quinta-feira, 9 de março de 2023

Paulo Coelho por Carlos Reverbel

 


O Gordo

Duvido que isso possa acontecer presentemente, mas havia uma pessoa que não conseguia viver longe de Porto Alegre. Por causa desse amor, que lhe foi fatal, Paulo Coelho sacrificou a grande carreira que poderia ter feito pelos caminhos do mundo.

O falecido Paulo, vulgo o Gordo, fazia misérias no piano, principalmente depois da meia-noite. Para ele, o teclado não tinha querer, suas poderosas mãos inspiradas é que mandavam e desmandavam. Era dono de todos os ritmos populares, enriquecendo-os sempre com o seu modo pessoal de executá-los. E possuía, ainda por cima, o senso do acompanhamento e o gênio da improvisação.

Não sei se isso é tecnicamente possível, mas ouvi do dr. Alfonso Ortiz Tirado, famoso médico e cantor mexicano, que “o Paulo desafinava junto com o cantor, quando este desafinava”. E Carmen Miranda, noutra ocasião, disse que gostava de cantar em Porto Alegre, “porque podia trabalhar sem ensaios, acompanhada pelo Paulo Coelho”.



O Gordo também era inspirado compositor, mas em geral não escrevia as suas melodias, improvisando-as ao sabor de uma noitada, para esquecê-las na ressaca do dia seguinte. Contudo, deixou algumas páginas escritas que lhe conservam o nome de compositor popular, a começar pelo samba-canção “Alto da Bronze”, cuja letra foi feita pelo Foquinha, então repórter policial da “Folha da Tarde” e falecido, segundo a frase de Augusto Meyer, ainda “no tempo da flor”. Mas o seu forte, era o improviso rasgado nas madrugadas que não voltam mais.




Aconteciam, às vezes, cenas de um imprevisto espetacular. A orquestra parava, cumprido o horário de trabalho. Mas o Paulo Coelho, se fosse noite em que os santos haviam baixado, não deixava o piano. E então passava a executar para os amigos um repertório inventado na hora, enquanto os garçons retiravam as toalhas e colocavam as cadeiras em cima das mesas, preparando o ambiente para a faxina do dia.

O homem valia, sozinho, por todo um espetáculo. Aliás, foi isso mesmo o que lhe disse, certa vez, um empresário, terminando por levá-lo para o Cassino da Urca, no tempo em que a roleta era risonha e franca e em que o bacará propunha aos aficcionados o terrível dilema shakespeareano: deve-se ou não se deve pedir a cinco? O Gordo entrou em funcionamento e em pouco tempo estava com tudo: cartaz nacional e dinheiro no bolso. Mas, um belo dia, anoiteceu e não amanheceu, embarcando para Porto Alegre, sem dar satisfação alguma ao seu empresário.

O mesmo ele já fizera em Buenos Aires, repetindo a dose, mais adiante, em Santiago do Chile, sempre pelo mesmo motivo: não podia viver longe da cidade, esta hoje em dia tão mal amada Porto Alegre. E se a sua cidade nada lhe dava em troca, isto não lhe fazia mossa. Dizem que as chamadas mulheres fatais desapareceram, mas naquela época ainda existiam. E Paulo Coelho amava Porto Alegre como a uma mulher fatal.



O que contava para ele não era o sucesso nos grandes centros, nem o dinheiro dos grandes contratos. Era a velha tia que o criara, os músicos de sua orquestra, os amigos e a sua cidade, principalmente quando iam altas as madrugadas. Mas Porto Alegre lhe foi fatal até na hora da morte, atraindo-o para um de seus maiores espetáculos, num momento em que ele não se encontrava em condições de participar.

Paulo Coelho andava nas últimas, cercado de doenças por todos os lados. Mas era um domingo, com sol de maio. E havia Grenal. Então ele resolveu dar por encerradas todas recomendações e prescrições médicas, recebendo alta por conta própria.

Depois de um almoço comemorativo, em que quebrou com alegria o regime a que vinha sendo submetido, tomou um táxi e mandou tocar para o estádio. A sua última vontade, que era apenas assistir o Grenal, lhe foi negada no meio do caminho. Mas talvez ele tenha morrido como queria: na sua cidade e em dia de festa, a céu aberto.


(Agosto, 1978)




Fonte: Reverbel, Carlos. Saudações Aftosas. Porto Alegre, Martins Livreiro, 1980, p. 48/49.

Crédito Foto Horacina, Reverbel e Coelho: Laitano, Cláduia. Reverbel, Carlos. Arca de Blau - Memórias. Porto Alegre: Artes e Ofícios Editora Ltda, 1993, p.66

Crédito Foto Paulo Coelho e Carmen Miranda: https://www.matinaljornalismo.com.br/parentese/porto-alegre-uma-biografia-musical/paulo-coelho-o-rival-de-si-mesmo-capitulo-xxvi/ 

Crédito Chafariz Alto da Bronze: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiO4YiRDyU96XGws_cehNEW3uY2-_Z0FJ46VBbERpi-ZSnSRNUyG5EPiYdedc8Kep_DoE_Powr4v5ZEWrpXQAaNMpWNvk5lTFM90ziX_bHl0rShE2ZTdeZyE1ep7btJV5iDvr93dz9vCFg/s1600/alto+da+bronze%252C+1930.jpg

Crédito Música: https://soundcloud.com/musicadeportoalegre3/alto-da-bronze-paulo-coelho

Acesso 09/03/2023

domingo, 5 de março de 2023

O presidente e o carreteiro (Carlos Reverbel)

 

Não é esta a primeira vez (nem será a última) que um ministro nos aconselha “a apertar o cinto para vencer a inflação”. Nas vezes anteriores o conselho pouco ou nada adiantou. Não é de duvidar que, na atual conjuntura, comece a dar resultado, por outros motivos.


No ofício de escrever, nem sempre o autor manda nas palavras, empregando-as de moto próprio. Em certas ocasiões acontece de uma palavra intrometer-se no texto, sem ter sido chamada. Por exemplo: a palavra conjuntura nunca foi do meu agrado. E, não obstante, terminei me submetendo à sua intromissão, neste exato momento.


Como ia dizendo, não é de duvidar que, na atual conjuntura, esse negócio de apertar o cinto comece a dar certo. Aliás, sei de pessoas que já o mantém afivelado no último furo, não porque pretendam combater a inflação, mas simplesmente por falta do vil metal, vulgo numerário.


Há quem duvide da existência de bons filósofos entre os motoristas de táxi. De minha parte continuarei registrando, em meu canhenho de algibeira, o pensamento de laboriosa classe.


Disse-me outro dia um motorista de táxi: “Se conselho adiantasse, ninguém dava, vendia”. E acrescentou, com ares doutorais: “Só o exemplo funciona, principalmente quando vem em cima.” Peço-lhe permissão para subscrever as duas sentenças.


Se quisermos vencer a inflação, teremos de parar de dar conselhos e começar a dar exemplos, começando-se, assim, a instaurar um clima geral de austeridade. E a primeira condição para isto seria a contenção dos gastos públicos, com o corte de todas as despesas paranoicas, pois não adianta o povo apertar o cinto sem o governo apertar o seu, dando o exemplo.


A barra está começando a ficar pesada, acho que está na hora de baixar a bola. E, afinal de contas, se até os marajás já andam pelas caronas, porque esses luxos, essas prosopopeias, essa queimação de dinheiro no santuário e no supérfluo?


Segundo a boa aritmética, a grandeza do país terá de ser medida não pela multiplicação dos palácios, mas pela subtração das malocas. Modéstia e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém, dizia o velho Borges. Com aquele jeito de sorro manso, o dr. Getúlio, saído da mesma escola, sempre foi do mesmo parecer.


Mandado pelo jornal, acompanhei as grandes manobras militares realizadas em 1940, nos campos de Saicã. Um dia chegou a notícia de que o exército alemão invadira a França, levando tudo de roldão. Por coincidência, o dr. Getúlio chegou ao campo das manobras, nessa hora triste, ali permanecendo dois ou três dias.


Alojaram-no numa pequena casa, ao lado da que fôra destinada ao pessoal da imprensa. Então pude observar a simplicidade de suas maneiras, o ar bonachão, a fala mansa. Na roda de mate, parecia um estancieiro do lugar, de botas de foles e metido num blusão de zuarte. Uma noite, depois de falar aos jornalistas, encerrou assim a sua entrevista: “Bueno rapaziada, já são horas, vamos dormir.”


No outro dia levaram-no a inspecionar, com o general Dutra, ministro da Guerra, e o general Góis Monteiro, chefe do Estado Maior do Exército, o campo de operações.


Nas proximidades de um dos dispositivos das manobras, onde estacionara, foi ao encontro de um carreteiro que ali se encontrava. Percebendo a sua intenção, coloquei-me de jeito a poder ouvir a conversa. Depois da saudação dirigida ao carreteiro – “Buenas, amigo!” - estabeleceu-se um pequeno diálogo, em que este, dizendo-se peão do “seu” Ananias Vasconcelos, perguntou a certa altura se o seu interlocutor também era fazendeiro no município de Rosário. “Sou, mas noutros pagos”, respondeu o presidente. E o carreteiro: “Logo vi”.


Sei muito bem que o dr. Getúlio não era nenhum santo, mas havia no seu estilo de vida uma simplicidade de maneiras e uma sobriedade de costumes que lhe asseguravam a simpatia e o bem-querer do povo.


(Fevereiro, 1979)



Capa: Jairo Devenutto



Fonte: Reverbel, Carlos. Saudações Aftosas. Porto Alegre, Martins Livreiro, 1980, p. 62/63.

sábado, 4 de março de 2023

O ronco (Carlos Reverbel)


Quando o casal atinge a idade do ronco, fenômeno que, de um modo geral, aparece depois dos 40 anos, havendo, entretanto, frequentes casos de precocidade, aconselha-se a separação de quartos, para evitar-se a separação de corpos.”
Encontrei esta sábia recomendação no compêndio intitulado “A felicidade conjugal”, de autoria de Urbano Ulback, tradução de Odoniran Adamastor Pacheco do Canto, pág. 148.
Como o ronco matrimonial é um assunto que sempre me preocupou, fui até o fim do referido cartapácio, na esperança de encontrar maiores subsídios, completando, assim, as informações que vinha recolhendo, de oitiva, sobre a matéria.
Eu já sabia, por exemplo, que o ronco não tem cura, apoiado na opinião de diversos facultativos amigos, sempre interrogados fora dos respectivos consultórios médicos, pois faço parte da legião de indivíduos que, toda vez que se aproxima de um esculápio, furta-lhe, no mínimo, duas consultas.
Lamentavelmente, a leitura do tratado de Ulback foi pouco proveitosa a esse respeito, limitando-se à recomendação já mencionada, em matéria de roncos conjugais. Não tenho, assim, outra alternativa senão recorrer às minhas próprias pesquisas e observações, lamentando, de antemão, não ter me acudido a ideia de apresentá-las no congresso da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, recentemente realizado em São Paulo.
Acredito que poderia propor ao aludido conclave, com o necessário embasamento científico, uma alentada tese, com o seguinte e não menos alentado título: “O ronco como fator de decadência da civilização ocidental, através de sua culpabilidade na dissolução dos sagrados vínculos matrimoniais.”
Sabe-se, com fundamento em estatísticas fidedignas, talvez mais exatas e completas que as da própria Unesco, que o ronco tem sido responsável por grande número de ações de divórcio, propostas nas varas de família de diversos países. Daí, certamente, a origem da judiciosa recomendação de Urbano Ulback: “a separação de quartos para evitar a separação de corpos”.
Como o ronco é um mal incurável, cujos portadores não são aceitos nem pelos psicanalistas, não se pode deixar de apontá-lo como coisa do demônio, introduzida no recesso dos lares, furtivamente e na calada da noite, para solapar os alicerces da família cristã. Os casais que resistem à dura prova, chegando às bodas de ouro, sempre no mesmo quarto, dão mostras de que nem tudo está perdido, alimentando, com seu edificante exemplo, as últimas esperanças de salvação da família e, por via de consequência, da sociedade e da própria civilização.
No momento em que está sendo regulamentada a lei do divórcio, naturalmente o capítulo do ronco vai receber as atenções que lhe são devidas, por parte dos nossos atilados legisladores a fim de evitar-se abusos de consequências imprevisíveis.
Entre outras, a tendência no sentido de incluir-se o ronco, a exemplo de certos países, na categoria de “crueldade mental”, terá de ser definitivamente afastada, pois admiti-la corresponderia a emprestar-lhe uma elasticidade exagerada e perigosa, abrindo-se caminho para interpretações capciosas e até mesmo para ações fraudulentas. Se houver abuso do ronco, como pretexto para ruptura dos laços matrimoniais, quando existe a recomendação infalível de Ulback para resolver o problema (“separação de quartos, para evitar-se a separação de corpos”), a própria instituição do divórcio poderá vir a ser comprometida de forma irremediável.
Recomenda-se aos indecisos e titubeantes, em face do ronco conjugal, renunciarem ao matrimônio, permanecendo em estado de solteiro. Aliás, o ronco celibatário desdobra-se com naturalidade, atingindo toda a plenitude, no tempo e no espaço, pois, contrariamente ao que acontece com o do casal, não fica sujeito ao cutuco inibitório de nenhum dois cônjuges.
Segundo o prof. Leon Cachard, o ronco não passa de uma função fisiológica que não deve ser contida e, ainda menos, interrompida bruscamente, razão pela qual ele também recomenda a separação de quartos, a fim de que os cônjuges possam exercê-la com a devida espontaneidade e de acordo com a ordem natural das coisas.
Como se trata de um cientista do século passado, talvez a sua teoria tenha caducado, mas é absolutamente certo, por outro lado, não ter sido ele influenciado por nenhuma preocupação relacionada com a preservação dos laços matrimoniais, como foi o caso do contemporâneo Ulback, visivelmente empenhado na defesa do vínculo indissolúvel.
Por sua vez, os atuais seguidores do mestre germânico, naturalmente mais realistas e avançados, chegam ao ponto de recomendar, para saneamento da vida conjugal, não apenas a separação de quartos, mas, em caso de roncos acima de 80 decibéis, a própria separação de tetos.

(Julho, 1977)


Capa: Jairo Devenutto



Fonte: Reverbel, Carlos. Saudações Aftosas. Porto Alegre, Martins Livreiro, 1980, p. 59/61.

quinta-feira, 2 de março de 2023

O tenente e o advogado (Carlos Reverbel)

 

Uma vez no ano de 1930 eu ia atravessando a Praça da Matriz na direção do Ginásio Anchieta e resolvi mudar de rumo, entrando no Tribunal de Justiça, como fazia seguidamente, pois não havia, na minha abalizada opinião, melhor lugar para gazear as aulas.


Era dia de júri, programa mais atraente que as aulas de latim do padre Schneider, de inglês do padre Buck, de francês do padre Werner et caterva. Aliás, três mestres notáveis, coisa que só descobri muito depois. Felizmente ainda deu para recuperar um pouco do muito que deixei de aprender com eles, reconstituindo através da memória algumas migalhas de suas lições, espécie de salvados do tempo perdido.


Quando ingressei no recinto do júri estava sendo procedida a leitura dos autos, pelo escrivão Vasques. Era um crime de infanticídio e a ré ali se encontrava de cabeça baixa, olhos lacrimejantes e ar compugido, como de praxe. Não estou bem lembrado, mas parece que exercia as funções de lavadeira, trabalho que ainda se praticava nas margens do Riacho e na enseada da Praia de Belas, então bastante bucólicas, senão merencórias, como algumas telas do paisagista Ângelo Guido.


Naquela época, o júri tinha grande público, era um espetáculo, com seus astros, alguns de enorme cartaz, rivalizando com os que faziam papel de mocinho nos filmes seriados das matinês do Apolo. Como eu me alinhava entre os frequentadores mais assíduos do espetáculo, logo percebi que não se tratava de júri comum. Havia um frêmito de expectativa envolvendo o ambiente. Os habituês estavam visivelmente excitados. Esperava-se uma revelação, o despontar de novo astro. Motivo: a estreia de jovem advogado que chegava ao Tribunal aureolado pela fama de invulgar talento e pela láurea de seu currículo acadêmico.


O advogado Mário Cinco Paus, que fôra repórter forense na mocidade e continuava com a mania de ser o mais bem informado, antecipava aos presentes, conhecidos e desconhecidos:


- “Vai ser um estouro.”


E lá no seu canto o rábula Saint-Clair Roque da Silva, ex-barbeiro, aguardava, algo conspícuo, o primo-canto do jovem “colega”.


Falou o promotor, cujo nome não lembro. Mas devia ser dos bons, pois naquele tempo os promotores da capital eram escolhidos a dedo. Havia uma tradição, em termos de critério seletivo. E o cargo muitas vezes constituía o primeiro passo na carreira política, como aconteceu com Getúlio Vargas e também, se não estou mal lembrado, com Ariosto Pinto e João Neves da Fontoura. Não venho da época do dr. Getúlio na promotoria porto-alegrense, mas assisti o desempenho de grandes promotores, como Francisco Rodolfo Smich Júnior, aliás de curta passagem pelo cenário do velho casarão da Praça da Matriz, cuja destruição pelo fogo, por sinal, tive de descrever muito depois, já então como repórter de polícia.


Quando o meritíssimo juiz deu a palavra à defesa, levantou-se o jovem advogado, de compleição franzina, gestos contidos, fisionomia grave, finas e elegantes maneiras. Os frequentadores mais antigos do recinto, no saudosismo de um Pereira da Cunha, um Álvaro Masera, um Plínio Casado, um Germano Hasslocher, esperavam a reprise daquelas emocionantes peças oratórias, capazes, em certos arroubos, até mesmo de fazer um frade de pedra verter copiosas lágrimas. Mas o jovem advogado trazia um novo estilo para a plateia. E desenvolveu o seu trabalho em tom coloquial, todo voltado para os jurados, não para o público. A sua argumentação – simples, direta, desataviada – levava tudo por diante, como um trator que fosse movido pelo racionalismo cartesiano.


Primeiro, traçou o quadro socioeconômico, submundo onde nascera e vivera a acusada, no seu marginalismo gritante. Depois, entrou no exame dos autos, apontando falhas na formação da culpa e recorrendo aos tratadistas para dar embasamento doutrinário à sua argumentação em favor da absolvição, mesmo porque, enfatizou, a sociedade não poderia condenar as suas próprias vítimas. Na peroração, executou uma espécie de serenata de Tosselli, comovendo profundamente o conselho de sentença e o auditório.


Fôra realmente uma revelação das mais impressionantes já acontecidas no histórico pretório, mas não nos moldes esperados pelos antigos fãs dos criminalistas românticos e folhetinescos, de que era paradigma o grande Pereira da Cunha, talvez o maior orador do júri porto-alegrense em todos os tempos. Saí empolgado do Tribunal e com aquele nome na cabeça: Alberto Pasqualini.


Passados uns poucos dias, nem uma semana, eu estava lendo um romance de Pitigrilli no quarto da pensão onde morava, na rua Riachuelo, quando batem fortemente na porta, com os punhos fechados, um Deus nos acuda. Fui abrir e era o tenente Ivan Cabral da Silveira, todo desfeito, transtornado.


Ele chegara há poucos dias do Rio, para servir na guarnição local. Ainda estava no período de trânsito, não havia se apresentado no Quartel General e não conhecia ninguém na cidade, a não ser a mim e outros rapazes, moradores daquela pensão, onde ele também se hospedava.


Os outros rapazes trabalhavam em bancos, em repartições públicas, no comércio. Embora ocioso, frequentando diversos lugares, diurnos e noturnos, menos as aulas, encontrava-se casualmente na pensão, àquela hora. Então o tenente Ivan Cabral da Silveira, não tendo outra pessoa a quem recorrer, foi bater na minha porta e desfechou o seu drama, à queima-roupa:


- “Fui obrigado a matar um sujeito, preciso dum advogado”.


Realmente, o tenente acabara de assassinar um alfaiate, estabelecido nas vizinhanças da pensão, tendo ficado combinado entre nós, no momento, que ele iria se apresentar no Quartel General e eu iria procurar o advogado. Fui ao escritório do jovem bacharel que tanto me havia impressionado poucos dias antes, ao fazer sua estreia no Tribunal do Júri. E esta foi a segunda causa de Alberto Pasqualini no foro criminal de Porto Alegre.


Enquanto corria o processo, o tenente Ivan Cabral da Silveira, já então meu amigo, foi recolhido ao quartel do 7º Batalhão de caçadores, na época comandado pelo bravo coronel Benedito Acauan. E quando foi uma certa tarde do mês de outubro, exatamente “a las cinco en punto de la tarde”, foi aquele esparramo na cidade: tinha rebentado a Revolução de 30, o Quartel General havia sido invadido e dominado, mas o 7º Batalhão de Caçadores resistia, com os revoltosos pertencentes à corporação, depois de lutarem dentro do Quartel, tendo saído para a rua e voltado a atacá-lo pelo lado de fora, ajudados por outros contingentes revolucionários, que terminaram dominando a situação.


Entre os que se destacaram na ação contra o 7º Batalhão de Caçadores estava o tenente Ivan Cabral da Silveira. Comissionado no posto de capitão, fez toda a campanha de 30, apresentando-se após a vitória para ser julgado (e absolvido) com notável desempenho do grande advogado Alberto Pasqualini.


(Setembro, 1978)


Capa: Jairo Devenutto


Fonte: Reverbel, Carlos. Saudações Aftosas. Porto Alegre, Martins Livreiro, 1980, p. 21/23.

quarta-feira, 1 de março de 2023

Premonição do Mosquito (Carlos Reverbel)

 

Parece que está chegando a hora de todo mundo apertar o cinto, até a esquerda festiva. Este ano de 79 vai ser fogo na roupa. A gíria já passou, ficou obsoleta, mas não pode deixar de reconhecer que vem a calhar.


A última vez que ouvi esta expressão foi há uns quinze anos, proferida pelo Mosquito, um fotógrafo de jornal, discípulo do grande Barreto. Referia-se ele à viagem que iria fazer no dia seguinte, de trem para São Paulo. E meio alto, como era de seu costume, não parava de repetir: vai ser fogo na roupa.


Talvez o Mosquito já estivesse tocado pela premonição do que iria lhe acontecer naquela viagem. Numa de suas incursões ao bar do trem, errou a porta, no exato momento em que a composição atravessava uma ponte, sendo tragado por um rio paranaense, cujo nome não foi incluído na autópsia.


Quando se deu essa tragédia ferroviária o Barreto já havia desaparecido, também vítima de um acidente, mas em circunstâncias prosaicas. Foi colhido por um automóvel, nas proximidades de sua residência, situada no Menino Deus. Não estou bem lembrado, mas parece que não morreu na hora, sendo hospitalizado, etc, e tal.


Por ocasião da Revolução de 23 o Barreto teve destacada (e arriscada) atuação no jornal “Última Hora”, que então se editava em Porto Alegre, sob a direção de Lourival Cunha (vulgo Barão do Cemitério) e que movia cerrada oposição ao governo do Dr. Borges, primeiro fazendo a campanha assisista e depois dando cobertura à Revolução.


O Barreto era repórter do atrevido órgão. E quando foi um belo dia teve uma excelente ideia: reeditar o “Antônio Chimango”. A primeira edição havia saído em 1915, estava completamente esgotada. Providenciou então na execução da segunda, imprimindo-a clandestinamente, ocasião em que o famoso “poemeto campestre” foi utilizado e ganhou grande popularidade na luta contra o borgismo.


Esta foi a primeira de uma série de reedições da obra-prima de Ramiro Barcelos, cujo levantamento completo acaba de ser feito pelo Júlio Petersen, aliás possuidor, na sua notável Rio-Grandina, de todas as publicações do “Antônio Chimango”, assim como de inúmeras raridades bibliográficas, menos a “Divina Pastora”, de Caldre e Fião.


Por sinal a referida obra é a mulher fatal dos bibliógrafos gaúchos, já tendo alguns cometido os maiores desatinos na paixão com que a procuram. Entre acertar na Loteca e encontrar a “Divina Pastora”, eles ficariam com a segunda opção, seguramente.


Terminada a Revolução de 23, Barreto teve outra excelente ideia: editou um álbum de fotografias, fixando vultos e acontecimentos relacionados com o episódio que encerrou a era borgista no Estado, selando, nos termos do Tratado de Pedras Altas, a vitória do Partido Libertador.


Além desse álbum (o melhor documentário fotográfico editado sobre a Revolução de 23, trabalho do Barreto), existe um documentário cinematográfico filmado por um amador (o Dr. Benjamin Camozato, cirurgião dentista), hoje pertencente ao médico e historiador Nicanor Letti. Trata-se de uma realização surpreendente pela perícia do operador, apresentando, em mais de duas horas de projeção, cenas do confronto armado entre libertadores e chimangos.


Parece que o Dr. Camozato errou de profissão, devia ter sido cinematografista. Seja como for, deixou um dos documentários mais singulares do nosso acervo histórico.


Quando a “Última Hora” fechou, o Barreto resolveu mudar de setor dentro da imprensa porto-alegrense. Abandonou a pena e passou a empunhar a máquina fotográfica. Percebera que havia chegado o momento da reportagem ilustrada no jornalismo local. E tornou-se um inovador, valorizando-se profissionalmente, pois como repórter fotográfico seria mais bem pago. Terminou os últimos anos de vida no “Diário de Notícias”, também já falecido.


Não trabalhávamos no mesmo jornal mas éramos amigos e seguidamente nos encontrávamos nos botecos ou nos locais de reportagem, mantendo a cordialidade, o que nem sempre acontecia entre outros colegas, por causa da luta do que então se chamava “furo”.


Era no tempo do magnésio, com o respectivo estrondo e a consequente fumaceira. A máquina do Barreto era atarraxada em cima do alto tripé, constando de uma espécie de gaita de foles ligada à objetiva, através da qual o operador regulava a lente do aparelho, com a cabeça coberta por um pano preto, mas o do Barreto era roxo. Depois desse cerimonial, ele retirava a tampa que protegia a lente e acionava a pistola de magnésio, o que era feito apenas nos ambientes fechados, em geral bastando a luz solar para o engenho funcionar.


Foi para carregar o seu volumoso material de trabalho que o Barreto, já com avançada idade e sempre meio alto, aliciou o Mosquito, retirando-o da casa noturna onde exercia, apesar de menor de idade, desenvoltas funções de mandalete do mulherio. E terminou fazendo de seu jovem e expedito carregador um competente fotógrafo de jornal.


O Barreto sempre foi inconformista, tendo utilizado a pistola de magnésio como instrumento de contestação social. Boêmio e muito chegado ao povo, nas reportagens de rua e nas policiais usava o instrumento com delicadeza e moderação, deixando de carregar a mão no magnésio. Mas quando lhe mandavam fotografar banquetes das classes conservadoras, reuniões políticas ou saraus da alta sociedade, costumava deflagar descomunais cargas de magnésio, com estrondo de estremecer as vidraças e encher o ambiente de fumaça, causando, não raro, sérios incidentes e alguns acidentes. E houve ocasiões em que ele próprio se acidentava, com a explosão do magnésio lhe chamuscando o rosto.


Uma vez, no Restaurante Guilosso, o Barreto foi retirar a fotografia do Domingos, então glorioso jogador de futebol, dispondo seu instrumental de modo a colocar a pistola de magnésio um metro acima da cabeça do Dr. Margenat, conhecido oftalmologista local que fazia seu repasto em mesa próxima. Foi tamanho o estrondo e tanta a fumaceira dentro do restaurante que o idoso e responsável esculápio (aliás, especialista em operações de catarata) caiu da cadeira, estabelecendo-se a maior confusão no saudoso estabelecimento gastronômico do velho Emílio e Dona Ida.


Mas em meio a todas as conflagrações o Barreto sempre saía bem, pois era muito popular, emérito piadista, ótimo amigo e grande repórter fotográfico, em quaisquer circunstâncias, principalmente no segundo tempo de suas libações diárias. Barreto amigo, Rivadávia amigo – quanta saudade!


(Fevereiro, 1979)



Fonte: Reverbel, Carlos. Saudações Aftosas. Porto Alegre, Martins Livreiro, 1980, p. 43/45.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Intuiciones en torno al mate (Carmen M. Cáceres)


La esencia del mate se juega en la yerba. Bien dispuestas en el recipiente, las hojas secas y troceadas entran en contacto con el agua caliente y desprenden un sabor amargo que va perdiendo aspereza en las cebadas hasta alcanzar un tenue gusto vegetal. Este feliz equilibrio se mantiene hasta que la yerba termina de cumplir su proceso de oxidación. Hinchadas y oscuras, las hojas se vencen, se agostan y dan al agua caliente una pesadez ferrosa que se estanca en el estómago.


(…) en un buen mate la yerba cumple su proceso vital cuidadosamente dispuesta en el recipiente, con la asistencia de una bombilla inmóvil que jamás quema los labios y permite que el agua suba amable, portanto su viejo letargo estacional. Según la tradición, el mate malo no es tanto el que sabe mal – algunos problemas de sabor se pueden corregir en las sucesivas cebadas – sino el que se va arruinando con las cebadas porque el agua se enfría rápido o la yerba se oxida de golpe y acidifica. Aquí entran en juego las habilidades de la persona que ceba, encargada de mantener el conjunto y estabelecer un ritmo, una fluidez coreográfica en el cebar, pasar, esperar. La cebadora o cebador es importante pero su importancia no es la de un maetro de ceremonias sino la de un buen traductor: cunto más invisible, mejor.


El nombre técnico es Ilex paraguariensis, se lo dio el francés Augustin Saint-Hilaire en 1822, cuando publicó la primera descripción taxonómica de la yerba en la revista Mémoires du Muséum d’Histoire Naturelle.


«Mi único diálogo verdadero es con este jarrito verde». Estudiaba el comportamiento extraordinario del mate, la respiración de la yerba fragantemente levantada por el agua y que con la succión baja hasta posarse sobre sí misma, perdido todo brillo y todo perfume a menos que un chorrito de agua la estimule de nuevo, pulmón argentino de repuesto para solitarios y tristes.

Julio Cortázar, Rayuela (1963)


El sabor, amargo, del mate me llena la boca y el líquido caliente, que me hace sudar y va como barriendo los restos del sueño, pasa por mi garganta, hasta que las ultimas chupadas, que hacen subir por la bombilla a la boca cada vez menos líquido, terminan produciendo, en el fondo del mate, un murmullo ronco y apagado.

Juan José Saer, Nadie, nada, nunca (1980)


Caiguá era la calabacita que se usaba de vaso y el nombre estaba compuesto por las voces caá (yerba), i (agua) y guá (recipiente). Bombilla se decía tacuapí, compuesta por las voces tacuá (caña hueca) y apí (lisa o alisada). Y a la caldera con agua caliente se designaba itacuguá, donde i era agua, tacú caliente y guá recipiente.


Durante el apogeo jesuita en América, a la infusión se le incorporó el sufijo quechua «mate», que era como se llamava en la zona de los Andes peruanos al fruto de la planta Lagenaria vulgaris que da la calabacita que se usaba como recipiente. El caá-mate pasó a nombrar la infusión de yerba caá que se tomaba en esa calabacita por medio de una bombilla. Según Amaro Villanueva, los colonizadores españoles prefirieron el vocablo mate porque resultaba más afín a la entonación grave del idioma español (en detrimento de la aguda del guaraní) y así se extendió durante los siglos XVIII y XIX por los Virreinatos del Perú y del Río de la Plata. Mate: una única palabra de otro idioma para designar la yerba, el recipiente que la contiene y la infusión entera.


Jamás decimos que el mate es rico, sino que está rico. El sabor agradable no es una constante en la ceremonia sino solo una de sus etapas. Por eso quienes prueban el mate casi siempre lo rechazan la primera vez. Para alcanzar el placer debe haber un crecimiento (o endurecimiento) del paladar, un proceso de culturalización.


El mate no es un medio sino un fin en sí mismo. No se bebe: se toma, se posee. En nuestra cultura, toma mate quien tiene sus utensilios y lo hace todos los días. El resto no toma mate, a lo sumo se toma un mate.


La combinación entre el tipo y disposición de la yerba, el recipiente y la temperatura del agua generan un ejemplar único del mate que se convierte en la huella dactilar de quien lo prepara.



Fonte: Cáceres, Carmen M. Al borde de la boca: diez intuiciones en torno al mate. 1ª ed. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Fiordo, 2022, p. 18/19/30/43/68/69/78/79/108/109.

Remembranças - Darcy Azambuja por Carlos Reverbel

 

Guardada a distância devida ao seu gênio literário, talvez já me encontre na situação em que se colocava Alcides Maya, quando dizia não passar “de um velho jornalista, com espaço franqueado para publicação de suas remembranças.”


Há palavras que me fazem evocar o velho Alcides, acreditando aconteça o mesmo com aqueles que leram seus livros e o conheceram de perto. Em geral, as palavras são como gado orelhano, não tem marca nem sinal. Mas o velho Alcides adonava-se de certas palavras, sentando-lhes a sua marca. Por exemplo: esta palavra remembrança. No vocabulário alcidiano, ganhava singular expressão, como se fosse sua.


Li outro dia nos jornais a notícia de que foi apresentada uma dissertação de mestrado sobre a obra de Darcy Azambuja. Então me ocorreram algumas “remembranças”, ligadas ao saudoso escritor, na sua feição humana, como pessoa.


Certa vez, entrando numa fila de cinema, estavam colocados na minha frente Darcy Azambuja e sua esposa, a querida dona Maria. Na época, ele ocupava o cargo de secretário do Interior, no exercício do governo do Estado. E apesar da alta investidura, ali se encontrava, pegando o seu cineminha, como qualquer cidadão comum. Depois de sessão do Cinema Rex, foi tomar chá na Confeitaria Central, recolhendo-se a pé para sua residência, uma casa modesta da Rua Jerônimo Coelho.


Recém chegado da Encruzilhada, sua terra natal, para ingressar na faculdade de Direito, o futuro autor de “No Galpão” (um clássico do nosso regionalismo literário, na mesma linhagem de J. Simões Lopes Neto) foi trabalhar como caixeiro da Casa Bromberg, pois sua família era apenas remediada, com poucos recursos para custear seus estudos em Porto Alegre. Tendo tirado, ainda como caixeiro, o primeiro lugar num concurso nacional de contos, convidaram-no para trabalhar no órgão oficial, “A Federação”, assim começando sua carreira como jornalista. Terminou-a como diretor do “Jornal da Manhã”, sucedendo a Fernando Caldas, fundador do jornal.


Passados alguns anos, convidaram-no para editorialista do “Correio do Povo”, em substituição a Edgar Schneider, que fora eleito deputado federal, fixando residência no Rio. Disse-me que aceitara o convite, mas pediria alguns dias de prazo para iniciar o serviço. Nesse meio tempo, mandou me chamar:


- “Quero que me acompanhes na visita que vou fazer ao dr. Breno, para agradecer-lhe a distinção e dizer-lhe que fiquei honrado mas não posso aceitar.”


E segredou-me o verdadeiro motivo de sua desistência: “Se for trabalhar no jornal, perderei os três meses de férias na Faculdade, talvez a única vantagem de ser professor.”


Esses três meses ele os vivia numa pequena casa em Ipanema, trocando-a, mais tarde, por um apartamento em Torres, situado num bloco arquitetônico que recebeu o apelido de Vila do IAPI, o que bem demonstra a modéstia da construção. Fomos condôminos nesse edifício. E então pude frequentá-lo diariamente, admirar a simplicidade de sua vida, a finura de suas maneiras e, sobretudo, o relacionamento perfeito com a esposa. Eram duas pessoas num só coração. De temperamentos tão diferentes, nem isto alterava o convívio harmonioso, o companheirismo, a delicadeza e a doçura do casal, no aconchego da mútua dedicação.


Homem de grande saber, com uma obra literária e uma posição universitária eminentes, Darcy Azambuja apresentava traços, na sua modéstia e singeleza, de algumas de suas personagens, aquelas em que se reflete a alma simples da boa gente camponesa. Tomador de mate amargo e pitador de fumo crioulo (como o grande Augusto Meyer), parecia um velho chiru galponeiro.


Contrariamente ao que em geral se verifica entre escritores, não promovia sua carreira, nem preparava a sua glória. Uma vez desencavei, em velho almanaque da Livraria do Globo, um de seus melhores contos, reproduzindo-o na “Província de São Pedro”. Ele não se lembrava de ter escrito e publicado esse conto, ficando muito grato pela minha “descoberta”. E outra vez, estando em minha casa, de visita, ficou meio perplexo pelo fato de eu colecionar, em duplicatas, as primeiras edições de seus livros regionalistas. Ele não conservava nenhuma.


As poucas vezes em que saiu do Rio Grande do Sul foi para integrar bancas examinadoras em concursos para a cátedra superior, em outros Estados. A província lhe bastava, embora nada tivesse de provinciano. Recebeu a vida inteira, de seu livreiro parisiense, as novidades literárias, filosóficas e jurídicas que lhe interessavam.


Refugiava-se em casa, fechando-lhe as portas ao mundanismo e às exteriorizações da vida literária, não aos seus alunos a aos seus amigos. E tendo sentimento religioso, não precisava ir à igreja, poia a levava dentro da alma.


(Janeiro, 1979)


Capa: Jairo Devenutto

Fonte: Reverbel, Carlos. Saudações Aftosas. Porto Alegre, Martins Livreiro, 1980, p. 89/91.

domingo, 26 de fevereiro de 2023

Um inglês e o trem (Carlos Reverbel)

Um dia desses tive de acompanhar um inglês em viagem pela nossa campanha. Era um gringo de aparência rabicunda e porte avantajado. A olho, dei-lhe dois metros e pico. Até aí, nada de extraordinário. O espanto apareceu quando assentei o olhômetro na direção dos pés do vivente. Calçava sapatos 54, conforme ele próprio me informaria, ali pelo Pantano Grande.


A viagem ia correndo linda no mais, até começar a chover canivete aos baldes. Os raios caiam guaxos e acolherados. Santa Bárbara! São Jerônimo! E era água que Deus mandava. Não podia ser diferente: ficamos ilhados numa estância na costa do Ibicuí da Armada.


Os percalços não foram poucos, já se vê. E o inglês sempre firme, tirando tudo de letra, na maior desportividade. Só uma coisa o preocupava: ficar retido naqueles confins, perdendo a reunião com o ministro Cirne Lima, a que devia comparecer no dia seguinte, em Porto Alegre. Negócio grande, de importação de gado. Por sinal South Devon, a melhor raça europeia para cruzar com as zebuínas.


De carro não dava para sair. “Mas não seja por isso”, disse o fazendeiro. E providenciou na nossa remoção, a cavalo, até uma estação ferroviária, situada nas circunvizinhanças, coisa assim de três léguas de beiço, isto é, das grandes. Tocou para o inglês um pingaço baio cabos-negros, marca do Dr. Oswaldo Carlos de Oliveira Souza. No trote chasqueiro e alguma galopeadita daria para pegar o trem noturno na estação São Lucas. “Thank you, very much”. Era o inglês agradecendo, no soflagrante da despedida, a famosa “hospitality” gaúcha.



Por volta das 11 p.m. (como dizem os britânicos) apareceu o trem noturno se desmantelando e botando os bofes pela janelinha do maquinista, na falta daquelas provectas chaminés marca Maria Fumaça, de saudosa memória. Como manda a pragmática, vinha com umas duas horas de atraso. Na plataforma da estação cabia apenas a locomotiva, o bagageiro, o carro de segunda e o carro-boteco, por alcunha restaurante. O grosso da composição ficou estendido ao longo da linha, com os degraus de cada vagão lá em cima, longe do chão.


Fazia uma noite de breu, dessas de até vaga-lume errar o caminho e perder a direção do voo. A eletrificação rural que servia à estação era representada por um liquinho, que bruxuleava, qual vela de sebo melhorada, a uns 80 metros do vagão-evereste que tínhamos que escalar, praticando alpinismo na escuridão do pampa. E o inglês comendo tudo em tranca, aguentando tudo no osso do peito, na desportividade de sempre. Tudo para ele estava “very, very good”. E só tirava o cachimbo da boca para dizer OK.



Não seria por falta de ponto de apoio nos seus pés tamanho 54, mas o caso é que, ao escalar o vagão, qual jovem audaz do trapézio volante, o patrício de Sir Winston Leonard Spencer Churchill errou de degrau, recebendo em consequência um rasgão de palmo na calça de flanela branca e um talho de bom tamanho na canela esquerda. Quando chegamos na cabine que havíamos conseguido, engraxando as unhas do camareiro no unto de opípara gorjeta, o imperturbável britânico estava em petição de miséria, mas o seu moral continuava o mesmo, “very, very good”.


Como é de bom tom, logo assumi ares de “gentleman” e fui me apossando com desenvoltura do leito de cima, mesmo porque o meu companheiro, já desastrado na primeira, não estaria em condições de praticar nova acrobacia. O inglês ficou no leito inferior, menos sacolejante. E depois de procurar acomodar-se o melhor possível, não teve outro jeito senão optar pela clássica posição ginecológica. Instalou-se de barriga para o ar, mãos cruzadas na nuca, joelhos soerguidos, pernas abertas em leque, olhos piscos e pervagantes. Experimentou diversas posições (inclusive o decúbito dorsal), mas foi a ginecológica a única que lhe permitiu caber dentro do leito, uns 30 centímetros mais curto do que a sua simpática e avantajada pessoa. E assim fez todo o percurso, chegando ao seu destino (aliás, o nosso), de peito aberto e camisa arremangada, pois estava fazendo um calor de rachar, embora o dia anterior fosse de rigoroso inverno. Mas o inglês não parava de repetir: “Your climate, very, very good”.


Ia esquecendo: antes de despedir-se ele declarou que iria primeiro ao Pronto Socorro, para tomar uma antitetânica tamanho-família, recolhendo-se depois ao City Hotel, para espichar as “legs”.


Tenho para mim que este pequeno episódio ferroviário constitui uma das melhores demonstrações de subdesenvolvimento que poderíamos ministrar a um estrangeiro. Resolvi contá-lo depois que li umas declarações em que o responsável pelo setor, no Rio Grande do Sul, diz não ser da competência da ferrovia o transporte de passageiros para o interior do Estado.


Diante disso e depois disso, como dizia o Conselheiro Rui Barbosa nas suas perorações, talvez seja o caso de transferir-se o problema ferroviário para a área da respeitável matrona assaz conhecida como vó do Badanha.


(Maio, 1979)



Capa: Jairo Devenutto

Fonte: Reverbel, Carlos. Saudações Aftosas. Porto Alegre, Martins Livreiro, 1980, p. 40/42.


Crédito Fotos:

Ruínas da estação de São Lucas em 2005. Foto Daniel Taschetto

http://www.estacoesferroviarias.com.br/rs_uruguaiana/fotos/slucas051.jpg


Pátio de São Lucas em 2021. Foto Augusto Taschetto

http://www.estacoesferroviarias.com.br/rs_uruguaiana/fotos/saolucas0211.jpg


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

O avesso da pele (Jeferson Tenório)

 

(…) a fuga (…) serve apenas para os indiferentes, para os que não sentem remorso.


(…) as relações afetivas são formadas por duas categorias: dos egoístas e dos doadores.


A infância nos fornece certas mágoas e é com elas que lutamos.


(…) o abandono é algo da maior crueldade que um ser humano pode causar ao outro.


A gente tem sempre que descobrir de onde vem a culpa, porque é assim que a gente aprende a partir, (…)


(…) nós sempre pensamos no lado negativo quando estamos em crise.


(…) a crise é o melhor momento das nossas vidas, porque é quando nos reavaliamos, quando fazemos uma autocrítica. E o melhor disso é que, quando a crise passa, tudo fica melhor. São as crises que nos levam adiante.


(…) sempre nos tornamos infantis diante do desespero e da humilhação.


(…) a morte pode ser inesperada, mas as palavras não.



Capa: Alceu Chiesorin Nunes

Imagem de capa: Antonio Obá, trampolimbanhista, óleo sobre tela, 130x 110 cm, 2019. Collection De Vleeschouwer-Pieters. Cortesia do artista e de Mendes Wood DM São Paulo, Bruxelas, Nova York. Reprodução de Bruno Leão.

Fonte: Tenório, Jeferson. O avesso da pele. 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2020, p. 40/46/47/84/98/178.

sábado, 11 de fevereiro de 2023

Idosos em Corpos de Jovens (Hoje Tem Podcast/Leila Germano)




Disponível: https://open.spotify.com/episode/4UX7N7YDxkao8A4Jk0sLdf

Acesso: 11/02/2023



Crédito imagem episódio: https://d3t3ozftmdmh3i.cloudfront.net/production/podcast_uploaded_episode400/1875086/1875086-1675699758008-379ed2ffc353.jpg



Crédito logos bingo: 

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Livro “O Balanço da Mata Norte – Batuque Rural na Bateria” (Rafael dos Santos, 2026)

  Batuque Rural na Bateria   Fonte:  https://viasabertas.com.br/nossos-trabalhos/livro-o-balanco-da-mata-norte-batuque-rural-na-bateria-2026...