quinta-feira, 12 de outubro de 2017
A Arte da Guerra (Sun Tzu)
☑ Substituir um ócio nocivo por um trabalho útil.
☑ Inimigo surpreendido é inimigo meio vencido.
☑ De manhã, os espíritos são penetrantes; à tarde, enfraquecem, e, à noite, querem voltar pra casa.
☑ Não te encarnices contra um inimigo derrotado.
☑ Por mais crítica que seja a situação e as circunstâncias em que te encontrares, não te desesperes. Nas ocasiões em que tudo inspira temor, nada deves temer. Quando estiveres cercado de todos os perigos, não deves temer nenhum.
☑ Sê prestativo, chegará a tua vez de ser recompensado.
☑ Por mais razões que tenhas para ficar irritado, por mais provocações ou insultos que recebeste, para tomar decisões espera que o fogo da cólera se dissipe e sentimentos pacíficos brotem em teu coração.
☑ Sê vigilante e esclarecido. Mostra, no exterior, segurança, simplicidade e impassibilidade. Fica sempre de sobreaviso, embora aparentes serenidade. Desconfia de tudo, apesar de pareceres confiante. Sê extremamente secreto, embora pareças fazer tudo a descoberto.
☑ Algumas vezes a gente se engana quando acredita enganar os outros.
Fonte: A arte da guerra/Sun Tzu; tradução de Sueli Barros Cassal. Porto Alegre: L&PM, 2006.
domingo, 25 de junho de 2017
PRZEWODOWSKI (Carlos Reverbel)
Os
que tiveram o privilégio de conviver com Luís Palmeiro ficaram
sabendo que a palestra informal, em roda de amigos, pode exercer o
fascínio de verdadeira obra de arte.
O
saudoso advogado, que tanto se distinguiu no ministério público e
no magistério superior, era capaz de discorrer com raro brilho sobre
qualquer assunto, mas a sua palavra, matizada de ironia e ternura,
tornava-se ainda mais colorida e pitoresca quando reproduzia
histórias de Itaqui, sua terra natal.
Se
essas histórias tivessem sido gravadas e passadas para o papel,
nenhum município rio-grandense teria o relevo de Itaqui, em termos
de transposição estilizada do folclore local.
Luís
Palmeiro criava as suas obras de arte a partir de episódios que
realmente aconteceram e terminaram se incorporando às tradições do
lugar, como o famoso bombardeio de Alvear por Przewodowski.
Foi
no tempo da Flotilha do Alto Uruguai, criada depois da Guerra do
Paraguai e cujo comando, sediado em Itaqui, dispunha de diversos
navios de esquadra, com 12 canhões de bordo e um efetivo de
numerosas praças e 72 oficiais, entre eles Saldanha da Gama,
Alexandrino de Alencar e o próprio Przewodowski.
Em
1874, estando no comando da Flotilha do Alto Uruguai, o
capitão-tenente Estanislau Przewodowski mandou bombardear a
localidade argentina de Alvear, situada do outro lado do rio. Os
tiros de canhão, desfechados por dois monitores – o “Rio Grande”
e o “Alagoas” – eram repetidos de hora em hora, com a alça de
mira em elevação, de modo a não causar vítimas nem fazer danos à
população fronteira, visando apenas, intimidar as suas autoridades.
Mas
nem por isto deixaram de configurar grave atentado à soberania do
país vizinho, criando inquietante problema diplomático entre Brasil
e Argentina. Embora absolvido no Conselho de Guerra a que respondeu,
por ter mandado bombardear uma localidade estrangeira, por conta
própria, Przewodowski desgostou-se e resolveu pedir reforma da
Marinha Nacional. Ganhou, entretanto, grande popularidade,
tornando-se famoso e sendo festejado pelas ruas como herói, não
apenas em Itaqui, mas até no Rio de Janeiro, onde fora julgado.
O
incidente foi causado pela agressão sofrida pelo oficial médico da
Flotilha do Alto Uruguai, quando se encontrava em Alvear. Como criara
fama de excelente profissional, esse médico, de nome Panfilio Freire
de Carvalho, era muito procurado, sendo chamado para atender clientes
inclusive naquela localidade Argentina.
A
fim de afastar o concorrente, médicos argentinos tramaram o
atentado, encarregando dois sicários italianos, acobertados pelas
autoridades de Alvear, de executarem o “serviço”. Przewodowski
exigiu que os criminosos lhe fossem entregues. Não sendo atendido
dentro do prazo que estabelecera, mandou abrir fogo contra a cidade
estrangeira.
O
capitão-tenente Estanislau Przewodowski, quando chegou a Itaqui,
para comandar a Flotilha do Alto Uruguai, tinha apenas 31 anos, mas
trazia uma folha de serviços de excepcional relevância, sobretudo
pela sua destacada atuação na Guerra do Paraguai, tendo recebido
todas as condecorações conferidas durante a campanha, em número de
sete ordens honoríficas. Integrado na esquadra de Tamandaré, foi
citado por atos de bravura em Humaitá e Curuzu, tendo atuado no
comando de uma canhoneira. Entretanto, ficou famoso, sendo lembrado
até hoje, não pelos seus invulgares feitos navais, mas pela sua
atividade intempestiva, mandando bombardear o então povoado de
Alvear.
O
capitão-tenente Estanislau Przewodowski era natural da Bahia, sendo
filho do polonês André Przewodowski e da brasileira Romalina
Augusta Dantas. O seu pai vivia exilado em Londres (por causa da
anexação da Polônia pela Rússia), quando foi contratado pelo
governo brasileiro, tendo realizado, entre outras obras, o traçado
da primeira ferrovia baiana e o projeto do porto de Salvador.
Depois
de deixar a Marinha de Guerra, Przewodowski formou-se em engenharia
no Rio de Janeiro, passando a exercer a profissão na Bahia, como
diretor de obras de colonização de terras e de uma companhia de
navegação fluvial. Nessa função, encarregou-se do transporte de
tropas do Exército na campanha de Canudos. E quando esteve no Rio
Grande, sediado em Itaqui, houve a rebelião do Ferrabrás, tendo a
morte do coronel Gesuino Sampaio, pelos “muckers”, coincidindo
com o bombardeio de Alvear. Também publicou um trabalho sobre a
barra de Rio Grande.
Antes
de terminar o curso de engenharia, Przewodowski esteve em Jaguarão,
para casar com dona Felicidade Perpétua Pereira de Melo, filha de um
oficial do Exército. Conheceu-a e ficaram noivos quando ele e o
futuro sogro serviam em Itaqui. Aliás, tanto ele como diversos
outros oficiais da Flotilha do Alto Uruguai marcaram época na
sociedade de Itaqui. E Przewodowski ainda se distinguiu por ser muito
afeiçoado ao teatro, levando seu interesse por essa arte ao ponto de
ter projetado e iniciado um teatro em Itaqui, concluído quando ele
não mais ali se encontrava, mas que recebeu seu nome ao ser
inaugurado. A sociedade local não esquecera o baiano, de origem
polonesa, que fizera a maior “gauchada” de que se tem notícia em
Itaqui. E o Teatro Przewodowski se encarregou de manter viva a sua
memória, naquela cidade e no Rio Grande do Sul.
(Novembro,
1978)
Fonte:
Reverbel, Carlos. Saudações Aftosas. Porto Alegre: Martins
Livreiro, 1980, p. 11/13
sexta-feira, 23 de junho de 2017
Entrevista: Domenico de Masi – Jornal Zero Hora, 15/10/2000
“Trabalha-se
muito, descansa-se pouco”
Diminuir
as horas de expediente no escritório e acrescentar diversão e
estudo ao dia a dia do trabalho. Para o sociólogo italiano, as
empresas que não prestarem atenção nisso virarão desertos de
ideias.
A
fala carismática e inflamada do italiano Domenico de Masi, professor
da Universidade de Roma, consultor de empresas e autor de livros como
O Futuro do Trabalho e
Ócio Criativo,
dificilmente deixa seus interlocutores passarem incólumes a suas
ideias.
As
reações, no entanto, podem divergir: pânico dos workaholics e
êxtase dos que sonham com mais tempo para o lazer e a criatividade,
o sociólogo do trabalho vem conquistando especialmente os
brasileiros com suas ideias nada convencionais.
-
O sistema de trabalho hoje é completamente antiquado, e por isso não
se cria nada dentro das organizações. As ideias acabam sendo
compradas de terceiros – afirma o consultor.
Nesta
entrevista, De Masi falou sobre o impacto da tecnologia e da Internet
na organização do trabalho, sobre o que é importante na formação
de um profissional brilhante e o que as empresas devem fazer para
mantê-lo.
ZH
– Como o senhor
resumiria o cenário do mercado de trabalho hoje?
Domenico
de Masi – Tenho um amigo que trabalha como executivo num banco
e uma outra amiga que é grande atriz do teatro italiano. Sempre que
os dois se encontravam em festas na minha casa ou em férias no
campo, ela me dizia: “Esse seu amigo parece sempre tão triste. A
expressão dele é tristíssima!” Na verdade, ele era a síntese do
burocrata. Trabalhava tanto que quando estava fora do seu esquema
habitual se sentia perdido. Em resumo, os profissionais hoje
descansam pouco e trabalham muito. Até as horas de descanso giram em
função do trabalho. Isso gera uma insatisfação e infelicidade
enorme, um cansaço que mina cada vez mais a capacidade de ter boas
ideias.
ZH
– O que há de
errado nas empresas de hoje?
De
Masi – Se você observar as empresas, vai ver que o marketing e
os processos de produção evoluíram, e a tecnologia avançou
incrivelmente. Enquanto isso, as políticas de recursos humanos
mudaram tão pouco que parecem as mesmas de cem anos atrás. Os
processos de produção são outros e a tecnologia permite milhões
de novas possibilidades e facilidades, mas a organização do
trabalho ainda é aquela criada pelas necessidades de uma era
anterior à nossa.
ZH
– O senhor crê que
uma mudança de hábitos esteja a caminho?
De
Masi – A Nova Economia e a Internet estão imprimindo uma
necessidade incrível de velocidade às mudanças. É uma revolução
que vai num ritmo cada vez mais veloz. Se pensarmos que as pessoas
levaram 700 anos andando em carruagens até inventarem o automóvel,
e em 70 anos os carros já andavam com mais do que o dobro da
velocidade inicial, podemos ter uma ideia de como o ritmo é e vai se
tornando cada vez maior.
ZH
– Como uma empresa
pode tentar fugir do perigo de não inovar?
De
Masi – As empresas que estimulam seus funcionários a ficar no
escritório 10, 12 horas por dia estão fadadas a transformar todos
os seus colaboradores em burocratas, exaustos e incapazes de enxergar
além do óbvio e de ter ideias brilhantes sobre o negócio em que
atuam. É uma burrice achar que o trabalho está limitado ao
expediente no escritório. O trabalho precisa ser complementado com
pelo menos dois elementos fundamentais: os processos lúdicos, que eu
resumo como jogos, e o estudo. Sem isso, o trabalho está condenado a
se confinar no escritório e se transformar numa coisa puramente
neurótica que aos poucos esgota qualquer possibilidade de prazer.
Sem esse prazer, não há criatividade possível e, com a velocidade
que as novidades da tecnologia vêm criando, os que não perceberem
isso ficarão para trás.
ZH
– O que o senhor
considera importante na formação de um profissional?
De
Masi – Quando falo em estudo não estou falando da coleção de
títulos, de ficar apenas se debruçando sobre cursos de
especialização na área de formação ou lendo livros sobre esse
assunto. Isso é importante, mas falo também de ler coisas
diferentes, assistir a filmes, conversas com as pessoas, se dar o
direito de contemplar coisas belas. Não digo só de uma bela obra de
arte, mas encontrar beleza numa cena cotidiana, conseguir encontrar
serenidade para simplesmente parar e olhar o movimento das pessoas,
da natureza. Isso é uma coisa belíssima. Estas são as coisas que
desenvolvem os sentidos, a sensibilidade e dão asas à criatividade.
ZH
– A redução da
jornada de trabalho ainda é uma enorme polêmica no mundo todo. O
senhor acha mesmo que se tornará realidade em curto prazo?
De
Masi – Hoje temos computador, Internet, milhões de facilidades
que deveriam diminuir o tempo de trabalho e não aumentá-lo. Esse
tempo que sobra deve ser aproveitado em atividades lúdicas e
diversão. Assim, as pessoas têm mais prazer e se produzem as
grandes ideias. Por que exigir um expediente de oito horas no mínimo,
com horário de entrada e saída, em vez de estipular tarefas e
prazos e deixar que os funcionários decidam como organizar seu
tempo? Além de ser menos neurótico, isso economizaria milhões em
gastos com luz, equipamentos e manutenção dos escritórios.
ZH
– Nem todas as
empresas pensam dessa forma.
De
Masi – A maioria das empresas não utiliza de forma inteligente
o que a tecnologia oferece. Acham que o lucrativo é produzir cada
vez mais com menos gente trabalhando. Isso cria profissionais
frustrados, neuróticos, estressados e que têm uma relação de
dependência e ódio com o trabalho. Burocratas, em resumo. E esses
são os piores inimigos da criatividade. Não é ficando 12 horas num
cubículo que alguém vai pensar em algo brilhante. As ideias se
produzem em qualquer lugar, menos nos escritórios.
ZH
– As organizações
saberão como aproveitar funcionários mais criativos?
De
Masi – Não basta às empresas despertar em seus funcionários
a criação de ideias. A maioria das pessoas tem uma grande
capacidade de pensar coisas fantásticas, mas uma enorme dificuldade
para colocá-las em prática (os fantasiosos) ou tem um enorme senso
prático e grande força realizadora, mas nem sempre têm ideias
brilhantes (os concretos). A empresa que conseguir unir esses dois
tipos ou que encontrar as raras pessoas que conseguem unir as duas
potencialidades verá coisas incríveis acontecerem.
ZH
– Por onde se deve
começar?
De
Masi – Os departamentos de recursos humanos deveriam começar a
pensar no que oferecer aos funcionários para que eles sejam mais
felizes. Só assim vão conseguir ter funcionários que produzem
ideias realmente eficientes. Hoje, as pessoas dedicam 90% do tempo ao
trabalho, e é preciso ter mais alegria e menos estresse. Para isso,
o RH deveria pensar em oferecer luxo aos seus funcionários. O que é
um luxo? É uma coisa que é rara. Quem consegue organizar a vida de
modo a ter mais tempo, tem mais luxo do que os que não conseguem,
por exemplo. A empresa deve se preocupar não só com isso, mas, por
exemplo, com a beleza e o espaço onde as pessoas trabalham. Os
escritórios deviam ser menos impessoais, mais agradáveis, o espaço
é muito importante no processo de criação. Outros luxos são a
maior autonomia, a segurança e a alegria. O sucesso das organizações
dependerá de sua capacidade de oferecer essas coisas aos seus
colaboradores.
Fonte:
Jornal Zero Hora, 15/10/2000
quinta-feira, 22 de junho de 2017
Ribeiro Louco - Causo (Antônio Augusto Fagundes)
Disco
voador, lá no Alegrete, dá nojo... E eu “tou” me lembrando,
nesta hora, de um rapaz que serviu comigo no glorioso Sexto Regimento
de Cavalaria. Nós “chamava” de Ribeiro Louco. Já no apelido, o
índio não é de laçar com sovéu curto. Nunca se apertava. É
capataz dum daqueles herdeiros do falecido Gregoriano Correia da
Costa, homem que deixou história lá no Alegrete.
Um
dia, pensei que ia apertar o Ribeiro. Os russos tinham largado aquele
primeiro Sputnik, e os jornais diziam que o satélite fazia: bip,
bip, bip, não sei o quê...
Fui
visitar o Ribeiro (Nós “tinha” servido em 1953).
-
Ribeiro, tu já ouviste falar que os russos largaram uma porcaria aí
pelo espaço? Não apareceu aqui?
-
Não. Quer dizer que não.
Mas
ele sentiu que esbocei um sorrizinho.
-
Não, quer dizer que não. Continuou:
-
Mas, tem uma coisa!
Digo:
“Aí vem o Ribeiro...”
-
Uma noite dessas, eu olhei
pro céu. Passou uma bola de fogo, fazia bi, bi, bi...
(Ele nem sabia que o barulho era bip,
mas “ouviu de orelha” e já aproveitou pra me...). Fazia bi,
bi, bi, e eu estou que era o tal
de “satel”.
Este
era o Ribeiro Louco, cujo sonho na vida era falar com um tripulante
de disco voador. E realizou este sonho...
Cousa
de umas três, quatro semanas, ele estava sestiando. A
patroa “veia” tinha ido visitar uns parentes. Andava um, meio
atentado lá no Alegrete e ele ficou meio sozinho no rancho.
O
Ribeiro mora cerca de uns trinta, trinta e cinco quilômetros do
Alegrete, lá no rumo dos Pinheiros, e ouviu um zunido. (Isso, ele me
contou e jurou que queria cair morto no meio de quatro “vela”,
que era verdade). Uma luz que clareou tudo em derredor.
“É
o tal disco voador. Hoje converso com essa gente”, pensou.
Saiu
pra fora e tinha, como é que vamos dizer, capa de circo de
borlantim, a tal coisa, mas só a parte de cima. E tudo clareando e
branquinho que parecia um queijo recém-feito.
Aquilo
veio descendo, veio descendo.
O
Ribeiro olhou pra cima, no meio das nuvens. Parecia um charutão bem
grande. Bem escuro. Cheio de “janelinha” iluminada.
Olhou
pro disco e o disco veio. Parou bem no potreiro. Espantou uma vaca
mansa que tinha por ali e um petiço aguateiro.
Desce
uma escadinha pro chão. Aquela escadinha sai do disco e vem direto
ao Ribeiro Louco. Um homenzinho verdinho, mais ou menos dessa
alturinha (com mais escamas que traíra das graúdas) e duas
guampinhas que não paravam de se mexer pra tudo que era lado.
-
É a cousa mais
engraçada, me dizia o Ribeiro Louco. Não falei com ele, e ele não
falou comigo. A gente se entendia só pelo “célebro”!
O
gaúcho da minha zona é muito tímido, mas é muito metido. Ele mete
o cavalo, mesmo! Já sai dizendo o que não é da conta dele.
“Ainda
que mal pergunte” (pensou o Ribeiro e transmitiu a pergunta ao
verdinho), “não é da minha conta, o amigo vem de onde?”
“Venho
de um planeta não sei o quê, lá perdido não sei onde, e este meu
disco, minha nave pequena, saiu daquela nave grande que está lá em
cima do Alegrete. Parada.”
“HANNNNNNNN...
(O Ribeiro não entendeu coisíssima nenhuma). HANNNNN...
Ainda que mal pergunte, que
não é da minha conta, o amigo tem essas guampinhas como pra o quê?”
Aí
o verdinho explicou: “Isso que o senhor chama de guampinhas são
minhas antenas. Uma, “tá” ligada aqui na nave-mãe que “tá”
sobrevoando o Alegrete. A outra, “tá” ligada lá no meu planeta
XYZ, de origem, à
outra antena. Sempre, as duas, transmitindo notícias. Eu, assim, sou
sempre o primeiro a saber.”
Aí,
parou e olhou o Ribeiro Louco: “Por quê? Vocês aqui no Alegrete
não tem dessas guampinhas?”
“Não,
algum tem, mas é sempre o último a saber...”
quarta-feira, 21 de junho de 2017
O Amado (Adroaldo Furtado Fabrício)
O nome do naturalista René
Bonpland é mais conhecido sobretudo em ligação com o de Alexander
von Humboldt, de quem foi companheiro em suas andanças, pesquisas e
aventuras pelo Brasil-colônia, em torno de 1800. Viajavam e
trabalhavam juntos, inclusive, quando foram presos por uma guarnição
militar portuguesa no coração da Amazônia e tiveram apreendido
todo o seu equipamento, permanecendo sob custódia por vários meses,
até que se convencessem os lusos da natureza inofensiva das
atividades a que se dedicava a dupla. Não é de se estranhar, aliás,
que levantassem as piores suspeitas aqueles dois estrangeiros
malucos, a vagar pelos confins da floresta virgem com sua aparelhagem
esquisita, examinando bichos e plantas.
Mas parece que René Bonpland não
era seu verdadeiro nome. Chamava-se realmente Aimé Jacques Alexandre
Goujand, nascido em La Rochele em 1773. Depois de sua acidentada
parceria da juventude com Humboldt, voltou à França, onde exerceu
funções públicas de certa importância (consta que chegou a ser
Intendente dos Domínios da Imperatriz Josefina). Mas sua vocação
andeja revelou-se mais forte: ele retornou ao Brasil na década de
1820, iniciando aqui seu talvez mais longo período de relativo
sedentarismo, que se prolongou até a sua morte, em 1842. Veio
acompanhado de quatro jovens, das famílias Brandon (depois e aqui
Brandão), Jacques e Balbé, cujas numerosas descendências são bem
conhecidas no Estado e particularmente na região missioneira.
O que tem isso a ver com
Bossoroca? Pois foi à margem do rio Piratinim, perto da
desembocadura do Lajeado Godói – portanto, em terras hoje
pertencentes a esse Município – que o andarengo incorrigível
finalmente deitou raízes, ou pelo menos reduziu o raio de suas
incursões. Na região, ficou conhecido como Amado Bonpland (o que
parece confirmar o prenome francês Aimé),
estabeleceu excelentes
relações com a população local, praticou caritativamente a
medicina e ganhou a irrestrita simpatia de todos, ricos e pobres.
Segundo a tradição oral colhida e perpetuada por Monsenhor
Estanislau Wolski em sua Polianteia Missioneira,
Bonpland manteve essa residência até cerca de 1835, quando se
transferiu para uma chácara nos arredores da cidade de São Borja.
Aí terminou seus dias em 1842.
Durante
todos esses anos, mais de vinte, mesmo abstendo-se de viagens mais
longas, nunca deixou de embrenhar-se frequentemente pelas matas da
região, movido pela compulsão da pesquisa e do estudo de campo.
Permanecia dias, semanas ou meses acampado, só ou na companhia de
poucos companheiros, identificando e comparando espécies animais e
vegetais. Nunca mais voltou à sua Europa natal, e seus restos
mortais repousam
num cemitério
de Libres, Argentina, para onde seu corpo foi conduzido embalsamado,
por razões desconhecidas.
Fonte:
Fabrício, Adroaldo Furtado. Causos da Bossoroca e de outras
querências. Porto Alegre: AGE, 1999, p. 120/121
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EBOOK NOSSO PAMPA DESCONHECIDO (Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul)
https://www.sema.rs.gov.br/upload/arquivos/201708/25130950-nosso-pampa-desconhecido.pdf Org. Luiza Chomenko & Glayson Ariel Bencke Fo...
-
Temporariamente afastado da atividade artística, por causa da saúde abalada, nem por isso o cantor missioneiro Cenair Maicá...
-
Natural de Vila Teixeira, 7º Distrito de Passo Fundo, hoje município de Tapejara, Jesus Algacir Costa é um dos mais completos artistas...


















































