segunda-feira, 10 de julho de 2023

Ócio com dignidade (Carlos Reverbel)

 

Continuo arrumando as armas e bagagens da aposentadoria. Faço parte de uma categoria de indivíduos que deixa a vida passar, acumulando projetos para quando estiver aposentado. Não há melhor maneira de jamais realizá-los. Respondo pela eficiência do método, tomando a liberdade de recomendá-lo às novas gerações.

Fiel a esse critério, tenho dedicado os últimos dias a botar em ordem os livros que juntei, ao longo de uns quarenta anos de garimpagem pelos sebos da cidade, com diversos objetivos, entre eles o de reunir material para uma pequena monografia sobre as antigas tipografias porto-alegrenses. É este, aliás, um dos principais projetos que venho transferindo para os anos de aposentadoria, embora saiba, de antemão, que não será executado.

Espero que me compreendam, pois nada é mais gratificante ao cristão do que as boas intenções, matéria em que, modéstia à parte, me considero bastante habilitado. Acredito, por outro lado, que Cícero me aprovaria, pois é público e notório que ele era muito chegado ao ócio. Daí a sua clássica expressão: Otium cum dignitate.

No século passado não tínhamos editoras, propriamente. Havia diversas tipografias e quase todas publicavam livros, em geral pagos pelo autor. As oficinas dos jornais também imprimiam livros, por vezes a reprodução de folhetins que eles próprios haviam publicado, dia a dia.

Caldas Júnior criou a “Biblioteca do Correio do Povo”, coleção de livros que reunia os folhetins publicados antes no seu jornal. Os volumes eram de pequeno formato, tipo livro de bolso. Consegui um exemplar dessa coleção: O Chapéu de Três Bicos, por D. Pedro de Alarcon. Apareceu no ano de 1897. a ação do folhetim se desenvolvia na época em que “reinava ainda em Espanha D. Carlos IV de Bourbon, pela graça de Deus, segundo diziam as moedas, e por esquecimento ou graça especial de Bonaparte, segundo os folhetins franceses”. Além dos seus folhetins, o Correio do Povo editou diversos outros livros.

Havia, também, a “Biblioteca d'A Federação”, igualmente formada por folhetins anteriormente publicados pelo jornal, em que pese o rigor doutrinário de Júlio de Castilhos, seu diretor. O volume de que disponho se intitula O Açougueiro de Meudon. É de autoria de Júlio Mary, em tradução de Antenor Soares e foi publicado em 1895. Nesta passagem, temos um pouco da atmosfera do folhetim: “Sobre a estrada dos Príncipes que conduz a Villebon, pequenos veículos baixos levavam ao bosque os habitantes das aldeias espalhadas pelo Meudon. E ao longe, no outeiro de Clamart, elevava-se do meio das árvores uma voz cheia e sonora, cantando a plenos pulmões uma canção popular: 'Eu vou às águas de Zazá'.”

Em época mais recuada a tipografia do Jornal do Comércio publicara alguns livros como Roma Perante o Século, de autoria do notável Karl von Koseritz, lançado em 1871, reunindo os editoriais que o autor escrevera para aquele jornal porto-alegrense “sobre os jesuítas, o dogma da infalibilidade e os papas”. É um dos volumes mais interessantes (e raros) de minha coleção. Diz Koseritz, no prefácio da obra: “Meu fim, ao publicar estes estudos, foi arrancar a venda aos olhos do povo, que vive iludido pelo clero, e permitir-lhe lançar um olhar perscrutador para dentro daquela oficina em que há milênios se forjavam as cadeias da superstição, do prejuízo, do obscurantismo e do atraso intelectual. Quis contribuir com as minhas insignificantes forças para derrubar o fundamento em que Roma assentou o seu edifício do obscurantismo e para consegui-lo tentei provar com fatos históricos e autênticos que a cega fé que o Vaticano exige dos fiéis repousa sobre falsificações e verdadeiros estelionatos religiosos e políticos, sendo explorada a ignorância do povo em exclusivo proveito de ambiciosos clérigos”.

A tipografia de Rodolfo José Machado, estabelecida na Rua da Praia nº 338, merece acurada pesquisa, pois era a que mais se aproximava de uma casa propriamente editora, dedicando-se à publicação de livros didáticos, os melhores da época. Rodolfo José Machado publicou obras que exerceram grande influência na formação das antigas gerações rio-grandenses, como a Seleta em Prosa e Verso, de Alfredo Clemente Pinto; a Aritmética, de Sousa Lobo; a Gramática Portuguesa, de Bibiano de Almeida; a Nova Gramática inglesa, de Frederico Fitzgerald; o Manual de Filosofia, de Joaquim de Sales Torres Homem; A História do Brasil, de João von Franckenberg, etc.

Entre outros livros impressos na histórica tipografia, disponho do Catecismo Constitucional Rio-Grandense, de autoria de Francisco de Paula Lacerda d'Almeida, “advogado nos auditórios da capital e lente catedrático da Escola Normal”. Editada em 1895, essa obra destinava-se a preparar “os colegiais para o pleno exercício dos direitos do cidadão, incutindo-lhes, ao mesmo tempo, plena noção dos respectivos deveres”. Não tenho menor receio de afirmar que se trata de uma obra-prima no gênero.



Capa: Tânia Porcher

Foto: Jorge Rolla

Fonte: Reverbel, Carlos. Barco de papel. Porto Alegre: Editora Globo S.A., 1978, p 121/123.

Rua da Praia, 1978 (Carlos Reverbel)


A melhor coisa que aconteceu ao porto-alegrense, nos últimos anos, foi poder morar em alguns lugares da cidade onde não há necessidade de ir ao centro.

Eu ainda não desfruto dessa bem-aventurança, mas tenho uma vizinha que há 12 anos não precisava aventurar-se até o centro da cidade.

Outro dia, por uma das fatalidades do destino, ela teve de empreender a incruenta jornada. Chegou, viu e fez meia volta volver, retornando, apavorada, ao ponto de partida, o seu ainda pouco conflagrado bairro residencial, onde, por sinal, há de tudo: supermercados, agências bancárias, butiques em profusão, livrarias, consultórios médicos e dentários, salões de beleza, cabeleireiros, cinemas, restaurantes, etc.

Mas, como o assunto que a solicitara ao centro da cidade era relevante, teve de voltar ao local do susto no dia seguinte, já então devidamente prevenida, de ciência própria, a respeito do convulsionado terreno onde, por força de circunstâncias inarredáveis, teria novamente de incursionar, recorrendo, para tanto, às suas escassas mas ainda encontradiças reservas de coragem e decisão, herdadas dos ancestrais farroupilhas.

Para a intrépida operação retorno, providenciou, inicialmente, na mudança da toalete costumeira, passando a envergar, por empréstimo a uma das filhas, um conjuntinho blue jeans, o que se tornou possível porque minha vizinha é uma dessas senhoras que, a partir de um dado momento, pode competir, para todos os efeitos (e até com certas vantagens), com as respectivas filhas. Depois, providenciou no aliciamento de um capanga, convidando-me para o desempenho de honrosa missão. Por via das dúvidas, armei-me de um aparelho de defesa pessoal que os franceses denominam canne-épée.

Quando atingimos as cercanias da Casa Masson (heroica sobrevivente, que nada fica a dever a La Pasionaria, em relação à Guerra Civil Espanhola), ela puxou pela memória, lembrou-se da época em que fazia o footing na Rua da Praia, e desfechou a seguinte pergunta:

- Cadê a Rua da Praia?

- Terminou – foi minha peremptória resposta.

- Como assim?

- A Rua da Praia – esclareci – só vinha conseguindo existir, a duras penas, no livro do Nilo Ruschel. Agora que o livro do Nilo Ruschel terminou, isto é, ficou esgotado, a Rua da Praia também terminou.

- Não haverá jeito duma ressurreição? - voltou a indagar.

- Só falando com o José Otávio e conseguindo-se a reedição do livro do Nilo Ruschel – sugeri, esperançado.

Ficamos conversados, abrindo-se, a seguir, um compasso de espera, em cujo interregno, coisa assim de meia hora, minha vizinha resolveu, satisfatoriamente, seu angustiante problema.

Por ocasião da retirada estratégica, inspirada nas artimanhas do Gen. Koutouzov, ao atrair Napoleão para o interior da Rússia tzarista, assistimos a uma anciã botar a boca no mundo, ao ser despojada da respectiva bolsa, com seus proventos de aposentada do INPS, tendo-lhe sido ministrado, com a devida antecedência, uma espécie de rabo de arraia.

Ao defrontarmos a nova área de lazer, menina dos olhos do prefeito Villela, formada com o fechamento de parte da Avenida Borges de Medeiros, alguns engraxates se encontravam em pé de guerra, investindo uns contra os outros, armados com as competentes caixas de serviço.

Então, convidei-a para demorar-se um pouco mais, na expectativa de novos acontecimentos, pois em geral o ambiente se apresenta bem mais desenvolto e beligerante. Diante de sua recusa, procurei demovê-la, argumentando com Balzac, segundo o qual não é de bom alvitre ficar por fora das coisas de sua cidade.

Fazendo ouvidos moucos, ela limitou-se a apelar para meu cavalheirismo, solicitando que tratasse de completar, o quanto antes, as operações de regresso a seu domicílio. Naturalmente foi feita a sua vontade, mas já então resolvi introduzir, na estratégia de retirada, alguns ardis vulgarizados pelo marechal de campo von Rommel, a popular raposa do deserto.

Ao despedir-se, minha vizinha preveniu que não pretende, mas poderá ter de retornar à Rua da Praia, dentro dos próximos 12 anos, não deixando, então, de recorrer novamente aos meus préstimos.



Capa: Tânia Porcher

Foto: Jorge Rolla

Fonte: Reverbel, Carlos. Barco de papel. Porto Alegre: Editora Globo S.A., 1978, p. 127/129.

Contrabando (Carlos Reverbel)

 

O carrapato como guarda aduaneiro

O estudo que faltava, em torno do contrabando no Rio Grande do Sul, acaba de ser publicado por Guilhermino Cesar. Saiu em diversos números do “Caderno de Sábado”.

Aliás, mestre Guilhermino é useiro e vezeiro na pesquisa de assuntos rio-grandenses que ninguém havia tocado. Ele trouxe das Alterosas a vocação do garimpo, não resistindo ao fascínio da mineração nos nossos arquivos e nas nossas origens.

Sem a contribuição desse providencial mineiro (a exemplo do que já fizera, noutros tempos e noutras circunstâncias, o também mineiro Domingos José de Almeida), o Rio Grande do Sul seria menor.

O folclore do contrabando está repleto de “causos” em que se recorre à “histórica” contravenção, nem sempre para fugir do fisco, mas para evitar a burocracia alfandegária, cambial, veterinária, etc.

Surge, então, a figura um tanto encalistrada do contrabandista produzido pela burocracia, principalmente quando se trata de ovinos, pois a situação muda bastante em relação ao gado vacum.

Além de ser muito mais fácil de carregar, na sua condição de animal quase portátil, a ovelha não está sujeita ao carrapato, praga que vem exercendo, sem que ainda se lhe tenha feito ingressar nos quadros do funcionalismo público, enorme função aduaneira.

Pode-se, mesmo, afirmar com a tranquilidade de quem repete as grandes sentenças axiomáticas, que o carrapato tem sido, através da história, isto é, “no tempo e no vento”, o nosso mais eficiente, prestativo e incorruptível guarda aduaneiro.

A primeira pessoa que me alertou para esse aspecto do folclore do contrabando gaúcho foi meu velho e prezado amigo Francisco Marona, bacharel e fazendeiro, no Alegrete.

Os gados uruguaios, pela simples e boa razão de que lá não existe carrapato, contraem, quando são transferidos para o Rio Grande do Sul, uma doença fatal, chamada vulgarmente “tristeza”, que tem como veículo o carrapato.

Se não fosse o carrapato, já então exercendo as suas funções de guarda aduaneiro, a vizinha república amiga teria sido esvaziada de seu rebanho bovino, tantas vezes quantas o preço do gado esteve mais barato, do outro lado da fronteira, o que no momento não é o caso, mas até pouco tempo o foi, como em inúmeras ocasiões no passado.

Faz exceção, dentro desse quadro, Santa Vitória do Palmar, o único município rio-grandense onde não existe o carrapato, sem mérito algum dos carrapaticidas, pois se deles dependesse a eliminação desse parasito, a situação seria como nos demais municípios: na luta entre carrapato e carrapaticidas aquele que sempre levou a melhor, não pairando dúvidas, nesta altura das hostilidades, sobre a imortalidade do carrapato.

Há sempre um espírito de porco para duvidar da imortalidade da alma, mas nenhum ousou até agora, por mais suinícolas que fossem suas entranhas, duvidar da imortalidade do carrapato no esmeraldino pampa rio-grandense.

Se os campos de Santa Vitória do Palmar pudessem espichar e distender-se, que nem borracha de boa qualidade, talvez tivessem conseguido abrigar toda a população bovina do Uruguai, quando os preços ficam abaixo dos nossos. Isto não foi possível, mas, em compensação, os couros do município são os mais valorizados do estado, pelo fato de nunca terem sido atacados pela voracidade do carrapato.

O contrabando, despojado de sua feição meramente contraventora, é uma “coisa séria”, embora a afirmativa possa causar espécie, dita assim de supetão, parecendo uma espécie de camuflagem para justificar a sua prática, sem dúvida o lado menos significativo do fenômeno, não passando de simples lesão ao fisco, com implicações de natureza coercitiva ou penal, quando muito.

No trabalho referido no início desta arenga, Guilhermino Cesar fez o estudo sociológico do contrabando, cuja ocorrência, ao longo da formação rio-grandense, apresenta inúmeras fontes e indicações do maior interesse econômico-social e, ao mesmo passo, histórico-cultural, como ainda político, notadamente em certo momento da longa e áspera luta pela malograda implantação da Colônia do Sacramento, fundada em 1680, face ao vice-reinado do Rio da Prata.

Assis Brasil, quando desenvolveu a teoria dos vasos comunicantes, a propósito do contrabando que então se fazia (ano de 1908), aconselhava, para evitá-lo, que fossem reduzidas as tarifas alfandegárias e de transporte. “Assim” - concluía o ilustre rio-grandense - “não só evitaremos o contrabando de lá para cá, mas até o poderíamos realizar de cá para lá, se não fosse uma revanche pouco em harmonia com o nosso cavalheirismo nacional”.

Não lhe ocorreu invocar os préstimos aduaneiros do carrapato porque, naquela época, talvez o parasito ainda não tivesse completamente erradicado no Uruguai, o que me parece um assunto a ser estudado.

Como no momento o preço do gado no outro lado da fronteira já anda acima do nosso, o contrabando desapareceu. Em tempos ainda recentes, coisa de três, quatro anos atrás, a primeira providência consistia em evitar-se o contato do gado uruguaio com o solo rio-grandense, para não pegar carrapato, motivo pelo qual a carga bovina vinha, em geral, sobre rodas, desembarcando dos caminhões diretamente nos matadouros, mas, ainda assim, aplicando-se inseticidas ou repelentes antiparasitários no fio do lombo dos animais, por via das dúvidas.

Desse modo, o contrabando ficava reduzido ao gado gordo, com as matrizes conservadas do outro lado, para futuros abastecimentos. Preservava-se, dessa forma, com a colaboração do carrapato, o despovoamento dos campos dos nossos amigos uruguaios, mas ficávamos, para prejuízo dos nossos criadores, com uma safra e uma entressafra encilhadas nas nossas. Entretanto, do ponto de vista estritamente econômico, havia esvaziamento no lado de lá e enriquecimento do lado de cá.

O Ten. Gen. Francisco José de Sousa Soares de Andréa, presidente da Província e comandante das Armas da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, permaneceu pouco tempo na governança, mas deixou, de passagem, alguns dos documentos oficiais mais vivos e ilustrativos daquela época.

Num desses documentos, datado de 1840, quando ia em meio o decênio farroupilha, refere-se ao contrabando de fronteira, querendo fazer verve, como era muito de sua feição espiritual, mas, na verdade, antecipando-se ao advento da aviação comercial, como instrumento de “interiorização” do contrabando. Dizia ele:

Estendam ao longo da linha divisória um exército de mãos dadas, e ainda assim o contrabando há de entrar: o que não passar por entre as pernas dos soldados, passará por cima”.

Hoje em dia, com a revolução dos meios de transporte, o contrabando deixou de ser um fenômeno de fronteira, para assumir proporções nacionais, interiorizando-se a ponto de dispor, inclusive, de aeroportos clandestinos. Não passa, no final das contas, de um dos tantos ramos do gangsterismo moderno, surgindo um pouco por toda parte, até nas esquinas.

O velho contrabando de fronteira, cujo lado humano, impregnado de romântico aventurismo, foi cantado por J. Simões Lopes Neto, não existe mais, tendo desparecido a descendência de Jango Jorge, “um que foi capitão duma maloca de contrabandistas que fez cancha nos banhados do Ibirocaí”. E que “levou a existência inteira a cruzar os campos da fronteira, à luz do sol, no desmaiado da lua, na escuridão das noites, na cerração das madrugadas”. E que “ainda que chovesse reiúnos acolherados ou que ventasse com por alma de padre, nunca errou vau, nunca perdeu atalho, nunca desandou cruzada”. E que “conhecia as querências pelo faro: aqui era o cheiro do açouta-cavalo florescido, lá o dos trevais, o das guabirobas rasteiras, do capim-limão”.



Capa: Tânia Porcher

Foto: Jorge Rolla

Fonte: Reverbel, Carlos. Barco de papel. Porto Alegre: Editora Globo S.A., 1978, p 133/137.

Ramiro Barcelos, o Amaro Juvenal (Carlos Reverbel)

 Nostalgia do lugar-comum

Fui informado de que Maria Helena Martins prepara uma dissertação de mestrado sobre o Antônio Chimango.

O velho Amaro Juvenal, na sua enxuta posteridade, não poderia ter ido parar em melhores mãos. A Maria Helena traz, desde o berço, as chaves do famoso “poemeto campestre”. Vai abrir compartimentos que ninguém, até agora conseguira penetrar. Espero ser dos primeiros a transpô-los, mesmo porque, nesta altura dos acontecimentos, qualquer cochilo nas minhas expectativas poderá coincidir com o chamado desenlace fatal, senão antecipá-lo.

O desenlace fatal ocorreu ontem, a tantas horas, em tal lugar, assim e assado. Era como se fazia os necrológios, antigamente. Por sinal a expressão “desenlace fatal” funcionava muito bem, como, de resto, os demais lugares-comuns que ornamentavam o noticiário de então. O charme do velho jornalismo eram as frases feitas, havendo um chavão para cada situação do cotidiano, assim como para as ocorrências mais escalafobéticas.

Fui procurar esta palavra no “Aurelião”, não a encontrei. Lembro-me, entretanto, de que empreguei muitas vezes, vai para uns quarenta anos. Ela teve regular consumo na gíria daquela época. Mas terminou caindo do galho e depois morrendo, como a camélia. Não chegou, sequer, a ser dicionarizada. Teve o melancólico destino das crianças que morrem pagãs, com o pífio consolo de irem diretamente para o limbo, uma espécie de berçário celestial, com o relógio parado no tempo.

Salvo melhor juízo, tenho para mim que cheguei a adquirir certa desenvoltura no manejo do lugar-comum, assim como no uso e abuso do adjetivo, apesar da lição que recebi (sem aproveitá-la até hoje) de orlando Ribeiro Dantas, por volta de 1936, no Rio de Janeiro.

O Dr. Dantas foi fundado e diretor do Diário de Notícias, jornal que teve o topete de resistir ao DIP e ao Estado Novo. Não escrevia uma linha, sendo, entretanto, um grande diretor de jornal. Talvez tenha sido por isso que passei a defender a tese de que diretor de jornal não deve escrever, bastando saber escolher seus colaboradores. O Dr. Dantas, além de notável administrador, era mestre na arte de escolher. Também era mestre na arte de orientar e fiscalizar o trabalho de sua equipe.

Quando admitia um novo empregado, o Dr. Dantas (aliás, ele não era doutor, mas era assim que a miuçalha do jornal o tratava) dava-se ao trabalho de ler e corrigir a matéria feita pelo “foca”, baixando-a com o seu visto para a oficina, até enquadrá-lo no “espírito da casa”. Lembro-me de que a primeira matéria que lhe entreguei continha esta frase: “o ilustre desembargador baiano”. Ele riscou o adjetivo e me dirigiu a seguinte observação, com certa rispidez: “notícia bem-feita não precisa de adjetivos, o senhor vai deixar de usá-los”.

Naquela época, um dos principais colaboradores do Diário de Notícias era o grande jornalista Lindolfo Collor, que fora diretor de A Federação, órgão do Partido Republicano Rio-Grandense, em cujas colunas aparecia uma escala de adjetivos que dava a cotação dos políticos na bolsa partidária. Quando se juntava ao nome de um jovem prócer o adjetivo futuroso, ficava-se sabendo que ele seria incluído na próxima chapa de candidatos a deputado estadual. O degrau seguinte, na ascensão parlamentar, era a deputação federal, categoria que se fazia acompanhar pelo adjetivo prestigioso. E quando o político chegava ao Senado recebia o tratamento de preclaro.

Na condição de senador, Ramiro Barcelos – o Amaro Juvenal do Antônio Chimango – apareceu muitas vezes nas colunas de A Federação como “nosso preclaro correligionário”. Mas em 1915, quando se deu o rompimento entre Borges de Medeiros e Ramiro Barcelos, este foi estigmatizado com os seguintes adjetivos, devidamente acolherados: “insaciável e incorrigível”.

A dupla adjetivação foi aplicada ao ex-senador no texto de um telegrama de Borges de Medeiros a Pinheiro Machado, ao qual Ramiro Barcelos, já então como Amaro Juvenal, deu esta resposta, na abertura do Antônio Chimango:

Velho gaúcho – Insaciável

De fazer aos mandões guerra,

Nestas páginas encerra

Por um pendor invencível -

Seu amor – Incorrigível

Às tradições desta terra.”



Capa: Tânia Porcher

Foto: Jorge Rolla

Fonte: Reverbel, Carlos. Barco de papel. Porto Alegre: Editora Globo S.A., 1978, p 111/113.

O introdutor da churrascaria (Carlos Reverbel)

 

Em 1974 já havia a crise do petróleo, mas as autoridades brasileiras ainda a ignoravam oficialmente, na esperança, talvez, de que a qualquer momento começasse a chover gasolina, de acordo, aliás, com a inabalável crença nacional de que Deus é nosso patrício.

Com esta pequena arenga inicial, quero dizer que ainda dava para percorrer o País de automóvel, sem necessidade de tirar os olhos da cara, na hora de encher o tanque. Então resolvi aproveitar o baratilho do combustível e realizar a excursão que há anos vinha idealizando, mesmo porque, naquela altura, já me assaltava a desconfiança de que, pelo menos em matéria de petróleo, Deus é mais árabe do que brasileiro.

Devidamente acomodado na garupa dum Fusca, cujo fôlego se equipara ao do cavalo crioulo, fiz mais de quinze mil quilômetros de estrada, a partir de Brasília. Evitando sempre as capitais, geralmente detestáveis, na desordem do nosso crescimento urbano, estive em dezenas de cidadezinhas interioranas, através dos Estados nordestinos e do Brasil Central. Em quase toda parte encontrei churrascarias gaúchas, nem sempre autênticas mas invariavelmente rotuladas como tal.

Aliás, não há necessidade de tamanha viagem para fazer essa constatação. Basta rápido manuseio no Guia Quatro Rodas. Abrindo-se a edição de 1977, verifica-se que, na página 304, aparece uma churrascaria gaúcha situada na cidade de Juazeiro do Norte, terra do Padre Cícero, que, por sinal, mais vivo do que nunca, ainda é o guia espiritual e o chefe político da famosa localidade sertaneja. Tive o grato ensejo de sentir pessoalmente a sua presença em Juazeiro, passando a incluí-lo entre os santos de minha especial devoção, o que me permitiu dispensar, com os mais profundos agradecimentos, os serviços do Padre Reus, cada vez mais sobrecarregado de pedintes.

Embora o churrasco esteja longe de ser uma invenção gaúcha, não passando de milenar costume alimentar dos povos de tradição cultural de origem pastoril, não se pode deixar de reconhecer que a sua propagação, pelo Brasil a fora, se traduz na única contribuição rio-grandense incorporada a culinária nacional.

Pelos meus alfarrábios, o introdutor da churrascaria em Porto Alegre, foi um gaúcho de origem teuta: Alberto Bins. Na qualidade de comissário-geral da Exposição Farroupilha (uma celebração extraordinária, repleta de grandes promoções de vária ordem, inclusive artísticas e culturais, que teve a duração de 30 dias e marcou época na vida porto-alegrense e na administração de Flores da Cunha), o Mal. Alberto Bins teve a ideia de construir uma churrascaria crioula, no recinto do maravilhoso certame, isto em setembro de 1935.

Vieram, depois, as churrascarias comerciais, do tipo que se disseminaria pela cidade, a começar pela Cabana do Santos, no Passo da Areia, seguida pela Santo Antônio, na rua Dr. Timóteo, ambas ainda em funcionamento e promovendo diariamente verdadeiras saturnais de carne bovina.

Por falar em Alberto Bins, figura notável a vários títulos, foi preciso que um schollar norte-americano, o Prof. Joseph L. Love, chamasse atenção para a sua pessoa, apontando-a como “um dos homens mais responsáveis” pelas inovações econômicas que se processaram no Estado e pelas realizações administrativas executadas em Porto Alegre, na sua época, para que nos déssemos conta de que esse é um nome que faz jus a uma boa biografia.



Capa: Tânia Porcher

Foto: Jorge Rolla

Fonte: Reverbel, Carlos. Barco de papel. Porto Alegre: Editora Globo S.A., 1978, p 7/8.

Gíria e jargão (Carlos Reverbel)

 

Nada mais perecível, em matéria de linguagem, do que a gíria. Pouca gente terá lembrança, por exemplo, de que a palavra pacote já significou dinheiro.

Nos bons tempos dos mil-réis, um pacote correspondia a um conto de réis. E era um dinheirão. Com cinco pacotes comprava-se quadra e meia de campo.

Aliás, dinheiro é uma das palavras que figuram no Aurelião com maior número de acepções. Nada menos de setenta, a grande maioria em gíria, o que demonstra o alto apreço e a tocante afeição que o responsável público dispensa ao chamado vil metal. E ali ainda se encontra, embora já esteja morta e enterrada, a expressão pacote significando grana, arame, boró, bagarote, erva, bronze, gaita, massa, níquel, tutu, etc. etc.

Tendo desaparecido do linguajar do povo, na acepção de dinheiro, a palavra pacote também desapareceu do noticiário dos jornais com aquele significado. Mas acaba de voltar, com ímpeto ainda maior, ostentando roupagem bastante sofisticada, de acordo com o seu novo status.

Deixou de fazer parte da gíria, isto é, do zé-povinho, para integrar uma categoria lexicográfica mais exclusiva: o jargão. E foi recebida de braços abertos pelos mais astutos cultores do economês que assola o País.

Passamos assim, da noite para o dia, a ser brindados com pacotes de reformas, pacotes de projetos, pacotes de iniciativas, pacotes de abril, pacotes de providências, pacotes de resoluções, pacotes de decretos, pacotes de portarias e até pacotes de golos, sem dúvida os pacotes de maior impacto entre todos os pacotes.

Por sua vez, o dr. Brossard começou a proferir discursos em pacotes, pois os que tem proferido, ultimamente, não cabem numa única sessão, tendo de ser desdobrados em três, performance que somente o conselheiro Rui Barbosa conseguia realizar, nos seus melhores momentos senatoriais.

Talvez seja uma reação do Legislativo, em pacotes, aos pacotes do Executivo, sem dúvida bem mais ameaçadores, sobretudo quando expedidos pelo serviço de empacotamento das autoridades de área econômico-financeira.

Ainda não dispus de tempo suficiente para empreender a pesquisa, que deve ser objetiva, acurada e isenta, à maneira dos scholars norte-americanos, mas tenho para mim, até segunda ordem, que o introdutor na província de São Pedro da palavra pacote, na sua nova e vitoriosa conotação, foi o dinâmico secretário Mário Ramos, quando andou promovendo pacotes turísticos internos, aliás contra minhas mais arraigadas e definitivas convicções, pois nesta matéria sou mais inclinado para os pacotes turísticos externos, principalmente quando se dirigem a Paris, apesar dos parisienses, gente que nunca foi de meu agrado, nem do José Ronaldo Faleiro mas, em compensação, e encantadora Berenice Otero a adora.

A onda que veio projetar a palavra pacote no jargão do economês, sem dúvida a linguagem mais eloquente do País, nas atuais circunstâncias político-administrativas, chegou em momento oportuníssimo, quiçá, salvador, pois a expressão começara a cair em desuso até mesmo no comércio varejista. Em substituição ao tradicional pacote, as mercadorias passaram a ser metidas dentro de sacolas, quase sempre de matéria plástica, como se sabe um produto dificilmente degradável, logo, antiecológico, logo, antilutzerberguiano, logo, fatal ao gênero humano. E quando acontecem de serem embrulhadas, pelos mais conservadores, diz-se que as mercadorias foram embaladas, não empacotadas, sendo entregues ao freguês na seção de embalagem, não na de empacotamento.

Assim, se não fosse o economês a palavra pacote estaria condenada ao desaparecimento, restando-lhe uma única possibilidade de sobrevida, ainda assim na forma composta: conto do pacote. Aliás, esta expressão idiomática envolve dúvida atroz, pois ainda não se conseguiu definir quem é o maior vigarista no conto do pacote, dividindo-se as opiniões dos exegetas entre o agente e o paciente.



Capa: Tânia Porcher

Foto: Jorge Rolla

Fonte: Reverbel, Carlos. Barco de papel. Porto Alegre: Editora Globo S.A., 1978, p 30/32.

Cada coisa em seu lugar (Carlos Reverbel)

 

Tigre de papel

O principal argumento contra o divórcio fundamentava-se na ideia de que a sua instituição implicaria a dissolução da família. Ora, ao que me consta, a família ainda não terminou em nenhum país (e são quase todos) onde já existia o divórcio.

A decadência do mundo ocidental não se faz sentir somente sobre a família: atinge a sociedade como um todo. E não deixa de ser profundamente significativo que isto esteja acontecendo depois de dois mil anos de vigência da chamada civilização cristã…

Ao longo das discussões sobre o divórcio, consegui reunir elementos que me permitiram identificar um tipo muito ilustrativo de antidivorcista. Refiro-me aos indivíduos que, já tendo algumas ligações irregulares, sempre aceitas pelo café society, argumentavam que, com a instituição do divórcio, isto deveria tornar-se mais difícil, pois desapareceria o impedimento que não permitia a legalização de tais uniões.

A propósito, ouvi mais de uma vez a seguinte afirmação, geralmente proferida por gente fina: “como sou a favor da amigação, não posso deixar de ser contra o divórcio.” Outros diziam a mesma coisa, mudando apenas as palavras: “como sou contra o casamento, também sou contra o divórcio”.

Felizmente, o número de antidivorcistas dessa espécie (a verdadeira desagregadora da família) não foi suficiente para decidir a questão a seu favor…

Houve, entretanto, grande número de inocentes úteis que, embora por motivos tão diferentes quanto bem-intencionados, colaboraram bastante no mesmo sentido desagregador. Entre eles, os três ilustres senadores pelo Rio Grande do Sul. Aliás, pouco faltou para que a nossa representação na Câmara Alta fosse a única a votar, em massa, contra a instituição do divórcio, divorciando-se, assim, da maior parte de seu eleitorado.

Durante o período de mais de vinte anos em que a emenda divorcista esteve em discussão no Congresso Nacional, o único Presidente da República que se manteve isento e equidistante, em relação ao problema, foi o Gen. Geisel.

O atual presidente não exerceu qualquer espécie de pressão, quando a matéria foi discutida e votada pelo Congresso, pela simples e boa razão de que, sendo um homem de convicções, não iria barganhar politicamente em torno da questão, como outros o fizeram.

Subsidiariamente, a instituição do divórcio prestou um grande serviço ao País e, em escala ainda maior, à própria Igreja Católica, pois veio demonstrar que, ao atravessar os umbrais do templo, vindo para a rua tomar partido em questões profanas, como são as de Direito Civil ou, então, as de política partidária, o clero fica exposto a fazer as vezes de tigre de papel, como acaba de acontecer, nas circunstâncias que cercaram a consagração familiar da emenda divorcista.

Por sua vez, o grande líder da campanha pelo divórcio, senador Nelson Carneiro, ao convidar a Igreja Católica a colaborar, no sentido da boa regulamentação da matéria, visando, precisamente, preservar a família, não desagradá-la, deu mostras de largueza de vistas e superioridade de princípios com que sempre se conduziu, ao longo de mais de vinte anos, na luta pela implantação de sua tese.

A luta pela instituição do divórcio não era uma questão política. Entretanto, nela se engajando politicamente, a Igreja Católica terminou sofrendo, sem a menor necessidade, uma derrota política. E fez com que terminasse o tabu de que pode dispor à vontade do povo brasileiro, tanto dentro, como fora dos templos, tanto em capítulo de fé, como em matéria profana.

Como dizia um sábio da Umbanda, a melhor filosofia, em matéria de religião e política, é a do velho ditado: um lugar pra cada coisa e cada coisa em seu lugar.



Capa: Tânia Porcher

Foto: Jorge Rolla

Fonte: Reverbel, Carlos. Barco de papel. Porto Alegre: Editora Globo S.A., 1978, p 9/11.


Política agrícola (Carlos Reverbel)

 

A soja, essa criminosa


Pelo que me foi dado apreender, na leitura de uma correspondência de Brasília para a imprensa local, não tarda o momento em que a soja irá parar no banco dos réus, acusada de subversão ou, talvez, de terrorismo, o que seria ainda pior.

Tive um amigo espanhol que atribuía ao Papa tudo quanto acontecia de catastrófico neste mundo de Deus. A gente nem bem terminava de contar uma dessas histórias de arrepiar os cabelos e ele já apontava o principal responsável, sempre na mesma frase, incisiva e cortante: foi o Papa.

Estou receoso de que o mesmo irracionalismo venha colocar a soja no lugar do Papa, dando ensejo a uma obsessão muito mais doentia, pois o que não passava do estribilho monocórdio de um único indivíduo, anarco-sindicalista mas inofensivo, periga transformar-se no coro orfeônico com que inúmeras pessoas, bem intencionadas, mas mal-avisadas, poderão prejudicar ainda mais a economia agrícola do Estado.

O feijão desapareceu: foi a soja. Não há leite: foi a soja. Vai faltar arroz: foi a soja. As coisas estão se encaminhando para isso. E não estamos livres de a qualquer momento o verbo de Gaspar Martins baixar sobre algum orador em transe mediúnico, levando a bradar num terreiro de Umbanda que a soja é a oitava praga do Egito.

Não se pode, entretanto, deixar de reconhecer que nos encaminhamos, arriscadamente, para a monocultura da soja e que isto é um perigo, como todo o mundo está farto de saber. Mas não aconteceu por acaso. Aconteceu simplesmente em razão de desacertos cometidos pelos autores da política agrícola brasileira, em que, entre outros quiproquós, o Ministro da Agricultura manda e o Ministro da Fazenda desmanda. Se a soja (pelo menos no Rio Grande do Sul) é o único produto que proporciona alta rentabilidade, como podem esperar que a “companheirada” vá plantar batatas?

Não foi por culpa dos plantadores, e ainda menos da providencial soja, que se criou esta desequilibrada realidade agrícola. Como o leiloeiro só bate o martelo ao maior lance, a turma que acredita no trabalho, seja ele agrícola ou não, só dá murros e sua a camiseta quando o negócio vale a pena.

A função de uma nova política agrícola, de que precisamos urgentemente, não há de ser estragar o negócio da soja, mas fazer com que outros negócios rurais se tornem razoavelmente lucrativos, sem dúvida a única forma de evitar-se a sojicracia.

Há pessoas em revoada pelos céus do País com a incumbência de resolver tais problemas, não me cabendo, como aos demais 100 milhões de brasileiros, outro papel senão botar a boca no mundo, pois elas têm a obrigação de saber, com a sua alta tecnologia, o que precisa ser feito para colocar tudo nos devidos lugares. Foram escolhidas e chamadas para isso, com mordomia ainda por cima.

Uma agricultura como a nossa, aqui no Rio Grande, em que só a lavoura de soja prospera, tornou-se capenga, andando numa perna só, por artes de Saci Pererê. E não há de ser esvaziando o saco de soja que se conseguirá encher o saco de outros grãos, salvo se ocorrer um grande milagre genético, com a ajuda do Arquiteto do Universo, plantando-se feijão-soja e colhendo-se feijão-preto, por exemplo.

A monocultura não é um crime dos que a praticam: é um erro de política agrícola.

Entretanto, caso a economia agrícola rio-grandense venha a sofrer um colapso, em razão da possível frustração de uma safra de soja, quer na lavoura, quer no mercado externo, é bem possível que todas as responsabilidades sejam transferidas para as largas e oleaginosas costas da própria soja, essa criminosa.

O confisco cambial talvez já seja uma penalidade, imposta por antecipação.



Capa: Tânia Porcher

Foto: Jorge Rolla

Fonte: Reverbel, Carlos. Barco de papel. Porto Alegre: Editora Globo S.A., 1978, p 33/35.

Gasparinho (Carlos Reverbel)

 

Meu velho amigo Horizonte Furtado faz parte do concílio ecumênico de aposentados que se reúne na Praça da Alfândega. Encontrei-o, um dia desses, naquela área de lazer (e assaltos) um pouco fora de seu natural.

Homem comedido, de pouca fala e, frequentemente ungido de conformidade lastimosa, estava possuído de irreconhecível incontinência verbal, procedendo como se fosse um boquirroto contumaz.

Corria perigo de enveredar pelos caminhos resvaladiços da oposição, quando não da própria contestação ao regime.

Aproximei-me do velho amigo e de sua turma, em que figuram três grandes assaltos e cinco assaltos leves, sobrando, apenas um ancião em estado de incolumidade temporária, exatamente no momento em que ele reivindicava para o obscuro cidadão mineiro que inventou o depósito compulsório de dois cruzeiros por litro de gasolina consumido a glória de ter seu nome associado à genial criação.

Por que simoneta” - interrogava Horizonte - “se o inventor da mágica é um popular das Alterosas? Trata-se, além do mais, de uma invenção de que não existe similar em parte alguma. Talvez seja a primeira ideia, de feição absolutamente original, jamais cogitada para a administração do País. Mais uma razão para que se faça justiça ao seu legítimo criador que, ainda por cima, teve o patriotismo de cedê-la ao Governo, de mão beijada, sem exigir royalties nem direitos autorais”.

Não se pode deixar de concordar com o inusitado assomo do novel porém eloquente leguleio. Não se pode, igualmente, deixar de concordar com a argumentação que ele passou a desenvolver, acrescentando, a seguir:

De Gaspar Silveira Martins ficou, principalmente, o derivado gasparinho, isto é, a fração, o décimo ou vigésimo dos bilhetes da loteria. Embora a expressão já ande um pouco em desuso, circulando, apenas, entre macróbios, sobretudo no Rio de Janeiro, ela ainda não recebeu atestado de óbito, como arcaísmo, por parte de nossos dicionaristas, tendo sido embalsamada por Laudelino Freire, Aurélio Buarque de Holanda, Francisco Fernandes e outras autoridades.”

Sempre com a palavra e não confiando nas reminiscências históricas de seu pequeno mas seleto auditório, Horizonte Furtado houve por bem ministrar, em continuação, a seguinte aula sobre os bons tempos de D. Pedro II, com o que reavivou seus pruridos antirrepublicanos (o que já seria outra história, segundo Rudyard Kipling):

A loteria da época andava padecendo de grandes encalhes porque os bilhetes eram unitários, somente podendo ser vendidos inteiros, como a palavra está dizendo, mas sinto-me no dever de trocar a coisa em miúdos, por via das dúvidas. Como superar a grave crise lotérica, numa época de tinideira geral bastante parecida com a nossa, se poucos, muito poucos tinham o privilégio de arriscar bilhetes inteiros? Foi quando o conselheiro Gaspar Silveira Martins, Ministro da Fazenda no gabinete do também conselheiro João Luís Vieira Cansansão de Sinimbu, formado pelo Partido Liberal a 5 de janeiro de 1878, teve a providencial ideia de fracionar os bilhetes de loteria, passando a oferecê-los a retalho, ou seja, em pedaços, cujos décimos ou vigésimos logo receberiam o apelido de gasparinhos.”

Feita a erudita exposição, ele assim concluiu:

Tendo sido o próprio Gaspar Silveira Martins o autor da ideia salvadora, nada mais justo do que as frações lotéricas por ele criadas assumirem a sua legítima filiação. Embora tenha prestado grandes serviços ao País (dos quais ninguém se lembra, salvo o Dr. Gaspar de Moraes Fernandes), foi graças aos gasparinhos que o famoso tribuno terminou sendo dicionarizado, o que não deixa de ser uma porta estreita e difícil para se ingressar na posteridade, mesmo, indiretamente. Ao fracionar os bilhetes de loteria o grande orador pretendia, apenas, aumentar os recursos do erário, não perpetuar-se como verbete de dicionário, através de palavra derivada de seu nome, aliás já glorioso na época”.

Nesta altura, Horizonte Furtado assumiu (para surpresa geral) outra atitude inabitual, tornando-se francamente futurologista, ao afirmar que “o Ministro da Fazenda também entrará para a posteridade dos dicionários, mas de carona, pois a invenção das simonetas (aliás, malogradas) não lhe pertence.”

E rematou, de forma melancólica, embora um tanto cabalística:

Como eram diferentes os homens sob o reinado do Sr. D. Pedro II!”



Capa: Tânia Porcher

Foto: Jorge Rolla

Fonte: Reverbel, Carlos. Barco de papel. Porto Alegre: Editora Globo S.A., 1978, p 54/56.

Gaspar Silveira Martins em dois atos (Carlos Reverbel)

 

Autocrítica

Tendo eu afirmado, nesta coluna, com excessiva desenvoltura, que “de Gaspar Silveira Martins ficara, principalmente, o derivado gasparinho”, forma-me dirigidos diversos reparos amigáveis, tanto por via telefônica, como de viva voz.

Não posso deixar de acatá-los, mesmo porque, submetendo-os à minha autocrítica, logo cheguei à conclusão de que eram procedentes, o que vem a demonstrar, como sempre, aliás, que este método, praticado largamente pelos marxistas, só pode melhorar as pessoas e instituições, sendo lamentável que os homens de 64 jamais o tenham cultivado, terminando autoconvencidos de que fizeram uma revolução em que só houve acertos, motivo por que foi decretado que tudo vai bem, obrigado.

Por incrível que possa parecer, o invulgar e tempestuoso tribuno do século passado ainda dispõe de numerosos e fiéis cultores de sua memória, o que, afinal de contas, pode ser anacrônico, senão fantasmagórico, mas não deixa de revelar palpitações de um passado rio-grandense repleto de valores, alguns talvez merecendo o milagre da ressurreição.

Em homenagem aos amigos que colaboraram com seus reparos e em atenção ao prezado Dr. Gaspar de Moraes Fernandes, passarei a evocar dois momentos da ação político-administrativa de Gaspar Silveira Martins, um acontecido já na Corte, o outro ainda na Província. O primeiro remonta a 1878, ano em que ele integrou o Gabinete Sinimbu, como Ministro da Fazenda.

Ao assumir suas funções, num momento de grave crise, Gaspar Silveira Martins começou recorrendo ao que hoje se classificaria, com um pouco de boa vontade, como ”revolução cultural” ou “revolução dentro da revolução”, único procedimento (em que os marxistas são mestres) capaz de limpar o terreno para que se possa dar continuidade a qualquer programa de renovação político-administrativa, pois chega fatalmente um momento em que a máquina estatal fica esclerosada ou se corrompe, tendo de ser sacudida e expurgada, de alto a baixo.

Foi o que ele fez, no Gabinete Sinimbu, promovendo completo saneamento nos quadros e profunda modificação na burocracia do Ministério da Fazenda, com demissão dos relapsos e incapazes e dinamização dos serviços, o que lhe permitiu, inclusive, dar andamento às obras da estrada de ferro Bagé-Rio Grande, que haviam emperrado. Talvez interrogado, numa sessão espírita, Gaspar Silveira Martins pudesse transmitir as dicas de que carecemos para colocar certas coisas nos devidos lugares…

O outro episódio, ocorrido na capital da então Província de São Pedro, me foi transmitido por Zeferino Brasil, na última entrevista que ele concederia, pois foi publicada na edição da Folha da Tarde de 27 de janeiro de 1942 e o grande poeta veio a falecer no dia 3 de outubro do mesmo ano, não tendo concedido, nesse espaço de tempo, nenhuma entrevista.

Como meu objetivo, ao entrevistá-lo naquela ocasião, era captar os momentos marcantes de sua vida, perguntei-lhe como havia ingressado no funcionalismo público, seu principal, senão único meio de subsistência, pois pouco ou nada ganhara como poeta e muito pouco como jornalista. A resposta de Zeferino Brasil foi um tanto estirada, mas vale a pena ser reproduzida, pois ilustra, com grandeza, os costumes administrativos de uma época e a correção de um homem de Estado. Contou-me, então, o velho poeta:

Ingressei no funcionalismo de maneira muito fácil. Basta dizer que, em 1889, um diretor-geral que não me conhecia e que eu abordei em plena Praça da Matriz, quando ele, encerado o expediente, se encaminhava para o Palácio do Governo, onde ia conferenciar com o Presidente da Província, ao ver-me desolado só por aquela hora ter arranjado todos os documentos de que necessitava para instruir meu requerimento de inscrição no concurso que ia realizar-se no dia seguinte na sua repartição, foi tão bondoso que voltou e mandou reabri-la, para receber meus papéis. Fiz o concurso e fui classificado. Quatro dias após, o Presidente da Província, ao examinar as classificações do concurso, perguntou ao diretor de seu gabinete quem era eu. Este respondeu que não sabia e o presidente retrucou:

'Mas é preciso saber. Ele está bem classificado, o lugar é dele. Indague, descubra-o, mande-o vir à minha presença'.

Pergunta daqui, pergunta dali, descobriram ser eu aluno da escola Normal e mandaram chamar-me. Atendi, é claro. Levaram-me à presença do presidente. S. Exª recebeu-me, submetendo-me a verdadeiro teste, como se diz atualmente. Deu-me, depois, úteis conselhos sobre a vida que eu iria iniciar, como funcionário público. No dia seguinte, entrei no exercício do cargo. Foi assim. Facílimo, não?

Ah! Não se esqueça; o chefe que mandou abrir a repartição, para receber o mu requerimento, permitindo-me, com esse gesto, o comparecimento ao concurso, era o Diretor-Geral da Fazenda Provincial, o austero rio-grandense Justo de Azambuja Rangel, e o Presidente da Província que, ao examinar a classificação do concurso, disse que o lugar era meu e mandou-me procurar por toda a cidade e indagar quem eu era, porque ninguém me conhecia, chamava-se Gaspar Silveira Martins.”



Capa: Tânia Porcher

Foto: Jorge Rolla

Fonte: Reverbel, Carlos. Barco de papel. Porto Alegre: Editora Globo S.A., 1978, p 57/59.

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