Postergar não é se entregar à preguiça. Quem procrastina faz muitas
coisas, só não o que deveria. Eis algumas dicas para fazer hoje o que
você costuma deixar para depois
Liste as missões fáceis e as quase impossíveis –
Procrastine, mas de maneira estruturada. Autor
de “A Arte da Procrastinação”, o professor de Stanford, John Perry,
sugere que você faça “esse mal funcionar para você”. Coloque na sua to do list
tanto as tarefas simples de concluir (como regar as plantas), quanto
aquelas que lhe causam temor ou aversão. Fica mais fácil enfrentar o
monstro da lista quando você está feliz por riscar outros itens.
Divida uma tarefa complexa em pequenos passos –
Repensar o tamanho de uma tarefa, dividindo-a em
nacos que possam ser abocanhados, digeridos e celebrados – o que os
psicólogos comportamentais chamam de microscheduling – ajuda.
Planejar um grande projeto em etapas curtas é uma maneira de reduzir a
ansiedade e de controlar a impulsividade. Pessoas mais impulsivas
costumam procrastinar em busca de um prazer imediato. Afinal, por que
esperar a conclusão de uma árdua tarefa se podemos sentir algo parecido,
em menor escala, rolando o feed do Instagram? Para esses casos, a dica é
associar uma recompensa a cada item concluído. Vale um chocolate, um
happy hour (virtual, afinal é o que dá no momento) ou um cochilo de
cinco minutos no sofá.
Evite distrações e a lenda do multitarefa –
Um estudo no “Journal of Experimental Psychology” concluiu que ser “multitarefa” é pouco eficiente,
já que o cérebro demora para mudar completamente de uma tarefa para
outra, o que pode custar 40% do tempo produtivo. Evite ter muitas coisas
para enfrentar ao mesmo tempo. É o que os psicólogos chamam de
“controle de estímulos”: quanto menos tentações estiverem disponíveis
(um chat aberto, uma página de notícias ao lado do seu Excel ou o
Whatsapp no desktop), mais fácil focar no que se precisa ser feito.
Faça pausas, dê uma caminhada, desconecte-se –
O corpo leva 90 minutos para ir de um estado de
atenção total para a fadiga, como explica Tony Schwartz, autor do livro
“The Way We’re Working Isn’t Working”. O ideal seria alternar uma hora e
meia de foco total com 20 minutos de descanso. Método similar à Técnica Pomodoro (pense no popular cronômetro gastronômico na forma de um tomate, pomodoro
em italiano), que sugere colocar um cronômetro para 25 minutos,
trabalhar em uma única tarefa com todo o foco possível e, ao final,
parar por cinco minutos. Depois, repetir o ciclo.
Uma pesquisa publicada em 2016 no “International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity” apontou que levantar a cada hora e caminhar por cinco minutos melhora o humor e combate a letargia, sem reduzir a atenção.
Descubra o que te faz deixar coisas para depois –
Todos procrastinam, em maior ou menor escala. Muitos de nós, inclusive, “herdam” geneticamente a tendência,
segundo estudo do Dr. Daniel Gustavson, da Universidade do Colorado.
Mas é preciso acreditar que algo pode mudar. “Faça uma reavaliação
cognitiva”, escreve a professora e psicóloga na Universidade de
Sheffield, Fuschia Sirois. Entenda o que sente, rotule o sentimento que
impede a realização da tarefa e lide com ele.
‘Somos cada vez menos felizes e produtivos porque estamos viciados na tecnologia’
Diana Massis
Da BBC News Mundo
"Há um usuário novo, uma notícia
nova, um novo recurso. Alguém fez algo, publicou algo, enviou uma foto
de algo, rotulou algo. Você tem cinco mensagens, vinte curtidas, doze
comentários, oito retweets. (...) As pessoas que você segue seguem esta
conta, estão falando sobre este tópico, lendo este livro, assistindo a
este vídeo, usando este boné, comendo esta tigela de iogurte com
mirtilos, bebendo este drinque, cantando esta música."
O cotidiano digital descrito pela jornalista espanhola Marta Peirano, autora do livro El enemigo conoce el sistema
(O inimigo conhece o sistema, em tradução livre), esconde na verdade
algo nada trivial: um sequestro rotineiro de nossos cérebros, energia,
horas de sono e até da possibilidade de amar no que ela chama de
"economia da atenção", movida por tecnologias como o celular.
Nesse
ciclo, os poderosos do sistema enriquecem e contam com os melhores
cérebros do mundo trabalhando para aumentar os lucros enquanto
entregamos tudo a eles.
"O preço de qualquer coisa é a quantidade de vida que você oferece em troca", diz a jornalista.
Desde
os anos 90, quando descobriu a cena dos hackers em Madri, até hoje, ela
não parou de enxergar a tecnologia com um olhar crítico e reflexivo.
Seu livro narra desde o início libertário da revolução digital até seu
caminho para uma "ditadura em potencial", que para ela avança aos
trancos e barrancos, sem que percebamos muito.
Marta Peirano foi uma das participantes do evento Hay Festival
Cartagena, um encontro de escritores e pensadores que aconteceu na
cidade colombiana entre 30 de janeiro e 2 de fevereiro. A seguir, leia a
entrevista concedida à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.
BBC News Mundo - Você diz que a 'economia da atenção' nos rouba horas de sono, descanso e vida social. Por quê?
Marta Peirano - A
economia da atenção, ou o capitalismo de vigilância, ganha dinheiro
chamando nossa atenção. É um modelo de negócios que depende que
instalemos seus aplicativos, para que eles tenham um posto de vigilância
de nossas vidas. Pode ser uma TV inteligente, um celular no bolso, uma
caixinha de som de última geração, uma assinatura da Netflix ou da
Apple.
E eles querem que você os use pelo maior tempo possível, porque é assim que você gera dados que os fazem ganhar dinheiro.
BBC News Mundo - Quais dados são gerados enquanto alguém assiste a uma série, por exemplo?
Peirano - A
Netflix tem muitos recursos para garantir que, em vez de assistir a um
capítulo por semana, como fazíamos antes, você veja toda a temporada em
uma maratona. Seu próprio sistema de vigilância sabe quanto tempo
passamos assistindo, quando paramos para ir ao banheiro ou jantar, a
quantos episódios somos capazes de assistir antes de adormecer. Isso os
ajuda a refinar sua interface.
Se chegarmos ao capítulo quatro e
formos para a cama, eles sabem que esse é um ponto de desconexão. Então
eles chamarão 50 gênios para resolver isso e, na próxima série,
ficaremos até o capítulo sete.
BBC News Mundo - Os maiores cérebros do mundo trabalham para sugar nossa vida?
Peirano - Todos
os aplicativos existentes são baseados no design mais viciante de que
se tem notícia, uma espécie de caça-níquel que faz o sistema produzir o
maior número possível de pequenos eventos inesperados no menor tempo
possível. Na indústria de jogos, isso é chamado de frequência de
eventos. Quanto maior a frequência, mais rápido você fica viciado, pois é
uma sequência de dopamina.
Toda vez que há um evento, você recebe
uma injeção de dopamina — quanto mais eventos encaixados em uma hora,
mais você fica viciado.
BBC News Mundo - Todo tuíte que
leio, todo post no Facebook que chama minha atenção, toda pessoa no
Tinder de quem gosto é um 'evento'?
Peirano - São
eventos. E na psicologia do condicionamento, há o condicionamento de
intervalo variável, no qual você não sabe o que vai acontecer. Você abre
o Twitter e não sabe se vai retuitar algo ou se vai se tornar a rainha
da sua galera pelos próximos 20 minutos.
Não sabendo se receberá uma recompensa, uma punição ou nada, você fica viciado mais rapidamente.
A
lógica deste mecanismo faz com que você continue tentando, para
entender o padrão. E quanto menos padrão houver, mais seu cérebro ficará
preso e continuará, como os ratinhos na caixa de [B.F.] Skinner, que
inventou o condicionamento de intervalo variável. O rato ativa a
alavanca obsessivamente, a comida saindo ou não.
BBC News Mundo - Os adultos podem entender isso, mas o que
acontece com as crianças que apresentam sintomas de abstinência quando
não estão conectadas ao Instagram, YouTube, Snapchat, Tik Tok por
exemplo?
Peirano - As redes sociais são
como máquinas caça-níqueis, quantificadas na forma de curtidas,
corações, quantas pessoas viram seu post. E isso gera um vício especial,
porque trata-se do que a sua comunidade diz — se o aceita, se o
valoriza. Quando essa aceitação, que é completamente ilusória, entra em
sua vida, você fica viciado, porque somos condicionados a querer ser
parte do grupo.
Eles [as empresas] conseguiram quantificar essa avaliação e transformá-la em uma injeção de dopamina. As crianças
ficam viciadas? Mais rápido do que qualquer um. E não é que elas não
tenham força de vontade, é que elas nem entendem por que isso pode ser
ruim.
Não deixamos nossos filhos beberem Coca-Cola e comer balas
porque sabemos que o açúcar é prejudicial; mas damos a eles telas para
serem entretidos, porque dessa forma não precisamos interagir com eles.
BBC News Mundo - E o que podemos fazer?
Peirano - Interagir
com elas. Uma criança que não tem uma tela fica entediada. E uma
criança entediada pode ser irritante, se você não estiver disposto a
interagir com ela, porque talvez você prefira estar fazendo outras
coisas.
BBC News Mundo - Olhando para sua própria tela, por exemplo?
Peirano - Vemos
famílias inteiras ligadas ao celular e o que está acontecendo é que
cada um está administrando seu próprio vício. Todo mundo sabe que os
jogos de azar são ruins, que a heroína é ruim, mas o Twitter, o
Facebook, não — porque eles também se tornaram ferramentas de
produtividade.
Então, eu, que sou jornalista, quando entro no
Twitter é porque preciso me informar; a cabeleireira no Instagram estará
assistindo a um tutorial; há uma desculpa para todos.
O vício é o
mesmo, mas cada um o administra de maneira diferente. E dizemos a nós
mesmos que não é um vício, mas que estamos ficando atualizados e mais
produtivos.
BBC News Mundo - Poderíamos nos caracterizar como viciados em tecnologia?
Peirano - Não
somos viciados em tecnologia, somos viciados em injeções de dopamina
que certas tecnologias incluíram em suas plataformas. Isso não é por
acaso, é deliberado.
Há um homem ensinando em Stanford (universidade) àqueles que criam startups para gerar esse tipo de dependência.
Existem
consultores no mundo que vão às empresas para explicar como provocá-la.
A economia da atenção usa o vício para otimizar o tempo que gastamos na
frente das telas.
BBC News Mundo - Como você fala no livro, isso também
acontece com a comida, certo? Somos manipulados por cheiros,
ingredientes, e nos culpamos por falta de vontade e autocontrole (na
dieta, por exemplo).
Peirano - É quase um ciclo de abuso, porque a empresa contrata 150 gênios para criar um produto que gera dependência instantânea.
Seu
cérebro é manipulado para que a combinação exata de gordura, açúcar e
sal gere uma sensação boa, mas como isso [a combinação] não nutre o
corpo, a fome nunca passa, e você experimenta um tipo de curto-circuito:
seu cérebro está pedindo mais, porque é gostoso, mas o resto do seu
corpo diz que está com fome.
Como no anúncio da Pringles, "Once
you pop, you can't stop" [depois que você abre, não consegue parar, em
tradução livre]. O que é absolutamente verdade, porque abro um pote e
até que eu o coma inteiro, não consigo pensar em outra coisa.
Então,
dizem: 'bem, isso é porque você é um glutão'. O pecado da gula! Como
você não sabe se controlar, vou vender um produto que você pode comer e
comer e não fará você engordar, os iogurtes light, a Coca-Cola sem
açúcar.
E a culpa faz parte desse processo. No momento, no Vale
do Silício, muitas pessoas estão fazendo aplicativos para que você gaste
menos tempo nos aplicativos. Esse é o iogurte.
BBC News Mundo - Essa conscientização, de entender como funciona, ajuda? É o primeiro passo?
Peirano - Acho que sim. Também percebo que o vício não tem nada a ver com o conteúdo dos aplicativos.
Você
não é viciado em notícias, é viciado em Twitter; não é viciado em
decoração de interiores, é viciado em Pinterest; não é viciado em seus
amigos ou nos seus filhos maravilhosos cujas fotos são postadas, você é
viciado em Instagram.
O vício é gerado pelo aplicativo e, quando
você o entende, começa a vê-lo de maneira diferente. Não é falta de
vontade: eles são projetados para oferecer cargas de dopamina, que dão
satisfação imediata e afastam de qualquer outra coisa que não dá isso na
mesma medida, como brincar com seu filho, passar tempo com seu
parceiro, ir para a natureza ou terminar um trabalho — tudo isso exige
uma dedicação, já que há satisfação, só que não imediata.
BBC News Mundo - De tudo o que você cita, manipulações, vigilância, vícios, o que mais a assusta?
Peirano - O
que mais me preocupa é a facilidade com que as pessoas estão
convencidas a renunciar aos seus direitos mais fundamentais e a dizer:
quem se importa com meus dados? Quem se importa com onde eu estive?
Há
40 anos, pessoas morriam pelo direito de se encontrar com outras
pessoas sem que o governo soubesse suas identidades; pelo direito de ter
conversas privadas ou pelo direito de sua empresa não saber se há uma
pessoa com câncer em sua família.
Custou-nos muito sangue para
obtê-los (os direitos) e agora estamos abandonando-os com um
desprendimento que não é natural — é implantado e alimentado por um
ecossistema que se beneficia dessa leveza.
BBC News Mundo -
Quando você envia um email, sabe que outros podem lê-lo, mas de fato
pensamos: quem se importará com o que eu escrevo?
Peirano - Ninguém
realmente se importa, até o momento que se importe, porque todo esse
material é armazenado e, se estiver disponível para o governo, ele terá
ferramentas para contar qualquer história sobre você. E você não poderá
refutá-lo.
Se o governo quiser colocá-lo na cadeia porque você
produz um material crítico, ele pode encontrar uma maneira de vinculá-lo
a um terrorista. Bem, talvez seus filhos tenham estudado juntos por um
tempo e possa ser mostrado que as placas dos seus carros coincidiram
várias vezes na mesma estrada por três anos. Nesse sentido, seus dados
são perigosos.
BBC News Mundo - Você diz no livro que "2,5 quintilhões de
dados são gerados todos os dias", incluindo milhões de e-mails, tuítes,
horas de Netflix e pesquisas no Google. O que acontece com tudo isso?
Peirano - Estamos
obcecados com nossos dados pessoais, fotos, mensagens... Mas o valor de
verdade é estatístico, porque suas mensagens, com as de outras bilhões
de pessoas, informam a uma empresa ou a um governo quem somos
coletivamente.
Eles os usam primeiro para os anunciantes. E depois para criar previsões, porque este é um mercado de futuros.
Eles
sabem que quando, em um país com certas características, o preço da
eletricidade sobe entre 12% e 15%, acontece X; mas, se sobe entre 17% e
30%, outra coisa Y acontece. As previsões são usadas para manipular e
ajustar suas atividades — para saber, por exemplo, até onde você pode
prejudicar a população com o preço das coisas antes ela se revolte
contra você ou comece a se suicidar em massa.
BBC News
Mundo - Como o que aconteceu no Chile, com manifestações motivadas
inicialmente pelo aumento no preço da passagem do metrô..?
Peirano - Talvez
o governo chileno não esteja processando dessa maneira, mas o Facebook
está, o Google está — porque todas as pessoas na rua têm o celular no
bolso. E elas o carregaram durante os últimos anos de sua vida.
O
Facebook sabe em que bairros aconteceu o que e por quê; como as pessoas
se reúnem e como se dispersam; quantos policiais precisam chegar para
que a manifestação se dissolva sem mortes.
BBC News Mundo - Mas quem está disposto a ficar sem o celular, a internet? Qual é o caminho para o cidadão normal?
Peirano - O
problema não é o celular, não é a internet. Todas as tecnologias das
quais dependemos são ferramentas da vida contemporânea, voluntariamente
as colocamos em nossos celulares. Mas elas não precisam da vigilância
para funcionar, nem precisam monitorar você para prestar um serviço.
Eles não precisam disso, o que acontece é que a economia de dados é
muito gulosa.
BBC News Mundo - Os negócios são tão lucrativos que vão continuar a fazê-lo da mesma maneira ainda que tentemos impor limites?
Peirano - É
muito difícil para um governo enfrentar tecnologias que facilitam esse
controle populacional, que é interessante. Mas a ideia é exigir que isso
aconteça.
Se, agora, você desativar todos os sistemas de geolocalização do seu celular, eles continuarão a geolocalizá-lo.
Assim
como no Facebook ou no Twitter, em que você pode bloquear o que posta
para algumas pessoas ou para todos — somente você... e o Facebook veem. O
que acontece nos centros de dados deles, acontece para você e para
eles. Você não pode bloquear o Facebook, porque você está no Facebook.
BBC News Mundo - Você está sugerindo que precisamos nos rebelar e exigir privacidade?
Peirano - Mas não contra empresas. É natural que elas se beneficiem de uma fonte de financiamento tão barata e gloriosamente eficaz.
O
que não é natural é que um governo destinado a proteger os direitos de
seus cidadãos o permita. E a questão é que cada vez mais governos chegam
ao poder graças a essas ferramentas.
Então, o que deve ser feito?
Precisamos começar a transformar essa questão fundamental em um debate
política nos níveis local e mais amplo, ou seja, em ação coletiva, ação
política.
BBC News Mundo - Esse debate está acontecendo em algum lugar do mundo?
Peirano - Nas
primárias democratas da campanha presidencial dos EUA deste ano, essa é
uma das questões cruciais. Está em debate se essas empresas devem ser
gerenciadas de outra maneira ou serem fragmentadas, porque além de tudo
também são um monopólio.
No entanto, na Europa e na América
Latina, nos cansamos de falar sobre notícias falsas, seus efeitos,
campanhas tóxicas... Na Espanha, houve três eleições gerais em três anos
e nenhum político fala sobre isso.
BBC News Mundo - O sistema é nosso inimigo, então?
Peirano - Somos
integrados a e dependemos de sistemas que não sabemos como funcionam ou
o que querem de nós. Facebook, Google e outros dizem que querem que
nossa vida seja mais fácil, que entremos em contato com nossos entes
queridos, que sejamos mais eficientes e trabalhemos melhor, mas o
objetivo deles não é esse, eles não foram projetados para isso, mas para
sugar nossos dados, nos manipular e vender coisas.
Eles nos exploram e, além disso, somos cada vez menos felizes e menos produtivos, porque somos viciados [na tecnologia].
Ser
alguém com quem as pessoas gostam de conversar
parece ser algo natural. Basta ser você mesmo e demonstrar interesse
pelo que as outras pessoas têm a dizer.
Certo?
Certo.
Mas
isso parece bem mais simples na teoria do que na prática. Como é
possível se comunicar e desenvolver melhor as conversas — ainda
mais em tempos de muita lacração e palestrinha e de pouca escuta?
Preparamos
um guia para te ajudar em conseguir uma comunicação mais efetiva.
1.
Entenda as camadas que podem compor uma conversa
O
primeiro passo, talvez, seja entender quais são os temas que podem
render o papo e por onde é mais seguro seguir.
A
primeira camada é a mais superficial, e também a mais confortável.
Aqui, vale discutir qualquer novidade que esteja bombando na cultura
pop, como foi o desempenho do seu time no último jogo, o que esperar
do clima e qualquer outra experiência mais banal. Sabe o clichê de
“conversa de elevador”? A primeira camada é exatamente isso!
Na
segunda camada, você já pode testar se debruçar por temas que
demandam mais argumentos - e também mais escuta - por seu potencial
de controvérsias. Inclua: religião, política e até mesmo
relacionamentos. A principal dica para avançar por esses temas é o
bom senso. Preste atenção se as outras pessoas estão dispostas a
discutir o noticiário com ênfase, ou se só preferem falar do
último lançamento do Tarantino. Se for este o caso, não tem
problema. Se você sentir abertura, vá adiante, escute e opine
também. Sempre respeitosamente.
Depois,
a terceira camada. Pode parecer que só os corajosos adentram por aí,
mas essa é talvez a sua grande oportunidade de construir intimidade
com outras pessoas. Experimente, por que não, falar sobre si, e não
só perguntar do outro. Isso pode deixar as pessoas mais à vontade
para compartilhar. Mas não seja egocêntrico. É como se fosse uma
tentativa de “abrir espaço” para que a conversa se torne
confortável — para que família, saúde, emoções e vida
profissional ganhem mais espaço no diálogo.
Outra
dica bem básica é evitar perguntas que coloquem outras pessoas em
uma saia justa. Em vez de questionar: “Como anda sua noiva?”, ou
“E aí, foi promovido?”, experimente perguntar: “E aí, me
atualiza da sua vida?” ou “Me conta as novidades do seu
trabalho?”.
Lembrete
mental: A forma como a gente se comunica é tudo.
2.
Seja mais interessado para ser mais interessante
É
isso. Uma escuta atenta faz toda a diferença.
Sabe
aquela sensação de cansaço e exaustão quando a gente deixa uma
roda de conversa? Talvez alguns introvertidos possam se identificar
comigo, mas isso vale também para os extrovertidos.
Às
vezes, temos tanta pressa em expor os nossos pontos e deixar claro o
que queremos dizer que falamos demais e ouvimos “de menos”.
Depois, vem aquele sentimento de ressaca moral: será que eu deveria
ter dito tudo aquilo?
Para
evitar essas sensações, o melhor é ouvir mais e esperar o outro
compartilhar também os seus pontos de vista.
O
estudo “Diálogo:
Conexão que atravessa bolhas” traz um ensinamento importante.
Precisamos nos afastar de uma escuta colonizadora (que muitas vezes é
autoritária e sempre parte do ‘eu’) para uma escuta
transformativa (mais inclusiva).
“A
escuta colonizadora é um modelo falacioso em que se ouve o outro a
partir da própria perspectiva, já a “escuta transformativa”,
que inclui o outro como relevante, necessário e pertencente, é
operar um movimento contra-narcísico”, explica Christian Dunker,
psicanalista e professor titular de Psicologia da Universidade de São
Paulo.
Ou
seja, praticar uma escuta ativa de verdade é não apenas ouvir o
outro, mas tentar afastar as nossas perspectivas, o nosso
pré-julgamento, e estar aberto ao que está sendo dito, de fato.
3.
Afaste a ideia de querer ser o sabe-tudo, o ‘lacrador’ da roda de
conversa
É
sério, todos nós já nos irritamos com alguém em uma roda de
conversa. Mas e quando nós somos essa pessoa? Sim, isso também
acontece...
Sabe
aquela brincadeirinha do “bastão” da palavra? Ela também
funciona na vida adulta. Tudo bem a gente ter as nossas convicções,
mas o outro sempre terá um ponto interessante a acrescentar, mesmo
que seja divergente. Portanto, evite ser o lacrador da roda —
aquele que sabe tudo, que sempre tem razão.
Ter
empatia, no entanto, não quer dizer sobrepor todos os limites. Se o
comentário do outro é uma ofensa, por exemplo, ai é hora de se
preservar. Não precisamos aceitar tudo que é dito.
Mas,
em geral, o que vai fazer a diferença em uma boa conversa é a nossa
capacidade de estar presente, de se fazer atento. Olho no olho,
curiosidade, perguntas e reflexões compartilhadas são bons
ingredientes.
Em
temas controversos, uma boa saída é pensar e formular o seu ponto
de vista na hora de apresentá-lo. Mas ser incisivo também é uma
opção, desde que não desrespeite ninguém.
Por
exemplo, se você quiser colocar uma posição que considera mais
dura, experimente dizer: “Eu acho que a verdade é essa. Mas o que
você acha?”.
No
mais, quer você ame ou odeie, os diálogos são importantes.
Uma
boa conversa pode te render amigos para toda a vida, parceiros de
negócios e até alguns crushs.
No
fim, o mais importante é estabelecer conexões. Vá em frente.
Converse!
Então
quer dizer que você respondeu aquele email de trabalho com
comentários desnecessários para a pessoa errada. Ou quer dizer que
você perdeu completamente a noção do horário e se atrasou para a
reunião mais importante do dia. Ainda, aquela discussão com o seu
parceiro na noite anterior foi longe demais e você disse coisas que
não queria ter dito.
Parece
que o seu mundo vai acabar, certo? Errado.
É
claro que todos nós sabemos que isso não é verdade. Todo mundo
erra de vez em quando e provavelmente isso acontecerá com você mais
vezes do que gostaria. Os nossos erros raramente são tão
catastróficos quanto a dimensão que damos a eles. E isso não quer
dizer que nós deixamos de ser responsáveis pelas consequências de
nossas falhas.
Embora
seja verdade que há erros mais significativos que os outros, eles
não precisam ser tratados como os desastres que vão acabar com a
nossa vida.
Então,
o melhor que pode ser feito é respirar fundo e descobrir como lidar
com essa situação.
O
que fazer quando percebemos que cometemos um erro
Talvez,
o primeiro passo seja realmente parar um pouco e examinar o erro.
“Existem
muitas maneiras de errar. A primeira coisa é tentar entender o que
aconteceu e o que nós estamos chamando de erro”, explica o
cientista social Luis Mauro Sá Martino em entrevista ao HuffPost
Brasil.
Segundo
Sá Martino, existem vários tipos de erros e saber exatamente o que
nós fizemos nos ajuda a lidar com as consequências, como os
sentimentos de culpa, remorso e aquela vontade de voltar no tempo e
refazer as coisas.
Há
aquelas circunstâncias em que a gente erra sem saber. Muitas vezes,
a gente não tem acesso a todas as informações sobre algo e
acabamos errando, por exemplo.
Outra
situação é quando erramos porque naquele momento nós não
raciocinamos direito, acabamos nos deixando levar por uma emoção e
cometemos um equívoco.
Ainda,
há outro tipo que é quando a gente erra sem motivo aparente.
Tendemos a achar que somos seres super racionais, mas, às vezes, os
motivos de nossas falhas estão muito mais em nosso inconsciente, na
nossa personalidade, na subjetividade que compõe cada um.
“Primeiramente,
nós temos que pensar o que estamos chamando de erro. Será que não
atingir um patamar que é muito alto e que colocaram para mim, e não
que eu coloquei, é um erro? Ou será que as condições não me
permitiram acertar?”, questiona Sá Martino.
Mas
será que realmente a culpa é sempre nossa?
Talvez,
uma das fontes de culpa contemporânea mais angustiantes é a
construção de patamares inatingíveis e a sensação que todos
devemos ser super-humanos aos 30 anos.
Isso
é irreal, mas a frustração que vem com toda essa situação e a
sensação de que nunca somos bons o suficiente é esmagadora. É
cômodo achar que a culpa de tudo é nossa.
“Diante
de um erro, é importante questionar se, nessa condição, você
poderia acertar. Se não há escolha, não existe culpa. Esse é um
ponto clássico da ética. Eu sou inteiramente responsável por
minhas escolhas, claro. Mas isso quando eu tenho escolha”, enfatiza
o cientista social.
A
nossa ideia de culpa, então, estaria diretamente ligada a
possibilidade de escolha. Se eu não posso escolher, eu deveria me
perguntar se eu tenho culpa em errar.
“No
cotidiano, não é sempre que eu posso escolher. Às vezes a vida
cria armadilhas que a gente não consegue escapar naquele momento. É
preciso sempre pensar na natureza do erro: eu podia não ter errado?
Eu tive escolha?”, explica Sá Martino.
Nota
mental: ninguém é infalível
Mas, e se
depois de analisar a situação com certo distanciamento, eu concluir
que, sim, a culpa é minha. O que fazer? Parece óbvio, mas assumir o
erro e pedir desculpas pode parecer assustador.
“Nós
nos esquecemos que uma das coisas que nos tornam iguais é a nossa
vulnerabilidade. Eu erro, eu erro feio, mas você também. Então,
quem sou eu para cobrar dos outros uma perfeição que eu não posso
exigir nem mesmo de mim?”, questiona.
Uma
das razões pelas quais às vezes nos apegamos as coisas que sabemos
que estão erradas é devido ao nosso viés de compromisso.
Tendemos
a deixar que nossas decisões e ações passadas ditem como nos
comportaremos no presente e no futuro - mesmo que de uma forma
irracional.
Para
algumas pessoas, ser visto como alguém que é impecável é um
grande mérito. Nesse caso, reconhecer que uma decisão que tomamos
foi um erro destrói essa imagem.
E
isso acaba por ser um gatilho, já que os nossos cérebros estão
quase sempre trabalhando contra mudanças, agravando a dificuldade
que temos em consertar qualquer falha na rota.
Então,
sim, se você busca corrigir um erro é preciso ser honesto e crítico
consigo mesmo e reconhecer que você falhou.
É
próprio da natureza humana que se fique chateado quando cometemos um
erro. Mas é muito importante tentar manifestar a nossa
vulnerabilidade.
Se
esquecermos disso, há um grande risco de criarmos uma ilusão e
pensarmos que nós somos perfeitos, já aqueles que erram são os
problemáticos.
“Esse
é um sintoma que para mim é muito triste. Me parece que a cobrança
por uma perfeição que é impossível de se atingir se espalha de
maneiras diferentes entre as faixas de idade”, reflete Sá Martino.
Compreender
um erro não é justificá-lo
E
se reconhecer o erro é importante, o segundo passo é ainda mais
crucial: aceitar que foi um erro, mas não permitir que isso defina a
sua autoestima.
“Errar
é ruim. A gente fica mal quando erra. Ficar mal é parte da natureza
humana. Mas me parece que uma das cobranças contemporâneas é que a
gente precisa estar sempre bem. E não é isso. A gente precisa do
tempo de recolhimento”, diz.
Toda
perda implica um tempo de luto, inclusive um erro. Mas é importante
deixar claro que é um tempo. Não é ficar se cobrando para resto de
sua vida.
“Errei.
Foi ruim. A minha primeira reação vai ser sempre emocional. Mas
depois eu passo para a elaboração desse sentimento. Eu realmente
errei? Se eu tivesse feito de outro jeito, eu teria errado? Mas eu
tinha a escolha de fazer de outro jeito?”
Ser
excessivamente crítico com nós mesmos pode aumentar os nossos
níveis de ansiedade. Se for possível, pare de ficar remoendo o erro
e faça o que estiver ao seu alcance para não piorar a situação.
A
solução, no entanto, não virá de uma ou duas ações que vão
melhorar toda a sua vida. Mas ela passa por um processo de construção
“Entender
o erro que nós cometemos não nos exime da responsabilidade por ele.
O erro tem efeitos. Uma vez conscientes desses efeitos, nós temos
que refazer a rota, pedir perdão, restaurar a ordem das coisas. Não
é ignorar e fingir que o erro não existe”, afirma Sá Martino.
Muitos são os chefes, mas poucos são os líderes inspiradores que sabem o
que estão fazendo. E é aí que a cultura do assédio e da falta de noção
vem à tona e destroem visão, missão e valores de muitas empresas.
Nesse
papo engraçadíssimo com as publicitárias Nina Furtado, Rebs Freitas e
Babi Morrone, Leila discute os bons e maus hábitos das chefias,
comentando casos absurdos e bizarros do mercado de trabalho. Este
podcast não é recomendado para chefes sensíveis.
Nos olhos dele não há compreensão, só um pântano seco onde pulsa o rancor
O fim será pavoroso.
Mas agora prepare tudo com a ilusão que surge da ignorância.
Convença-se de que você faz isso por amor.
Diga a si mesma que é a
maneira –adulta, racional– de as coisas retomarem seu curso, de que
escutá-lo voltar para casa –o ruído emocionante da chave na porta, a
forma como ele a abre, como se temesse atropelar alguém do outro lado–
seja, como costumava ser, a melhor parte do dia.
Tente se lembrar de quando começou.
Aquele mutismo rude que ele engendra desde as primeiras horas da manhã e
que se dirige a você como um míssil sem dissimulação; aquela
hostilidade que o recobre como uma névoa solta e que parece uma mensagem
que tem você como destinatária: como se você tivesse feito algo
repugnante, imperdoável: como se você fosse repugnante, imperdoável.
Diga a si mesma, como já faz há algum tempo, que o assunto deve levar
alguns meses (se pergunte se não vai levar anos e descarte de imediato o
pensamento com um respingo de dor supersticiosa).
Agora, quando chega em casa, em vez de cumprimentá-la –"oi, amor!"–, diz
coisas como "esqueci a maldita peça na loja de ferragens"; e quando
você pergunta se tudo foi bem no trabalho, responde coisas como: “Sim.
Mas discuti com o imbecil do meu irmão”. Você sente que essas palavras
–maldito, imbecil– têm você como destinatária, como se fosse o centro em
ebulição de uma culpa inexplicável, de uma amargura que escorre pela vida dele e a transforma em uma vida miserável.
Pense –enquanto repassa o que vai dizer: as primeiras palavras de uma
conversa tranquila– que ele está há muito tempo vivendo em um tom
baixo, apagado, mergulhado em algo que poderia ser melancolia– por um
motivo que você desconhece –ou repulsa (por algo em que ele não quer
pensar: pela forma como você não é mais a garota despreocupada que ele
conheceu, mas essa mulher hiperativa que sempre parece saber o que fazer
e como, e julga o que ele faz como se fosse dona de um conhecimento
superior?).
Todas as manhãs, quando você sai para o trabalho –um
trabalho que te agrada, mas que às vezes faz você se perguntar se não
será essa a fonte do problema: sua vida de fêmea genial ao lado de um homem que tem um emprego anódino, megatons de frustração represados–,
ele se despede com uma alegria que se assemelha ao alívio (alívio de
não vê-la por um tempo?), e você desaparece no elevador com um gesto de
submissão e súplica (sem saber a quem se submete ou suplica o quê) . Às
vezes, ao longo do dia, trocam mensagens e paira entre vocês um carinho
que parece sincero, mas que, quando voltam a se ver, se liquefaz como o
corpo de um pássaro escravizado sob uma corrente de ácido.
Termine de preparar um jantar simples. Receba-o sem dar sinais de
nada. Escute, em seu cumprimento, essa queixa filha da irritação com que
desta vez ele diz: "Meu velho deixou cair o celular e a tela quebrou".
Diga, tirando a importância disso: "Bem, sempre se conserta". Quando ele
responder "estou cheio disso", escute: "estou cheio de você". Sirva o jantar, comente coisas sem importância.
Procure dentro de si as primeiras palavras sensatas que você preparou
durante dias. Diga-as em um tom que parece amável e caloroso. Veja como
de repente ele presta atenção.
Sinta crescer dentro de si o otimismo
necessário para seguir em frente. Escute a si mesma dizendo frases
prolixas (detecte nelas palavras como "antes", "eu não entendo", "eu
preciso"; diga a si mesma que tem que evitá-las; não faça isso). Veja
como ele cruza os talheres no prato (escute uma voz que diz: "Chega, não
diga mais nada", mas não pare).
Solte as amarras. Convença-se de que
este é o momento de deixar tudo jorrar, de abrir as comportas. Diga-lhe
que a atitude dele a magoa (pense: "Não! Ele não é seu cúmplice, não vai
cuidar de você"). Veja como ele olha para o prato com um distanciamento
animal. Sinta, subitamente, sinta que tudo o que você diz exala uma
superioridade na qual você não se reconhece.
Pense: “Esta não sou eu. Eu
não faço essas coisas.” Mas não faça caso da intuição lamurienta que
sussurra que você está sendo patética.
Continue.
Quando acabar,
pergunte: “O que está pensando?”. Olhe para ele.
Veja que nos seus olhos
não há compreensão, somente um pântano seco onde pulsa o rancor. Escute
como ele diz: “Sinceramente? Tenho medo de você”.
Entenda que ele sente
– sabe – que você arruinou a vida dele. Que você é o inimigo.
(...) O caráter público do ofício do jornalista, especialmente no que concerne o trabalho final que chega aos consumidores, é dado como algo simples de ser feito. Algo que qualquer um poderia se habilitar a fazer. Nessas horas me remeto a um causo do comentarista esportivo João Garcia. Em seus tempos de rádio Bandeirantes ele teve de encarar um ouvinte raivoso que se achava mais preparado que os analistas de futebol da casa para debater o esporte.
O tal ouvinte chegou ao ponto de ir à sede da Band em Porto Alegre pedir para integrar a equipe de esportes da rádio para desmascarar aqueles "impostores". Pois bem, Garcia interveio e pediu que ele gravasse um comentário de dois minutos e que se ficasse bom eles iriam conversar melhor. O ouvinte ficou surpreso e atordoado. JG o encaminhou para um banheiro desocupado para que ele tivesse privacidade e uma boa acústica. Passada meia-hora, o futuro comentarista desistiu deixando um material de 30 segundos pontuado por muitas gaguejadas e nenhuma frase completa.
Rodrigo Ramos é comunicador e escritor, com mais de uma década de atuação no rádio esportivo.