Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=QwhH-e7iSoQ
domingo, 8 de julho de 2018
Revista Tarca - Ano III - Nº 14 - MAIO/1986
Fonte: Revista Tarca - Ano III - Nº 14 - MAIO/1986
Revista em PDF: https://drive.google.com/file/d/12CqoeAWwEvAtxJiloyRdlRnPVfiLC6JU/view?usp=sharing
Jayme Caetano Braun - Payador Missioneiro (Documentário Karin Schmidt - 2016)
Com duração de 18
minutos, o documentário retrata um pouco da vida, da obra e do legado de Jayme
Caetano Braun, com imagens inéditas dos lugares onde ele viveu grande parte de
sua infância e juventude. Depoimentos exclusivos de Pedro Ortaça, Glênio Fagundes,
Juca Ramos, Gelsa Ramos e Vinícius Ribeiro enaltecem com maestria, veracidade e
encantamento, a missão do nosso payador maior.
Reconhecido internacionalmente, Jayme Caetano Braun foi poeta, declamador e payador (aquele que faz versos de improviso opinando sobre algo). Simplicidade e ternura definem o sentimento que Jayme trazia na alma, na voz, no olhar e na vida, sempre exaltando em suas payadas o valor da cultura terrunha da região das Missões e do Rio Grande do Sul.
Senti a presença do Jayme em cada verso que ouvi, em cada palavra das pessoas que entrevistei, em cada sorriso de quem trabalhou comigo, em cada dificuldade que aparecia e eu encontrava forças pra não desistir. Acima de tudo, senti a presença do Jayme em cada batida do meu coração, na medida em que eu conhecia um pouco mais de sua história tão grandiosa e ao mesmo tempo tão simples. Compreendi, na mais pura essência, o que ele quis dizer em um de seus versos: a vida com poesia fica muito mais bonita!
Para quem, assim como eu, tem admiração pelo nosso payador missioneiro, não deixe de conhecer o Complexo Turístico Cultural Jayme Caetano Braun, em São Luiz Gonzaga. Será uma oportunidade de ver bem de pertinho o monumento, utensílios que pertenceram ao Jayme, além da Venda do Bonifácio com produtos típicos artesanais. Também poderá assistir o documentário no espaço do Complexo, que sempre é exibido para todos os visitantes.
Reitero meus agradecimentos a todos que tornaram possível a concretização deste trabalho, produzido em 2016, em especial, Sandra Ferreira e Vinicius Ribeiro, que estiveram ao meu lado durante os oito meses de produção. Cada um dos nomes que aparece nesta obra teve participação determinante, pois este documentário foi feito por muitas mãos e muitos corações.
É com muito carinho, alegria e respeito que apresentamos o documentário JAYME CAETANO BRAUN – PAYADOR MISSIONEIRO!
Reconhecido internacionalmente, Jayme Caetano Braun foi poeta, declamador e payador (aquele que faz versos de improviso opinando sobre algo). Simplicidade e ternura definem o sentimento que Jayme trazia na alma, na voz, no olhar e na vida, sempre exaltando em suas payadas o valor da cultura terrunha da região das Missões e do Rio Grande do Sul.
Senti a presença do Jayme em cada verso que ouvi, em cada palavra das pessoas que entrevistei, em cada sorriso de quem trabalhou comigo, em cada dificuldade que aparecia e eu encontrava forças pra não desistir. Acima de tudo, senti a presença do Jayme em cada batida do meu coração, na medida em que eu conhecia um pouco mais de sua história tão grandiosa e ao mesmo tempo tão simples. Compreendi, na mais pura essência, o que ele quis dizer em um de seus versos: a vida com poesia fica muito mais bonita!
Para quem, assim como eu, tem admiração pelo nosso payador missioneiro, não deixe de conhecer o Complexo Turístico Cultural Jayme Caetano Braun, em São Luiz Gonzaga. Será uma oportunidade de ver bem de pertinho o monumento, utensílios que pertenceram ao Jayme, além da Venda do Bonifácio com produtos típicos artesanais. Também poderá assistir o documentário no espaço do Complexo, que sempre é exibido para todos os visitantes.
Reitero meus agradecimentos a todos que tornaram possível a concretização deste trabalho, produzido em 2016, em especial, Sandra Ferreira e Vinicius Ribeiro, que estiveram ao meu lado durante os oito meses de produção. Cada um dos nomes que aparece nesta obra teve participação determinante, pois este documentário foi feito por muitas mãos e muitos corações.
É com muito carinho, alegria e respeito que apresentamos o documentário JAYME CAETANO BRAUN – PAYADOR MISSIONEIRO!
Karin Schmidt
sábado, 7 de julho de 2018
TRADICIONALISTAS & REGIONALISTAS & NATIVISTAS (Luiz Coronel - Revista Tarca)
ATUALIDADE
Conciliação Inteligente ou Ruptura Imediata
Por LUIZ CORONEL
Ciclo dos
Festivais:
A presença dos
festivais de cunho nativista, após 15 anos de caminho andado, afirma a
importância destes eventos no movimento cultural gaúcho.
Poetas, músicos,
intérpretes, instrumentistas muito devem a estes eventos em termos de conquista
de espaço para revelação de seus trabalhos. Mas chegamos a um impasse, isso é
uma verdade sem saída para malabarismos. Precisamos dar nitidez aos
personagens. Clareza às posições assumidas.
Recusa:
O ímpeto
conservador e o impulso transformista existem até mesmo dentro de uma molécula.
Faz parte da dinâmica da vida essa contradição de forças.
O trabalho
retrospectivo e o proponente conviveram muito bem dentro dos festivais.
Até que chegou o
momento da opção. Da opção conservadora. A recusa à convivência não partiu da
linha de frente, dos compositores abertos a novas formas, criadores de uma nova
linguagem. Partiu de uma recusa do pensamento conservador, que primeiramente
eliminou a participação dos músicos inovadores e, presentemente, pela
declaração expressa de seu pensamento exclusivista.
A comissão de
seleção, como diz Dilan Camargo, se tornaram “pelotões de fuzilamento, comissão
de inquérito” em face ao novo.
Importa dizer:
Os compositores
voltados ao futuro, a uma nova linguagem, regional, gaúcha, mas renovada, nunca
se preocuparam em determinar domínio sobre os festivais.
Quem teve este
gesto, foram os tradicionalistas.
Porque para nós
todos, o violão do Glênio Fagundes, o trabalho do Telmo de Lima Freitas, dos
Angueras, e todo esse acervo de linha galponeira, foi sempre aceita, estimada e
valorizada e a recíproca não aconteceu?
Porque os
tradicionalistas temem o futuro. Sua viagem é rumo a um passado. Centauros,
lendas, heróis, e quem tentar usar uma linguagem feita de imagens novas, de
arranjos recriados, de motivos contemporâneos, passa a ser profano.
Nós aplaudimos
Esquilador, Vozes campeiras, Guri, mas para os tradicionalistas é quase
impossível encarar a existência de um Astro Haragano, Cordas de Espinho, Pampa
de Luz.
Esta
argumentação põe bem claro de onde parte a recusa.
Os fatos:
Não me tenho na
qualificação de vanguardista de nada. Cito Lukacs: “em arte importa ficar na
vanguarda das retaguardas e na retaguarda das vanguardas”.
Mas basta não
ter tido uma postura rotineira para ter sentido na pele o látego da
incompreensão. Numa narrativa pessoal comecei e vivi, prestigiado e perseguido
pelos festivais.
Na Califórnia,
“Caminho de Volta” com Marco Aurélio Vasconcellos ganhava o prêmio de melhor
letra e desclassificava por uma única razão: havia um “cello” entre os
instrumentos.
Comenta-se que
em Bagé, capital de minha infância, um tradicionalista ortodoxo, chegou a
propor um negócio, na hora da classificação: - “Faço qualquer troca, mas nunca
SERVENTIA em primeiro lugar”. A letra era profana, pois falava em rádio de
pilha, azulejo, livros contábeis.
Arte:
Creio ser necessário
definir que existe antes de tudo uma profunda e definitiva divisão de águas, no
que se refere ao conceito e função da arte, entre as partes contendoras no
âmbito da cultura gaúcha.
Parto do
princípio de que o “passado é povoado de fantasmas, o presente de máscaras e o
futuro de sonhos”.
Arte é um voo
livre. É um salto da realidade através das asas da imaginação.
Arte é uma
proposta de inauguração da vida, reproposta pela criatividade.
Desta forma,
arte é uma antecipação do futuro, muito mais que uma redescoberta do passado.
Que a arte deva
partir de uma substância histórica, de uma identificação e solidariedade de
vidas, isso é lógico e transparente. A tentativa de fazer uma arte como teriam
feito nossos antepassados, é para mim uma obstinação em animar museu. Dar
manivela nas estátuas, colocar pilhas nas lembranças.
Cada vez mais
penso que fazer arte é tocar fogo na fábrica de fogos de artifício. Isso é:
iluminar o céu e a terra com as estrelas de nossa imaginação.
Vamos e
venhamos, é bem diferente uma posição como essa, daquela que bem caracteriza os
que andam ainda em busca de mitos que perderam seu poder de imantação sobre a
mente e o coração dos homens, habitantes deste fim de século XX.
Preconceitos:
Einstein,
leia-se gênio, dizia que era mais fácil fissurar um átomo que romper um
preconceito.
Da mesma forma
que existe um preconceito nas emissoras, que separam, qual estivessem
inoculadas de doença contagiosa, a música de tema gaúcho, existe um preconceito
contra a postura inovativa. Há Moisés demais descendo a coxilha trazendo novas tábuas
da lei para dizer o que deve ser feito para manter a sacra fidelidade aos
valores fundamentais da arte tradicionalista.
Pelo amor de
Deus: a ninguém foi dado o direito de dizer a nenhum artista o que ele deve
fazer!
Respeitem a
beleza do estilo pessoal. Prestigiem a evolução criativa de cada um dos
compositores. Viabilizem a postura de cada um dos intérpretes. Um palco é um
palco, não é um altar.
Pessoalmente
Sou de alma
branda, nada dado a grandes polêmicas. Não existe ressentimento pessoal no que
dito.
Essa luta é de
postura cultural. Existem pessoas optando pela profissão de músico; pessoas
definindo-se como artistas profissionais, que estão sendo incompreendidas,
barradas, injustiçadas em nome de dogmas asfixiantes. Eu gostaria de colocar é
que é preciso e lindo que exista o tango de Gardel e a música de Piazzolla. Que
convivam, para dar âmbito e riqueza, vastidão e verdade, Pery Souza e Gaúcho da
Fronteira.
A esta altura de
minha vida, com oito livros publicados, definições claras sobre a vida e a arte,
nada peço para mim. Os festivais nada mais têm a me dar. Falo em nome de algo
maior: a cultura gaúcha e sua viabilidade.
Evento &
Legado:
Tenho dito que
um festival é seu espetáculo, mas também seu legado.
Os festivais, se
seguirem a opção conservadora, poderão, por mais uns cinco anos, manter o
brilho do espetáculo, mas estarão enterrando o movimento cultural gaúcho, em
sua extensão musical. Ao mesmo tempo em que edificam a construção de seu
evento, fazem a cova deste ciclo.
PROPOSTAS:
E me torno uma
flor de obsessão quando digo: Festival não tem proposta. Quem tem proposta é o
artista.
Festival tem
identidade, pois um festival de Taquara deverá ter uma diferenciação sobre um
festival de Uruguaiana.
É essa hedionda
história da proposta do festival que faz a munição dos fuzilamentos das
comissões de seleção, com sua guarda cativa.
Definição:
E assim chegamos
ao impasse irremediável.
Ou há uma
abertura e os festivais englobam a cultura gaúcha em sua expressão mais aberta,
ou os festivais, cada um por si, faz sua declaração conservadora de princípios,
e o grande grupo dos músicos e compositores de formação e proposta inovadora,
definem sua não participação. Jogo de regras claras. Conciliação ou rompimento.
Não estou me
precipitando, falando por conta própria, estou, isto sim, expressando uma
tendência irremediável.
Rio Grande do
Sul,
somos uma cidade
estado, meio lusos, meio espanhóis, com trajes típicos, ritmos próprios,
história diferenciada.
Isso deverá
render, artisticamente um produto cultural diferenciado. Mas diferenciado não
quer dizer ausente, de seu tempo, das grandes causas, das imensas esperanças,
das inquietações que marcam e cicatrizam o rosto de nossa época.
É preciso frisar
que ninguém tem o monopólio da afeição pelo Rio Grande.
O homem em cima
do cavalo e em cima da Asa-Delta, são da mesma maneira gaúchos.
O homem do
bandoneon e o da guitarra elétrica, conhecem o mesmo milagre da afeição por sua
terra.
O pintor
abstrato e o figurativista falam a mesma linguagem da emoção do mundo vista
pela dor.
Será difícil
compreender essa meridiana realidade?
A discriminação
que está sendo realizada, em nome do nativismo, é, antes de mais nada,
desumana.
Einstein dizia:
“Depois que
inventaram o trator é inútil aprimorar o arado”.
Existe algo de
equívoco e contraditório na postura tradicionalista ortodoxa. Empregam
microfones. Adoram ver suas promoções na TV, mas querem que a mensagem seja
feita de lembranças ou referências de episódios que datam do candeeiro, do boi
de canga, da carreta.
Viajam pelo
asfalto, mas proíbem que nele se fale.
Andam de avião,
mas querem a glorificação do cavalo.
Gravam o disco,
mas querem de forma, tema e conteúdo, datem uma expressão de mundo e vida que
anteceda a tudo isso.
Ou seja: há um
mascaramento da realidade.
Tradicionalistas
& Regionalistas:
Quando uso estas
expressões, busco não definições sociológicas, mas procuro captar
características destes contingentes.
Os
tradicionalistas são caracterizados por uma grande afeição às tradições.
Cultuam com profundidade lendas e mitos. Realizam uma ideação romântica do
passado. Assumem uma postura saudosista, lamentam a perda de um paraíso
perdido.
Encontram na
valentia dos heróis, o ciclo dourado de nossa história. E a partir daí, fazer
arte é restaurar estes tempos.
Os regionalistas
já assumem uma posição de síntese e transposição de todo o passado.
A história passa
a interessar como legado de características culturais. Acreditam na dinâmica
dos tempos. Estão despertos às dimensões do tempo: passado, presente e futuro.
Querem do gaúcho
seus elementos essenciais, mais do que o pictórico ou legendário.
Distanciam-se
dos universalistas, na medida em que estes acreditam que o mundo universalizou
a cultura, criando uma só entidade humana indiferenciada.
Em síntese: os
regionalistas tendem ao sulino como essência, os tradicionalistas, querem o
gaúcho como mito.
Difícil e
desafiador, no meu entender, é estender uma ponte entre estas tendências.
Wilde:
Oscar Wilde, quando
vítima de processo por sua obra Salomé, respondeu a seus algozes: “uma obra de
arte será ou não será bela”. Ou seja: não é moral nem imoral, é arte ou não é
arte.
Jerônimo Jardim
teve postura correta ao endossar a classificação de “Vozes Campeiras” no
Musicanto. Era uma música com letra que acredito diametralmente oposta às suas
concepções estéticas. Mas era um trabalho bem sucedido.
Assim, é hora de
dar um basta ao “isso é nativo, isso não é nativo”. É hora de dizer: é um
trabalho de nível artístico.
Stalin, Mac Arthur, Franco:
Nossos tempos
conhecem três posturas típicas da intolerância.
Stalin com o
realismo socialista asfixiou as artes russas.
Mac Arthur com
sua “caça às bruxas” corre Chaplin dos EEUU.
Os Franquistas
cantavam: “cara ao sol e guerra à inteligência”. E um de seus comentários
dizia: “Cada vez que ouço falar em cultura tenho ímpetos de puxar o revólver”.
No Brasil saímos
de 20 anos de censura. Há campo para sentir e dizer a vida em nossos festivais.
Mas uma outra censura se instaura: A censura estética, oriunda de concepções
conservadoras de arte.
Grécia:
A vida dos
gregos era talvez mais simples, rústica que a do nosso homem do campo.
Plantavam favas,
cultuavam suas terras, o mel, as casas simples. Sua arte, no entanto fez o voo
mais alto e definitivo da história da humanidade.
A tragédia grega
é um monumento da indagação das inquietações da alma humana. Ficassem os gregos
apenas falando da rotina de seus campesinos, não teriam legado sua obra.
E lembre-se: no
século de ouro, Atenas tinha apenas 500 mil habitantes.
Walt Whitman e
Maiacóviski:
São dois
gigantes. Americano o primeiro. Russo o segundo. Whitman transmitia a seus
cidadãos: “a tradição é o futuro”.
Maiacóviski
bradava do outro lado: “um novo tempo pede novas formas”. Vamos abrir os
ouvidos, a alma e o coração, a estes dois gigantes que nos gritam do corredor
do século, pedindo novas posturas.
POSTURAS:
Vejamos as
argumentações dos tradicionalistas ortodoxos: “quem quiser assistir rock que
assista. Quem quiser ouvir samba que ouça. Mas se quiser ouvir música gaúcha,
que seja música gaúcha autêntica”. O impasse surge na definição de “autêntico”.
Autêntico é o
que não se renova? É o que repete velhas estruturas? Não. Autêntico, em arte, é
o que tem ímpeto criativo. Há uma confusão entre arte ingênua e autêntica, sem
saída.
Não há arte sem
sinceridade:
A encomenda
cultural termina criando um produto artístico caricatural de tão frágil. O
artista é um ser liberato e não cativo.
O critério da
encomenda segundo regulamentos termina, à curto prazo, por criar uma arte de
oportunistas e não de criadores.
POLÊMICA:
Quero encerrar
citando Gramsci: “Precisamos acreditar na polêmica. Com ela o respeito às
ideias opostas. Se acreditarmos na dialética das ideias, temos de nos predispor
à polêmica. Quem não respeita as ideias do outro, desrespeita suas próprias
ideias”.
O movimento
cultural gaúcho, em sua manifestação musical, dentro do ciclo dos festivais,
sempre foi carente de um debate amplo e aberto. Comemos rebanhos. Dançamos e
cantamos. Esquecendo que arte é divertimento, mas é mais do que tudo, uma forma
rica de conhecimento da verdade da vida.
Fonte:
Tarca – Revista de Cultura Gaúcha – ANO III – Maio/1986 – Nº 14 - p. 21/23
MILTON SOUZA: Entre o Tradicionalismo e o Nativismo
GENTE GAÚCHA
Por
Marta Barboza
Abrimos espaço a Milton
Souza, um dos idealizadores da Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana, onde
mora e desempenha suas funções de radialista, que lhe permite inúmeros contatos
com o mundo da música regional e tradicionalista, o que de certa forma lhe dá
um “cacife” de ter participado e acompanhado todo o movimento cultural do
Estado. Portanto, um homem respeitado também pelo Movimento Nativista, razão
pela qual o classificamos como “gente gaúcha”. Leia as suas razões:
TARCA:
Milton Souza, tu és um guerreiro dos festivais, do movimento cultural do Sul.
Tu te assumes nativista ou tradicionalista?
M. SOUZA: Eu sempre
tive dúvidas nessa diferença que se faz entre o tradicionalismo e o nativismo.
Eu tenho dúvidas porque fui um dos iniciadores do movimento hoje chamado de
Nativista e me considero um tradicionalista (esse movimento nasceu dentro de
uma entidade tradicionalista que foi o Sinuelo do Pago). O movimento nativista
vem adquirindo normalmente o seu espaço. Então, quando uma pessoa me diz que é
nativista, eu o considero um homem urbano, que gosta das mesmas coisas que eu
gosto; que tem o mesmo desejo de lutar pelo desenvolvimento da nossa cultura.
Ele não é um homem diretamente ligado aos CTGs; não liga muito para detalhes
que, ainda hoje, perduram dentro do Movimento Tradicionalista, obrigando a
colocar esta ou aquela peça do vestuário masculino. Nas primeiras Califórnias
eu entendia que só poderíamos permitir no palco aquele que estivesse
devidamente pilchado. Com o correr do tempo, eu fui me ajustando e hoje eu olho
com outros olhos para um grupo que está de alpargatas, faixa ou camisa sem
lenço. Essa figura que está no palco é mais uma figura do nativista desta
geração que se criou no Rio Grande do Sul.
TARCA:
Então tu sentes melhor no lado nativista, te situas melhor nessa nova fase? Há
uma tendência muito forte do movimento no Estado, a ponto de armarem uma
reunião em porto Alegre para uma tomada de posição entre tradicionalista ou nativista?
M. SOUZA: Eu não faço
distinção quanto ao posicionamento. Eu faço distinção entre a ação das duas
coisas. Jamais poderei me colocar entre tradicionalista ou nativista, porque
assim como venho aqui colaborar com festival como jurado, eu estou em
Uruguaiana pertencendo à diretoria de um CTG. Para mim é muito difícil tomar
uma posição entre os dois movimentos. Eu vivo as duas coisas, se é que existe
essa diferença que alguns querem fazer. Agora, uma das coisas que eu não admito
é dizer que não existe nativismo no Rio Grande do Sul. Nativismo existe e está
aí. Se os CTGs dos municípios onde se realizam festivais não aderirem a esse
movimento novo, a tendência é que eles diminuam cada vez mais, porque o Movimento
não para. Eles devem, isto sim, é aderir a esta nova ideia, a este novo ângulo
das nossas tradições, do nosso folclore, dos nossos costumes com que o
Nativismo hoje se preocupa, ou seja, manter uma vivência em torno da arte, em
torno da música, em torno da poesia. Há 36 anos atrás, quando eu entrei no
tradicionalismo (era o que tinha na época) a tendência era pender para o lado
crioulo do assunto, para o lado rural.
Era cultuar pura e simplesmente o homem do campo. Hoje, para um sujeito
pertencer a um CTG, não precisa que ele seja um exímio domador, laçador ou seja
lá o que for. Ele pode ser um intelectual. Os CTGs perderam muitos valores da
cultura rio-grandense porque eles se chocavam. Aqueles que faziam o Movimento
Tradicionalista Gaúcho procuravam “engrossar”. Achavam que para ser gaúcho
tinham que falar o português errado. E não é assim! E tem gente que não
reconhece o Movimento Nativista no Rio Grande do Sul. Há uma omissão dos CTGs,
dos tradicionalistas, virando as costas para um movimento que é uma realidade,
que é esse movimento artístico-musical do Rio Grande do Sul. Se não fosse ter
criado esse movimento nativista e esse espaço para que os jovens viessem a nós,
nós estaríamos como antes de 71: dificilmente se via um jovem com um instrumento
na mão.
TARCA:
O grupo que fez a Califórnia já era, então, um grupo aberto do Tradicionalismo,
com uma outra visão, outro ponto de vista?
M. SOUZA: A nossa
preocupação era esta: nós precisávamos de mais cultura e menos “grossura”
dentro do CTG, pelo posicionamento de certos tradicionalistas do início da
época. Então, quando assumimos a direção do Sinuelo do Pago a nossa intenção
era, justamente, trabalhar em torno da cultura rio-grandense. Junto com o
Henrique de Freitas Lima e o Colmar Duarte, nos preocupamos em atrair os
colégios, dar aulas. Nós dávamos aulas de História, Geografia, Usos e Costumes,
Folclore, os índios rio-grandenses. Aí formamos um pólo cultural. Então, como
desde 63 eu tinha um programa de rádio, eu comecei a sentir dificuldade de
encontrar músicas que viessem a colaborar com a cultura do Rio Grande do Sul.
As músicas da época eram coisas muito escassas. Só existiam os conjuntos
Farroupilha, Os Gaudérios, Os Sinuelos e eram as músicas que nós utilizávamos,
4 ou 5 LPs. Aí começou a preocupação de fazermos alguma coisa para atrair
alguém, para que aquelas músicas, a nossa cultura poético-musical tivessem vez
de alguma forma. No programa de rádio, nós convidávamos pessoas para apresentações
ao vivo, para que não se repetisse tanto em um programa de uma hora. No
entanto, não surgia nada novo. Ficava difícil a produção do programa por falta
de material. Dentro do Sinuelo do Pago foi se formando, ao natural, o encontro
de pessoas com a mesma preocupação de fazer música e com condições de fazer
música. A partir desse entusiasmo resolvemos fazer alguma coisa para que
aumentasse esse material para serem rodados nos programas. E tivemos êxito
porque veio resultar na Califórnia da Canção Nativa, nome esse dado por Colmar
Duarte e que instituiu, também, o Troféu Calhandra (pássaro que canta e imita
todos os outros pássaros). Nós notávamos que, naquela época, todas as
composições eram muito saudosistas, coisas que contavam o Rio Grande do passado
e que, já naquela época, não era a realidade em que vivíamos. Nós poderíamos
ser tradicionalistas, criar outras coisas, mas dentro da realidade. Nós temos
que deixar de fazer poemas daquilo que foi, porque o gaúcho histórico não
existe mais. O monarca das Coxilhas, o sentinela dos pampas já morreu, é
histórico. Deu lugar, isto sim, para os gaúchos que somos hoje, os nativistas,
os tradicionalistas, andarmos juntos, de braços dados. Este é o gaúcho que
temos de cantar, os seus anseios, as suas esperanças. Vamos colaborar para que
conheçam mais este Rio Grande de hoje, não adianta só conhecer o Rio Grande do
passado, o Rio Grande histórico, o Rio Grande guerreiro. Nós temos de vivenciar
essa tradição nos dias atuais, com a melhor elaboração dessas composições (que
é o que leva o Rio Grande, porque a cavalo ele demoraria muito para chegar),
que a música tenha essa penetração rápida nos meios de comunicação de massa. A
gente precisa, cada vez mais, de bons trabalhos.
TARCA:
Milton, diga-nos, para encerrar, quais as expectativas para a 16ª Califórnia.
M. SOUZA: A Califórnia
é um palco aberto a todos aqueles que se ajustem aos critérios, à filosofia da
Califórnia e que levem a sua contribuição. Ela luta muito contra coisas que,
eventualmente, vêm em prejuízo da promoção, certas ideias que querem fugir das
linhas tomadas pela Califórnia. Ela sempre teve por objetivo a valorização da
música do Rio Grande do Sul. Então, a nossa preocupação é no sentido de que as músicas
que vão compor o disco da Califórnia possam ser tocadas em qualquer emissora de
rádio e em qualquer horário. Daí o porquê da gente querer trabalhos bem
acabados.
Aqui surgiu um
movimento de valorização da música e integrou-se o jovem. Por isso os festivais
não podem ser fechados, ortodoxos. Não podemos nos preocupar com minúcias de
roupas. Precisamos, isto sim, é deixar de sermos saudosistas e cantar um Rio
Grande atual, de 86, suas esperanças e seus anseios.
Fonte:
Tarca – Revista de Cultura Gaúcha – ANO III – Maio/1986 – Nº 14 - p. 7/8
A cultura gaúcha em debate - Mozart Pereira Soares (Entrevista)
Por
TUDE MUNHOZ
Entrevistei o professor
Mozart durante a edição do 1º Carijo da Canção. Cara a cara com ele, procurei
uma explicação lógica e firme para uma definição final, sobre os atritos
existentes entre tradicionalistas e nativistas. Então, caros leitores, dentro
de nossa posição editorial de sempre procurar uma maior nitidez para o
movimento cultural gaúcho, abrimos esta edição com uma explanação de MOZART
PEREIRA SOARES, homem que tem a vivência do Tradicionalismo e a perspicácia de
estudar o novo para alertar o velho. Catedrático da UFRGS, já lecionou em 16
cursos superiores diferentes (inclusive na PUC, na Universidade de Santa Maria
e Santa Catarina) e presidiu várias entidades culturais: Estância da Poesia
Crioula, Academia Riograndense de Letras, Conselho Estadual de Cultura, Casa do
Poeta Riograndense, Grêmio Literário Castro Alves, entre outras.
A
cultura gaúcha
em debate
TARCA:
O professor, que se dedica ao tradicionalismo, certamente tem acompanhado as
divergências entre os tradicionalistas e a corrente nativista. Como se
posiciona em face do problema?
MOZART: Sim, tenho
acompanhado. E me parece que existem equívocos de ambos os lados. Por isso,
acho bom clarear as coisas. Comecemos por conceituar Tradição. Mesmo sabendo que
há certo consenso a respeito. Como a etimologia nos ensina (Traditionem,
tradere) a palavra significa trazer, transportar, no caso do passado para o
presente, com vistas ao futuro, ideias, sentimentos e costumes, dignos de
perdurarem. É preciso, porém, distinguir tradição (e o tradicionalismo que é
seu culto) de imobilismo, apego a fórmulas vencidas, tentando ressuscitar a que
está realmente morto. As conquistas do passado perdurarem como exemplo e não
como modelo. Estamos cansados de ouvir que há também uma certa tendência para
se considerar o tradicionalismo como uma atitude regressiva, de volta, pura e
simplesmente, a padrões superados. Na verdade, tradicionalismo é progresso. Eu
diria que é o passado no presente e o presente no futuro. Os que o acusam de
regressão, erram ao conceituá-lo como algo estanque e imóvel, como um lago.
Recordo ao leitor que GLAUCUS SARAIVA, no “Manual do Tradicionalismo”, insistia
em considerá-lo como um rio, em seu perpétuo dinamismo, às vezes tumultuado
pelas enchentes (como o momento em que vivemos), mas sempre fecundo. É nesse
sentido que todos, individual ou coletivamente, em qualquer ponto de terra e em
qualquer época, somos tradicionalistas. Ninguém pode renunciar o seu passado.
Não é possível ao homem despir sua capa histórica. Somos produto das
experiências da espécie e cada gesto vivido no tempo está profundamente
estereotipado no inconsciente coletivo. A fórmula correta, enfim, seria “conservar,
melhorando”. Com isso, nós distinguimos os verdadeiros tradicionalistas, que
são conservadores, mas progressistas, tanto dos retrógrados, que nada
impulsionamos, como dos anárquicos incapazes de reter o que quer que seja.
TARCA:
De acordo com sua exposição, é possível distinguir-se tradicionalismo de
nativismo?
MOZART: Perfeitamente.
E não só é possível distinguir-se tradicionalismo de nativismo, como este de
regionalismo. O tradicionalismo, como se viu, é a mais abrangente dessas
posições. É uma atitude universal, comum a todos os indivíduos ou
coletividades, em qualquer tempo histórico ou espaço geográfico. Já o nativismo
diz respeito ao modo de ser de um agregado humano particular. O nativo é
autóctone, indígena, contrastando com o alienígena, com o estrangeiro, com o
forâneo. Nesse sentido, poderemos falar em nativismo brasileiro, por exemplo,
ou, ainda, brasiliano ou brasílico, para significarmos com estas duas palavras,
não o nacionalismo jurídico, mas um estilo vivencial. Nessa mesma linha de
ideias, o regionalismo vem a ser a variante localista do nativismo. Dentro do
espírito de brasilianidade nós podemos distinguir um regionalismo amazônico, um
nordestino, um caipira, um sertanejo, um gaúcho. Todos eles se distinguem uns
dos outros pelo modo de vestir, que em geral é uma imposição do meio, no modo
de morar ou de se alimentar, na linguagem, no sentir o mundo, em sua escala de
valores, em suma.
Trata-se, como se vê,
de três círculos concêntricos, tendo, portanto, entre eles, uma grande área
comum. Entre todos eles há semelhanças genéricas e diferenças específicas.
Nacionalisticamente, nós somos parecidos com qualquer parcela do território
brasileiro mas temos, para com eles, várias dissemelhanças de estilo ou
comportamento grupal, que nos permitem identificá-los a qualquer momento.
TARCA:
Todavia, o senhor não pensa, como nós, que o nativismo é o mais agressivo em
suas posições sociais, atualmente?
MOZART: Talvez isso
seja mais aparente que real. Caracterizado o Nativismo como conjunto de traços
contrastantes entre o alienígena e o indígena, não é necessário que a defesa do
que é nosso se processe pelo repúdio ao alheio. O intercâmbio social não pode
ser detido. Quer queiramos quer não, a humanidade marcha para a unidade, desde
a intelectual e religiosa, até a econômica ou linguística. Devemos receber de
bom grado toda a mensagem alheia, sem, entretanto, permitirmos sua invasão e,
muito menos, seu domínio. Teremos de passar, por exemplo, do nacionalismo
agressivo para o nacionalismo fraterno. Sejamos irmãos de todos, mantendo viva
nossa chama, nossa mensagem e nossa confiança no tempo que há de vir, pleno de
pão e paz. Sejamos, enfim, universalistas, dentro de nossas bombachas ou de
lenço no pescoço, estendendo aos outros a cuia com o “licor da fraternidade”
que é o chimarrão.
TARCA:
Acha, então, possível aos tradicionalistas aceitarem o nativismo?
MOZART: Não só é
possível, como necessário. Ambos estão pretendendo a mesma coisa, por vias
diferentes. Mas é preciso que essas duas tendências não radicalizem as coisas.
Ambos têm de procurar as convergências. Concordo que os Nativistas têm maior
ímpeto renovador, que estão pondo em evidência as questões dramáticas de novos
tempos: os sem terra, a reforma agrária, os “desgarrados do campo” vencidos na
marginália das grandes cidades, os trombadinhas, futuros assaltantes, e por aí
afora. Uma coisa, entretanto, ninguém poderá negar: é que, para fazer isso,
eles não precisariam servir-se do estilo gauchesco. Talvez até tivessem mais
força fazendo música urbana de protesto. Por outro lado, não se pode negar a
eles espaço no gauchismo. E nem impedir que as atuais gerações empreguem
recursos sonoros da atualidade. Sempre fui a favor disso, da guitarra elétrica, do
sintetizador. São muito mais bonitos e não se pode privar o povo dessas
conquistas. Não tenhamos pudor de chamá-los de maravilhosos.
TARCA:
E a gaitinha? E a rabequinha?
MOZART: Há momentos em
que eles podem e devem comparecer, até como uma nota de nostalgia, nesse caso
insuperável. Mas, para isso, é preciso muita arte.
TARCA:
E quanto às letras dos festivais, no seu aspecto tradicionalista e nativista,
que nos diz o senhor?
MOZART: De um modo
geral, nossas letras premiadas estão muitos furos acima das que hoje circulam
em discos do centro do país. Que me perdoem a tirada retórica, mas as nossas
têm melhor conteúdo e maior dignidade, isso estourado. Sempre me detenho nesse
aspecto, sem repudiar a sátira, o humor, o epigrama, e até o apimentadinho.
Estimo a letra moderna. Todos temos fome de renovação. Acho que a redondinha
está sovada demais. Para usá-la bem, só um talento como o Jayme ou o Rillo, capazes
de usarem a poesia que o povo já fez, original e inovadoramente. Para clarear
um pouco: usando esse modelo de repressão popular, os grandes são sempre
capazes de redescobertas. É o caso do Garcia Lorca, em seu “Cancioneiro
Gitano”, Antônio Nobre, no “Só”, e o nosso João da Cunha Vargas, um iletrado,
sem contaminações literárias, porque nem lia, mas de uma autenticidade incomum.
TARCA:
E quanto aos gêneros literários, concorda com os que ora se fazem em seu nome?
MOZART: Não sou
especialista. Julgo essa questão por instinto. Mas entendo que não se pode
repudiar o belo, em nome de um pretendido ritmo ou gênero genuinamente nosso,
que nem existe na forma como alguns afirmam. Se estreitarmos um pouco mais o
assunto, iremos dar na inúbia dos ameríndios. Não é verdade que todos os
gêneros e ritmos nossos vêm do mundo, da Europa, da África e até da Ásia?
Fonte:
Tarca – Revista de Cultura Gaúcha – ANO III – Maio/86 – Nº 14 - p. 4/5
Assinar:
Postagens (Atom)
Livro “O Balanço da Mata Norte – Batuque Rural na Bateria” (Rafael dos Santos, 2026)
Batuque Rural na Bateria Fonte: https://viasabertas.com.br/nossos-trabalhos/livro-o-balanco-da-mata-norte-batuque-rural-na-bateria-2026...
-
Temporariamente afastado da atividade artística, por causa da saúde abalada, nem por isso o cantor missioneiro Cenair Maicá...
-
Natural de Vila Teixeira, 7º Distrito de Passo Fundo, hoje município de Tapejara, Jesus Algacir Costa é um dos mais completos artistas...








































