domingo, 16 de abril de 2023

João José Machado de Oliveira e o trem (Carlos Reverbel)

 


Velho amigo e compadre de Assis Brasil. Homem vivaz e malicioso. Fazendeiro abonado, só viajava de 2ª classe.

Tendo alguém lhe perguntado por que se sujeitava a esse desconforto, sua resposta veio logo:

- Porque não existe 3ª classe em nossos trens.”


Capa: Calito Azevedo Moura

Fonte: Reverbel, Carlos. Pedras Altas. A vida no campo segundo Assis Brasil. Porto Alegre: L&PM Editores Ltda, 1984, p. 16.

Eulogia Tapia - "La Pomeña"

16 de Abril de 1969 - Se registra la zamba “La Pomeña”, con música de Gustavo Leguizamón y letra de Manuel J. Castilla. Los anónimos personajes regionales revalorizados por la canción:

“Eulogia Tapia en La Poma
  al aire da su ternura,
  si pasa sobre la arena
  y va pisando la luna".

Su madre la llamó un día al grito de "Eulogia, Eulogia. Acaba de salir por la radio una zamba que te nombraba. Hablaba del blanco y de la caja". A través de este hecho de la vida cotidiana, Eulogia sabe que la letra de "La Pomeña" la tiene como protagonista de la inmortal canción.

La zamba musicalizada por Cuchi Leguizamón describe aquel carnaval en que la legendaria coplera venció al barbudo poeta Manuel Castilla en dos contrapuntos de coplas, el primero en el Bar la Flor del Pago, y el segundo cuando Castilla, todavía con la sangre en el ojo por la primera derrota, fue hasta el rancho de la familia Tapia a pedir la revancha. Allí se vio nuevamente derrotado por el ingenio coplero de la Eulogia. Ya resignado, al dejar La Poma, Manuel Castilla decidió plasmar sus derrotas en una poesía. Y así quedó escrita la historia que transformó a Eulogia Tapia en una leyenda. Sin embargo, ajena a la fama otorgada por la popular zamba que forma parte del repertorio de la mayoría de los intérpretes del folclore, Eulogia continúa su tranquila vida de pastora en La Poma.


Hoy Eulogia, de avanzada edad, se convirtió en una leyenda que deambula por los caminos del norte. Y a pesar de la popularidad de su nombre sus cosas no han cambiado. Cada mañana, apenas asoma el sol, ella sale de su humilde rancho de adobe para ordeñar sus cabras y seguir cortando el trigo de su pan. Llegado el mediodía, saca unas hojitas de coca de su bolsillo y matea con su marido, mientras trata de encontrar un nuevo secreto en las flores de alfalfa que cubren su territorio.


"El sauce de tu casa, te está llorando - canta la zamba -. Porque te roban, Eulogia, carnavaleando". Y para esta mujer norteña esas líneas se explican sencillamente: "Habrán escrito que el sauce de mi casa lloraba porque aquella tarde, aprovechando que andábamos de contrapunto y nadie pastoreaba, algún avivado anduvo robando cabras. Y se llevó bastantitas" explica. "Después encontré varias maneadas en un bajo".

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sexta-feira, 14 de abril de 2023

Mangueira de Falsidades (Patrícia Campos Mello)


Ou firehose of falsehoods.

Trata-se da disseminação de uma informação, que pode ser mentirosa ou enviesada, em um fluxo constante, repetitivo, rápido e em larga escala. As pessoas são bombardeadas de todos os lados por uma informação, e a repetição lhes confere a sensação de familiaridade com determinada mensagem. A familiaridade, por sua vez, leva o sujeito a aceitar certos conteúdos como verdadeiros.

Com a mídia profissional desacreditada, essas narrativas saturam a atenção das pessoas, que ficam isoladas em suas bolhas de informação.

Desinformação viraliza. Isso decorre de uma característica humana e do funcionamento dos algoritmos das redes sociais. As pessoas se envolvem mais com notícias e informações que despertem emoções fortes como revolta e ódio. Indignação gera engajamento na internet. Quanto mais engajamento – curtidas, compartilhamentos -, mais o algoritmo das redes dá destaque e alcance.

Funciona da mesma maneira com declarações chocantes, mentiras descaradas ou a chamada “lacração”. Muitos políticos sabem que esse tipo de conteúdo vai viralizar e se tornar cortina de fumaça, ofuscando notícias negativas, muitas vezes verdadeiras, que eles não querem que ganhe destaque.

Mas, como diz a jornalista Maria Ressa, prêmio Nobel da Paz, “sem integridade dos fatos, não há democracia”.

Nesse ecossistema paralelo, aqueles que têm opiniões divergentes ou votam em candidatos diferentes são encarados como inimigos que precisam ser exterminados.

Por isso, o combate à desinformação é uma questão existencial.


Adaptado do original.



Fonte: Biló, Gabriela, Medo e Delírio e Pedro Inoue. Organização Daniel Lameira. A verdade vos libertará: 2013-2023. 1. ed. São Paulo: Fósforo, 2023.

quarta-feira, 5 de abril de 2023

Joaquina de Assis Brasil - entrevista a Luiz Francisco Mazo Martins (01/1988)

Dona Joaquina (1902-1988), ou melhor, Quinquim para os íntimos. Ou ainda Kiki, como sugeriu-lhe em tupi-guarani o historiador e amigo Capistrano de Abreu


Capistrano de Abreu (Moranguape, CE,23/10/1853- Rio de Janeiro,13/08/1927)

Filha de Joaquim Francisco de Assis Brasil, nascida na Estância de São Gonçalo, Cacequi, em 17 de janeiro de 1902, Dona Joaquina de Assis Brasil foi a guardiã de “um mundo de coisas”. A partir da morte de sua mãe até a data de seu próprio falecimento, aos 16 de novembro de 1988, em Pedras Altas, responsabilizou-se por um patrimônio cultural extremamente rico.


Estância São Gonçalo, Cacequi, casa dos pais de J. F. De Assis Brasil

- Dona Joaquina, como surgiu o sobrenome Assis Brasil?

- Meu avô, Francisco de Assis Souza Brasil, nasceu a 4 de outubro, dia de São Francisco de Assis, e foi batizado na igreja de São Francisco, em Rio Pardo. Nós recebemos o sino desta igreja como presente e até hoje ele é usado aqui na Granja, para chamar os peões. Papai ficou encantado quando o ganhou. Estava rachado, mas mandamos fundi-lo novamente e ficou muito bom. Meu pai também foi batizado Francisco de Assis, ficando, então, Joaquim Francisco de Assis Brasil. O padre que o batizou e que também foi seu padrinho chamava-se Joaquim Ribeiro de Andrade e Silva. Teve um grande destaque na Revolução Farroupilha.

Os irmãos de papai não assinavam Assis: Tio Paulo Brasil, Tio Diogo Brasil. Só o Tio Bartolomeu resolveu usar esse sobrenome.

- Dona Joaquina, como foi a sua educação, há mais de 80 anos e no campo?

- Nasci em 1902 e fui para os Estados Unidos com poucos meses de idade. A primeira língua que falei foi o inglês. Mamãe resolveu que todos os filhos, desde pequenos, aprenderiam inglês. Foi uma boa ideia, não foi? Tínhamos, então, as “nurse-maid”, amas como chamam aqui. Depois, voltando para o Brasil, sempre fui educada em casa por institutrizes estrangeiras, que eram contratadas de dois em dois anos, exceto uma, que foi por três anos. Tivemos várias: Miss Rosser, Miss Studart, Miss Day, que veio duas vezes e que morava no cottage, naquele quarto até hoje chamado o “da Miss Day”. Depois dela veio uma alemã que era nobre, chamava-se Helena von Jass. Essa era altamente sabida, muito sabichona! Formada pela Universidade de Grenoble, no sul da França, falava francês como uma francesa, conhecia o grego e o latim, era uma verdadeira latinista! Muito do que aprendi foi com ela. Veio de Baden Baden e foi embora quando estourou a guerra. Disse que era melhor voltar para o seu país de origem porque o Brasil tinha tomado posição contra a Alemanha. Nós choramos muito a partida dela. Naquela noite fui mandada para a cama mais cedo, para ver se parava de chorar… Eu senti muito…

Tínhamos, também, aqui em Pedras Altas, um núcleo de ótimos operários especializados. Papai dizia que para evitar o êxodo rural era necessário que as pessoas tivessem uma profissão rendosa no campo. Trouxe bons operários de Buenos Aires, Montevidéu, Itália, Espanha, Portugal, Alemanha. O seu Albino Eisfeldt era das colônias alemãs. Ele era um ferreiro formidável. Um verdadeiro artista! Os marceneiros alemães também eram formidáveis. Toda a marcenaria de imbuia foi feita em casa. nhamos aqui em Pedras Altas, realmente, um núcleo de ótimos operários. Depois que tiraram o trem, toda essa gente se mandou, saiu daqui, nunca mais voltou…




Mr Mc Gregor


Papai preocupou-se muito com o campo. Ele gostaria que não fosse bruto e inculto. Fez todo o possível para isso, porém, naquele tempo, qualquer coisa que ele quisesse fazer, o governo borgista era contra. Não queria que ele aparecesse, mas a sua intenção era somente o progresso. Papai dizia que a joia do Brasil era o Rio Grande, por ter o mesmo clima do sul da Europa. Tinha muita admiração pelos gaúchos que, com as guerras, abriram um pouco os olhos e aprenderam que a tirania era injusta. Achava este povo formidável, inculto mas com talento que outros povos não tinham. Meu pai foi muito campeiro! Não errava um tiro de laço. Fazia uma armada média e certeira. Na época de domar, era ele quem laçava para os peões manearem.

- E o teatro na família?

- Ah! Mas era de brincadeira! Nós apresentávamos até óperas. Fazíamos a Dama das Camélias, como sempre! La Traviata… Era muito engraçado porque a gente improvisava tudo na hora. Escrevi uma peça em inglês. Há poucos dias ainda vi lá em cima. Cecília também escrevia. Era só para a gente se entreter.

- E o esporte?

- O sport principal era o tennis. O material era inglês, tudo de ótima qualidade. A rede foi feita por nós. As professoras inglesas, todas, sabiam jogar muito bem. Uma tinha sido até instrutora na Europa. A Cecília jogava muito bem. Todos lá em casa jogavam muito bem. Só eu era péssima jogadora. Quando faltava gente para fazer o double eles me chamavam mas diziam para não chutar a bolinha, que era a minha tendência.

Esse sistema de educação que papai deu aos filhos, os chimangos achavam muito antipatriótico. Diziam que se alguém quisesse ver um caso de antipatriotismo, era só ir a Pedras Altas para ouvir sussurros em inglês, francês e alemão. Achavam isso muito feio (risos)…

Hoje em dia, com a educação do jeito que está, as crianças passam o dia todo longe dos pais e aprendem coisas muito deselegantes, sem aquela intimidade com a família que havia nos tempos em que a gente estudava em casa… Acho que deveria haver mais participação da família. Assim me parece, não sei se estou enganada.

- O que era o Bando dos Bem-te-vis?

- Fomos educados também para amarmos a natureza. Então criamos o grupo chamado Bando dos Bem-te-vis. Quando o Marechal Rondon esteve por aqui, junto com o seu valet de chambre, um negro de Barbados que falava inglês, ficou encantado com o Bando dos Bem-te-vis. Logo o convidamos para ser Bem-te-vi Honorário, do Mato Grosso. Cantamos o hino do grupo, que foi escrito em português por papai e cuja melodia foi tirada do hino dos Boers na guerra dos holandeses contra africanos, conheces? (canta o hino em holandês). Minhas irmãs que estudaram na Suíça o aprenderam com colegas holandesas. Rondon achou muito bonito. Ele era uma pessoa simples, que gostava de crianças e de gente moça. Gostava de ensinar e dizia: “Quando vocês quiserem aprender bororo” – pronunciava como os índios, em vez de bororó – “eu sou professor de bororo”. Sabia falar a língua de várias tribos. Uma pessoa interessante! Quando criamos os Bem-te-vis, foram feitas, também, leis para o grupo: não se podia mentir, nunca! Uma vez Francisco pregou uma e foi demitido do Bando por algum tempo. Tudo foi inspirado naquele livro do Mogly. Mogly era nosso modelo. Podíamos ficar perdidos no meio do mato, que conhecíamos as plantas que eram comestíveis, as frutas não venenosas e os animais que se podiam comer, como o lagarto, cuja carne do rabo é bem branca e se parece com a do peixe. A letra do hino que papai escreveu é assim:

“Formam nossa companhia

Quatro moças e um guri

Queremos tomar por guia

O passarinho valente

Que alegra e desperta a gente

Com o grito – bem-te-vi!”

- Seu pai usou o arado como símbolo poético do trabalho. Como era o trabalho em família?

- Trabalhávamos no campo trazendo o gado, parando rodeio e quando tinha marcação a gente ajudava. Sempre tomávamos parte nas lidas. Dolores era a mais campeira, até domava! Só que deixava os cavalos cheios de balda. Os rapazes eram “machões”, ficavam separados fazendo outro tipo de serviço. Não gostavam de que a gente mimasse os animais. As mulheres, todas, gostavam muito de bordar. Neste tempo sempre tínhamos boas empregadas. Lembro-me da Felícia. Era um “motor” de tanto trabalho! Trabalhávamos muito no jardim, com as flores e plantas, na colheita das frutas, quando era tempo de fazer doces e sucos. Todos ajudávamos mamãe! A von Jass me ensinou muito sobre botânica. Era uma grande conhecedora, também, dessa área.





Cavalo Vampiro, preferido de D. Joaquina

- E a religião na família?

- Cada um tinha a liberdade de ser o que quisesse. A Cecília acreditava em coisas sobrenaturais. Eu não acredito, mas respeito. Mamãe era católica e papai livre pensador. Ele dava plena liberdade, sem discriminação ou intolerância. Todos nós fomos batizados. Ele mandava vir bispos para crismar aqui. Tinha grande amizade com os bispos. Eles diziam: “Dr. Assis, só lhe falta a fé, porque o senhor é um verdadeiro cristão, modelo de cristão”. Papai respondia: “Vocês estão julgando-me bom demais…”. Papai admirava muito Renan, que também era um livre pensador. Papai fez um poema sobre Cristo (recita de memória):

“Pelos campos sem luz da mística Judeia

Andava errante e triste um pobre viajor

O verbo semeando e recolhendo a ideia

Que todo o seu poder, que todo o seu valor

Estava em enxugar o pranto da miséria

No manto sideral do seu divino amor…

Homens, vós sois a guerra e eu vos trago a paz!”

Papai achava imoral o luxo, a riqueza e a venda de indulgências no catolicismo…

- Dona Joaquina, como foi o exílio?

- Minha irmã Maria, por ser a mais velha da família, foi encarregada de fazer o acervo das coisas que tínhamos que esconder. Ela as colocava em caixotes grandes para que o Dr. Berchon, nosso grande amigo, nos enviasse pelo trem. Tínhamos esconderijos secretos para as coisas preciosas apartadas, fazíamos uma parede falsa e colocávamos as pratarias e outras coisas de valor. Foi muito cruel o que Borges fez com meu pai! Deu ordem para os bancos retirarem seu crédito porque não era pessoa de confiança. Deixou que invadissem os bens de papai: levaram tropas e tropas. Saquearam a estância de Ibirapuitã e a de Itaiassu. Soltaram cavalos dentro do jardim aqui da Granja, onde até hoje guardamos a marca do “templo profanado” pelos chimangos. Felizmente os amigos forma muito fiéis. O seu Chico Macedo Couto, muito relacionado com tropeiros, recuperava o gado roubado, deixava no seu campo e depois mandava para o Uruguai, onde estávamos exilados. Ele estava sempre arriscando a vida ou ir para a prisão por nossa causa… Foi muito triste ter que começar tudo de novo!

Aacleto Firpo, Assis Brasil e Raul Pilla, 1931
Osvaldo Aranha, Cícero Góes Monteiro, Dr. Victor Russoman e Raul Azambuja, 1932 ("Alegrete", paque da Granja)
AB e D. Lydia e comitiva do governo provisório de Getúlio Vargas, 1931
Salgado Filho, Ministro do Trabalho, 1934

- E a respeito das calúnias sofridas por Assis Brasil?

- Os chimangos diziam coisas horríveis: que papai tinha matado sua primeira mulher com um tiro na cabeça, que trouxe tudo quanto foi praga para o Estado, como o berne, o pardal… e são coisas que nem existem em Pedras Altas. Até a Lina, minha irmã, que é quieta, já publicou um artigo no antigo Correio do Povo. Tomou a caneta na mão e escreveu que parecia incrível que uma pessoa com inteligência tão fulgurante como papai, fosse acusado de fazer tanta coisa ruim. A respeito dos tiros, não tem cabimento! Papai gostava muito de armas, tinha armas de primeira ordem e era só ele que as limpava e manipulava. Ficavam fechadas à chave, para não haver nenhum acidente. Papai enxergava bem até depois de velho. Tudo isso é coisa de políticos sujos e estúpidos… Pequenezas! O mais comovente é que a geração do próprio Castilhos e mais outra geração de parentes, todos ficaram amicíssimos de papai. Vinham aqui tropas de Castilhos: o Inocêncio, a Julinha, filha de Júlio de Castilhos, o Raimundo, que papai orientou mandando-o para São Paulo para estudar. A carta da mãe de Júlio de Castilhos ao papai é muito significativa. Hoje a família toda é nossa amiga.

- A ideia de construir Pedras Altas foi de Assis Brasil. Dona Lydia, sua mãe, continuou e nomeou-a guardiã deste tesouro cultural. Dona Joaquina, quem lhe sucederá?

- “Permaneat animus lapide perennius”. Foi papai que construiu essa frase que quer dizer: a ideia ou o ideal permaneça perene como a pedra. Ah! Se eu pudesse fazer uma fundação! Os outros não deixariam de ser donos, só não teriam licença para vender. Não posso esvaziar Pedras Altas doando o acervo. Por mim eu fazia um bom museu, com bons guardas, se cobraria entrada… Papai tinha certeza de que os filhos e netos teriam continuado, tomariam conta. Se ele soubesse que não, teria tido uma grande decepção. Não há coisa pior do que a falta de continuidade de uma família...


Joaquina, Francisco (ao colo), Assis Brasil, Carolina e Lídia;
ao fundo, Maria e Cecília
(Buenos Aires, 1907)

Enterro de Assis Brasil, 25/12/1938


Lídia de Assis Brasil,
Joaquina de Assis Brasil e Antonio Bonini.

Entrevista concedida ao arquivista Luiz Francisco Mazo Martins no “boudoir” do castelo, em janeiro de 1988. Seus depoimentos requerem uma interpretação atenta, por constituírem trilhas seguras para se penetrar nos labirintos da História.

Capa: Valter Noal Filho

Fonte: Rocha, Artheniza Weinmann, Luiz Gonzaga Binato de Almeida e José Newton Cardoso Marchiori. Ed. UFSM, Santa Maria: 1995, p.127/130.

Crédito foto biblioteca: http://www.botasbonini.com.br/historia.htm

Acesso 04/04/2023

sábado, 25 de março de 2023

O diário de Cecília (Rachel de Queiroz, Última Hora, 14/11/1983)


QUERIA hoje tomar um alívio de Nordeste, secas e aflições correlatas para falar de um livro que me deu para ler o querido Mem de Sá, livro que provavelmente causará impacto semelhante ao do “Meu Livro de Menina”, de Helena Morley. Este novo jornal que, como o de Morley, não tem nada de literário, nasceu das notas cotidianas tomadas por uma jovem entre os seus 16 e 29 anos de idade. É ele o “Diário de Cecília de Assis Brasil, período 1916-1928”.

A figura mais importante dessas duzentas páginas é na verdade o pai da moça, J. F. De Assis Brasil, sim, Assis Brasil em pessoa, o famoso líder liberal gaúcho. O senhor do Castelo de Pedras Altas, espécie de principado independente erguido entre Bagé e Pelotas, com suas torres góticas e seu estilo de vida europeu. Um europeu feudal, diga-se, curiosamente anacrônico, absolutamente patriarcal; aquele liberal intransigente em política era, na vida doméstica e dentro do seu enclave solarengo, um patriarca a governar com mão de ferro a tribo composta pela família e os agregados.

PELO menos é essa a impressão que fica no leitor, ao acompanhar as confidências de Cecília. Contudo, tão variada, contrastante e por vezes enigmática é a personalidade de Assis Brasil que, em algumas notas rápidas suscitadas pelo diário da filha, a gente só pode multiplicar os pontos de interrogação a respeito do homem. É imperioso que se faça um estudo biográfico que vá fundo na vida e na pessoa de Assis Brasil, dados a importância que ele teve na história da república, e o papel de protagonista que assumiu durante as lutas civis brasileiras da década de vinte, lutas cujo fulcro seria o Rio Grande do Sul.

Mistura de rusticidade e refino, a família Assis Brasil seria, claro, uma família atípica no panorama rural gaúcho. As moças tiravam leite como peões tradicionais – aliás agiam em tudo o que se referisse a gado e planta não como sinhazinhas brincando na queijaria e no jardim, mas se envolvendo completamente no manejo da granja e da fazenda, como donas efetivas e movidas por um interesse tão real que chega a ser apaixonado. E ao mesmo tempo liam Kippling e Longfellow, assinavam vinte e sete revistas inglesas, francesas e americanas, das mais diversas especialidades, indo da pecuária à horticultura, passando pela política e pela literatura. E isto, claro, não seria a regra, não poderia ser a regra em qualquer unidade rural do lugar e do tempo. Os barões paulistas do café e as suas famílias quatrocentonas seriam também fidalgos rurais, mas à moda inglesa e francesa, cada uma no seu casarão ricaço, entre móveis e cristais importados, com todo o conforto conhecido no tempo, e legiões de mucamas para servir sinhô e sinhá. Já no castelo de Pedras Altas, as Castelãs cozinhavam, batiam manteiga, trabalhavam na terra, cuidavam do gado e das ovelhas, saíam à caça – muitas vezes para prover a mesa. E assim, quando tiveram que enfrentar as agruras do exílio – e foram agruras mesmo, duríssimas, em rústicas estâncias uruguaias, a família adaptou-se sem fazer tragédia, levando as dificuldades, o desconforto, as condições de vida penosas, com uma bravura e um espírito esportivo absolutamente admiráveis.

DIFICILMENTE um compêndio de história ou um estudo sociológico nos diriam tanto e tão bem daquela época turbulenta do primeiro quartel do século vinte no Brasil e no Rio Grande do Sul, quanto o mostra ou deixa entrever o singelo diário da moça Cecília. Tratando-se de uma família atípica, como foi dito, essa mesma atipicidade é reveladora do que seriam os ideais e padrões da elite daquele tempo: ideais que a família Assis Brasil tentava realizar com maior ou menor êxito, para encanto e admiração dos conterrâneos e contemporâneos.

A mistura de um europeizismo intransigente – todos os valores culturais deviam ser europeus, naquela casa: basta contar que, obrigatoriamente, à mesa, em Pedras Altas, falava-se só em francês durante o almoço e só em inglês ao jantar, e é inegável que havia uma porcentagem alta de esnobismo nessa aparente intenção didática. Mas o mesmo diplomata feito fidalgo camponês, que reinava naquele Mônaco tropical com o seu castelo de cenário ópera, ensinava a filha moça a parar rodeio, a carnear uma rês abatida, a vacinar o rebanho contra aftosa, e manter minucioso registro genealógico, quero dizer o pedigree do rebanho Devon, raça de gado inglês em que Assis Brasil punha uma paixão intolerante. E é na face rural e rústica da vida de família, que a moça Cecília se revela com maior espontaneidade e encanto. Muito característico é que, falando por exemplo, em presentes de aniversário cobiçados e ganhos por ela ou pela irmã, não se trata de joia ou perfume francês ou roupa fina: o que elas pedem e recebem é uma faca de prata, especial para carregar à cinta, ou uma fina arma de caça. Tratam pessoalmente dos seus arreios, mandam curtir pelegos da pele de ovinos abatidos; Cecília tem o seu tear próprio onde tece coberturas com lã que ela própria carda; lã tirada, é claro, dos carneiros que ela cria.

O Diário de Cecília é incompleto; perderam-se muitos cadernos entre 1916 e 1928. E de 1928 a 1934, quando Cecília morreu tragicamente, aos trinta e quatro anos de idade, atingida por um raio durante um passeio a cavalo, não consta nenhum registro. Claro que, não destinando a autora à publicação os seus cadernos, não houve preocupação dela e da família em preservá-los especialmente. E desconfio também que deve ter havido alguma pontinha de censura, algum corte de confidências nesta parte do jornal entregue a Carlos Reverbel – o responsável pela edição – para o seu excelente trabalho de coordenação e anotação. Digo isso porque é inimaginável que, nas anotações pessoais e íntimas de uma rapariga, desde os seus dezesseis até quase os seus trinta anos, não reponte nunca um sinal de romance, um namoro, uma veleidade amorosa sequer. Muito entusiasmo cívico, até mesmo hero-worship pelos valentes guerreiros seus correligionários. Mas no meio de tantos jovens políticos e tantos tenentes galantes de que a moça vivia cercada, nem uma pontinha de romance? Não dá para acreditar.

ESTÃO vendo, até por estas reclamações de leitora, quanto o livrinho é atraente. Documento vivo, com cheiro de sol e chuva, gosto de fruta, liberdade de corpo, doação generosa de trabalho e dedicação, amor à terra e às suas criaturas, por ele essa Cecília de Assis Brasil*, de vida e morte tão singular, torna-se de repente uma das figuras mais fascinantes de mulher da literatura nacional. Sem nunca ter feito literatura. Ou por isso mesmo.

* n. Washington DC, 26/05/1899; f. Pedras Altas, 11/03/1934


Fonte: Laitano, Cláudia. TUMULTUÁRIO: CADERNOS DE MEMÓRIAS DE CARLOS REVERBEL. [Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Letras. Área de concentração: Estudos de Literatura. Linha de pesquisa: Literatura, Sociedade e História da Literatura. Orientador: Prof. Dr. Luís Augusto Fischer]. Porto Alegre: 2022, p. 88.

Queiroz, Rachel. O diário de Cecília. Jornal Última Hora, Rio de Janeiro, 14/11/1983

Acervo da família Reverbel

Resenha do livro “Diário de Cecília de Assis Brasil”

https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/242236/001145263.pdf?sequence=1&isAllowed=y

Crédito Fotos: Joaquina e Lídia de Assis Brasil, 1983. Assis Brasil, Cecília. Diário de Cecília de Assis Brasil, org. por Carlos Reverbel. Porto Alegre, L & PM, 1983. 

Crédito Imagem:CP Memória, Correio do Povo, 16/12/2022. Há um século no CP.

https://www.correiodopovo.com.br/blogs/h%C3%A1-um-s%C3%A9culo-no-cp/jornal-carioca-noticia-a-chegada-de-assis-brasil-ao-rio-e-critica-reelei%C3%A7%C3%A3o-de-borges-de-medeiros-1.937302

Acesso 25/03/2022

Foto Família Assis Brasil: https://www.youtube.com/watch?v=Sodro81VgnI 

Acesso 26/03/2023


sexta-feira, 17 de março de 2023

"Patriarca" Borges de Medeiros, por Carlos Reverbel

Futuroso e outros adjetivos

Já funcionou em Porto Alegre uma bolsa política, cujas cotações eram apregoadas por intermédio de adjetivos, através das colunas do jornal “A Federação”, órgão do Partido Republicano Rio-Grandense. O Dr. Borges, então presidente do Estado e chefe unipessoal do partido dominante, era quem punha e dispunha no singular pregão.

O adjetivo futuroso era reservado a jovens paladinos que se lançavam na carreira política. No início era empregado com fartura, alcançando a muitos competidores, indóceis no partidor quais fogosos corcéis, à imagem e semelhança dos que se apresentavam no hipódromo dos Moinhos de Vento. Com o tempo, começava a diminuir o emprego do adjetivo, até ficar limitado a uns dois ou três o páreo dos futurosos. Ficava-se então sabendo que pelo menos um entre eles seria incluído na próxima chapa republicana para a Assembleia dos Representantes, primeiro degrau da escalada parlamentar.

Como todo jornal, “A Federação” tinha um diretor, mas quem a dirigia era o Dr. Borges. Todo santo dia, ali pelas dez horas (o influente órgão era vespertino), um rapazote ia ao Palácio levar as provas do editorial e da matéria política, a fim de submetê-las ao crivo presidencial. O poderoso morubixaba as examinava, introduzindo-lhes modificações de próprio punho, se fosse o caso. E costumava fiscalizar, com especial rigorismo, o emprego dos adjetivos, para evitar repercussões equivocadas na bolsa política.

O saudoso companheiro Tircio Teles de Miranda Ferrari começou na imprensa local, ainda rapazola, exercendo as funções de estafeta entre “A Federação” e o Palácio do Governo. Durante alguns anos foi portador das provas tipográficas que deviam ser submetidas ao dono do poder, tarefa para a qual a pessoa era escolhida a dedo. O jovem estafeta terminou ficando amigo do Dr. Borges e um dos seus homens de confiança dentro de “A Federação”. E quando o velho cacique caiu, o Tircio Ferrari caiu junto, “morrendo” abraçado com o chefe, por pura lealdade, procedimento que poucos tiveram na ocasião, como sempre acontece em tais circunstâncias.

Já despido de todo o mando, um dia o Dr. Borges subiu as escadas do “Correio do Povo” e pediu ao Dr. Breno um lugar na redação para o Ferrari. O pedido foi atendido na hora e o Tircio Ferrari assumiu na redação do velho róseo o que então se denominava “página no interior”. E assim o tivemos na velha casa, como exemplar companheiro, até seu prematuro falecimento, tendo ele programado a própria morte, como nos tempos do romantismo. Uns poucos sobreviventes continuam a zelar pela sua memória. E toda vez que me lembro dele penso na palavra lealdade. Foi a lição que deixou aos amigos e a herança que legou aos parentes.

Admirável palestrador, o Ferrari conhecia de cor e salteado os adjetivos empregados e sua cotação na bolsa política de “A Federação”, recordando com muita verve episódios relacionados com a curiosa instituição, talvez a única, no gênero, que tenha existido no mundo partidário. Júlio de Castilhos, um ser substantivo por excelência, era colocado acima de toda adjetivação, recebendo, invariavelmente, o grau e o título de “patriarca”. Alguns republicanos históricos admitiam a superioridade do Arquiteto do Universo e de Augusto Comte. Outros, nem esta.

A escala das cotações, que começava modestamente, com o adjetivo futuroso, ia tomando vulto e ganhando proporções até chegar ao adjetivo preclaro, privilégio de muitos poucos, com a minguada nominata sendo encabeçada por Pinheiro Machado. Desde o momento em que assumiu a sua cadeira cativa no Senado, até o dia em que foi assassinado, pelas costas, conforme previra, as notícias de “A Federação” sobre o grande líder começavam sempre assim: “O nosso preclaro correligionário, senador Pinheiro Machado”, etc, etc. Antes de chegar ao Senado, nenhum prócer do Partido Republicano recebia o tratamento de preclaro.

Naquela época, havia uma miniatura do Dr. Borges, em termos de poder, na maioria dos municípios rio-grandenses, tendo-se o cuidado de que, sempre que possível, nas comunidades, de origem alemã e italiana, o cacique local fosse da mesma origem. O velho Muratore marcou época em Caxias, ainda quando as casas eram quase todas de madeira. Alcancei os restos dessa época, ocasião em que conheci o Italo Balen menino, mas já antecipando, pela inteligência e pelo coração, o homem que viria a ser, para os amigos, a família e a comunidade.

Assim como o Presidente não largava as rédeas do governo, reelegendo-se com absoluta regularidade, era de seu agrado dispor de prepostos que pudessem fazer o mesmo, nos municípios, dando preferência ao tipo do coronel à moda rio-grandense, bem diferente dos que atuaram e ainda atuam em outros pontos do país, com invejável sucesso em teimosas regiões nordestinas. Como o chefe, alguns desses coronéis chegaram a permanecer mais de 20 anos dando as cartas e jogando de mão.

Por incrível que possa parecer, eram eles quase sempre boas pessoas, no sentido paternalista. Não raro financiavam as atividades partidárias locais. E as suas posses frequentemente iam diminuindo, diminuindo, até deixá-los na clássica postura da pobreza com dignidade, com uma mão adiante e a outra no traseiro. A política municipal, com suas tricas e futricas, deixou muita gente de tanga, no tempo dos coronéis, com as exceções de praxe, naturalmente. Os coronéis eram aquinhoados pela “A Federação” com o adjetivo prestigioso, mesmo depois de prontos.

Conta-se que um desses militares da Guarda Nacional, ao ser recebido pelo Dr. Borges, teve a infeliz ideia de começar conjugando o verbo pensar. Interrompido de imediato pelo Presidente, que em tais circunstâncias costumava levantar o dedo em riste, não foi além da primeira pessoa do presente do indicativo: “Eu penso”. Então o Dr. Borges, cuja dignidade o elevara à casta dos intocáveis, tomou a palavra e proferiu uma frase que ficou célebre: “O senhor pensa que pensa, mas quem pensa sou eu”. Mais tarde ficou esclarecido que o sentido da frase fora distorcido, por obra do que então se chamava de intriga da oposição, campo onde atuavam eméritos fofoqueiros, tanto nas áreas municipais e estaduais, como naturalmente, também nas federais.

O que houve foi o seguinte: tendo o desastrado coronel cometido uma heresia partidária, o Dr. Borges, sempre rígido e ortodoxo, o advertiu na hora, com certa severidade, dada sua condição de chefe unipessoal do Partido. E, assim, quando disse “quem pensa sou eu”, não estava se referindo a si próprio, mas à entidade dona do Partido, que ele encarnava. O que, de resto, era absolutamente correto, pois o Partido, afinal de contas lhe pertencia, de fato e de direito, tendo sido recebido de mão beijada, em parte por herança e em parte por usucapião.

E tanto tudo isto era a pura expressão da verdade histórica que o Dr. Borges deixou a chefia num dia e logo no outro, de madrugadita, o então todo poderoso Partido Republicano Rio-Grandense começou a morrer, de tuberculose galopante, cabendo ao Dr. Getúlio botar a vela na mão do moribundo e segurar na alça do caixão do defunto.

(Março, 1979)



Fonte: Reverbel, Carlos. Saudações Aftosas. Porto Alegre, Martins Livreiro, 1980, p. 33/35

Livro “O Balanço da Mata Norte – Batuque Rural na Bateria” (Rafael dos Santos, 2026)

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