terça-feira, 13 de junho de 2017

Alguns ditados que sei - Poema (José de Freitas Saratt (Ramão))



Dá licença patrão
Pra meu cantar meio rude
Charla bagual e bem certa
O formato não me aperta
E o povão compreende tudo.

Como disse Martin Fierro
Que foi cantor dos buenos
A “Lei” é uma artimanha
Igual a teia de aranha
Que só enreda os pequenos.

Canto do modo que posso
Rima fraca falta um resto
Igual pro pobre o pucheiro
Quem nasce com o dinheiro
Tem razões pra ser honesto.

Na carteada do amor
É bom guardar segredo
Pra não passar por chambão
Que ave de arribação
Deixa o ninho mais cedo.

Como e bebo com medida
Pra não ficar bichoco
Que a gula os fracos cevam
E as correntes fortes levam
Todo o peixe dorminhoco.

O canto que tem franqueza
Sempre traduz a verdade
O meu verso é meio tosco
Por fora sou meio osco
Mas por dentro sou claridade.

Todo o gaúcho guapo
Fita o parceiro de frente
Com um touro se assemelha
Guaipeca que pega ovelha
Traz lã no vão do dente.

Conheço o bom cantor
Dentro do tema que canta
Se é décor ou repente
O verso é como semente
Que germina e se levanta.

Conheço fogo de palha
E também chuva de manga
Conheço o fraco e o forte
E o tarquino de bom porte
Que aguenta o peso da canga.

Não trago gana de mestre
Porque é curto meu saber
E nada estou ensinando
O jumento morre orneando
E o poeta morre, pra nascer. 

Repontes de Experiências - Poema (José de Freitas Saratt “Ramão”)


Pedaço de chão nativo
Onde o cuéra nasceu
Nessa gleba cresceu
E foi tomando postura
Na campeira estrutura
Praticou, ganhou experiência
Na genuína vivência
Teve a xucra formatura.

Aprendeu com os vaqueanos
Longe dos bancos colegiais
A lidar com os animais
Nesse campeiro labor
Ficou conhecedor
Só no volteio da mangueira
A gueixa que é coiceira
O chimbo velhaqueador.

A conhecer pelo berro
O boi do seu arado
O mocho e o aspado
O relincho do seu tordilho
A idade do novilho
A do cavalo num repente
Olhando a cova do dente
E o potro pelo curnilho.

Notou que o pingo mestiço
Tem afeição pelo trato
Ovino de queixo chato
Tem oito anos pra frente
É bom guardar na mente
O que o vaqueano aconselha
Guaipeca que pega ovelha
Se examina nos dentes.

Lua nova não é boa
Pra enfrenar bagual
Fica babão em geral
Com propensão pra estreleiro
Peão asseado lava o baixeiro
Pra não pisar o redomão
Não se larga matungo gavião
Com os mansos do potreiro.

Ginete que é ginete
Monta em potro descansado
E já tira aguçado
Nos pingüelos abrindo rombos
Salta de vereda no lombo
Não se para aos socalões
Cansa o potro dando tirões
De medo de levar tombo.

Todo o bom castrador
Que castra com perícia
Se conhece por notícia
Sem mesmo andar indagando
Sempre tem alguém falando
Como esse não tem outro
Esse castra potro
Opera e larga pastando.

Sabe observar um enxame
Na entrada do cortiço
Pelo fumegar dos bichos
Escuta e ouve o rumor
Não sendo observador
Essas coisas não indaga
Só fura abelha magra
Não serve pra melador.

Somente no amor
Não se diga entendido
Não se dê pra convencido
Com as coisas do coração
Saiba aguentar o tirão
De um olhar de mormaço
Que quando vê cruzados em maço
Finge carinho e afeição.

Se tu gostar de visitas
Ata teu cusco brabo
E corte bem curto o rabo
Das ovelhas pra recria
Desde novo eu queria
Toda a lida aprender
E hoje me “gusta” escrever
Coisas que tem serventia.

Fazenda Santo Inácio - Poema ( José “Ramão” de Freitas Saratt)


Quem não conhece, ó gaúcho
Campos mesmo de luxo
Que nem macega têm
Faço estes versos sem medo
Em homenagem ao gaúcho Sezefredo
Dos campos do Itaroquém

Sua Fazenda tinha vida
Hoje como despedida
Abandonada, sem ninguém...
O campo grande não existe
Tudo é potreiro triste
Até macega hoje tem

Quem passa no corredor
Não sabe explicar quanta dor
Que sente no coração...
Ao olhar a velha Fazenda
Onde moravam muitos parentes
Bonitos como o verão

Minha tristeza é tão grande
E a dor em mim se expande
Que nem posso escrever mais...
Fazenda velha amiga
Que já é bastante antiga
E o dono não existe mais

A casa branca coberta de zinco
Passo noites afinco
Não existe mais solidão
Galpões e parapeitos
Com capricho foram feitos
Por ordem do Gauchão

Se o patrão velho de cima
Me desse o poder da rima
Pra dizer o que sinto...
Sinto um nó na garganta
Meus olhos não se levantam
É vontade de chorar, não minto

Casa velha hoje tapera
Não sei o que te espera
Pois a vida é mesmo má...
Conserva-te assim erguida
Aguenta os golpes da vida
Às vezes passo por lá...

Nas noites claras de lua
Quando a saudade acentua
Tua imagem resplandece
Parece chorar de tristeza
Maldizendo a natureza
Do teu dono não esquece

Do zinco da casa
Como também do galpão
Caem gotas de orvalho...
São lágrimas de choros tantos
Conserva-se sempre em prantos
Sua alma já é retalho.

sábado, 27 de maio de 2017

Lajeado Pessegueiro

"Capincho"




SEARA: UM FESTIVAL INOVADOR (Edson Otto)



Ao aproximar-se a realização de mais uma edição da SEARA, naturalmente me vêm à lembrança os fatos que fizeram com que o festival de Carazinho surgisse e quase de imediato se transformasse num dos melhores e maiores acontecimentos anuais da música regionalista gaúcha.

O primeiro a me falar sobre a possibilidade da realização de um festival em minha terra natal foi o Luiz Araújo, cunhado do Rillo, que deixara “Os Angueras” e São Borja para alçar-se mais em sua carreira no Rádio, acolhendo proposta da Rádio Carazinho, onde continua até hoje. Cabreiro e cheio de voltas ele chegou, em certo dia cuja data nem me lembro, na antiga sede do IGTF, na Rua Sarmento Leite e assim como quem não quer nada foi desatando a ideia, que julguei inviável, em princípio.

Não demorou muito e foi a vez do Aylton Magalhães, então gerenciando a Rádio Carazinho, quem me procurou, de forma bem mais precisa e insistente. E como todas as objeções que eu ia colocando eram refutadas com veemência, senti que da sondagem inicial feita pelo Araujo, à segunda abordagem que me fazia sobre o assunto o Aylton, ganhara corpo e consistência a ideia da realização do festival em Carazinho e que ele sairia com ou sem a minha ajuda. E resolvi, de forma matreira, condicionar meu apoio e o do Instituto mediante algumas condições que em seguida coloquei, de forma até certo ponto impositiva. E como o Aylton concordasse com elas, fortaleceu-se a iniciativa. Logo depois surgiu a         SEARA, que de pronto posicionou-se como um festival interessado, realmente, em valorizar e, mais do que isso, reconhecer o valor dos autores, compositores e intérpretes musicais, transformando, em Carazinho, os verdadeiros “fazedores dos festivais” como personagens mais importantes do evento.

Já naquela época – seis anos passados – dificilmente havia alguém, no Estado, que tivesse acumulado tantos conhecimentos e experiências quanto eu havia amealhado desde o período que antecedeu ao próprio surgimento da Califórnia da Canção Nativa, em cujos lances iniciais tive alguma participação, como Secretário que era da Estância da poesia Crioula.

Esses conhecimentos e experiências, aliados àqules que possuía a equipe do IGTF foram todos voltados para a SEARA, o primeiro dos festivais a aceitar uma participação mais estreita do órgão estatal na elaboração de normas que se voltassem para a realização de um festival que mostrasse à evidência o desenvolvimento da música regional rio-grandense, e permitisse a presença de suas tendências mais evolutivas, sem, contudo, desfigurar suas origens, sem fugir de suas raízes.

Os esforços dos meus conterrâneos foram largamente compensatórios, pois ninguém, no Estado, desconhece que a SEARA é primorosa na organização, séria e absolutamente honesta na sua realização e que assumiu uma nova forma de comportamento com aqueles que são, realmente, os mais importantes em qualquer evento musical: os criadores e difusores da música rio-grandense.

O exemplar tratamento dispensado aos autores, compositores e intérpretes instrumentais e vocais desde sua primeira edição e o convívio salutar, indiscriminado, entre organizadores, comissões julgadoras e participantes do festival, fizeram com que a SEARA assumisse imediatamente um lugar de destaque no cenário festivaleiro gaúcho e tivesse, em seguida, seguidores, gerando, em consequência, melhoras sensíveis em diversos outros eventos similares.

Verdadeiro laboratório de ideias, a SEARA inovou consideravelmente em diversos aspectos regulamentares e na forma executiva dos festivais, sendo que das inúmeras experiências colocadas em prática, todas aquelas que resultaram positivas foram repassadas, através do IGTF, aos demais festivais gaúchos.

Preocupada em defender a classe musical, a SEARA, a partir de 1984 criou, paralelamente ao evento, um encontro cultural que se denominou “Chamamento Cultural da SEARA”, no qual os principais problemas da classe passaram a ser discutidos. E o próprio ACORDE BRASILEIRO – SEMINÁRIO NACIONAL EM DEFESA DA MÚSICA REGIONAL BRASILEIRA a realizar-se de 11 a 14 de dezembro próximo em Tramandaí, promovido pelo IGTF e pela municipalidade daquela comuna é, em grande parte, resultante dos debates acontecidos em Carazinho.

A SEARA cresceu com a ajuda de muitos e aqueles que a fizeram devem lutar para mantê-la no pedestal onde se encontra, impedindo que o “Chamamento Cultural” desapareça e que ao seu palco compareçam, nos espetáculos programados, apenas aqueles que efetivamente têm dado uma profícua colaboração e conteúdo à nossa música, coisas que, infelizmente, por falta de maiores cuidados do grupo dirigente, em Carazinho, não acontecerão este ano, mas que serão, certamente, resgatados na próxima edição.
Fonte: Revista Tarca – Cultura Gaúcha – ANO III – Nº 16 (Ago/Set/Out/1986) – p. 34

Edson Otto & Ailtom Magalhães


Gilberto Carvalho

O Edson – “alemão” Otto como o chamam os amigos, é natural de Carazinho. Discípulo dos mais brilhantes do grande Guilherme Schultz Fº, tem também um pouco de sangue italiano: sua mãe é Gobbi. Desta mescla resultou esta figura apaixonada pelas nossas coisas, cantor, bailarino do nosso folclore (quando residia em Carazinho e participava dos CTGs locais), jornalista, advogado e o que é mais importante – amigo dos seus amigos e uma forma franca e devotada como poucos.

Nas Califórnias (acompanha desde a 1ª) deu ao Telmo de Lima Freitas, como solista, um segundo lugar com “Prece ao Minuano” e o 1º com o “Esquilador”, sem jamais ter se ausentado delas nestes 16 anos.

Em Porto Alegre, dirige o IGTF – Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore, donde tem peleado como pode pela cultura do Rio Grande. Agora mesmo está às voltas com o ACORDE – encontro para discutir a valorização desta, que acontecerá em dezembro na cidade de Tramandaí. É um dos idealizadores da “Seara de Carazinho” – que revolucionou um bocado o panorama dos Festivais do RS.

O Ailtom – junto do “Alemão” iniciou o movimento da Seara. É em Carazinho um peleador que pega em qualquer ponta para projetar sua Comunidade.

Profissionalmente é radialista e publicitário. Por longa data esteve à testa da Rádio Carazinho, desligando-se há pouco tempo para atender sua Agência de Propaganda. Paralelamente atende seus restaurantes (tem 2) e passa o ano todo preocupado com a “Seara” que dirige com a categoria que temos notado, congregando muita gente boa de trabalho que não refuga hora nem serviço pesado. É dos presidentes de Festivais que mais tem se voltado ao atendimento cada vez melhor e justo ao músico em geral, tendo criado inclusive os espetáculos paralelos para melhoria dos ganhos dos que se fazem presentes ano a ano em Carazinho.

Fonte: Revista Tarca – Cultura Gaúcha – ANO III – Nº 16 (Ago/Set/Out/1986) – p. 36

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Estrada Fora (Zeca Blau)


A mão trigueira deste índio
que por vezes te castiga,
é a mesma que ora te amima,
moldando firme estas pilchas
nos corredores da rima.

Sei que maldizem, meu flete,
domado por estes pulsos,
o teu mau trote, porém,
num arco de pata e rédea
não se olha o trote que tem!

Tilinta no estribo a espora,
meu tostado atira o freio,
atira o freio e relincha,
porque, como eu, vai pensando
no abrigo daquela quincha...

Sobre a tábua do pescoço
passo o rebenque leviano
que é de cacho de coqueiro,
sonhando com uma guerrilha
que terminou em entrevero.

Distraído, puo o naco
que arranca e por certo estranha
o gesto do seu senhor,
porque ele tem mais que a gente
consciência do seu valor.

Sargento é o nome que tem.
Na verdade o posto é baixo,
se eu fosse, amigo, afinal,
graduar no posto a bondade
meu flete era marechal!

Não te graduo no posto
mas te promovem na fama!
que entre os bons teu nome prima!
E eu dia a dia te dou
mais altos galões de estima.
(Zeca Blau, Poncho e Pala, Sulina, 1966)

A um Reúno (Zeca Blau)


          Quadro crioulo
Zeca Blau
Corredor, Carovi. No canhadão sombrio
a lagoa. Aguapé à flor da água parada;
e à beira, magro e só, todo em sestros de frio,
eis-te à sombra alongando a aspereza da ossada.

Lembrarás, sem querência, o esplendor que fugiu!
quando, outrora, bagual, repontando a manada
despertavas, marcial, em rebeliões, bravio,
sob o evoé de um relincho os rincões da invernada.

Mais tarde, em redomão, três ginetes de fama
não puderam contigo! e os venceste pachola,
pondo-os... mais de uma vez humilhados na grama.

Pobre tordilho velho! E hoje, na estrada, a esmo,
velho herói sem legenda infamado na esmola,
duvidando talvez que ainda sejas tu mesmo!
(Zeca Blau, Poncho e Pala, Sulina, 1966)

EBOOK NOSSO PAMPA DESCONHECIDO (Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul)

 https://www.sema.rs.gov.br/upload/arquivos/201708/25130950-nosso-pampa-desconhecido.pdf Org.  Luiza Chomenko & Glayson Ariel Bencke  Fo...