação
imediata e equitativa, como em um comércio no qual será preciso receber
imediatamente pela mercadoria entregue.
Conforme afirma o
professor Ichiro Kishimi, “quando uma relação interpessoal se alicerça na
recompensa, há uma sensação interna que diz: ‘Eu lhe dei isto, então você tem
que me devolver aquilo’”, o que é uma fonte inesgotável de conflitos.
Porque, além das
diferentes maneiras de expressar afeto, encontraremos pessoas que simplesmente
não nos entendem ou inclusive não gostam de nós. Fazer um drama por causa disso
transformará nosso dia a dia em um terreno fértil para os desgostos.
A
verdadeira liberdade inclui não nos importarmos com o fato de algumas pessoas
não irem com a nossa cara, porque estatisticamente é impossível agradar a
todos. Deixar de nos preocupar com o que os outros acham de nós, especialmente
os que não nos entendem, é o caminho para a serenidade.
“Quando desejamos
tão intensamente que nos reconheçam, vivemos para satisfazer as expectativas
dos outros”, afirma Ichiro Kishimi, e com isso já deixamos de ser livres.
Não exigir
contrapartidas e se permitir viver à sua maneira, dando-se inclusive o direito
de não agradar, é algo que traz liberdade, paz mental e, afinal, melhores
relações com demais.
Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/04/03/eps/1554313267_031677.html?id_externo_promo=enviar_email
Autor da Imagem: Gorka Olmo
Acesso: 12/04/2019
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