segunda-feira, 6 de outubro de 2025

A SALAMANCA DO JARAU (Adaptado) - João Simões Lopes Neto




Transcrição e adaptação do texto da primeira edição de Lendas do Sul, de João Simões Lopes Neto (1.913)

Obra em domínio público, nos termos da Lei 9.610, de 1.998, que regula os direitos autorais no país.

Em domínio público desde 1.986.

PDF edição Assembleia Legislativa RS:


Contamos histórias para ordenar o mundo, para dar à vida, não raro confusa e difícil, um sentido emocionalmente lógico. Contar e ouvir histórias é uma forma de estabelecer laços afetivos. E afetividade (leia-se generosidade, leia-se hospitalidade) nunca faltou ao gaúcho. Simões Lopes Neto é o primeiro grande escritor da condição gaúcha. Graças à sua obra, o Rio Grande adquiriu uma identidade. Não se trata de isolacionismo, muito menos de separatismo; trata-se, isto sim, de afirmar características culturais em meio à homogeneização cada vez mais generalizada.

Identidade, desde que não seja usada como forma de discriminação ou de antagonismo, é uma coisa muito boa; reforça laços comunitários sem os quais o ser humano sente-se desamparado. Simões Lopes Neto conseguiu, com sua grande literatura, reforçar a identidade gaúcha.

Moacyr Scliar



Lendas do Sul
Populário

João Simões Lopes Neto

Notas do autor


Convém recordar que o primeiro povoamento - branco - do Rio Grande do Sul foi espanhol; seu poder e influência estenderam-se até depois da conquista das Missões; provém disso que as velhas lendas rio-grandenses acham-se tramadas no acervo platino de antanho.

Vem da Ibéria, a topar-se com a ingênua e confusa tradição guaranítica (verbi gratia a lenda da Mboitatá), a mescla cristã-árabe de abusões e misticismo, dos encantamentos e dos milagres; desses elementos, confundidos e abrumados (por exemplo a salamanca do cerro do Jarau), nasceram idealizações novas e típicas, adaptadas ou decorrentes do meio físico e das gentes ainda na crassa infância das concepções.

E, como entre os conquistadores brancos corria intensa e rápida a febre da riqueza - o sonho escaldante do El-Dorado - a fulgir nas areias e nos cascalhos, espadanando das entranhas misteriosas e apojadas do Novo Mundo, a preponderante vivaz das suas ficções é sempre a imantada ânsia - pelo ouro!, forte sobre a dor e a própria morte...

Com a entrada dos mamelucos paulistas, outras e doutra feição vieram do centro e norte do Brasil: o saci, o caapora, a uiara, que esfumaram-se no olvido.

Por último uma única se formou já entre gente lusitana radicada e a incipiente, nativa: a do Negrinho do Pastoreio.

A estrutura de tais lendas perdura; procurei delas dar aqui uma feição expositiva - literária e talvez menos feliz - como expressão da dispersa forma por que a ancianidade subsistente transmite a tradição oral, hoje quase perdida e mui confusa: ainda por aí se avaliará das modificações que o tempo exerce sobre a memória do povo.




Patrício, apresento-te Blau, o vaqueano.

− Eu tenho cruzado o nosso Estado em caprichoso ziguezague. Já senti a ardentia das areias desoladas do litoral; já me recreei nas encantadoras ilhas da lagoa Mirim; fatiguei-me na extensão da coxilha de Santana; molhei as mãos no soberbo Uruguai; tive o estremecimento do medo nas ásperas penedias do Caverá; já colhi malmequeres nas planícies do Saicã, oscilei sobre as águas grandes do Ibicuí; palmilhei os quatro ângulos da derrocada fortaleza de Santa Tecla, pousei em São Gabriel a forja rebrilhante que tantas espadas valorosas temperou, e, arrastado no turbilhão das máquinas possantes, corri pelas paragens magníficas de Tupanciretã, o nome doce, que no lábio ingênuo dos caboclos quer dizer os campos onde repousou a mãe de Deus...

− Saudei a graciosa Santa Maria, fagueira e tranquila na encosta da serra, emergindo do verde-negro da montanha copada o casario, branco, como um fantástico algodoal em explosão de casulos.

− Subi aos extremos do Passo Fundo, deambulei para os cumes da Lagoa Vermelha, retrovim para a merencória Soledade, flor do deserto, alma risonha no silêncio dos ecos do mundo; cortei um formigueiro humano na zona colonial.

− Da digressão longa e demorada, feita em etapas de datas diferentes, estes olhos trazem ainda a impressão vivaz e maravilhosa da grandeza, da uberdade, da hospitalidade.

− Vi a colméia e o curral; vi o pomar e o rebanho, vi a seara e as manufaturas; vi a serra, os rios, a campina e as cidades; e dos rostos e das auroras, de pássaros e de crianças, dos sulcos do arado, das águas e de tudo, estes olhos, pobres olhos condenados à morte, ao desaparecimento, guardarão na retina até o último milésimo da luz a impressão da visão sublimada e consoladora: e o coração, quando faltar ao ritmo, arfará num último esto para que a raça que se está formando aquilate, ame e glorifique os lugares e os homens dos nossos tempos heróicos, pela integração da Pátria comum, agora abençoada na paz.

E, por circunstâncias de caráter pessoal, decorrentes da amizade e da confiança, sucedeu que foi meu constante guia e segundo o benquisto tapejara Blau Nunes, desempenado arcabouço de oitenta e oito anos, todos os dentes, vista aguda e ouvido fino, mantendo o seu aprumo de furriel farroupilha, que foi de Bento Gonçalves, e de marinheiro improvisado, em que deu baixa, ferido, de Tamandaré.

Fazia-me ele a impressão de um perene tarumã verdejante, rijo para o machado e para o raio, e abrigando dentro do tronco cernoso enxames de abelhas, nos galhos ninhos de pombas...

Genuíno tipo — crioulo — rio-grandense (hoje tão modificado), era Blau o guasca sadio, a um tempo leal e ingênuo, impulsivo na alegria e na temeridade, precavido, perspicaz, sóbrio e infatigável; e dotado de uma memória de rara nitidez brilhando através de imaginosa e encantadora loquacidade servida e floreada pelo vivo e pitoresco dialeto gauchesco.

E, do trotar sobre tantíssimos rumos; das pousadas pelas estâncias; dos fogões a que se aqueceu; dos ranchos em que cantou, dos povoados que atravessou; das coisas que ele compreendia e das que eram-lhe vedadas ao singelo entendimento; do pêlo-a-pêlo com os homens, das erosões da morte e das eclosões da vida, entre o Blau — moço, militar — e o Blau — velho, paisano —, ficou estendida uma longa estrada semeada de recordações — casos, dizia -, que de vez em quando o vaqueano recontava, como quem estende, ao sol,para arejar, roupas guardadas ao fundo de uma arca.

Querido digno velho!

Saudoso Blau!

Patrício, escuta-o.

A SALAMANCA DO JARAU

Furna encantada; provém a denominação da cidade de Salamanca, na Espanha, onde existia, diz-se, uma célebre escola de magia, no tempo dos Mouros.

A seguir a tradição local, o célebre caudilho Bento Manuel deveu a sua sorte guerreira, política e de fortuna ao conchavo que ajustou na salamanca do Jarau.

Antes dele, alguns, mas depois, nenhum outro aí obteve mais nada, desde - que o cerro pegou fogo - quando acabou o encantamento.
O Cerro do Jarau

Na Coxilha Geral de Santana, sobre a linha divisória com a República do Uruguai. Fica um pouco ao Norte da cidade de Quaraí, em campos da família Assumpção, de Pelotas. É o ponto culminante (duzentos metros) daquela zona, sendo avistado de muito longe.

No fim da guerra dos Farrapos (mil oitocentos e quarenta e cinco), notaram-se sobre o espigão do Cerro, e parecendo dele sair, grossos rolos de fumaça.

É essa a primeira notícia que há do fenômeno.

Outras combustões registraram-se depois, notadamente por mil novecentos e quatro, em que se disse mesmo que havia expulsão de vapores ígneos.
A Salamanca

Era um dia...,

um dia, um gaúcho pobre, Blau, de nome, guasca de bom porte, mas que só tinha de seu um cavalo gordo, o facão afiado e as estradas reais, estava conchavado de posteiro, ali na entrada do rincão; e nesse dia andava campeando um boi barroso.

E no tranquito andava, olhando; olhando para o fundo das sangas, para o alto das coxilhas, ao comprido das canhadas; talvez deitado estivesse entre as carquejas - a carqueja é sinal de campo bom -, por isso o campeiro às vezes alçava-se nos estribos e, de mão em pala sobre os olhos, firmava mais a vista em torno; mas o boi barroso, crioulo daquela querência, não aparecia; e Blau ia campeando, campeando...

Campeando e cantando:

“Meu boi barroso.

Que eu já contava perdido.

Deixando o rastro na areia

Foi logo reconhecido.


“Montei no cavalo escuro

E trabalhei logo de espora:

E gritei - aperta, gente,

Que o meu boi se vai embora! -


“No cruzar uma picada,

Meu cavalo relinchou.

Dei de rédea para a esquerda,

E o meu boi me atropelou!


“Nos tentos levava um laço

Com vinte e cinco rodilhas,

Pra laçar o boi barroso

Lá no alto das coxilhas!


“Mas no mato carrasquento

Onde o boi ‘stava embretado,

Não quis usar o meu laço,

Pra não vê-lo retalhado.


“E mandei fazer um laço

Da casca do jacaré,

Pra laçar meu boi barroso

No redomão pangaré.


“E mandei fazer um laço

Do couro da jacutinga,

Pra laçar meu boi barroso

Lá no passo da restinga.


“E mandei fazer um laço

Do couro da capivara

Pra laçar meu boi barroso

Nem que fosse à meia cara;


“Pois era um laço de sorte,

Que quebrou do boi a balda”

Quando fui cerrar o laço,

Só peguei de meia espalda”


No tranquito ia, cantando, e pensando na sua pobreza, no atraso das suas cousas.

No atraso das suas cousas, desde o dia em que topou - cara a cara! - com o Caipora num campestre da serra grande, p’ra lá, muito longe, no Botucaraí.

(O Caapora é um espírito com forma de homem, gigante, peludo e muito tristonho, que comanda as varas de porcos-do-mato e anda sempre montado sobre um deles.

Quem topar com o Caapora daí em diante arrastará consigo a infelicidade (caiporismo), para todo o resto da vida; se era bom torna-se mau caçador, pescador; dará topadas no caminho, espinhar-se-á nas roçadas, perderá objetos, andará atrasado, apoquentado...

Os animais domesticados também sentem a sua má influência, e entecarão, terão gogo, sofrerão bicheiras...

No entanto o Caapora protege a caça bravia dos matos.)

A lua ia recém saindo...; e foi à boquinha da noite...

Hora de agouro, pois então!...

Gaúcho valente que era dantes, ainda era valente, agora; mas, quando cruzava o facão com qualquer paisano, o ferro da sua mão ia mermando e o do contrário o lanhava...

Domador destorcido e parador, que por só pabulagem gostava de paletear, ainda era domador, agora; mas, quando gineteava mais folheiro, às vezes, num redepente, era volteado...

De mão feliz para plantar, que lhe não chochava semente nem muda de raiz se perdia, ainda era plantador, agora; mas, quando a semeadura ia apontando da terra, dava a praga em toda, tanta, que benzedura não vencia...; e o arvoredo do seu plantio crescia entecado e mal floria, e quando dava fruta, era mixe e era azeda...

E assim, por esse teor, as cousas corriam-lhe mal; e pensando nelas o gaúcho pobre, Blau, de nome, ia, ao tranquito, campeando, sem topar co’o boi barroso.

De repente, na volta duma reboleira, bem na beirada dum boqueirão, sofrenou o tostado...: ali em frente, quieto e manso, estava um vulto, de face tristonha e mui branca.

Aquele vulto de face branca... aquela face tristonha!...

Já ouvira falar dele, sim, não uma nem duas, mas muitas vezes...; e de homens que o procuravam, de todas as pintas, vindos de longe, num propósito, para endrôminas de encantamentos..., conversas que se falavam baixinho, como num medo; p’ro caso, os que podiam contar não contavam, porque uns, desandavam apatetados e vagavam por aí, sem dizer cousa com cousa, e outros calavam-se muito bem calados, talvez por juramento dado...

Aquele vulto era o santão da salamanca do cerro.

Blau Nunes sofrenou o cavalo.

Correu-lhe um arrepio no corpo, mas era tarde para recuar: um homem é para outro homem!...

E como era ele quem chegava, ele é que tinha de louvar; saudou:

- Laus’ Sus’ Cris’!…

(Forma abreviada e estranha, é certo, porém expressiva, da saudação - Louvado seja Jesus-Cristo! Ouvimo-la inúmeras vezes, em nossa infância.)

- Para sempre, amém! disse o outro, e logo ajuntou:

O boi barroso (é a vaga relembrança dum boi encantado, que aparecia porém nunca era encontrado por muito procurado que fosse; e também denominação duma antiga dança camponesa, cuja música era ornada de versos que eram cantados durante o folguedo) - vai trepando cerro acima, vai trepando... Ele anda cumprindo o seu fadário...

Blau Nunes pasmou do adivinho; mas repostou:

- Vou no rastro!…

- Está enredado…

- Sou tapejara, sei tudo, palmo a palmo, até à boca preta da furna do cerro…

- Tu... tu, paisano, sabes a entrada da salamanca?…

- É lá?... Então, sei, sei! A salamanca do cerro do Jarau!... Desde a minha avó charrua, que ouvi falar!...

- O que contava a tua avó?

- A mãe da minha mãe dizia assim:

- Na terra dos espanhóis, do outro lado do mar, havia uma cidade chamada - Salamanca - onde viveram os mouros, os mouros que eram mestres nas artes de magia; e era numa furna escura que eles guardavam o condão mágico, por causa da luz branca do sol, que diz que desmancha a força da bruxaria…

O condão estava no regaço duma fada velha, que era uma princesa moça, encantada, e bonita, bonita como só ela!...

Num mês de quaresma os mouros escarneceram muito do jejum dos batizados, e logo perderam uma batalha muito pelejada; e vencidos foram obrigados a ajoelharem-se ao pé da Cruz Bendita... e a baterem nos peitos, pedindo perdão...

Então, depois, alguns, fingidos de cristãos, passaram o mar e vieram dar nestas terras sossegadas, procurando riquezas, ouro, prata, pedras finas, gomas cheirosas... riquezas para levantar de novo o seu poder e alçar de novo a Meia-Lua sobre a Estrela de Belém...

E para segurança das suas traças trouxeram escondida a fada velha, que era a sua formosa princesa moça...

E devia ter mesmo muita força o condão, porque nem os navios se afundaram, nem os frades de bordo desconfiaram, nem os próprios santos que vinham, não sentiram...

Nem admira, porque o condão das mouras encantadas sempre aplastou a alma dos frades e não se importa com os santos do altar, porque esses são só imagens...

Assim bateram nas praias da gente pampeana os tais mouros e mais outros espanhóis renegados. E como eles eram, todos, de alma condenada, mal puseram pé em terra, logo na meia-noite da primeira sexta-feira foram visitados pelo mesmo Diabo deles, que neste lado do mundo era chamado de Anhangá-pitã (literalmente, do tupi-guarani: diabo vermelho) e mui respeitado. Então, mouros e renegados disseram ao que vinham; e Anhangá-pitã folgou muito; folgou, porque a gente nativa daquelas campanhas e a destas serras era gente sem cobiça de riquezas, que só comia a caça, o peixe, a fruta e as raízes que Tupã despejava sem conta, para todos, das suas mãos sempre abertas e fazedoras.

Por isso Anhangá-pitã folgou, porque assim minava para o peito dos inocentes as maldades encobertas que aqueles chegados traziam...; e pois, escutando o que eles ambicionavam para vencer a Cruz com a força do Crescente, o maldoso pegou do condão mágico - que navegara em navio bento e entre frades rezadores e santos milagrosos -, esfregou-o no suor do seu corpo e virou-o em pedra transparente; e lançando o bafo queimante do seu peito sobre a fada moura, demudou-a em teiniaguá, (lagartixa) sem cabeça. E por cabeça encravou então no novo corpo da encantada a pedra, aquela, que era o condão, aquele.

E como já era sobre a madrugada, no crescimento da primeira luz do dia, do sol vermelho que ia querendo romper dos confins por sobre o mar, por isso a cabeça de pedra transparente ficou vermelha como brasa e tão brilhante que olhos de gente vivente não podiam parar nela, ficando encandeados, quase cegos!...

E desfez-se a companha até o dia da peleja da nova batalha. E chamaram - salamanca - à furna desse encontro; e o nome ficou p’ras furnas todas, em lembrança da cidade dos mestres mágicos.

Levantou-se um ventarrão de tormenta e Anhangá-pitã, trazendo num bocó a teiniaguá, montou nele, de salto, e veio correndo sobre a correnteza do Uruguai, por léguas e léguas, até as suas nascentes, entre serranias macotas.

Depois, desceu, sempre com ela; em sete noites de sexta-feira ensinou-lhe a vaqueanagem de todas as furnas recamadas de tesouros escondidos... escondidos pelos cauilas, perdidos para os medrosos e achadios de valentes... E a mais desses, muitos outros tesouros que a terra esconde e que só os olhos dos zaoris podem vispar...

Nosso Senhor Jesus Cristo Louvado

Seja Para Sempre!

Amém!

Ele foi preso na quarta-feira, sentenciado na quinta e crucificado na sexta.

E neste mesmo dia de sexta-feira, houve no Céu o julgamento dos carrascos de Nosso Senhor, e logo desceu à Terra o arcanjo São Miguel com a ordem de castigar aos judeus; e o arcanjo passou essa ordem aos anjos que estavam de guarda à Cruz, onde Nosso Senhor estava pregado e morto.

Enquanto São Miguel esteve na Terra deixou sobre ela muito brilho da sua couraça de couro e das suas armas, e muita ventania das suas asas de prata.

A gente já nascida estava condenada, pelo pecado de ter maltratado e morto Jesus Cristo.

Mas as crianças ainda não nascidas não podiam sofrer castigo, porque não tinham culpa alguma.

Porém os anjos da guarda da Cruz não sabiam disso e iam castigá-los da mesma forma, porque o arcanjo São Miguel esquecera-se de avisar sobre as crianças que nascessem naquela dia, que era justamente o da sentença de Deus.

Por isso, a Virgem Maria, que sabia do esquecimento de São Miguel, em memória de Jesus não deixou os anjos da guarda da Cruz castigarem as crianças nascidas nessa Sexta-feira, e então, para diferenciá-las das outras, fez um milagre: e mandou que a ventania das asas de prata do arcanjo ventasse sobre o olhos dos que fossem nascendo nesse dia santo, e ao brilho das armas de ouro, que brilhasse sobre eles.

E desse jeito todos ficaram assinalados e puderam ser diferenciados dos nascidos na véspera, e bem diferençados, porque podiam ver através a água até o seu fundo e através as muralhas e montanhas até o outro lado delas, porque tudo ficou transparente para eles.

E como a Virgem Maria não disse que subisse outra vez ao céu a ventania das asas de prata do arcanjo nem o brilho das suas armas de ouro, esse dons ficaram na terra, e em todas as sextas-feiras santas procuram os olhos das crianças recém-nascidas, que então ficam com o dom de ver no escuro e através qualquer parede de pedra, madeira, ou ferro...

Para esses, nada existe escondido ou enterrado que seus olhos não vejam, como os dos outros homens, de dia claro; e isso porque nasceram em sexta-feira santa: os Zaorís..

Então Anhangá-pitã, cansado, pegou num cochilo pesado, esperando o cardume das desgraças novas, que deviam pegar p’ra sempre...

Só não tomou tenência que a teiniaguá era mulher...

Aqui está tudo o que eu sei, que a minha avó charrua, de tribo guerreira, indômita, acantonada sobre a Coxilha de Haedo e dominando o rio Quaraí até o Uruguai e para Leste até o Rio Negro. As guerras e contínuas correrias que desde 1750 até mais de um século depois afligiram o Rio Grande e o Estado Oriental dizimaram esta tribo (como a outras) hoje, por bem dizer, extinta. Desse quase acabamento e dispersão é que resulta o esquecimento e a deturpação das lendas que entre tais gentes floresceram.

A minha avó charrua contava à minha mãe, e que ela já ouviu, como cousa velha, contar por outros, que, esses, viram!...

E Blau Nunes bateu o chapéu para o alto da cabeça, deu um safanão no cinto, aprumando o facão...; foi parando o gesto e ficou-se olhando, sem mira, para muito longe, para onde a vista não chegava mas onde o sonho acordado que havia nos seus olhos chegava de sobra e ainda passava... ainda passava, porque o sonho não tem lindeiros nem tapumes...

Falou então o vulto de face branca e tristonha; falou em voz macia. E disse assim:

É certo:

não tomou tenência que a teiniaguá era mulher... Ouve, paisano.

No costado da cidade onde eu vivia havia uma lagoa, larga e funda, com uma ilha de palmital, no meio. Havia uma lagoa...

A minha cabeça foi banhada na água benta da pia, mas nela entraram soberbos pensamentos maus... O meu peito foi ungido com os santos óleos, mas nele entrou a doçura que tanto amarga, do pecado...

A minha boca provou do sal piedoso... e nela entrou a frescura que requeima, dos beijos da tentadora...

Mas, é que assim era o fado...; tempo e homem virão para me libertar, quebrando o encantamento que me amarra; duzentos anos hão de findar; eu esperarei no entanto, vivendo na minha tristeza seca, tristeza de arrependido que não chora...

Tudo o que volteia no ar tem seu dia de aquietar-se no chão...

Era eu que cuidava dos altares e ajudava a missa dos santos padres da igreja de Santo Tomé, do lado ao poente do grande rio Uruguai, na Argentina, sobre o Uruguai, entre o Rio Icamaquã e a cidade rio-grandense de São Borja.

“Destruídas as reduções do Guaíra e expulsos pelos mamelucos, estabeleceram-se os missionários primeiro no centro do Rio Grande do Sul entre os rios Pardo e Jacuí.

Mas só por poucos anos.

Mais tarde, outra vez perseguidos e expulsos pelos mesmos, refugiaram-se uns para as hodiernas Sete Missões, os outros para a margem direita do Uruguai, incorporando-se à redução de Santo Tomé, de cujas ruínas se levantou depois a cidade do mesmo nome, quase em frente de São Borja.

Sabia bem acender os círios, feitos com a cera virgem das abelheiras da serra; e bem balançar o turíbulo, fazendo ondear a fumaça cheirosa do rito; e bem tocar a santos, na quina do altar, dois degraus abaixo, à direita do padre; e dizia as palavras do missal; e nos dias de festa sabia repicar o sino; e bater as horas, e dobrar a finados... Eu era o sacristão.

Um dia, na hora do mormaço, todo o povo estava nas sombras, sesteando; nem voz grossa de homem, nem cantoria das moças, nem choro de crianças: tudo sesteava. O sol faiscava nos pedregulhos lustrosos, e a luz parecia que tremia, peneirada no ar parado, sem uma viração.

Foi nessa hora que eu saí da igreja, pela portinha da sacristia, levando no corpo a frescura da sombra benta, levando na roupa o cheiro da fumaça piedosa. E saí sem pensar em nada, nem de bem nem de mal; fui andando, como levado...

Todo o povo sesteava, por isso ninguém viu.

A água da lagoa borbulhava toda, numa fervura, ronquejando tal e qual como uma marmita no borralho. Por certo que lá embaixo, dentro da terra é que estaria o braseiro que levantava aquela fervura que cozinhava os juncos e as traíras e pelava as pernas dos socós e espantava todos os mais bichos barulhentos daquelas águas.

Eu vi, vi o milagre de ferver toda uma lagoa..., ferver, sem fogo que se visse!

A mão direita, pelo costume, andou para fazer o “Pelo Sinal”... e parou, pesada como chumbo; quis rezar um “Credo”, e a lembrança dele recuou; e voltar, correr e mostrar o Santíssimo... e tanger o sino em dobre... e chamar o padre superior, tudo para esconjurar aquela obra do inferno... e nada fiz... nada fiz, sem força na vontade, nada fiz... nada fiz, sem governo no corpo!...

E fui andando, como levado, para de mais perto ver, e não perder de ver o espantoso...

Porém logo outra força acalmou tudo; apenas a água fumegante continuou retorcendo os lodos remexidos, onde boiava toda uma mortandade dos viventes que morrem sem gritar...

Era no fim de um lançante comprido, estrada batida e limpa, de todos os dias as mulheres irem para a lavagem; e quando eu estava na beira da água, vendo o que estava vendo, então rompeu dela um clarão, maior que o da luz a pino do dia, clarão vermelho, como dum sol morrente, e que luzia desde o fundão da lagoa e varava a água barrenta...

E veio crescendo para a barranca, e saiu e tomou terra, e sem medo e sem ameaça veio andando para mim a sempre escapada maravilha..., maravilha que os que nunca viram juravam sempre ser - verdade - e que eu, que estava vendo, ainda jurava ser - mentira! -

Era a teiniaguá, de cabeça de pedra luzente, por sem dúvida; dela já tinha ouvido ao padre superior a história contada dum encontradiço que quase cegou de teimar em agarrá-la.

Entrecerrei os olhos, coando a vista, cautelando o perigo; mas a teiniaguá veio-se me chegando, deixando no chão duro um rastro de água que escorria e logo secava, do seu corpinho verde de lagartixa engraçada e buliçosa...

Lembrei-me - como quem olha dentro duma cerração -, lembrei-me do que corria na voz da gente sobre o entanguimento que traspassa o nosso corpo na hora do encantamento: é como o azeite fino num couro ressequido...

Mas não perdi de todo a retentiva: pois que da água saía, é que na água viveria. Ali perto, entre os capins, vi uma guampa e foi o quanto agarrei dela e enchi-a na lagoa, ainda escaldando, e frenteei a teiniaguá que, da vereda que levava, entreparou-se, tremente, firmando nas patinhas da frente, a cabeça cristalina, como curiosa, faiscando...

De olhos apertados, piscando, para me não atordoar dum golpe de cegueira, assentei no chão a guampa e preparando o bote, num repente, entre susto e coragem, segurei a teiniaguá e meti-a para dentro dela!

Neste passo senti o coração como que martelar-me no peito e a cabeça sonando como um sino de catedral...

Corri para o meu quarto, na casa grande dos santos padres. Entrei pelo cemitério, por detrás da igreja, e desatinado, derrubei cruzes, pisoteei ramos, calquei sepulturas!...

Todo o povo sesteava; por isso ninguém viu.

Fechei a guampa dentro da canastra e fiquei estatelado, pensando.

Pelo falar do padre superior eu bem sabia que quem prendesse a teiniaguá ficava sendo o homem mais rico do mundo; mais rico que o Papa de Roma, e o imperador Carlos Magno e o rei da Trebizonda e os Cavaleiros da Távola...

Nos livros que eu lia estes todos eram os mais ricos que se conhecia.

E eu, agora!...

E não pensei mais dentro da minha cabeça, não; era uma cousa nova e esquisita: eu via, com os olhos, os pensamentos diante deles, como se fossem cousas que se pudesse tantear com as mãos...

E foram se escancarando portas de castelos e palácios, onde eu entrava e saía, subia e descia escadarias largas, chegava às janelas, arredava reposteiros, deitava-me em camas grandes, de pés torneados, esbarrava-me em trastes que nunca tinha visto e servia-me em baixelas estranhas, que eu não sabia para o que prestavam...

E foram-se estendendo e alargando campos sem fim, perdendo o verde no azul das distâncias, e ainda lindando com outras estâncias, que também eram minhas e todas cheias de gadaria, rebanhos e manadas...

E logo cancheava erva nos meus ervais, cerrados e altos como mato virgem...

E atulhava de planta colhida - milho, feijão, mandioca - os meus paióis.

E detrás das minhas camas, em todos os quartos dos meus palácios, amontoava surrões de ouro em pó e pilhotes de barras de prata; dependuradas na galhação de cem cabeças de cervos, tinha bolsas de couro e de veludo, atochadas de diamantes, brancos como gotas de água filtrada em pedra, que os meus escravos - saídos mil, chegados dez -, tinham ido catar nas profundas do sertão, muito para lá duma cachoeira grande, em meia-lua, chamada de Iguaçu, muito p’ra lá doutra cachoeira grande, de sete saltos, chamada de Iguaíra...

Tudo isto eu media e pesava e contava, até cair de cansaço; e mal que respirava um descanso, de novamente, de novamente pegava a contar, a pesar, a medir...

Tudo isto eu podia ter - e tinha, de meu, tinha! -, porque era o dono da teiniaguá, que estava presa dentro da guampa, fechada na canastra forrada de couro cru, tacheada de cobre, dobradiças de bronze!...

Aqui ouvi o sino da torre badalando para a oração da meia-tarde...

Pela primeira vez não fui eu que toquei; seria um dos padres, na minha falta.

Todo o povo sesteava, por isso ninguém viu.

Voltei a mim. Lembrei-me de que o animalzinho precisava de alimento.

Tranquei portas e janelas e saí para buscar um porongo de mel de lechiguana, por ser o mais fino.

E fui; melei; e voltei.

Abri sutil a porta e tornei a fechá-la ficando no escuro.

E quando descerrei a janela e andei para a canastra a tirar a guampa e libertar a teiniaguá para comer o mel, quando ia fazer isso, os pés se me enraizaram, os sentidos do rosto se ariscaram e o coração mermou no compassar o sangue!...

Bonita, linda, bela, na minha frente estava uma moça!...

Que disse:

- Eu sou a princesa moura encantada, trazida de outras terras por sobre um mar que os meus nunca sulcaram... Vim, e Anhangá-pitã transformou-me em teiniaguá de cabeça luminosa, que outros chamam o - carbúnculo - e temem e desejam, porque eu sou a rosa dos tesouros escondidos dentro da casca do mundo...

Muitos têm me procurado com o peito somente cheio de torpeza, e eu lhes hei escapado das mãos ambicioneiras e dos olhos cobiçosos, relampejando desdenhosa o lume vermelho da minha cabeça transparente...

Tu, não; tu não me procuraste ganoso... e eu subi ao teu encontro; e me bem trataste pondo água na guampa e trazendo mel fino para o meu sustento.

Se quiseres, tu, todas as riquezas que eu sei, entrarei de novo na guampa e irás andando e me levarás onde eu te encaminhar, e serás senhor do muito, do mais, do tudo!...

A teiniaguá que sabe dos tesouros, sou eu, mas sou também princesa moura...

Sou jovem... sou formosa... o meu corpo é rijo e não tocado!...

E estava escrito que tu serias o meu par.

Serás o meu par... se a cruz do teu rosário me não esconjurar... Se não, serás ligado ao meu flanco, para, quando quebrado o encantamento, do sangue de nós ambos nascer uma nova gente, guapa e sábia, que nunca mais será vencida, porque terá todas as riquezas que eu sei e as que tu lhe carrearás por via dessas!...

Se a cruz do teu rosário não me esconjurar...

Sobre a cabeça da moura amarelejava nesse instante o crescente dos infiéis...

E foi se adelgaçando no silêncio a cadência embalante da fala induzidora...

A cruz do meu rosário...

Fui passando as contas, apressado e atrevido, começando na primeira... e quando tenteei a última... e que entre as duas os meus dedos, formigando, deram com a Cruz do Salvador... fui levantando o Crucificado... bem em frente da bruxa, em salvatério... na altura do seu coração... na altura da sua garganta... da sua boca... na altura dos...

E aí parou, porque olhos de amor, tão soberanos e cativos, em mil vidas de homem outros se não viram!...

Parou... e a minha alma de cristão foi saindo de mim, como o sumo se aparta do bagaço, como o aroma sai da flor que vai apodrecendo...

Cada noite era meu ninho o regaço da moura; mas, quando batia a alva, ela desaparecia ante a minha face cavada de olheiras...

E crivado de pecados mortais, no adjutório da missa trocava os amém, e todo me estortegava e doía quando o padre lançava a bênção sobre a gente ajoelhada, que rezava para alívio dos seus pobres pecados, que nem pecados eram, comparados com os meus...

Uma noite ela quis misturar o mel do seu sustento com o vinho do santo sacrifício; e eu fui, busquei no altar o copo de ouro consagrado, todo lavorado de palmas e resplendores; e trouxe-o, transbordante, transbordando...

De boca para boca, por lábios incendiados o passamos...

E embebedados caímos, abraçados.

Sol nado, despertei; estava cercado pelos santos padres.

Eu, descomposto; no chão o copo, entornado; sobre o oratório, desdobrada, uma charpa de seda, lavrada de bordaduras exóticas, onde sobressaía uma meia-lua prendendo entre as aspas uma estrela... E acharam na canastra a guampa e no porongo o mel... e até no ar farejaram cheiro mulherengo... Nem tanto era preciso para ser logo jungido em manilhas de ferro.

Afrontei o arrocho da tortura, entre ossos e carnes amachucadas e unhas e cabelos repuxados. Dentro das paredes do segredo não havia gritos nem palavras grossas; os padres remordiam a minha alma, prometendo o inferno eterno e espremiam o meu arquejo decifrando uma confissão...; mas a minha boca não falou..., não falou por senha firme da vontade, que não me palpitava confessar quem era ela e que era linda...

E raivado entre dois amargos desesperos não atinava sair deles: se das riquezas, que eu queria só p’ra mim, se do seu amor, que eu não queria que fosse senão meu, inteiro e todo!

Mas por senha da vontade a boca não falou.

Fui sentenciado a morrer pela morte do garrote, que é infame; condenado fui por ter dado passo errado com bicho imundo, que era bicho e mulher moura, falsa, sedutora e feiticeira.

No adro e no largo da igreja o povo ajoelhado batia nos peitos, clamando a morte do meu corpo e a misericórdia para a minha alma.

O sino começou dobrando a finados. Trouxeram-me em braços, entre alabardas e lanças, e um cortejo moveu-se, compassando a gente d’armas, os santos padres, o carrasco e o povaréu.

Dobrando a finados... dobrando a finados...

Era por mim.

E quando, sem mais esperança nos homens nem no socorro do céu, chorei uma lágrima de adeus à teiniaguá encantada, dentro do meu sofrer floreteou uma réstia de saudade do seu cativo e soberano amor..., como em rocha dura serpenteia às vezes um fio de ouro alastrado e firme, como uma raiz que não quer morrer!...

E aquela saudade parece que saiu para fora do meu peito, subiu aos olhos feita em lágrima e ponteou para algum rumo, ao encontro doutra saudade rastreada sem engano...; parece, porque nesse momento um ventarrão estourou sobre as águas da lagoa e a terra tremeu, sacudida, tanto, de as árvores desprenderem os seus frutos, de os animais estaquearem-se, medrosos, e de os homens caírem de cócoras, aguentando as armas, outros, de bruços, tateando o chão...

E nas correntezas sem corpo, da ventania, redemoinhavam em chusma vozes guaranis, esbravejando se soltasse o padecente...

Para trás do cortejo, desfiando o som entre as poeiras grossas e folhas secas levantadas, continuava o sino dobrando a finados... dobrando a finados!...

Os santos padres, pasmados mas sisudos, rezavam encomendando a minha alma; em roda, boquejando, chinas, piás, índios velhos, soldados de couraça e lança, e o alcaide, vestido de samarra amarela com dois leões vermelhos e a coroa d’el-rei brilhando em canutilho de ouro...

A lágrima do adeus ficou suspensa, como uma cortina que embacia o claro ver: e o palmital da lagoa, o boleado das coxilhas, o recorte da serra, tudo isto, que era grande e sozinho cada um enchia e sobrava para os olhos limpos dum homem, tudo isso eu enxergava junto, empastalhado e pouco, espelhando-se na lágrima suspensa, que se encrespava e adelgaçava, fazendo franjas entre as pestanas balançantes dos meus olhos de condenado sem perdão...

A menos de braça, estava o carrasco atento no garrote!

Mas os olhos do meu pensamento, altanados e livres, esses, esses viam o corpo bonito, lindo, belo, da princesa moura, e recreavam-se na luz cegante da cabeça encantada da teiniaguá, onde reinavam os olhos dela, olhos de amor, tão soberanos e cativos como em mil vidas de homem outros se não viram!...

E por certo por essa força que nos ligava sem ser vista, como naquele dia em que o povo sesteava e também nada viu... por força dessa força, quanto mais os padres e alguazis ordenavam que eu morresse, mais pelo meu livramento forcejava o irado peito da encantada, não sei se de amor perdida pelo homem, se de orgulho perverso do perjuro, se da esperança de um dia ser humana...

O fogo dos borralhos foi-se alteando em labaredas e saindo pela quincha dos ranchos, sem queimá-los...; as crianças de peito soltaram palavras feitas, como gente grande...; e bandadas de urubus apareceram e começaram a contradançar tão baixo, que se lhes ouvia o esfregar das penas contra o vento..., a contradançar, afiados para uma carniça que ainda não havia, porém que havia de haver...

Mas os santos padres alinharam-se na sombra do Santíssimo e borrifaram de água benta o povo amedrontado; e seguiram, como num propósito, encomendando a minha alma; o alcaide levantou o pendão real e o carrasco varejou-me sobre o garrote, infâmia de minha morte, por ter tido amores com mulher moura, falsa, sedutora e feiticeira...

Rolou então, sobre o vento e nele foi a lágrima do adeus, que a saudade destilara.

Deu logo a lagoa um ronco bruto, nunca ouvido, tão dilatado e monstruoso...: e rasgou-se cerce em um sangão medonho, entre largo e fundo... e lá no abismo, na caixa por onde ia já correndo, em borbotão, a água lamenta sujando as barrancas novas, lá, eu vi e todos viram a teiniaguá de cabeça de pedra transparente, fogachando luminosa como nunca, a teiniaguá correr, estrombando os barrocais, até rasgar, romper, arruir a boca do sangão na alta barranca do Uruguai, onde a correnteza em marcha despencou-se, espadanando em espumarada escura, como caudal de chuvas tormentosas!...

A gente levantou p’ro céu um vozear de lástimas e choros e gemidos.

- Que a Missão de Santo Tomé ia perecer... e desabar a igreja... a terra expulsar os mortos do cemitério... que as crianças inocentes iam perder a graça do batismo... e as mães secar o leite... e as roças o plantio, os homens a coragem…

Depois um grande silêncio balançou no ar, como esperando...

Mas um milagre se fez: o Santíssimo, de si próprio, perpassou a altura das cousas, e lá em cima, cortou no ar turvado a Cruz Bendita!... O padre superior tremeu como em terçã e tartamudo e trôpego marchou para o povoado; os acólitos seguiram, e o alcaide, os soldados, o carrasco e a indiada toda desandou, como em procissão, emparvados, num assombro, e sem ter mais do que tremer, porque ventos, fogo, urubus e estrondo se humilharam, fenecendo, dominados!...

Fiquei sozinho, abandonado, e no mesmo lugar e mesmos ferros posto.

Fiquei sozinho, ouvindo com os ouvidos da minha cabeça as ladainhas que iam minguando, em retirada... mas também ouvindo com os ouvidos do pensamento o chamado carinhoso da teiniaguá; os olhos do meu rosto viam a consolação da graça de Maria Puríssima que se alonjava... mas os olhos do pensamento viam a tentação do riso mimoso da teiniaguá; o nariz do meu rosto tomava o faro do incenso que fugia, ardendo e perfumando as santidades... mas o faro do pensamento sorvia a essência das flores do mel fino de que a teiniaguá tanto gostava; a língua da minha boca estava seca, de agonia, dura, de terror, amarga, de doença... mas a língua do pensamento saboreava os beijos da teiniaguá, doces e macios, frescos e sumarentos como polpa de guabiju colhido ao nascer do sol; o tato das minhas mãos tocava manilhas de ferro, que me prendiam por braços e pernas... mas o tato do pensamento roçava sôfrego pelo corpo da encantada, torneado e rijo, que se encolhia em ânsias, arrepiado como um lombo de jaguar no cio, que se estendia planchado como um corpo de cascavel em fúria...

E tanto como o povo ia entrando na cidade, ia eu chegando à barranca do Uruguai; tanto como as gentes, lá, iam acabando as orações para alcançar a clemência divina, ia eu começando o meu fadário, todo dado à teiniaguá, que me enfeitiçou de amor, pelo seu amor de princesa moura, pelo seu amor de mulher, que vale mais que destino de homem!...

Sem peso de dores nos ossos e nas carnes, sem peso de ferros no corpo, sem peso de remorsos na alma, passei o rio para o lado do Nascente. A teiniaguá fechou os tesouros da outra banda e juntos fizemos então caminho para o Cerro do Jarau, que ficou sendo o paiol das riquezas de todas as salamancas dos outros lugares.

Para memória do dia tão espantoso lá ficou o sangão rasgado na baixada da cidade de Santo Tomé, desde o tempo antigo das Missões.

Faz duzentos anos que aqui estou; aprendi sabedorias árabes e tenho tornado contentes alguns raros homens que bem sabem que a alma é um peso entre o mandar e o ser mandado...

Nunca mais dormi; nunca mais nem fome, nem sede, nem dor, nem riso...

Passeio no palácio maravilhoso, dentro deste Cerro do Jarau, ando sem parar e sem cansaço; piso com pés vagarosos, piso torrões de ouro em pó, que se desfazem como terra fofa; o areão dos jardins, que calco, enjoado, é todo feito de pedras verdes e amarelas e escarlates, azuis, rosadas, violetas... e quando a encantada passa, todas incendeiam-se num íris de cores rebrilhantes, como se cada uma fosse uma brasa viva faiscando sem a mais leve cinza..., há poços largos que estão atulhados de doblões e de onças e peças de joias e armaduras, tudo ouro maciço do Peru e do México e das Minas Gerais, tudo cunhado com os troféus dos senhores reis de Portugal e de Castela e Aragão...

E eu olho para tudo, enfarado de ter tanto e de não poder gozar nada entre os homens, como quando era como eles e como eles gemia necessidades e cuspia invejas, tendo horas de bom coração por dias de maldade e sempre aborrecimento do que possuía, ambicionando o que não possuía...

O encantamento que me aprisiona consente que eu acompanhe os homens de alma forte e coração sereno que quiserem contratar a sorte nesta salamanca que eu tornei famosa, do Jarau.

Muitos têm vindo... e têm saído piorados, para lá longe irem morrer do medo aqui pegado, ou andarem pelos povoados assustando as gentes, loucos, ou pelos campos fazendo vida com os bichos brutos...

Poucos toparam a parada... ah!... mas esses que toparam, tiveram o que pediram, que a rosa dos tesouros, a moura encantada não desmente o que eu prometo, nem retoma o que dá!

E todos os que chegam deixam um resgate de si próprios para o nosso livramento um dia...

Mas todos os que vieram são altaneiros e vieram arrastados pela ânsia da cobiça ou dos vícios, ou dos ódios: tu foste o único que veio sem pensar e o único que me saudou como filho de Deus...

Foste o primeiro, até agora; quando terceira saudação de cristão bafejar estas alturas, o encantamento cessará, porque eu estou arrependido... e como Pedro Apóstolo que três vezes negou Cristo foi perdoado, eu estou arrependido e serei perdoado.

Está escrito que a salvação há de vir assim; e por bem de mim, quando cessar o meu cessará também o encantamento da teiniaguá: e quando isso se der a salamanca desaparecerá, e todas as riquezas, todas as pedras finas, todas as peças cunhadas, todos os sortilégios, todos os filtros para amar por força... para matar... para vencer... tudo, tudo, tudo se virará em fumaça que há de sair pelo cabeço roto do cerro, espalhada na rosa dos ventos pela rosa dos tesouros...

Tu me saudaste - o primeiro, tu! - saudaste-me como cristão.

Pois bem:

alma forte e coração sereno!... Quem isso tem, entra na salamanca, toca o condão mágico e escolhe do quanto quer... ,,

Alma forte e coração sereno! A furna escura está lá: entra! Entra! Lá dentro sopra um vento quente que apaga qualquer torcida de candeia... e tramado nele corre outro vento frio, frio... que corta como serrilha de geada.

Não há ninguém lá dentro... mas bem que se escuta voz de gente, vozes que falam... falam, mas não se entende o que dizem, porque são línguas atoradas que falam, são os escravos da princesa moura, os espíritos da teiniaguá... Não há ninguém... não se vê ninguém: mas há mãos que batem, como convidando, no ombro do que entra firme, e que empurram, como ainda ameaçando, o que recua com medo...

Alma forte e coração sereno! Se entrares assim, se te portares lá dentro assim, podes então querer e serás servido!

Mas, governa o pensamento e segura a língua: o pensamento dos homens é que os levanta acima do mundo, e a sua língua é que os amesquinha...

Alma forte, coração sereno!... Vai!

Blau, o guasca, apeou-se; maneou o flete e por de seguro ainda pelo cabresto prendeu-o a um galho de camboim, que verga sem quebrar-se; rodou as esporas para o peito do pé; aprumou de bom jeito o facão; santiguou-se, e seguiu...

Calado fez; calado entrou.

O sacristão levantou-se e o seu corpo desfez-se em sombra na sombra da reboleira.

O silêncio que então se desdobrou era como o voo parado das corujas: metia medo...

Blau Nunes foi andando.

Entrou na boca da toca apenas aí clareada e isso pouco, por causa da enrediça da ramaria que se cruzava nela; p’ra o fundo era tudo escuro...

Andou mais, num corredor dumas braças; mais, ainda; sete corredores nasciam deste.

Blau Nunes foi andando.

Enveredou por um deles; fez voltas e contravoltas, subiu, desceu. Sempre escuro. Sempre silêncio.

Mãos de gente, sem gente que ele visse, batiam-lhe no ombro.

Numa cruzada de carreiros, sentiu ruído de ferros que se chocavam, tinir de muitas espadas, seu conhecido.

Por então o escuro ia já mudado num luzir de vaga-lume.

Grupos de sombras com feitio de homens peleavam de morte; nem pragas nem fuzilar de olhos raivosos, porém furiosos eram os golpes que elas iam talhando umas nas outras, no silêncio.

Blau teve um relance de parada, mas atentou logo no dizer do vulto de face branca e tristonha - Alma forte, coração sereno...

E meteu o peito por entre o espinheiro das espadas, sentiu o corte delas, o fino das pontas, o redondo dos copos... mas passou, sem nem olhar aos lados, num entono, escutando porém choros e gemidos dos peleadores.

Mãos mais leves bateram-lhe no ombro, como carinhosas e satisfeitas.

Outro mais ruído nenhum ouvia ele no ar quieto da furna que o rangido dos cabrestilhos das suas esporas.

Blau Nunes foi andando.

Andando numa luz macia, que não dava sombra. Enredada como os caminhos dum cupim era a furna, dando corredores sem conta, a todos os rumos; e ao desembocar do em que vinha, justo num cotovelo dele, saltaram-lhe aos quatro lados jaguares e pumas, de goela aberta e bafo quente, patas levantadas mostrando as unhas, a cola mosqueando, numa fúria...

E ele meteu o peito e passou, sentindo a cerda dura das feras roçar-lhe o corpo; passou sem pressa nem vagar, escutando os urros que p’ra trás iam ficando e morrendo sem eco...

As mãos, de braços que ele não via, em corpos que não sentia, mas que, certo, o ladeavam, as mãos iam-lhe sempre afagando os ombros, sem bem o empurrar, mas atirando-o para adiante... adiante...

A luz ia na mesma, cor da de vaga-lume, esverdeada e amarela...

Blau Nunes foi andando.

Agora era um lançante e ao fim dele parou num redondel topetado de ossamentas de criaturas. Esqueletos, de pé, encostados uns nos outros, muitos, derreados, como numa preguiça; pelo chão caídas, partes deles, despencadas; caveiras soltas, dentes branqueando, tampos de cabeças, buracos de olhos; pernas e pés em passo de dança, alcatras e costelas meneando-se num vagar compassado, outras em saracoteio...

Aí o seu braço direito quase moveu-se acima, como para fazer o sinal da cruz...; porém - alma forte, coração sereno! - meteu o peito e passou entre as ossadas, sentindo o bafio que elas soltavam das suas juntas bolorentas.

As mãos, aquelas, sempre brandas, afagavam-lhe outra vez os ombros...

Blau Nunes foi andando.

O chão ia alteando-se, numa trepada forte que ele venceu sem aumentar a respiração; e num desvão, a modo dum forno, teve de passar por uma como porta dele, e aí dentro era um jogo de línguas de fogo, vermelho e forte, como atiçado com lenha de nhanduvai; e repuxos de água, saídos das paredes, batiam nele e referviam, chiando, fazendo vapor; um ventarrão rondava ali dentro, enovelando águas e fogos, que era uma temeridade cortar aquele turbilhão.

Outra vez ele meteu o peito e passou, sentindo o mormaço das labaredas.

As mãos do ar mais o palmeavam nos ombros, como querendo dizer - muito bem! -

Blau Nunes foi andando.

Já tinha perdido a conta do tempo e do rumo que trazia; sentia no silêncio como que um peso de arrobas; a claridade mortiça, porém, já se lhe assentara nos olhos e tanto, que viu adiante, em sua frente e caminho, um corpo enroscado, sarapintado e grosso, batendo no chão uns chocalhos, grandes como ovos de téu-téu.

Era a boicininga, guarda desta passagem, que levantava a cabeça fIechosa, lanceando o ar com a língua de cabelos, preta, firmando no vivente a escama dos olhos, luzindo, pretos, como botões de veludo...

Das duas presas recurvas, grandes como as aspas dum tourito de sobreano, pingava uma goma escura, que era a peçonha sobrante por um muito jejum de mortandade, lá fora...

A boicininga - a cascavel amaldiçoada - toda se meneava, chocalhando os guizos, como por aviso, fueirando o ar com a língua, como por prova...

Uma serenada de suor minou na testa do paisano... porém ele meteu o peito e passou, vendo, sem olhar, a boicininga altearse e descair, chata e tremente... e passou, ouvindo o chocalho da que não perdoa, o silbido da que não esquece...

E logo então, que era este o quinto passo de valentia que vencera sem temer - de alma forte e coração sereno - logo então as mãos voantes anediaram-lhe o cabelo, palmearam-lhe mais chegadas os ombros.

Blau Nunes foi andando.

Desembocou num campestre, de gramado fofo, que tinha um cheiro doce que ele não conhecia; em toda a volta árvores enfloradas e estadeando frutos; passarinhada de penas vivas e cantoria alegre; veadinhos mansos; capororocas e outro muito bicharedo, que recreava os olhos; e listando a meio o campestre, brotado duma roca coberta de samambaias, um olho-d’água, que saía em toalha e logo corria em riachinho, pipocando o quanto-quanto sobre areão solto, palhetado de malacachetas brancas, como uma farinha de prata...

E logo uma ronda de moças - cada qual que mais cativa! - uma ronda alegre saiu dentre o arvoredo, a cercá-lo, a seduzi-lo, a ele Blau, gaúcho pobre, que só mulheres de anáguas resvalonas conhecia...

Vestiam-se umas em frouxo trançado de flores, outras de fios de contas, outras na própria cabeleira solta...; estas chegavam-lhe à boca caramujos estrambóticos, cheios de bebida recendente e fumegando entre vidros frios, como de geada; dançavam outras num requebro marcado como por música... outras lá, acenavam-lhe para a lindeza dos seus corpos, atirando no chão esteiras macias, num convite aberto e ardiloso...

Porém ele meteu o peito e passou, com as fontes golpeando, por motivo do ar malicioso que o seu bofe respirava...

Blau Nunes foi andando.

Entrou no arvoredo e foi logo rodeado por uma tropa de anões, cambaios e cabeçudos, cada qual melhor para galhofa, e todos em piruetas e mesuras, fandangueiros e volantins, pulando como aranhões, armando lutas, fazendo caretas impossíveis para rostos de gente...

Porém o paisano meteu o peito neles e passou, sem nem sequer um ar de riso no canto dos olhos...

E com este, que era o último, contou os sete passos das provas.

E logo então, aqui, surdiu-lhe em frente o vulto de face tristonha e branca, que, certo, lhe andara nas pisadas, de companheiro - sem corpo - e sem nunca lhe valer nos apuros do caminho; e tomou-lhe a mão.

E Blau Nunes foi seguindo.

Por detrás de um cortinado como de escamas de peixe-dourado, havia um socavão reluzente. E sentada numa banqueta transparente, fogueando cores como as do arco-íris, estava uma velha, muito velha, carquincha e curvada, e como tremendo de caduca.

E segurava nas mãos uma varinha branca, que ela revirava e tangia, e atava em nós que se desfaziam, laçadas que se deslaçavam e torcidas que se destorciam, ficando sempre linheira.

- Cunhã, disse o vulto, o paisano quer!

-Tu, vieste; tu, chegaste; pede, tu, pois! respondeu a velha.

E moveu e ergueu o corpo magro, dando estalos nas juntas e levantou a varinha para o ar: logo o condão coriscou por sobre ela uma chuva de raios, mais que como num temporal desfeito das nuvens carregadas cairia. E disse:

- Por sete provas que passaste, sete escolhas dar-te-ei... Paisano, escolhe! Para ganhar a parada em qualquer jogo;... de naipes, que as mãos ajeitam, de dados, que a sorte revira, de cavalos, que se cotejam, do osso, que se sopesa, da rifa... queres?

- Não! disse Blau, e todo o seu parecer foi se mudando num semblante como de sonâmbulo, que vê o que os outros não vêem... como os gatos, que acompanham com os olhos cousas que passam no ar e ninguém vê…

- Para tocar a viola e cantar... amarrando nas cordas dela o coração das mulheres que te escutarem..., e que hão de sonhar contigo, e ao teu chamado irão - obedientes, como aves varadas pelo olhar das cobras -, deitar-se entregues ao dispor dos teus beijos, ao apertar dos teus braços, ao resfolegar dos teus desejos... queres?

- Não! respondeu a boca, por mandado só do ouvido…

- Para conhecer as ervas, as raízes, os sucos das plantas e assim poderes curar os males dos que tu estimares ou desfazer a saúde dos que aborreceres;... e saber simpatias fortes para dar sonhos ou loucura, para tirar a fome, relaxar o sangue, e gretar a pele e espumar os ossos,... ou para ligar apartados, achar cousas perdidas, descobrir invejas...; queres?

- Não!

- Para não errar golpe - de tiro, lança ou faca - em teu inimigo, mesmo no escuro ou na distância, parado ou correndo, destro ou prevenido, mais forte que tu ou astucioso...; queres?

- Não!

- Para seres mandão no teu distrito e que todos te obedeçam sem resmungos;... seres língua com os estrangeiros e que todos te entendam;... queres?

- Não!

- Para seres ricaço de campo e gado e manadas de todo o pelo;... queres?

- Não!

- Para fazeres pinturas em tela, versos harmoniosos, novelas de sofrimentos, autos de chocarrice, músicas de consolar, lavores no ouro, figuras no mármor’... queres?

- Não!

- Pois que em sete poderes te não fartas, nada te darei, porque do que te foi prometido nada quiseste. Vai-te!

Blau nem se moveu; e, carpindo dentro em si a própria rudeza, pensou no que queria dizer e não podia e que era assim:

- Teiniaguá encantada! Eu te queria a ti, porque tu és tudo!... És tudo o que eu não sei o que é, porém que atino que existe fora de mim, em volta de mim, superior a mim... Eu te queria a ti, teiniaguá encantada!…

Mas uma escuridão fechada, como nem noite a mais escura dá parelha, caiu sobre o silêncio que se fez, e uma força torceu o paisano.

Blau Nunes arrastou um passo e outro e terceiro; e desandou caminho; e quanto ele andara em voltas e contravoltas, em subidas e descidas, tanto em direitura foi bater na boca da furna por onde havia entrado, sem engano.

E viu atado e quieto o seu cavalo; em roda as mesmas restingas, ao longe os mesmos descampados mosqueados de pontas de gado, a um lado o encordoado das coxilhas, a outro, numa aberta entre matos um claro prateado, que era água do arroio.

Memorou o que tinha acabado de ver e de ouvir e de responder; dormido, não tinha, nem susto lhe tirara o entendimento.

E pensou que tendo tido oferta de muito não lograra nada por querer tudo;... e num arranco de raiva cega decidiu outra investida.

Voltou-se para entrar de novo... mas bateu co’o peito na parede dura do cerro. Terra maciça, mato cerrado, capins, limos... e nenhuma fresta, nem brecha nem buraco, nem furna, caverna, toca por onde escorresse um corpinho de guri, quanto mais passasse porte de homem!...

Desanimado e penaroso, compôs o cavalo e montou; e ao dar de rédea apareceu-lhe pelo lado de laçar o sacristão, o vulto de face branca e tristonha, que tristemente estendeu-lhe a mão, dizendo:

- Nada quiseste; tiveste a alma forte e o coração sereno, tiveste, mas não soubeste governar o pensamento nem segurar a língua!…

Não te direi se bem fizeste ou mal.

Mas como és pobre e isso te aflige, aceita este meu presente, que te dou.

É uma onça de ouro que está furada pelo condão mágico; ela te dará tantas outras quantas quiseres, mas sempre de uma em uma e nunca mais que uma por vez; guarda-a em lembrança de mim!

E o corpo do sacristão encantado desfez-se em sombra na sombra da reboleira...

Blau Nunes, meteu na guaiaca a onça furada, e deu de rédea.

O sol tinha cambado e o Cerro do Jarau já fazia sombra comprida sobre os bamburrais e restingas que lhe formavam assento.

Na troteada para o posto em que morava, um ranchote de beira no chão tendo por porta um couro -, Blau rumou para uma venda grande que sortia aquele vizindário, mesmo a troco de courama, cerda ou algum tambeiro; e como vinha de garganta seca e a cabeça atordoada mandou botar uma bebida.

Bebeu; e puxou da guaiaca a onça e pagou; era tão mínima a despesa e o câmbio que veio, tanto, que pasmou, olhando para ele, de tão desacostumado que andava de ver dinheiro tanto, que chamasse seu...

E de dedos engatanhados socou-o todo para dentro da guaiaca, sentindo-lhe o peso e o sonido afogado.

Calado, montou de novo, retirando-se.

No caminho foi pensando nas todas as cousas que carecia e que iria comprar. Entre aperos e armas e roupas, um lenço grande e umas botas, outro cavalo, umas esporas e embelecos que pretendia, andava tudo por uma mão cheia de cruzados; e a si próprio perguntava se aquela onça encantada, dada para indez, teria mesmo o condão de entropilhar outras muitas, tantas como as que precisava, e mais ainda, outras e outras que o seu desejo fosse despencando?!...

Chegou ao posto, e como homem avisado, não falou do que fizera durante o dia, apenas do boi barroso, que campeou e não achou; e no seguinte, logo cedo saiu a empeçar a prova do prometido.

Naquele mesmo negociante ajustou umas roupas tafulonas; e mais uma adaga de cabo e bainha com anéis de prata; e mais as esporas e um rebenque de argolão.

Toda a compra passava de três onças.

E Blau, as fontes latejando, a boca cerrada, num aperto que lhe fazia doer o carrinho, piscando os olhos, a respiração atropelada, todo ele numa desconfiança, Blau, por debaixo do seu balandrau remendado começou a gargantear a guaiaca... e caiulhe na mão uma onça... e outra... e outra... e outra!... As quatro, que por agora eram tão de jeito!...

Mas não caíram duas e duas ou três e uma, ou as quatro, juntas, porém sim de uma a uma, as quatro, de cada vez só uma...

Voltou ao rancho com a maleta atochada, mas, como homem avisado, não falou do acontecido.

No outro dia seguiu a outro rumo, para outro negociante mais forte e de prateleiras mais variadas. Já levava alinhavado o sortimento que ia fazer, e muito em ordem foi encomendando o aparte das cousas, tendo cuidado em não querer nada de cortar, só peças inteiras, que era para, no caso de falhar a onça, recuar da compra, fazendo um feio, é verdade, mas não sendo obrigado a pagar estrago algum. Notou a conta, que andava por quinze onças, uns cruzados pra menos.

E outra vez, por debaixo do seu balandrau remendado, começou a gargantear a guaiaca, e logo lhe foi caindo na mão uma onça... e segunda... outra... e quarta, mais outra, e sexta... e assim de uma em uma, as quinze necessárias!

O negociante ia recebendo e alinhando sobre o balcão as moedas conforme vinham elas minando da mão do pagador, e quando estavam todas disse, entre risonho e desconfiado:

- Cuê-pucha!... cada onça das suas parece que é um pinhão, que é preciso descascar à unha!…

No terceiro dia passou na estrada uma cavalhada; Blau fez parar a tropa e ajustou uma quadrilha, apartada por ele, a sua vontade, e como facilitou o preço, fechou-se o trato.

Ele e o capataz, sós no meio da cavalhada, iam fazendo mover-se os animais; no apinhado de todas Blau marcava a cabeça que mais lhe agradava pelo focinho, pelos olhos, pelas orelhas; com um sovéu fino, de armada pequena, reboleava por dentro e ia, certo, laçar o bagual escolhido: se ainda, sem ovas e bons cascos, aprazia-lhe, tirava-o então, como seu, para o potreiro do piquete.

Olho de campeiro, não errou vez alguma a escolha, e trinta cavalos, a flor, foram apartados, custando quarenta e cinco onças.

E enquanto a tropa verdeava e bebia, os tratistas foram para a sombra duma figueira que havia na beira da estrada.

Blau por debaixo do seu balandrau remendado, ainda desconfiando, começou a gargantear a guaiaca... e foi logo aparando, onça por onça, uma, três, seis, dez, dezoito, vinte e cinco, quarenta, quarenta e cinco!...

O vendedor, estranhando aquela novidade e demora, não se conteve e disse:

- Amigo! As suas onças parecem talas de jerivá, que só cai uma de cada vez!…

Depois desses três dias de prova, Blau acreditou na onça encantada.

Arrendou um campo e comprou o gado, p’ra mais de dez mil cabeças, aquerenciado.

O negócio era muito acima de três mil onças, a pagar no recebimento.

Aí o coitado perdeu quase o dia inteiro a gargantear a guaiaca e a aparar onça por onça, uma atrás da outra, sempre uma a uma!...

Cansou-lhe o braço; cansou-lhe o corpo; não falhava golpe, mas tinha de ser como martelada, que não se dá duas ao mesmo tempo...

O vendedor, à espera que Blau completasse a soma, saiu, mateou, sesteou; e quando, sobre a tarde voltou à ramada, lá estava ele ainda aparando onça trás onça...

Ao escurecer estava completo o ajuste.

Começou a correr a fama da sua fortuna. E todos espantavam-se, por ele, gaúcho despilchado de ontem, pobre, que só tinha de seu as chilcas, afrontar os abonados, assim, do pé para a mão... E também era falado o seu esquisito modo, de pagar - que pagava sempre, valha a verdade - só de onça por onça, uma depois de outra e nunca, nunca ao menos duas, acolheradas!...

Aparecia gente a propor-lhe negócio, ainda de pouco preço, só para ver como aquilo era; e para todos era o mesmo mistério...

Mistério para o próprio Blau... muito rico... muito rico... mas de onça em onça, como tala de jerivá, que só cai uma de cada vez... como pinhão da serra, que só se descasca de um a um!...

Mistério para Blau, muito rico... muito rico... Mas todo o dinheiro que ele recebia, que entrava das vendas feitas, todo dinheiro que lhe pagavam a ele, todo desaparecia, guardado na arca de ferro, desaparecia como desfeito em ar...

Muito rico... muito rico das onças que precisasse, e nunca faltaram para gastar no que lhe parecesse: bastava-lhe gargantear a guaiaca, e elas começavam a pingar;... mas nem uma das que recebia lhe ficava, todas evaporavam-se, como água em tijolo quente...

Então começou a correr um boquejo de ouvido para ouvido... e era que ele tinha parte com o diabo, e que o dinheiro dele era maldito porque todos com quem tratava e recebiam das suas onças, todos entravam, ao depois, a fazer maus negócios e todos perdiam em prejuízos exatamente a quantia igual a de suas mãos recebida.

Ele comprava e pagava à vista, é certo; o vendedor contava e recebia, é certo... mas o negócio empreendido com esse valor era de prejuízo garantido.

Ele vendia e recebia, é certo; mas o valor recebido, que ele guardava e rondava, sumia-se como um vento, e não era roubado nem perdido; era sumido, por si mesmo...

O boquejar foi alastrando, e já diziam que aquilo, por certo, era mandinga arrumada na salamanca do Jarau, onde ele foi visto mais de uma feita... e que lá é que se jogava a alma contra a sorte...

E os mais vivarachos já faziam suas madrugadas sobre o Jarau; outros, mais sorros, p’ra lá tocavam-se ao escurecer; outros, atrevidaços, iam à meia-noite; outros ainda ao primeiro cantar dos galos...

E como nesse carreiro de precatados cada um fazia por ir de mais escondido, sucedeu que como sombras se pechavam entre as sombras das reboleiras, sem atinar co’a salamanca, ou sem topete para, na escuridão, quebrar aquele silêncio, chamando o santão, num grito alto...

No entanto Blau começou a ser tratado de longe, como um chimarrão rabioso...

Já não tinha com quem pautear; churrasqueava solito, e solito mateava, rodeado dos cachorros, que uivavam, às vezes um, às vezes todos...

A peonada foi saindo e conchavando-se noutras partes; os negociantes nada compravam-lhe e negaceavam para vender-lhe; os andantes cortavam campo para não pararem nos seus galpões...

Blau deu em cismar, e cisma foi que resolveu acabar com aquele cerco de isolamento, que o ralava e esmorecia...

Montou a cavalo e foi ao cerro. Na trepada sentiu aos dois lados barulho nos bamburrais e nas restingas, mas pensou que seria alguma ponta de gado chucro que disparava, e não fez caso; foi trepando. Mas não era, não, gado chucro espantado, nem guaraxaim corrido, nem tatu vadio; era gente, gente que se escondia uns dos outros e dele...

Assim chegou à reboleira do mato, tão sua conhecida e recordada, e como chegou, deu de cara com um vulto de face branca e tristonha, o sacristão encantado, o santão.

Ainda desta vez, como era ele que chegava, a ele competia louvar; saudou, como da outra:

- Laus’ Sus’ Cris’!…

- Para sempre, amém! respondeu o vulto.

Então Blau, de a cavalo, atirou-lhe aos pés a onça de ouro, dizendo:

- Devolvo! Prefiro a minha pobreza dantes à riqueza desta onça, que não se acaba, é verdade, mas que parece amaldiçoada, porque nunca tem parelha e separa o dono dos outros donos de onças!... Adeus! Fica-te com Deus, sacristão!

- Seja Deus louvado! disse o vulto e caiu de joelhos, de mãos postas, como numa reza. Pela terceira vez falaste no Nome Santo, tu, paisano, e com ele quebraste o encantamento!... Graças! Graças! Graças!…

E neste mesmo instante, que era o da terceira vez que Blau saudava no Nome Santo, neste mesmo momento ouviu-se um imenso estouro, que retumbou naquelas vinte léguas em redor; o Cerro do Jarau tremeu de alto a baixo, até às suas raízes, nas profundas da terra, e logo, em cima, no chapéu do espigão, apareceu, cresceu, subiu, aprumou-se, brilhou, apagou-se, uma língua de fogo, alta como um pinheiro, apagou-se, e começou a sair fumaça negra, em rolos grandes, que o vento ia tocando para longe, por cima do encordoado das coxilhas, sem rumo feito, porque a fumaceira inchava e desparramava-se no ar, dando voltas e contravoltas, torcendo-se, enroscando-se, em altos e baixos, num desgoverno, como uma tropa de gado alçado, que espirra e se desmancha como água passada em regador...

Era a queima dos tesouros da salamanca, como dissera o sacristão.

Sobre as caídas do Cerro levantou-se um vozerio e tropel: eram os maulas que andavam rastreando a furna encantada e que agora fugiam, desguaritados, como filhotes de perdiz...

Para os olhos de Blau o cerro ficou como de vidro transparente, e então viu ele o que lá dentro se passava: os brigões, os jaguares, os esqueletos, os anões, as lindas moças, a boicininga, tudo, torcido e enovelado, amontoado, revolvido, corcoveava dentro das labaredas vermelhas que subiam e apagavam-se dentro dos corredores, cada vez mais carregados de fumaça... e urros, gritos, tinidos, silbidos, gemidos, tudo se confundia no tronar da voz maior que estrondeava no cabeço empenachado do cerro.

Ainda uma vez a velha carquincha transformou-se na teiniaguá... e a teiniaguá na princesa moura... a moura numa tapuia formosa;... e logo o vulto de face branca e tristonha tornou à figura do sacristão de S. Tomé, o sacristão, por sua vez, num guasca desempenado...

E assim, quebrado o encantamento que suspendia fora da vida das outras aquelas criaturas vindas do tempo antigo e de lugar distante, aquele par, juntado e tangido pelo Destino, que é o senhor de todos nós, aquele par novo, de mãos dadas como namorados, deu costas ao seu desterro, e foi descendo a pendente do coxilhão, até a várzea limpa, plana e verde, serena e amornada de sol claro, toda bordada de boninas amarelas, de bibis roxas, de malmequeres brancos, como uma cancha convidante para uma cruzada de ventura, em viagem de alegria, a caminho do repouso!...

Blau Nunes também não quis mais ver; traçou sobre o seu peito uma cruz larga, de defesa, na testa do seu cavalo outra, e deu de rédea e despacito foi baixando a encosta do cerro, com o coração aliviado e retinindo como se dentro dele cantasse o passarinho verde...

E agora, estava certo de que era pobre como dantes, porém que comeria em paz o seu churrasco...; e em paz o seu chimarrão, em paz a sua sesta, em paz a sua vida!…

Assim acabou a salamanca do Cerro do Jarau, que aí durou duzentos anos, que tantos se contam desde o tempo das Sete Missões, em que estas cousas principiaram.

Anhangá-pitã, também, desde aí, não foi mais visto. Dizem que, desgostoso, anda escondido, por não haver tomado bem tenência que a teiniaguá era mulher...


Imagem

Ilustração de Flávio Colin, extraído da adaptação em quadrinhos do conto Trezentas Onças de Simões Lopes Neto. Contos Gauchescos e Lendas do Sul. Porto Alegre: L&PM, 1998.

Texto base

https://drive.google.com/file/d/117EXL86kQ7HdoJEdjr4ubD_Wec1ck7u9/view?usp=sharing

S583L Lopes Neto, J. Simões Lendas do Sul: populário / João Simões Lopes Neto; organização: Divisão de Biblioteca. Porto Alegre: Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, 2013. 92 p.

1. Literatura - Rio Grande do Sul. 2. Contos. I. Título. CDU 869.0(816.5)-34




Texto Blau e Scliar

L 864

Lopes Neto, João Simões

Obra completa / J. Simões Lopes Neto: organizado Paulo Bentancur: ilustrado Enio Squeff – Porto Alegre: Sulina, 2003.

1087 p.

ISBN: 85-205-0349-7

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Bye, Bye, Brasil (Revista MANCHETE Ed. 1893/1988)

As últimas viagens de trem

Dos pampas gaúchos ao Pantanal de Mato Grosso, passando pelas alturas de Minas Gerais, eles ainda circulam sua imponência. Mas estão acabando

Reportagem de Henrique Koifman

Fotos de Armando França

São 22h25min. Na plataforma da estação Diretor Pestana, em Porto Alegre, o movimento é caótico. Carregadas de malas e agasalhos, dezenas de pessoas embarcam na grande composição azul e branca. Nas portas dos carros, os agentes de trem, impecavelmente uniformizados, conferem as passagens e indicam os lugares dos passageiros. Exatamente às 22h30min, Agenor de Oliveira Fernandes, 58 anos, chefe do trem, leva seu apito à boca e sinaliza com uma lanterna em direção à locomotiva. Ouve-se uma grave buzina. Já com os pés nos degraus do carro bagageiro, seu Agenor torna a sinalizar. Após mais uma grave e ressonante resposta, lentamente, o trem começa a se deslocar. Muitos acenam da plataforma. Ganhando velocidade, a composição mergulha na noite. É uma das últimas representantes de uma era – a era do trem de passageiros no Brasil. MANCHETE percorreu mais de 6.000 km de trilhos, neste e em outros 11 trens da RFFSA, em regiões tão diferentes como a Serra do Mar e o Pantanal. Com exceção das linhas turísticas, a tendência é de que estas viagens, em mais alguns anos, deixem de existir – vitimadas por seus altos custos operacionais, crise econômica e saturação da malha ferroviária, preferencialmente destinada à carga. Enquanto isso não acontece, tome seu lugar e embarque com a gente.

NO PARANÁ, UMA VIAGEM ECOLÓGICA AO PARAÍSO DA MATA ATLÂNTICA

Inaugurada em 1885, a ligação ferroviária de Curitiba a Paranaguá impressiona por sua beleza. O trabalho da comissária Sueli é servir lanche aos turistas. Seu colega, Gilberto Leal, maquinista, prefere a litorina aos trens de carga. “É bem mais confortável.”

NO SUL, TRENS CONVENCIONAIS E TURÍSTICOS CORTAM O PAMPA E A SERRA

Poucos minutos após deixar Diretor Pestana, o trem prefixo RPA-01 para na pequena estação de Canoas, Rio Grande do Sul. Esta será a rotina de toda a viagem até Santa Maria. Paradas de menos de um minuto em dezenas de localidades. Nomes como Fanfa, Pederneiras, Estiva e Arroio do Só aparecerão pintados em grandes placas amarelas, onde também figuram a posição quilométrica e a altitude da estação. Nesses lugares, com a temperatura oscilando entre 12º e 15º em maio, sonolentos e agasalhados em seus ponchos, os gaúchos sobem no trem para, agrupados dentro dos carros, tomar seu chimarrão fumegante e conversar. Durante o dia, as famílias se reúnem, tomam o mate e comem charque com farinha. Os de mais posses dirigem-se ao carro-restaurante, onde é servido o prato comercial – bife a cavalo, batata frita, feijão, arroz e salada.

Ao amanhecer, o trem já está em Santa Maria, ponto de partida para as linhas de Livramento (fronteira com o Uruguai) e Uruguaiana (fronteira com a Argentina), cada uma delas servida três vezes por semana, alternadamente, por estes noturnos. Em ambas as direções, a paisagem se assemelha bastante. As imensas pradarias do pampa gaúcho, povoadas por rebanhos de gado e de ovelhas, emas, gaviões, chupins – pequenos pássaros pretos que, em bando, pontilham as plantações – e até mesmo lebres são a constante. De vez em quando, bosques replantados de eucaliptos quebram a continuidade do relevo.

Andando de carro em carro para conferir os bilhetes, Francisco Roli Cunha, 52 anos, há 32 trabalhando nos trens do Sul – que quando ele começou ainda pertenciam à extinta VFRGS (Viação Férrea Rio-Grandense), e seus dois agentes, Walternai Pereira e José Dornelles são bem rigorosos. “Sempre aparece alguém querendo viajar de graça”, diz Seu Francisco. “Já apareceu até foragido armado, escondido pela composição. De um modo geral, nós conseguimos resolver tudo na base da conversa.”

Quando alguém é descoberto sem o bilhete, tem duas opções: pagar o valor da passagem ao agente, acrescido de uma multa de 25% do valor normal, ou descer na parada mais próxima, e resolver o caso com o chefe da estação e com a polícia. “Por via das dúvidas, o chefe de trem sempre carrega um revólver” – diz o agente, apontando para um 38 na cintura. “Afinal, nunca se sabe”.

Já em Bento Gonçalves, capital italiana do vinho gaúcho, todos os domingos animados grupos de turistas embarcam em uma composição ainda mais tradicional. Uma locomotiva Mikado, fabricada nos EUA em 1941, puxa, com a força de seu vapor, quatro carros de madeira, descendo a serra até Jaboticaba. São 48 km, percorridos em 2h45min, atravessando grandes vinhas, túneis e pontes. Um grupo folclórico anima o passeio com danças e músicas típicas.

Em Santa Catarina, na cidade de Tubarão, outra Mikado 1941 faz, quinzenalmente, uma viagem de ida e volta até Imbituba, a 56 km de distância. Lá a paisagem é completamente diversa. Grandes dunas de areia e uma vegetação tipicamente litorânea margeiam a linha. Por ali é escoado todo o carvão extraído de Criciúma e que, além de ser exportado, serve para alimentar uma grande usina termoelétrica. Foi justamente esta fartura de carvão que fez com que a RFFSA mantivesse em Tubarão 24 máquinas a vapor – das quais 12 ainda estão em serviço. Mostrando que a idade não diminui sua eficiência, a velha locomotiva chega a atingir durante o percurso pouco mais de 60 km/h.

Bem mais moderna é a litorina que, três vezes por semana, liga Curitiba à cidade de Morretes e ao Porto de Paranaguá, cortando a maior reserva de mata atlântica do país, em plena Serra do Mar. São 2h50min de viagem, pontuados por exclamações maravilhadas de turistas de todas as partes do mundo. Apesar desta verdadeira babel, Marlene Perkowski, 23 anos, comissária, não tem maiores dificuldades para se entender com por seus passageiros. Ela avisa, por um sistema de som, quando os pontos mais bonitos se aproximam. Serve biscoitos e guaraná. Esclarece, quando possível, as dúvidas de todos. Orgulhosa ela diz que, apesar de estar há dois anos no trecho, ainda se encanta com cada viagem. “Esta é a linha mais bonita do Brasil.”

O TREM CORTA O PAMPA E CRUZA PONTES ENTRE VERDES LINDOS E ESPANTANDO BICHOS

Este trem sai à noite de Porto Alegre e chega de dia a Uruguaiana, entre muitos bois e bandos de emas, que fogem espantadas. No caminho, várias pontes típicas como esta (embaixo) são cruzadas. E, enquanto a noite corre, a plebe rude dorme – guardando a garganta para o amanhecer, hora do fumegante chimarrão. A viagem é pontilhada de paradas em várias estações.

EM MINAS, OS TRENS CONTAM A HISTÓRIA. MAS NEM TUDO É MUSEU OU TURISMO

Poucos lugares do mundo estão tão intimamente ligados à ferrovia como Minas Gerais. São raros os recantos do Estado que não são ou não foram, em alguma época, servidos pelo trem de ferro. Esta intimidade é patente no uso da própria palavra tem que, em Minas, é o substantivo mais polivalente do vocabulário – podendo designar qualquer objeto ou, até mesmo, fato.

Em São João del Rey, funciona há sete anos o Museu Ferroviário. Entre grandes pátios, oficina, uma rotunda – tipo de garagem circular para locomotivas – e uma grande estação, mais de uma dezena de marias-fumaças sobrevive ao tempo. Destas, cinco ainda se revezam no percurso turístico de 12 km, entre a cidade e Tiradentes. Todos os finais de semana, Mário Antônio Braga, 38 anos, regula e azeita todos os mancais e peças móveis das velhas Baldwins da década de 10. Ele é um dos quatro mecânicos do museu.

Não existe nenhum curso de formação para este tipo de máquina. Como todos, aprendi tudo por curiosidade. Hoje, podemos consertar qualquer defeito e, até mesmo, fazer qualquer peça nas oficinas.” A linha São João – Tiradentes é a única de bitola 0,76 m ainda funcionando no país. Inaugurada em 1881, a antiga EFOM – Estrada de Ferro Oeste de Minas – chegou a ter 700 km de linhas nesse padrão. Hoje, as pequenas composições circulam a 25 km/h, transportando grandes grupos de turistas. “No verão, os trens passam a ser diários”, conta José Francisco de Freitas, 53 anos, agente de estação há 34, que acumula as funções de chefe de estação, vendedor de bilhetes, zelador e todas as outras na estação de Tiradentes. “Ainda hoje, a cada viagem, tenho que me comunicar com São João por telégrafo, conforme o regulamento.”

Esta tradição é também mantida em Ouro Preto, de onde, aos domingos, parte um trem turístico para Mariana. Neste trecho, o agente de trem José Figueiredo, 67 anos, trabalha desde 1943 e não tem queixas: “O nível dos passageiros é muito bom, é raro eu ter problemas com eles.”

Saindo de Belo Horizonte todos os sábados, à 19 h, uma grande e concorrida composição segue até Montes Claros e, em seguida, Monte Azul, na divisa com a Bahia, num total de 770 km. Este é um dos últimos grandes trens de passageiros de Minas e corta todo o nordeste do estado, justamente a mais pobre, onde começa o polígono das secas. O preço da passagem – que custa menos da metade da rodoviária – e a possibilidade de transportar até mesmo parte de pequenas colheitas atraem centenas de passageiros. De Montes Claros a Monte Azul, a composição se transforma em mista, levado vários vagões com os frutos da agricultura local. Ironicamente, se algum passageiro quiser seguir de Monte Azul para Iaçu, a 300 km de Salvador, para onde semanalmente se dirige uma composição mista, terá que esperar uma semana inteira na cidade. O trem de Belo Horizonte chega no domingo à noite e o para a Bahia sai na sexta à tarde.

O TREM ROMPE A AURORA DO CERRADO E RECEBE CORES NOVAS ANTES DE PENETRAR NO PANTANAL

O PANTANAL É UM MAR QUE O TREM DERROTA. GAVIÕES VÊM COMER NA MÃO DOS MAQUINISTAS

Para se fazer de trem, uma viagem de São Paulo até Corumbá é preciso pegar duas composições diferentes. Uma sai da capital paulista e vai até Bauru, pertencendo à Fepasa. A outra faz a segunda e maior parte do trajeto de cerca de 1.600 km e é operada pela RFFSA. Na primeira etapa, o trem corre sobre trilhos de bitola 1,60 m e é puxado por uma locomotiva elétrica. Até a estação de Jundiaí, onde fica a primeira parada, leva-se uma hora, durante a qual a paisagem, com raras exceções, é exclusivamente de casas e indústrias. Pouco depois, começam a aparecer pequenas plantações e pastos – que serão a constante até os arredores de Bauru, interrompidos apenas pelas ricas cidades do interior paulista, como Americana e São José do Rio Preto.

A chegada em Bauru é às 15h30min. Uma hora mais tarde, puxado por uma locomotiva diesel-elétrica e com seus 13 carros – quatro de primeira classe, quatro de segunda, um bagageiro, um restaurante e três dormitórios – e correndo sobre uma bitola de um metro, o trem para Corumbá parte quase lotado. São pequenos agricultores, vendedores, boias-frias, turistas e até mesmo famílias inteiras de mudança. Desde minutos após a partida, o carro-restaurante fica cheio de gente. Tira-gostos e cerveja – sempre servida pela metade do copo, para não derramar – animam a conversa. Lá fora, o cerrado vai sendo engolido pela noite.

Às 11h20min do dia seguinte, o trem está em Campo Grande. Nesta estação, uma grande quantidade de passageiros desce e outros tantos embarcam. Os traços indígenas estão presentes na maioria dos rostos. Os carros são reabastecidos de água e a equipagem – agentes de trem, faxineiros e a dupla maquinista/auxiliar – é substituída. Em 20 minutos a composição já está em movimento.

Em janeiro e fevereiro, ela é acrescida por dois ou três carros especiais, alugados em Bauru por grupos de turistas, seduzidos pela farta pesca do Pantanal. Na viagem de ida à Corumbá, o trem passa pela parte inundada do Pantanal à noite. É na volta que se pode realmente apreciar a paisagem. Um verdadeiro mar, dos dois lados da linha – que funciona como uma ponte virtual entre várias cidades e o resto do estado, cerca as casas, árvores e pequenas colinas. A impressão que se tem é de estar viajando de barco, e nunca por uma ferrovia. Durante mais de duas horas de viagem, não se avista um só ponto seco acima da lâmina d’água, a não ser a copa das árvores, alguns telhados e a ponta dos mourões das cercas.

O controle das estradas é rigoroso. O maquinista não pode dormir

O tráfego entre as estações é controlado com rigor para evitar acidentes: há máquinas staff, comunicação por telefone, autos de linha. Em Ouro Preto, o chefe de estação telegrafa a próxima parada.

“A ferrovia é uma verdadeira cachaça”, diz Romeu Maxwell, agente de trem recém-aposentado, depois de 27 anos de trabalho nas linhas do Rio Grande do Sul. Ele define bem um sentimento forte que encontramos na maioria dos funcionários das estradas de ferro, nos mais diversos lugares. Todos têm muitas histórias e gostam de contá-las. “Só parei mesmo porque meu médico disse que a friagem estava acabando com minha saúde”, continua Seu Romeu. “Fiz centenas de amigos e, se pudesse, continuaria”. Não são raros os casos de funcionários como o agente José Figueiredo, 67 anos, há 45 trabalhando nos trens de Minas e que simplesmente não consegue se imaginar fazendo outra coisa. Extremamente disciplinados, eles fazem questão de manter seus uniformes impecáveis, quase nunca dispensando o chapéu quando vão posar para uma foto.

Já nas locomotivas, a média de idade é mais baixa. Em todas as linhas do Brasil, com exceção das litorinas, sempre trabalham um maquinista e um auxiliar. Josemar Freitas da Silva, 26 anos, é um destes auxiliares. Ao pegar uma guia em uma das várias estações do percurso Porto Alegre – Livramento, ele lê, em voz alta, as instruções para seu colega, o maquinista Eroni Costa: “Livre até Guará, manutenção na linha, na altura do quilômetro tal...” Ele conta que, para trabalhar como maquinista auxiliar, fez um curso de um mês, na própria RFFSA. Para entrar, passou por testes e exames psicotécnicos. Seu serviço é, além de pegar as guias – às vezes com o trem em movimento – observar a composição e a linha, avisando ao colega sobre qualquer problema. Eroni, de 38 anos, é maquinista há 17 anos, trabalhando em trens de carga e de passageiros. “O principal na minha função é conhecer bem o trecho da linha na qual trabalho”, diz ele, enquanto mantém a composição andando em 50 km/h. “Cada vez que um maquinista muda de trecho, é obrigado a fazer 90 dias de praticagem para conhecer bem seu novo trajeto. Trilhos, curvas, passagens de nível, tudo é muito importante.” O trabalho em duplas, nas locomotivas, tem como principal função aumentar a segurança das viagens. Além de suas atribuições técnicas, maquinista e auxiliar têm quase que a obrigação de conversar, boa parte do tempo, para evitar o sono. Contra ele, trabalha também a imensa locomotiva diesel-elétrica que, além de ser extremamente desconfortável para quem a conduz – seus assentos são mínimos, possui um dispositivo que apita, de tempos em tempos, obrigando o maquinista a fazer uma série de movimentos, com os pés e mãos. Caso contrário, a composição é freada automaticamente por um sistema de ar comprimido.

Na maioria da malha ferroviária nacional, o sistema de controle de tráfego entre as estações é o de bastões. Em cada estação, por menor que seja, existe um aparelho de staff, ligado por cabos telefônicos às outras duas estações, uma em cada direção da linha. Um maquinista só tem permissão para atravessar um determinado trecho se estiver de posse do bastão correspondente, entregue pelo chefe daquele trecho. Os bastões ficam travados no aparelho de staff, que só os libera, um a um, quando recebe um impulso elétrico vindo da estação seguinte. Este impulso é produzido por dínamos, como nos antigos telefones de campanha. Para isso ocorrer, o chefe daquela estação deverá introduzir um outro bastão, recebido das mãos do último maquinista que percorreu aquele trecho. Desta maneira, é muito difícil que duas composições atravessem o mesmo trecho ao mesmo tempo. Salvo em caso de descontrole de uma locomotiva ou algo parecido. Ainda assim, se um trem passa por uma estação ou ponto de controle sem parar, ainda existe a possibilidade de deter o outro, pois os horários são elaborados para que exista uma certa margem de manobra. Estes aparelhos foram todos fabricados na Inglaterra e funcionam há mais de 60 anos, desde os primeiros tempos da ferrovia. Quando não são usados, o sistema é o das guias ou papeletas. Para serem expedidas, elas seguem o mesmo princípio dos bastões.

Outro aspecto típico da ferrovia é o seu vocabulário específico. Palavras como carro e vagão, por exemplo, que para os leigos podem significar a mesma coisa, para quem trabalha nos trens designam objetos bem diversos. Vagão, é o nome dado ao veículo que transporta carga sobre os trilhos. Carro, ao que transporta passageiros. Nunca chame um carro de vagão, pelo menos em frente de um agente de trem. Ele certamente responderá, indignado que, no vagão, viajam, no máximo, bois, vacas e clandestinos.

Revista MANCHETE, Ano 1988, Ed. 1893, p. 36

Disponível: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=004120&pagfis=252002

Acesso 25/08/2025


domingo, 3 de agosto de 2025

A dupla Ideal apresenta os clássicos da música regional (LP)

 


LADO A

João de Barro (Muibo Cury e Teddy Vieira)

Expresso Boiadeiro (José Maria da Costa)

Paineira Velha (Zé Fortuna)

Gaúcho Alegre (Tonico e Zé Carreiro)

Pé de Cedro (Zacarias Mourão e Goiá)



LADO B

Menino da Porteira (Teddy Vieira e Luizinho)

Saudade do Matão (J. Galati, Antenógenes Silva e Raul Torres)

Tristeza do Jeca (Angelino de Oliveira)

Mocinhas da Cidade (Nhô Belarmino)

Desculpe a Poeira (Jader Moreci Teixeira “Leonardo”)



FICHA TÉCNICA

Supervisão Geral: Standard, Ogilvy e Mather Publicidade Ltda.

Produção: Plug Produções Fonográficas Ltda.

Ass. de Produção: Jader Moreci Teixeira (Leonardo)

Seleção de Repertório: Rogério Ruschel

Lay Out: Marco Antônio Pinheiro

Ilustração: Juska

Técnico de Gravação: Marco Aurélio Martins


Músicos:

A dupla Ideal – Leonardo e Catuí

Acordeon: Albino Manique

Viola de 10 cordas: Heleno Gimenez

Violão base: Leonardo

Viola ponteio: Leonardo

Baixo: Francisco Romeu de Castilhos

Ritmo: Fátima (Magra)


INDÚSTRIA DE MÁQUINAS AGRÍCOLAS IDEAL S.A.

Associada à International Harvester


Fabricado por FIF – Fermata Indústria Fonográfia Ltda.

Rua Josef Kryss, 90

São Paulo – SP

CGC 61.432.753/0003-22

SCDP: DPF 007/69


Disco é Cultura (P) 1980


33 1/3 RPM

sábado, 2 de agosto de 2025

AS LOCOMOTIVAS A VAPOR E AS FERROVIAS NO RIO GRANDE DO SUL (Ápio Cláudio Beltrão)

 


ORELHA” por Fausto J. L. Domingues

O doutor Ápio Cláudio Beltrão, com sabedoria e proficiência, entrega-nos paciencioso relato de sua vivência juvenil e dos seus posteriores estudos a respeito de pouco conhecidos aspectos da nossa antiga saga ferroviária. Enquanto empreendia a leitura atenta do seu texto, sempre lúcido e desdobrado com desvelo, muito prazerosamente, vinham-me à lembrança inesquecíveis momentos e circunstâncias da mesma época. Enternecidamente, nitidamente revelados, relembrava aqueles sítios que assinalaram, de forma inconfundível, a minha infância e juventude. Dois centros ferroviários, Cacequi e Santa Maria, unidos pela linha férrea, mas, sobretudo, pelos laços afetivos do coração. As gares, as oficinas, os depósitos, as vilas contíguas, a cooperativa, as casas de saúde e farmácias, as escolas, os clubes sociais e de futebol, a política, os funcionários, desde os tucos e carregadores de malas aos gerentes de estação e chefes de trem, tudo e todos vivendo em seu próprio mundo social, amalgamados pela inquieta e fremente alma ferroviária. Enxerguei-me em plena viagem entre a casa paterna e o colégio marista, naquele comboio, conduzido por possante locomotiva, que, enquanto deixava para trás fumaça e fuligem, também carregava, além do cheiro do carvão de pedra, esperanças e saudades. Pela janela, olhar contemplativo, o desfile efêmero de conhecidas imagens que, hoje, na fugacidade da memória, constituem apenas paisagens de sonho e ilusão. Os pequenos lugarejos, à margem da linha, tinham seu silêncio interrompido pelo áspero ringir do aço nos trilhos, pelo furor das locomotivas e pelos insistentes apitos que denunciavam a chegada e partida da velha Maria Fumaça. A recepção aos trens, em todas as estações, era festiva e festejada como ponto de encontro, pela busca de encomendas, de notícias, pelas visitas aguardadas e as de forasteiros com os mais diversos desígnios. A estrada semeou cidades e vilas, estimulou o desenvolvimento, empregou e alimentou famílias.

Faz-se indispensável anotar, todavia, que esta obra não é meramente evocativa; não é apenas revivência de surradas estampas do passado. Longe dos devaneios e das incursões saudosistas que também fascinam ao seu autor, este trabalho possui múltiplos significados e singular importância. Também não se restringe à simples contemplação das linhas férreas então existentes, mas observa, com rigor histórico, a evolução das ferrovias, os diversos ramais, as estações e paradas, além de um criterioso estudo sobre as locomotivas e máquinas a vapor. Didático, técnico, elucidativo, constitui também um alerta. É notória, na atualidade, a omissão de técnicos, estudiosos e historiadores a respeito desta questão. Enquanto em países desenvolvidos cuida-se do aprimoramento do seu desempenho, aqui, interesses políticos que atenderam e atendem às mais diversas e escusas conveniências, muito antes de mirarem os aspectos sociais, materiais, humanos e econômicos, surrupiaram o funcionamento, promoveram a supressão, inspiraram o descaso e obstaram um possível e desejável aperfeiçoamento da atuação ferroviária. Pela austeridade e ineditismo com que o assunto é versado, este trabalho tende a constituir-se em um chamamento à responsabilidade, à reflexão e uma justa homenagem aos tempos em que o velho trem de passageiros cortava as coxilhas do nosso Rio Grande.

Três parágrafos” do Prólogo

As opiniões do autor resultam da reflexão sobre os dados momentaneamente disponíveis e, naturalmente, podem modificar-se à vista de novas informações, ou, mesmo, de meditações repetidas que levem à mudança de entendimento.

Além de atender à sua satisfação pessoal, o autor tem como objetivo proporcionar aos leitores uma visão preliminar do assunto abordado, de modo a que se sintam estimulados a ir mais além por seus próprios meios.

No entanto, se alguém se sentir tocado, por ocasião da leitura, pela recordação das impressões, talvez já um tanto esmaecidas, de momentos felizes passados junto a ferrovias, o mais sublime propósito desta obra foi atingido, sem a menor sombra de dúvida.

CONTRACAPA “Memórias Vivas”, de Leo Petersen Fett

Ruídos, cheiros, dezenas de janelinhas iluminadas, as linhas aerodinâmicas dos vagões Pullmann, com uma cor marrom escura, misturada com grafite e tons avermelhados, parecia que se dirigiam para a Lua ou para Marte… Também era costume de parentes dos viajantes acompanharem o trem de automóvel Caminho Novo afora, abanando freneticamente. Por fim, aquela imensa lagarta, com uma lanterna vermelha, o último vagão sumia à distância, soltando uma poeira e algumas brasinhas do cinzeiro entre os trilhos.

Os trens tinham nome: “O Passageiro”, “O Carga”, “O Lastro”, “O Giruá”, “O Cruz Alta”, “O Pagador”, e assim por diante. Também as locomotivas: a “241”. a “237” e a “249”, a “Manobrista”, a “Mallet”, a “Seiscentas”…

Uma nuvem de vapor se formava à saída das válvulas de segurança que chegava a envolver a própria locomotiva. Pois atravessávamos essa nuvem sentindo cheiro e vapor misturado ao cheiro de enxofre característico do nosso carvão de pedra, e ainda mais o zunidinho do escapamento da dita válvula de segurança.

Capa e Editoração: Priscila Pereira Pinto

Imagem da Capa: Locomotiva 806 da VFRGS. Museu do Trem, São Leopoldo/RS

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

B453I

Beltrão, Ápio Cláudio

As locomotivas a vapor e as ferrovias no Rio Grande do Sul / Ápio Cláudio Beltrão. Porto Alegre: Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, 2017.

149 p.; ilustrado.

ISBN 978-85-62943-13-3.

1. Locomotivas. 2. Locomotivas a vapor. 3. História: Ferrovias: Rio Grande do Sul. 4. Material rodante. 5. Transporte ferroviário. 6. Ferrovias. 7. Estações ferroviárias. 8. Paradas ferroviárias. 9. Estradas de ferro. 10. Viação férrea: Rio Grande do Sul. I. Ápio Cláudio Beltrão. II. Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul. III. Título.

CDU 629.4

Bibliotecária: Márcia Piva Radtke.

CRB 10/1557

Crédito para o vídeo:

Projeto Nitratos Cinemateca Brasileira

CEREMÔNIAS” E FESTA DA IGREJA EM SANTA MARIA ESTADO RIO GRANDE DO SUL

Festas de sagração e inauguração da Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição, em Santa Maria, Rio Grande do Sul, em 5 de dezembro de 1909. Saída do povo da Igreja pela ocasião da festa, da quermesse e da procissão.

Na estação de trem: a plataforma de embarque, os vagões de serviço, os passageiros e a locomotiva partindo.

Código FB: 840

Gênero: Não ficção

Categoria: Curta-metragem

Ano: 1910

Estado: RS

Cromia: BP

Disponível: https://www.youtube.com/watch?v=wNjCENtD7F0

Acesso 02/08/2025

Áudios trem: BBC Sound Effects: https://sound-effects.bbcrewind.co.uk/search?q=railway

Captura de Áudio:

SONY IC RECORDER ICD-PX312

Digitalização capa e contracapa:

EPSON L 395


https://youtu.be/Kd4iegJvVKA

sábado, 31 de maio de 2025

Cédula da 'Prosperidade'

 


"Dionatan já ganhou na mega sena

Eu já ganhei muito dinheiro

Eu já vendi muito crochê

Eu já ganhei muita fartura

Eu já ganhei muito dinheiro

Eu já abri os meus caminhos pra

Prosperidade"


Sete sílabas de terra vermelha (Paulo Bentancur)

  Montado em sete sílabas, Jayme Caetano Braun (1994 – 1999) não descuida um verso sequer o generoso horizonte da lírica repentista. O seu ...