sábado, 2 de outubro de 2021

Aforismos de Kafka

 

Tudo é fraude: buscar o mínimo de ilusão, permanecer no nível usual, buscar o máximo. No primeiro caso, frauda-se o bem, na medida em que se deseja tornar fácil demais sua conquista; o mal, na medida em que é colocado em condições de luta excessivamente desfavoráveis. No segundo caso, o bem é fraudado na medida em que não se luta para alcançá-lo, nem mesmo naquilo que é terreno. No terceiro caso, frauda-se o bem na medida em que a esperança é torná-lo impotente com sua máxima intensificação. Seria preferível, nisso tudo, o segundo caso, pois sempre se frauda o bem e não o mal; neste caso, pelo menos na aparência.


Nossa arte consiste em sermos ofuscados pela verdade: a luz sobre o rosto horrível que vai recuando é verdadeira, de resto nada.


Mente-se o menos possível só quando se mente o menos possível e não quando se tem a menor oportunidade possível para mentir.


Teoricamente existe uma chance de felicidade plena: acreditar no que há de indestrutível e si próprio e não ter de lutar para alcançá-lo.


Teste a sim mesmo pela humanidade. Ela faz quem duvida duvidar, quem acredita, acreditar.


O convívio com os seres humanos atrai para a auto-observação.


A verdade é indivisível, portanto não pode ter conhecimento de si mesma; quem quer que diga conhecê-la está se referindo a uma mentira.


Ninguém pode exigir o que, em última análise, o prejudica. Se uma pessoa em particular, afinal de contas, parece assim – e talvez existam sempre pessoas desse tipo - isso se explica pelo fato que alguém, no ser humano, exige algo que na verdade o beneficia, embora prejudique seriamente um segundo, parte atraído para julgar o caso. Se a pessoa foi colocada logo de início, e não apenas na hora do julgamento, ao lado da segunda, então a primeira teria desaparecido aos poucos e com ela a exigência.


O mal é uma irradiação da consciência humana em certas situações de transição. Não é propriamente o mundo sensorial que é aparência, mas o mal que carrega consigo e, seja como for, constitui o mundo dos sentidos para os nossos olhos.


Duas possibilidades: fazer-se infinitamente pequeno ou ser assim. A primeira é a perfeição, ou seja, a inação; a segunda, o início, a ação.


As alegrias desta vida não são as dela, mas o nosso medo de ascender a uma vida mais elevada; os tormentos desta vida não são os dela, mas o nosso auto tormento por causa daquele medo.


Todos os sofrimentos ao nosso redor nós também temos de sofrer.


Temos todos não um corpo, mas um estilo de crescer, o que nos faz atravessar todas as dores, seja nesta ou naquela forma. Assim como a criança evolui por todos os estágios da vida até a velhice e a morte (e cada estágio no fundo parece inalcançável ao anterior, na exigência ou no medo, do mesmo modo evoluímos (ligados não menos profundamente à humanidade do que a nós mesmos) por meio de todas as dores deste mundo. Nesse contexto, não existe lugar para a justiça, nem também para o medo da dor ou para a interpretação do sofrimento como um mérito.


Você pode se conter diante dos sofrimentos do mundo – é algo que tem liberdade de fazer e corresponde à sua natureza, mas talvez seja esse autocontrole o único sofrimento que você poderia evitar.


Aforismos reunidos. Kafka, Franz, 1883-1924. Introdução e tradução de Modesto Carone. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2012.

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Plenitude (Mendelssohn)

A maior felicidade que se pode desejar a alguém, é que possa chegar a ser, plenamente, o que realmente é.”


Jakob Ludwig Felix Mendelssohn-Bartholdy (1809-1847)



Fonte: Grandes Compositores da Música Universal Vol. 5, 2ª ed. Abril S.A., SP, 1973

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Oração Guarany

 

Versiculos em guarany, que os indios de Missões, costumão cantar na Semana Santa, e que narrão varios padecimentos de Christo em sua Paixão, com sua tradução em portuguez. (1)


GUARANY


1º Christo nhandejará cohemibôravá ycuatia pîrera nhânde monhângara. A! Christo nhandejará, ah! Christo nhandejará. (2)


2º Conde (3) quarepotê yioqua hacuera nhânde monhângara, ioqua pirera. Ah! Christo etc, etc.


3º Conde tâtaedê hecaheca hacuera, nhânde monhângárá, hecaheca pîrera, ah!...


4º Conde ibûrtê ynhembôe hacuera, nhânde monhângárá, inhemboe hacuera ah!


5º Conde poriru hobap^te hacuera, nhânde monhângárá, hobapete îrera, ah!


6º Conde eûepucu S. Pedro rembiporucuera, nhâ… mon… S. Ped. rebipor…; ah!


7º Conde uruguaçu S. Pedro mboya heohacuera, nhâ… monh…. S. Pedro mbocha heo arerá...


8º Conde nhoati ynhâcaucha cuera, nhânde monhângárá, inacacutupêrara, ah!


9º Conde tucûmbo pocua hacuera, nhâ… monh… ipocua pîrera, ah! Christo...


10. Conde columna inhâpêti hacuera, nhâ… monh… inhapêtîrera, ah! Christo...


11. Conde açote ynupa hacuera, nhâ… monhan, inupa hîrera, ah! Christo...


12. Conde domiri hobahîcî hacuera, nhâ… monh… hobahîcî pîrera, ah...


13. Conde tacuetê heie nhembosarai hacuera, nhâ… monh… hecenhembo pîrera, ah...


14. Conde euruçu ymbobo hû hacuera, nhâ… monh…. Imbobo hû pîrera, ah!


15. Conde yiape imbocuapûhacuera nhâ… monhân… impocuapû pîrera, ah!…


16. Conde caliz Pilatos yepohei hacuera, nhâ… monh… Pilatos iepohei hucuera, ah!...


17. Conde ahobae ymomegua hacuera, nhân… monhân… imomegua pîrera, ah!…


18. Conde curuçu ymano hacuera, nhâ… monh… ymano hacuera, ah! Christo...


19. Conde tapêcua ipocutu hacuera, nhân… mohân…. Ipêcutu pîrera, ah!...


20. Conde martillo impobota hacuera, nhâ… monhân… ipembo, tupirera ah!


21. Conde mimbucu ychîqueraça hacuera, nhâ… monh… ichîqueraça pîrera, ah!...


22. Conde vinagre ymbocû hacuera, nhân… monh… imbocû pîrera, ah! Chr…


23. Conde camisa ymode hacuera… nhân… monhân… imode pîrera, ah! Chr…


24. Conde tenaça heûi heûi hacuera, nhân… mohân… heûi heûi pîrera, ah! Chr...


25. Conde yeupica hero ehû hacuera, nhâ… monh… hero ehû pîrera, ah! Chr...


26. Cº sepulchro inhotû haciera, nh… mon… inhotû mbîrera, ah! Chr. Nhandêjara.


(1) Parece que estes versiculos Guaranys foram compostos não pelos jesuitas, mas pelo Rev. Padre Paim.


(2) Em cada versiculo ha sempre a mesma repetição ao fim, por isso abreviei as repetições.


(3) Conde significa tomai, vede, olhai, eis.


PORTUGUEZ


1º Christo Nosso Senhor padeceu por ter-se feito conhecer nosso Creador! Ai! Christo Nosso Senhor, ai! Christo Nosso Senhor.


2º Olhai esse dinheiro com que foi comprado Nosso Creador, com que foi comprado, Ai! Christo etc, etc.


3º Olhai essa vela com que foi buscado Nosso Creador, om que foi buscado, ai!


4º Olhai esse horto onde rezou Nosso Creador, onde rezou, Ai Christo...


5º Olhai essa luva com que foi esbofeteado N. Creador, com q' foi esbofeteado...


6º Olhai esse facão com que S. Pedro se servio, Nosso Creador, se servio! Ai...


7º Olhai esse gallo que fez chorar a S. Pedro, Nosso Creador, chorar a S. Pedr.


8º Olhai essa corôa d'espinhos q'lhe pozerão na cabeça, N. C., lhe pozerão na cab.


9º Olhai essa corda com q' lhe atarão as mãos, N. Creador, lhe atarão as mãos.


10. Olhai essa columna em que foi atado, Nosso Creador, em que foi atado. Ai!


11. Olhai essa disciplina com que foi castigado, Nosso Creador, com que foi...


12. Olhai esse panno (veronica) em que ficou estampado, N. Senhor, em que...


13. Olhai essa cana com q' foi injuriado, Nosso Creador, com q' foi injuriado...


14. Olhai essa cruz que ha carregado, nosso Creador, qu ha carregado, ai!


15. Olhai essa pedra em que o fizerão sentar, Nosso Creador, o fizerão sentar, ai!


16. Olhai essa bacia (nhaé, cálix) em q' Pilatos lavou as mãos, N. C., Pil. Lavou...


17. Olhai essa alva com q' revestirão por irrisão, n. C., com q' revestirão...


18. olhai essa cruz em q' elle morreu, N. Creador, em que elle morreu, ah! Chr....


19. Olhai esses pregos com q' foram cravar suas mãos e seus pés, N. C., com q' etc.


20. Olhai esse martello com que golpearão os pregos, Nosso Creador, com que...


21. Olhai essa lança com q' lhe furarão o costado, Nosso Creador, com que lhe...


22. Olhai esse vinagre q' lhe derão a beber, N. Creador, que lhe derão a beber...


23. Olhai essa tunica que vestio, Nosso Creador, que vestio, ai Christo Nosso...


24. Olhai essas tenazes com q' arrancarão os pregos, Nosso Creador, com que...


25. Olhai essa escada com que foi baixado da cruz, Nosso Creador, com que...


26. Olhai esse sepulchro em q' foi enterrado, N.C., em que foi enterrado… etc.



O CONEGO VIGARIO João Pedro Gay



Publicado originalmente na Revista Trimensal do Instituto Histórico e Geográfico da Província de São Pedro, ANO IV, n. 1, 1863



Fonte: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, nº 123, Porto Alegre – RS - Brasil, 1982, p. 168/169

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Prêmio (Zeca Blau)


As frutas que eu mandei foram plantadas

Por estas mãos, e, eu mesmo é que as colhi.

Aquelas horas eram descuidadas

E hoje, colhendo, foi pensando em ti!


Quanto tempo terei para esses nadas

- Os melhores instantes que eu vivi!

De brindar com lembranças namoradas

Esse alguém que está longe e eu sinto aqui…


Quanto irás apreciar – quase adivinho!

Tendo um pouco de mim cortando a ausência,

Vendo na arrumação todo o carinho.


Doce prêmio do tempo que labuto,

Venho ter quase ao termo da existência

Dos pomares da vida o melhor fruto!...



Fonte: Blau, Zeca. Horas do meu ocaso. Edição Sulina, 1968, p. 41

Saudade (Zeca Blau)


Se um dia eu endoidecer

No anseio em que me consumo,

Morrerei sempre acenando

Um lenço para o teu rumo.


Eu longe e te sinto a mão

querida presa na minha,

Tendo algo de ave cansada

que ternamente se aninha.


Tão longe! não se concebe,

- quem poderá concebê-lo?

que eu viva sempre sonhando

No afago do teu cabelo.


As horas de ti distante

que fundamente sentidas!

Desfio como um rosário

De contas tão doloridas…


Se lágrimas vêm, são folhas,

Caindo e trazendo calma,

De uns invisíveis ciprestes

que temos plantados na alma…


Que dom estranho tu tens!

É mesmo tão singular!

- De, estando, querida, ausente,

Perto de mim sempre estar.


Saudade dor que maneia!

Tu tão longe e sempre aqui,

Com aquela corda de seda

Tua presença prendi.


Como é tão longa esta ausência

Mas, olho em torno e te vejo,

Ouvindo alegros da voz

Nos esmorzandos de um beijo.


Por que Deus, criando o amor,

Fez a gente tão sensível?

Aceito, mas não perdoo

Também criasse o impossível…


Ligar pela alma dois seres!

Jamais, Deus, serás impune,

Por ter criado a tortura

Da distância que nos une.


Entre a saudade e a distância

É a escala feita por mim:

- Saudade, trena infinita,

Distância um pouquinho assim!


É cousa que não se entende,

Se Jesus pregou a união;

Dar destinos diferentes

Aos gêmeos do coração!


Se Deus é todo bondade,

- Segundo os crentes referem -

Por que é que fez a distância,

Separando os que se querem?



Fonte: Blau, Zeca. Horas do meu ocaso. Edição Sulina, 1968, p. 53

Bendizendo (Zeca Blau)

 

Este silêncio é prêmio que eu bendigo,

Quanta ventura nesta solidão!

Não ouço nunca neste teto amigo

A aspereza brutal do sempre – não!


Eu alongo meus passos neste chão,

Com essa imponência de um marquês antigo.

A mudez que me cerca é bendição

E esse é o manto imperial em que me abrigo.


Leio os meus livros. Como são diversos!

meu Eça de Queiroz das obras primas!

Bilac e Humberto, que primor de versos!


Esse recanto é todo um Eldorado,

Onde ao embalo musical das rimas

Eu esqueço as agruras do passado.


Fonte: Blau, Zeca. Horas do meu ocaso. Edição Sulina, 1968, p. 56

Suave Presença (Zeca Blau)

 

Vi-te. Falei-te. E, só, então, contigo

É que eu concebo inéditos momentos.

Vão-se-me as mágoas e aborrecimentos

E até a tristeza dissipar consigo.


Tua ternura é o meu mais doce abrigo.

És a moldura dos meus pensamentos.

Ah! como os dias sem ti se tornam lentos

Sem o quarenta e seis, meu teto amigo!


Longe e constantemente ainda te vejo

Ouvindo a meiga musical balada

Da surdina discreta do teu beijo.


E o meu mundo interior todo se agita

Na ilusão de sentir-te recostada

No velho peito que por ti palpita.



Fonte: Blau, Zeca. Horas do meu ocaso. Edição Sulina, 1968, p. 95

No Parque (Zeca Blau)


Silêncio e solidão. Mas que tumulto

De relembranças minha mente invade!

- Centralizando anseios o teu vulto

Na divina moldura da saudade…


Deus te mandou para trazer-me o indulto

De mágoa e penas. E saber quem há de,

Se, embora tarde, vieste a ser o culto

De um pouco ao menos de felicidade!


Ando no parque e, só, então, me atrevo

Dizer teu nome, como se rezasse,

Nesse instante de sonho e doce enlevo…


Retardo os passos… Entreparo. Quedo.

Como, querida, se contigo andasse

Nos tapetes de sombra do arvoredo!



Fonte: Blau, Zeca. Horas do meu ocaso. Edição Sulina, 1968, p. 96

terça-feira, 24 de agosto de 2021

Peña Chamamecera - Homenaje Delfi Meza - Santo Tomé, Corrientes (08/06/2013)







La chamamecera y acordeonista alvearense Edelmira González Meza de Villordo, conocida como “Delfi Meza”, será homenajeada por la agrupación “Amigos de la Tradición” con una peña folclórica donde participarán desde su familia, músicos locales y regionales, autoridades de Santo Tomé y Alvear en el anfiteatro “Genaro Berón de Astrada”, el sábado 8 de junio próximo a las 20 horas.

Delfi, nació en Alvear, Corrientes el 11-09-1961 y falleció el 15 de febrero de 2013, empezó a pulsar la guitarra a los 14 años y su esposo le regaló una dos hileras en 2004. En su casa siempre tocaba el chamamé. Tuvieron 7 hijos y 4 nietos y el 25 de mayo se cumpliría el aniversario Nº 34 de casados. Su hijo Jonathan, es el único que sigue sus pasos en la música.

En Santo Tomé colaboró con la Escuela Municipal de Música, donde ella enseñaba y hasta utilizaba sus propios instrumentos musicales para llevar adelante esa tarea que tanto le gustaba y la apasionaba. La agrupación “Amigos de la Tradición” se creó el 7 de mayo de 2012 y ella formó parte también de ese grupo de hombres, mujeres, jóvenes y niños donde aportó su quehacer musiquero, en las pocas cabalgatas que organizaran esos amigos del campo.

Los artistas que desfilarán en noche de la Peña homenaje, entre ellos familiares de la misma son: Conjunto Musical y Cuerpo de Baile “Amigos de Delfi” del Paraje Atalaya, Jonathan Villordo y Alberto González, Tamara Sili, “La Voz del Aguapey” (Municipalidad de Alvear), Vicente Meza y su conjunto, Hermanos Obregón, de Alvear, Esencia Litoraleña, Tito Peralta y su conjunto, Escuela Municipal de Música “Delfi Meza” cuya imposición del nombre se realizará esa misma noche por Resolución Municipal, Cuerpo de baile “Paisanos de Garupá”, Alejandro Rivera y su conjunto, Los Gurises del Chamamé, Grupo Quimera, Los Duendes del Chamamé, Brisa Chamamecera, Velásquez-Olivera con Guillermo Ayala y Miguelito Coutiño, Hermanos Costadoni y Ariel Diambri Dri, Huella Chamamecera, Emilce Legal y sus amigos y Los Vecinos. La animación estará a cargo de Augusto “Cabeza” Fernández y de Sebastián Velázquez.


Crédito para o texto: http://digitalsantotome.com.ar/vernoticia.php?ampliar=4532

Acesso 24/08/2021

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Vida (Antonio Prata)

 

A vida é a mais deslumbrante das coincidências. (Ou seria o amor? Tanto faz, porque o amor é o melhor que há na vida e, portanto, vida também.)


Acontece que somos “uma estrela a se apagar na treva / um caminho entre dois túmulos”, como escreveu Vinicius.


Pode parecer contraditório, mas precisamos saber como somos pequenininhos diante da história e do universo para compreendermos como é grandioso estar vivo e não cair na verdadeira tragédia: passar a vida à toa, contentar-se com pouco, fechar-se para a felicidade e o sofrimento.




Fonte: Prata, Antonio. Adulterado: crônicas. São Paulo: Moderna, 2009, 1ª ed, 11ª impressão, 2018, p. 140

Livro “O Balanço da Mata Norte – Batuque Rural na Bateria” (Rafael dos Santos, 2026)

  Batuque Rural na Bateria   Fonte:  https://viasabertas.com.br/nossos-trabalhos/livro-o-balanco-da-mata-norte-batuque-rural-na-bateria-2026...