sábado, 20 de maio de 2017

Cultura Terrunha - Pra Pensar (Glênio Fagundes)

Nativismo

...pra pensar!...

Cultura Terrunha

Glênio Fagundes   

A identidade cultural nas triagens

É comum nas triagens deparamos com temas (canções) de conotação urbana de grande gosto e beleza. Neste momento se o corpo de jurados não estiver embutido da proposta cultural do evento que se diz “NATIVISTA”, poderá ficar em dúvida! Por isto, antes de ocuparmos o lugar de jurado devemos ter intimidade com a área nativa, além das propostas do evento. Só aquele que tem consciência sabe do alto grau de responsabilidade que pesa sobre os ombros de quem vai emitir pareceres culturais num corpo de jurados! Pois quando se trata de enriquecimento cultural, a identidade com as raízes da cultura, deverá se fazer presente, antes mesmo da beleza do tema. E para tanto, requer conhecimento.

O jurado cultural, não pode guiar-se apenas pelo fato de gostar ou desgostar do tema (canção) inscrito no evento. Por isto, a triagem é de suma importância.

A ajuda de custo nos festivais

Está mais que comprovado o fato de que a AJUDA DE CUSTO é fundamental para a grandeza do evento, possibilitando a presença de melhor apresentação dos temas.

O instrumental acústico não basta?

Sabemos que os microfones usados em nossos festivais nativos, já possuem qualidade suficiente para transmitir a sensibilidade do artista, sem distorções, por que não estimular a simplicidade do instrumental acústico?

Por onde andará a simplicidade?

Se no regulamento diz: “no máximo (7) sete elementos em palco”. Este item é seguido quase ao pé da letra, pois é rara a vez que as canções apresentadas não trazem esse número de participantes.

Pelo fato do pouco tempo entre a pré-seleção e a apresentação em palco, notamos através dos temas um verdadeiro mosaico de bons artistas, mas sem unidade. É uma lástima que não haja uma preocupação maior com a simplicidade.

O urbano e o nativo

Por que não temos um festival de música urbana, se possuímos mais de cinquenta encontros nativos musicais?

Será que temos música popular urbana de raiz?

Sabemos que o hibridismo nunca foi processo de aculturação, no enriquecimento cultural.

Mais intimidade cultural

Notamos muitas vezes que nos encontros musicais de arte nativa a intimidade com a cultura da nossa terra deixa muito a desejar. Não basta extrair de um dicionário gauchesco termos para elaboração de uma letra. Os temas são inesgotáveis. O esvaziamento repetitivo está na pobreza de quem o elabora.

A simplicidade no personal

Lamentavelmente ouvimos comentários sobre o fato de que alguns artistas estariam usando o esquema de participarem dos festivais apenas pela ajuda de custo, descuidando da boa apresentação do trabalho. Em virtude desse fato, alguns festivais, criariam uma nova cláusula. Seria permitido no evento a presença em palco no mínimo de três elementos e no máximo de sete.

Teríamos muito a lamentar com este fato. Onde ficaria o artista personal e os duetos?

- As manifestações simples nunca deixam dúvidas, ou são boas ou são ruins, ao passo que quanto mais elementos em palco mais difícil sua apresentação, uma vez que a premência de tempo nos julgamentos dos festivais já possui carência.

A carteira da ordem dos músicos

A exigência da carteira de músico ao amador “NO PALCO DOS FESTIVAIS” não nos parece inteligente e justa. Este fato inibe aquele que no momento, atuando em outra área, lhe é imposta a credencial da ordem. Neste momento, perde a cultura e perde a Ordem, com o afastamento deste elemento.

A carteira só deveria ser exigida no evento se o participante desejasse atuar como espetáculo ou fora do palco como profissional.

E assim lucraria nossa cultura e a Ordem com esse manancial de amadores, quem sabe até, futuros profissionais.

Fonte: Revista Tarca – Cultura Gaúcha – ANO III – nº 16 (AGO/SET/OUT/86) – p. 15

Crédito da Foto: Revista Tarca – Cultura Gaúcha – ANO I – Nº 0 (1984)

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Roberta Ensslin – Alma Campeira (Mauro Ullrich)



A jovem cantora Roberta Ensslin, de 19 anos, já é uma colecionadora de bons resultados no cenário nativista do Estado, capaz de deixar muito gaudério das antigas de cabelo em pé e roxinho de inveja. Moradora de Vila União, onde nasceu e vive até hoje, no interior de Candelária (no caminho que vai para Sobradinho), a guria começou sua carreira oficial de intérprete aos 13 anos, defendendo música na Coxilha Piá, em Cruz Alta. Mesmo com pouca experiência pelos palcos da vida, não se fez de rogada: logrou o primeiro lugar e por pouco não arrematou também o segundo.

Antes disso, Roberta, que é filha única, já “atazanava” o pai, Seu Reni, gaiteiro, ouvindo no radinho de pilha e fazendo coro nas músicas da dupla sertaneja Leandro e Leonardo, enquanto passava uma vassoura no pátio. O cabo fazia a vez do microfone quando as cerdas não eram cordas de uma viola imaginária. “Teve um dia, quando eu tinha nove anos, que meu pai viajou três vezes até Sobradinho só para que eu pudesse participar de um festival (ficou em quarto lugar). Meu pai sempre foi meu grande incentivador”, conta ela, emocionada.

É graças a esse estímulo e por sua própria vontade que ela começa a se tornar figura constante nos em eventos onde tem música gaúcha. Entre suas façanhas mais significativas, Roberta destaca a gravação de duas músicas – Canção para os Anjos e Tropa Miúda – para o CD Alma de Tropeiro, de Mano Lima, artista por quem nutre profunda admiração e com quem tem feito shows por inúmeros festivais; o primeiro lugar no Festival Estadual de Canto Estudantil, concorrendo com intérpretes de todo o Rio Grande; a colocação do chamamé Amanhecendo no M’Bororé, de sua própria autoria, com letra de João Sampaio, no CD da 21ª Ronda de São Borja; e a participação na 3ª Ronda da Administração, da Unisc, ao lado de César Oliveira e Rogério Melo, em 2003.

Este ano também começou bem para a cantora Roberta Ensslin com a conquista do Troféu Revelação, na 22ª Gauderiada da Canção Gaúcha, em Rosário do Sul, de 9 a 11 de janeiro; e com um show no 25º Rodeio Crioulo Internacional de Vacaria. Os planos para 2004 são muitos. Entre eles está a gravação de seu primeiro disco solo, num estilo que ela define como “campeiro romântico”, e a participação no próximo disco de João Sampaio com a canção Amanhecendo no M’Bororé.

Autodidata, nunca teve que lhe ensinasse qualquer tipo de técnica vocal. Mesmo assim já foi comparada, por Luís Marenco, com grandes cantoras do cenário argentino. Para Marenco, Roberta é uma mistura de Teresa Parodi com Ramona Galarza, duas grandes divas do folclore portenho.

Fonte: Gazeta do Sul – Quinta-feira 12/02/2004 
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terça-feira, 16 de maio de 2017

Coronel, o Pensador


Luiz Coronel

1 – Quando as mulheres falam baixo e os homens dão gargalhadas, esteja certo, existem vítimas.

2 – Os problemas da velhice são três. O primeiro é a falta de memória. Os outros dois, me esqueci.

3 – Amor, se for pra valer, dispensa um copo de uísque antes, mas nunca um copo depois.

4 – As mulheres me dão duas grandes alegrias. Quando dizem sim. E quando dizem não. Como ultimamente elas têm dito muito não, estou me sentindo muito feliz.

5 – Cidade do interior parece véspera de nada e ressaca de coisa nenhuma. Mas é aí que acontecem as mais pungentes tragédias.

6 – Tramandaí é Canoas com água salgada.

7 – A mãe d’água é o lenço dos fantasmas.

8 – O Brasil é um país com 8.516 quilômetros de costas para seus problemas.

9 – As mulheres são aparentemente frágeis e desatentas. Em realidade, são objetivas e obstinadas. Mais cedo ou mais tarde elas assumem 51% de nossas ações. Em qualquer relacionamento.

10 – No amor se entra de biga e se sai de maca.

11 – O neoliberalismo é uma velha senhora dançando rock and roll.

12 – No amor ninguém sobe ao pódio. O máximo que se consegue é bebericar uns goles de champanhe, de carona.

13 – Dizer que não há mais esquerda e direita, em política, é a mesma coisa que desejar parar o tempo tirando os ponteiros do relógio.

14 – A paixão é um incêndio na fábrica de fogos de artifício, a paixão é um balé à beira do precipício.

15 – No Rio de Janeiro, se passar uma banda pelo velório, o morto queda sozinho, tocando flauta nas velas.

16 – A TV é o Poliphemo da Ilíada. Um olho único num corpo disforme, colocado ao fundo da caverna hipnotizando os ingressados.

17 – A TV é um palco onde o desembaraço substitui o talento.

18 – Quando as mulheres decidem, podem os deuses muito pouco.

19 – A letra K é uma bailarina de can-can, e as ombreiras são pastéis de lã.

20 – O vinho libera oradores, a vodka cria filósofos, o champanhe cria seres amorosos. É o vinho da loucura.

21 – Mulher ou índio quando se pintam querem dança ou querem guerra.

22 – O que derruba as cercas de pedras não são os séculos. São os trovões.

23 – Velho vira barômetro ou cupido. Fala só de casamento e das chuvas.

24 – O que define um grã-fino não é seu extrato de conta. É sua aparência de recém-saído do banho.

25 – Tenho mais pena das virgens que dos cegos. Muitos cegos já viram o céu nas sensações.

Fonte: Jornal Zero Hora, Almanaque Gaúcho, 27/08/2000

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Pampa: Sons - Reflexões (Ruy Armando Gessinger)


"Antes de publicar o mail, gostaria de dizer aos amigos que fiquem à vontade para baixar as obras ou as colocar em CDs, o importante é difundir o que se fez com tanto amor".

Ruy Gessinger 

sábado, 13 de maio de 2017

Cantor das Águas, da Terra e do Trabalho



Henrique Júdice Magalhães    

Hay os que cantam desditas de amores,
por conveniência, agradando senhores.
Mas os que vivem a cantar sem patrão
tocam nas cordas do seu coração.

(Cenair Maicá, Canto dos Livres)

Cenair Maicá (1947-1989) foi o responsável por inscrever estes e outros versos na história do Rio Grande do Sul. Do cantor e compositor nascido em Águas Frias, no atual município de Tucunduva (então distrito de Santa Rosa) em 3 de maio de 1947, disse o grande poeta Jayme Caetano Braun:

Outro é o Cenair Maicá
do canto bárbaro e doce,
que com certeza extraviou-se
da flor do caraguatá.


Com sua voz encorpada e ao mesmo tempo suave, Cenair gravou indelevelmente também seu nome entre os grandes da arte popular gaúcha. Homem e artista da melhor extração missioneira, colocou sempre sua voz e seu talento a serviço de sua terra e de sua gente. A exemplo e ao lado dos outros "troncos missioneiros" (seus parceiros e amigos Noel Guarany, Jayme Caetano Braun e Pedro Ortaça), personificou a identidade histórica e cultural de sua região. Também junto a eles, foi responsável por inserir as Missões no mapa histórico e cultural oficial do estado, desencadeando a redefinição de uma identidade gaúcha até então calcada quase exclusivamente na exaltação dos senhores feudais da região da campanha.

Dupla histórica

Músico desde os 10 anos de idade - quando começou a se apresentar em público ao lado de seu irmão Adelqui, Cenair faria sua entrada triunfal na história da música gaúcha ao vencer o 7º Festival do Folclore Correntino em 1970, em Santo Tomé, na Argentina com “Fandango na Fronteira”. Na apresentação, Cenair dividiu o palco com quem a havia composto: Noel Guarany (ver AND 33). Foi a consagração de ambos e de cada um como artista e também dos esforços iniciados pelos dois e por Ortaça em 1966, quando lançaram um manifesto reivindicando a herança guarani e anunciando a intenção de criar, a partir dela, uma nova arte missioneira. O espírito da iniciativa é bem representado por estes versos de Cenair:

Sou seiva pura de uma raça que não morre;
meu sangue corre através das gerações,
a força viva e secular do nativismo
no atavismo deste povo das missões.


A vitória no festival rendeu a Cenair e Noel a gravação de um disco compacto, Filosofia de Gaudério (1970). Apenas em 1978, porém, viria o disco solo de Cenair, Rio de Minha Infância. Solo talvez não seja a palavra adequada: a produção e a direção couberam a Noel, autor, também, de quatro das dez músicas que o integram.

Da terra e da gente

O resultado é um dos discos mais bonitos da música brasileira. A harmonia entre letras, interpretação e arranjos é tamanha que o ouvinte chega a sentir que navega nas águas do Uruguai enquanto vê, refletido em suas águas, o sol que ilumina a terra missioneira - ainda que não tenha a mais vaga ideia de onde ela fica.

Um dos pilares da identidade missioneira, o rio Uruguai é o mote do disco. Mas seu universo temático não se resume à paisagem da região. Tanto ou mais do que sua terra e suas águas, Cenair retrata, sob vários prismas, sua gente e a relação que ela mantém com o meio que a circunda. O tom intimista da canção que dá nome ao disco, de sua autoria, convive com a descrição do trabalho e do cotidiano dos homens que vivem nele em Balseiros do Rio Uruguai, de Barbosa Lessa.

Seria, contudo, um grande erro deduzir da singeleza das letras e da aparente despretensão do universo temático que se está diante de um artista despolitizado ou ingênuo. Isto nem seria possível nas Missões, onde a dimensão do cotidiano e a da história se entrelaçam. Cenair, a exemplo dos outros missioneiros, sabia exatamente o que estava fazendo. O compositor que recorda, saudoso, o rio de sua infância é o mesmo que escreve, um pouco depois, em Homem Rural, que "enxada em terra alheia nunca traz dia melhor".

Servir ao povo

Os propósitos de Cenair e o grau de consciência que ele tinha do que estava em jogo no momento histórico que lhe coube viver no Rio Grande do Sul ficam muito claros em várias de suas entrevistas.

"Eu acho que o músico, além de cantar as coisas alegres, a paisagem, a história, tem o dever de ser útil ao povo com o qual convive no dia-a-dia. Então eu procuro, dentro da minha música, dizer alguma coisa que possa motivar ou sensibilizar pessoas no sentido de resolver certos problemas de nosso povo. Porque nós, os artistas, temos uma força na mão, que é o instrumento, e temos a oportunidade de nos comunicar com o povo através dos canais de divulgação. Então temos o dever de ser útil ao povo" — declarou ao Jornal Cotrifatos, da Cooperativa Tritícola de Santo Ângelo (Cotrisa), em agosto de 1983.

Foi certamente esta preocupação que inspirou várias de suas letras, como Homem Rural e Balaio, Lança e Taquara, em que fala das agruras que atravessava a gente simples do interior gaúcho: camponeses, balseiros, índios... Ou João Sem Terra, na qual satiriza a política habitacional do regime de 64 descrevendo as agruras imaginárias de um conhecido passarinho:

Ainda bem que o João Barreiro não precisa de alvará:
não paga o BNH e usa o barro brasileiro.
Mas te cuida, João Barreiro, 
que os 'hôme' vão te pegar...

Cenair sabia também dos obstáculos que existiam no caminho que escolheu. O enfrentamento com os monopólios fonográficos fazia parte de suas preocupações. "As multinacionais do disco infiltravam a música norte-americana" - recordou em outra entrevista, realizada em 1982 no Museu Antropológico Augusto Pestana - "mas nós tínhamos um compromisso de manter a cultura missioneira". Nisto, como em muitas coisas, comungava das mesmas ideias de seu parceiro Noel Guarany.

Missões sem fronteiras

Outro aspecto que Cenair e Noel compartilharam foi o fato de terem passado parte da juventude na Argentina, mais precisamente na província de Misiones. Aos três anos, Cenair cruzou a fronteira com sua família para viver em acampamentos de extração de madeira às margens do Uruguai.

Este dado foi decisivo para a formação de sua personalidade musical. Criado no meio de madeireiros, balseiros e pescadores, absorveu desde cedo a musicalidade de suas formas de expressão. Com os peões argentinos e paraguaios que trabalhavam com seu pai, Cenair aprendeu os primeiros acordes da guitarra. Em Rio Ibicuí, lembraria o ambiente dos acampamentos:

E de volta ao acampamento passa o trago, 
corre o chimarrão.
Contam causos, proeza, alegria.
Lindas melodias brotam do coração.

Esta convivência despertaria nele outro traço comum aos troncos missioneiros: a postura fraternal para com os países vizinhos. "A história missioneira não pertence somente ao Rio Grande do Sul, mas também à Argentina e ao Uruguai" - pode-se ouvi-lo dizer na entrevista gravada no Museu Antropológico Augusto Pestana.

A biografia de Cenair tem também um outro aspecto - este de cunho trágico - em comum com a de seu grande amigo. Como Noel, Cenair viveu pouco. Uma infecção hospitalar contraída durante a colocação de uma prótese femural levou-o embora aos 41 anos, em 2 de janeiro de 1989.

Longa é a arte

Sua arte, porém - transcorridos, agora, tantos anos desde sua morte quantos se passaram entre sua consagração no Festival de Santo Tomé até ela - permanece viva, confirmando o dito de Hipócrates.

Cenair Maicá é, hoje, uma referência para todos aqueles que se propõem defender o patrimônio natural, histórico, cultural, econômico e, principalmente, humano do Rio Grande do Sul. Um episódio que ilustra bem sua importância é narrado pela cantora Maria Luiza Benitez, que o homenageia no CD Ouro Azul. Uma noite, ela sonhou que Cenair lhe dizia: "grava um disco só com canções de rio, porque canções e rios unem os povos". "Acordei às 4 horas da manhã e anotei as músicas" - conta.

 (Cenair Maicá)

Pelos Caminhos que me levam a meu povo,
quero chegar nas torres de São Miguel.
Olhar ao longe, beber dos horizontes,
cruzar os rios, campos e montes num tropel.

Sentir nos ventos que sopraram em outros tempos
a história viva dessa raça-guarani:
traço de união simbolizando essa verdade.
A mesma casa, o mesmo pão a dividir.

Que Deus me guie ao bravo povo de Sepé
e junto olharmos para o céu com igualdade
e ver que o sangue derramado nesta luta
regou na terra semente da liberdade.

Pois na memória de seus filhos vive ainda
os mesmos caminhos que trilharam outros pés.
Pelas noites, entre o brilho das estrelas,
reluz de guia o lunar do índio Sepé.

Pela noite, entre o brilho das estrelas,
reluz de guia o lunar de São Sepé.

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Valdir Lima (Pertônico) e Cenair Maicá









sexta-feira, 5 de maio de 2017

Laura Guarany (Entrevista Jornal O Nheçuano - 2011)

                                                                                                                    
Por MARCO MARQUES e ADRIANO REISDORFER

LAURA GUARANY é filha de um dos maiores nomes da música e cultura popular gaúcha, o músico e compositor são-luizense Noel Guarany (1941-1998). Quando o pai percorria o Rio Grande e países da América Latina levando a arte da música missioneira, ela ainda era uma criança que adorava cantar. Convivendo junto aos amigos de Noel, em ensaios e rodas de música na casa da família, Laura foi se apegando desde cedo ao estilo missioneiro de cantar.

 No começo de sua carreira, competindo em festivais, a música e a poesia missioneira estavam inerentes em sua formação, tanto que ela, mesmo ainda “meio crua”, resolveu assumir ser cantora. Mais tarde, após muita pesquisa sobre a obra de Noel, Laura começou a cantá-la em seus shows. Hoje, ciente das cobranças que virão por conta do nome, ela está convicta de que jamais poderia escapar ao desígnio de cantar as músicas do pai.

E as composições dos chamados “Quatro Troncos Missioneiros” – Noel Guarany, Cenair Maicá, Pedro Ortaça, e Jayme Caetano Braun – formam a base do repertório do show, onde Laura, com a voz firme e afinadíssima, dá novas roupagens a clássicos da música gaúcha como “Destino de Peão”, “Balseiros do Rio Uruguai”, “Romance do Pala Velho” ou “Na Baixada do Manduca”, que são intercaladas com as de artistas do folclore latino, como Mercedes Sosa e Atahualpa Yupanqui.

Da entrevista participou Neidi Fabrício da Silva, mãe de Laura e viúva de Noel Guarany, que falou de passagens da vida do “Condor Missioneiro”, do período em que viveu na Argentina, das viagens pelo interior do Estado e América Latina e das perseguições que ele sofreu da ditadura.

O Nheçuano – Laura, quais as recordações que tu guardas de teu pai, Noel Guarany? Lembras dele cantando e tocando?

Laura Guarany – Das lembranças que tenho de meu pai, desta parte musical dele, shows, etc., eu não lembro muito, eu ainda era muito criança. Quando eu era mais mocinha e começava a cantar e a me interessar mais por música, ele já estava encerrando a carreira, adoentado. De minha infância, devia ter uns 7, 8 anos, eu lembro mais dessas músicas caseiras, das rodas de música com os amigos e dos ensaios com os parceiros musicais e compositores que frequentavam a nossa casa, eu estava sempre ali, junto deles. Mas, pessoalmente, não tive muito contato com a parte musical do pai, isso se deu através dos seus discos e gravações.

ON – Nessa época tu já ouvias as músicas dele? E quando foi que tu começaste a cantar?

Laura – Sim, eu sempre gostei de todo tipo de música, sempre ouvi de tudo. As músicas dele eram tranquilas, de uma simplicidade, eram fáceis de cantar. Mas quando eu despertei pra música, foi uma coisa assim, muito rápida. Em qualquer festa ou lugar em que estava, as pessoas me viam e diziam: “Olha, é a filha do Noel, e ela gosta de cantar...” E então, lá ia eu pra cantar. Mas eu ainda não estava pronta pra ser cantora. Então de certa forma isso até me atrapalhou, porque na verdade eu ainda não sabia cantar, e também já não tinha uma escola em casa, precisei buscar fora. Primeiro eu me retraí, mas depois eu resolvi ir adiante.

“Eu sempre vi a música missioneira que o pai
e os outros cantavam como algo grandioso”

ON – O que te levou a seguir em frente e assumir a carreira de cantora? E qual é o critério para a escolha do repertório que interpretas?

Laura – Isso é meio engraçado. Porque quando a gente sente que tem um dom aquilo fica ali, como uma pulguinha atrás da tua orelha, e tu não consegues esquecer. Eu várias vezes me desviei, tentando não ir adiante, isso até atrapalhava minha vida, até que resolvi encarar. No começo, interpretava todo tipo de música regional, até porque eu sempre gostei de frequentar bailes e eventos gaúchos. Mas em certo momento eu me decidi a cantar a nossa música, seguir esta linha. Eu sempre vi a música missioneira que o pai e os outros artistas de nossa terra cantavam como algo grandioso. Não cantar por cantar, tens que conhecer. Conhecer a História, o porquê da elaboração daquela música. Porque, às vezes, uma música considerada simples, por ter mais acordes e ser mais elaborada, é mal vista. E ela pode ter vários significados, é até uma questão de literatura. Então eu comecei a ver por este lado, comecei a pesquisar a música do pai, procurei conhecê-la melhor, primeiro. Quando eu vi, estava totalmente envolvida, convites para participações em CDs, em tributos ao Noel Guarany. Fui me adequando aos poucos, mesmo estando “meio crua”. Até que chegou um momento em que decidi que deveria assumir: sou filha do Noel Guarany, vou continuar com o meu trabalho, mas vou cantar as músicas dele, não posso fugir disso.

ON – Ser a filha do Noel facilita ou dificulta? Tens preferências por algumas canções dele?

Laura – Olha, primeiro facilita, porque tu acabas tendo muitos contatos a partir deste fato. Acabo entrando em meios que, se não fosse filha dele, seria difícil. Mas, por outro lado, dificulta, e muito, porque a cobrança é muito grande. Por exemplo, tem músicas do pai que eu não interpreto, que não combinam comigo e que às vezes as pessoas insistem para que eu cante. Eu apenas canto se estiver à vontade. Cantando uma música, defendo alguma coisa, não canto apenas por cantar. Gosto em especial de algumas canções dele, como “Meu Quaraí-Mirim” que não consigo cantar porque me emociono muito; “Destino Missioneiro”, que fala da raça, da cor; “Milonga da Chuva”, e “Filosofia de Gaudério”, que é a autobiografia do pai.

ON – Qual a tua opinião sobre a falta de espaço na mídia para alguns estilos musicais – como o missioneiro – que não se “enquadra” por não ter apelo popular e não vender muito?

Laura – É muito difícil. A maioria dos músicos tem que optar em seguir uma determinada linha. Ou tu fazes uma linha mais popular, por gosto, pra vender, ou opta em seguir um ideal e batalhar por aquilo. Às vezes, seguir este ideal é meio complicado. É difícil pro bolso, e a aceitação do público é difícil. Por outro lado, o artista pode optar em fazer de tudo e acaba não fazendo nem uma coisa nem outra. No meu caso, eu não posso dizer que linha vou seguir por enquanto, estou apenas começando minha carreira. Eu não sei o que será daqui pra frente, gosto de tantas coisas. Mas a princípio a minha linha musical é esta, da música missioneira e de folclore latino americano, é o que eu gosto, é o que eu conheço e é o que eu posso fazer no momento.

ON – E tu gostas de ouvir e de cantar outros estilos, além do missioneiro e latino?

Laura – Lógico, não tenho preconceito com nenhum tipo de música, ouço de tudo. Sou jovem, moro em uma cidade universitária (Santa Maria), vou a baladas, curto outros estilos, não tenho nada contra. E nas brincadeiras, nas rodas, eu canto qualquer coisa, mas não faria um trabalho dirigido para isso. Eu canto o que eu gosto, não me importo se vou agradar ou não. Claro que sempre faço de tudo para agradar, porque a gente depende do público. Gosto muito de folclore argentino, de artistas como Mercedes Sosa e Atahualpa Yupanqui. Então, nos meus shows, sempre procuro fazer uma mistura, canto uma música missioneira alternada com outra do folclore. Alguns clássicos que canto são mais conhecidos, outros nem tanto, não chegam ao popular. Mas procuro fazer uma mistura que agrade a maioria.

“Hoje, parece que o simples não agrada mais”

ON – Atualmente, algum artista da nova geração segue o estilo dos grandes da música missioneira como Noel Guarany, Cenair Maicá, Pedro Ortaça ou Jayme Caetano Braun?

Laura – Olha, eu acho que existe a herança natural dos filhos, que é meu caso. Tem Anahy e Karaí Guedes (filhos de Jorge Guedes), Patrício (filho de Cenair Maicá), Gabriel (filho de Pedro Ortaça), mas eu não consigo pensar em ninguém no momento, afora os já consagrados, como Luiz Carlos Borges e Jorge Guedes, por exemplo. Temos ótimos artistas que representam bem a nossa música, mas que não seguem exatamente essa linha missioneira. Os “Quatro Troncos Missioneiros” (Noel, Cenair, Ortaça e Jayme) foram únicos, são ícones da música missioneira que viveram em outra época. Hoje, além de nossa música de raiz estar mais marginalizada por questão de mercado e mídia, a simplicidade daqueles tempos foi um pouco esquecida. Hoje, a música dita de raiz, do campo, que vende discos, tem temas bem diferentes (castração de gado, doma de cavalos, etc.). Naquela época, os temas eram bem mais simples, singelos, como, por exemplo, as canções “Romance do Pala Velho” ou “Destino de Peão”, do pai, onde ele cantava a sua indumentária, a sua vivência. Hoje, parece que o simples não agrada mais.

ON – No seu auge, nas décadas de 1970/80, em plena ditadura militar, o Noel teve muita dificuldade para mostrar o seu trabalho, em função das perseguições e da censura imposta pelo regime. Isso de alguma forma prejudicou a sua carreira?

D. Neidi – Com certeza atrapalhou a sua carreira, porque ele era muito visado. Naqueles tempos, não se podia fazer nada, qualquer reuniãozinha com meia dúzia de pessoas era controlada. E as pessoas tinha muito medo, podiam sumir de repente que ninguém daria satisfação. Não havia registro das prisões, a polícia alegava não saber de nada e as pessoas simplesmente desapareciam. Foi um período muito difícil, não sei como ele não foi preso. Mas como ele tinha muitos amigos, antes de o DOPS ou a PF encontrá-lo, ele era avisado, dava um jeitinho e escapava. A PF convocava ele no mínimo uma vez por mês para se “apresentar”.

Laura – As coisas eram complicadas, mas ele não tinha medo, ele era muito topetudo, gostava de cutucar e não media as palavras. Por exemplo, no CD “Destino Missioneiro”, gravado em 1979, entre uma canção e outra ele discursava contra a ditadura, provocando os “milicos” e os que apoiavam a repressão. Ele assumiu uma postura de enfrentamento ao regime militar. (NE: Neste show histórico – gravado na época em que ocorriam as greves do ABC paulista – entre uma música e outra, Noel ironizava a polícia política da ditadura: “Agora dizem que eu estou na lista. Andam me chamando de comunista, de socialista, elitista... Na verdade, eu sou nacionalista, no sentido literal da palavra”).

ON – Consta uma lenda, no outro lado do rio Uruguai, na Argentina, que quando o Noel morou por lá, em 1968, além de tocar e cantar, trabalhou cortando cana para sobreviver...

D. Neidi – Não é lenda, é verdade. Além de cortador de cana, foi transportador de balsa (balseiro) no rio Uruguai, na fronteira com a Argentina, plantador de arroz no Mato Grosso. Ele fez tudo o que vocês imaginam. Onde estava, tinha que trabalhar para arranjar dinheiro e sobreviver, porque da música não saía nada. Se hoje é difícil, imagina naquela época, em que o músico era considerado um vagabundo. As músicas que ele gravou em 1974/75, ele já as tinha prontas na cabeça desde 1968/69. Na época, em 1968, ele foi cantor de tango, na Argentina, e foi só quando voltou para o Brasil que ele gravou todas essas músicas. Lá, não tinha condições de gravar ou registrar nada, só guardou na sua memória.

ON – E a questão dos direitos autorais das centenas de composições de Noel. Hoje, a família recebe algum retorno financeiro da enorme reprodução de suas canções nas rádios e das vendas de CDs?

Laura – Bah, nós estamos ricos, nadando no dinheiro... Eu até nem preciso mais cantar... (risos)

D. Neidi – O que aconteceu foi o seguinte: o Noel, na sua ingenuidade e boa fé, pensava que registrando suas canções garantiria o direito sobre elas. Só que as gravadoras eram muito sacanas. Além do contrato para gravar seus discos, faziam ele assinar uma autorização, um termo de cessão de direito das suas composições, e se apossavam dos direitos autorais. Têm mais ou menos umas trinta músicas do Noel, entre elas os seus maiores sucessos, que há muito tempo não são mais dele, essas gravadoras tomaram posse. Então, quando alguém vem pedir autorização para gravar alguma música dele, primeiro temos que ver se ela ainda realmente pertence ao Noel.

ON – Noel Guarany foi um dos pioneiros na pesquisa e defesa da causa indígena. Em 1975, propôs a construção de uma estátua em homenagem ao líder guarani, Nheçu...

D. Neidi – O Noel não teve estudo. Ele cursou apenas até o terceiro ano primário, mas era um autodidata que amanhecia em cima dos livros. Ele lia muito, pesquisava muito, tinha contato direto com a população e usava isso como inspiração para compor. E viajava bastante (Paraguai, Argentina, Bolívia), buscando sempre um maior conhecimento popular e sobre a questão indígena. Buscou conhecimento junto a grandes nomes da música latina como Oswaldo Sosa Cordero, Aníbal Sampayo, Argentino Luna, Raulito Barboza (argentinos) e outros do Uruguai e Paraguai (onde aprendeu a língua guarani). Em 1974/75, foi ao Paraguai e trouxe de lá um grande harpista para tocar com ele no Brasil. Chamava-se Lucio Martines, que morou conosco por mais de um ano. Em 1972, Noel foi um pioneiro ao andar de bombacha e alparagatas, o que, na época, era motivo de chacota. Sempre correu atrás de conhecimento, apesar das enormes dificuldades financeiras e falta de apoio. Ele tinha que se virar com seus próprios meios.

ON – Laura, tu tens ideia de gravar um CD só com músicas do teu pai, Noel Guarany?

Laura – Tenho. Aliás, eu já devia e gostaria de tê-lo gravado. E com toda essa fortuna que recebemos de direitos autorais não sobra um troco pra gravar o CD, né? (risos). Na verdade a minha vida é um pouco agitada, o meu tempo é escasso. Mas este trabalho eu quero fazer muito bem feito, muito bem elaborado, justamente pela cobrança que virá. Provavelmente o repertório será um apanhado de toda a carreira do pai. Não sei se gravarei alguma canção inédita, porque a gente ficou com alguns rascunhos de músicas, a maioria era incompleta. As composições inéditas que tínhamos e já estavam prontas, já cedemos para outros artistas gravarem.
Fonte: JORNAL "O NHEÇUANO" - NÚMERO 7 - ABRIL/MAIO 2011
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Crédito Fotos 2º Encontro Fronteiriço de Artes (Itaqui/RS – 29/08/2015): Anderson Vargas https://www.facebook.com/media/set/?set=oa.1083323085012890&type=3

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