segunda-feira, 19 de junho de 2023

Firme contigo (Ricardo Reis)

 


Ninguém a outro ama, senão que ama

O que de si há nele, ou é suposto.

Nada te pese que não te amem. Sentem-te

Quem és, e és estrangeiro.

Cura de ser quem és, amem-te ou nunca.

Firme contigo, sofrerás avaro

De penas.

10-8-1932


Capa: Marcellin Talbot

Fonte: Pessoa, Fernando. Poesia de Ricardo Reis. Coleção a obra-prima de cada autor (250). São Paulo: Editora Martin Claret, 2006, p. 127.

Querer (Ricardo Reis)

 


Quer pouco: terás tudo.

Quer nada: serás livre.

O mesmo amor que tenham

Por nós, quer-nos, oprime-nos.

1-11-1930


Capa: Marcellin Talbot

Fonte: Pessoa, Fernando. Poesia de Ricardo Reis. Coleção a obra-prima de cada autor (250). São Paulo: Editora Martin Claret, 2006, p. 120/121.

Inglória é a vida (Ricardo Reis)

 


Inglória é a vida, e inglório o conhecê-la.

Quantos, se pensam, não se reconhecem

Os que se conheceram!

A cada hora se muda não só a hora

Mas o que se crê nela, e a vida passa

Entre viver e ser.

26-4-1928


Capa: Marcellin Talbot

Fonte: Pessoa, Fernando. Poesia de Ricardo Reis. Coleção a obra-prima de cada autor (250). São Paulo: Editora Martin Claret, 2006, p. 112/113.

Segue o teu destino (Ricardo Reis)

 


Segue o teu destino,

Rega as tuas plantas,

Ama as tuas rosas.

O resto é a sombra

De árvores alheias.


A realidade

Sempre é mais ou menos

Do que nós queremos.

Só nós somos sempre

Iguais a nós-próprios.


Suave é viver só.

Grande e nobre é sempre

Viver simplesmente.

Deixa a dor nas aras

Como ex-voto aos deuses.


Vê de longe a vida.

Nunca a interrogues.

Ela nada pode

Dizer-te. A resposta

Está além dos deuses.


Mas serenamente

Imita o Olimpo

No teu coração.

Os deuses são deuses

Porque não se pensam.

1-7-1916


Capa: Marcellin Talbot

Fonte: Pessoa, Fernando. Poesia de Ricardo Reis. Coleção a obra-prima de cada autor (250). São Paulo: Editora Martin Claret, 2006, p. 74/75.

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Adultos (Camila Fremder)

 

Adultos acham que precisam ser fortes e seguros de si para serem adultos, mas essa é a parte mais infantil de ser adulto. Você tem que ser muito corajoso para dizer que está triste, decepcionado, com vergonha, sem graça, sem jeito. Mais ainda para pedir ajuda, um abraço ou desculpas. Não acho que adultos sejam bons nisso. E é no mínimo curioso que algo tão natural como ficar chateado de vez em quando seja visto como sinal de fraqueza. Na minha opinião, a parte mais corajosa da gente é a que mostra a verdade.

(…) a gente mente o tempo todo. Mentimos idade, inventamos uma vida inteira nas redes sociais, criamos nomes de profissões supercomplicados para “agregar” mais importância por pura vaidade. E a gente adora criticar tudo e todos só para ter uma opinião. Porque adultos sentem necessidade de opinar sobre todos os assuntos.

Você cresce quando aprende algo novo, quando aceita o que não esperava, quando entende outro ponto de vista, quando enfrenta um medo, quando reconhece um erro e pede desculpas… Envelhecer faz parte do jogo, crescer e se aprimorar com as experiências que vive.



Capa: Ale Kalko

Ilustração: Veridiana Scarpelli

Fonte: Fremder, Camila. Adulta sim, madura nem sempre: fraldas, boletos e pouco colágeno. 1ª ed. São Paulo: Paralela, 2018, p. 13/22.

Lídio (Camila Fremder)

 Eu tive uma paixão platônica tão grande por um chefe que, sem querer, chamei-o de lindo no meio de uma reunião. Ele olhou assustado para mim:

- Oi?

- Lídio, eu disse lídio, você lembra muito o meu amigo Lídio.



Capa: Ale Kalko

Ilustração: Veridiana Scarpelli

Fonte: Fremder, Camila. Adulta sim, madura nem sempre: fraldas, boletos e pouco colágeno. 1ª ed. São Paulo: Paralela, 2018, p. 67.

domingo, 4 de junho de 2023

Última página (A cama na varanda, Regina Navarro Lins)

 

Quando nascemos, somos colocados no mundo com padrões de comportamentos fixos e determinados. Com a educação e o convívio, vamos absorvendo os valores da nossa cultura. E isso é feito de tal forma que na vida adulta torna-se difícil saber o que realmente desejamos e o que aprendemos a desejar. Observa-se que a insatisfação é geral – nunca se venderam tantos ansiolíticos e antidepressivos como agora -, mas modificar a maneira de viver e de pensar gera ansiedade. O novo, o desconhecido, assusta. Entretanto, repetir o que é aprendido como verdade absoluta gera sofrimento.

Há cerca de 30 anos, assisti à peça No natal a gente vem te buscar, de Naum Alves de Souza, que ilustra de forma dramática a submissão aos valores sociais. Tentarei reproduzir a parte da história que registrei e o diálogo que nunca me saiu da memória.

Duas irmãs e um irmão. Uma delas não saía, ficava em casa com os pais, totalmente submetida aos conceitos de certo/errado, bom/mau, que tinha absorvido. Sua vida se resumia a ser guardiã da moral e dos bons costumes. Recriminava a tudo e a todos por suas atitudes e comportamentos. Os irmãos, por sua vez, buscavam viver suas vidas. O tempo passa, os pais morrem e ela torna-se cada vez mais amarga. Num determinado momento, os irmãos são chamados para acudi-la, pois está enlouquecendo de tanto sofrimento. Ao vê-la naquele estado deplorável, o irmão, perplexo, comenta com a irmã:

Eu não entendo. Ela ouviu de nossos pais as mesmas coisas que nós ouvimos.”

A irmã, então, lhe diz:

É… só que ela acreditou.”

O fim do patriarcado traz nova reflexão sobre o relacionamento entre homens e mulheres, o amor, o casamento e a sexualidade. Nossas convicções íntimas mais arraigadas são abaladas, projetando-nos num vazio. Os modelos do passado não respondem mais aos nossos anseios e nos deparamos com uma realidade ameaçadora, por não encontrarmos modelos em que nos apoiar, em tempo algum, em nenhum lugar.

Essa pode ser a grande saída para o ser humano. Percebendo as próprias singularidades e não tendo mais que se adaptar a modelos impostos de fora, abre-se um espaço em que novas formas de viver, assim como novas sensações, podem ser experimentadas.



Capa: Folio Design

Fonte: Lins, Regina Navarro. A cama na varanda: arejando nossas ideias a respeito de amor e sexo. 14ª ed., Rio de Janeiro: Best Seller, 2020. p. 458.

quinta-feira, 25 de maio de 2023

Duas do Canário de Uruguaiana (Rillo)

 

Todos os causos que conheço, particularmente, tendo como personagem Moacir Almeida, o Canário, me foram passados por seu filho e grande cantor João de Almeida Neto. Inclusive os que relato a seguir.

Seu Moacir é dono de um amplo terreno na zona suburbana de Uruguaiana. Há tempos resolveu estabelecer no local um depósito de areia, brita e tijolos, por ele mesmo administrado. Seu terreno, para efeitos fiscais, foi taxado de baldio pela Prefeitura e taxado bem acima dos terrenos construídos. Seu Moacir não concordou com a taxação:

- Baldio, ora essa!

Na Prefeitura lhe foi informado de que a taxação estava correta. O terreno era mesmo baldio e portanto sujeito à tributação mais elevada.

- Mas e eu não tenho um depósito no local? Não pago alvará sobre o negócio? Isso só pode ser perseguição!

- Não, seu Moacir, nada disso. Segundo o Código de Posturas todo terreno não construído, a partir do alicerce, é considerado baldio.

- Quer dizer que se eu construo nele vou pagar menos impostos, é isso?

- Se construir, sim.

Seu Moacir estrilou.

- Construção, é? Então, decerto, vocês querem que eu venda areia, brita e tijolo em prateleira?

De outra feita estava o Canário acompanhando o filho João numa circulada por Paso de Los Libres. Chegaram a uma casa noturna. Pelo sistema de som ouvia-se um samba de partido-alto, tema de predileção de seu Moacir, que nunca perdoou o João por cantar preferentemente música nativista. Chamou a atenção do filho:

- Tá escutando, João? Isto que é música. Samba do bom, brasileiro da gema, com balanço. Sabe que mais? Samba é o que tu deverias cantar pr’esses correntinos aprenderem o que é música – música marca Brasil, tás me ouvindo?

Sim, João de Almeida Neto estava ouvindo. E gostando do samba do grande compositor Agepê. E por falar nisso, que tal testar os conhecimentos musicais do velho?

- Samba é bueno, pai. O senhor tem toda razão. E a propósito, de quem é mesmo este samba de partido-alto que a gente está ouvindo e o senhor louvando?

Seu Moacir despregou um sorriso inteiro. E respondeu, por cima da carne seca:

- É de um tal de Aguapé, meu filho João...



Ilustração: Bier

Capa: Roberto Silva

Fonte: Boca do Povo. Rillo, Apparicio Silva. Porto Alegre: Tchê! Editora, 1986, p. 139/140.

quarta-feira, 24 de maio de 2023

Canário de Acampamento - Um causo do Rillo

 

Bagre Fagundes angaria troféu inusitado na Barranca de São Borja

O advogado Euclides Fagundes Filho, cria (com muita honra) do Alegrete, conhecido por Bagre nas rodas do nativismo, é um exímio tocador de gaita de quatro baixos e se defende lindo no violão. Ademais que um cantor de razoável para bueno, especialista em canções do folclore argentino – de que sabe tantas como uma carrada de abóboras. Estava num dos Festivais da Barranca, em São Borja, quando o Bira Fontoura – Bugre para os íntimos-, lhe passou, muito em segredo, que a direção do Festival preparava um troféu especial para o “barranqueiro” que, de quinta a sábado, melhor e mais assiduamente divertisse o acampamento de beira d’água.

- E que troféu é este, Bugre? Vale a pena?

- É o Canário de Acampamento! Todo em madeira de lei, com bico de ouro, feitio do Ismar, aquele baita artesão que mora onde foi o cabaré da Dona Rosa.

- Bico de ouro, é? Pois olha, Bugre, este troféu já é meu. Levo o Canário para o meu Alegrete!

Passou três dias cantando, trovou com quatro ou cinco, inclusive com o Nico Fagundes, seu irmão, declamou todo o Navio Negreiro, musicou o Padre Nosso e, pra arrematar, contou uns vinte causos e igual número de anedotas “quentes”.

Termina o Festival e nada do troféu. Já desconfiado, o Bagre procura o Bira, que ria que se ria para dentro.

- E o troféu? Ganhei eu, não?

- Ganhou, claro. Peraí que já te dou.

Afastou-se um momento e voltou com um ovo de passarinho na mão. Estendeu-o para o Bagre.

- Toma. É teu.

- Tá louco? Que é isso?

E o Bira, de acionar as de correr:

- É o Canário de Acampamento. Põe para chocar que em quinze dias vem a furo!



Capa: Roberto Silva

Fonte: Boca do Povo. Rillo, Apparicio Silva. Porto Alegre: Tchê! Editora, 1986, p. 61/62.

Sete sílabas de terra vermelha (Paulo Bentancur)

  Montado em sete sílabas, Jayme Caetano Braun (1994 – 1999) não descuida um verso sequer o generoso horizonte da lírica repentista. O seu ...