Sexta-feira,
15 de julho
Três
longas cartas de papai, chegadas pelo mesmo correio, a primeira para
Dolores, a segunda para a Nia e a terceira para Maninha.
Começa
assim a longa carta para Dolores:
“A
tua boa cartinha azul, de 29 de junho, é a primeira e única que
tenho recebido dos 8 filhos que aí ficaram, escrita só para mim.
Gostei, naturalmente, das notícias que nela me dás. Dize às outras
e ao Francisco que façam o mesmo. Quando falares ao Araci, dize-lhe
que também me escreva, dando as cartas a vocês, para as emalarem.
As
notícias da Estância Nova, dadas por ele mesmo, devem ser mais
interessantes e mais completas. Podes dizer-lhe que estou satisfeito
com o cuidado dele, pelas informações que me vem de lá, e que já
esperava que ele assim procedesse.
Dize
mais ao Araci que deve ir graduando para menos as rações dos
cavalos que se apresentarem muito gordos. O trato é só para os
conservar em boas carnes durante o inverno. Temos de pensar em
diminuir as despesas quanto possível.
O
araci deve arrocinar o meu cavalo bom, a fim de que se preste para o
meu andar. Não esquecer de ensinar-lhe a ficar bem quieto, para
deixar subir o cavaleiro, como fia o Íris.
A
nossa vida aqui é muito maçadora: a Quinquim, a Lina e eu temos
aula todos os dias – a Kiki nas Belas Artes, a Lina no Colégio
Jacobina e eu na Câmara. Só a Mamãe é a felizarda, mas tem todo o
tempo ocupado em receber e pagar visitas”.
Entre
outras observações, Papai assim descrevia este plano, na longa
carta à Nia:
“Um
destes dias devo ir com o Virgilino e o Guilherme Guinle visitar uma
propriedade que este comprou, de bom campo e mato, a meia hora do
Rio, e que deseja explorar de acordo com um plano sugerido por mim.
Imagina
que são 15 léguas e pico de campo.
O
meu plano já está formado: escolher umas três léguas do melhor,
dividir a primor, pelo sistema A. B. e estabelecer uma grande
leiteria central e 6 ou 8 filiais, em torno, todas elas com
plantações de milhares de laranjeiras, por peritos vindos da
Califórnia, destinadas a abarrotar os mercados.
O
homem gastou 8 mil contos na compra da propriedade: veremos se ele
tem espírito para completar os dez mil, gastando apenas dois com a
realização do meu plano.
As
13 léguas restantes, aconselhei que divida em fazendas de criação
e lavoura e que as vá vendendo à medida que forem valorizando”.
Finalmente,
na carta à maninha, entre outras notícias, Papai conta este
lamentável episódio:
“E,
a tudo isto, ainda os estudantes me agarraram de pés e mãos, como
um leitão, à minha chegada aqui, deixando os gatunos me remexerem
livremente os bolsos e roubarem à minha vista o embrulho em que
trazia os 600 e tantos pesos que sobraram das despesas de Buenos
Aires e das passagens do vapor.
Esse
dinheiro veio comigo, porque as passagens não foram settled
em Buenos Aires, deixando-se para Montevidéu, onde se tinha feito um
ajuste especial, com promessa de uma forte redução, em atenção a
sermos seis os passageiros – nós 4 e mais Firpo e Câmara Canto.
Chegando
ali, os ingleses roeram a corda, cobrando-nos talvez mais ainda do
que aos outros. Feitas as contas e tudo pago, o vapor, que apenas
demorou ali algumas horas (2, se tanto), durante a noite, não me deu
tempo de encontrar uma pessoa a quem entregar a sobra da plata
uruguaia, para nos ser remetida.
Deixei
para o fazer aqui. O resultado foi o conhecido.
Naturalmente,
não me ralei, porque sou indiferente a prejuízos
materiais, nem me incluí na classe dos sem-vergonha 9que é como
chamo a quem se deixa bater a carteira), porque as circunstâncias em
que os gatunos me limparam foram as mais extraordinárias e
inesperadas.
O
Vapor foi invadido quando eu menos esperava.
Não
tive tempo nem para tirar dos bolsos os valores que trazia e dá-los
à Lídia.
Logo
à saída, sou agarrado pelos pés e braços, e, por mais que me
debatesse e girasse, os bárbaros não me largavam nem me ouviam.
Enfim,
a Lina já descreveu bem essa cena cômica na carta que lhes escreveu
logo à chegada”.
As
destinatárias das cartas do Papai não cabem em si de contentes.
Achamos
muita graça na narrativa do roubo que o papai sofreu.
Deve
ser a “urucubaca amarela”, das quadrinhas do Fonsequinha.
Fonte:
Assis Brasil, Cecília. Diário de Cecília Assis Brasil, org. por
Carlos Reverbel. Porto Alegre, L&PM, 1983, p.144/145/146.
Capa:
L&PM Editores sobre foto do Castelo de Pedras Altas, Rio Grande
do Sul.