quarta-feira, 14 de junho de 2023

Lídio (Camila Fremder)

 Eu tive uma paixão platônica tão grande por um chefe que, sem querer, chamei-o de lindo no meio de uma reunião. Ele olhou assustado para mim:

- Oi?

- Lídio, eu disse lídio, você lembra muito o meu amigo Lídio.



Capa: Ale Kalko

Ilustração: Veridiana Scarpelli

Fonte: Fremder, Camila. Adulta sim, madura nem sempre: fraldas, boletos e pouco colágeno. 1ª ed. São Paulo: Paralela, 2018, p. 67.

domingo, 4 de junho de 2023

Última página (A cama na varanda, Regina Navarro Lins)

 

Quando nascemos, somos colocados no mundo com padrões de comportamentos fixos e determinados. Com a educação e o convívio, vamos absorvendo os valores da nossa cultura. E isso é feito de tal forma que na vida adulta torna-se difícil saber o que realmente desejamos e o que aprendemos a desejar. Observa-se que a insatisfação é geral – nunca se venderam tantos ansiolíticos e antidepressivos como agora -, mas modificar a maneira de viver e de pensar gera ansiedade. O novo, o desconhecido, assusta. Entretanto, repetir o que é aprendido como verdade absoluta gera sofrimento.

Há cerca de 30 anos, assisti à peça No natal a gente vem te buscar, de Naum Alves de Souza, que ilustra de forma dramática a submissão aos valores sociais. Tentarei reproduzir a parte da história que registrei e o diálogo que nunca me saiu da memória.

Duas irmãs e um irmão. Uma delas não saía, ficava em casa com os pais, totalmente submetida aos conceitos de certo/errado, bom/mau, que tinha absorvido. Sua vida se resumia a ser guardiã da moral e dos bons costumes. Recriminava a tudo e a todos por suas atitudes e comportamentos. Os irmãos, por sua vez, buscavam viver suas vidas. O tempo passa, os pais morrem e ela torna-se cada vez mais amarga. Num determinado momento, os irmãos são chamados para acudi-la, pois está enlouquecendo de tanto sofrimento. Ao vê-la naquele estado deplorável, o irmão, perplexo, comenta com a irmã:

Eu não entendo. Ela ouviu de nossos pais as mesmas coisas que nós ouvimos.”

A irmã, então, lhe diz:

É… só que ela acreditou.”

O fim do patriarcado traz nova reflexão sobre o relacionamento entre homens e mulheres, o amor, o casamento e a sexualidade. Nossas convicções íntimas mais arraigadas são abaladas, projetando-nos num vazio. Os modelos do passado não respondem mais aos nossos anseios e nos deparamos com uma realidade ameaçadora, por não encontrarmos modelos em que nos apoiar, em tempo algum, em nenhum lugar.

Essa pode ser a grande saída para o ser humano. Percebendo as próprias singularidades e não tendo mais que se adaptar a modelos impostos de fora, abre-se um espaço em que novas formas de viver, assim como novas sensações, podem ser experimentadas.



Capa: Folio Design

Fonte: Lins, Regina Navarro. A cama na varanda: arejando nossas ideias a respeito de amor e sexo. 14ª ed., Rio de Janeiro: Best Seller, 2020. p. 458.

quinta-feira, 25 de maio de 2023

Duas do Canário de Uruguaiana (Rillo)

 

Todos os causos que conheço, particularmente, tendo como personagem Moacir Almeida, o Canário, me foram passados por seu filho e grande cantor João de Almeida Neto. Inclusive os que relato a seguir.

Seu Moacir é dono de um amplo terreno na zona suburbana de Uruguaiana. Há tempos resolveu estabelecer no local um depósito de areia, brita e tijolos, por ele mesmo administrado. Seu terreno, para efeitos fiscais, foi taxado de baldio pela Prefeitura e taxado bem acima dos terrenos construídos. Seu Moacir não concordou com a taxação:

- Baldio, ora essa!

Na Prefeitura lhe foi informado de que a taxação estava correta. O terreno era mesmo baldio e portanto sujeito à tributação mais elevada.

- Mas e eu não tenho um depósito no local? Não pago alvará sobre o negócio? Isso só pode ser perseguição!

- Não, seu Moacir, nada disso. Segundo o Código de Posturas todo terreno não construído, a partir do alicerce, é considerado baldio.

- Quer dizer que se eu construo nele vou pagar menos impostos, é isso?

- Se construir, sim.

Seu Moacir estrilou.

- Construção, é? Então, decerto, vocês querem que eu venda areia, brita e tijolo em prateleira?

De outra feita estava o Canário acompanhando o filho João numa circulada por Paso de Los Libres. Chegaram a uma casa noturna. Pelo sistema de som ouvia-se um samba de partido-alto, tema de predileção de seu Moacir, que nunca perdoou o João por cantar preferentemente música nativista. Chamou a atenção do filho:

- Tá escutando, João? Isto que é música. Samba do bom, brasileiro da gema, com balanço. Sabe que mais? Samba é o que tu deverias cantar pr’esses correntinos aprenderem o que é música – música marca Brasil, tás me ouvindo?

Sim, João de Almeida Neto estava ouvindo. E gostando do samba do grande compositor Agepê. E por falar nisso, que tal testar os conhecimentos musicais do velho?

- Samba é bueno, pai. O senhor tem toda razão. E a propósito, de quem é mesmo este samba de partido-alto que a gente está ouvindo e o senhor louvando?

Seu Moacir despregou um sorriso inteiro. E respondeu, por cima da carne seca:

- É de um tal de Aguapé, meu filho João...



Ilustração: Bier

Capa: Roberto Silva

Fonte: Boca do Povo. Rillo, Apparicio Silva. Porto Alegre: Tchê! Editora, 1986, p. 139/140.

quarta-feira, 24 de maio de 2023

Canário de Acampamento - Um causo do Rillo

 

Bagre Fagundes angaria troféu inusitado na Barranca de São Borja

O advogado Euclides Fagundes Filho, cria (com muita honra) do Alegrete, conhecido por Bagre nas rodas do nativismo, é um exímio tocador de gaita de quatro baixos e se defende lindo no violão. Ademais que um cantor de razoável para bueno, especialista em canções do folclore argentino – de que sabe tantas como uma carrada de abóboras. Estava num dos Festivais da Barranca, em São Borja, quando o Bira Fontoura – Bugre para os íntimos-, lhe passou, muito em segredo, que a direção do Festival preparava um troféu especial para o “barranqueiro” que, de quinta a sábado, melhor e mais assiduamente divertisse o acampamento de beira d’água.

- E que troféu é este, Bugre? Vale a pena?

- É o Canário de Acampamento! Todo em madeira de lei, com bico de ouro, feitio do Ismar, aquele baita artesão que mora onde foi o cabaré da Dona Rosa.

- Bico de ouro, é? Pois olha, Bugre, este troféu já é meu. Levo o Canário para o meu Alegrete!

Passou três dias cantando, trovou com quatro ou cinco, inclusive com o Nico Fagundes, seu irmão, declamou todo o Navio Negreiro, musicou o Padre Nosso e, pra arrematar, contou uns vinte causos e igual número de anedotas “quentes”.

Termina o Festival e nada do troféu. Já desconfiado, o Bagre procura o Bira, que ria que se ria para dentro.

- E o troféu? Ganhei eu, não?

- Ganhou, claro. Peraí que já te dou.

Afastou-se um momento e voltou com um ovo de passarinho na mão. Estendeu-o para o Bagre.

- Toma. É teu.

- Tá louco? Que é isso?

E o Bira, de acionar as de correr:

- É o Canário de Acampamento. Põe para chocar que em quinze dias vem a furo!



Capa: Roberto Silva

Fonte: Boca do Povo. Rillo, Apparicio Silva. Porto Alegre: Tchê! Editora, 1986, p. 61/62.

domingo, 16 de abril de 2023

João José Machado de Oliveira e o trem (Carlos Reverbel)

 


Velho amigo e compadre de Assis Brasil. Homem vivaz e malicioso. Fazendeiro abonado, só viajava de 2ª classe.

Tendo alguém lhe perguntado por que se sujeitava a esse desconforto, sua resposta veio logo:

- Porque não existe 3ª classe em nossos trens.”


Capa: Calito Azevedo Moura

Fonte: Reverbel, Carlos. Pedras Altas. A vida no campo segundo Assis Brasil. Porto Alegre: L&PM Editores Ltda, 1984, p. 16.

Eulogia Tapia - "La Pomeña"

16 de Abril de 1969 - Se registra la zamba “La Pomeña”, con música de Gustavo Leguizamón y letra de Manuel J. Castilla. Los anónimos personajes regionales revalorizados por la canción:

“Eulogia Tapia en La Poma
  al aire da su ternura,
  si pasa sobre la arena
  y va pisando la luna".

Su madre la llamó un día al grito de "Eulogia, Eulogia. Acaba de salir por la radio una zamba que te nombraba. Hablaba del blanco y de la caja". A través de este hecho de la vida cotidiana, Eulogia sabe que la letra de "La Pomeña" la tiene como protagonista de la inmortal canción.

La zamba musicalizada por Cuchi Leguizamón describe aquel carnaval en que la legendaria coplera venció al barbudo poeta Manuel Castilla en dos contrapuntos de coplas, el primero en el Bar la Flor del Pago, y el segundo cuando Castilla, todavía con la sangre en el ojo por la primera derrota, fue hasta el rancho de la familia Tapia a pedir la revancha. Allí se vio nuevamente derrotado por el ingenio coplero de la Eulogia. Ya resignado, al dejar La Poma, Manuel Castilla decidió plasmar sus derrotas en una poesía. Y así quedó escrita la historia que transformó a Eulogia Tapia en una leyenda. Sin embargo, ajena a la fama otorgada por la popular zamba que forma parte del repertorio de la mayoría de los intérpretes del folclore, Eulogia continúa su tranquila vida de pastora en La Poma.


Hoy Eulogia, de avanzada edad, se convirtió en una leyenda que deambula por los caminos del norte. Y a pesar de la popularidad de su nombre sus cosas no han cambiado. Cada mañana, apenas asoma el sol, ella sale de su humilde rancho de adobe para ordeñar sus cabras y seguir cortando el trigo de su pan. Llegado el mediodía, saca unas hojitas de coca de su bolsillo y matea con su marido, mientras trata de encontrar un nuevo secreto en las flores de alfalfa que cubren su territorio.


"El sauce de tu casa, te está llorando - canta la zamba -. Porque te roban, Eulogia, carnavaleando". Y para esta mujer norteña esas líneas se explican sencillamente: "Habrán escrito que el sauce de mi casa lloraba porque aquella tarde, aprovechando que andábamos de contrapunto y nadie pastoreaba, algún avivado anduvo robando cabras. Y se llevó bastantitas" explica. "Después encontré varias maneadas en un bajo".

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sexta-feira, 14 de abril de 2023

Mangueira de Falsidades (Patrícia Campos Mello)


Ou firehose of falsehoods.

Trata-se da disseminação de uma informação, que pode ser mentirosa ou enviesada, em um fluxo constante, repetitivo, rápido e em larga escala. As pessoas são bombardeadas de todos os lados por uma informação, e a repetição lhes confere a sensação de familiaridade com determinada mensagem. A familiaridade, por sua vez, leva o sujeito a aceitar certos conteúdos como verdadeiros.

Com a mídia profissional desacreditada, essas narrativas saturam a atenção das pessoas, que ficam isoladas em suas bolhas de informação.

Desinformação viraliza. Isso decorre de uma característica humana e do funcionamento dos algoritmos das redes sociais. As pessoas se envolvem mais com notícias e informações que despertem emoções fortes como revolta e ódio. Indignação gera engajamento na internet. Quanto mais engajamento – curtidas, compartilhamentos -, mais o algoritmo das redes dá destaque e alcance.

Funciona da mesma maneira com declarações chocantes, mentiras descaradas ou a chamada “lacração”. Muitos políticos sabem que esse tipo de conteúdo vai viralizar e se tornar cortina de fumaça, ofuscando notícias negativas, muitas vezes verdadeiras, que eles não querem que ganhe destaque.

Mas, como diz a jornalista Maria Ressa, prêmio Nobel da Paz, “sem integridade dos fatos, não há democracia”.

Nesse ecossistema paralelo, aqueles que têm opiniões divergentes ou votam em candidatos diferentes são encarados como inimigos que precisam ser exterminados.

Por isso, o combate à desinformação é uma questão existencial.


Adaptado do original.



Fonte: Biló, Gabriela, Medo e Delírio e Pedro Inoue. Organização Daniel Lameira. A verdade vos libertará: 2013-2023. 1. ed. São Paulo: Fósforo, 2023.

quarta-feira, 5 de abril de 2023

Joaquina de Assis Brasil - entrevista a Luiz Francisco Mazo Martins (01/1988)

Dona Joaquina (1902-1988), ou melhor, Quinquim para os íntimos. Ou ainda Kiki, como sugeriu-lhe em tupi-guarani o historiador e amigo Capistrano de Abreu


Capistrano de Abreu (Moranguape, CE,23/10/1853- Rio de Janeiro,13/08/1927)

Filha de Joaquim Francisco de Assis Brasil, nascida na Estância de São Gonçalo, Cacequi, em 17 de janeiro de 1902, Dona Joaquina de Assis Brasil foi a guardiã de “um mundo de coisas”. A partir da morte de sua mãe até a data de seu próprio falecimento, aos 16 de novembro de 1988, em Pedras Altas, responsabilizou-se por um patrimônio cultural extremamente rico.


Estância São Gonçalo, Cacequi, casa dos pais de J. F. De Assis Brasil

- Dona Joaquina, como surgiu o sobrenome Assis Brasil?

- Meu avô, Francisco de Assis Souza Brasil, nasceu a 4 de outubro, dia de São Francisco de Assis, e foi batizado na igreja de São Francisco, em Rio Pardo. Nós recebemos o sino desta igreja como presente e até hoje ele é usado aqui na Granja, para chamar os peões. Papai ficou encantado quando o ganhou. Estava rachado, mas mandamos fundi-lo novamente e ficou muito bom. Meu pai também foi batizado Francisco de Assis, ficando, então, Joaquim Francisco de Assis Brasil. O padre que o batizou e que também foi seu padrinho chamava-se Joaquim Ribeiro de Andrade e Silva. Teve um grande destaque na Revolução Farroupilha.

Os irmãos de papai não assinavam Assis: Tio Paulo Brasil, Tio Diogo Brasil. Só o Tio Bartolomeu resolveu usar esse sobrenome.

- Dona Joaquina, como foi a sua educação, há mais de 80 anos e no campo?

- Nasci em 1902 e fui para os Estados Unidos com poucos meses de idade. A primeira língua que falei foi o inglês. Mamãe resolveu que todos os filhos, desde pequenos, aprenderiam inglês. Foi uma boa ideia, não foi? Tínhamos, então, as “nurse-maid”, amas como chamam aqui. Depois, voltando para o Brasil, sempre fui educada em casa por institutrizes estrangeiras, que eram contratadas de dois em dois anos, exceto uma, que foi por três anos. Tivemos várias: Miss Rosser, Miss Studart, Miss Day, que veio duas vezes e que morava no cottage, naquele quarto até hoje chamado o “da Miss Day”. Depois dela veio uma alemã que era nobre, chamava-se Helena von Jass. Essa era altamente sabida, muito sabichona! Formada pela Universidade de Grenoble, no sul da França, falava francês como uma francesa, conhecia o grego e o latim, era uma verdadeira latinista! Muito do que aprendi foi com ela. Veio de Baden Baden e foi embora quando estourou a guerra. Disse que era melhor voltar para o seu país de origem porque o Brasil tinha tomado posição contra a Alemanha. Nós choramos muito a partida dela. Naquela noite fui mandada para a cama mais cedo, para ver se parava de chorar… Eu senti muito…

Tínhamos, também, aqui em Pedras Altas, um núcleo de ótimos operários especializados. Papai dizia que para evitar o êxodo rural era necessário que as pessoas tivessem uma profissão rendosa no campo. Trouxe bons operários de Buenos Aires, Montevidéu, Itália, Espanha, Portugal, Alemanha. O seu Albino Eisfeldt era das colônias alemãs. Ele era um ferreiro formidável. Um verdadeiro artista! Os marceneiros alemães também eram formidáveis. Toda a marcenaria de imbuia foi feita em casa. nhamos aqui em Pedras Altas, realmente, um núcleo de ótimos operários. Depois que tiraram o trem, toda essa gente se mandou, saiu daqui, nunca mais voltou…




Mr Mc Gregor


Papai preocupou-se muito com o campo. Ele gostaria que não fosse bruto e inculto. Fez todo o possível para isso, porém, naquele tempo, qualquer coisa que ele quisesse fazer, o governo borgista era contra. Não queria que ele aparecesse, mas a sua intenção era somente o progresso. Papai dizia que a joia do Brasil era o Rio Grande, por ter o mesmo clima do sul da Europa. Tinha muita admiração pelos gaúchos que, com as guerras, abriram um pouco os olhos e aprenderam que a tirania era injusta. Achava este povo formidável, inculto mas com talento que outros povos não tinham. Meu pai foi muito campeiro! Não errava um tiro de laço. Fazia uma armada média e certeira. Na época de domar, era ele quem laçava para os peões manearem.

- E o teatro na família?

- Ah! Mas era de brincadeira! Nós apresentávamos até óperas. Fazíamos a Dama das Camélias, como sempre! La Traviata… Era muito engraçado porque a gente improvisava tudo na hora. Escrevi uma peça em inglês. Há poucos dias ainda vi lá em cima. Cecília também escrevia. Era só para a gente se entreter.

- E o esporte?

- O sport principal era o tennis. O material era inglês, tudo de ótima qualidade. A rede foi feita por nós. As professoras inglesas, todas, sabiam jogar muito bem. Uma tinha sido até instrutora na Europa. A Cecília jogava muito bem. Todos lá em casa jogavam muito bem. Só eu era péssima jogadora. Quando faltava gente para fazer o double eles me chamavam mas diziam para não chutar a bolinha, que era a minha tendência.

Esse sistema de educação que papai deu aos filhos, os chimangos achavam muito antipatriótico. Diziam que se alguém quisesse ver um caso de antipatriotismo, era só ir a Pedras Altas para ouvir sussurros em inglês, francês e alemão. Achavam isso muito feio (risos)…

Hoje em dia, com a educação do jeito que está, as crianças passam o dia todo longe dos pais e aprendem coisas muito deselegantes, sem aquela intimidade com a família que havia nos tempos em que a gente estudava em casa… Acho que deveria haver mais participação da família. Assim me parece, não sei se estou enganada.

- O que era o Bando dos Bem-te-vis?

- Fomos educados também para amarmos a natureza. Então criamos o grupo chamado Bando dos Bem-te-vis. Quando o Marechal Rondon esteve por aqui, junto com o seu valet de chambre, um negro de Barbados que falava inglês, ficou encantado com o Bando dos Bem-te-vis. Logo o convidamos para ser Bem-te-vi Honorário, do Mato Grosso. Cantamos o hino do grupo, que foi escrito em português por papai e cuja melodia foi tirada do hino dos Boers na guerra dos holandeses contra africanos, conheces? (canta o hino em holandês). Minhas irmãs que estudaram na Suíça o aprenderam com colegas holandesas. Rondon achou muito bonito. Ele era uma pessoa simples, que gostava de crianças e de gente moça. Gostava de ensinar e dizia: “Quando vocês quiserem aprender bororo” – pronunciava como os índios, em vez de bororó – “eu sou professor de bororo”. Sabia falar a língua de várias tribos. Uma pessoa interessante! Quando criamos os Bem-te-vis, foram feitas, também, leis para o grupo: não se podia mentir, nunca! Uma vez Francisco pregou uma e foi demitido do Bando por algum tempo. Tudo foi inspirado naquele livro do Mogly. Mogly era nosso modelo. Podíamos ficar perdidos no meio do mato, que conhecíamos as plantas que eram comestíveis, as frutas não venenosas e os animais que se podiam comer, como o lagarto, cuja carne do rabo é bem branca e se parece com a do peixe. A letra do hino que papai escreveu é assim:

“Formam nossa companhia

Quatro moças e um guri

Queremos tomar por guia

O passarinho valente

Que alegra e desperta a gente

Com o grito – bem-te-vi!”

- Seu pai usou o arado como símbolo poético do trabalho. Como era o trabalho em família?

- Trabalhávamos no campo trazendo o gado, parando rodeio e quando tinha marcação a gente ajudava. Sempre tomávamos parte nas lidas. Dolores era a mais campeira, até domava! Só que deixava os cavalos cheios de balda. Os rapazes eram “machões”, ficavam separados fazendo outro tipo de serviço. Não gostavam de que a gente mimasse os animais. As mulheres, todas, gostavam muito de bordar. Neste tempo sempre tínhamos boas empregadas. Lembro-me da Felícia. Era um “motor” de tanto trabalho! Trabalhávamos muito no jardim, com as flores e plantas, na colheita das frutas, quando era tempo de fazer doces e sucos. Todos ajudávamos mamãe! A von Jass me ensinou muito sobre botânica. Era uma grande conhecedora, também, dessa área.





Cavalo Vampiro, preferido de D. Joaquina

- E a religião na família?

- Cada um tinha a liberdade de ser o que quisesse. A Cecília acreditava em coisas sobrenaturais. Eu não acredito, mas respeito. Mamãe era católica e papai livre pensador. Ele dava plena liberdade, sem discriminação ou intolerância. Todos nós fomos batizados. Ele mandava vir bispos para crismar aqui. Tinha grande amizade com os bispos. Eles diziam: “Dr. Assis, só lhe falta a fé, porque o senhor é um verdadeiro cristão, modelo de cristão”. Papai respondia: “Vocês estão julgando-me bom demais…”. Papai admirava muito Renan, que também era um livre pensador. Papai fez um poema sobre Cristo (recita de memória):

“Pelos campos sem luz da mística Judeia

Andava errante e triste um pobre viajor

O verbo semeando e recolhendo a ideia

Que todo o seu poder, que todo o seu valor

Estava em enxugar o pranto da miséria

No manto sideral do seu divino amor…

Homens, vós sois a guerra e eu vos trago a paz!”

Papai achava imoral o luxo, a riqueza e a venda de indulgências no catolicismo…

- Dona Joaquina, como foi o exílio?

- Minha irmã Maria, por ser a mais velha da família, foi encarregada de fazer o acervo das coisas que tínhamos que esconder. Ela as colocava em caixotes grandes para que o Dr. Berchon, nosso grande amigo, nos enviasse pelo trem. Tínhamos esconderijos secretos para as coisas preciosas apartadas, fazíamos uma parede falsa e colocávamos as pratarias e outras coisas de valor. Foi muito cruel o que Borges fez com meu pai! Deu ordem para os bancos retirarem seu crédito porque não era pessoa de confiança. Deixou que invadissem os bens de papai: levaram tropas e tropas. Saquearam a estância de Ibirapuitã e a de Itaiassu. Soltaram cavalos dentro do jardim aqui da Granja, onde até hoje guardamos a marca do “templo profanado” pelos chimangos. Felizmente os amigos forma muito fiéis. O seu Chico Macedo Couto, muito relacionado com tropeiros, recuperava o gado roubado, deixava no seu campo e depois mandava para o Uruguai, onde estávamos exilados. Ele estava sempre arriscando a vida ou ir para a prisão por nossa causa… Foi muito triste ter que começar tudo de novo!

Aacleto Firpo, Assis Brasil e Raul Pilla, 1931
Osvaldo Aranha, Cícero Góes Monteiro, Dr. Victor Russoman e Raul Azambuja, 1932 ("Alegrete", paque da Granja)
AB e D. Lydia e comitiva do governo provisório de Getúlio Vargas, 1931
Salgado Filho, Ministro do Trabalho, 1934

- E a respeito das calúnias sofridas por Assis Brasil?

- Os chimangos diziam coisas horríveis: que papai tinha matado sua primeira mulher com um tiro na cabeça, que trouxe tudo quanto foi praga para o Estado, como o berne, o pardal… e são coisas que nem existem em Pedras Altas. Até a Lina, minha irmã, que é quieta, já publicou um artigo no antigo Correio do Povo. Tomou a caneta na mão e escreveu que parecia incrível que uma pessoa com inteligência tão fulgurante como papai, fosse acusado de fazer tanta coisa ruim. A respeito dos tiros, não tem cabimento! Papai gostava muito de armas, tinha armas de primeira ordem e era só ele que as limpava e manipulava. Ficavam fechadas à chave, para não haver nenhum acidente. Papai enxergava bem até depois de velho. Tudo isso é coisa de políticos sujos e estúpidos… Pequenezas! O mais comovente é que a geração do próprio Castilhos e mais outra geração de parentes, todos ficaram amicíssimos de papai. Vinham aqui tropas de Castilhos: o Inocêncio, a Julinha, filha de Júlio de Castilhos, o Raimundo, que papai orientou mandando-o para São Paulo para estudar. A carta da mãe de Júlio de Castilhos ao papai é muito significativa. Hoje a família toda é nossa amiga.

- A ideia de construir Pedras Altas foi de Assis Brasil. Dona Lydia, sua mãe, continuou e nomeou-a guardiã deste tesouro cultural. Dona Joaquina, quem lhe sucederá?

- “Permaneat animus lapide perennius”. Foi papai que construiu essa frase que quer dizer: a ideia ou o ideal permaneça perene como a pedra. Ah! Se eu pudesse fazer uma fundação! Os outros não deixariam de ser donos, só não teriam licença para vender. Não posso esvaziar Pedras Altas doando o acervo. Por mim eu fazia um bom museu, com bons guardas, se cobraria entrada… Papai tinha certeza de que os filhos e netos teriam continuado, tomariam conta. Se ele soubesse que não, teria tido uma grande decepção. Não há coisa pior do que a falta de continuidade de uma família...


Joaquina, Francisco (ao colo), Assis Brasil, Carolina e Lídia;
ao fundo, Maria e Cecília
(Buenos Aires, 1907)

Enterro de Assis Brasil, 25/12/1938


Lídia de Assis Brasil,
Joaquina de Assis Brasil e Antonio Bonini.

Entrevista concedida ao arquivista Luiz Francisco Mazo Martins no “boudoir” do castelo, em janeiro de 1988. Seus depoimentos requerem uma interpretação atenta, por constituírem trilhas seguras para se penetrar nos labirintos da História.

Capa: Valter Noal Filho

Fonte: Rocha, Artheniza Weinmann, Luiz Gonzaga Binato de Almeida e José Newton Cardoso Marchiori. Ed. UFSM, Santa Maria: 1995, p.127/130.

Crédito foto biblioteca: http://www.botasbonini.com.br/historia.htm

Acesso 04/04/2023

Livro “O Balanço da Mata Norte – Batuque Rural na Bateria” (Rafael dos Santos, 2026)

  Batuque Rural na Bateria   Fonte:  https://viasabertas.com.br/nossos-trabalhos/livro-o-balanco-da-mata-norte-batuque-rural-na-bateria-2026...