domingo, 8 de julho de 2018

El Río Suena


Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=QwhH-e7iSoQ

Revista Tarca - Ano III - Nº 14 - MAIO/1986




































Fonte: Revista Tarca - Ano III - Nº 14 - MAIO/1986

Revista em PDF: https://drive.google.com/file/d/12CqoeAWwEvAtxJiloyRdlRnPVfiLC6JU/view?usp=sharing

Jayme Caetano Braun - Payador Missioneiro (Documentário Karin Schmidt - 2016)




Com duração de 18 minutos, o documentário retrata um pouco da vida, da obra e do legado de Jayme Caetano Braun, com imagens inéditas dos lugares onde ele viveu grande parte de sua infância e juventude. Depoimentos exclusivos de Pedro Ortaça, Glênio Fagundes, Juca Ramos, Gelsa Ramos e Vinícius Ribeiro enaltecem com maestria, veracidade e encantamento, a missão do nosso payador maior.

Reconhecido internacionalmente, Jayme Caetano Braun foi poeta, declamador e payador (aquele que faz versos de improviso opinando sobre algo). Simplicidade e ternura definem o sentimento que Jayme trazia na alma, na voz, no olhar e na vida, sempre exaltando em suas payadas o valor da cultura terrunha da região das Missões e do Rio Grande do Sul.

Senti a presença do Jayme em cada verso que ouvi, em cada palavra das pessoas que entrevistei, em cada sorriso de quem trabalhou comigo, em cada dificuldade que aparecia e eu encontrava forças pra não desistir. Acima de tudo, senti a presença do Jayme em cada batida do meu coração, na medida em que eu conhecia um pouco mais de sua história tão grandiosa e ao mesmo tempo tão simples. Compreendi, na mais pura essência, o que ele quis dizer em um de seus versos: a vida com poesia fica muito mais bonita!

Para quem, assim como eu, tem admiração pelo nosso payador missioneiro, não deixe de conhecer o Complexo Turístico Cultural Jayme Caetano Braun, em São Luiz Gonzaga. Será uma oportunidade de ver bem de pertinho o monumento, utensílios que pertenceram ao Jayme, além da Venda do Bonifácio com produtos típicos artesanais. Também poderá assistir o documentário no espaço do Complexo, que sempre é exibido para todos os visitantes.

Reitero meus agradecimentos a todos que tornaram possível a concretização deste trabalho, produzido em 2016, em especial, Sandra Ferreira e Vinicius Ribeiro, que estiveram ao meu lado durante os oito meses de produção. Cada um dos nomes que aparece nesta obra teve participação determinante, pois este documentário foi feito por muitas mãos e muitos corações.

É com muito carinho, alegria e respeito que apresentamos o documentário 
JAYME CAETANO BRAUN – PAYADOR MISSIONEIRO!
Karin Schmidt

sábado, 7 de julho de 2018

TRADICIONALISTAS & REGIONALISTAS & NATIVISTAS (Luiz Coronel - Revista Tarca)

ATUALIDADE


Conciliação Inteligente ou Ruptura Imediata

Por LUIZ CORONEL

Ciclo dos Festivais:

A presença dos festivais de cunho nativista, após 15 anos de caminho andado, afirma a importância destes eventos no movimento cultural gaúcho.

Poetas, músicos, intérpretes, instrumentistas muito devem a estes eventos em termos de conquista de espaço para revelação de seus trabalhos. Mas chegamos a um impasse, isso é uma verdade sem saída para malabarismos. Precisamos dar nitidez aos personagens. Clareza às posições assumidas.

Recusa:

O ímpeto conservador e o impulso transformista existem até mesmo dentro de uma molécula. Faz parte da dinâmica da vida essa contradição de forças.

O trabalho retrospectivo e o proponente conviveram muito bem dentro dos festivais.

Até que chegou o momento da opção. Da opção conservadora. A recusa à convivência não partiu da linha de frente, dos compositores abertos a novas formas, criadores de uma nova linguagem. Partiu de uma recusa do pensamento conservador, que primeiramente eliminou a participação dos músicos inovadores e, presentemente, pela declaração expressa de seu pensamento exclusivista.

A comissão de seleção, como diz Dilan Camargo, se tornaram “pelotões de fuzilamento, comissão de inquérito” em face ao novo.

Importa dizer:

Os compositores voltados ao futuro, a uma nova linguagem, regional, gaúcha, mas renovada, nunca se preocuparam em determinar domínio sobre os festivais.

Quem teve este gesto, foram os tradicionalistas.

Porque para nós todos, o violão do Glênio Fagundes, o trabalho do Telmo de Lima Freitas, dos Angueras, e todo esse acervo de linha galponeira, foi sempre aceita, estimada e valorizada e a recíproca não aconteceu?

Porque os tradicionalistas temem o futuro. Sua viagem é rumo a um passado. Centauros, lendas, heróis, e quem tentar usar uma linguagem feita de imagens novas, de arranjos recriados, de motivos contemporâneos, passa a ser profano.

Nós aplaudimos Esquilador, Vozes campeiras, Guri, mas para os tradicionalistas é quase impossível encarar a existência de um Astro Haragano, Cordas de Espinho, Pampa de Luz.

Esta argumentação põe bem claro de onde parte a recusa.

Os fatos:

Não me tenho na qualificação de vanguardista de nada. Cito Lukacs: “em arte importa ficar na vanguarda das retaguardas e na retaguarda das vanguardas”.

Mas basta não ter tido uma postura rotineira para ter sentido na pele o látego da incompreensão. Numa narrativa pessoal comecei e vivi, prestigiado e perseguido pelos festivais.

Na Califórnia, “Caminho de Volta” com Marco Aurélio Vasconcellos ganhava o prêmio de melhor letra e desclassificava por uma única razão: havia um “cello” entre os instrumentos.

Comenta-se que em Bagé, capital de minha infância, um tradicionalista ortodoxo, chegou a propor um negócio, na hora da classificação: - “Faço qualquer troca, mas nunca SERVENTIA em primeiro lugar”. A letra era profana, pois falava em rádio de pilha, azulejo, livros contábeis.

Arte:

Creio ser necessário definir que existe antes de tudo uma profunda e definitiva divisão de águas, no que se refere ao conceito e função da arte, entre as partes contendoras no âmbito da cultura gaúcha.

Parto do princípio de que o “passado é povoado de fantasmas, o presente de máscaras e o futuro de sonhos”.

Arte é um voo livre. É um salto da realidade através das asas da imaginação.

Arte é uma proposta de inauguração da vida, reproposta pela criatividade.

Desta forma, arte é uma antecipação do futuro, muito mais que uma redescoberta do passado.

Que a arte deva partir de uma substância histórica, de uma identificação e solidariedade de vidas, isso é lógico e transparente. A tentativa de fazer uma arte como teriam feito nossos antepassados, é para mim uma obstinação em animar museu. Dar manivela nas estátuas, colocar pilhas nas lembranças.

Cada vez mais penso que fazer arte é tocar fogo na fábrica de fogos de artifício. Isso é: iluminar o céu e a terra com as estrelas de nossa imaginação.

Vamos e venhamos, é bem diferente uma posição como essa, daquela que bem caracteriza os que andam ainda em busca de mitos que perderam seu poder de imantação sobre a mente e o coração dos homens, habitantes deste fim de século XX.

Preconceitos:

Einstein, leia-se gênio, dizia que era mais fácil fissurar um átomo que romper um preconceito.

Da mesma forma que existe um preconceito nas emissoras, que separam, qual estivessem inoculadas de doença contagiosa, a música de tema gaúcho, existe um preconceito contra a postura inovativa. Há Moisés demais descendo a coxilha trazendo novas tábuas da lei para dizer o que deve ser feito para manter a sacra fidelidade aos valores fundamentais da arte tradicionalista.

Pelo amor de Deus: a ninguém foi dado o direito de dizer a nenhum artista o que ele deve fazer!

Respeitem a beleza do estilo pessoal. Prestigiem a evolução criativa de cada um dos compositores. Viabilizem a postura de cada um dos intérpretes. Um palco é um palco, não é um altar.

Pessoalmente

Sou de alma branda, nada dado a grandes polêmicas. Não existe ressentimento pessoal no que dito.

Essa luta é de postura cultural. Existem pessoas optando pela profissão de músico; pessoas definindo-se como artistas profissionais, que estão sendo incompreendidas, barradas, injustiçadas em nome de dogmas asfixiantes. Eu gostaria de colocar é que é preciso e lindo que exista o tango de Gardel e a música de Piazzolla. Que convivam, para dar âmbito e riqueza, vastidão e verdade, Pery Souza e Gaúcho da Fronteira.

A esta altura de minha vida, com oito livros publicados, definições claras sobre a vida e a arte, nada peço para mim. Os festivais nada mais têm a me dar. Falo em nome de algo maior: a cultura gaúcha e sua viabilidade.

Evento & Legado:

Tenho dito que um festival é seu espetáculo, mas também seu legado.

Os festivais, se seguirem a opção conservadora, poderão, por mais uns cinco anos, manter o brilho do espetáculo, mas estarão enterrando o movimento cultural gaúcho, em sua extensão musical. Ao mesmo tempo em que edificam a construção de seu evento, fazem a cova deste ciclo.

PROPOSTAS:

E me torno uma flor de obsessão quando digo: Festival não tem proposta. Quem tem proposta é o artista.

Festival tem identidade, pois um festival de Taquara deverá ter uma diferenciação sobre um festival de Uruguaiana.

É essa hedionda história da proposta do festival que faz a munição dos fuzilamentos das comissões de seleção, com sua guarda cativa.

Definição:

E assim chegamos ao impasse irremediável.

Ou há uma abertura e os festivais englobam a cultura gaúcha em sua expressão mais aberta, ou os festivais, cada um por si, faz sua declaração conservadora de princípios, e o grande grupo dos músicos e compositores de formação e proposta inovadora, definem sua não participação. Jogo de regras claras. Conciliação ou rompimento.

Não estou me precipitando, falando por conta própria, estou, isto sim, expressando uma tendência irremediável.

Rio Grande do Sul,

somos uma cidade estado, meio lusos, meio espanhóis, com trajes típicos, ritmos próprios, história diferenciada.

Isso deverá render, artisticamente um produto cultural diferenciado. Mas diferenciado não quer dizer ausente, de seu tempo, das grandes causas, das imensas esperanças, das inquietações que marcam e cicatrizam o rosto de nossa época.

É preciso frisar que ninguém tem o monopólio da afeição pelo Rio Grande.

O homem em cima do cavalo e em cima da Asa-Delta, são da mesma maneira gaúchos.

O homem do bandoneon e o da guitarra elétrica, conhecem o mesmo milagre da afeição por sua terra.

O pintor abstrato e o figurativista falam a mesma linguagem da emoção do mundo vista pela dor.

Será difícil compreender essa meridiana realidade?

A discriminação que está sendo realizada, em nome do nativismo, é, antes de mais nada, desumana.

Einstein dizia:

“Depois que inventaram o trator é inútil aprimorar o arado”.

Existe algo de equívoco e contraditório na postura tradicionalista ortodoxa. Empregam microfones. Adoram ver suas promoções na TV, mas querem que a mensagem seja feita de lembranças ou referências de episódios que datam do candeeiro, do boi de canga, da carreta.

Viajam pelo asfalto, mas proíbem que nele se fale.

Andam de avião, mas querem a glorificação do cavalo.

Gravam o disco, mas querem de forma, tema e conteúdo, datem uma expressão de mundo e vida que anteceda a tudo isso.

Ou seja: há um mascaramento da realidade.

Tradicionalistas & Regionalistas:

Quando uso estas expressões, busco não definições sociológicas, mas procuro captar características destes contingentes.

Os tradicionalistas são caracterizados por uma grande afeição às tradições. Cultuam com profundidade lendas e mitos. Realizam uma ideação romântica do passado. Assumem uma postura saudosista, lamentam a perda de um paraíso perdido.

Encontram na valentia dos heróis, o ciclo dourado de nossa história. E a partir daí, fazer arte é restaurar estes tempos.

Os regionalistas já assumem uma posição de síntese e transposição de todo o passado.

A história passa a interessar como legado de características culturais. Acreditam na dinâmica dos tempos. Estão despertos às dimensões do tempo: passado, presente e futuro.

Querem do gaúcho seus elementos essenciais, mais do que o pictórico ou legendário.

Distanciam-se dos universalistas, na medida em que estes acreditam que o mundo universalizou a cultura, criando uma só entidade humana indiferenciada.

Em síntese: os regionalistas tendem ao sulino como essência, os tradicionalistas, querem o gaúcho como mito.

Difícil e desafiador, no meu entender, é estender uma ponte entre estas tendências.

Wilde:

Oscar Wilde, quando vítima de processo por sua obra Salomé, respondeu a seus algozes: “uma obra de arte será ou não será bela”. Ou seja: não é moral nem imoral, é arte ou não é arte.

Jerônimo Jardim teve postura correta ao endossar a classificação de “Vozes Campeiras” no Musicanto. Era uma música com letra que acredito diametralmente oposta às suas concepções estéticas. Mas era um trabalho bem sucedido.

Assim, é hora de dar um basta ao “isso é nativo, isso não é nativo”. É hora de dizer: é um trabalho de nível artístico.

Stalin, Mac Arthur, Franco:

Nossos tempos conhecem três posturas típicas da intolerância.

Stalin com o realismo socialista asfixiou as artes russas.

Mac Arthur com sua “caça às bruxas” corre Chaplin dos EEUU.

Os Franquistas cantavam: “cara ao sol e guerra à inteligência”. E um de seus comentários dizia: “Cada vez que ouço falar em cultura tenho ímpetos de puxar o revólver”.

No Brasil saímos de 20 anos de censura. Há campo para sentir e dizer a vida em nossos festivais. Mas uma outra censura se instaura: A censura estética, oriunda de concepções conservadoras de arte.

Grécia:

A vida dos gregos era talvez mais simples, rústica que a do nosso homem do campo.

Plantavam favas, cultuavam suas terras, o mel, as casas simples. Sua arte, no entanto fez o voo mais alto e definitivo da história da humanidade.

A tragédia grega é um monumento da indagação das inquietações da alma humana. Ficassem os gregos apenas falando da rotina de seus campesinos, não teriam legado sua obra.

E lembre-se: no século de ouro, Atenas tinha apenas 500 mil habitantes.

Walt Whitman e Maiacóviski:

São dois gigantes. Americano o primeiro. Russo o segundo. Whitman transmitia a seus cidadãos: “a tradição é o futuro”.

Maiacóviski bradava do outro lado: “um novo tempo pede novas formas”. Vamos abrir os ouvidos, a alma e o coração, a estes dois gigantes que nos gritam do corredor do século, pedindo novas posturas.

POSTURAS:

Vejamos as argumentações dos tradicionalistas ortodoxos: “quem quiser assistir rock que assista. Quem quiser ouvir samba que ouça. Mas se quiser ouvir música gaúcha, que seja música gaúcha autêntica”. O impasse surge na definição de “autêntico”.

Autêntico é o que não se renova? É o que repete velhas estruturas? Não. Autêntico, em arte, é o que tem ímpeto criativo. Há uma confusão entre arte ingênua e autêntica, sem saída.

Não há arte sem sinceridade:

A encomenda cultural termina criando um produto artístico caricatural de tão frágil. O artista é um ser liberato e não cativo.

O critério da encomenda segundo regulamentos termina, à curto prazo, por criar uma arte de oportunistas e não de criadores.

POLÊMICA:

Quero encerrar citando Gramsci: “Precisamos acreditar na polêmica. Com ela o respeito às ideias opostas. Se acreditarmos na dialética das ideias, temos de nos predispor à polêmica. Quem não respeita as ideias do outro, desrespeita suas próprias ideias”.
O movimento cultural gaúcho, em sua manifestação musical, dentro do ciclo dos festivais, sempre foi carente de um debate amplo e aberto. Comemos rebanhos. Dançamos e cantamos. Esquecendo que arte é divertimento, mas é mais do que tudo, uma forma rica de conhecimento da verdade da vida.
Fonte: Tarca – Revista de Cultura Gaúcha – ANO III – Maio/1986 – Nº 14 - p. 21/23


MILTON SOUZA: Entre o Tradicionalismo e o Nativismo

GENTE GAÚCHA

Por Marta Barboza

Abrimos espaço a Milton Souza, um dos idealizadores da Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana, onde mora e desempenha suas funções de radialista, que lhe permite inúmeros contatos com o mundo da música regional e tradicionalista, o que de certa forma lhe dá um “cacife” de ter participado e acompanhado todo o movimento cultural do Estado. Portanto, um homem respeitado também pelo Movimento Nativista, razão pela qual o classificamos como “gente gaúcha”. Leia as suas razões:

TARCA: Milton Souza, tu és um guerreiro dos festivais, do movimento cultural do Sul. Tu te assumes nativista ou tradicionalista?
M. SOUZA: Eu sempre tive dúvidas nessa diferença que se faz entre o tradicionalismo e o nativismo. Eu tenho dúvidas porque fui um dos iniciadores do movimento hoje chamado de Nativista e me considero um tradicionalista (esse movimento nasceu dentro de uma entidade tradicionalista que foi o Sinuelo do Pago). O movimento nativista vem adquirindo normalmente o seu espaço. Então, quando uma pessoa me diz que é nativista, eu o considero um homem urbano, que gosta das mesmas coisas que eu gosto; que tem o mesmo desejo de lutar pelo desenvolvimento da nossa cultura. Ele não é um homem diretamente ligado aos CTGs; não liga muito para detalhes que, ainda hoje, perduram dentro do Movimento Tradicionalista, obrigando a colocar esta ou aquela peça do vestuário masculino. Nas primeiras Califórnias eu entendia que só poderíamos permitir no palco aquele que estivesse devidamente pilchado. Com o correr do tempo, eu fui me ajustando e hoje eu olho com outros olhos para um grupo que está de alpargatas, faixa ou camisa sem lenço. Essa figura que está no palco é mais uma figura do nativista desta geração que se criou no Rio Grande do Sul.  

TARCA: Então tu sentes melhor no lado nativista, te situas melhor nessa nova fase? Há uma tendência muito forte do movimento no Estado, a ponto de armarem uma reunião em porto Alegre para uma tomada de posição entre tradicionalista ou nativista?
M. SOUZA: Eu não faço distinção quanto ao posicionamento. Eu faço distinção entre a ação das duas coisas. Jamais poderei me colocar entre tradicionalista ou nativista, porque assim como venho aqui colaborar com festival como jurado, eu estou em Uruguaiana pertencendo à diretoria de um CTG. Para mim é muito difícil tomar uma posição entre os dois movimentos. Eu vivo as duas coisas, se é que existe essa diferença que alguns querem fazer. Agora, uma das coisas que eu não admito é dizer que não existe nativismo no Rio Grande do Sul. Nativismo existe e está aí. Se os CTGs dos municípios onde se realizam festivais não aderirem a esse movimento novo, a tendência é que eles diminuam cada vez mais, porque o Movimento não para. Eles devem, isto sim, é aderir a esta nova ideia, a este novo ângulo das nossas tradições, do nosso folclore, dos nossos costumes com que o Nativismo hoje se preocupa, ou seja, manter uma vivência em torno da arte, em torno da música, em torno da poesia. Há 36 anos atrás, quando eu entrei no tradicionalismo (era o que tinha na época) a tendência era pender para o lado crioulo do assunto,  para o lado rural. Era cultuar pura e simplesmente o homem do campo. Hoje, para um sujeito pertencer a um CTG, não precisa que ele seja um exímio domador, laçador ou seja lá o que for. Ele pode ser um intelectual. Os CTGs perderam muitos valores da cultura rio-grandense porque eles se chocavam. Aqueles que faziam o Movimento Tradicionalista Gaúcho procuravam “engrossar”. Achavam que para ser gaúcho tinham que falar o português errado. E não é assim! E tem gente que não reconhece o Movimento Nativista no Rio Grande do Sul. Há uma omissão dos CTGs, dos tradicionalistas, virando as costas para um movimento que é uma realidade, que é esse movimento artístico-musical do Rio Grande do Sul. Se não fosse ter criado esse movimento nativista e esse espaço para que os jovens viessem a nós, nós estaríamos como antes de 71: dificilmente se via um jovem com um instrumento na mão.


TARCA: O grupo que fez a Califórnia já era, então, um grupo aberto do Tradicionalismo, com uma outra visão, outro ponto de vista?
M. SOUZA: A nossa preocupação era esta: nós precisávamos de mais cultura e menos “grossura” dentro do CTG, pelo posicionamento de certos tradicionalistas do início da época. Então, quando assumimos a direção do Sinuelo do Pago a nossa intenção era, justamente, trabalhar em torno da cultura rio-grandense. Junto com o Henrique de Freitas Lima e o Colmar Duarte, nos preocupamos em atrair os colégios, dar aulas. Nós dávamos aulas de História, Geografia, Usos e Costumes, Folclore, os índios rio-grandenses. Aí formamos um pólo cultural. Então, como desde 63 eu tinha um programa de rádio, eu comecei a sentir dificuldade de encontrar músicas que viessem a colaborar com a cultura do Rio Grande do Sul. As músicas da época eram coisas muito escassas. Só existiam os conjuntos Farroupilha, Os Gaudérios, Os Sinuelos e eram as músicas que nós utilizávamos, 4 ou 5 LPs. Aí começou a preocupação de fazermos alguma coisa para atrair alguém, para que aquelas músicas, a nossa cultura poético-musical tivessem vez de alguma forma. No programa de rádio, nós convidávamos pessoas para apresentações ao vivo, para que não se repetisse tanto em um programa de uma hora. No entanto, não surgia nada novo. Ficava difícil a produção do programa por falta de material. Dentro do Sinuelo do Pago foi se formando, ao natural, o encontro de pessoas com a mesma preocupação de fazer música e com condições de fazer música. A partir desse entusiasmo resolvemos fazer alguma coisa para que aumentasse esse material para serem rodados nos programas. E tivemos êxito porque veio resultar na Califórnia da Canção Nativa, nome esse dado por Colmar Duarte e que instituiu, também, o Troféu Calhandra (pássaro que canta e imita todos os outros pássaros). Nós notávamos que, naquela época, todas as composições eram muito saudosistas, coisas que contavam o Rio Grande do passado e que, já naquela época, não era a realidade em que vivíamos. Nós poderíamos ser tradicionalistas, criar outras coisas, mas dentro da realidade. Nós temos que deixar de fazer poemas daquilo que foi, porque o gaúcho histórico não existe mais. O monarca das Coxilhas, o sentinela dos pampas já morreu, é histórico. Deu lugar, isto sim, para os gaúchos que somos hoje, os nativistas, os tradicionalistas, andarmos juntos, de braços dados. Este é o gaúcho que temos de cantar, os seus anseios, as suas esperanças. Vamos colaborar para que conheçam mais este Rio Grande de hoje, não adianta só conhecer o Rio Grande do passado, o Rio Grande histórico, o Rio Grande guerreiro. Nós temos de vivenciar essa tradição nos dias atuais, com a melhor elaboração dessas composições (que é o que leva o Rio Grande, porque a cavalo ele demoraria muito para chegar), que a música tenha essa penetração rápida nos meios de comunicação de massa. A gente precisa, cada vez mais, de bons trabalhos.

TARCA: Milton, diga-nos, para encerrar, quais as expectativas para a 16ª Califórnia.
M. SOUZA: A Califórnia é um palco aberto a todos aqueles que se ajustem aos critérios, à filosofia da Califórnia e que levem a sua contribuição. Ela luta muito contra coisas que, eventualmente, vêm em prejuízo da promoção, certas ideias que querem fugir das linhas tomadas pela Califórnia. Ela sempre teve por objetivo a valorização da música do Rio Grande do Sul. Então, a nossa preocupação é no sentido de que as músicas que vão compor o disco da Califórnia possam ser tocadas em qualquer emissora de rádio e em qualquer horário. Daí o porquê da gente querer trabalhos bem acabados.
Aqui surgiu um movimento de valorização da música e integrou-se o jovem. Por isso os festivais não podem ser fechados, ortodoxos. Não podemos nos preocupar com minúcias de roupas. Precisamos, isto sim, é deixar de sermos saudosistas e cantar um Rio Grande atual, de 86, suas esperanças e seus anseios.
Fonte: Tarca – Revista de Cultura Gaúcha – ANO III – Maio/1986 – Nº 14 - p. 7/8


A cultura gaúcha em debate - Mozart Pereira Soares (Entrevista)


Por TUDE MUNHOZ


Entrevistei o professor Mozart durante a edição do 1º Carijo da Canção. Cara a cara com ele, procurei uma explicação lógica e firme para uma definição final, sobre os atritos existentes entre tradicionalistas e nativistas. Então, caros leitores, dentro de nossa posição editorial de sempre procurar uma maior nitidez para o movimento cultural gaúcho, abrimos esta edição com uma explanação de MOZART PEREIRA SOARES, homem que tem a vivência do Tradicionalismo e a perspicácia de estudar o novo para alertar o velho. Catedrático da UFRGS, já lecionou em 16 cursos superiores diferentes (inclusive na PUC, na Universidade de Santa Maria e Santa Catarina) e presidiu várias entidades culturais: Estância da Poesia Crioula, Academia Riograndense de Letras, Conselho Estadual de Cultura, Casa do Poeta Riograndense, Grêmio Literário Castro Alves, entre outras.


A cultura gaúcha
 em debate

TARCA: O professor, que se dedica ao tradicionalismo, certamente tem acompanhado as divergências entre os tradicionalistas e a corrente nativista. Como se posiciona em face do problema?
MOZART: Sim, tenho acompanhado. E me parece que existem equívocos de ambos os lados. Por isso, acho bom clarear as coisas. Comecemos por conceituar Tradição. Mesmo sabendo que há certo consenso a respeito. Como a etimologia nos ensina (Traditionem, tradere) a palavra significa trazer, transportar, no caso do passado para o presente, com vistas ao futuro, ideias, sentimentos e costumes, dignos de perdurarem. É preciso, porém, distinguir tradição (e o tradicionalismo que é seu culto) de imobilismo, apego a fórmulas vencidas, tentando ressuscitar a que está realmente morto. As conquistas do passado perdurarem como exemplo e não como modelo. Estamos cansados de ouvir que há também uma certa tendência para se considerar o tradicionalismo como uma atitude regressiva, de volta, pura e simplesmente, a padrões superados. Na verdade, tradicionalismo é progresso. Eu diria que é o passado no presente e o presente no futuro. Os que o acusam de regressão, erram ao conceituá-lo como algo estanque e imóvel, como um lago. Recordo ao leitor que GLAUCUS SARAIVA, no “Manual do Tradicionalismo”, insistia em considerá-lo como um rio, em seu perpétuo dinamismo, às vezes tumultuado pelas enchentes (como o momento em que vivemos), mas sempre fecundo. É nesse sentido que todos, individual ou coletivamente, em qualquer ponto de terra e em qualquer época, somos tradicionalistas. Ninguém pode renunciar o seu passado. Não é possível ao homem despir sua capa histórica. Somos produto das experiências da espécie e cada gesto vivido no tempo está profundamente estereotipado no inconsciente coletivo. A fórmula correta, enfim, seria “conservar, melhorando”. Com isso, nós distinguimos os verdadeiros tradicionalistas, que são conservadores, mas progressistas, tanto dos retrógrados, que nada impulsionamos, como dos anárquicos incapazes de reter o que quer que seja.   

TARCA: De acordo com sua exposição, é possível distinguir-se tradicionalismo de nativismo?
MOZART: Perfeitamente. E não só é possível distinguir-se tradicionalismo de nativismo, como este de regionalismo. O tradicionalismo, como se viu, é a mais abrangente dessas posições. É uma atitude universal, comum a todos os indivíduos ou coletividades, em qualquer tempo histórico ou espaço geográfico. Já o nativismo diz respeito ao modo de ser de um agregado humano particular. O nativo é autóctone, indígena, contrastando com o alienígena, com o estrangeiro, com o forâneo. Nesse sentido, poderemos falar em nativismo brasileiro, por exemplo, ou, ainda, brasiliano ou brasílico, para significarmos com estas duas palavras, não o nacionalismo jurídico, mas um estilo vivencial. Nessa mesma linha de ideias, o regionalismo vem a ser a variante localista do nativismo. Dentro do espírito de brasilianidade nós podemos distinguir um regionalismo amazônico, um nordestino, um caipira, um sertanejo, um gaúcho. Todos eles se distinguem uns dos outros pelo modo de vestir, que em geral é uma imposição do meio, no modo de morar ou de se alimentar, na linguagem, no sentir o mundo, em sua escala de valores, em suma.
Trata-se, como se vê, de três círculos concêntricos, tendo, portanto, entre eles, uma grande área comum. Entre todos eles há semelhanças genéricas e diferenças específicas. Nacionalisticamente, nós somos parecidos com qualquer parcela do território brasileiro mas temos, para com eles, várias dissemelhanças de estilo ou comportamento grupal, que nos permitem identificá-los a qualquer momento.

TARCA: Todavia, o senhor não pensa, como nós, que o nativismo é o mais agressivo em suas posições sociais, atualmente?
MOZART: Talvez isso seja mais aparente que real. Caracterizado o Nativismo como conjunto de traços contrastantes entre o alienígena e o indígena, não é necessário que a defesa do que é nosso se processe pelo repúdio ao alheio. O intercâmbio social não pode ser detido. Quer queiramos quer não, a humanidade marcha para a unidade, desde a intelectual e religiosa, até a econômica ou linguística. Devemos receber de bom grado toda a mensagem alheia, sem, entretanto, permitirmos sua invasão e, muito menos, seu domínio. Teremos de passar, por exemplo, do nacionalismo agressivo para o nacionalismo fraterno. Sejamos irmãos de todos, mantendo viva nossa chama, nossa mensagem e nossa confiança no tempo que há de vir, pleno de pão e paz. Sejamos, enfim, universalistas, dentro de nossas bombachas ou de lenço no pescoço, estendendo aos outros a cuia com o “licor da fraternidade” que é o chimarrão.

TARCA: Acha, então, possível aos tradicionalistas aceitarem o nativismo?
MOZART: Não só é possível, como necessário. Ambos estão pretendendo a mesma coisa, por vias diferentes. Mas é preciso que essas duas tendências não radicalizem as coisas. Ambos têm de procurar as convergências. Concordo que os Nativistas têm maior ímpeto renovador, que estão pondo em evidência as questões dramáticas de novos tempos: os sem terra, a reforma agrária, os “desgarrados do campo” vencidos na marginália das grandes cidades, os trombadinhas, futuros assaltantes, e por aí afora. Uma coisa, entretanto, ninguém poderá negar: é que, para fazer isso, eles não precisariam servir-se do estilo gauchesco. Talvez até tivessem mais força fazendo música urbana de protesto. Por outro lado, não se pode negar a eles espaço no gauchismo. E nem impedir que as atuais gerações empreguem recursos sonoros da atualidade. Sempre fui a favor disso, da guitarra elétrica, do sintetizador. São muito mais bonitos e não se pode privar o povo dessas conquistas. Não tenhamos pudor de chamá-los de maravilhosos.

TARCA: E a gaitinha? E a rabequinha?
MOZART: Há momentos em que eles podem e devem comparecer, até como uma nota de nostalgia, nesse caso insuperável. Mas, para isso, é preciso muita arte.

TARCA: E quanto às letras dos festivais, no seu aspecto tradicionalista e nativista, que nos diz o senhor?
MOZART: De um modo geral, nossas letras premiadas estão muitos furos acima das que hoje circulam em discos do centro do país. Que me perdoem a tirada retórica, mas as nossas têm melhor conteúdo e maior dignidade, isso estourado. Sempre me detenho nesse aspecto, sem repudiar a sátira, o humor, o epigrama, e até o apimentadinho. Estimo a letra moderna. Todos temos fome de renovação. Acho que a redondinha está sovada demais. Para usá-la bem, só um talento como o Jayme ou o Rillo, capazes de usarem a poesia que o povo já fez, original e inovadoramente. Para clarear um pouco: usando esse modelo de repressão popular, os grandes são sempre capazes de redescobertas. É o caso do Garcia Lorca, em seu “Cancioneiro Gitano”, Antônio Nobre, no “Só”, e o nosso João da Cunha Vargas, um iletrado, sem contaminações literárias, porque nem lia, mas de uma autenticidade incomum.

TARCA: E quanto aos gêneros literários, concorda com os que ora se fazem em seu nome?
MOZART: Não sou especialista. Julgo essa questão por instinto. Mas entendo que não se pode repudiar o belo, em nome de um pretendido ritmo ou gênero genuinamente nosso, que nem existe na forma como alguns afirmam. Se estreitarmos um pouco mais o assunto, iremos dar na inúbia dos ameríndios. Não é verdade que todos os gêneros e ritmos nossos vêm do mundo, da Europa, da África e até da Ásia?
Fonte: Tarca – Revista de Cultura Gaúcha – ANO III – Maio/86 – Nº 14 - p. 4/5


Livro “O Balanço da Mata Norte – Batuque Rural na Bateria” (Rafael dos Santos, 2026)

  Batuque Rural na Bateria   Fonte:  https://viasabertas.com.br/nossos-trabalhos/livro-o-balanco-da-mata-norte-batuque-rural-na-bateria-2026...