Dona
Joaquina (1902-1988), ou melhor, Quinquim para os íntimos. Ou ainda
Kiki, como sugeriu-lhe em tupi-guarani o historiador e amigo
Capistrano de Abreu
Capistrano de Abreu (Moranguape, CE,23/10/1853- Rio de Janeiro,13/08/1927)
Filha
de Joaquim Francisco de Assis Brasil, nascida na Estância de São
Gonçalo, Cacequi, em 17 de janeiro de 1902, Dona Joaquina de Assis
Brasil foi a guardiã de “um mundo de coisas”. A partir da morte
de sua mãe até a data de seu próprio falecimento, aos 16 de
novembro de 1988, em Pedras Altas, responsabilizou-se por um
patrimônio cultural extremamente rico.
Estância
São Gonçalo, Cacequi, casa dos pais de J. F. De Assis Brasil
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Dona Joaquina, como surgiu o sobrenome Assis Brasil?
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Meu avô, Francisco de Assis Souza Brasil, nasceu a 4 de outubro, dia
de São Francisco de Assis, e foi batizado na igreja de São
Francisco, em Rio Pardo. Nós recebemos o sino desta igreja como
presente e até hoje ele é usado aqui na Granja, para chamar os
peões. Papai ficou encantado quando o ganhou. Estava rachado, mas
mandamos fundi-lo novamente e ficou muito bom. Meu pai também foi
batizado Francisco de Assis, ficando, então, Joaquim Francisco de
Assis Brasil. O padre que o batizou e que também foi seu padrinho
chamava-se Joaquim Ribeiro de Andrade e Silva. Teve um grande
destaque na Revolução Farroupilha.
Os
irmãos de papai não assinavam Assis: Tio Paulo Brasil, Tio Diogo
Brasil. Só o Tio Bartolomeu resolveu usar esse sobrenome.
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Dona Joaquina, como foi a sua educação, há mais de 80 anos e no
campo?
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Nasci em 1902 e fui para os Estados Unidos com poucos meses de idade.
A primeira língua que falei foi o inglês. Mamãe resolveu que todos
os filhos, desde pequenos, aprenderiam inglês. Foi uma boa ideia,
não foi? Tínhamos, então, as “nurse-maid”, amas como chamam
aqui. Depois, voltando para o Brasil, sempre fui educada em casa por
institutrizes estrangeiras, que eram contratadas de dois em dois
anos, exceto uma, que foi por três anos. Tivemos várias: Miss
Rosser, Miss Studart, Miss Day, que veio duas vezes e que morava no
cottage, naquele quarto até
hoje chamado o “da Miss Day”. Depois
dela veio uma alemã que era nobre, chamava-se Helena von Jass. Essa
era altamente sabida, muito
sabichona! Formada pela Universidade de Grenoble, no sul da França,
falava francês como uma francesa, conhecia o grego e o latim, era
uma verdadeira latinista! Muito
do que aprendi foi com ela. Veio de Baden Baden e foi embora quando
estourou a guerra. Disse que era melhor voltar para o seu país de
origem porque o Brasil tinha tomado posição contra a Alemanha. Nós
choramos muito a partida dela. Naquela noite fui mandada para a cama
mais cedo, para ver se parava de chorar… Eu senti muito…
Tínhamos,
também, aqui em Pedras Altas, um núcleo de ótimos operários
especializados. Papai dizia
que para evitar o êxodo rural era necessário que as pessoas
tivessem uma profissão rendosa no campo. Trouxe bons operários de
Buenos Aires, Montevidéu, Itália, Espanha, Portugal,
Alemanha. O seu Albino
Eisfeldt era das colônias alemãs. Ele era um ferreiro formidável.
Um verdadeiro artista! Os marceneiros alemães também eram
formidáveis. Toda a marcenaria de imbuia foi feita em casa. Tínhamos
aqui em Pedras Altas, realmente, um núcleo de ótimos operários.
Depois que tiraram o trem,
toda essa gente se mandou, saiu daqui, nunca mais voltou…
Mr Mc Gregor
Papai
preocupou-se muito com o campo. Ele gostaria que não fosse bruto e
inculto. Fez todo o possível para isso, porém, naquele tempo,
qualquer coisa que ele quisesse fazer, o governo borgista era contra.
Não queria que ele aparecesse, mas a sua intenção era somente o
progresso. Papai dizia que a joia do Brasil era o Rio Grande, por ter
o mesmo clima do sul da Europa. Tinha
muita admiração pelos gaúchos que, com as guerras, abriram um
pouco os olhos e aprenderam que a tirania era injusta. Achava este
povo formidável, inculto mas com talento que outros povos não
tinham. Meu pai foi muito
campeiro! Não errava um tiro de laço. Fazia uma armada média e
certeira. Na época de domar, era ele quem laçava para os peões
manearem.
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E o teatro na família?
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Ah! Mas era de brincadeira! Nós apresentávamos até óperas.
Fazíamos a Dama das Camélias, como sempre! La Traviata… Era muito
engraçado porque a gente
improvisava tudo na hora. Escrevi uma peça em inglês. Há poucos
dias ainda vi lá em cima. Cecília também escrevia. Era só para a
gente se entreter.
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E o esporte?
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O sport principal era
o tennis. O material
era inglês, tudo de ótima qualidade. A rede foi feita por nós. As
professoras inglesas, todas, sabiam jogar muito bem. Uma tinha sido
até instrutora na Europa. A Cecília jogava muito bem. Todos lá em
casa jogavam muito bem. Só eu era péssima jogadora. Quando faltava
gente para fazer o double
eles me chamavam mas diziam para não chutar a bolinha, que era a
minha tendência.
Esse
sistema de educação que papai deu aos filhos, os chimangos achavam
muito antipatriótico. Diziam
que se alguém quisesse ver um caso de antipatriotismo, era só ir a
Pedras Altas para ouvir sussurros
em inglês, francês e
alemão. Achavam isso muito feio (risos)…
Hoje
em dia, com a educação do jeito que está, as crianças passam o
dia todo longe dos pais e aprendem coisas muito deselegantes, sem
aquela intimidade com a família que havia nos tempos em que a gente
estudava em casa… Acho que deveria haver mais participação da
família. Assim me parece, não sei se estou enganada.
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O que era o Bando
dos Bem-te-vis?
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Fomos educados também para
amarmos a natureza. Então criamos o grupo chamado Bando dos
Bem-te-vis. Quando o Marechal
Rondon esteve por aqui, junto com o seu valet de chambre,
um negro de Barbados que falava inglês, ficou
encantado com o Bando dos Bem-te-vis. Logo o convidamos para ser
Bem-te-vi Honorário, do Mato Grosso. Cantamos o hino do grupo, que
foi escrito em português por papai e cuja melodia foi tirada do hino
dos Boers na guerra dos holandeses contra africanos, conheces? (canta
o hino em holandês). Minhas irmãs que estudaram na Suíça o
aprenderam com colegas holandesas. Rondon
achou muito bonito. Ele era uma pessoa simples, que gostava de
crianças e de gente moça. Gostava
de ensinar e dizia: “Quando vocês quiserem aprender bororo” –
pronunciava como os índios, em vez de bororó – “eu sou
professor de bororo”. Sabia falar a língua de várias tribos. Uma
pessoa interessante! Quando criamos os
Bem-te-vis, foram feitas, também, leis para o grupo: não se podia
mentir, nunca! Uma vez
Francisco pregou uma e foi demitido do Bando por algum tempo. Tudo
foi inspirado naquele livro do Mogly. Mogly era nosso modelo.
Podíamos ficar perdidos no
meio do mato, que conhecíamos as plantas que eram comestíveis, as
frutas não venenosas e os animais que se podiam comer, como o
lagarto, cuja carne do rabo é bem branca e se parece com a do peixe.
A letra do hino que papai
escreveu é assim:
“Formam
nossa companhia
Quatro
moças e um guri
Queremos
tomar por guia
O
passarinho valente
Que
alegra e desperta a gente
Com
o grito – bem-te-vi!”
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Seu pai usou o arado como
símbolo poético do trabalho. Como era o trabalho em família?
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Trabalhávamos no campo
trazendo o gado, parando rodeio e quando tinha marcação a gente
ajudava. Sempre tomávamos parte nas lidas. Dolores era a mais
campeira, até domava! Só que deixava os cavalos cheios de balda. Os
rapazes eram “machões”, ficavam separados fazendo outro tipo de
serviço. Não gostavam de
que a gente mimasse os animais. As mulheres, todas, gostavam muito de
bordar. Neste tempo sempre tínhamos boas empregadas. Lembro-me da
Felícia. Era um “motor” de tanto trabalho! Trabalhávamos muito
no jardim, com as flores e plantas, na colheita das frutas, quando
era tempo de fazer doces e sucos. Todos ajudávamos mamãe! A von
Jass me ensinou muito sobre botânica. Era uma grande conhecedora,
também, dessa área.
Cavalo Vampiro, preferido de D. Joaquina
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E a religião na família?
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Cada um tinha a liberdade de
ser o que quisesse. A Cecília acreditava em coisas sobrenaturais. Eu
não acredito, mas respeito. Mamãe era católica e papai livre
pensador. Ele dava plena liberdade, sem discriminação ou
intolerância. Todos nós fomos batizados. Ele mandava vir bispos
para crismar aqui. Tinha grande amizade com os bispos. Eles diziam:
“Dr. Assis, só lhe falta a fé, porque o senhor é um verdadeiro
cristão, modelo de cristão”. Papai respondia: “Vocês estão
julgando-me bom demais…”. Papai admirava muito Renan, que também
era um livre pensador. Papai fez um poema sobre Cristo (recita de
memória):
“Pelos
campos sem luz da mística Judeia
Andava
errante e triste um pobre viajor
O
verbo semeando e recolhendo a ideia
Que
todo o seu poder, que todo o seu valor
Estava
em enxugar o pranto da miséria
No
manto sideral do seu divino amor…
Homens,
vós sois a guerra e eu vos trago a paz!”
Papai
achava imoral o luxo, a riqueza e a venda de indulgências no
catolicismo…
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Dona Joaquina, como foi o exílio?
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Minha irmã Maria, por ser a mais velha da família, foi encarregada
de fazer o acervo das coisas que tínhamos que esconder. Ela as
colocava em caixotes grandes para que o Dr. Berchon, nosso grande
amigo, nos enviasse pelo trem. Tínhamos esconderijos secretos para
as coisas preciosas apartadas, fazíamos uma parede falsa e
colocávamos as pratarias e outras coisas de valor. Foi muito cruel o
que Borges fez com meu pai! Deu ordem para os bancos retirarem seu
crédito porque não era pessoa de confiança. Deixou que invadissem
os bens de papai: levaram tropas e tropas. Saquearam a estância de
Ibirapuitã e a de Itaiassu. Soltaram cavalos dentro do jardim aqui
da Granja, onde até hoje guardamos a marca do “templo profanado”
pelos chimangos. Felizmente os amigos forma muito fiéis. O seu Chico
Macedo Couto, muito relacionado com tropeiros, recuperava o gado
roubado, deixava no seu campo e depois mandava para o Uruguai, onde
estávamos exilados. Ele estava sempre arriscando a vida ou ir para a
prisão por nossa causa… Foi muito triste ter que começar tudo de
novo!

Aacleto Firpo, Assis Brasil e Raul Pilla, 1931
Osvaldo Aranha, Cícero Góes Monteiro, Dr. Victor Russoman e Raul Azambuja, 1932 ("Alegrete", paque da Granja)
AB e D. Lydia e comitiva do governo provisório de Getúlio Vargas, 1931
Salgado Filho, Ministro do Trabalho, 1934
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E a respeito das calúnias sofridas por Assis Brasil?
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Os chimangos diziam coisas horríveis: que papai tinha matado sua
primeira mulher com um tiro na cabeça, que trouxe tudo quanto foi
praga para o Estado, como o berne, o pardal… e são coisas que nem
existem em Pedras Altas. Até a Lina, minha irmã, que é quieta, já
publicou um artigo no antigo Correio do Povo. Tomou a caneta na mão
e escreveu que parecia incrível que uma pessoa com inteligência tão
fulgurante como papai, fosse acusado de fazer tanta coisa ruim. A
respeito dos tiros, não tem cabimento! Papai gostava muito de armas,
tinha armas de primeira ordem e era só ele que as limpava e
manipulava. Ficavam fechadas à chave, para não haver nenhum
acidente. Papai enxergava bem até depois de velho. Tudo isso é
coisa de políticos sujos e estúpidos… Pequenezas! O mais
comovente é que a geração do próprio Castilhos e mais outra
geração de parentes, todos ficaram amicíssimos de papai. Vinham
aqui tropas de Castilhos: o Inocêncio, a Julinha, filha de Júlio de
Castilhos, o Raimundo, que papai orientou mandando-o para São Paulo
para estudar. A carta da mãe de Júlio de Castilhos ao papai é
muito significativa. Hoje a família toda é nossa amiga.
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A ideia de construir Pedras Altas foi de Assis Brasil. Dona Lydia,
sua mãe, continuou e nomeou-a guardiã deste tesouro cultural. Dona
Joaquina, quem lhe sucederá?
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“Permaneat animus lapide perennius”. Foi papai que construiu essa
frase que quer dizer: a ideia ou o ideal permaneça perene como a
pedra. Ah! Se eu pudesse fazer uma fundação! Os outros não
deixariam de ser donos, só não teriam licença para vender. Não
posso esvaziar Pedras Altas doando o acervo. Por mim eu fazia um bom
museu, com bons guardas, se cobraria entrada… Papai tinha certeza
de que os filhos e netos teriam continuado, tomariam conta. Se ele
soubesse que não, teria tido uma grande decepção. Não há coisa
pior do que a falta de continuidade de uma família...
Joaquina, Francisco (ao colo), Assis Brasil, Carolina e Lídia;
ao fundo, Maria e Cecília
(Buenos Aires, 1907)
Enterro de Assis Brasil, 25/12/1938
Lídia
de Assis Brasil,
Joaquina
de Assis Brasil e Antonio Bonini.
Entrevista
concedida ao arquivista Luiz Francisco Mazo Martins no “boudoir”
do castelo, em janeiro de 1988. Seus depoimentos requerem uma
interpretação atenta, por constituírem trilhas seguras para se
penetrar nos labirintos da História.
Capa:
Valter Noal Filho
Fonte:
Rocha, Artheniza Weinmann, Luiz Gonzaga Binato de Almeida e José
Newton Cardoso Marchiori. Ed. UFSM, Santa Maria: 1995, p.127/130.
Crédito
foto biblioteca: http://www.botasbonini.com.br/historia.htm
Acesso
04/04/2023