sábado, 7 de outubro de 2023

Recortes de Morangos Mofados (Caio Fernando Abreu)

 

(…) mas não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma?


Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco seria uma outra forma de loucura.

Necessariamente porque o dualismo existencial torna sua situação impossível, um dilema torturante. Louco porque tudo o que o homem faz em seu mundo simbólico é procurar negar e superar sua sorte grotesca. Literalmente entrega-se a um esquecimento cego através de jogos sociais, truques psicológicos, preocupações pessoais tão distantes da realidade de sua condição que são formas de loucura – loucura assumida, loucura compartilhada, loucura disfarçada e dignificada, mas de qualquer maneira loucura (Ernest Becker, A negação da morte).”


(…) a dor é a única emoção que não usa máscara.


(…) as pessoas falam coisas, e por trás do que falam há o que sentem, e por trás do que sentem há o que são e nem sempre se mostra. Há os níveis não formulados, camadas imperceptíveis, fantasias que nem sempre controlamos, expectativas que quase nunca se cumprem e sobretudo, emoções.



Fonte: Abreu, Caio Fernando, 1948-1996. Morangos Mofados, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009, ebook

Capa: Joca Reiners Terron

Crédito Capa: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh8aLPSkEMiX2SyiSckWO_Py6nXhJFfdn1TlygmX7neIMIfXUbNkficd3JnWF1X032n6dmtpgt-y25ZWJKdk0t_Zx-GGVOaavuffx-pHv3Q8_MF3XvP3FZL5tqGM6XeEHgeEAmI2K632tRq/s1600/Morangos+Mofados.jpg

Acesso 07/10/2023

quinta-feira, 10 de agosto de 2023

Nós (Tamara Klink)

 


As pessoas ouvem sem escutar.

Olham sem enxergar.


Quem chega por último tem uma vantagem que mais ninguém tem: a maior margem possível de progressão.


Às vezes, numa equipe, a vontade de fazer vale mais do que a experiência.


A amizade nasce da afinidade, mas amadurece na necessidade.


Meu pai disse num café da manhã, quando perguntamos por que ele tinha construído um barco tão grande para ir para a Antártica:

Dá o mesmo trabalho sonhar grande e sonhar pequeno. Quando o projeto é grande demais, você sempre pode enxugar. Quando é pequeno demais, é ainda mais difícil encontrar ajuda”.

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Sinto que tô chegando meio no limite do barco

Já quebrei muita coisa, consertei muita coisa,

usei todas as velas e rizos no limite de cada um

Sinto que a Sardinha começou a ficar

um pouquinho pequena


A Sardinha não ficou pequena,

você que ficou maior :)

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E quando eu já tiver tentado de tudo, quando não puder fazer mais nada, vou esperar. Vou fazer o suficiente para manter o barco seguro, e a mim, viva. Vou guardar energia para quando meu esforço fizer diferença. Uma hora o contexto vai mudar. Como foi a calmaria no início, como foram as ondas de ontem.

Já que não tenho mesmo como sair daqui, melhor estar na companhia de bons pensamentos e deixar os ruins para trás, na esteira do barco.


Bem maiores que as chances de encontro são as chances de desencontro. De duas pessoas partirem e voltarem para casa em horas alternadas. De tomarem ruas reversas. De mergulharem em ondas paralelas. De os carrinhos de milho e guarda-sóis interceptarem o ponto de vista de um sobre o outro. De os ritmos defasados dos seus passos sobre a areia afastarem os corpos. De um sinal de chuva desencorajar o caminho que levaria à convergência. De uma peça indispensável da história não concluir a viagem. Por alguma razão que nossa razão não alcança, os encontros acontecem. Somos a prova disso.


É justamente quando temos menos sensação de risco que ficamos mais expostos ao perigo.


Essas relações de porto, esses laços flutuantes, esses nós fáceis de fazer e de desatar são como flores num vaso. Decoram a mesa da sala, mudam a paisagem sem transformar o lugar. Nos tocam sem nos tocar, preenchem a solidão, conversam com nosso silêncio. Como as flores num vaso, as relações de porto murcham.


Os combinados terrestres que regeram a vida desde sempre são apenas combinados terrestres. E eles ainda estarão lá no dia em que eu retornar.


Liberdade é assumir a responsabilidade pelas nossas escolhas”, dizia Fepa, meu antigo professor de filosofia, tentando fazer Sartre entrar na nossa cabeça no 2º ano do ensino médio.


(…) a magia da travessia: (…) apontar para o desconhecido, apostar no imaginado, se abrir para o imprevisto e partir, levando a saudade do passado.


Saber que tem alguém pensando em nós de quando em quando torna o caminho menos árido.


(…) a única desistência possível é chegar ao fim.


A distância esclarece vínculos. A falta é geradora de novos caminhos. A solidão é amiga da saudade. E a dor também é mãe do crescimento.


No que pensarão os outros antes de pensar no que penso eu?


Quando a gente se dá conta que cresceu, o tempo passou e não volta mais.


Nossa casa é o único lugar que nunca partirá de nós.


O sentido de toda viagem está no ponto de partida.


É assim que tudo acaba: com um novo começo.


(…) os textos estão condenados a serem incompletos (…)


Capa

Elisa von Randow



Ilustrações

Tamara Klink

Fonte: Klink, Tamara. Nós: O Atlântico em solitário. 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2023, p. 14, 16, 27, 32, 66, 71, 79, 103, 111, 144, 157, 162, 172, 175, 185, 189, 190, 195, 196, 199

O mundo em poucas linhas (Tamara Klink)

 


É preciso dar à lembrança o corpo das palavras.

É preciso fazer um mundo caber em poucas linhas.

E é preciso entregar a precisão ao esquecimento.


(…) o texto só existe enquanto for sentido.


E sei que onda nenhuma fará o medo grande demais

e frio nenhum vai me impedir de prosseguir porque eu

ensaio cada passo inteira e costuro, atenta, todos

os pontos do meu caminho. As tempestades são

previstas na viagem, e a dor da saudade servirá de

treinamento. Desta vez, sou eu que estou longe de

casa, colecionando minhas próprias histórias pra contar

aos que ainda vão descobrir a força de sonhar o mar.


Quando tudo é tão convencional,

uma pequena mudança é logo uma

revolução.


(…) é preciso viajar pra viver

o prazer infinito de

estar de volta.


Ser livre

é ter pra onde voltar.


(…) distintivos só valem no contexto.

Sem contexto, importa o que a gente

mostra que sabe fazer, quem a gente

é (…)


Casa: lugar quente, macio e tenebroso de onde

quer-se partir criança, pra onde quer-se voltar

adulto em dia de chuva, sobretudo

casa é onde a gente é si mesmo

é onde tomam sol nossas entranhas é onde a

gente tem coragem de ter medo

e quando penso em voltar pra casa eu volto

querer voltear o mundo


(…) a gente pode dar a volta ao mundo e

não deixará de ser a gente


(…) a casa fala e denuncia o que as pessoas que moram nela

consideram importante, como se relacionam, como

querem ser vistas e como lidam com seus vazios.

O lugar também nos conta como a pessoa com quem

estamos se coloca ali: ela é uma avalanche, um iceberg

ou um floco de neve imperceptível?


A gente busca viver como antes, mas o antes já não tem lugar.


(…) quando a gente liga pra alguém, precisa falar

consigo.


Quando cidades se transformam, animais se escondem

ou se extinguem e pessoas que se veem todo dia

se conhecem cada vez menos; amizades breves,

distantes e feitas numa viagem com data para acabar

são a fonte mais próxima de reencontro das pessoas

consigo mesmas.


Quando acabam os problemas, a gente faz o quê?



Fonte: Klink, Tamara. Um mundo em poucas linhas. São Paulo: Peirópolis, 2021, 11, 13, 24, 47, 70, 72, 83, 85, 96, 123, 127, 133, 136, 159.

Mil Milhas - Tamara Klink

 

Levam-se anos para matar um sonho. Mas, para matar um plano, basta um segundo.


É preciso se sentir em casa para poder sair de casa, é preciso ter abrigo para desabrigar-se, expor-se. É preciso ter conforto para criar a coragem de deixá-lo. Sem porto, não tem partida, só a busca contínua por qualquer lugar. Sem segurança, sem escolha, não tem como haver liberdade. É só fuga, falta de opção, tentativa de chegar sem ter saído de nada.


Isolar nossos planos recém-nascidos dos medos alheios é importante para eles ganharem estrutura e dimensão. A gente busca as opiniões que quer ouvir.


Os perigos de uma viagem também estão em dias de sol e boas companhias. Mas é preciso ater-se aos planos para conquistar o prazer de concluir uma travessia.


Comemorar os pedaços torna o trajeto total menos assustador. Festejar as etapas vencidas dá coragem para enfrentar o porvir.


O medo contamina as dúvidas, se embrecha nos vazios, entre as certezas, veste os olhares e confunde o olfato que fareja perigo.


Escolher é assumir a responsabilidade que nos pertence. Escolhendo a gente se faz livre.


A depressão deixa a gente sem saída. Como se todo o esforço do mundo fosse insuficiente para conseguirmos o que queremos e merecemos. Como se não houvesse jeito. Como se não houvesse sonho possível, sucesso, coragem, amor. Ela faz a gente se anular, naufragar antes de subir a bordo.


As expectativas dos outros pertencem aos outros.


O pensamento nos leva a tantos lugares quanto aqueles em que a gente pensa.


Minha mãe disse:

- “A gente busca os conselhos que quer ouvir”.


Não há conforto maior do que o de estar sob o próprio teto.


Novos amores encobrem os passados, mas não curam machucados (…)


São os amores que nos movem, afinal.


O desejo. Inútil. Indevido. Perigoso. Violento. Discretamente perturba, silenciosamente transforma. Seduz. Agride. Contamina. O desejo multiplica as dores e os prazeres. Ele motiva renúncias, apostas, travessias. O desejo nos faz singular.


O fim sempre parece um pouco glorioso, o fim tem certa pressão.


O fim

É o gesto de despedida

É o cheiro que sobra do encontro

É a última chance

O fim, quando chega, puxa a cadeira para um começo.


A espera é um momento delicado. Afloram-se as angústias, os anseios, de maneira que chamam as abelhas para tomá-las e espalhar essas plantas venenosas pelos jardins.


O tempo do céu, como o tempo da terra, passa. E salva-se quem torna o tempo de espera no tempo esperado.


Seguir os passos de alguém é ignorar os novos contextos, é renunciar nossa capacidade explorativa, tentar caber onde não dá. É manter o olhar em alguém e perder-se de vista enquanto isso. É contar com a inércia dos tempos, é torcer contra a evolução, é não partir nem ficar.


Os obstáculos que nos paralisam e nos fazem chorar de pavor podem ser menores do que a gente pensa.


Quando a gente cuida de cada ponto e cada nó, a gente nunca está só. Vem conosco uma manada afoita e latente uivando para seguirmos sempre em frente.


As mesmas palavras me levam pra longe e me trazem de volta pra dentro da palavra casa.


O risco é o gerador da liberdade

o risco se faz

ao riscar.



Fonte: Klink, Tamara Wolff Bandeira. Mil Milhas. São Paulo: Peirópolis, 2021, p. 24/29/53/70/72/78/79/82/83/84/91/93/105/122/123

terça-feira, 11 de julho de 2023

População dos 7 Povos em 1822 (Antônio José Gonçalves Chaves)

 

Antônio José Gonçalves Chaves*, na obra Memorias economopolíticas sobre a administração publica do Brazil (1823) fornece os seguintes dados.

Em 1801 José Borges do Canto conquistou as Missões para a coroa portuguesa, a população reduzida seria 14.000 pessoas (almas, para os jesuítas).


Povo

Ano 1801

Ano 1822

São Miguel

1900

600

São João

1600

300

São Lourenço

960

250

Santo Ângelo

1960

350

São Luiz

2350

200

São Nicolau

3940

250

São Borja

1300

400

Total

14010

2350


Ainda depois da independência do Brasil, as Missões estavam separadas da província, formando uma seção administrativa.

Cada povo tem um Corregedor e mais Magistrados civis (melhor diríamos rurais). O Governo nomeia-lhes Administradores, e um Governador que vigia sobre tudo.

Os povos, em vez de prosperar, cada vez diminuem mais.

cousa de três anos tirou-se dali um Corpo de tropas de 400 Guaranys.


Texto adaptado

*Português, viveu em Pelotas, onde foi charqueador.




Fonte: Brasil, Joaquim Francisco de Assis. História da República Rio-Grandense (Estante Rio-Grandense União de Seguros – ERUS). Porto Alegre: Companhia Rio-Grandense de Artes Gráficas, 1982, p. 18

segunda-feira, 10 de julho de 2023

João Simões Lopes Neto, obra (Carlos Reverbel)

 

O baú

J. Simões Lopes Neto publicou em vida apenas três livros: Contos Gauchescos, Lendas do Sul e Cancioneiro Guasca. Postumamente, foram editadas duas obras de sua autoria: Terra Gaúcha e Casos do Romualdo.

A produção do grande regionalista teria sido bem maior se os diversos livros que ele anunciou, como “em preparo” ou “a sair”, tivessem realmente aparecido. Nunca apareceram pela simples e boa razão que jamais foram escritos.

Na época do velho Simões, um escritor municipal, que viveu e editou seus livros em Pelotas, era frequente os literatos anunciarem obras de que havia apenas o título, o que levaria os pesquisadores, em alguns casos, a empreender trabalhosas buscas no vazio.

Foi o que aconteceu em relação ao notável escritor pelotense, na acurada e inútil procura de originais cuja autoria ele próprio se atribuía, inclusive dois romances regionais – Peona e Dona e Jango Jorge – que J. Simões Lopes Neto costumava apresentar como inéditos, isto é, já concluídos, faltando, apenas, serem publicados. Tudo leva a crer, entretanto, que esses romances somente existiram na imaginação do escritor, indo com ele para o túmulo.

Não foi, felizmente, o que se daria com os Casos do Romualdo, cuja descoberta faria com que a reduzida bibliografia simoniana viesse ganhar novo e valioso título, tendo, ao mesmo tempo, enriquecido o nosso regionalismo literário com uma obra que, segundo Augusto Meyer, aponta “novas qualidades no grande regionalista”

Quando estive em Pelotas, em 1945, a serviço da Editora Globo, para realizar uma pesquisa em torno da vida e da obra de J. Simões Lopes Neto, a viúva do escritor, D. Francisca Meirelles Simões Lopes, ainda vivia, na condição de ter de trabalhar (apesar da avançada idade), para prover o próprio sustento e o de uma filha de criação chamada Firmina e sem qualquer capacitação profissional. D. Francisca exercia com dignidade e eficiência as funções de secretária do Conservatório de Música local. Dela se dizia na cidade: é pobre, mas orgulhosa.

Como vinha fazendo em relação a todos que a procuravam, por causa do nome literário do marido, já então bastante valorizado postumamente, recebeu-me com muitas reservas, só faltando bater-me com a porta na cara, quando lhe disse dos motivos de minha visita. Afirmando ter sido vítima de falcatruas, com perdas e até roubos de originais inéditos do marido (inclusive o dos Casos do Romualdo), por parte de pesquisadores que me haviam antecedido e até por parte de escritores que se inculcavam como “amigos e admiradores” de J. Simões Lopes Neto, ela resolvera não mais receber “essa espécie de gente”, emprestando às últimas palavras um tom que poderia ser interpretado como “essa espécie de exploradores”.

Não tive, assim, outra alternativa senão deixá-la entregue aos seus ressentimentos e amarguras e tratar de iniciar a pesquisa em outras fontes. Lá pelas tantas, no andamento do trabalho, que já se revelara bastante proveitoso, a ponto de Augusto Meyer apontá-lo, mais tarde, como obra de “copista beneditino”, fui levado pela mão de Francisco Cardoso, um contemporâneo do escritor, que fora seu amigo e grande admirador, ao sótão de um casarão abandonado, onde tive a sorte de encontrar, entre outros guardados, um volume encadernado do Correio Mercantil, jornal pelotense há muito fora de circulação.

Por pura sorte, ali encontrei, publicado em folhetim, a partir da edição de 1º de junho de 1914, o texto completo dos Casos do Romualdo, livro cujos originais todos informavam, a começar pela viúva do autor, terem sido extraviados por Pinto da Rocha, que os levara, numa de suas passagens por Pelotas, para fazer-lhe o prefácio e procurar-lhe editor, no Rio de Janeiro, deles não tendo ficado cópia, nem rastro.

Voltei à casa de D. Francisca (que era conhecida na cidade pelo apelido de D. Velha), já então armado com a cópia datilográfica do folhetim, perguntando-lhe se não tinha lembrança que a obra havia sido publicada, num jornal local, em 21 capítulos, ainda em vida de J. Simões Lopes Neto. Ela, cada vez mais sestrosa e retrancada, afirmou que jamais houvera tal publicação, voltando aos casos de extravios, perdas e espoliações de que se dizia vítima.

Tomei, então, a iniciativa de entregar-lhe o texto datilografado do livro, com a observação de que, à vista do sucedido, parecia que ela deixara de acompanhar a vida literária do marido, por não reconhecer, talvez, o seu talento de escritor, enquanto ele vivera a seu lado. A velhinha desmontou, literalmente. E, voltando-se para os fundos da sala, limitou-se a bradar, com energia: “Firmina, traz o baú”.

Foi, assim, colocado à minha disposição velho e precioso baú, em que D. Velha guardara, fechado a sete chaves, o que havia sobrado do espólio literário do grande escritor gaúcho, inclusive as páginas inéditas e manuscritas das Recordações da infância, umas vinte e tantas laudas, que me deram a impressão de ser o começo de um livro de memórias, mas que a ensaísta Eliane Zagury identificou, com grande acuidade, como a tentativa de um romance. Talvez as primeiras páginas de Peona e Dona ou de Jango Jorge, as únicas que não teriam ficado no tinteiro.

D. Francisca Meirelles Simões Lopes sobreviveu ao marido nada menos de 48 anos, tendo falecido a 3 de janeiro de 1965, aos 95 anos de idade e em plena lucidez. Dela recebi, a título de colaboração às minhas pesquisas, valiosa documentação. E, naturalmente, nos tornamos bons amigos, como testemunham as cartas que dela conservo, com gratidão e ternura.




Capa: Tânia Porcher

Foto: Jorge Rolla

Fonte: Reverbel, Carlos. Barco de papel. Porto Alegre: Editora Globo S.A., 1978, p 3/6.

Crédito Carta D. Francisca: Laitano, Cláudia. Tumultuário: cadernos de memórias de Carlos Reverbel. Orientador: Luís Augusto Fischer. Dissertação (Mestrado), Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Letras, Porto Alegre, 2022, p. 101.

Disponível: https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/242236/001145263.pdf?sequence=1&isAllowed=y 

Acesso 10/07/2023

Júlio de Castilhos e aguardente (Carlos Reverbel)

 

Lágrimas de Santo Antônio

Amanhã quando vieres, deves trazer no carro duas garrafas de caninha especial (Lágrimas de Santo Antônio), visto haverem sido ontem esgotadas, em abundante palestra dos amigos, as duas que eu trouxe sexta-feira.”

Este bilhete foi dirigido por Júlio de Castilhos a Aurélio Veríssimo de Bitencourt, seu secretário. Na ocasião o então presidente do Estado se encontrava na Chácara da Figueira, de sua propriedade e situada no atual arrabalde da Glória, para onde se recolhia com certa frequência.

Entre os amigos a que se refere, o Patriarca (como Castilhos passaria a ser chamado) menciona apenas dois: Borges de Medeiros e Francisco Rodolfo Simch, pelo que se depreende do bilhete, igualmente apreciadores de Lágrimas de Santo Antônio.

Noutro bilhete, também dirigindo ao secretário, Júlio de Castilhos mandou o seguinte recado a Cássio Brum Pereira, seu ajudante-de-ordens:

Incluo 25$000, que entregarás ao Cássio. É a importância da dúzia de Lágrimas de Santo Antônio, que ele comprou há dias. Dize-lhe que encomende outra dúzia.”

Estávamos no último quartel do século passado, época em que ainda não se havia inventado o dadivoso modelo de economia doméstica denominado mordomia. E, nestas condições, nada se conseguia sem mostrar a cor do próprio dinheiro, não havendo discriminações entre os consumidores, por parte do bodegueiro. Segundo a famosa Carta de 14 de Julho, inspirada nas ideias políticas de Augusto Comte, todos eram iguais perante o balcão do armazém da esquina.

Talvez por medida de economia (pois, como se sabe, o Patriarca era parcimonioso nos gastos), chegou um momento em que entendeu de abastecer-se de Lágrimas de Santo Antônio na própria fonte de produção. Recorria, então, aos préstimos do Cel. José Maciel, intendente municipal de Santo Antônio da Patrulha, conforme se verifica através desta missiva:

Amigo José Maciel, aceitai minhas saudações. Senti não encontrar-me convosco quando viestes ultimamente a esta capital. Eu estava então veraneando em uma chácara. Desejo que continueis a administrar com felicidade o vosso município e a dirigir com acerto o Partido Republicano local, de que sois zeloso chefe. Prevalecendo-me dos vossos oferecimentos, tomo a liberdade de pedir-vos que me envieis com a brevidade possível um barrilote de aguardente especial, a melhor que aí houver. Desejo servir a um amigo, que me fez tal encomenda. Quando fizerdes a remessa do barrilote, deveis enviar a nota do preço, a fim de receberdes a respectiva importância. Aguardo vossa resposta. Contai sempre com o vosso amigo obr. - Júlio de Castilhos.”

Esta carta traz a data de 24 de março de 1899. Foi encontrada nos papéis deixados pelo Cel. Maciel. Também foi encontrada, nos papéis do mesmo, uma nota com os seguintes dizeres:

Embarco na carreta do Sr. Manuel Agostinho Ribeiro um caixote para ser entregue, em Porto Alegre, ao Ex.mo Sr. Dr. Júlio de Castilhos. Santo Antônio, 10 de dezembro de 1900. - José Maciel.”

Nessa mesma nota, embaixo, se lê o seguinte, escrito do próprio punho de Castilhos:

Recebi. Porto Alegre, 14-12-1900. - Júlio de Castilhos. Aproveito o ensejo para apresentar ao prezado colega meu cordial abraço.”

Como se vê pelas datas registradas na nota acima transcrita, a “carreteada” de Santo Antônio a Porto Alegre levou apenas quatro dias. E fica evidente, pelas respectivas datas, que era uma outra encomenda, não a que se refere a carta de Júlio de castilhos a José Maciel, datada de 24 de março de 1899. Tudo indica que as encomendas se tornaram regulares e habituais.

Embora na sua carta Júlio de Castilhos tenha deixado a critério do Cel. Maciel a escolha da marca da 'branquinha” encomendada, tem-se como certo que esta recaiu sobre a denominada Lágrimas de Santo Antônio, a cachaça mais afamada entre as já produzidas no Estado.

O papel hoje desempenhado pela Escócia, com ativa participação dos falsificadores de uísque, brasileiros e paraguaios, era naquela época exercido, com honra e glória, pelo município de Santo Antônio da Patrulha.

Há uma quadrinha do cancioneiro gaúcho que diz o seguinte:

A gaita matou a viola,

O fósforo matou o isqueiro;

A bombacha o chiripá

E a moda o uso campeiro.”

Resta acrescentar que o uísque matou a cachaça…



Capa: Tânia Porcher

Foto: Jorge Rolla

Fonte: Reverbel, Carlos. Barco de papel. Porto Alegre: Editora Globo S.A., 1978, p 105/107.

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  Montado em sete sílabas, Jayme Caetano Braun (1994 – 1999) não descuida um verso sequer o generoso horizonte da lírica repentista. O seu ...